sexta-feira, outubro 23, 2009
Nada que não seja sabido, mas que há quem prefira não saber!
Diz o Fundo que é preciso compensar a floresta ardida com reflorestações, de modo a atingir-se um equilíbrio. Vale a pena notar que o que se tem passado é que onde as florestas ardem é no Sul, nos países subdesenvolvidos, e que onde são plantadas é no norte, nos países desenvolvidos.
Além da modificação do tipo de floresta que tal acarreta, isto mostra como o mito do bom selvagem original que os ecologistas utópicos (ou ecotópicos) gostam de acalentar, o mito de que é preciso regressar ao "equilíbrio natural" do homem primitivo, é mesmo um mito.
A verdade é que só o homem muito civilizado é que sabe que as actividades humanas perturbam o ambiente e é capaz de tomar medidas para o proteger; que é nos países civilizados que há parques naturais onde a fauna e a flora originais são preservadas, e mesmo os parques que existem a Sul só se mantêm por grande pressão dos povos do Norte.
Na Gorongoza, mal os colonos abandonaram Moçambique os nativos acabaram com os animais de "vida selvagem" que lá havia - sobretudo comendo-os.
Os maias da antiga civilização deram cabo dos terrenos que cultivavam até ao abandono das cidades (também resultantes do extermínio mútuo entre cidades que não aprenderam a fazer com o homem ociental)...
O mamute norte-americano desapareceu com a chegada do Homo Sapiens ao continente americano. E o homem de Neanderthal idem, na Europa...
Para Copenhague, o principal obstáculo a um acordo é o montante que se pretende que os civilizados do norte paguem aos povos do Sul para que estes poupem o seu próprio ambiente.
Infelizmente receio que vá ser muito difícil que qualquer acordo nessa matéria, caso se consiga, venha a ser cumprido.
quarta-feira, outubro 07, 2009
A explosão demográfica não é só responsável por 1/3 dos Gases de Efeito de Estufa


domingo, outubro 04, 2009
O nosso contributo incendiário para o efeito de estufa - com nota extra
Terá sido mais que nos 3 anos anteriores, mas muito menos que no ano record de 2003, em que ardeu quase 6 vezes mais.
Mesmo assim, os incêndios deste Verão terão emitido 1,3 milhões de toneladas de CO2 para a atmosfera, o que constituirá 1,6% do total de emissões portuguesas que, como habitualmente, não considera estas e outras emissões resultantes do uso do solo. Isto, considerando modelos desenvolvidos no Instituto de Agronomia de Lisboa em 2006.
Mas, só a Central a carvão de Sines, já bastante velha, emite em menos de 2 meses de funcionamento tanto CO2 como o total destes incêndios, o que tem sido justificado para a ir usando cada vez menos, em benefício das eólicas e das hidroléctricas de armazenagem que as servem e, sobretudo, das de ciclo combinado a gás natural.
---
Incentivado por uma pergunta de um comentário, fiz uma busca que me permitiu descobrir que, além do cálculo feito no Instituto de Agronomia para 2003 e que citei na resposta a esse comentário, existe um amplo e sério trabalho feito continuadamente sobre o assunto na Universidade de Aveiro, sob a direcção dos Profs. Ana Miranda e Carlos Borrego.
Um trabalho deste grupo já com uns anos, estimava em 10% a contribuição dos fogos estivais para os GEE em Portugal: além do CO2, todos os outros gases estão presentes nesses fogos, do metano aos nitritos, alguns dos quais agentes muito piores do Efeito de Estufa!
Trabalhos mais recentes desse grupo de Aveiro e outros mostram duas coisas: a) que os fogos libertam também outros elementos nocivos e cuja concentração atmosférica nas grandes cidades portuguesas tem uma clara correlação com a ocorrência desses incêndios, como o Ozono e o mercúrio; b) que, tal como noutros países industrializados, se verifica uma tendência imparável para o aumento anual dos fogos. Na Coreia isso é correlacionado com as próprias práticas de reflorestação pós-incêndios.
Estes factos, pouco conhecidos, já os tinha aflorado aqui.
domingo, setembro 27, 2009
Um cientista céptico
Não é o assunto central deste blog, a climatologia, mas se há coisa que tenho subcrito aqui é a de que há que ter calma e não embarcar em fantasias e extremismos ecotópicos!
Bjorn Lomborg também sonha com a razão.
No entanto, sou menos pessimista que ele quanto à Conferência de Copenhague e aos seus preparativos. Como o Presidente Obama, penso que será sempre um grande progresso político a Humanidade entender-se para resolver um problema comum. Se haverá um progresso climático, não sei, mas o próprio consenso político, a atingir-se, vale a pena destes esforços, porque o grande problema da Humanidade não é o clima - é o próprio Homem!
Como os negacionistas do Aquecimento Global são incansáveis na defesa das suas posições e me enviam imensos comentários, mas o meu programa de blog não passa por colocar esse tema no seu centro, anexo a figura acima que mostra as medições feitas pelos satélites da NASA para "remote sensing" do clima do planeta, sobre a temperatura da nossa atmosfera. Encontra-se aqui também uma boa introdução ao assunto para os interessados em se iniciarem no tema.
quarta-feira, setembro 16, 2009
O sonho da razão
Do lado oposto estão os que não reconhecem sequer a existência de alterações climáticas antropogénicas e até que haja algum aquecimento global em curso, que raciocinam como os criacionistas e que combatem "a grande conspiração do lobby ecológico", que odeiam de morte Al Gore e que, por alusões ouvidas na TV, concluo terem a concordância ideológica do PNR.
Existe também outra luta extremada, no que respeita às opções energéticas e obviamente associadas a interesses económicos mas também de protagonismo.
De um lado estão os militantes das energias renováveis, desde há uns anos dominando o panorama nacional e até o europeu, e cujos excessos tenho procurado mostrar.
Do lado oposto estão os advogados da opção nuclear, sobre a qual ainda não me debrucei aqui mas que tenho em agenda para breve, quando concluir algumas recolhas de dados que tenho em curso. De momento não emito nenhum juízo de valor; apenas constato que o que defendem é inaceitável para os ecotópicos e dificilmente aceitável também pela maioria dos Governos da União Europeia.
Entre estas lutas de extremos de ideologia e de interesses, sinto-me por vezes na pele de Azaña entre a FAI e a Falange, nos anos 30, cujo "sonho da razão" foi ignorado por quase toda a gente, na altura, e que teve de esperar 40 anos e meio milhão de mortos numa guerra inútil para ver Espanha adoptá-lo...
Espanha na véspera da guerra civil, por Dali
Eu não pretendo ser um especialista em climatologia. E é precisamente por isso que confio nas posições da ONU nesta matéria, e do seu Painel Inter-Governamental para as Alterações Climáticas (IPCC). Em quem haveria de confiar? Além disso parece-me plausível que o tremendo crescimento da população humana sobre um planeta finito o afecte. Como os vírus, que são pequeníssimos mas podem multiplicar-se ao ponto de matar o hospedeiro... E é aliás essa a explicação principal do próprio IPCC, que atribui metade do Aquecimento Global ao crescimento da população. A outra metade atribui-a à melhoria de vida dessa população crescente.
E depois, não me venham dizer que nos últimos 15 anos o Árctico está a arrefecer e que as observações da NASA que Al Gore nos divulgou são "tretas", que também não tenho paciência para quem nega o darwinismo!
Que haverá enviesamento nos editores das revistas científicas que recusam publicar o que saia do que se torna "politicamente correcto" nesta matéria, acredito. Ainda há dias vi no canal Odisseia a história de como a demonstração experimental de que a variação periódica da radiação cósmica afectava a formação de nuvens e, com isso, a reflexão da radiação solar e da temperatura na Terra, só conseguiu ser publicada à 4ª revista tentada (embora depois o assunto tenha sido largamente investigado concluindo-se que o tal efeito não podia explicar o Aquecimento Global em curso).
Muitos investigadores têm a experiência de como descobertas científicas que se chocam com consensos estabelecidos nos comités decisórios das revistas são em regra rejeitadas, inicialmente. E também sabemos que o mundo dos cientistas não é puro e isento: tem todos os defeitos de qualquer comunidade de humanos e é sobretudo dependente de quem financia as investigações, que, no que respeita à Ciência sem aplicação comercial, ou seja, no que respeita a financiamentos públicos, geralmente escolhe o que financia em função das modas e das crenças dominantes...
Por outro lado, há evidentes lobbies económicos e políticos por detrás das posições científicas que têm repercussões políticas.
As grandes petrolíferas começaram por negar o Aquecimento global e por convencer Bush que ele não existia - embora depois tenham concluído do interesse em passarem para o lobby contrário, onde agora se encontram promovendo as renováveis (para os media) e até financiando-as (como a BP Solar). Os criacionistas são, em geral, propensos a acreditar que se Deus fez o mundo como ele é, não o ia depois deixar aquecer (embora o senador McCain já não alinhasse nessas visões à Bush).
Mas também há lobbies das renováveis! E que cavalgam a onda ideológica "verde" para ganhar muito dinheiro à custa dos contribuintes!
Porém, e apesar de tudo isto e no que respeita à climatologia, acredito que é ainda dentro da sua comunidade científica que as visões divergentes têm de se confrontar. É assim que a Investigação científica funciona e sempre funcionou, mesmo quando os "good guys" são transitoriamente desprezados. Até Einstein, em 1927, se riu do jesuíta Lemaître e disse que o conhecimento de Física deste era "abominável", por ele lhe ter escrito a notar que da sua teoria da relatividade se deduzia ter havido um Big Bang e portanto uma origem do Universo, dois anos antes de Hubble constatar o desvio para o vermelho da luz das galáxias mais distantes...
Mas é curioso ver como ecotópicos e criacionistas se equivalem na psicologia e atitudes.
Os criacionistas negam o Aquecimento global e dizem que tudo o que se publica cientificamente sobre isso não passa de uma grande conspiração dos ecologistas e de interesses de lobbies industriais ligados às renováveis.
Mas há um outro domínio em que exactamente o mesmo comportamento se vê à esquerda, nos que afirmam teimosamente a existência de malefícios para a saúde pública resultantes das "radiações electromagnéticas" das linhas de Alta Tensão e que recusam terminantemente as posições da OMS (uma instituição tão da ONU como o IPCC) sobre o assunto, bem como toda a ciência que se publica sobre o assunto, acusando-a de estar vendida ao lobby das "eléctricas"...!
O Sonho da Razão é difícil de defender, neste mundo terreno de paixões...!
quarta-feira, setembro 09, 2009
Ainda sobre os Gases causadores de Efeito de Estufa: calma!
Sem pôr em causa os estudos do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC) da ONU, que sintetizam os resultados largamente consensuais da comunidade científica internacional, acho útil, entretanto, esclarecer que os referidos 85% exageram em muito o papel poluidor do uso dos combustíveis fósseis, como aliás eu já analisara aqui.
De facto, e segundo o próprio IPCC, de cujo relatório mais recente (2007) extraio a figura anexa, a estimativa de contribuição para os GEE dos combustíveis fósseis é pouco mais de metade. O resto vem sobretudo do uso dos solos, em última análise do enorme crescimento da população humana verificado sobretudo no último século, num planeta que é finito.

uinte.
segunda-feira, agosto 03, 2009
Fogos de Verão e lixo: da limpeza como alternativa ao carro eléctrico
No que respeita à desflorestação e ao uso agrícola da terra, o problema está quase todo no 3º Mundo o que, obviamente, o torna num problema político difícil, considerando os complexos de culpa ex-coloniais do 1º Mundo e a política "correcta" das boas consciências que acham que a culpa de tudo é nossa, os ocidentais.
Provavelmente quando se lê "desflorestação" pensa-se nos fogos da Amazónia. Mas a desflorestação no hemisfério Sul é muito mais que isso.
Nasci e cresci em África, a 1200 km do mar, na savana, e havia uma coisa que me maravilhava nas noites estreladas do cacimbo: o céu vermelho das queimadas no horizonte e o esplendor do fogo na savana. O fogo era tão belo que ainda hoje tenho na sala um quadro enorme a óleo de uma queimada nocturna africana, herança de família, pintado há quase 50 anos!
Depois, às vezes de dia, chuvia cinza durante horas, e era preciso refugiarmo-nos nas casas para não ficarmos todos enfarruscados. A administração colonial não gostava muito destas práticas, mas tolerava-as enquanto tradição indígena e deixava fazê-las umas quantas vezes por ano.
As queimadas eram a forma dos tchokwes caçarem. Faziam uma larga meia-lua de chamas na savana e os homens postavam-se na boca do fogo a apanharem toda a bicharada que fugia espavorida. Claro que era um método bárbaro: as queimadas matavam tudo o que não conseguia fugir, crias e rebentos de vegetação e, quando ainda eram a única forma de vida, passado algum tempo as tribos tinham que se deslocar para novas savanas ainda vivas, e eventualmente disputá-las pela força. Depois os colonos limitaram as queimadas e os tchokwes sedentarizaram-se, aprendendo a plantar a mandioca que os portugueses trouxeram do Brasil e que lá chegou com os caçadores de escravos do litoral, ainda antes da chegada dos colonos.
Ora com a descolonização e as guerras civis subsequentes, é claro que as queimadas voltaram em força. A diferença é que a morte da caça agora é feita com kalashnikovs, e já não com canhangulos de carregar pela boca e zagaias.
Outra diferença essencial é que agora sabe-se quão nociva é a prática das queimadas para o aquecimento global. Não é só o CO2 emitido durante a combustão da vegetação; é também a morte desta e o fim da função clorofila por uns tempos largos, após o fogo.
Ora em Portugal os fogos florestais de Verão têm o mesmo efeito. Qual a sua contribuição para o total de GEE emitidos, não está quantificado. Aparentemente isso interessa muito menos os ambientalistas do Estado do que os negócios dos terrenos e das concessões para as eólicas, visto que todos os estudos existentes e consultáveis sobre a emissão de GEE em Portugal bem como sobre as medidas para a sua mitigação reconhecem que lhes falta esse dado, mas não parecem preocupar-se com isso.
No entanto, já mencionei um estudo rigoroso que calculou, para 2003, o valor emitido pelos fogos florestais e que terá acrescido 9% às cerca de 85 Megaton de CO2 equivalente reconhecidamente geradas no país.
2003 foi um ano mau em fogos (400 mil hectares), mas a àrea ardida tem vindo regularmente a crescer, com máximos cada 5 anos, a uma média anual de 120 mil ha. Isto corresponde, portanto, a pelo menos 3% do total de GEE emitidos em Portugal, cerca de 1/7 do valor gerado pela totalidade do parque automóvel em circulação.
Os fogos florestais em Portugal resultam sobretudo da falta de limpeza das florestas, além da sua má ordenação. Não há incentivos para a limpeza da vegetação seca e morta que junca o solo das florestas, a biomassa, e que é o grande propagador do fogo.
Tem, por isso, muito interesse ambiental a ideia de promover a queima dessa biomassa para a produção de energia eléctrica (e de calor, na forma de cogeração). E foi, portanto e em princípio, louvável a iniciativa do Governo de pôr a concurso a construção de 15 centrais eléctricas a biomassa em 2006, totalizando uma potência de 100 MW. Não tanto pela pouca energia eléctrica a obter com isso, mas por criar um incentivo económico aos madeireiros e às empresas de celulose para apanharem também a biomassa dos eucaliptais, além da madeira. Nas centrais de biomassa, algumas poucas centenas de MW de potência eléctrica podem significar a redução de 2 a 3% de GEE emitidos, pelo efeito indirecto que elas têm na limpeza da floresta e, portanto, na prevenção dos fogos. Claro que a queima em si da biomassa nas centrais também produz CO2, mas muito menos que os incêndios florestais!
Porém, a ideia estava tecnicamente mal fundamentada, como infelizmente é habitual, e por isso falhou. Das 15 centrais a concurso, uma única está em construção, e das restantes a maioria nem sequer teve concorrentes. Em Abril passado, Marques Mendes indignou-se com a situação, mas ninguém lhe ligou. Provavelmente tinha razão quando disse: "O Governo nem quer saber disso, dá pouco nas vistas". E porque é que ninguém se interessou pelo "oportunidade" oferecida pelo Governo?
Porque o subsídio às tarifas era demasiado baixo e as centrais demasiado grandes. Porque para produzir alguns MW numa central de biomassa são precisas imensas àreas de floresta e muitas toneladas de biomassa, porque o poder energético desta é muito baixo. E portanto, as tarifas têm de ser pensadas para pagarem a apanha e transporte da biomassa. Mas não foram! Em Espanha paga-se 159 €/MWh pela energia assim produzida, quando em Portugal se oferecem apenas 108 €. Podem acusar-me de estar a defender maior subsidiação, quando tenho vindo a criticar os subsídios; mas neste caso é para poucos MWh, uma ínfima fracção da energia de origem eólica, e os benefícios indirectos são enormes! Não se trata apenas de evitar fogos e a emissão de GEE; a apanha da biomassa dá emprego, enquanto a do vento, não! Sem falar nos prejuízos evitados pelos incêndios que deixam de haver...!
Mais grave ainda do que passa com o desleixo em matéria de fogos florestais, é o desleixo em matéria de tratamento dos lixos. Toda a gente que viaja sabe que Portugal é um país sujo. Todos os turistas que nos visitam o afirmam, também. E por isso não admira que em Portugal o lixo seja responsável pelo espantoso valor de 8,5% dos GEE, sobretudo por causa do metano, que é 20 vezes mais nocivo que o CO2. Trata-se de um valor típico de países do 3º Mundo onde, mais uma vez, se encontra o principal crescimento desta forma de poluição atmosférica - sobretudo por via dos aterros.
O IPCC considera sensatamente que a melhor forma de reduzir a contribuição do lixo para os GEE é a reciclagem, que é também uma actividade economicamente rentável e geradora de empregos.
Porém, e no que respeita ao problema maior dos aterros e do metano que emitem, a co-incineração do lixo reduz a massa a enterrar deste para 1/4 e a àrea dos aterros para 1/10, reduzindo na mesma proporção os GEE emitidos. Embora emita CO2, a incineração queima o metano, que é muito pior que o CO2, e pode também ser utilizada para a produção de energia eléctrica, tal como a biomassa das florestas.
Em Portugal os ecologistas utópicos têm movido uma oposição encarniçada à co-incineração, sendo de reconhecer a correcta tendência do Governo nesta matéria. Porém, o progresso tem sido lento, e deve fazer parte de uma estratégia multi-facetada que contemple a reciclagem e o devido esclarecimento público.
Os relatórios do IPCC mostram que uma política de tratamento dos lixos correcta com a devida implantação da co-incineração, como é feita por exemplo na Alemanha e no Japão, pode reduzir muitissimo os GEE emitidos. A directiva europeia 1999/31/EC estipulou que até 2016 os Estados membros deverão reduzir em 2/3 (relativamente a 1995) o lixo orgânico aterrado. Não conheço medidas do Governo que tenham em conta tal objectivo.
Porém, a redução em 2/3 dos GEE emitidos em Portugal pelo lixo corresponderá à redução em 6% do total de GEE emitidos, o equivalente a 2/7 dos GEE emitidos pelo parque automóvel.
Pelo que, a simples limpeza do país (das florestas e do restante lixo ) poderá reduzir os gases de efeito de estufa emitidos em Portugal em quase metade do que emite todo o parque automóvel. De certeza que é muito mais sensato e produtivo limpar o país do que delirar com a rápida substituição do nosso parque automóvel por viaturas eléctricas!
sábado, agosto 01, 2009
Incêndios de Verão, lixeiras e carros eléctricos.
A maioria destes agentes das alterações climáticas provêem do 3º Mundo mas, em Portugal, os especialistas em ambiente estimam em de 10 a 30% a sua parcela - 20% sendo o valor mais provável.
A parcela destas emissões que é proveniente dos incêndios de Verão é algo que está mal estudado em Portugal, e algumas estranhas manipulações de dados não contribuem para a credibilidade das estimativas existentes. No entanto, e conforme os anos, alguns estudos pontuais sérios mostram que estes incêndios contribuem com de 5 a 10% para o total.
Ora os automóveis contribuiem, em Portugal, com cerca de 20% da emissão de gases.
Pelo que resolver o problema dos incêndios de Verão em Portugal seria equivalente, em termos de CO2 não-emitido, a substituir quase metade de toda a frota automóvel actual por carros eléctricos...
Se, além disso, se acabasse com as lixeiras portuguesas e o metano que emitem (20 vezes mais forte que o CO2 a gerar efeito de estufa), e que são responsáveis por mais 8,5% das emissões nacionais, ter-se-ia o equivalente à substituição da outra metade da frota automóvel por carros eléctricos!
Nota: os valores numéricos aqui indicados foram afinados num post subsequente, depois de ter consultado mais dados. A conclusão dessa afinação é que, em média, o tratamento do lixo e a prevenção dos fogos florestais não equivaleria à eliminação da totalidade das emissões do parque automóvel existente, mas apenas a cerca de metade. Mesmo assim...
terça-feira, julho 28, 2009
Contra o pós-modernismo energético: Manifesto anti-ecotópico
A ecotopia fantasia um futuro romântico que combina a vida frugal e saudável com a magia tecnológica.
A ecotopia visiona um quotidiano bucólico, cheio de pastos verdes com ovelhinhas "biológicas" e painéis fotovoltaicos nos telhados das casas rurais, acolhedoras e floridas.
A ecotopia imagina multidões a deslocarem-se calmamente de bicicleta pelas ruas das cidades coloridas a caminho dos escritórios.
A ecotopia devaneia com as paredes das suas futuras casas rurais decoradas com gravuras de torres eólicas em horizontes verdes, muito verdes e soalheiros.
Na ecotopia, não haverá engarrafamentos de automóveis, porque a magia tecnológica e a reformatação do homem novo terão abolido a necessidade de deslocações de automóvel.
Na ecotopia não haverá doenças, porque "a vida saudável" eliminará a poluição, os pesticidas e os adubos que as causam.
A ecotopia tem uma utopia: um mundo ecológico. Verde. Muito verde e feliz.
Os ecotópicos querem-nos cobrir os telhados das casas com painéis solares, mesmo que a electricidade daí resultante seja 10 vezes mais cara que a que actualmente pagamos e os painéis deixem de funcionar ao fim de 3 anos.
Para os ecotópicos só haverá energias renováveis: sol, vento e água.
Os ecotópicos querem-nos fazer comprar carros eléctricos para depois os deixarmos em casa a carregar e a descarregar as baterias para estabilizar a energia eléctrica que só haverá quando houver sol, ou vento, ou água nos rios.
Os ecotópicos depois vendem-nos as baterias desses carros eléctricos que teremos de mudar de 3 em 3 anos, mas retomam as baterias velhas para reciclar.
Os ecotópicos vão proibir a circulação de carros nas cidades, pelo menos a quem não possa pagar os altos preços dos parquímetros, por causa das alterações climáticas.
Os ecotópicos querem-nos fazer levar os nossos filhos à escola de metro.
Os ecotópicos querem-nos instalar contadores de energia "smart" com tarifas variáveis a cada momento e que estarão sempre mais caras à hora em que precisarmos de ligar a máquina de lavar roupa, ou as luzes do escritório à noite, ou a torradeira de manhã. Para nos encorajar a sermos homens novos.
Os ecotópicos já mandam no Mundo Ocidental e estão a proibir que se estudem outras soluções contra a emissão de CO2, como o nuclear seguro e o carvão limpo.
Os ecotópicos são fortes e conseguiram chegar subrepticiamente ao poder. Surgiram nos anos 80 e têm a sua base principal na Alemanha, mas os herdeiros dos hippies americanos também são ecotópicos.
Todos os dias vários canais da TV nos martelam programas de propaganda ecotópica dizendo-nos que é o que já se faz "lá fora".
Os ecotópicos apresentam-se sempre com propagandistas jovens, para nos fazerem sentir que é com eles que está o futuro.
Os ecotópicos querem fazer de nós homens novos compatíveis com os amanhãs que cantam com que eles sonham.
Para nos mudar, os ecotópicos precisam de nos vigiar.
Os contadores "smart" vão saber tudo sobre os nossos hábitos caseiros de consumo energético.
E os chips que vamos ter nos carros vão permitir saber tudo sobre as nossas deslocações.
O que se vai somar ao que já sabem sobre como, onde e em quê gastamos o nosso dinheiro.
E a todas as conversas que temos ao telemóvel e que ficam gravadas durante um ano.
E quem não for ecotópico não terá direito a nada por parte do Governo.
E tudo o que se fizer dependerá da concordância do Governo.
E isso será verdadeiramente o Admirável Mundo Novo, mas em verde!
O Governo é ecotópico e tem nisso a sua melhor bandeira.
A oposição critica o Governo em muitas coisas, mas concorda que ele age bem no que diz respeito "ás energias renováveis e às tecnologias", ou seja, à ecotopia.
Marcelo Rebelo de Sousa elogia no Governo a ecotopia.
O "Compromisso Portugal" elogia no governo a ecotopia.
Até Pacheco Pereira já louvou no Governo a ecotopia.
As empresas também são todas ecotópicas, agora.
A EDP é ecotópica e tem como seu grande projecto tecnológico o que o Governo lhe mandou fazer: o Inovgrid ecotópico.
A EFACEC é ecotópica porque o Governo lhe deu a construção dos pontos de abastecimento dos ecotópicos carros elécticos.
A Novabase é ecotópica porque vai desenvolver o sistema de gestão desses pontos de abastecimento.
A Critical software também lá está e por isso é ecotópica.
Os "empresários do norte" almoçam com o ex-ministro da Ecotopia Manuel Pinho, e são todos ecotópicos também.
Por causa da Martifer e das fábricas de componentes eólicos de Viana do Castelo.
E da força que foi dada ao INESC-Porto na justificação da política ecotópica do Governo.
E de outras razões com que o Governo, ecotopicamente, escolhe a quem distribuir as receitas dos impostos que pagamos.
As Universidades também são todas ecotópicas, agora.
Há dinheiro a rodos para I&D em temas ecotópicos, como as "smart grids".
E há muitas revistas onde publicar temas ecotópicos.
E os media também são ecotópicos, ou porque estão a mando, ou porque simplesmente há muito que deixaram de ter gente conhecedora a escrever lá.
Por isso, não há uma única voz que se erga a questionar a ecotopia. Exceptuando uma curta coluna quinzenal no Expresso do cavaleiro solitário Mira Amaral...
Mas os ecotópicos não mandam e jamais mandarão na China!
Nem na Índia!
Nem na África!
E haverá sempre quem resista à ecotopia.
Este blog publicará uma série de artigos desmontando a visão ecológica utópica da tecnologia e da energia, nos próximos tempos.
Porque acredito na racionalidade da modernidade e me assumo como adversário do pensamento mágico pós-moderno que suporta a ecotopia.
E porque prezo o direito dos mais fracos à verdade e à liberdade.
sábado, julho 25, 2009
Ninguém faz contas? Deve ser pela dificuldade com a Matemática...
Será que o não usamos mais precisamente por ser "demasiado" barato?
segunda-feira, julho 20, 2009
Ganhe dinheiro reduzindo o aquecimento global!
Não são novidades, mas...
Na condução:
- Se não tem um automóvel híbrido, procure evitar travar, quando guia. Para não ter de travar, antecipe os sinais vermelhos ou as filas de carros paradas e deixe-se ir só com a inércia do carro até lá. Quando trava, a energia cinética que o carro leva perde-se - na verdade, como a energia não desaparece mas apenas se transforma, essa energia cinética transfere-se para os discos dos travões na forma de calor, que se perde na atmosfera. O que poupa ao evitar travar, claro, é a energia cinética que teve de imprimir ao carro no acelerador até descobrir que tinha de travar. Além disso poupa pneus e travões. Pela minha experiência, esta prática bem treinada poupa até 25% do consumo na cidade.
- Nos circuitos de baixa velocidade, cidade e passeios de domingo pela marginal, evite ligar o ar condicionado do carro. Em vez disso, abra as janelas e ligue a ventoinha do automóvel.
- Pelo contrário, na auto-estrada ligue o ar condicionado mas feche os vidros todos. Melhora a aerodinâmica.
- Pense se vale a pena ir a 180 km/h na auto-estrada em vez de 140. Numa viagem de uma hora até ao emprego, em que apenas meia hora é na auto-estrada, só poupa 7 minutos no total dessa hora de deslocação. Mas esses 7 minutos poupados custam-lhe mais 65% de consumo na meia hora de auto-estrada, porque a essas velocidades a principal resistência que o carro tem de vencer é a do ar, e a potência necessária a aplicar para isso cresce com o quadrado da velocidade! Portanto, esses 7 minutos custam-lhe mais 3 litros de gasolina... e nem estou a falar dos riscos de multa e de segurança!
Nos edifícios:
- Em casa, em vez de ar condicionado instale daquelas ventoinhas coloniais no tecto (como a da cena inicial do filme Apocalipse Now). Algumas incorporam candeeiro e são tele-comandadas. São silenciosas (por terem uma grande área de circulação relativamente lenta), eficazes sem fazerem voar papéis (grande "caudal" mas baixa "pressão"), e gastam muito menos energia que o ar condicionado. E são muito mais baratas e mais saudáveis.
- No trabalho, convença o chefe a adoptar a prática japonesa: no Verão prescinda-se da gravata e do casaco durante o trabalho. E regule o ar condicionado para 23ºC, e 20ºC no Inverno. A diferença não se sente porque anda-se sempre com mais roupa no Inverno que no Verão, e cada ºC a menos na regulação do ar condicionado é menos 8% de consumo de energia que vem das centrais a carvão (no Verão há pouco vento e pouca água nos rios). Talvez não saiba, mas o ar condicionado que se generalizou em Portugal a partir dos anos 90 consome tanta energia eléctrica que em muitas redes eléctricas o "pico" de consumo deixou de ser no Inverno e passou a ser no Verão...!
- Recuse ter de pagar por contadores "gestores da procura" e "smart grids" que lhe querem impor como é que há-de viver e a energia que há-de gastar, como e quando.
sábado, julho 11, 2009
Aquecimento global e combustíveis fósseis: Transportes. Os EUA "at stake" e nós também!
Note-se que não estou a negar verdades oficiais do ambientalismo! Estou, pelo contrário, a expôr por palavras minhas o que consta na própria documentação produzida pelo Painel Intergovernamental (IPCC) patrocinado pela ONU!
Entretanto, abandonar o uso de adubos na agricultura (os nitratos aí usados têm uma elevada responsabilidade na emissão de gases "aquecedores do clima" - no mínimo 8%) seria desistir da que foi a 1ª grande revolução agrícola e condenar à morte pela fome boa parte da Humanidade; e quem ousará recomendar aos orientais o fim do cultivo do arroz, base da sua alimentação mas responsável por metade da emissão do metano causador de no mínimo 14% do referido aquecimento? Talvez pudéssemos recriminar aos povos subdesenvolvidos a queima de lenha, os fogos e a desflorestação responsáveis por no mínimo 18% do aquecimento global, muito mais que todos os transportes do mundo juntos, mas que alternativas temos para lhes oferecer que não sejam o adoptarem o nosso estilo de vida (o que aliás eles desejam ardentemente)?
Assumamos, porém, nós os da "sociedade de consumo", o ónus do aquecimento global e paguemos aos pobres na esperança de que eles aprendam a tratar melhor o seu próprio meio ambiente, e vejamos o que há para modificar no mundo industrializado. Até porque a produção de energia, os transportes e a desflorestação são os emissores cuja poluição mais tem crescido...
Começando pelos transportes, convém começar por notar que perto de 1/4 do seu consumo energético não ocorre em terra, mas sim no mar e no ar, sendo aliás o transporte aéreo aquele cujo consumo mais tem crescido. Exceptuando o regresso às velas ou à passagem ao nuclear no transporte naval, a única coisa a fazer é optimizar motores e rotinas de voo!
Por outro lado e quanto ao transporte terrestre, convém saber que as suas emissões de gases não são no mundo desenvolvido que mais têm aumentado! Aqui já quase toda a gente tem carro e o número de automóveis pouco tem crescido. É precisamente nos povos que estão a ascender ao nosso modo de vida que o aumento de consumo tem sido e será maior (vd. figura), pelo que assumamos o ónus, como cavalheiros, mas não nos culpemos pelo mal dos outros.
Naturalmente que muito se poderá fazer para reduzir as emissões dos veículos de estrada. Que recomenda o IPCC? Nada de revolucionário, para já:
- A redução do peso dos veículos, que cresceu desnecessariamente nas últimas décadas (os SUV...), neutralizando a melhoria dos motores que entretanto se verificou. Há algo de irracional em ter de dispender energia para mover 1500 kg de material quando apenas se pretende deslocar uma pessoa com 5% dessa massa!
- A adopção da tecnologia híbrida (que recupera boa parte da energia das travagens) e de motores de maior rendimento (diesel, sobretudo);
A longo prazo, de facto, primeiro carros híbridos carregáveis electricamente (plug-in hybrids) e depois puramente eléctricos, mas isso só valerá a pena quando a electricidade também for toda produzida por fontes não poluentes.
Entretanto, uma enorme redução de emissões resultará do incremento de transportes públicos nos circuitos casa-trabalho: autocarros e comboios eléctricos, nomeadamente metros.
Ora acontece que na Europa o automóvel já só é usado em 50% das deslocações, em benefício do transporte colectivo, enquanto nos EUA o é em 90%; por outro lado, os Diesel já são a regra na Europa (e em Portugal), e apenas nos EUA (onde não se usam Diesel) a Administração Obama definiu agora a meta de redução do consumo médio dos seus automóveis de 10 para 7 litros aos 100 km, que já é o consumo médio do automóvel europeu. Ou seja: no domínio dos transportes terrestres, são os EUA para quem as medidas reformistas preconizadas pelo IPCC implicam maiores mudanças de hábitos e mudanças nas estruturas de transporte terrestre. Aliás, basta comparar na figura acima as emissões de origem norte-americana com as europeias, tendo em conta a similitude de populações e automotorização, para o perceber.
Uma questão relevante é: e em Portugal, qual a percentagem de deslocações que é feita em transporte público? Dados em debate na Assembleia da República mostram que se em 1990 tal percentagem era de 50%, o mesmo valor que a média europeia, 10 anos depois ela reduzira-se para 37% e deve presentemente estar nos 30%. Tal mudança acompanhou a natureza das deslocações, que passaram de predominantemente intra-concelhias para inter-concelhias. Ou seja: os centros urbanos desertificaram-se e as pessoas, como passaram a morar mais longe, usam mais o automóvel - para não falar na falta de melhoria dos transportes colectivos.
Parece, pois, que a melhor forma de promover o veículo terrestre eléctrico e/ou reduzir o seu uso será promover a requalificação urbana e o uso de transportes colectivos eléctricos de alta qualidade. E abandonar a fantasia dos automóveis eléctricos para quando eles estiverem maduros. A menos que se queira à viva força dar vazão à energia do lobby eólico...!
Até porque comboios e requalificações urbanas sabemos fazer, assim haja planeamento! Para já não falar do enorme potencial de melhoria tecnológica que encerram...
quinta-feira, julho 09, 2009
Alterações climáticas e o G8: porque vão os ricos dar 20 milhões aos pobres
mas apenas expôr alguns factos desse conhecimento científico que em regra são escamoteados por inconvenientes.Antes de prosseguir, quero esclarecer que considero existir indubitavelmente um aquecimento global, acelerado sobretudo desde há um século. As provas são irrefutáveis: o mar já subiu um palmo (15 cm) nos últimos 150 anos (vd. figura) e os grandes degelos em curso são inegáveis.
Quais exactamente as suas causas e sobretudo a sua quantificação exacta, é muito mais incerto. Mas a ideia geral de que a combustão causa efeito de estufa é consensual, e ocorreu muito antes até de se ter dados para crer que isso realmente acontecia, no sec. XIX, ao químico Arrhenius. Vou, por isso, dar como bons os resultados científicos estabelecidos pelo Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (PIAC) e pela NASA. Não os porei em causa. O que considero digno de menção são factos constantes desse conhecimento pouco divulgados, talvez por os nossos opinion-makers raramente lerem os documentos produzidos pelos Organismos internacionais especializados que gostam de invocar para agitar bandeiras e emoções.
De acordo com o gráfico que referi atrás, a maior contribuição humana para o aquecimento global vem do CO2 da desflorestação, das queimadas das savanas, dos fogos florestais e dos métodos agrícolas que "secam" os solos de carbono, bem como do metano gerado na agricultura do arroz. Juntos, estes eventos causarão metade das emissões humanas de CO2, mais de duas vezes as causadas pelos nossos "vícios consumistas" na sociedade industrial!
da "margem de erro" referida também se pode chegar a conclusões mais culposas para o nosso "consumismo", como as representadas no gráfico ao lado. Neste quadro, a produção de energia e os transportes já serão responsáveis por cerca de metade dos gases emitidos, mas ainda assim o mau uso da terra produzirá 1/3 desses gases!