Relativamente ao primeiro argumento, ele tem sido repetidamente desmistificado neste blogue, e foi também objecto da minha 1ª nota sobre este Prós e Contras: não há nenhuma relação entre independência do petróleo e electricidade de fontes renováveis (a não ser alguma coisa nas ilhas, o que tem um impacto nacional insignificante).
Relativamente ao "cluster" industrial, porém, o assunto merece uma nota extra.
Em Setembro de 2009, há 2 anos e meio, pela primeira vez abordei neste blogue o anunciado "cluster eólico nacional", tendo escrito:
"...Todo o trabalho de I&D nas tecnologias de turbinas eólicas que conduziu, ao fim de 70 anos, à maturidade que a geração eólica tinha atingido por volta de 1994, passou ao largo de Portugal.
Portugal acordou para a energia eólica no Governo de Guterres, em 2001, com o Prof. Oliveira Fernandes da FEUP, mas acordou apenas... como consumidor! E nisto é que, de facto, fomos pioneiros e somos líderes mundiais.
De facto, todos os outros países, sem excepção, que apostaram na instalação e consumo de energia eólica tinham previamente desenvolvido uma indústria de turbinas com tecnologia própria, como historiei, e os que não tinham ou têm essa indústria e tecnologia nacionais têm continuado no grosso do pelotão, tentando ficar o mais possível na rectaguarda sem dar nas vistas - como é o caso da Suécia, Noruega, Finlândia, Bélgica, Holanda, Polónia, Bulgária, Roménia, República checa, Eslováquia, Itália, Suíça ou França! E isto para só falar da Europa, a campeã de Kioto e das renováveis...!
Os casos mais paradigmáticos de como se atrasou a adesão ao consumo de energia eólica para dar tempo primeiro ao desenvolvimento interno de tecnologia própria e indústria nacionais de turbinas foram, sem dúvida, a China e os EUA, como historiei, e cuja abertura às importações visa pressionar os actores nacionais para a evolução tecnológica, mas sem que percam o controlo sobre os respectivos mercados. Além da China que, como mostrei, exige 70% de incorporação chinesa nas turbinas instaladas (começou por só exigir 57%...), também os EUA dão incentivos na forma de créditos fiscais à fabricação feita no seu país. Nenhum país, repito, nenhum excepto Portugal, permitiu a inundação do seu mercado de geração de electricidade por equipamentos importados de energia renovável subsidiada sem criação de qualquer emprego industrial no país!
De 2001 até ao presente (2009), e sobretudo desde 2003, a importação e instalação de turbinas eólicas foi fulgurante. Em Junho passado estavam instalados 3335 MW de turbinas eólicas, e até ao final do ano a DGEG espera ter a instalação de um total de 3800 MW, ..., num investimento que se pode estimar em 4,2 biliões de €, dos quais uns 3 em equipamento importado e o restante em trabalhos de instalação - sem mencionar os investimentos que a EDP e a REN tiveram de fazer para ampliar as redes de forma a integrar essa energia! ...
Ou seja, o mercado nacional para turbinas eólicas aproxima-se muito rapidamente do esgotamento. Que empregos, portanto, poderão vir a ser agora criados pela energia eólica em Portugal?
...
A questão que se coloca é como se poderá sustentar tal "cluster industrial", uma vez esgotado (em breve) o mercado nacional, que apenas acrescente o valor da mão de obra nas partes cujo fabrico não pode ser robotizado e que, ... não constituirá mais de 15-20% do valor da turbina, considerando que:
- Como Portugal não tem qualquer know-how no assunto, está completamente dependente da Enercon;
- Os custos de transporte das turbinas eólicas é tremendo, dada a sua dimensão, o que recomenda fortemente a fabricação local nos mercados de exportação;
- Os maiores mercados emergentes, os dos EUA e da China, subsidiam ou impõem a fabricação local, o que se soma à redução dos custos de transporte;
- Os mercados próximos, europeus, ou estão perto do esgotamento, ou protegem os seus fabricantes nacionais.
Na verdade, face aos 4 biliões de € totais que terão rendido aos fabricantes estrangeiros o investimento português em energia eólica, gastar 2,7% disso numa acção de promoção política pedida pelo governo português para fazer umas fábricas que são para fechar poucos anos depois, não parece grande comissão."
Dois anos e meio depois deste escrito, e depois de se terem alardeado "36 mil empregos criados em Portugal", vejamos melhor o que o tempo clarificou sobre o assunto.
A ENEOP - Eólicas de Portugal, foi um consórcio criado em 2005 para concorrer ao licenciamento de um enorme volume de 1800 MW de potência eólica a atribuir em 2006, tendo a EDP como um dos dois principais accionistas (40%), uma congénere espanhola, mais alguns investidores financeiros e o fabricante alemão ENERCON. A ENEOP ganhou 1200 MW no concurso e, no seguimento, foi constituída uma parceria público-privada (PPP), analisada nesta tese de Mestrado, que levou a ENEOP a criar duas empresas subordinadas: a ENEOP 2 - exploração de parques eólicos SA, visando a instalação e exploração de parques eólicos, e a ENEOP 3 - desenvolvimento de projecto industrial SA, que é a que instalaria e exploraria o "cluster industrial" a criar.
O consórcio mantém hoje em dia a participação dominante da EDP com 40%, mas o restante capital está distribuído pela ENEL Green de Espanha (agora equiparada, com outros 40%), um grupo financeiro (CENERG) dominado pelo empresário Carlos Monjardino, e apenas 10% pelo industrial propriamente dito, a ENERCON alemã (en passant, note-se que na Alemanha o negócio de renováveis remuneradas com tarifas fixas - feed-in - é vedado às empresas de electricidade com responsabilidades de serviço público como a EDP...)
Embora o objectivo da ENEOP 3 seja um "projecto industrial", é de realçar que:
a) O investimento de capital próprio pelas partes foi apenas de 15% dos 1700 milhões de € alegados, de que 174 milhões se destinaram propriamente à fábrica, sendo o restante financiamento da construção dos 1200 MW de turbinas - 85% deste investimento foi obtido por endividamento externo;
b) Não se trata de uma fábrica da ENERCON alemã, que apenas investiu 10% dos referidos 15% de capitais próprios do projecto - trata-se de uma fábrica essencialmente da EDP e de uma congénere espanhola; deste modo, não há nenhum compromisso de inserção da fábrica na estratégia internacional da ENERCON, que presentemente detém 7,5% de quota de mercado mundial mas 60% do mercado alemão.
c) Embora nacional, considerando a sua localização e proprietários, a fábrica não visou fabricar aerogeradores portugueses (inexistentes), mas apenas montar o modelo E-82 da ENERCON, seguindo fielmente os "modos operatórios" por esta fornecidos para o fabrico.
d) O propósito da ENEOP 3 foi, desde o início, o fornecimento dos 1200 MW ganhos no concurso de 2006, e que garantiram aos seus accionistas o monopólio de instalação de aerogeradores em Portugal por largos anos. Propósitos exportadores foram definidos para depois disso, 2014, numa proporção de 60% das vendas.
É possível que a ENEOP tenha já exportado aerogeradores, mas quantos? Infelizmente não se revela possivel obter acesso aos relatórios e contas da empresa... porém, é possível por via indirecta estimar quantos aerogeradores terão já sido aproximadamente construídos e a ordem de grandeza das exportações.
Com efeito, informações diversas oriundas da própria empresa mostram que embora a capacidade máxima de produção prevista seja de 250 aerogeradores por ano (500 MW, com a E-82) no início de 2010 havia queixas de que a capacidade conseguida se limitava a 150, enquanto mais recentemente (Setembro de 2011) a produção de cruzeiro era quantificada em 200/ano. Nesta mesma ocasião a ENEOP 3 anunciava ter ligado à rede 816 MW, o que totaliza 408 aerogeradores do modelo E-82 da ENERCON.
Ora um ano antes, a 28 de Setembro de 2010, a mesma fonte da ENEOP 3 em conjunto com a CEO da EDP-Renováveis, assistiam à instalação em Portugal da 1000ª turbina da ENEOP, segundo o Expresso; como terá sido possível à ENEOP anunciar a inauguração do seu 1000º aerogerador instalado em Setembro de 2010, se só começou a produzir em 2009 e apenas ao ritmo de 150-200 por ano e se só um ano depois haviam sido ligados 408 aerogeradores?
Notando, de caminho, que uma fonte interna da ENEOP notara à LUSA que, daqueles 1000 aerogeradores, "muitos já tinham sido fabricados em Viana do Castelo" (muitos, não todos...), permanece a interrogação sobre onde terá nascido aquele número. Ora o INEGI publica anualmente estatísticas sobre a energia eólica em Portugal que permitem verificar o seguinte:
- No fim de 2008, pouco antes do ENEOP 3 ter começado a produzir, a ENERCON alemã (e não a ENEOP "portuguesa") já vendera em Portugal 1272 MW de aerogeradores, cerca de 750 a 800 deles, detendo então 45% do nosso mercado. Boa parte destas máquinas já era de 2 MW, mas muitas das mais antigas seriam de potência inferior, nomeadamente o modelo E-40, de 0,66 MW.
- Em 2009 e até à saída da fábrica da ENEOP 3 do 1000º aerogerador da marca ENERCON instalado em Portugal, em 2010, esta não pode ter construído mais de 200 a 250 aerogeradores.
Em todo o caso, é fácil de estimar que, posteriormente e até ao fim de 2011, a fábrica da ENEOP 3 não pode ter construído mais de 500 a 550 aerogeradores. Dado que uns 500 terão sido instalados em Portugal (408 estavam já "ligados à rede" em Setembro), o que abrange a prática totalidade da capacidade de produção da fábrica, as suas exportações não podem ter ultrapassado algumas dezenas de MW (e não os "milhares" alegados pelo Eng. Carlos Pimenta no Prós e Contras)!...
Naturalmente, a suspensão de novos contratos em Portugal e Espanha, que agora se verifica, coloca problemas à ENEOP, mas as maiores dificuldades que esta enfrenta serão as de financiamento, já que a PPP que Prof. Peças Lopes desenhou para a ENEOP lhe garantem, em princípio, ainda um par de anos de mercado português, até esgotar o fornecimento dos 1200 MW.
Certos mercados europeus têm adquirido pequenas quantidades de aerogeradores, em encomendas da ordem de grandeza das dezenas de MW como aquelas para as quais a ENEOP 3 está dimensionada: são os casos da Polónia, Roménia e França, por exemplo.
Porém, a pequena participação da ENERCON na ENEOP liberta-a, como disse atrás, de qualquer estratégia de privilégio desta no que respeita ao acesso a esses mercados, considerando que a sua fábrica alemã está mais próxima do leste que Viana do Castelo, e a que há que atender que a maioria dos países exige o que nós não exigimos quando devíamos - o fabrico local. Acontece que muito recentemente a ENERCON alemã anunciou uma fábrica de torres para os seus aerogeradores em França, um dos mercados europeus em crescimento, ao mesmo tempo que noticia que tem fornecido a França a partir da fábrica na Alemanha.
Por outro lado a EDP, nos mercados externos, olha sobretudo à conveniência financeira, tendo não só preferido à ENEOP a Vestas para as instalações que promove nos EUA, como a GE para instalações tanto nos EUA como na própria Europa. Até 2010 o aproveitamento pela EDP das turbinas de Viana do Castelo para o mercado americano era mesmo impossível, como já em tempos esclareci, devido a uma disputa de patentes e alegada espionagem industrial que vedou o mercado americano à ENERCON até esse ano, precisamente. Esta guerra de patentes, de resto, mostra como a "transferência de tecnologia" esperada da ENERCON pelos negociadores portugueses da PPP que a privilegiou só pode ter sido ingenuidade infantil!...
A tudo isto acresce, no rol de dificuldades, a total dependência do modelo E-82 da ENERCON, em vias de obsolescência, tanto técnica como comercial (os últimos leilões de eólicas no Brasil demonstram ser possível obter já, no mercado mundial, aerogeradores a 85% do custo actual da E-82, para potência equivalente). Não admira, por isso, que o lobby associado a este projecto procure manter o consumidor português a abastecer-se cada vez mais de eólico-electricidade sem alteração tarifária...
Com as sombras que se avolumam no horizonte da ENEOP 3, os que maiores riscos correm são os seus trabalhadores. Números recentemente disponibilizados no site da empresa dão conta do real número de empregos criados.
Extrapolando do modelo económico alemão que calculou o multiplicador de 4/3 para cada emprego directo criado na indústria eólica, aos 1386 trabalhadores da fábrica da ENEOP 3 poderão corresponder uns 1848 trabalhadores indirectos. Destes, 545 estão já considerados no "cluster", pelo que poderão estar em risco mais uns 1300, totalizando 3200 trabalhadores - fora, claro, os das instalações de novos parques, nomeadamente da ENEOP 2 (estes serão poucos, segundo um relatório do accionista CENERG, onde se dá conta de que é a EDP-R quem fornece o apoio técnico).
3200 trabalhadores são muitas bocas, embora longe dos "36 mil empregos" em tempos anunciados pelo CEO da ENEOP 3.
Ficou também esclarecido, espero, em que consistem os "milhares de MW exportados pelo cluster industrial nacional para todo o Mundo" de que o Eng.º Carlos Pimenta falava...
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Nota (em 17-2-2012): na versão inicial deste post atribuí à ENEOP os 1800 MW que no total estiveram em concurso, mas de facto a empresa só obteve a concessão de 1200 MW desse volume, o que corrigi posteriormente.





