Discutir as opções da política de Investigação & Desenvolvimento na perspectiva da competitividade nacional sem ponderar o quadro geral em que tal política se move é, neste momento de crise nacional, correr o risco de repensar a mobília da casa quando o prédio já começou a ruir...
Assim, embora neste blog sempre tenha evitado falar de política genérica, não vejo alternativa a tentar avaliar as grandes opções a que a política nacional de I&D está subordinada, sob pena dessa reflexão sobre I&D carecer de consciência da realidade. Neste post proponho uma reflexão sobre o contexto económico nacional em que a I&D se enquadra, procurando situá-lo historicamente. Não seguindo provavelmente os cânones a que os economistas estão habituados, esta é a reflexão de um engenheiro.
1. Do caminho até aqui
Para que tenhamos os pés na terra, será bom recordar que Portugal vem de um grande atraso relativo, como o seguinte gráfico ilustra. Os valores mostrados são dos do PIB (nominal) per capita em termos relativos ao dos EUA, e foram retirados de fontes idóneas disponíveis na net.
Como se vê, há um século (1913), em termos comparativos aos dos países que escolhi, Portugal estava no fim da escala, apenas então próximo da Grécia.
De 1913 a 1950 ocorreram duas guerras mundiais (1914-1918, 1939-1945) e guerras civis na Finlândia (1918), Espanha (1936-1939) e Grécia (1946-1949).
As guerras mundiais destruíram sobretudo a Alemanha (que em 1913 tinha uma liderança destacada), mas também muito dos países seus vizinhos, e as civis a Espanha e a Grécia, razões principais da queda relativa de todos esses países relativamente a Portugal, até 1950. A Suécia, que não participou em nenhuma das guerras europeias, destacou-se, e a Finlândia, apesar da guerra que travou com a União Soviética (guerra de Inverno seguida da da continuação), não sofreu nem grandes destruições nem catastróficas perdas humanas, devido à sabedoria com que soube limitar esses conflitos.
O período de 1950 a 1973, entretanto, testemunhou um desenvolvimento geral similar em todos os países ilustrados (em termos relativos), sendo particularmente notável a recuperação alemã em contraponto à relativa estagnação dos países sob ocupação soviética (Chéquia e Polónia) que, nesse quarto de século, foram ultrapassados por Portugal (e pela Grécia e Espanha).
Qualquer destes 3 países do Sul se caracterizava, nessa época, por ditaduras conservadoras com forte dirigismo da economia pelo Estado, protecção dos mercados nacionais e baixos salários. Foi também neste quarto de século que Portugal lançou Planos de Fomento da sua economia, iniciando a exportação de têxteis e calçado, pasta de papel, montagens electrónicas e polpa de tomate para os mercados britânico e nórdicos (EFTA), a descoberta do Algarve pelos turistas ingleses e as remessas de emigrantes. Tecnologicamente, porém, a própria natureza das exportações atesta o seu baixo conteúdo tecnológico, embora tenha sido nesta época que a criação do LNEC alicerçou as bases da engenharia civil portuguesa, única tecnologia em que Portugal adquiriu competitividade internacional.
O caminho percorrido depois da queda do "Estado Novo" é ilustrado na figura seguinte (os 3 países assinalados são os que recorreram agora à assistência financeira internacional).
Até 2000 é patente que Portugal e Espanha diminuíram o seu atraso relativamente aos países mais desenvolvidos, afastando-se também dos países de Leste. A Alemanha, que teve de suportar os custos da integração da Alemanha de Leste após 1990, também acusou o esforço dessa integração na década de 1990-2000.
Apesar do aumento do atraso relativamente a Espanha, resultante das convulsões revolucionárias a que o país vizinho foi poupado em 1974-1976 (particularmente a perda dos protegidos mercados coloniais e o acolhimento de meio milhão de refugiados), Portugal beneficiou neste período da adesão ao Mercado Comum Europeu em 1986 e da decorrente expansão das exportações (especialmente para Espanha, beneficiando dos baixos custos de proximidade e basicamente com os mesmos produtos vendidos no mercado interno), de baixos preços internacionais do petróleo, da chegada dos fundos europeus e de um forte investimento directo estrangeiro de que a Auto-Europa foi paradigmática - embora se o investimento alemão preferiu em regra sectores transaccionáveis, já o espanhol privilegiou os serviços financeiros e o imobiliário.
Porém, a intensidade tecnológica da nossa economia e em particular das exportações não se alterou significativamente, embora os anos 80 e 90 tenham assistido ao nascimento de uma I&D orientada para a economia e em particular para as Tecnologias de Informação (TIC).
Entretanto, a última década (2000-2011) foi, ao longo de todo o último século, o único período em que o processo de desenvolvimento relativo de Portugal se inverteu, em termos relativos.
As razões desta inflexão estão identificadas por variados economistas e atestam uma trágica insensibilidade dos decisores políticos perante os novos desafios que surgiam ao país.
Com efeito, ao longo da década de 90 assistiu-se à concretização de duas ameaças contra as quais quase nada foi antecipado: a abertura dos Mercados Europeu e mundial aos produtos asiáticos, por um lado, e a concorrência pelo Investimento Estrangeiro produtivo (essencialmente o alemão) dos países de Leste após a desocupação soviética, nas indústrias de automóveis e seus componentes, e outras de similar intensidade tecnológica. Félix Ribeiro, um economista com visão geoestratégica, sublinhou-o (fig. seguinte):
Enquanto a concorrência asiática (Paquistão, Bangla Desh, Vietnam...) nos substituía nos mercados de destino das exportações do tradicional sector dos têxteis e vestuário, a concorrência dos países de Leste veio praticamente esgotar o produtivo investimento alemão em Portugal, em benefício sobretudo da Chéquia.
Sendo os sectores de maior intensidade tecnológica os que mais têm crescido no comércio mundial (aeronáutica e aeroespacial, equipamento informático e de tele-comunicações, radio e tv, produtos farmaceuticos e equipamentos médicos), contendo também mais valor acrescentado, a estrutura produtiva portuguesa deixou-se ficar predominantemente pelos sectores mais pobres em qualificações humanas, onde não tem hipóteses de competir com a mão-de-obra asiática e magrebina (vd. Fig. seguinte).
2. Estrutura da (falta de) competitividade nacional
Os portugueses sabem que a adesão ao Euro foi saudada como a ligação irreversível a um fundo de crédito barato e ilimitado, e que daí decorre a explicação de quase todas as opções que foram feitas a partir dos últimos anos da década de 90.
Ora neste período, além do desvio do Investimento Estrangeiro produtivo para Leste, verificaram-se enormes investimentos Portugueses no Brasil e mais tarde também a Leste e para Angola, no conjunto redundando numa acentuada redução de capital disponível. Este, ainda por cima, concentrou-se em sectores protegidos da concorrência internacional, nas infraestruturas, imobiliário, energias renováveis e redes, com a imbricação da Banca com grandes empresas desses sectores. Esta protecção da concorrência internacional foi reforçada por estreitas ligações à "classe política", que concedeu a esses sectores a protecção estatal de rendas elevadíssimas, enquanto um crédito externo fácil fundado na solidez das economias germânicas e na miopia dos decisores políticos alimentou uma euforia consumista que distraiu os portugueses do buraco que se estava a cavar.
A perda de competitividade da economia nacional é bem reflectida no volume e composição das actuais exportações de bens. Em países de pequena dimensão como Portugal, a escala necessária a uma especialização bem sucedida de bens transaccionáveis (exportáveis) requer um grande peso destes no conjunto do PIB, enquanto em países de grande dimensão e mercado tal já não se tem de verificar, em termos relativos. O quadro seguinte mostra o baixo volume das exportações nacionais face ao nosso (pequeno) PIB, e que se pode comparar com o de outros países de semelhante população e até maior PIB.
Neste quadro é também notável a elevada exportabilidade da Alemanha (que tem 7,7 vezes a nossa população e um PIB/capita quase duplo do nosso), assim como a assustadora pequenez das nossas exportações quando comparadas com, por exemplo, as da Áustria (8,4 milhões de habitantes mas 1,8 vezes o nosso PIB), e particularmente da Chéquia (população quase igual à nossa e 90% do nosso PIB/capita)!
Por outro lado, a decomposição das nossas exportações de mercadorias atesta que os têxteis e vestuários já só constituem 5% da carteira, enquanto o sector do calçado, muito enaltecido pela sua capacidade de modernização, não ultrapassa 1% do total. Como é evidente, as nossas mais tradicionais exportações já foram liquidadas!
A observação dos últimos dados, aliás, revela o crescente peso que têm nas exportações a gasolina e outros produtos refinados, e que provavelmente também explica parte do acréscimo de importações de petróleo bruto (que é refinado e depois parcialmente reexportado, nomeadamente para Angola). Os metais comuns (essencialmente arame e barras de ferro e aço) têm aumentado de peso, assim como as máquinas e aparelhos, de que entretanto cerca de metade são "partes, peças e acessórios", mas boa parte dos produtos alimentares exportados são cerveja para Angola, enquanto muitos dos automóveis e seus componentes cá montados se destinam à China (e desses componentes a maioria é de moderada intensidade tecnológica e facilmente deslocável para leste, como as cablagens). No conjunto, portanto, estas exportações descrevem um país que exporta essencialmente baixa tecnologia, segundo as classificações da OCDE...
No entanto, é de notar que os produtos manufacturados não constituem a totalidade das exportações. Pelo contrário, constituindo já cerca de 1/3 da totalidade das exportações, os serviços incorporam muito mais valor acrescentado (VA) que os bens manufacturados (com excepção das indústrias mineiras), cerca de 4/5 do VA total exportado!
Porém, a decomposição da nossa carteira de exportação de serviços denota o peso dominante das viagens e turismo (com o dobro da média mundial), e dos transportes (2/3 dos quais aéreos, um pouco abaixo da média mundial), aliás de modo similar a Espanha. Os "outros serviços" cresceram na sua quota de exportações, seguindo uma tendência mundial que muito deve à Internet, mas as TIC ainda mal atingem 4,2% do total, após crescerem de 2,6% uma década antes, demonstrando a fraca capacidade transaccionável das respectivas empresas (a maioria das "tecnológicas" nasceu depois de 95).
Muito recentemente, aliás, o fundador e Presidente da NOVABASE reconhecia a fraqueza competitiva das nossas "tecnológicas", não só nos mercados externos como também face às grandes encomendas nacionais, nomeadamente dos serviços públicos. Com o fecho da Quimonda, a produção das TIC representa agora menos de 0,9% do PIB nacional...
A questão do peso das TIC na exportação de serviços é relevante quando se cita o "exemplo irlandês". Com efeito, a exportação de Serviços tem sido a chave do sucesso irlandês, como se ilustra no gráfico seguinte (do princípio da década passada), e que mostra o peso dessa exportação relativamente ao PIB de diversos países.
Na Irlanda, os Serviços respondem por 2/3 do total das exportações, uma proporção praticamente inversa da portuguesa! Ora a decomposição dos serviços exportados pela Irlanda (27% do seu PIB, contra 8% em Portugal, à época do gráfico ilustrado), revela que 35% se devia à produção de software e TIC em geral, contra os 2,6% portugueses da época! Os Seguros e os Serviços Financeiros também têm excepcionais componentes, embora isso se deva provavelmente mais ao atractivo regime fiscal irlandês para o investimento estrangeiro que propriamente à sofisticação tecnológica irlandesa.
Porém, a Microsoft, a Google e a Intel têm efectivamente fortes bases neste país, que se pode considerar um país de programadores para multinacionais americanas (a mesma língua também ajuda).
Aliás, e de modo a arrefecer esperanças irrealistas nas nossas TIC, apresento no seguimento um gráfico construído a partir de dados do FMI sobre a exportação de serviços nas TIC para alguns países, ajustado em valor/capita e para 2011. Por razões de escala, não incluí nem o Luxemburgo nem a Irlanda, que exportam, respectivamente, 59 e 91 vezes (!!!) o nosso valor em serviços de TIC, per capita!...
Ora, sabido como é que a Irlanda obtém bons resultados nos testes internacionais de Matemática, e que a capacidade em Matemática é o húmus da capacidade de programação informática, é evidente que o sucesso irlandês não é replicável por Portugal! Pelo menos até que as Reformas de Nuno Crato frutifiquem...
Em suma, a natureza das exportações nacionais, tanto manufacturadas como de Serviços, explica em boa parte a respectiva falta de volume e competitividade. A intensidade tecnológica é quase toda baixa, ou média-baixa, num padrão típico de país subdesenvolvido - pese embora a propaganda política que tem tentado esconder o Sol.
3. A crise financeira e o choque com a realidade
A adesão ao euro coincidiu com o termo das remessas dos emigrantes, e também da poupança privada. Desde a queda do "Estado Novo" que o défice do Estado sempre foi crónico em Portugal (a castanho no gráfico seguinte), mas a poupança privada (famílias e empresas - a verde no gráfico), que era tradicionalmente elevada, começou a decair em 1993, quando a preparação para o euro reduziu substancialmente as taxas de juro, acabando por se tornar negativa em 2006. No conjunto, a poupança nacional é negativa, ou seja, o país vive de endividamento, desde 2004.
Esta "poupança negativa", ou endividamento, foi com o que se fizeram os enormes investimentos em desnecessárias obras públicas (das rotundas em estradas desertas do interior às SCUT, passando pela quase totalidade dos "projectos" nas ruinosas energias renováveis, incluindo a célebre fábrica de montagem dos aerogeradores E-82 da Enercon). Os "privados" endividaram-se na Banca ou "lá fora", a Banca também, e isso foi sendo possível enquanto o Estado pôde servir de fiador.
Simultâneamente, as famílias endividaram-se numa primeira fase para a aquisição de casa própria, e numa segunda fase para o consumo corrente - da compra dos automóveis à dos electrodomésticos, e depois até para luxos outrora inimagináveis: até 2007, as praias do Brasil pejaram-se de veraneantes portugueses!...
O próprio Estado, por sua vez, embora assumindo-se em regra como fiador do investimento privado (a garantia dada pelo Estado ao défice tarifário na electricidade, assim como às Parcerias Público-Privadas, é paradigmático), manteve um fraco investimento, como a figura seguinte ilustra (a roxo, em baixo, o Investimento Público; a verde a receita fiscal, a azul a receita total do Estado e a encarnado a despesa total).
Foi a crise financeira internacional de 2007 que levantou uma barreira neste caminho de vida fácil.
Numa primeira fase, o Governo português sentiu-se encorajado a aumentar ainda mais a despesa pública e o patrocínio ao investimento privado improdutivo com caução pública, não compreendendo o que estava a acontecer, até que numa segunda fase a escassez de crédito mundial que resultou da crise levou a Finança mundial à consciência do alto risco de incumprimento do pagamento das dívidas por Portugal, e acabaram-se as taxas de juro baratas. O Governo teve que pedir assistência internacional.
Com o Estado ele próprio incapaz de honrar as dívidas assumidas, a sua credibilidade de fiador dos investimentos privados improdutivos esfumou-se, e toda a economia, e em particular a Banca, descobriu que também para ela terminara o acesso ao crédito externo barato com que se financiara, defrontando-se com enormes dívidas para as quais reclama do Estado protecção, pelo menos na forma de caução política...
Com o crédito externo cortado, toda a construção civil, de obras públicas e no imobiliário, parou, assim como o generoso crédito ao consumo. E, se a construção civil tem um elevado valor de indução de empregos indirectos - das madeiras às tintas, das mobílias aos vidros, dos electrodomésticos aos produtos decorativos - também a tem de desemprego indirecto, quando pára. A isso soma-se a redução do rendimento disponível para consumo pela elevação em 2011 da carga fiscal, e assim chegámos ao desemprego em massa, que por sua vez agrava as despesas do Estado e lhe reduz as receitas fiscais.
Esta é a situação existente neste momento.
Neste contexto, é já evidente que os interesses construídos na imbricação da Banca com os investidores improdutivos e uma classe política de baixa qualificação pretendem nada sacrificar das rendas conseguidas, inviabilizando, portanto, a reestruturação da nossa economia. Esta posição só será viável se for possível regressar ao "antigamente", isto é, ao crédito externo barato e ilimitado de que Portugal se habituou a viver, o que por sua vez assenta na esperança de que a actual crise financeira internacional seja passageira.
Porém, a progressão futura da crise nacional em muito dependerá do contexto internacional, e por isso penso que este merece uma reflexão prospectiva, o que farei em próximo post.
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terça-feira, julho 17, 2012
segunda-feira, junho 25, 2012
I&D para a COMPETITIVIDADE - Adenda à parte III
Com a autorização do autor, publico um comentário do Presidente da HOVIONE e co-autor do Relatório "A Ciência em Portugal" da Comissão Parlamentar de Educação e Ciência, de 2010.
Caro
Prof. Pinto de Sá,
A
sua análise sobre o financiamento público da I&D e sobretudo do SIFIDE é de
grande pertinência, e eu próprio tive a oportunidade de comentar ao prof.
Mariano Gago, já depois da sua saída do Governo, a “generosidade” dos créditos
fiscais à investigação e inovação. A nossa empresa é uma grande beneficiária
deste sistema, mas sempre me admirei que não houvesse uma fiscalização do Estado
quanto à elegibilidade das despesas apresentadas. Num caso de uma das empresas
mais bem colocadas no último Inquérito ao Potencial Científico e Tecnológico
Nacional, esta declarava 200 FTEs atribuídos
a actividades de I&D, mas não tinha um único
doutorado.
Essa
fiscalização é essencial, e várias vezes o afirmei, por duas razões: 1) evitar
que dinheiros públicos sirvam para financiar actividades que não têm nada a ver
com I&D e 2) assegurar a continuidade do SIFIDE, reformando-o para
neutralizar análises mais perspicazes que inevitavelmente seriam feitas, como
foi a caso da sua agora, e que vem colocar em causa um valioso apoio para as
empresas que têm uma actividade genuína nesta área.
Aproveitando
o facto que abriu a caixa de Pandora em relação ao SIFIDE, o meu interesse é
propor condições que salvaguardem a sua continuidade, apertando substancialmente
a sua aplicação. Apoio o SIFIDE, mas para empresas que tenham comprovadamente
uma actividade de I&D, confirmada por uma certificação que teria por base
pelo menos alguns dos elementos seguintes:
1.
A
existência de uma carteira de patentes, em indústrias onde as patentes são
relevantes.
2.
A
comprovação de que as patentes estão a ser exploradas e cobrem produtos e
processos comercializados. (No caso de start-ups que ainda não estão na fase de
comercialização, não lhes faria diferença não ser abrangidas, pois se não têm
resultados também não tem lucro e logo não teriam utilidade para créditos
fiscais).
3.
A
existência de um departamento de I&D, com carreiras científicas ou
tecnológicas. Em empresas acima de certa dimensão, a presença de técnicos
doutorados. Em alternativa, a existência de contratos de projectos de I&D
com entidades externas (universidades, institutos de investigação, centros de
desenvolvimento de produto).
4.
A
publicação de artigos científicos peer
reviewed.
5.
A
participação em conferências científicas.
6.
A
certificação pela norma portuguesa “Certificação de sistemas de gestão de
investigação, desenvolvimento e inovação” ou sistema
equivalente.
7.
Em
alternativa à existência de uma infra-estrutura científica, uma auditoria que
comprovasse a existência de investimentos em desenvolvimento de produto e a sua
conversão em inovação comercial.
A
certificação do estatuto de “Empresa IDI” facilitaria muito a fiscalização da
elegibilidade das despesas, já que não me parece que os técnicos da Ministério
das Finanças tenham o conhecimento para confirmar a natureza da despesa, empresa
a empresa. É evidente que esta lista reflete a minha própria experiência, e
haverá outros requisitos mais apropriados para outras
empresas.
Se
quiser distribuir este comentário, esteja à vontade.
Cumprimentos
Peter Villax
Hovione
Etiquetas:
ID
quarta-feira, junho 20, 2012
I&D para a COMPETITIVIDADE NACIONAL - parte III
1. FINANCIAMENTO PÚBLICO da I&D
O investimento privado em I&D, porém, manifestou esse crescimento apenas depois de o Estado ter passado a oferecer generosos descontos fiscais em sede de IRC no programa SIFIDE. Este facto alimentou suspeitas sobre a verdadeira natureza da I&D declarada por algumas empresas beneficiárias do SIFIDE, o que analisaremos adiante, mas o Governo anterior justificou-a com o argumento de que este instrumento fiscal “destapara muita I&D que já se vinha fazendo”. Entretanto, em 2005, ano mais recente de que se obtiveram dados, a intensidade de I&D (despesa em I&D / valor acrescentado) na indústria nacional era ainda praticamente igual à grega (EL) e muito inferior à espanhola (ES), aliás em proporções semelhantes às da concessão de patentes per capita.
De resto, a nossa proximidade com os padrões gregos verificava-se em todas as estatísticas relativas à I&D na economia, como o exemplifica o próximo gráfico, de 2007, ilustrando o peso relativo dos Serviços empresariais de conhecimento intensivo (KIBS) na economia e no seu crescimento.
Contribuição dos KIBS
(Knowledge Intensive Based Services)
para a economia e para o seu crescimento
Dados semelhantes se podem ilustrar para o sector
industrial, relativamente ao ano de 2005 (fig.seguinte).No entanto, os dados mais recentes apontam para uma intensificação extraordinária do investimento nacional em I&D, que atingiu em 2009 o record de 2764 M€ ou 1,64% do PIB nacional.
A decomposição deste investimento por origens é melhor visualizável nas duas figuras seguintes (que em conjunto mostram a evolução de 1995 a 2010):

Com este salto, em poucos anos Portugal
aproximou-se da média europeia (figura ao lado), ela própria ainda
significativamente inferior à dos EUA e do Japão, na I&D empresarial.
Verifica-se,
entretanto, que o investimento público directo reportado em I&D terá atingido,
em 2010, 1213 M€, o que sendo metade
do total nacional constitui 0,8%
do PIB.
Comparando com
demais países da UE, no entanto, em 2003 Portugal situava-se no topo em termos
de importância relativa do investimento público em I&D (figura seguinte),
apenas superado pela Rússia, facto tanto mais surpreendente quanto as despesas
em I&D militar eram (e são) diminutas no
nosso país: 1% do Investimento público em I&D, contra 13% de média na UE-27, 28% no Reino Unido e na França, 18% da Suécia e Espanha, 6% na Alemanha
e Noruega[i]... Aliás, para comparar
convenientemente a despesa pública em I&D da União Europeia com a dos EUA,
país em que a I&D pública em 2007 constituía 28% da despesa total contra 33% na
UE, há que ter presente que enquanto na UE a I&D militar absorve apenas
13% daqueles 33%, nos EUA consome 58% dos
seus 28%!...
Considerando a fraca intensidade tecnológica da economia nacional e o grande volume relativo da parcela pública no investimento nacional em I&D até há meia dúzia de anos, são notáveis o reforço extraordinário do investimento público de 2003 a 2010 (continuando a crescer mesmo já depois de iniciada a crise financeira em 2008), e ainda mais o crescimento explosivo que subitamente teve o investimento empresarial em I&D nos 3 anos de 2006 a 2008. Este último é tanto mais surpreendente quanto tal não se traduziu em qualquer movimento de investigadores, seja nas Universidades e instituições afins, seja em contratações de pessoal pós-graduado, como abordaremos no seguimento.
Considerando a fraca intensidade tecnológica da economia nacional e o grande volume relativo da parcela pública no investimento nacional em I&D até há meia dúzia de anos, são notáveis o reforço extraordinário do investimento público de 2003 a 2010 (continuando a crescer mesmo já depois de iniciada a crise financeira em 2008), e ainda mais o crescimento explosivo que subitamente teve o investimento empresarial em I&D nos 3 anos de 2006 a 2008. Este último é tanto mais surpreendente quanto tal não se traduziu em qualquer movimento de investigadores, seja nas Universidades e instituições afins, seja em contratações de pessoal pós-graduado, como abordaremos no seguimento.
1.1 FINANCIAMENTO DA I&DT NAS
EMPRESAS
Os gráficos acima mostrados não dão conta total do Investimento público em I&D. Com efeito, segundo a definição que acompanha estes dados, “o sector de execução do Estado compreende todos os organismos e entidades da administração pública que fornecem serviços colectivos e que conjugam a administração dos bens públicos e aplicam a política económica e social da colectividade (Ex: Hospitais, Laboratórios do Estado). O sector compreende ainda as IPSFL controladas e maioritariamente financiadas pelo Estado.” Não estão incluídos nos quadros ilustrados, portanto, nem os descontos fiscais concedidos à empresas, nem os subsídios canalizados directamente através do QREN, nomeadamente pela Agência de Inovação e outros organismos. O gráfico seguinte mostra como os descontos fiscais têm um peso desproporcionado no financiamento externo da I&D empresarial nacional (36%, contra 27% na média europeia)[ii].
O programa de descontos fiscais, ou SIFIDE, foi publicado
em 2005 (Lei 40/2005), com grande apelo do Estado
às empresas para a sua participação: era concedido um desconto de 20% das despesas em I&D no IRC, e de 50% do acréscimo de despesa relativamente aos 2 anos anteriores, até ao limite de 750 k€. Caso não houvesse no ano em causa receita de IRC suficiente para permitir o desconto calculado, este poderia ser repercutido até ao 6º ano posterior, funcionando portanto como um crédito fiscal para as empresas, designação como aliás o sistema é internacionalmente conhecido. Note-se que o crédito fiscal é uma dívida... para o Estado!
No seguimento, observou-se o crescimento da despesa em I&D alegada por milhares de empresas (para efeitos de contabilização fiscal) e ilustrada na figura seguinte, sendo notável a duplicação ocorrida imediatamente após a publicação do SIFIDE, só no biénio 2006-2007!...
No seguimento, observou-se o crescimento da despesa em I&D alegada por milhares de empresas (para efeitos de contabilização fiscal) e ilustrada na figura seguinte, sendo notável a duplicação ocorrida imediatamente após a publicação do SIFIDE, só no biénio 2006-2007!...
De facto, no triénio 2006-2008 estas empresas, que no
total empregarão cerca de 370 doutorados, apenas terão contratado 91, dos quais
28 o foram pelas indústrias Química e
Farmacêutica, outros tantos pela de construção
e materiais, e 27 pela Informática –
ou seja, estes 3 sectores contrataram 91% dos doutorados.
Um segundo indício de ficção é o tipo de empresas em que se terá verificado a referida explosão de actividades de I&D, e que é documentado num relatório provisório de 2008 do GPEARI: o principal investidor terá sido o dos Serviços Financeiros e Seguros (260 M€, 25%!), verificando-se na Energia um salto de 88 vezes, mas simultâneamente aqueles Serviços apenas empregavam 22 doutorados, dos quais nenhum contratado no período assinalado, e a Energia 7 (dos quais 3 foram aliás dispensados nesse mesmo biénio)...
Em todo o caso, o primeiro e único relatório de execução
do SIFIDE[iv], mostra que os créditos
fiscais concedidos no seu âmbito totalizavam cerca de 23% do valor declaradamente
investido pelas empresas (105 M€ em 2007, último ano para que há contas publicadas!...), embora consultoras especializadas
refiram 36%, como vimos no gráfico acima. Em 2009 o SIFIDE foi reforçado,
elevando de 20% para 32,5% o valor dedutível em IRC das despesas declaradas em I&D, que incluem "...contributos para fundos de investimentos, públicos ou privados, destinados a financiar empresas dedicadas sobretudo a I&D" ou seja, o capital de risco, e com o simultâneo crescimento da despesa
declarada pelas empresas, pode estimar-se na ordem dos 400 Milhões de € anuais
o valor do crédito fiscal para I&D concedido pelo Estado,
a partir de 2010 (1/3 dos 1200 M€ de alegada despesa empresarial em I&D alardeada pelas estatísticas oficiais)! Todo o edifício legislativo que suporta estes encargos foi delineado na anterior legislatura, mas a actual não alterou nada do rumo traçado continuando a garantir os créditos fiscais do SIFIDE, agora "SIFIDE II" (OGE para 2012)...Um segundo indício de ficção é o tipo de empresas em que se terá verificado a referida explosão de actividades de I&D, e que é documentado num relatório provisório de 2008 do GPEARI: o principal investidor terá sido o dos Serviços Financeiros e Seguros (260 M€, 25%!), verificando-se na Energia um salto de 88 vezes, mas simultâneamente aqueles Serviços apenas empregavam 22 doutorados, dos quais nenhum contratado no período assinalado, e a Energia 7 (dos quais 3 foram aliás dispensados nesse mesmo biénio)...
Infelizmente, este investimento das empresas em I&D
não se traduz num grande progresso em vendas, como se ilustra na figura
seguinte; apenas 6,3% das empresas reportam aumentos de vendas superiores a
100% (contra 21,7% da média europeia) como fruto desse investimento, e 56%
indicam mesmo nenhum aumento, contra
42% da média europeia!
Ora um aspecto particular da composição do investimento
em I&D declarado pelas empresas portuguesas é a elevada parcela de
despesas de capital, em que se alinha com países com bem menores custos
salariais que o nosso, conforme se ilustra na figura seguinte. Estes factos
contribuem para reforçar a suspeita de que muita da I&D empresarial
declarada para efeitos de créditos fiscais é duvidosa e de que o sistema é
propício a isso, razão por que alguns países, como a Polónia, aboliram simplesmente
os descontos fiscais da I&D, substituindo-os por cofinanciamentos
directos a projectos específicos, como se fez por cá com a Medida 3 do PEDIP II nos
anos 90.
Certamente procurando retorquir às suspeitas por mim levantadas desde há 3 anos, a Directora à época do GPEARI, o organismo que, na FCT, organizou a
aplicação do SIFIDE, a socióloga Prof.ª Maria João Rosa, veio reconhecer, há alguns meses,
que efectivamente o que se passou foi o alargamento do conceito de I&D à
meramente incremental nuclear, de simples manutenção de produtos e serviços, assim como às
actividades administrativas e outras conexas. Maria João Rosas invoca o "manual Frascati" como base para a definição do que é I&D o qual, claro, inclui o desenvolvimento incremental - mas nem isso justifica que toda a I&D empresarial incremental seja subsidiada, nem cria critérios claros para a separar do que é mera engenharia ou até a simples importação de protótipos de demonstração...! Ou seja, foi efectivamente o relaxamento do
grau de exigência nos critérios de classificação da I&D que criou o enorme aumento da I&D empresarial das estatísticas, e não um aumento real...
Cumpre a propósito do texto da Prof.ª João Rosas notar ainda duas coisas: 1º, que os critérios de classificação da I&D em investigação "fundamental", "aplicada" e "experimental" denotam o academismo dos autores da classificação; a gestão de I&D business-oriented o que distingue, na terminologia internacional são, como fizemos na parte I, o desenvolvimento "incremental nuclear" (manutenção e correcção de produtos existentes), o "incremental complementar" (de novos produtos, ou novas versões de produto, para o mesmo mercado, ou de variantes para novos mercados, mas em que a novidade só existe para a empresa), e o "disruptivo", ou "radical" (desenvolvimento de produtos inovadores em absoluto, portanto criadores de novos mercados). Não faz sentido os contribuintes subsidiarem o desenvolvimento incremental nuclear porque uma empresa que não consiga corrigir e manter os seus produtos ou serviços não é pura e simplesmente sustentável!...
Em 2º lugar, embora algo na moda na Comissão Europeia, o sistema de créditos fiscais à I&D empresarial tem sido objecto de diversos estudos internacionais quanto à sua eficácia. O paper identificado em [v], por exemplo, mostra que um desconto fiscal de 10% da despesa de I&D empresarial apenas induz um acréscimo real dessa despesa em 1%, que é portanto largamente invariante à subsidiação, e que os seus benefícios só são tangíveis enquanto elemento de atracção de I&D empresarial estrangeira. Poder-se-á legitimamente suspeitar, portanto, que tal sistema no caso português visou prioritariamente a criação artificial de êxitos estatísticos, alardeados na véspera das últimas eleições.
Em conclusão, na situação financeira em que se encontra o
Estado português, os créditos fiscais proporcionados pelo SIFIDE à I&D empresarial
constituem um encargo para os contribuintes de duvidosa eficácia, embora se compreenda a satisfação das empresas beneficiadas por mais este subsídio governamental. O sistema, efectivamente, cria um "buraco escondido" nas contas públicas, aumentando em perto de 400 milhões de € anuais as perdas actuais ou futuras do Estado em IRC, sem que haja qualquer evidência de que tal produza um benefício sustentável na competitividade da economia nacional.Cumpre a propósito do texto da Prof.ª João Rosas notar ainda duas coisas: 1º, que os critérios de classificação da I&D em investigação "fundamental", "aplicada" e "experimental" denotam o academismo dos autores da classificação; a gestão de I&D business-oriented o que distingue, na terminologia internacional são, como fizemos na parte I, o desenvolvimento "incremental nuclear" (manutenção e correcção de produtos existentes), o "incremental complementar" (de novos produtos, ou novas versões de produto, para o mesmo mercado, ou de variantes para novos mercados, mas em que a novidade só existe para a empresa), e o "disruptivo", ou "radical" (desenvolvimento de produtos inovadores em absoluto, portanto criadores de novos mercados). Não faz sentido os contribuintes subsidiarem o desenvolvimento incremental nuclear porque uma empresa que não consiga corrigir e manter os seus produtos ou serviços não é pura e simplesmente sustentável!...
Em 2º lugar, embora algo na moda na Comissão Europeia, o sistema de créditos fiscais à I&D empresarial tem sido objecto de diversos estudos internacionais quanto à sua eficácia. O paper identificado em [v], por exemplo, mostra que um desconto fiscal de 10% da despesa de I&D empresarial apenas induz um acréscimo real dessa despesa em 1%, que é portanto largamente invariante à subsidiação, e que os seus benefícios só são tangíveis enquanto elemento de atracção de I&D empresarial estrangeira. Poder-se-á legitimamente suspeitar, portanto, que tal sistema no caso português visou prioritariamente a criação artificial de êxitos estatísticos, alardeados na véspera das últimas eleições.
NOTAS
[v] Nick Bloom et al, ""Do R&D Tax Credits work? Evidence form a panel of countries, 1979-1997", Discussion Paper nº 2415, Centre for Economic Policy Research, London, 2000.
[i] Nuno
Boavida, “Portugal e a economia do conhecimento - A despesa empresarial em Investigação e Desenvolvimento
(Draf paper)”, Universidade
Nova de Lisboa, Maio de 2008
[ii] “7º Barómetro do financiamento da Inovação
2011”, ALMA Consulting Group, Outubro de 2011.
[iii] FCT, GPERAI, “ANEXO: DESPESA EM I&D E Nº DE INVESTIGADORES EM 2007 EM PORTUGAL”, Dezembro de 2008.
[iv] FCT,
GPEAR e ADI, “SISTEMA DE INCENTIVOS
FISCAIS À I&D EMPRESARIAL: 2006-2008”, Fevereiro de 2010.[iii] FCT, GPERAI, “ANEXO: DESPESA EM I&D E Nº DE INVESTIGADORES EM 2007 EM PORTUGAL”, Dezembro de 2008.
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terça-feira, junho 19, 2012
I&D para a COMPETITIVIDADE NACIONAL - parte II
1.2
I&D TECNOLÓGICA DISRUPTIVA
Em Portugal, seguindo algumas correntes estrangeiras mal digeridas e à margem da realidade económica, tem havido nos últimos anos uma hipervalorização da I&D disruptiva, ainda por cima quase sempre associada à ideia de que ela requer a criação de novas empresas: “Inovação” e “Empreendedorismo” passaram a ser palavras geminadas.
Ora, como tem sido
notado por diversos autores[i], esta hipervalorização
assenta na ideia de que as práticas científicas e industriais são “um fluxo linear em que as ideias emergem
primeiro na investigação fundamental e depois atravessam sucessivamente as
fases de desenvolvimento, demonstração e comercialização – sendo cada etapa
subsequente caracterizada por uma prioridade crescente da implementação sobre
a inovação. Por outras palavras, o potencial inato para a disrupção é
atribuído à investigação fundamental inicial – o resto será apenas execução.”
Como também está bem identificado, esta visão resultou historicamente do
divórcio entre os investigadores e a actividade produtiva, em
laboratórios de Universidades, do Estado e mesmo de algumas empresas.
A realidade,
porém, é que a parcela média de despesa em I&D disruptiva feita por empresas
que fazem I&D em países como os EUA é de apenas 10%, e mesmo em empresas
de alta tecnologia (mas já estabelecidas) esse valor anda pelos 15% (70-20-10% são os
valores médios gerais de despesa em I&D respectivamente incremental
nuclear, incremental complementar e disruptiva, sendo particularmente típica
dos sectores industriais). Embora os proveitos provenientes dessas despesas
sigam a proporção inversa da dos recursos investidos, a razão por que, sendo
tão gratificante o retorno da I&D disruptiva, esta não
absorve mais recursos nas empresas estabelecidas, é o facto de entre 90 a 99%
das tentativas de lançamento de novos negócios baseados em tal I&D falharem.
Este elevado risco que acompanha o alto retorno da R&D disruptiva deve ser um
considerando essencial na definição de políticas equilibradas de I&D.
a) Inovação e empreendedorismo, e capital de risco
Os exemplos de
sucesso de start-ups tecnológicas
baseiam-se na rara combinação de três capacidades: a “adivinha” do que é
desejável para o consumidor (ou mais formalmente, a identificação das
tendências sociais que guiam as mudanças de negócio), o conhecimento do que
é ou vai ser oferecido ao consumidor pelos players estabelecidos (as tendências de mercado), e o conhecimento
das possibilidades da tecnologia (e portanto do seu preciso estado de
desenvolvimento).
O conhecimento
das possibilidades da tecnologia é o que uma sólida formação escolar
pós-graduada em princípio fornece, nomeadamente os doutoramentos e em
particular se eles contiverem componentes curriculares que alarguem horizontes
facilitando a fecundação cruzada de conhecimentos[ii]. Dificilmente uma
licenciatura de 5 anos rebaptizada de mestrado e onde níveis elevados de
exigência são desencorajados pode fornecer tal formação.
Por outro lado, o
conhecimento das ofertas possíveis no mercado pelos players existentes, e a “adivinhação” dos desejos desse mercado,
dificilmente podem ser obtidos fora do universo empresarial e muito menos em
laboratórios destituídos de espírito comercial!
Por estas
considerações, pensamos que o modelo de fomento da “Inovação e Empreendedorismo”
que vem sendo praticado há mais de uma década, baseado em “cursos” desses
temas e na promoção de parcerias entre Universidades portuguesas e
norte-americanas (por exemplo, MIT-Portugal), não aborda as necessidades reais
de criação da cultura de inovação pretendida. Pelo contrário, pensamos que
contribuirão muito melhor para a composição dessa cultura:
·
O
reforço do grau de exigência e profundidade do ensino pós-graduado. É duvidoso
que o modelo de Bolonha possa garantir generalizadamente tal formação, o que recomenda
o retorno ao apoio de doutoramentos integralmente realizados nos EUA para os
jovens mais promissores[iii];
·
O
encorajamento de formações pós-doutorais através do trabalho em empresas High-Tech nacionais ou estrangeiras, e
não em Universidades, de modo a que a formação escolar seja complementada pela
experiência de I&D visando a criação de riqueza[iv].
Tendo a ideia de
que é bom associar “Inovação” (disruptiva) à criação de novas empresas
conduzido à criação de “ninhos de empresas”, “incubadoras” e capital de risco, vale a pena notar que a simples preferência pela juventude não
garante um maior gosto pelo risco (com sentido de responsabilidade) da
inovação, sendo de sublinhar que:
·
O
famoso espírito do “Sillicon Valley” que inspirou a criação de parques
tecnológicos por todo o mundo e também cá, não é replicável em Portugal. Tem
raízes culturais no espírito pioneiro dos garimpeiros do ouro californiano e
liga-se a um culto de risco que atravessa todos os aspectos da vida dos seus
“militantes”, associada à tradição anglo-saxónica de saída de casa aos 18 anos
e de que os “campus” universitários são uma clara expressão[v].
·
O
capital de risco do “Sillicon Valley” é gerido por gente que partilha a mesma
cultura de risco da comunidade tecnológica das empresas do vale, e que a
conhece bem. Mas, como é evidente, os verdadeiros empreendedores do Vale
procuram minimizar o recurso a capital alheio, trabalhando frequentemente em
condições duríssimas de prazos e parcimónia, o que requer uma atitude oposta à
do facilitismo!
A taxa de
fracasso das start-ups tecnológicas é superior a 90%, pelo que o elevado retorno
das que têm sucesso só é gerível com risco moderado em universos de grandes
números, o que dificilmente se poderá verificar num país com a dimensão de
Portugal a menos que ele seja gerido como um todo, nesta matéria. Por outro lado,
mesmo quando bem-sucedidas, as Start-Ups
são frequentemente financeiramente frágeis, vindo a defrontar-se com o dilema
de recusarem crescer para que os fundadores não percam o respectivo controlo,
o que as impede de se tornarem relevantes (entre inúmeros exemplos nacionais
desta típica opção, cite-se a Fatrónica, sediada no TagusPark e criada pelo
antigo Director de I&D da CENTREL), ou de aceitarem participações de
capitais alheios ou mesmo a venda, o que muitas vezes depois as “mata” (a título
de funesto exemplo, recorde-se a ChipIdea).
É finalmente de
notar que quando uma nova tecnologia disruptiva se estabelece universalmente,
a sua expansão comercial e maturação tecnológica relacionam-se numa conhecida
função “em S”, em que na fase de crescimento do “S” a expansão comercial é
rápida e fácil mesmo sem grande competitividade tecnológica. Porém,
invariavelmente após a fase de expansão rápida ocorre a “zona de saturação do
S”, em que a competição se encarniça e só as empresas verdadeiramente
competitivas subsistem. A História das empresas de tecnologias informáticas é
cheia de exemplos de tais casos, atestando uma característica das empresas de
I&D disruptiva que cavalgam grandes ondas mundiais: a volatilidade
tecnológica.
b) I&D disruptiva em empresas estabelecidas e Spin-offs
Conduzindo as
considerações anteriores à óbvia conclusão de que a I&D tecnológica
disruptiva tem muito melhores condições de adesão à realidade comercial e de
sustentabilidade financeira se produzida em empresas já existentes, de
preferência sólidas, é também um facto que tal I&D suscita, nessas
empresas, dificuldades de gestão, diferentes das da I&D incremental.
Além de requerer
um tipo de investigadores diferentes dos da I&D incremental, mais instruídos científico-tecnologicamente
e mais visionários comercialmente (têm de trabalhar sobre o que será o
futuro, e não sobre o presente já existente, ainda que fora da empresa, como na
I&D incremental), pelo seu próprio carácter de aposta radical tendem a suscitar
anti-corpos nas estruturas já existentes nas empresas, o que por sua vez requer
também uma gestão excepcionalmente habilitada e apoio ao mais alto nível.
Algumas grandes
multinacionais da indústria mostram como a integração da I&D disruptiva e
da exploração dos seus resultados é melhor conseguida autonomizando a gestão
das novas áreas de negócio abertas pela I&D disruptiva. A criação de spin-offs vinculadas às empresas-mãe mas
com cultura própria é frequentemente a solução ideal, o que infelizmente entre
nós raramente é bem tolerado pelas estruturas empresariais pré-existentes nem
compreendido pelos seus gestores[vi].
Inversamente, uma
forma de aquisição de tecnologia avançada e de capacidade de I&D disruptiva
bem-sucedida comercialmente por parte de empresas estabelecidas é a compra de
empresas tecnológicas, sobretudo na fase intermédia do desenvolvimento destas,
quando já demonstraram o valor comercial das suas realizações mas lhes falta a
capacidade financeira para a consolidação de estruturas de produção e/ou
vendas. A integração e controlo dessas empresas adquiridas, porém, é uma arte
difícil que raramente tem sido bem praticada entre nós, levando frequentemente
à destruição de equipas de I&D e, com isso, à das próprias aquisições.
Essencial para o sucesso de tais aquisições é a capacidade de enquadramento a
contento mútuo dos “ases” que geralmente dinamizam as referidas equipas de
I&D[vii].
Em todo o caso, a
origem empresarial de spin-offs tecnológicas confere muito maior
probabilidade de sucesso e sobretudo de rentabilidade que a origem universitária![viii]
1.3 PROPRIEDADE INTELECTUAL,
PROJECTOS DE I&D COOPERATIVOS EUROPEUS E NORMAS TÉCNICAS
a) Propriedade Intelectual: patentes e segredo
Uma das métricas
de avaliação da inovação empresarial de um país é a contabilização do número de
patentes registadas pelo mesmo. Portugal é particularmente deficiente nessa
métrica, conforme se ilustra graficamente na figura seguinte, que mostra a
evolução aproximada na última década do número de patentes registadas, per capita, em alguns países da
União Europeia (a linha superior, a azul, é a média geral per capita da Europa de 502 milhões de
habitantes, e que é igual a 22 vezes
a portuguesa, per capita)[ix].
O gráfico mostra também que a taxa de patentes concedidas à Grécia
se confunde com a nossa, ambas estagnadas desde há uma década, que a de
Espanha é cerca de 3,5 vezes a portuguesa
(per capita!), e que em contraste com
estas as da Chéquia e da Polónia mostram um progresso sustentado, tendo a
checa ultrapassado a portuguesa e a grega em 2006 e aproximando-se rapidamente
da espanhola, enquanto a polaca está já a meio caminho da nossa e da grega,
tendo acelerado também a partir de 2006.
O gráfico não
mostra, por razões de escala, as taxas dos países campeões e que ultrapassam
largamente a média da EU-502: a Alemanha, a Suécia, a Dinamarca e a Finlândia,
todos com taxas similares e de cerca de 60
vezes a nossa (per capita!),
seguidos de perto pela Holanda. O país com maior taxa de patentes per capita, porém, é o Luxemburgo, com
quase o dobro dos seguintes, atestando que o registo de patentes tem mais a ver
com competição comercial (de produtos tecnológicos) do que propriamente com a
produção da tecnologia em si.
O Governo
português da década anterior, consciente da fraqueza nacional nestas estatísticas,
procurou melhorá-las, produzindo e aprimorando o Código da Propriedade Industrial
(CPI) e criando diversos incentivos ao registo de patentes, nomeadamente na carreira
docente universitária. Foi até grandemente reforçado o “Instituto Nacional da Propriedade Industrial”, com um pesado staff, mas o gráfico que apresentamos
demonstra que estas iniciativas não tiveram qualquer resultado, apesar de ter
crescido grandemente o número de pedidos
de patente (mas não o de concessões): enquanto a relação média de concessões
por pedidos é de cerca de 50% na União, em 2003 e 2008, por exemplo, Portugal
submeteu respectivamente 65 e 144 pedidos[x], mas só lhe foram concedidos
30 e 26, respectivamente; o número de pedidos cresceu dramaticamente, mas o de
concessões, nada! Verdade se diga que taxas de rejeição semelhantes
se verificam em todos os países mais atrasados, incluindo a Grécia e a
Chéquia e pior ainda a Polónia, mas para o Luxemburgo a taxa de concessões é
da ordem de 90%!
Acontece que dos
65 e 144 pedidos de patentes feitos por Portugal em 2003 e 2008, apenas
respectivamente 10 e 16 o foram em produtos de alta tecnologia, e que essa tendência é geral; com efeito, o
próprio EPO reconhece essa baixa percentagem de patentes de alta tecnologia, o
que justifica assim: “The considerable
reduction in high-technology patent applications filed with the EPO may
reflect the length of patent procedures. Given the increasing speed of
technological change and the rapid pace at which imitators are able to bring
new technologies to market, it may be that enterprises increasingly choose to
invest in continued innovation alongside patent protection.” A experiência pessoal confirma esta escolha também pelas nossas
empresas-estrelas.[xi]
O registo de
patentes, com efeito, não mede a inovação tecnológica de um país: o que mede é
a agressividade competitiva internacional das suas empresas comercializadoras de produtos com
tecnologia proprietária!
Acresce ao esclarecido anteriormente que as estatísticas
internacionais mostram que, por exemplo na I&D em genética, 97% das patentes nunca chegam a ser
comercializadas, e que em geral 10% apenas da totalidade das patentes geram 85%
de todos os proveitos. Na realidade, como nota um estudo recente, “... not all firms doing R&D
patent their innovations. In
fact, fewer than 50% of firms engaged in R&D file patents in any given
year. Moreover, even among patenting firms, few of them patent all their
innovations. It’s often more effective
to protect intellectual property by keeping it a trade secret.”[xii]
O segredo
tecnológico tem outras vantagens cruciais sobre as patentes como garantia
de protecção da propriedade intelectual: é de aplicação expedita, rápida e
barata, e sobretudo pode cobrir os resultados da I&D incremental, aquela
que sendo ou não patenteável incorpora o precioso know-how resultante dos 90% de investimento em I&D que
efectivamente as empresas fazem[xiii]!
Infelizmente, o nosso CPI e o INPI, que tanto detalhe e
meios dedicam ao registo de patentes (sem resultados), tem apenas um artigo
mal construído (318º) dedicado à “protecção
de informações não divulgadas”, e prevê como pena para a respectiva
violação uma multa irrisória (art.º 331º), em discrepância
relativamente à Lei 109/91 (actualizada pela 109/2009) que protege a
propriedade intelectual do software,
e que prevê uma (ligeira) pena de prisão para a violação dos respectivos segredos!
Numa altura (2011) em que foi criado um Tribunal específico para a Protecção da
Propriedade Intelectual, é patente o divórcio entre a realidade económica e as
concepções estatais de Propriedade Intelectual!
Rever a legislação da Propriedade Intelectual de modo a
dar ao segredo tecnológico a
primazia que ele merece como protecção do know-how
para a competitividade económica, prevendo nomeadamente a extensão e precisão
do seu âmbito e um substancial agravamento das penas previstas na legislação, é
a medida que se afigura mais útil. Simples, útil, e bem mais barata que o
registo de patentes... Tanto mais que o registo de patentes tem uma fraca
correlação com os proveitos das empresas que os gerem, e fraquíssima
probabilidade de se traduzirem em rendimentos para instituições não empresariais
quando são estas a registá-las, pela incapacidade de tais instituições
monitorizarem a sua violação nos mercados internacionais e sustentarem os correspondentes litígios.
Com efeito, só empresas sólidas têm o domínio de mercado
internacional e as estruturas jurídicas, técnicas e financeiras necessárias à litigação
defensiva das patentes, o que raramente se aplicará a empresas portuguesas. O
gráfico anterior ilustra-o. Para as pequenas empresas tecnológicas de países
atrasados como o nosso, o conteúdo tecnológico das Inovação ganhará mais a
estudar patentes alheias do que a registar patentes próprias! E, passe o cinismo, também ganhará mais a espiar os segredos tecnológicos de empresas estrangeiras do que a registar patentes para embelezamento estatístico (é o que fazem esses estrangeiros, como toda a gente sabe)...
b) Projectos de I&D europeus
Desde o final dos anos 80, quando da adesão à União
Europeia, que Portugal tem participado nos programas comunitários de I&D,
dotados de consideráveis meios financeiros (os programas-quadro têm tido
orçamentos anuais da ordem dos 5 Bis-€).
Esses programas têm entretanto evidenciado as seguintes características:
·
Do
ponto de vista da União, praticamente nenhuma
tradução em aumento da competitividade de qualquer das suas economias, seja
pela criação de novos produtos, seja pela aquisição de competências
tecnológicas; as razões identificadas são: a) as áreas de projecto são
definidas politicamente pela comissão, e não pela “adivinhação” dos desejos do
mercado; b) 2/3 dos participantes não têm orientação comercial (Universidades e
Institutos); c) Para 1/3 dos participantes, estudos mostram que as verbas
obtidas não cobrem sequer os custos incorridos.
·
Ainda
que não tenham promovido a competitividade económica da Europa, estes programas
têm contribuído para a sua competitividade científica, de que outros beneficiam
economicamente;
·
Para
Portugal, estes programas têm constituído importantes fontes de financiamento
das Universidades, laboratórios de Estado e Institutos, libertando assim o
Orçamento Geral do Estado de tais funções;
·
Porém,
os custos de oportunidade da
participação nacional nestes projectos não está quantificada mas são enormes:
enquanto alocados a estes projectos, os recursos nacionais de I&D das
Universidades, Laboratórios e Institutos não contribuem para a competitividade
nacional, e em particular para a das suas empresas de bens transaccionáveis.
Do exposto,
resulta claro que a menos que não haja utilidade para os recursos nacionais de
I&D empenhados nos programas europeus (não haja custos de oportunidade), os
respectivos projectos são mais perniciosos do que benéficos para a
competitividade nacional. A única forma de a participação nacional em
projectos de I&D europeus ser positiva, pelos financiamentos obtidos, é
ela ser oportunista, isto é, permitir o desenvolvimento de tecnologias e/ou
competências previamente determinadas como necessárias para a estratégia de
empresas nacionais, oportunismo saudável de que há alguns exemplos[xiv].
c) Normas técnicas e Ordem dos Engenheiros
Um eficaz meio de criar proteccionismo a mercados
tecnológicos é a imposição de normas técnicas. A Alemanha, por exemplo, tem
uma longa e frutuosa tradição de criação de normas técnicas nacionais (por
exemplo, as normas DIN), que frequentemente são depois adoptadas
internacionalmente (por exemplo, as normas CEI e CENELEC), até pela boa
fundamentação técnica inicial das normas alemãs. Da poluição automóvel à
respectiva segurança, passando pelas medidas contra as emissões de CO2, a
Alemanha sempre usou a normalização e a exigência de compatibilidade com a
mesma como forma de proteger os mercados em que a sua indústria é
tecnologicamente superior.
Em geral os EUA seguem processo similar com normas quase
sempre diferentes das da Alemanha, a cujos produtos assim criam barreiras,
sendo exemplo elementar o uso da frequência de 60 Hz em vez dos 50 Hz do resto
do mundo.
No espaço europeu, grande parte das normas são
comunitárias, mas mesmo assim muitos países têm comités técnicos nacionais que
produzem versões nacionais das normas europeias, frequentemente
adicionando-lhes alguma coisa que cria protecções específicas aos seus
fabricantes, especialmente em produtos de nova tecnologia em que as normas
internacionais não estão ainda maduras. Portugal, porém, há muito que não tem
qualquer comité técnico activo, limitando-se o Instituto Português de Qualidade
a traduzir ipsis verbi as normas
europeias para português, enquanto os poucos acompanhantes portugueses do que
se faz nos comités europeus se dedicam essencialmente, ao que parece, a
viajarem à conta dessas participações e pouco mais...
Existem em particular normas relativas a aspectos de
segurança (por exemplo, contra acidentes no trabalho) e de qualidade técnica de
novos produtos (por exemplo, normas de ligação à rede pública da geração de
energia renovável) em que Portugal é praticamente omisso, com graves prejuízos
públicos. Promover a participação activa de Portugal na nacionalização das
normas técnicas europeias, também para se saber influenciar a produção destas,
é um requisito tecnológico que deve ser promovido em parceria com empresas e
serviços utilizadores, empresas produtoras e a comunidade tecnológica nacional.
Esta actividade normativa é, em princípio, da
responsabilidade do Estado. Porém, é facto que o Estado se deixou
“descapitalizar” intelectualmente desde a Revolução de 1974/75, e existe outra
solução, muito praticada nos EUA: a de promoverem as ordens
profissionais, mais do que a defesa corporativa de certos sectores mais ou
menos minoritários das profissões que representam, essa
normalização técnica e também a educação permanente da classe.
Em Portugal a Ordem dos Engenheiros poderá desempenhar
esse papel, aceitando deixar de se limitar a ser a organização de defesa
corporativa dos engenheiros civis e alargando o seu âmbito de actuação,
estimulando também a educação da classe com cursos, conferência especializadas
e revistas, à imagem do que se faz nos EUA. Com uma organização e modos de
funcionamento transparentes e abertos, a Ordem poderá assegurar o consenso
técnico para as suas propostas normativas, prestando também e assim um serviço
ao Estado[xv],
ao mesmo tempo que pode dar um contributo à difusão da cultura tecnológica
nacional nas empresas, para o que não há nenhuma outra entidade vocacionada.
NOTAS
[i] Por
exemplo:
http://andrewhargadon.typepad.com/my_weblog/2012/03/the-breakthrough-bias.html
[ii] É
famoso o facto de Steve Jobs, o criador do MacIntosh, dever parte da sua
inspiração para a interface gráfica do mesmo ao facto de ter frequentado uma
disciplina de caligrafia quando
estudante universitário...
[iii] Nos
EUA, os bacharelatos de espectro largo são de 4 anos, a que se seguem os mestrados
especializados de 2 anos. Além de terem mais um ano que o modelo de Bolonha
praticado entre nós, há um notável acréscimo de complexidade nos temas
ensinados, razão por que apenas 1 em 4 bacharéis prossegue para o mestrado nos
EUA, ao contrário do que sucede ente nós com a fórmula dos “mestrados
integrados”. Finalmente, os doutoramentos requerem em regra mais 1 ½ a 2 anos
de formação curricular pós-graduada, antes da preparação da tese. Embora em
anos recentes esta exigência dos doutoramentos americanos tenha vindo a ser
afrouxada, ainda requer tipicamente mais 1 ½ a 2 anos de estudo curricular
avançado que os nossos, continuando a ser unanimemente considerados os melhores
do mundo, enquanto os nossos doutoramentos se podem agora legitimamente considerar
equivalentes apenas aos mestrados americanos.
[iv] Já
há uns 20 anos que tivemos a oportunidade de conviver com diversos doutorados
em Universidades dos EUA, de origem asiática, que depois dos seus
doutoramentos procuravam avidamente experiências de trabalho em empresas
High-Tech, onde juntavam à formação escolar obtida a experiência de a
transformar em riqueza. Manifestando nisto uma clara assimilação da cultura
americana, muitos deles voltaram mais tarde aos países de origem para
replicarem os negócios que tinham aprendido, contrastando com a nossa tradição
de maior academismo e apego ao respectivo status.
[v] Temos
amigos próximos que são típicos do “Sillicon Valley” e com quem visitámos
algumas empresas carismáticas do Vale. O espírito dos quadros das start-ups, que trabalham imenso em
condições duríssimas, é o de que se os seus produtos tiverem sucesso, se os
conseguirem desenvolver no tempo (curto) disponibilizado pelo capital de
risco, então as empresas valorizar-se-ão muitíssimo e eles ficarão ricos –
senão, restar-lhes-á procurar trabalho noutra start-up, quando o capital acabar. É o mesmo espírito que
impregnava os lendários garimpeiros das montanhas próximas no tempo da corrida
ao ouro. Além disso muitos destes quadros praticam desportos radicais e alguns
têm mesmo actividades acessórias como por exemplo pertencerem aos Seals...
[vi]
Exemplos particularmente bem-sucedidos encontram-se na SIEMENS. Pelo contrário,
exemplos mal sucedidos encontram-se em algumas experiências portuguesas.
[vii] Um
notável exemplo de uma aquisição bem feita foi a da empresa canadiana MULTILIN
pela GE. Com o fim da guerra fria e sob a liderança de Welsh, a GE voltou em
força ao mercado dos equipamentos de energia, constatando que em diversos
sectores perdera capacidade tecnológica. Num desses sectores (informatização de
Subestações) tentou desenvolver a tecnologia com uma equipa que possuía em
Espanha, usando fundos europeus, mas quando essa equipa terminou o projecto
abandonou a GE e, com o apoio de utilities
espanholas, criou a ZIF, uma pequena empresa altamente sofisticada sediada em
Bilbao e que tem tido grande sucesso internacional. A GE adquiriu então a
MULTILIN, uma empesa canadiana semelhante à ZIF mas, para não arriscar a
destruição da respectiva equipa de I&D, deu ao respectivo “ás” a direcção
do departamento da GE em que a MULTILIN foi integrada e manteve durante alguns
anos o nome da MULTILIN associado ao daquele Departamento. Só teve que o fazer
durante uns anos, até endogeneizar a I&D da MULTILIN. Em contrapartida,
foram várias as pequenas empresas e equipas tecnológicas adquiridas por uma grande empresa nossa conhecida
nos anos 90 que acabaram desmanteladas com prejuízo significativo para todos,
sem dúvida pela tentativa de se lhes impor uma integração mal-aceite pelas
estruturas já existentes e que lhes não respeitou a visão que os
respectivos “ases” tinham e a autonomia a que estavam habituados...
[viii] Um
recente estudo sobre a totalidade
das empresas high-tech resultantes de
spin-offs ocorridos na Suécia no
período de 1994 a 2001, mostra que a para as empresas cujos fundadores tinham
experiência empresarial além da académica, a taxa de sobrevivência ao fim de 5
anos era de 62% contra 53% das de
origem puramente académica, mas com uma diferença muito maior no volume de vendas,
proveitos e dimensão: o triplo! K. Wennberg et al., “The effectiveness of university knowledge spillovers: Performance
differences between university spinoffs and corporate spinoffs”, Research Policy, 40, 2011.
[ix] Fonte: EPO (European Patent Office).
[x] Vide:
http://epp.eurostat.ec.europa.eu/statistics_explained/index.php?title=File:Patent_applications_to_the_EPO_and_patents_granted_by_the_USPTO,_2000-2008.png&filetimestamp=20111201153523
[xi] Em 1995
criámos um método, durante o desenvolvimento das Protecções Digitais da EFACEC,
que era patenteável. A Administração da empresa, porém, considerou inútil o
registo da referida patente precisamente pela preferência considerada a dar ao
desenvolvimento rápido. Alguns anos depois tínhamos sido copiados, pelos franceses, mas isso não teve importância, porque tudo continuou a evoluir rapidamente. Vale entretanto a pena referir uma recente crónica jornalística que dava conta de dois jovens portugueses que tinham sido admoestados por trabalharem fora de horas em duas empresas, uma alemã e outra americana, por suspeita de espionagem industrial; a crónica visava ilustrar como os portugueses são dedicados trabalhadores e os estrangeiros até nos criticam por isso, mas o que realmente mostrava era a ignorância dos jovens referidos e do próprio cronista quanto à importância do segredo tecnológico e, como corolário, da espionagem industrial...
[xii] Anne Knot, “The thrillon dólar R&D Fix”, Harvard Business Review, May 2012.
[xiii] Existe
uma relação entre o uso do segredo como base da propriedade intelectual e o
explanado atrás a propósito da aquisição de start-ups
e de spin-offs: frequentemente, a
pequena empresa tem o seu valor num know-how
que pode não ser patenteável ou estar patenteado, mas se ele puder ser objecto
de segredo (por exemplo, através de documentos, modos operatórios ou outros),
tornam-se muito mais sólidas as aquisições ou spin-offs baseadas nesse know-how. Esse será o principal interesse da certificação (autêntica) dos processos de trabalho da spin-off ou start-up se acordo com a norma ISO 9001.
[xiv] Há mais
de 20 anos Portugal obteve a participação num projecto europeu com o objectivo
estrito de partilhar o respectivo financiamento, o projecto DIAS (“Distributed Intelligent Actuators and Sensors”).
Os seus principais actores, EDF e Hartman & Braun, tinham no projecto os
seus próprios objectivos oportunistas, não assumidos publicamente, de
desenvolvimento de tecnologias para centrais nucleares e certas industrias
químicas de alto risco, e a participação de Portugal, sendo-lhes imposta
politicamente, era difícil de integrar. Foi assim decidido que a Portugal
competiria um objectivo secundário e menor, o de desenvolver a Interface
Homem-Máquina do sistema, tema sem qualquer interesse científico para os participantes
universitários portugueses. Porém, estes envolveram a EFACEC no projecto, a
qual pretendia então desenvolver tecnologia para os sistemas de SCADA em cujo
negócio decidira vir a ser player
importante. Foi assim possível que o projecto DIAS constituísse um
financiamento interessante para o desenvolvimento pela EFACEC de tecnologias
e competências de Visualização gráfica e Bases de Dados em tempo real que ela
pouco depois começou a comercializar num domínio completamente distinto do do
projecto. O sucesso deste oportunismo exemplar muito deveu ao Prof. Ferreira de
Jesus do IST.
[xv] Nos EUA
abundam estas Ordens, ali denominadas de Associações e de Institutos, como a
dos Engenheiros Electrotécnicos (IEEE) ou a dos Petróleos, por exemplo. As próprias
normas estatais americanas, ou ANSI, são frequentemente adopções nacionais de
normas do IEEE e das outras Associações. Em Portugal, há cerca de 20 anos
houve um movimento com raiz no INESC que tentou imitar o IEEE na Ordem dos
Engenheiros, dinamizando um Colégio de Engenharia Electrotécnica que chegou a
editar uma promissora revista da especialidade contendo artigos divulgando
realizações tecnológicas da indústria nacional e da Universidade com aplicação
industrial. Porém, por razões que desconhecemos, essa iniciativa gorou-se e
não durou mais de um ano...
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