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terça-feira, fevereiro 28, 2012

A carestia da electricidade e a fuga da indústria alemã

O conhecido periódico alemão Der Spiegel publicou sexta-feira passada um artigo sobre as consequências para a indústria germânica da decisão do seu Governo, tomada na passada Primavera com o susto de Fukushima, de vir a fechar os reactores nucleares que produzem 20% da electricidade do país (e que, dado o baixo custo da electricidade que produzem, arcam com uma taxa especial para subsidiar as renováveis alemãs).
Segundo as previsões alemãs, esse encerramento das centrais nucleares alemãs implicará um aumento de 20% do custo da electricidade no país, já um dos mais altos da Europa e no Mundo.

Particularmente afectadas serão as indústrias metalúrgicas e em especial as siderurgias, tendo-se já assistido há duas semanas à venda para encerramento da siderurgia Krefeld da ThyssenKrupp, acarretando o despedimento dos seus 400 trabalhadores, ao mesmo tempo que a Administração da empresa avisa que estão em risco 5 mil empregos.
Segundo o Presidente da Câmara de Comércio e Indústria alemã, "The energy supply is now "the top risk for Germany as a location for business," ". Além do problema dos seus elevados custos, também a qualidade da electricidade tem piorado com a crescente dependência das renováveis intermitentes, com um crescendo de cavas e de tremulações de tensão que têm causado lagos prejuízos às sensíveis indústrias pesadas.
De um modo geral, estes factos justificam a esperada deslocalização de grande parte destas indústrias para países de energia mais barata, nomeadamente no leste europeu.
Por outro lado, e apesar das promessas de muitos novos empregos a criar pela "economia verde" das renováveis intermitentes, a realidade recente aponta para uma crise nesses sectores.

Enquanto, nos EUA, 2011 assistiu à falência das altamente subsidiadas Solyndra e Evergreen Solar, a campeã alemã Q-cells está em "reestruturação de dívida", e a recente redução em 30% das tarifas fotovoltaicas pelo Governo alemão suscitou ruidosos protestos do respectivo lobby, mas o facto é que, como em Espanha, o Governo alemão constatou que a um investimento duplo do esperado nessa electricidade (com a correspondente duplicação dos encargos tarifários), não correspondeu uma maior competitividade dos fabricantes alemães, esmagados, como os americanos e espanhóis, pela concorrência chinesa.
Mas também a indústria europeia de aerogeradores vê as suas margens esmagadas e reduz pessoal. A nível mundial, em 2010 as vendas caíram para os níveis de 2007, acusando as dificuldades de obtenção do financiamento que a sua intensidade de capital exige, e os muito prometidos imensos empregos tornaram-se negativos (na figura seguinte, evolução do emprego eólico nos EUA, de 2007 a 2010).
Não parece que a "economia verde" consiga substituir os empregos que destrói com os altos custos que a sua energia comporta. Confirmando o que em tempos prevíramos...

quinta-feira, fevereiro 16, 2012

O insustentável custo da energia - 2ª nota

No Prós e Contras do passado dia 13, a argumentação do Eng.º Carlos Pimenta em defesa da política seguida pelos Governos socialistas no domínio da energia eólica assentou em 3 pilares principais: o de que esta aposta libertava o país da dependência do petróleoo de que criara um "cluster" industrial que estaria a exportar "milhares de MW para todo o Mundo, da Europa à África", com "95% de incorporação nacional", e o de que esta energia seria barata.
Relativamente ao primeiro argumento, ele tem sido repetidamente desmistificado neste blogue, e foi também objecto da minha 1ª nota sobre este Prós e Contras: não há nenhuma relação entre independência do petróleo e electricidade de fontes renováveis (a não ser alguma coisa nas ilhas, o que tem um impacto nacional insignificante).
Relativamente ao "cluster" industrial, porém, o assunto merece uma nota extra.
Em Setembro de 2009, há 2 anos e meio, pela primeira vez abordei neste blogue o anunciado "cluster eólico nacional", tendo escrito:

"...Todo o trabalho de I&D nas tecnologias de turbinas eólicas que conduziu, ao fim de 70 anos, à maturidade que a geração eólica tinha atingido por volta de 1994, passou ao largo de Portugal.
Portugal acordou para a energia eólica no Governo de Guterres, em 2001, com o Prof. Oliveira Fernandes da FEUP, mas acordou apenas... como consumidor! E nisto é que, de facto, fomos pioneiros e somos líderes mundiais.
De facto, todos os outros países, sem excepção, que apostaram na instalação e consumo de energia eólica tinham previamente desenvolvido uma indústria de turbinas com tecnologia própria, como historiei, e os que não tinham ou têm essa indústria e tecnologia nacionais têm continuado no grosso do pelotão, tentando ficar o mais possível na rectaguarda sem dar nas vistas - como é o caso da Suécia, Noruega, Finlândia, Bélgica, Holanda, Polónia, Bulgária, Roménia, República checa, Eslováquia, Itália, Suíça ou França! E isto para só falar da Europa, a campeã de Kioto e das renováveis...!
Os casos mais paradigmáticos de como se atrasou a adesão ao consumo de energia eólica para dar tempo primeiro ao desenvolvimento interno de tecnologia própria e indústria nacionais de turbinas foram, sem dúvida, a China e os EUA, como historiei, e cuja abertura às importações visa pressionar os actores nacionais para a evolução tecnológica, mas sem que percam o controlo sobre os respectivos mercados. Além da China que, como mostrei, exige 70% de incorporação chinesa nas turbinas instaladas (começou por só exigir 57%...), também os EUA dão incentivos na forma de créditos fiscais à fabricação feita no seu país. Nenhum país, repito, nenhum excepto Portugal, permitiu a inundação do seu mercado de geração de electricidade por equipamentos importados de energia renovável subsidiada sem criação de qualquer emprego industrial no país!
De 2001 até ao presente (2009), e sobretudo desde 2003, a importação e instalação de turbinas eólicas foi fulgurante. Em Junho passado estavam instalados 3335 MW de turbinas eólicas, e até ao final do ano a DGEG espera ter a instalação de um total de 3800 MW, ..., num investimento que se pode estimar em 4,2 biliões de €, dos quais uns 3 em equipamento importado e o restante em trabalhos de instalação - sem mencionar os investimentos que a EDP e a REN tiveram de fazer para ampliar as redes de forma a integrar essa energia! ...
Ou seja, o mercado nacional para turbinas eólicas aproxima-se muito rapidamente do esgotamento. Que empregos, portanto, poderão vir a ser agora criados pela energia eólica em Portugal?
...

A questão que se coloca é como se poderá sustentar tal "cluster industrial", uma vez esgotado (em breve) o mercado nacional, que apenas acrescente o valor da mão de obra nas partes cujo fabrico não pode ser robotizado e que, ... não constituirá mais de 15-20% do valor da turbina, considerando que:
  1. Como Portugal não tem qualquer know-how no assunto, está completamente dependente da Enercon;
  2. Os custos de transporte das turbinas eólicas é tremendo, dada a sua dimensão, o que recomenda fortemente a fabricação local nos mercados de exportação;
  3. Os maiores mercados emergentes, os dos EUA e da China, subsidiam ou impõem a fabricação local, o que se soma à redução dos custos de transporte;
  4. Os mercados próximos, europeus, ou estão perto do esgotamento, ou protegem os seus fabricantes nacionais.
De tudo o que foi exposto, não se vislumbram razões para acreditar que estas fábricas sobrevivam ao esgotamento do mercado nacional das eólicas. Não têm condições de sobrevivência. Não se trata de uma indústria como a de automóveis da Auto-Europa onde existe um mercado relativamente estável; o mercado destas fábricas é um mercado em explosão, mas que na Europa está já quase esgotado. Que ficará praticamente esgotado em Portugal muito em breve.
Na verdade, face aos 4 biliões de € totais que terão rendido aos fabricantes estrangeiros o investimento português em energia eólica, gastar 2,7% disso numa acção de promoção política pedida pelo governo português para fazer umas fábricas que são para fechar poucos anos depois, não parece grande comissão."
Dois anos e meio depois deste escrito, e depois de se terem alardeado "36 mil empregos criados em Portugal", vejamos melhor o que o tempo clarificou sobre o assunto.

A ENEOP - Eólicas de Portugal, foi um consórcio criado em 2005 para concorrer ao licenciamento de um enorme volume de 1800 MW de potência eólica a atribuir em 2006, tendo a EDP como um dos dois principais accionistas (40%), uma congénere espanhola, mais alguns investidores financeiros e o fabricante alemão ENERCON. A ENEOP ganhou 1200 MW no concurso e, no seguimento, foi constituída uma parceria público-privada (PPP), analisada nesta tese de Mestrado, que levou a ENEOP a criar duas empresas subordinadas: a ENEOP 2 - exploração de parques eólicos SA, visando a instalação e exploração de parques eólicos, e a ENEOP 3 - desenvolvimento de projecto industrial SA, que é a que instalaria e exploraria o "cluster industrial" a criar.
O consórcio mantém hoje em dia a participação dominante da EDP com 40%, mas o restante capital está distribuído pela ENEL Green de Espanha (agora equiparada, com outros 40%), um grupo financeiro (CENERG) dominado pelo empresário Carlos Monjardino, e apenas 10% pelo industrial propriamente dito, a ENERCON alemã (en passant, note-se que na Alemanha o negócio de renováveis remuneradas com tarifas fixas - feed-in - é vedado às empresas de electricidade com responsabilidades de serviço público como a EDP...)
Embora o objectivo da ENEOP 3 seja um "projecto industrial", é de realçar que:
a) O investimento de capital próprio pelas partes foi apenas de 15% dos 1700 milhões de € alegados, de que 174 milhões se destinaram propriamente à fábrica, sendo o restante financiamento da construção dos 1200 MW de turbinas - 85% deste investimento foi obtido por endividamento externo;
b) Não se trata de uma fábrica da ENERCON alemã, que apenas investiu 10% dos referidos 15% de capitais próprios do projecto - trata-se de uma fábrica essencialmente da EDP e de uma congénere espanhola; deste modo, não há nenhum compromisso de inserção da fábrica na estratégia internacional da ENERCON, que presentemente detém 7,5% de quota de mercado mundial mas 60% do mercado alemão.
c) Embora nacional, considerando a sua localização e proprietários, a fábrica não visou fabricar aerogeradores portugueses (inexistentes), mas apenas montar o modelo E-82 da ENERCON, seguindo fielmente os "modos operatórios" por esta fornecidos para o fabrico.
d) O propósito da ENEOP 3 foi, desde o início, o fornecimento dos 1200 MW ganhos no concurso de 2006, e que garantiram aos seus accionistas o monopólio de instalação de aerogeradores em Portugal por largos anos. Propósitos exportadores foram definidos para depois disso, 2014, numa proporção de 60% das vendas.

É possível que a ENEOP tenha já exportado aerogeradores, mas quantos? Infelizmente não se revela possivel obter acesso aos relatórios e contas da empresa... porém, é possível por via indirecta estimar quantos aerogeradores terão já sido aproximadamente construídos e a ordem de grandeza das exportações.
Com efeito, informações diversas oriundas da própria empresa mostram que embora a capacidade máxima de produção prevista seja de 250 aerogeradores por ano (500 MW, com a E-82) no início de 2010 havia queixas de que a capacidade conseguida se limitava a 150, enquanto mais recentemente (Setembro de 2011) a produção de cruzeiro era quantificada em 200/ano. Nesta mesma ocasião a ENEOP 3 anunciava ter ligado à rede 816 MW, o que totaliza 408 aerogeradores do modelo E-82 da ENERCON.
Ora um ano antes, a 28 de Setembro de 2010, a mesma fonte da ENEOP 3 em conjunto com a CEO da EDP-Renováveis, assistiam à instalação em Portugal da 1000ª turbina da ENEOP, segundo o Expresso; como terá sido possível à ENEOP anunciar a inauguração do seu 1000º aerogerador instalado em Setembro de 2010, se só começou a produzir em 2009 e apenas ao ritmo de 150-200 por ano e se só um ano depois haviam sido ligados 408 aerogeradores?


Notando, de caminho, que uma fonte interna da ENEOP notara à LUSA que, daqueles 1000 aerogeradores, "muitos já tinham sido fabricados em Viana do Castelo" (muitos, não todos...), permanece a interrogação sobre onde terá nascido aquele número. Ora o INEGI publica anualmente estatísticas sobre a energia eólica em Portugal que permitem verificar o seguinte:
  • No fim de 2008, pouco antes do ENEOP 3 ter começado a produzir, a ENERCON alemã (e não a ENEOP "portuguesa") já vendera em Portugal 1272 MW de aerogeradores, cerca de 750 a 800 deles, detendo então 45% do nosso mercado. Boa parte destas máquinas já era de 2 MW, mas muitas das mais antigas seriam de potência inferior, nomeadamente o modelo E-40, de 0,66 MW.
  • Em 2009 e até à saída da fábrica da ENEOP 3 do 1000º aerogerador da marca ENERCON instalado em Portugal, em 2010, esta não pode ter construído mais de 200 a 250 aerogeradores.
Por conseguinte, a notícia do Expresso foi mistificadora, ao criar a ilusão de que em Portugal já haviam sido construídos um milhar de aerogeradores, quando desse milhar não mais de 200 a 250 o terá sido - ficando por entender o motivo da comemoração pela EDP-R do sucesso de um fabricante alemão que fornecera boa parte desses aerogeradores antes até da ENEOP existir, quanto mais da sua fábrica (sua, da EDP) ter começado a produzir os modelos daquela marca...!
Em todo o caso, é fácil de estimar que, posteriormente e até ao fim de 2011, a fábrica da ENEOP 3 não pode ter construído mais de 500 a 550 aerogeradores. Dado que uns 500 terão sido instalados em Portugal (408 estavam já "ligados à rede" em Setembro), o que abrange a prática totalidade da capacidade de produção da fábrica, as suas exportações não podem ter ultrapassado algumas dezenas de MW (e não os "milhares" alegados pelo Eng. Carlos Pimenta no Prós e Contras)!...
Naturalmente, a suspensão de novos contratos em Portugal e Espanha, que agora se verifica, coloca problemas à ENEOP, mas as maiores dificuldades que esta enfrenta serão as de financiamento, já que a PPP que Prof. Peças Lopes desenhou para a ENEOP lhe garantem, em princípio, ainda um par de anos de mercado português, até esgotar o fornecimento dos 1200 MW.
Certos mercados europeus têm adquirido pequenas quantidades de aerogeradores, em encomendas da ordem de grandeza das dezenas de MW como aquelas para as quais a ENEOP 3 está dimensionada: são os casos da Polónia, Roménia e França, por exemplo.
Porém, a pequena participação da ENERCON na ENEOP liberta-a, como disse atrás, de qualquer estratégia de privilégio desta no que respeita ao acesso a esses mercados, considerando que a sua fábrica alemã está mais próxima do leste que Viana do Castelo, e a que há que atender que a maioria dos países exige o que nós não exigimos quando devíamos - o fabrico local. Acontece que muito recentemente a ENERCON alemã anunciou uma fábrica de torres para os seus aerogeradores em França, um dos mercados europeus em crescimento, ao mesmo tempo que noticia que tem fornecido a França a partir da fábrica na Alemanha.
Por outro lado a EDP, nos mercados externos, olha sobretudo à conveniência financeira, tendo não só preferido à ENEOP a Vestas para as instalações que promove nos EUA, como a GE para instalações tanto nos EUA como na própria Europa. Até 2010 o aproveitamento pela EDP das turbinas de Viana do Castelo para o mercado americano era mesmo impossível, como já em tempos esclareci, devido a uma disputa de patentes e alegada espionagem industrial que vedou o mercado americano à ENERCON até esse ano, precisamente. Esta guerra de patentes, de resto, mostra como a "transferência de tecnologia" esperada da ENERCON pelos negociadores portugueses da PPP que a privilegiou só pode ter sido ingenuidade infantil!...
A tudo isto acresce, no rol de dificuldades, a total dependência do modelo E-82 da ENERCON, em vias de obsolescência, tanto técnica como comercial (os últimos leilões de eólicas no Brasil demonstram ser possível obter já, no mercado mundial, aerogeradores a 85% do custo actual da E-82, para potência equivalente). Não admira, por isso, que o lobby associado a este projecto procure manter o consumidor português a abastecer-se cada vez mais de eólico-electricidade sem alteração tarifária...
Com as sombras que se avolumam no horizonte da ENEOP 3, os que maiores riscos correm são os seus trabalhadores. Números recentemente disponibilizados no site da empresa dão conta do real número de empregos criados.
Extrapolando do modelo económico alemão que calculou o multiplicador de 4/3 para cada emprego directo criado na indústria eólica, aos 1386 trabalhadores da fábrica da ENEOP 3 poderão corresponder uns 1848 trabalhadores indirectos. Destes, 545 estão já considerados no "cluster", pelo que poderão estar em risco mais uns 1300, totalizando 3200 trabalhadores - fora, claro, os das instalações de novos parques, nomeadamente da ENEOP 2 (estes serão poucos, segundo um relatório do accionista CENERG, onde se dá conta de que é a EDP-R quem fornece o apoio técnico).
3200 trabalhadores são muitas bocas, embora longe dos "36 mil empregos" em tempos anunciados pelo CEO da ENEOP 3.
Ficou também esclarecido, espero, em que consistem os "milhares de MW exportados pelo cluster industrial nacional para todo o Mundo" de que o Eng.º Carlos Pimenta falava...
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Nota (em 17-2-2012): na versão inicial deste post atribuí à ENEOP os 1800 MW que no total estiveram em concurso, mas de facto a empresa só obteve a concessão de 1200 MW desse volume, o que corrigi posteriormente.

quarta-feira, fevereiro 15, 2012

O Insustentável custo da energia - 1ª nota

Como sabem alguns, na passada segunda-feira o programa Prós e Contras da RTP1 dedicou 2 horas e tal ao debate do problema do elevado custo da energia.
Apesar da extensão do programa, saí dele frustrado com o que ficou por esclarecer e, por isso, inicio aqui um conjunto de notas em que vou clarificar os equívocos que, a meu ver, merecem esclarecimento.
Começo por algumas dúvidas levantadas pela minha própria intervenção naquele debate e que um ex-aluno meu gravou. Podem ver aqui a intervenção com os comentários do rapaz.

O esclarecimento que o assunto não teve e que gostaria de ter dado, é que o problema era a dependência do petróleo, e não o dos preços de outros combustíveis indexados ao petróleo. O problema era a falsidade que sugere que o preço da electricidade varia directamente com o do petróleo como se fosse feita com ele, e que portanto as renováveis eliminam essa dependência!
Ora embora seja certo que o preço do carvão tem estado indexado ao do petróleo, o do custo de produção das centrais a carvão não o está, porque esse custo é essencialmente determinado pelo custo de investimento da central, e não pelo do combustível carvão, que pouco pesa no custo final. Concretamente, e embora isto dependa da qualidade do carvão usado, numa central a carvão pode estimar-se o custo de produção final do kWh em 5,8 ç, que se decompõe do seguinte modo:  remuneração do investimento = 2,06 ç; multa pela emissão de 0,9 Kgh de CO2 = 1,9 ç; manutenção e exploração = 0,04 ç; carvão = 1,8 ç (30% do custo total). Mas a parte do preço do carvão depende de de onde vem ele; onde o há e é usado directamente das minas para as centrais, e se se não se pagar a multa de CO2 (como sucede na Ásia e EUA), o custo do kWh gerado cai para 3,5 ç, dos quais apenas 1,4 ç são do carvão. Ora estes 3,4 ç são imbatíveis, e é precisamente por isso que o carvão é a base mundial de produção de electricidade, ou será que o resto do mundo é estúpido?
Mas mais: nas modernas centrais a carvão, super-críticas, que a China presentemente constrói, que trabalham com vapor a temperatura e pressão muito maiores, o rendimento termodinâmico é bem maior que na nossa velha de Sines. O custo de investimento é maior, mas o do carvão bem menor (as centrais são mais eficientes), bem como o da eventual multa de CO2 (menos carvão queimado por kWh é também menos CO2 emitido). O custo final pode até ser um pouco maior (mas ainda muito baixo), mas muito menos dependente do custo do carvão de que há reservas mundiais enormes!
Quanto ao custo do gás natural: ele é de facto determinante do custo de produção do kWh das centrais de ciclo combinado, bem maior que o das centrais a carvão. Mas, como o comentário do meu ex-aluno mostra e com inteira razão, o custo do gás no mercado mundial tem vindo a desindexar-se do do petróleo, e é bem provável que essa desindexação aumente no futuro, graças sobretudo à liquefação do gás, permitindo o seu transporte marítimo em navios, e também à descoberta recente de imensos recursos do mesmo, nomeadamente de gás xistoso, conduzindo ao estabelecimento de um mercado mundial do mesmo independente do do petróleo.
Mas tudo isto confirma o que eu disse: não há relação entre independência do petróleo e produção de electricidade por renováveis!

quinta-feira, setembro 29, 2011

O vómito da APREN e o novo imposto sobre os CMEC

A APREN mandou a Roland Berger escrever um rol de mentiras cuja leitura é deveras nauseante, e por isso e por que já me falta a paciência, não vou tratar do dito escrito.
Até porque isso está ser feito, e bem, por quem revela mais paciência do que eu para aturar estes vomitados: aqui no Ecotretas (e aqui), e num novo blog que é um herdeiro meu nestas coisas da energia, o Luz Ligada.
Passo-lhes a espada. E recomendo aos leitores interessados que vão até lá ver as estocadas.
Entretanto, há novidades: acabo de saber que a ideia do imposto especial que tenho sugerido vai mesmo acontecer, e que por causa disso e infelizmente, a cotação das acções da EDP está em queda. O imposto é sobre os malfadados CMEC, e vai buscar 200 milhões de €.
É justo. A crise não pode ser paga só pelos inocentes!

quinta-feira, junho 23, 2011

electricidade a pedal

O Ecotretas postou uma engraçada notícia sobre uma iniciativa dinamarquesa muito verde, e que consiste num dado hotel oferecer uma refeição a quem contribua para a produção de electricidade local pedalando um quarto de hora.
O Ecotretas faz as contas e chega ao valor absurdo de 2600 €/kWh (18 mil vezes mais que o seu custo usual)!
Porém, o que me levou a vir aqui foi para acrescentar uma curiosidade à notícia da electricidade a pedal dinamarquesa: é que essa prática de gerar electricidade pedalando uma bicicleta não é original. De facto, é assim que os reclusos do Arizona alimentam as lâmpadas das tendas quando saem para trabalhos de campo.
O xerife de Phoenix acha que os reclusos não têm o direito de gastar electricidade à comunidade e, por isso, trata que sejam eles próprios a gerá-la. Vale a pena, de caminho, notar que o referido xerife é usualmente apontado como exemplo da bestialidade policial por certos europeus muito sensíveis, mas nos EUA um xerife é eleito (imaginem os chefes da polícia das vossas cidades a serem eleitos, também...).
E o facto é que, com estas práticas, o xerife de Phoenix é eleito regular e repetidamente há muitos anos!...

quarta-feira, maio 25, 2011

O caso do espião da ENERCON

Não, não venho revelar aos muitos internautas que se têm interessado pela afirmação que fiz nas últimas linhas do meu post de divulgação do Manifesto II, o que sei (sabemos) sobre o assunto.
Sobre isso, reitero apenas que a informação divulgada no Público só pode ter sido obtida por espionagem de conversas privadas - conversas de elevado interesse político e eventualmente económico para terceiros.
Do que venho hoje falar é de outro caso de espionagem que hoje foi notícia em alguns jornais.
O Diário de Notícias noticiou, mas por qualquer razão não tem a notícia on-line; mas ei-la aqui reproduzida, e aqui podem-se encontrar mais detalhes interessantes.
Um engenheiro de topo da Martifer, empresa que constrói aerogeradores em Oliveira de Frades (e painéis solares), é acusado de espiar para a concorrente ENERCON. Ao que parece, será o primeiro caso detectado de espionagem industrial em Portugal.
Confesso que o "caso" me diverte um pouco. Primeiro, porque em tempos contei aqui a história da espionagem de que a própria ENERCON terá sido vítima pelo Echelon, relativamente à sua tecnologia de aerogeradores de velocidade variável com gerador síncrono e "link dc". História de que mais tarde forneci os hyperlinks relevantes.
Segundo, porque isto só vem dar razão à acusação que tenho feito sobre a falta de escrúpulos que o lobby eólico tem usado, cá e na Comissão Europeia, na manipulação política dos seus negócios.
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01-06-2011: Venho trazer uma correcção. Alguém de confiança me disse que o "caso" de espionagem na Martifer não tem fundamento e que apenas reflecte tricas entre os respectivos sócios, que desde há anos se terão deslumbrado com o capitalismo de casino bolsista e descurado a gestão operacional da empresa. E que a notícia, nascida num jornal de Viseu, já teria sido desmentida.
Não dei por nenhum desmentido publicado da notícia original que saíra no Diario de Notícias, mas aceito que isto possa ser de facto infundamentado. Se assim for, ainda bem - estas notícias de golpes baixos deixam-me sempre infeliz com a espécie humana e os seus desmentidos desanuviam-me.

sábado, maio 14, 2011

Revisão aos empregos criados pelas renováveis em Portugal

Recentemente dei nota da invocação do dirigente do PS candidato às próximas eleições, num debate televisivo dia 9 passado, de que o Governo cessante a que ele preside criara 100 mil empregos em Portugal nas energias renováveis, e de como esse número se poderia basear num estudo feito por uma empresa de consultoria, a CEEETA, para o Governo, em 2009 (uma empresa que resultou da metamorfose de um Centro Universitário com o mesmo nome no ISEG...). Estudo que, como transcrevi, procede às mais delirantes falcatruas para "produzir" números fabulosos, incluindo a descarada troca dos termos de uma divisão aritmética, certamente a contar com a inumeracia geral que nos caracteriza!
É entretanto de notar que este número de 100 mil empregos é uma "revisão em alta" do número que o mesmo Governo apresentou ainda há um ano no seu PEC 1, e que era de 30 mil, que na ocasião também desmontei vincando que se baseava num trabalho feito por encomenda de outra empresa consultora, a Deloîtte, que em finais de 2008 alardeara a existência de 36 mil empregos no sector das renováveis em Portugal.
O relatório da Deloîtte fora apresentado à Imprensa com grande pompa e circunstância num grande hotel de Lisboa, mas o relatório em si custou a ficar acessível ao público. Quando ficou, porém, tornou-se possível verificar que o número de empregos reais e directos recenseados no sector das renováveis era de 2400, e que os restantes 33 600 eram "empregos indirectos" - ou seja, e como mostrei, pura e simplesmente congeminados!...
Porém, esta criatividade inventiva quanto aos empregos gerados pelas renováveis não é exclusivo nacional. Como notei há pouco mais de um ano, também na Alemanha um estudo económico sério (e até pró-renovável!) contabilizava em 157 mil empregos os criados na Alemanha pelas renováveis (dos quais 64 mil nas eólicas e, destes, directos e recenseados apenas 27,5 mil), enquanto na mesma altura um estudo encomendado e publicado pelo próprio Comissariado Europeu da Energia (há muito ao serviço dos nacionais-ecologistas alemães) duplicava "criativamente" aqueles empregos para... 320 mil!
Como nota à margem, vale a pena recordar que o mesmo estudo recenseava 52 mil empregos na electricidade alemã gerada a partir da biomassa, a mesma ordem de grandeza do emprego existente nas eólicas lá, e isto apesar da indústria de equipamentos de biomassa exportar muito menos que a de aerogeradores, de a produção eléctrica a partir da biomassa requerer apenas 1/3 do investimento da da eólica por kWh gerado, e de a biomassa produzir lá a mesma ordem de grandeza de energia renovável (5.2%) que o vento (6.5%)...

O estudo alemão em referência contêm também outro dado precioso: uma estimativa quantificada, a partir de modelos económicos de Input/Output usando estatísticas oficiais, do número de empregos indirectos criados pela indústria eólica - 4/3 por cada directo, a maioria dos quais na produção de máquinas eléctricas e componentes associados (vd. figura).
Ora desde que o estudo da Deloîtte foi feito, em 2008, que aconteceu por cá que permita considerar um aumento do emprego nas energias renováveis em Portugal?

Recordo que, em 2008, a ADENE promovera um inquérito às nossas empresas e obtivera o único número fundamentado em inquéritos disponível até agora nesta matéria: 800 empregos. Esse número tem sido referido por diversos fóruns internacionais, como este aqui que o cita a propósito do relatório sobre criação de emprego da própria EWEA, e que lhe adiciona os cerca de 2000 empregos criados pela ENERCON em 2009-2010 nas fábricas de Viana do Castelo - que, com alguns fornecedores de componentes, ascenderão optimisticamente a 2400, o número citado pela Deloîtte e pelo próprio líder da ENERCON em Portugal, Aníbal Fernandes, há cerca de um ano.
O número de empregos associado à operação e manutenção (O&M) dos parques eólicos é muito baixo, mesmo incluindo a guarda dos parques (frequentemente inexistente), e é sabido que muitos deles são tele-monitorizados a partir do estrangeiro e nem sequer têm técnicos portugueses em permanência em Portugal. Há empresas em que um único técnico supervisiona 100 MW de aereogeradores, e a extrapolação deste número para os 4000 MW existentes leva a apenas algumas dezenas de empregos. Com efeito, a maioria dos 800 recenseados pela ADENE em 2008 realizavam projecto e instalação de novos parques, e esse número não terá crescido significativamente desde então - na verdade, a técnica do relatório da CEEETA, Lda de estabelecer uma proporcionalidade entre potência eólica instalada e empregos não tem a mínima fundamentação!
Somos assim conduzidos, para a energia eólica, a um total entre 2400 e 3200 empregos directos existentes em Portugal.
O número de empregos indirectos é certamente menor, já que o multiplicador de 4/3 calculado na Alemanha se aplica sobretudo ao fabrico, e que parte desse emprego, em particular a fatia ocupada em Investigação & Desenvolvimento, é realizada no estrangeiro cuja tecnologia usamos - mas, mesmo assim, concede-se que se possam extrapolar 4200 empregos indirectos criados pela energia eólica em Portugal dos quais 400 já contabilizados nos fornecedores associados às fábricas de Viana do Castelo (se o total de empregos directos for de 2800, serão 4/3 de 2800=3700). Teremos, portanto, e na hipótese favorável assumida daqui em diante, 3200 empregos directos e 4200 indirectos (total de 7400).

Adicionalmente à energia eólica temos a construção das barragens reversíveis e a instalação de reversibilidade em antigas (enganadoramente referidas como "reforços de potência") e que são complementares das eólicas, e cuja criação real de empregos já contabilizei aqui, vai para 2 anos5 400 em média durante os 10 anos de construção das centrais mas, depois de terminadas, para a sua O&M, apenas... 84! Neste momento a construção vai sensivelmente a meio.
Quantos empregos indirectos são criados por estas obras hidroeléctricas? Um estudo canadiano mostra que, em média, são criados 2/3 de emprego indirecto por cada directo na construção de hidroeléctricas, o que adiciona, portanto, e durante o período de construção, mais 3600 empregos indirectos estimáveis.

A estes números relativos á energia eólica e à expansão das hidroeléctricas temos a adicionar as mini-hídricas, a energia solar, as centrais térmicas a biomassa e a resíduos.

Em Portugal há cerca de 100 mini-hídricas mas, tal como as eólicas e as grandes hídricas, são automáticas e com poucos requisitos de manutenção. Podemos, entretanto, admitir generosamente um emprego e meio por central, o que totalizará uns 150 empregos directos.

Na energia solar existe o anunciado grande projecto da RPP Solar de Alexandre Alves, que anunciava a criação de 1900 empregos subsidiados com dezenas de milhões de € e sobre o qual eu aqui levantei dúvidas há um ano, infelizmente alarmantemente confirmadas pelas notícias mais recentes desse projecto. Empregos criados, raros, e ao que parece os subsídios esfumaram-se para parte incerta...
Entretanto, a fábrica que a Acciona construiu em Moura como contrapartida da megalómana central fotovoltaica da Amereleja (de que entretanto 1/3 foi vendida à Mitsubishi) arrancou em 2008, empregando 95 trabalhadores. A central em si empregará 15 pessoas em manutenção, e as outras pequenas centrais fotovoltaicas existentes no país quiçá outros 10, mas em Moura foi também criado um Laboratório que empregará ainda uns 10 elementos. A Martifer Solar, porém, empregava 290 pessoas em 2009 em 8 países, das quais quiçá 200 a 220 em Portugal, em particular na sua fábrica de Oliveira de Azeméis.No total e assim, a energia solar suportará directamente em Portugal 350 empregos directos, a que se poderá aplicar um factor multiplicador generoso de 1,1 para o cálculo do número de empregos indirectos, assim estimados em 400, arredondando para cima.

Finalmente e para a produção renovável termoeléctrica, cada central de 10 MW a biomassa emprega, de acordo com um inquérito feito a empresários do sector, directamente 20 pessoas e indirectamente, na limpeza da biomassa, rechega da mesma, trituração e transporte, de 150 a 200 pessoas. Existirão de momento em Portugal umas 11 centrais destas, o que totalizará 220 empregos directos e 2200 indirectos (arredondando para cima).
Por outro lado, existem presentemente 8 centrais de tratamento de resíduos sólidos, tendo este mês anunciado o Governo a instalação de mais 15 nos próximos anos. Admitindo 10 empregos directos por central (de estatísticas na Virginia, EUA, hyperlinkadas adiante), teremos presentemente aqui 80 empregos directos, a crescerem para uns 230 no futuro próximo.  Os empregos indirectos, associados à recolha dos resíduos (a mais que na recolha usual), poderão generosamente extrapolar-se de cálculos americanos para uns 15 por central, o que totalizará cerca de 120 no presente e 450 a prazo.
Estamos, pois, em condições de somar tudo:

Empregos    directos ----- Indirectos (melhor estimativa):
Biomassa           220 -------- 2200 (2420)
Lixo                      80 --------     120 (  200)
Solar                   350 --------    400 (  750)
Eólica               3200 -------- 4200 (7400)
Mini-hídricas     150 -------- --        (  150)
Barragens       5400 --------- 3600 (9000)
Total:             9400 ------- 10320 (19720)

Chegamos, assim, a um valor final redondo e generoso de cerca de 20 mil empregos, dos quais perto de metade directosmetade indirectos.
Porém, estes números poderão crescer ocasionalmente durante os processos de instalação e construção de novas centrais termoeléctricas (biomassa e resíduos sólidos) e mini-hídricas mas, por outro lado, também descerão drasticamente uma vez terminadas as obras nas grandes barragens do Plano Nacional.
Quando isso suceder, e já contabilizando os 84 funcionários necessários para a O&M dessas barragens e o crescimento das centrais de resíduos sólidos, os empregos remanescentes, portanto os (razoavelmente) sustentáveis, serão de uns 4250 directos e 6950 indirectos, totalizando, redondamente, 11 mil empregos. Que também se poderão assumir como 10 mil empregos, considerando os múltiplos arredondamentos para cima feitos na estimativa...
Parece evidente não ser com isto que se poderá resolver o problema dos 800 mil desempregados que Portugal terá em breve...

terça-feira, março 29, 2011

Verdadeira ciência viva! - Revisto

Ou vivemos já no reino dos filhos e netos de Goebbels, ou o programa "Ciência Viva" do Governo não tem tido efeito nenhum!
Ora vejam esta pérola acessível no "Expresso" on-line: o TGV poderá produzir energia renovável: diz que o TGV terá umas pequenas ventoinhas entre os carris que, accionadas pelo vento da deslocação, poderão gerar electricidade "renovável"!
Se os jornalistas que escreveram esta enormidade tivessem aprendido uns rudimentos de Física, saberiam que as ventoinhas, ao rodarem como indicado, funcionam como travão do TGV e que a energia que este tem de dispender para vencer essa travagem é sempre maior que a que as ventoinhas poderão produzir, visto que nenhum processo de transformação de energia tem rendimento maior que 1!
Pelo que o TGV gastará sempre mais energia com este processo do que se gerar directamente a electricidade (para a iluminação interna) a partir dos seus motores...

Alguns leitores manifestaram-me o seu espanto pelo que aqui postei, e por isso vou adicionar alguma informação explicativa. A ideia aqui apresentada está melhor explicada aqui, onde também se vêm as tais T-box, entre os carris, e em substituição (aparentemente), das travessas.
Num comboio de alta velocidade (TGV), a aerodinâmica é a questão chave. Quem quiser instruir-se, pode talvez começar por aqui.
A potência necessária para vencer a resistência do ar é tal que, além de justificar aturadas pesquisas sobre a forma óptima do comboio e em especial do seu nariz, de modo a reduzir essa resistência, uma das opções que mais se tem procurado é que o comboio não sofra o atrito dos carris, fazendo-o levitar.
Com isto, consegue-se que um TGV normal que não levite use perto de 8 MW de potência para vencer todo esse atrito do ar e carris, mas a parte dessa potência necessária para vencer o atrito do ar por baixo do comboio é pequena, quiçá menos de 0,5 MW.
Essa potência por baixo do comboio produz grande turbulência e as travessas geram ruído (de baixa frequência), que é energia sonora resultante da perturbação do ar.
Ora, na ideia apresentada diz-se que o Tbox poderá gerar 897 kWh numa viagem do TGV de 345 km a 300 km/h. Portanto, o TGV passará para essas ventoinhas uma potência tal que elas gerarão 0,897 MWh/1,15 horas = 0,78 MW (2,6 kW x 300 travessas para os 200 metros de comprimento do comboio). Mas, para gerarem isso, e dado que segundo a lei de Betz o rendimento máximo de uma turbina eólica é de 59% mas na prática não ultrapassa 35%, e considerando ainda o rendimento da conversão em electricidade (menor que 100%), o sistema entregará, no máximo, 33%, ou 1/3, da potência que recebe do vento. Portanto, para gerar 0,78 MW tem que receber no mínimo 2,34 MW do comboio na forma de vento - bastante mais que os cerca de 0,5 MW que ele dissipa, no máximo, nessa turbulência que gera por baixo de si.
Isto só é possível, claro, se a forma das Tbox funcionar como um travão aerodinâmico, para ir buscar mais energia ao comboio. Da qual nunca conseguirá aproveitar mais que 1/3!
A ideia subjacente a esta "invenção" é que a deslocação de ar causada pelo comboio contém uma grande quantidade de energia que de outra forma se perde. Ideia errada! E de que, mesmo que fosse verdade, nenhuma máquina conseguiria jamais aproveitar 100% - 33% e já não é mau!...
O problema é que, como noutras ideias similares, tais "inovações" nascem nuns "criativos" sem a bagagem que só o trabalho e o suor permite obter. Ou em "malta criativa" à procura de subsídios para "viabilizar" estas ideias...

terça-feira, fevereiro 01, 2011

A factura da electricidade e a sustentabilidade económica de Portugal

O diário "O Público" publicou ante-ontem, 30 de Janeiro, o seguinte artigo dos Eng.º Mira Amaral e Sampaio Nunes, aqui integralmente reproduzido:

A opção feita pela aposta excessiva nalgumas renováveis para a produção de  electricidade tem custos elevadíssimos por razões técnicas que iremos explicar, tendo esses custos sido até agora disfarçados de várias formas, e que com a persistência das actuais politicas se irão agravar necessariamente no futuro, qualquer que seja a evolução do preço do petróleo. Isto porque a energia eólica – da qual Portugal dispõe de um recurso sofrível em termos europeus – apenas produz em média durante cerca de 2 200 horas das 8 760 horas do ano, ou seja cerca de 25% do tempo e, dado que se trata duma fonte energética intermitente e incontrolável, essas horas pouco têm a ver com as horas em que a rede delas tem necessidade.
Trata-se dum caso evidente em que a potência instalada apenas produz energia em 25% do tempo!
A consequência deste facto é dramática, dado que a respectiva potência instalada é já muito elevada e a cada momento a produção total na rede tem que igualar o consumo.
Quando existe vento a mais, para além de se ter de parar a geração termoeléctrica a carvão e a gás natural, tem que se armazenar essa energia em barragens construidas para o efeito, uma vez que a capacidade actual já não é suficiente. E, se chover muito nessa altura como aconteceu no Inverno passado, acontece  termos que deitar fora essa energia por se ter atingido a capacidade máxima de segurança das barragens, ou então exportá-la a preços nulos para Espanha dado que, face às semelhanças climatéricas, Espanha se encontra normalmente a braços com o mesmo problema de excesso de energia nessas alturas de muita chuva e muito vento em Portugal.
Mas também acontece o contrário, isto é, haver necessidade de energia eléctrica e desaparecer o vento, por vezes abruptamente, e não se ter, nomeadamente no pino do Verão, água nas barragens. Por isso tem que se ter em reserva capacidade de geração termoeléctrica a carvão e a gás, a funcionar em permanência a pouca carga, à espera da altura em que caia o vento, e por isso a funcionar anualmente muito menos horas do que o desejável para um rendimento óptimo. Ou seja, neste contexto temos que dimensionar um parque electroprodutor para a hora de maior consumo do ano, sem contar com a potência eólica instalada porque nessa hora pode não haver vento e os consumidores têm de ser abastecidos.
Quer isto dizer que para suportar uma energia já de si muito mais cara do que dispõem os nossos concorrentes, temos que triplicar os investimentos: porque precisamos também de ter barragens, para quando há vento a mais, e de ter centrais térmicas, para quando há vento a menos, o que acontece em 70 % do tempo.
Para a solar o problema é idêntico, com algumas diferenças: a energia é directamente muito mais cara e as horas em que produz são ainda menos – cerca de 1 500 horas das 8 760 horas do ano – apesar de neste aspecto o nosso recurso natural ser substancialmente melhor do que o dos nossos parceiros.
É este o drama da aposta do governo nas “ renováveis da moda “ para produzir electricidade, que ainda por cima não substituem nenhum petróleo, o qual já não se usa na geração eléctrica, e ainda estamos muito longe do tempo em que teremos a massificação do automóvel eléctrico, caso em que a electricidade substituiria o petróleo. Não será seguramente na próxima década, pelo que a aposta fantasista deste Governo no carro eléctrico ir-se-á transformar também noutro enorme elefante branco.
A esse propósito é útil uma leitura do parecer do Conselho Tarifário da ERSE de … de Dezembro de 2010 sobre a proposta de tarifário eléctrico da ERSE para 2011.
Nesse parecer é dito de forma clara que “Julga o Conselho Tarifário que é a própria sustentabilidade do sector que está em jogo podendo esta situação gerar níveis insustentáveis e socialmente inaceitáveis já no ano de 2012.” Pela sua importância reproduzimos o próprio texto do Conselho Tarifário :
Entretanto, no passado dia 20 Dezembro, o Público publicou uma entrevista a dois dos elementos mais conotados com a energia eólica e a co-geração, que representam as parcelas que estão hoje na berlinda como duas das principais responsáveis pelos indesejados aumentos verificados.
Uma questão fundamental desta entrevista é a tentativa de minimizar os sobrecustos das energias renováveis e da cogeração ( PRE ) nos actuais aumentos do tarifário eléctrico, nomeadamente face aos designados CAE’s e CMEC’s.
Ora, o que está realmente em causa é a tendência incontrolável de aumento dos chamados Custos de Interesse Económico Geral ( CIEG ), cuja evolução ao longo do tempo e a sua desagregação se pode ver no gráfico abaixo, ao qual se juntou o défice tarifário de 2009:
O que é que nos diz este gráfico? Que desde que este Governo chegou ao poder, em 2005, os aumentos dos CIEG custaram aos consumidores cerca de sete mil milhões de euros, dos quais dois mil milhões se encontram em dívida no défice tarifário, e o restante tem vindo a ser acrescentado ás contas das famílias e agora também das empresas. E esse processo, se não se inflectir imediatamente a política seguida, vai continuar em bola de neve.
Mas poder-se-ia dizer que esta politica nos estaria a proteger do aumento da nossa dependência do petróleo, que teria diminuido a olhos vistos. Falso. A factura energética das importações de petróleo e seus derivados aumentou 1 400 milhões de euros de Janeiro a Outubro de 2010 em relação a igual período do ano anterior e o ano de 2011 arrisca-se a ser aquele em que o país pagará a sua factura energética liquida mais elevada de sempre . E pela simples razão que a electricidade de origem eólica, apesar do seu custo enorme e descontrolado, em nada diminui as importações do petróleo que se utiliza nos transportes.
Também as recentes afirmações na Assembleia da República do Secretário de Estado Carlos Zorrinho e de António Mexia de que depois de 2015 o custo da electricidade obtida a partir das “ renováveis da moda “ se tornaria mais barata que o custo da electricidade  convencional não correspondem infelizmente à realidade, como se pode ver no gráfico anterior. De facto, os custos crescentes da geração térmica a carvão e a gás natural não são compensados pela existência da geração renovável intermitente, porque esta só está disponível numa parcela muito pequena do tempo, e essa parcela não é previsível nem controlável, implicando um aumento do custo da geração fóssil ou seja, os referidos CMEC,  CAE e ainda o novo custo derivado da garantia de potência que foi estabelecida por via legal em Agosto de 2010 .
Como se pode ver os custos que aumentam de forma geométrica são os sobrecustos da PRE (sobretudo eólica e fotovoltaica), com o aumento dos CMEC e CAE como consequência precisamente do aproveitamento subóptimo do parque convencional, por sua vez consequência directa da intermitência a que são obrigados as centrais térmicas a carvão e a gás natural devida à prioridade absoluta dada às eólicas e fotovoltaicas. Isto confirma que o mix de produção já está desequilibrado com excessos destas renováveis, e é esse excesso que explica os aumentos dos CMEC’s e CAE’S!
Tudo isso já vinha dito no Manifesto para uma nova Política Energética que os subscritores deste artigo tiveram a honra de subscrever e que foi publicado em 7 de Abril de 2010, exactamente para alertar para a insustentabilidade e os ónus à exportação que se está a criar por essa via ao País.
E em relação à criação de emprego e contrariamente às centrais termoeléctricas, às centrais a biomassa ou aos biocombustíveis, a criação de emprego é apenas limitada à fase de contrução dos aerogeradores e dos paineis fotovoltaicos, sendo que ao longo da sua vida útil não existem mais empregos senão residuais.
E são infelizmente muitíssimo mais os empregos eliminados pela destruição da competitividade do nosso sector exportador, provocada pelos referidos sobrecustos da factura eléctrica.
Por último a afirmação de que na Dinamarca a produção renovável seria de 80 % é falsa pois que  é apenas de 29 %, dos quais a componente eólica é de 19 % e a biomassa 10 %. E isto pela razão que é explicada no primeiro ponto; quanto mais injecção renovável intermitente houver, mais necessidade existe de back-up térmico, duplicando os custos e usando de forma subóptima essa potência, para alem de se terem que construir apenas para esse fim as barragens de armazenamento. Pode-se ver a evolução oficial das fontes da geração eléctrica na Dinamarca no gráfico em baixo. A Dinamarca, país ambientalmente responsável, mas que sabe fazer as contas e por isso é rica, não alinha nos nossos exageros.
Em suma, e conforme previsto no Manifesto sobre politica energética publicado em 7 de Abril de 2010, tornou-se agora já óbvio para a generalidade dos consumidores, e muito em especial para o tecido produtivo, que a actual politica energética não serve a economia de Portugal. E para se alterar esta situação é necessária uma nova politica que tenha como objectivo prioritário a redução dos custos energéticos, e muito em especial a redução do tarifário eléctrico.
Só assim a aposta do próprio governo numa recuperação económica baseada na exportação de bens directamente transaccionáveis fará sentido e terá coerência interna .

terça-feira, agosto 31, 2010

Energia geotérmica e terramotos

Volta e meia alguém me pergunta o que penso da energia geotérmica como fonte renovável de geração de electricidade e calor.
Pois, penso bem.
Em Portugal a energia geotérmica tem um papel não desprezável na carteira de fontes renováveis, mas concentrada nos Açores, nomeadamente nas ilhas de S. Miguel (na figura) e, mais recentemente, da Terceira.
Há alguns anos a central geotérmica de S. Miguel assegurava metade do consumo nas horas de vazio da ilha, mas o seu potencial permitiria teoricamente satisfazer todo o consumo. Ultimamente tem-se pensado em reforçar esse uso.
Porém, há alguns óbices com esta forma de energia:
  • Funciona a potência constante. Ou seja, tem um problema que, sendo o oposto do das fontes intermitentes, acaba por ter as mesmas consequências de incapacidade de seguir os consumos, mas de forma muito mais previsível. No entanto, é por isso que a geotérmica de S. Miguel só assegurava (parte da) base do diagrama de consumos. Isto é assim porque as longas tubagens que trazem o vapor até às turbinas não se dão nada bem com variações rápidas de pressão e temperatura.
  • As suas centrais avariam com frequência. Principalmente nas caixas de velocidades que adaptam a baixa velocidade das turbinas à frequência necessária para a ligação à rede eléctrica. Estas caixas são particularmente vulneráveis a perturbações na rede e, como não se fabricam grandes quantidades delas, carecem de maturidade tecnológica.
  • A extracção do vapor do sub-solo altera os equilíbrios de pressão no interior desse sub-solo, o que provoca tremores de terra e risco de terramotos. E este é o principal óbice ao uso generalizado da geotermia, que levou, nomeadamente, ao cancelamento do projecto de Basel, na Suiça, como se pode ler aqui....

quinta-feira, agosto 26, 2010

Umas contitas sobre a nova factura do caridoso amparo às eólicas

Como é do conhecimento público e eu dei notícia aqui, o lobby eólico conseguiu obter do Governo uma nova extorsão aos consumidores que pagará o custo de capital dos investimentos em estações de bombagem e centrais a gás natural que permitirão amparar as eólicas na sua incontrolável e imprevisível intermitência. Tratam-se, tecnicamente, dos sobrecustos sistémicos das renováveis intermitentes.
Segundo a imprensa, o novo sobrecusto a pagar só pelas centrais já existentes e que entrem em funcionamento até ao fim deste ano totalizará 522 M€ até 2021 e agravará em 1% a factura energética média paga pelos consumidores (o que quer dizer que será cerca de 1,5% da factura do consumidor de Baixa Tensão: as famílias, os restaurantes, etc). Mas estarão essas contas bem feitas?
Os termos remuneratórios previstos na portaria assinada por Carlos Zorrinho (e, curiosamente, só por ele...) , atribuem anualmente 20 €/kW à potência instalada nas centrais já existentes não abrangidas por CAE nem CMEC, mas para as ainda a construir é estipulada uma fórmula e dito que a DGEG tem 60 dias para a aplicar e fazer as contas.
Trata-se, obviamente, de uma forma capciosa de esconder dos portugueses o que se prepara, dado que toda a gente sabe que a DGEG tem apenas dois engenheiros electrotécnicos encarregues de TUDO e que, portanto, falha de recursos humanos e demais meios técnicos, a DGEG se limita a consultar as empresas de electricidade sobre o que elas querem e a dar-lhe depois forma de lei. O que o legislador está farto de saber...
Ora a referida portaria estipula uma remuneração de 28 €/kW para "índices de cobertura" até 1,1. O que é um "índice de cobertura" não é definido na portaria (mais uma peça legislativa mal feita...), mas a REN explica-nos tudo aqui neste documento de 2007 publicado... em Espanha!
O "índice de cobertura" é "a relação entre a capacidade disponível e a ponta de consumo, em situações críticas para a operação do sistema" e, garantidamente, as contas já foram feitas pela EDP e/ou pela REN.
Admitindo, no entanto, que o valor a pagar venha a ser em regra o de 28 €/kW instalado, então convém notar que a potência já instalada ou em instalação, em centrais de ciclo combinado e hídricas, não é nada comparada com a "potência instalada" prevista para os "reforços de potência" e as novas realizações hidroeléctricas que, como notei aqui, totalizará cerca de 4,64 Gw!...
A admitir a referida remuneração, essas futuras hidroeléctricas irão então honorar em mais 130 milhões de € anuais os consumidores, sensivelmente 2.5 a 3% do respectivo custo de investimento e que, somado aos ganhos da revenda da energia eólica armazenada, já permitirá uma remuneração razoável desse investimento.
Naturalmente, esses 130 M€ serão a somar aos 61 M€ já atribuídos às centrais novas existentes ou em construção e abrangidas por esta portaria (45 M€ para a EDP, segundo um comunicado da própria empresa), e que, a recaírem como habitualmente sobre os consumidores de Baixa Tensão, significarão só por si um acréscimo tarifário para estes consumidores de mais 3%, totalizando 4.5%...!
Teremos assim 1.5% já em 2011, e os restantes 3% à medida que as novas hidroeléctricas forem entrando em serviço...

quarta-feira, agosto 25, 2010

A dificil vida dos smart griders e o custo das rampas de vento

Uma das grandes fés dos crentes na capacidade da "gestão da procura" alegadamente a realizar pelas "smart grids" é que, devidamente educadas, as pessoas se tornarão em Homens Novos e a fazerem o que é obviamente melhor para elas. Porque eles, os smart griders, sabem o que é melhor para as pessoas.
Ora não espanta, por isso, vê-los tão desanimados agora que uma sondagem aos "americanos médios" mostrou que, interrogadas sobre o que acham ser melhor para poupar energia, as pessoas tenham respondido "apagar a luz", "desligar o termostato (do aquecedor ou do ar condicionado)" e "guiar menos".
Desanimados porque as respostas que os smart griders pretendiam eram: "usar lâmpadas mais eficientes", "isolar as casas" e "guiar carros mais económicos". Que tudo isso custa dinheiro extra às pessoas, parece ser coisa que não ocorre a estes idealistas.
Entretanto, e a confirmar o que tenho mostrado, que as eólicas e em geral as fontes de energia renovável intermitentes (o que inclui o solar, em certos aspectos ainda mais intermitente que as eólicas) requerem um triplo financiamento, por um lado em centrais de reserva para quando a produção renovável cai rapidamente (rampas), e por outro lado em estações de bombagem para quando há excesso de produção, aí está a legislação que vai remunerar as novas centrais a gás natural e hídricas só por estarem lá a amparar as eólicas e mesmo que não produzam energia nenhuma: é uma portaria saida este mês que "remunera o serviço de disponibilidade".
Segundo o "i", serão 522 milhões de € para a EDP e a Tejo Energia, rectroactivos a contar desde 2007 mas a aplicar também quer às novas estações de bombagem a que chamam de hidroeléctricas, quer às centrais a gás cujo investimento estava parado por falta de perspectivas de amortização. E, como sempre, a verdadeira razão deste novo encargo é escondida dos portugueses pelas centrais de comunicação do lobby eólico, neste caso, imaginem, alegando uma suposta necessidade de concorrência com a Espanha...!
E adivinhem lá quem é que vai pagar para essa remuneração?

sexta-feira, junho 25, 2010

Os CAE e os CMEC são ainda parcialmente sobrecustos das eólicas

No post que escrevi há dias sobre Custos e preços da electricidade, renováveis, e os interesses instalados, notei que os CMEC, os "Custos de Manutenção dos Equilíbrios Contratuais", assim como os CAE, os "Contratos de Aquisição de Energia", constituíam "prémios" generosos para os respectivos produtores de energia, exemplificando com o caso dos CAE cuja produção é remunerada a 7,24 ç/kWh quando o respectivo custo de produção andaria pelos 5.6-6.0 ç/kWh, já incorporando este valor uma remuneração do capital fixo de 7.5%.
Porém, estes custos de produção, que eu calculara no mesmo post, pressupunham que os factores de utilização das centrais fossem respectivamente de 83% para as a carvão, e de 50% para as de ciclo combinado a gás natural, e que são valores típicos.
Estes factores de utilização são típicos internacionalmente, mas não são os que se observam agora em Portugal, devido à prioridade que os PRE ("Produtores em Regime Especial") têm no fornecimento da sua energia. De facto, os PRE têm reduzido a produção daquelas centrais tradicionais mas não a necessidade da sua disponibilidade, resultante do socorro que têm de prestar às quebras de vento na produção eólica. Por conseguinte, o custo de capital do kWh dessas centrais térmicas aumenta, e esse sobrecusto é inteiramente causado pela prioridade dada à produção eólica.
Veja-se, por exemplo, o caso das centrais a carvão: eu calculara que o seu custo de capital é de 2,1 ç/kWh, enquanto o custo final de produção será de uns 5,6 ç/kWh, para uma utilização anual de 83%. Se a utilização real da central se reduzir dos 83% para metade, como está aproximadamente a acontecer, os custos de capital e também dos encargos fixos de Operação e Manutenção (uns 0,5 ç) duplicam para os kWh, o que modifica o custo total destes de 2,1+0,5+3=5,6 para (2.1+0,5)*2+3=8.2 ç/kWh.
Poder-se-ia argumentar que este custo se poderia evitar se se pudesse simplesmente desmantelar metade das centrais a carvão e dizer que tinham deixado de ser necessárias, mas a intermitência eólica não o permite.
Para as centrais de ciclo combinado o impacto não será tão grande, dado o maior peso nelas do custo variável do combustível mas, em média, chegamos muito aproximadamente ao referido custo de 7,24 ç/kWh que os CAE e os CMEC asseguram - ainda que não seja certo que a divisão de compensações seja justa entre os dois tipos de centrais.
Pelo que, na verdade, os CAE e os CMEC das termoeléctricas, a maioria (ficam de fora as hidroeléctricas), podem ser considerados ainda sobrecustos das fontes renováveis intermitentes.