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segunda-feira, fevereiro 08, 2010

Economia das energias eólica e hidroeléctrica:que potencial de emprego?.

Qual o potencial de criação de emprego da nova economia das energias renováveis eólica e hidroeléctrica?

Há semanas, no programa da RPT1 "Prós++ e Contras", o impagável Sr. Aníbal Fernandes, líder do cluster eólico "nacional", prometia 36.000 empregos para breve, perante o olhar circunspecto dos restantes convidados e em particular do Eng.º Luís Filipe Pereira da EFACEC, por cujo olhar perpassou um lampejo de incredulidade. Similar entusiasmo mostrou o jornalista Victor Andrade, numa entrevista recente à SIC (a partir do 5º minuto).

No entanto, já aqui mostrei que os dados disponíveis da própria Associação Europeia de Energia Eólica, a EWEA, atestavam a existência, há 2 anos, de 800 empregos directos confirmados a que se somavam mais 500 em actividades acessórias de projecto, instalação, etc, embora se anunciasse a intenção (comunicada pelo Governo português) de criação no referido cluster, em 2009, de mais 3.000 empregos no fabrico de componentes. Porém, de facto, até agora a Enercon terá criado apenas mais 1000 empregos...
É possível no entanto que, somando outros empregos criados por outras entidades como a Martifer, se possam contabilizar presentemente uns 3.000 empregos directos e quiçá uns 1000 indirectos mas, dada a exigência pela maioria dos países que constituem potenciais mercados de exportação de que as turbinas sejam montadas lá, não se vê como a exportação poderá vir a substituir o esgotamento em breve do nosso próprio mercado. Nem, portanto, como poderão estes empregos manter-se.
Para comparação, Espanha, com uma forte indústria própria e o 3º fabricante mundial de aerogeradores (Gamesa), com 5,5 vezes a nossa potência eólica instalada, tem 37.700 empregos (20.500 directos e 17.200indirectos).
Tem-se também propalado o número de dezenas de milhar de empregos para a construção de barragens, escamoteando que se tratam na grande maioria de empregos de construção civil a prazo de 3 anos (cada barragem leva uns 4 anos a construir e atinge um pico de emprego típico de 2 mil), mal pagos e em locais inóspitos, que atrairão apenas uma maioria de imigrantes. Fala-se na "criação" de empregos e deixa-se a falsa ideia de que são empregos duradouros...
Porém, a ideia de que a economia das energias renováveis tem um grande potencial de criação de emprego é propalada por Bruxelas, onde o lobby alemão dos verdes tem uma força determinante, e tem sido tão exaltada pelo Presidente da UE, Durão Barroso, e pelo 1º Ministro de Espanha, Zapatero, como pelo nosso, tendo sido recentemente também defendida pela Administração Obama nos EUA. Tem, por isso, muito interesse saber o que mostram os estudos económicos sérios na matéria, caso existam. E existem alguns.
A Universidade Juan Carlos de Madrid editou em 2009 um trabalho em que faz o balanço de criação de empregos (no hyperlink) da política espanhola de apoio à renováveis, e chega à seguinte conclusão: em média, por cada 4 novos empregos criados pela economia das energias renováveis, são destruídos 9, e isto sem contar com os empregos que poderiam ter sido criados com os subsídios concedidos aos produtores eólicos. Ou seja, globalmente esta nova economia não cria empregos: destrói-os!
A principal originalidade deste trabalho é a avaliação da destruição de emprego causada pela subida dos custos da energia. São particularmente afectadas as indústrias metalúrgicas, a mineração, as indústrias alimentares, de bebidas e de tabaco.
O estudo parte da consideração do aumento do preço da electricidade espanhola que será necessário para os consumidores pagarem o défice tarifário acumulado resultante da subsidiação às energias renováveis, 31% segundo a entidade reguladora espanhola. Na verdade, este sobre-custo das renováveis ainda não foi sentido pela economia de Espanha porque lá, como cá, ele tem sido remetido para um défice tarifário e o estudo espanhol parte do princípio que esse aumento de 31% será repartido por todos os consumidores equitativamente. Mas pode ser que Espanha opte pela subsidiação cruzada que Portugal está a começar a praticar, pondo apenas os consumidores domésticos a pagá-lo. Neste caso o cálculo do efeito é mais complexo, porque então se terá um aumento da tarifa muito superior aos 31% para estes consumidores, e será pela respectiva perda de poder de compra que o retraímento económico se fará sentir - mas neste caso o desemprego afectará sectores diferentes da economia.
Porém, e como o estudo espanhol mostra, quer seja usado este método (subsidiação cruzada), quer o de impostos directos ou indirectos, o pagamento do défice e a redução de poder de compra e/ou de crédito dos atingidos levará sempre ao mesmo resultado: a destruição de  empregos.
O referido estudo considera a criação em Espanha de 15 mil empregos pelas energias renováveis, mas baseia-se para isso num trabalho prospectivo europeu de 2003. Os dados mais recentes da EWEA mostram que esse número está subestimado e que, se for considerado o emprego efectivamente criado, se pode afirmar o seguinte: por cada emprego temporário criado pelas energias renováveis, será destruído duradouramente outro quando os respectivos sobre-custos se repercutirem nas tarifas e na correspondente retracção do poder de compra da população.

quinta-feira, janeiro 28, 2010

O discurso do Estado da Nação e o que fez a Holanda

A previsão futurística que postei há 3 semanas de que os EUA irão apostar no nuclear como estratégia de posicionamento no movimento global para a "descarbonização" da economia, e que se baseia em somar 2 e 2 em geopolítica, tem mais um reforço: essa é a posição com que o Presidente Obama está a tentar obter o apoio dos senadores republicanos para a sua proposta de "descarbonização" e, de um modo geral, conseguir algum consenso na matéria, tanto nos EUA como na Europa. Acaba de o dizer no seu Discurso do Estado da União, embora a nossa imprensa "do regime" tenha "ignorado" esse detalhe...
Se, na verdade, olharmos para o mapa da Europa e agruparmos os seus países nos entusiastas das renováveis (Alemanha, Dinamarca, Espanha, Portugal e agora também a Inglaterra), e nos que tentam passar desapercebidos nessa matéria (Suécia, Finlândia, França, Bélgica, Itália, Polónia, República Checa, Eslováquia, Roménia, Lituânia, etc), vemos que há uma característica comum aos últimos: forte peso da energia nuclear na sua produção de energia! A Itália é um caso especial, porque fechou as 4 centrais que tinha nos anos 80 e com isso tornou-se o maior importador europeu de energia, mas recentemente acordou com a França o regresso a essa opção. E tanto a Alemanha como a Inglaterra e Espanha têm energia nuclear e correntes que o defendem, dependendo o futuro da evolução política dominante nesses países. Ou seja: quando o Governo nos tenta entusiasmar com a suposta posição de vanguarda de Portugal na corrida às renováveis, é conveniente notar que, na verdade, é uma minoria o leque de países que está nessa corrida, mau-grado toda a propaganda verde de Bruxelas nesse sentido.
Ora se os EUA vierem a afirmar, neste ano de 2010, o renascimento do nuclear conforme vaticino, a questão passará para a ordem do dia também por cá.
E, neste quadro, penso que a pior coisa que poderá acontecer a Portugal é o Governo começar a virar nessa direcção com a mesma incompetência, irresponsabilidade e sei lá que mais, com que isso foi feito na adesão à energia eólica. É de estar atento à cimeira de Abril próximo entre o nosso 1º Ministro e Sarkozy, porque penso não ser impossível vir de lá um pré-acordo de compra de uma EPR da AREVA, coisa para que o país não está minimamente preparado...

A segunda nota de hoje é que, embora continue a não encontrar nada que tenha em conta a correlação do vento com a chuva no planeamento do binómio eólico-hídrico, descobri uns papers muito recentes que ilustram o tipo de estudos que devem ser feitos no planeamento de uma opção nacional pela energia eólica, num país civilizado e com dimensões do género da do nosso.
Esse estudo foi encomendado pelo Ministério da Economia da Holanda, no contexto da Directiva Europeia para a produção de 20% da energia eléctrica com fontes renováveis até 2020 (embora estudos preliminares já viessem de 2003), e foi contratado com dois tipos de entidades: várias Universidades holandesas, e uma empresa estrangeira com as melhores ferramentas de cálculo e sólida experiência, a SIEMENS, e isto apesar da KEMA ser holandesa! Uma combinação avisada. 
A Holanda é ainda um exemplo interessante para nós pelo seguinte:
a) tem 1,4 vezes a nossa população e 2,4 vezes o nosso consumo de electricidade, nomeadamente uma ponta de consumo de 21 GW;
b) é um país com completa liberalização do mercado de electricidade: não há subsidiações e, como consequência, o carvão produz lá 35% da energia eléctrica, o gás natural 25% em centrais de ciclo combinado, a cogeração 20%, o nuclear 3% (num "pequeno" reactor de 482 MW), e o eólico aproximadamente o mesmo, mas a electricidade para o consumidor doméstico é cara: apenas 2/3 da campeã da careza que é a Dinamarca, mas mais 30% que em Portugal, onde por sua vez a electricidade custa mais 30% que em França e mais 40% que na Finlândia [estes preços são com impostos. Antes de impostos, os preços holandeses são ligeiramente inferiores aos nossos]...
c) tem dois vizinhos: a Bélgica e a Alemanha;
d) não tem nenhuma indústria forte de equipamentos eléctricos a proteger;
e) tem bons recursos eólicos, na sua costa.
Vale ainda a pena notar que, nas negociações com Bruxelas, a Holanda conseguiu que só lhe fosse atribuída a responsabilidade de vir a ter 14% de energia de origens renováveis, mas nos estudos encomendados pediu a avaliação da possibilidade de vir a ter mesmo os 20% da regra, o que requereria a instalação de 12000 MW (12 GW) de eólicas até 2020 - 4 GW em terra com uma utilização média de 25%, e 8 GW off-shore com uma utilização de 44%. Proporcionalmente aos consumos, isso equivaleria a 6400 MW em Portugal, mais que o valor planeado pelo nosso Governo, e que é de 5700 MW (o nosso Governo ofereceu-se estoicamente para exceder a quota definida pela verdura de Bruxelas, visto que Portugal já tinha hidroeléctricas, ao contrário da Holanda, e portanto não precisava de eólicas para cumprir os referidos 20%).
O consórcio da Universidade de Delft e a SIEMENS investigaram tudo como deve ser: séries temporais do vento baseadas em dados reais, previsões a longo prazo dos consumos, correlações com os trânsitos de energia nos países vizinhos e em particular com a Alemanha, e chegaram às seguintes conclusões:
- A partir de um valor de potência eólica de 7 GW (correspondentes a 3,3 GW em Portugal, um valor que já ultrapassámos este ano), haverá energia eólica em excesso - e o que nos aconteceu em Dezembro foi a confirmação empírica disto;
- A % de energia eólica em excesso irá aumentando até aos 12 MW. O gráfico anexo, retirado de um outro paper elaborado no mesmo estudo, mostra que ao se atingirem 10.9 GW, equivalentes à nossa meta nacional de 5.7 GW, 1/6 dessa energia estará em excesso e não pode ser utilizada no país!

Evidentemente, este excesso não resulta de 20% de energia eólica ultrapassarem os 100% de consumo, mas sim da natureza intermitente do vento, que ora produz pouco, ora produz em excesso.
O estudo averiguou diversas formas de resolver o problema da energia em excesso, mas defrontou-se com o facto de existir uma correlação de 0.71 entre os ventos na Holanda e os da Alemanha, o que impede a solução dinamarquesa de vender o excesso a esse país vizinho ou através dele (situação similar à nossa com Espanha). Entre outras soluções, uma das mais acarinhadas pelos académicos é a da "gestão de cargas" - isto é, obrigar os consumidores a transferir consumos das horas a que precisam de o fazer para as horas em que a rede tem energia em excesso.
Ideia que, como já expliquei, é o verdadeiro objectivo do grandioso projecto das "smart grids" de que o nosso MIT-Portugal tanto gosta e que o nosso Governo inscreveu no Orçamento de Estado deste ano como um dos seus grandes objectivos. Mas cá para mim, penso que para implementar tal propósito será precisa uma ditadura, ainda que vendida como um Admirável Mundo Novo!...
Quanto à Holanda, e graças a ter feito atempadamente este estudo, aposto que se vai ficar pelos 14% de renováveis comprometidos com Bruxelas, ou seja, pelos seus 8 GW de eólicas (que equivale, se tivéssemos o juízo deles, a parar imediatamente a instalação de eólicas no valor já atingido).
Tanto mais que estudos complementares encomendados a outras Universidades holandesas mostram que para atingir o referido objectivo o Governo terá de gastar uma média de 1500 milhões de € por ano (lá não escondem esses custos em obscuros défices tarifários; a subsidiação na Holanda não é à tarifa, mas sim com um valor fixo para a construção das eólicas, que depois têm de competir no mercado para vender a sua energia, como todos os outros produtores)...

terça-feira, janeiro 19, 2010

Correlação entre vento e chuva e soluções à procura de problemas

Já houve quem tivesse notado que há uma estreita correlação entre o vento e o "inflow" de água da chuva nas albufeiras com bombagem, e que isso "limita a possibilidade do uso destas para armazenamento". Não foi foi nenhum académico!
De facto quase sempre os trabalhos académicos estão centrados na investigação de um qualquer novo método teórico e não na caracterização fidedigna do problema a tratar. Ou, como já notei em tempos, em regra os académicos têm uma solução que anda à procura de problemas, enquanto na vida real as coisas requerem o contrário.

Sintoma do nosso sub-desenvolvimento terceiro-mundista é os nossos políticos desconhecerem isto e deixarem-se entusiasmar com as fantasias dos académicos, que por sua vez se entusiasmam frquentemente com políticas totalmente irrealistas.

sábado, janeiro 16, 2010

Ainda uma nota sobre o absurdo eólico

Um comentador irado com o que tenho revelado sobre o facto do excesso de vento ser concomitante com a chuva intensa, o que inviabiliza a ideia da armazenagem hidroeléctrica, escreveu-me a dizer que só chove assim poucas semanas por ano.
Ora isso é verdade. Mas também o é que só faz vento de jeito poucas semanas por ano, e que isso coincide com as semanas de chuva intensa. Com uma correlação metereológica de 98%!
Os gráficos que junto são tirados de uma Agência europeia financiada pela própria UE.

O primeiro gráfico mostra a quantidade de horas que as eólicas funcionam a uma dada % da sua capacidade ao longo do ano, para uma utilização média da sua capacidade de 1/4 (25%), que é o que se verifica na Dinamarca e também em Portugal.


O segundo gráfico mostra como essa produção se distribui ao longo do ano (valores escandinavos). É evidente que a produção eólica é muito maior no Inverno que no Verão, e isso é um facto tão bem conhecido que os EUA, por exemplo, o têm estado a considerar nos estudos lá feitos, dado que a ponta de consumo deles (como a nossa) é no Verão, mas o da produção eólica é no Inverno - e eles não têm a alta % de produção hidroeléctica que nós temos, a qual tem um padrão sazonal de produção ainda mais acentuadamente invernal.
Em Portugal, por exemplo e segundo dados da REN, em 2008 o mês de menor produção eólica foi Setembro, e o da maior foi Dezembro (2,5 vezes a de Setembro), o que confirma a distribuição sazonal normal em todo o Mundo.

Vi há pouco um interessante debate na SIC, no programa "Expresso da Meia Noite". E nele, um Prof. da Universidade Católica que até desconheço, João Confraria, disse o que me parece óbvio: o Estado precisa de estruturas de apoio técnico para o estudo e planeamento destas coisas, que não existem. Aliás, também disse outra coisa antes que subscrevo: a própria menção ao "interesse nacional" parece que passou a ser pecado!...

quinta-feira, janeiro 14, 2010

A culpa é da liberalização. Ou não?

A propósito do "absurdo eólico" para que tenho vindo a chamar a atenção, em que temos produção a mais sem ter onde a meter e a temos que deitar fora, fiz uma pesquisa aos papers mais recentes que pudessem ter sido publicados sobre o assunto internacionalmente, e falei com um colega muito sabedor.
Encontrei um único paper, já publicado este ano, que se lembra do problema do dimensionamento do reservatório da barragem, ou seja, da sua capacidade em energia armazenável, e não apenas em potência bombável ou turbinável. Mas mesmo este paper, publicado na melhor revista mundial do assunto e que por sinal é português (de alguém que tem estado envolvido no nosso grandioso pioneirismo eólico), mesmo este paper se esquece de considerar o efeito acumulado ao longo de vários dias da chuva e do vento e simplifica o problema evitando tratar a sua aleatoriedade - aliás e de facto, não trata do efeito cumulativo da chuva e da bombagem no enchimento das albufeiras. Aliás, não trata da chuva, sequer. É, portanto, um típico paper académico, mas já é um começo...
Entretanto, lembrei-me que em tempos, antes de aparecerem as eólicas, houve na antecessora da REN alguns engenheiros de grande qualidade que sabiam muito do assunto e, em particular, conheciam bem os nossos regimes hidrológicos. E tentei saber que era feito deles. Pois estão em funções meritórias, mas grupos de estudos com engenheiros desses é que já não há!
E porquê? Porque se raciocinou que, com a liberalização do mercado de energia, deixava de fazer sentido planificar o sistema energético e que os equilíbrios seriam conseguidos pelo simples jogo do mercado. O quer seria bom, porque o planeamento tolhia a inovação e a concorrência, pelo contrário, levaria sempre às melhores soluções.
Temos então que a presente situação resulta dessa liberalização dos mercados?
Bem, se os mercados energéticos fossem realmente livres e, portanto, geridos pelos interesses privados em competição, o que provavelmente teríamos era toda a nova produção energética a ser feita por centrais de ciclo combinado a gás natural! Não seria uma solução de longo prazo, mas ao menos a electricidade seria relativamente barata e sem défice tarifário.
Mas não é isso que temos.
O que temos é um sistema energético regido pelos ditames políticos de Bruxelas relativamente à redução das emissões de CO2, o que leva a subsidiar e a priveligiar as caríssimas energias renováveis e à presente situação!
O que de facto temos, não é um fruto da liberalização energética. É o fruto de um sistema definido por critérios estritamente políticos, mas sem o antigo planeamento nacional...
Ou seja, temos o pior dos dois mundos!
Ah, mas o tal paper de que falei atrás considera uma ideia interessante para quando tivermos as hídricas com capacidade reversível (mas sem capacidade de armazenamento) e que evita a vergonha de termos de doar a Espanha o excesso de energia eólica: as futuras hídricas poderão bombar a água para dar consumo eléctrico às eólicas e manter a rede estável, e ao mesmo tempo abrir as comportas de segurança ao lado para deixar a água sair (sem ser turbinada) antes que as albufeiras transbordem.
Lindo! A capacidade de inovação portuguesa tem realmente progredido muito, nos últimos anos...!

quarta-feira, janeiro 13, 2010

Demonstração gráfica do absurdo eólico - Actualizado

Há dias, fiz aqui a demonstração gráfica do absurdo eólico, mostrando como temos "exportado" (por não termos onde a meter, dado as barragens estarem cheias de água da chuva) energia eólica em quantidades de muitos GWh diários, a preço... ZERO!
Isto, claro, enquanto ao mesmo tempo pagamos essa energia aos produtores eólicos a 9 ç/kWh, e não foram previstos nem regulamentos nem meios técnicos que permitam desligar essas "ventoinhas".
Pois não é que o nosso 1º Ministro, 2 dias depois, manifestou uma exfusiante alegria com esta situação?
Tirem-me daqui!!!
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Tenho vindo a referir, recentemente, o absurdo que constitui este excesso de produção eólica que já temos hoje em dia, e como o investimento em "reforços de potência" (de bombagem) hidroeléctrica poderá não resolver nada, quando faz vento, chove muito, e a temperatura é amena.  Os gráficos seguintes de exploração da nossa rede do passado dia 3 demonstra-o.

O primeiro diagrama mostra como o consumo (linha a preto grosso) é inferior à soma da produção hidroeléctrica (azul) e da produção independente e não desligável (a verde), pela madrugada.
Pode-se também ver que não foi possível fazer bombagem de água porque as albufeiras já estavam cheias e tinham que despejar a água da chuva.
O segundo diagrama mostra como se decompõe a produção independente, sendo evidente a extrema irregularidade da eólica; ela atinge 2500 MW entre as 8 e as 12 horas, para às 18 horas já ter caído para cerca de apenas 1000 MW.
Ao mesmo tempo, vê-se no diagrama de produção hidroeléctrica que, apesar daquele excesso de vento, não foi possível reduzir o trabalho das hídricas, sinal de que as respectivas albufeiras já estavam cheias e, portanto, incapazes de reter ou armazenar mais água.

O quarto diagrama mostra que de madrugada se reduziu a produção térmica ao mínimo, com um só dos 4 grupos de Sines a trabalhar e nenhuma central de ciclo combinado, mas mesmo assim se teve de exportar o excesso de produção eólica, por não haver onde a meter.
Pelas 4 da madrugada, a hora de menor consumo, chegaram a exportar-se mais de 1500 MW, eda meia-noite ao meio dia sempre à volta de 1000 MW, todos de origem eólica.

Finalmente, o último diagrama mostra o preço conseguido nesta exportação entre as 3 e as 11 da manhã: ZERO! E o máximo preço, 8 ç/kWh, foi atingido pelas 22 horas, quando por azar o vento decaiu e tivemos de importar!...


Isto resulta, evidentemente, de já termos potência eólica instalada em excesso e de nada ter sido previsto técnica e regulamentarmente para a poder reduzir, sendo o país obrigado a pagá-la ao produtor à volta de 9 ç/kwh para a ter de deitar literalmente fora!
E, como se pode ver pelo diagrama de produção hidroeléctrica, não é o "reforço de potência" que vai resolver as coisas: para as resolver precisávamos de albufeiras muito maiores, o que é obviamente inviável!
E só vamos ainda em cerca de 3800 MW de potência eólica instalada! Imagine-se o que será quando tivermos os 5600 MW previstos pelo Governo para 2012...! E mais o solar, e mais o eólico off-shore...!
Não é por serem pouco arrojados e nós sermos a "vanguarda" que nenhum país tem mais que 20% de produção eólica, e esse país é a Dinamarca, que praticamente não tem conflitos com a energia hídrica. É porque os outros países fazem estudos de planeamento, antes de avançarem com ideias destas. E nós, é como se vê.

domingo, janeiro 10, 2010

Energia eólica e armazenagem hídrica: um problema de mera gestão diária, ou também de planeamento?

Ontem os jornais davam conta que a barragem do Alqueva, que é basicamente apenas um grande depósito de água, dado o seu fraco caudal, está cheia.
O Plano Hidroeléctrico de Elevado Potencial visa, como mostrei aqui, explorar a capacidade de armazenamento das 8 novas barragens a construir para escoarem a energia eólica excedentária, objectivo reforçado pelo "reforço de potência" de um largo número de barragens já existentes, e entre elas a do Alqueva.
A ideia de usar barragens para armazenar energia de origem eólica surgiu já há uns anos, mas só tem sido estudada em alguns meios académicos. Não há de facto ainda, em parte alguma do mundo, experiência do uso prático da armazenagem hidroeléctrica para regularizar a intermitência da energia eólica. Nisto, Portugal é pioneiro, ainda que a ideia leve o custo o kwh de origem eólica para valores absolutamente extravagantes, como já mostrei.
Naturalmente, é por causas desses custos exorbitantes que Portugal é pioneiro.
Acontece que, à falta de experiência, os estudos publicados têm-se todos centrado no problema da gestão diária instantânea ("despacho") ou diária do binómio eólicas-barragens. O próprio Plano Hidroeléctrico, usando simulações da REN, baseia-se numa estimativa da potência eólica excedentária que pode ocorrer a certas horas do dia, e na necessidade de a conseguir armazenar toda de umas horas para outras.
Por conseguinte, o Plano estimou a potência (a quantidade de energia por segundo) que as barragens terão de ser capazes de bombar, para corresponder ao excesso de eólicas, e daí todos esses "reforços de potência" em curso.
Ora estes estudos baseiam-se sempre na ideia de que há capacidade de armazenamento nas barragens, o que geralmente é verdade, em média anual. Mas e se chover intensamente durante uns meses, e ao mesmo tempo fizer vento, como é frequente por cá no Inverno e está a acontecer agora?
Poderemos ter então uma situação em que as barragens não possam bombar mais  àgua para escoar a energia eólica, porque estão cheias e têm é de, em muitos casos, despejar a àgua proveniente da chuva, e não meter lá mais. E isto não se resolve com "reforços de potência" das barragens, num país pequeno como o nosso em que quando chove muito chove em todo o lado, e o mesmo acontece ao mesmo tempo com o vento, como agora.

quarta-feira, janeiro 06, 2010

Ainda o negócio com peras!


Como um leitor sabedor me notou, e bem, o valor da energia eléctrica no mercado ibérico tem estado mesmo a ZERO, nestas madrugadas em que tanto em Portugal como em Espanha tem feito muito vento e ao mesmo tempo chovido, em que o consumo é pouco e em que não se pode, por lei, desligar as eólicas (que fazem nestas alturas bom dinheiro, a 9-10 ç/kwh).
Pelo que temos mesmo estado a despejar energia em Espanha... grátis! E a Espanha a passar essa energia para França, que provavelmente a despeja na Itália ou mais para Leste...
A Espanha, ao menos, está a subsidiar a sua própria indústria de turbinas, que emprega lá mais de 7 mil pessoas e que tem fábricas de montagem na China e nos EUA, embora já tenha conhecido melhores dias...
Alguém, entretanto, sugeriu que essa energia em trânsito de Portugal para Leste se perde a aquecer as linhas de Transporte, mas não é assim que o Sistema eléctrico funciona.
O que acontece é que a Espanha consome junto da fronteira a energia em excesso que lhe despejamos e de que ela não precisa, e passa para França energia sua produzida perto da fronteira francesa, e a França, que também não precisa desta energia, fará o mesmo, obviamente.
Como notou o leitor que me lembrou que visse as cotações da energia, se o mercado fosse mesmo livre, teríamos de pagar a Espanha para ela aceitar encaixar a nossa excedentária energia eólica. Assim temos sorte, eles aceitam-na de borla...
Quem recebe sempre e não tem que se preocupar com nada disto são os produtores eólicos.

quinta-feira, dezembro 31, 2009

Um negócio e peras!

Como é sabido, nos últimos dias tem chovido e estado imenso vento.
Sendo assim, surge uma questão interessante: à noite, quando o vento sopra mais forte, e dado que as barragens estão cheias de água da chuva e não podem armazenar mais, que tem feito a REN ao excesso de energia eólica existente?
Desde há dias que a REN deixou de publicar gráficos (diagramas diários), se não mostrava-vos.
Como não posso mostrar, posso apenas somar 2 e 2, a partir de outros dados da REN. Por exemplo e relativamente à véspera de Natal:
  • As eólicas estiveram a trabalhar à potência média de, somando-lhe alguma cogeração, 3188 MW, atingindo o máximo de 3848 MW;
  • As hídricas estiveram também a produzir uns 1504 MW, em média, chegando a atingir o máximo de quase 1840 MW.
  • As térmicas produziram em média apenas 1167 MW, e portanto estiveram apenas com o mínimo de segurança ligado.
  • O consumo médio foi de 5596 MW, incluindo 425 de bombagem para armazenamento e 160 de importação.
Mas, obviamente, e embora os sumidos diagramas da REN não permitam mostrá-lo, de madrugada havia de certeza excesso de energia eólica na rede, e não se podia desligar as eólicas nem fechar as comportas das hídricas. Que se fez então a tal energia excedentária?
Exportou-se, só pode ter sido isso.
A que preço?
Pois os dados da REN estão difíceis de aceder. O computador deles dá repetidamente o erro de "server too busy". Mas pode saber-se o seguinte: o preço do kwh no mercado ibérico tem estado a 2,99 ç/kwh, e há o gráfico de preços marginais que anexo.

Sabendo-se que o kwh é pago ao nosso produtor eólico à volta de 9 ç/kwh, digam lá se isto não é um negócio e peras?...
E também se fica a perceber o porquê do investimento previsto em armazenagem hídrica...

quinta-feira, dezembro 03, 2009

Portugal e o reino da Dinamarca

O Governo português acaba de legislar hoje a criação de uma rede de abastecimento de (inexistentes) carros eléctricos. E, segundo os media ao serviço do Ministério da Propaganda, o consumidor poderá pagar com cartão Multibanco em função do operador eléctrico a que está vinculado, como se isto da energia fosse um mercado de retalho. Tratam-se de 1300 postos espalhados pelo país e não se sabe quanto custarão.
Curiosamente e também hoje, o New Yort Times fala dos planos da Dinamarca para fazer um "show" publicitário na cimeira que começa dentro de dias em Copenhaga, mostrando como se já fossem de uso corrente alguns carros eléctricos entretanto encomendados. A Dinamarca, que não fabrica automóveis, concede um desconto fiscal de 25000 € em cada carro eléctrico e estacionamento grátis em Copenhaga, mas apesar de todos os esforços de promoção pelo seu Governo e da cultura "green" fortemente radicada no país, pouca gente lá parece interessada na oferta. Vale a pena ler a notícia do NYT para que hyperlinkei para perceber porquê.
Segundo o NYT e como estamos fartos de saber, o propósito do Governo dinamarquês, como aliás do nosso, é dar vazão ao excesso nocturno de energia eólica carregando as baterias dos carros, dado que a Dinamarca é o país do mundo com maior percentagem de energia eléctrica de origem eólica (20%) e não pode fazer barragens reversíveis para a armazenar à noite como nós, por ser plana.
O nosso Governo ambiciona ultrapassar a Dinamarca em % de energia eólica, chegando aos 25% e tornando-se com isso o campeão mundial. Mas há uma grande diferença entre Portugal e o reino da Dinamarca neste assunto: é que a Dinamarca, que há já um século que usa o seu forte vento costeiro para produzir energia, tem o maior fabricante mundial de turbinas eólicas, a Vestas, que emprega lá directamente perto de 25 mil pessoas (numa população que é metade da nossa) - vd os números da tabela ao lado, da European Wind Energy Association - , exporta anualmente 4 biliões de € e fornece metade dos mercados mundiais em mais forte crescimento!
E nós, não...!

sábado, novembro 21, 2009

Espanto!

Acabo de ler uma notícia no Público on-line que me deixou varado de espanto! De espanto por pertencer a um país cujo Primeiro-Ministro é capaz de dizer publicamente uma asneira como a que acabo de ler!
Transcrevo a notícia:
"José Sócrates lembrou os “progressos notáveis” dos últimos quatro anos, concretamente no caso da energia eólica, passando de cerca de 500 para três mil megawatts instalados. “Fizemos nestes quatro anos investimentos nas energias eólicas que significam duas ou três centrais nucleares em termos de produção de electricidade. E vamos fazer mais. E estamos hoje a apostar como nunca se apostou na construção de barragens”, afirmou".
É que, como já expliquei desenvolvidamente aqui, há uma fraca relação entre "megawatts instalados" e electricidade produzida, nas fontes renováveis. Em Portugal, como na maioria dos países, são precisos 4 Mw instalados de eólicas para se produzir em média 1 Mw de electricidade. Essa média é ao longo do ano - há mais vento à noite que de dia, mais no Inverno que no Verão, e em regra uma eólica passa metade do seu tempo a produzir menos de 5% da sua capacidade, embora haja algumas ocasiões em que produza acima de 90%. Em média, úma eólica produz em Portugal 25% da sua potência "instalada!
No final de Agosto, Portugal já tinha mais de três mil megawatts instalados; tinha 3430 MW. E, neste momento (Novembro), até já deve ter 3500 MW. A questão é: quanta electricidade produzem esses cerca de 200 parques eólicos e perto de 1900 aerogeradores?
Ao longo de um ano, produzem o equivalente à geração contínua de 1/4 disso, ou seja, 875 Mw (x as 8760 horas que tem um ano).
E quanto custaram os 3500 MW de potência instalada nos tais cerca de 200 parques eólicos? É fácil fazer um cálculo: o investimento das eólicas foi até ao ano passado de 1,1 milhões de € por MW instalado, estando agora mais caro por os aerogeradores terem subido de preço. Pelo que, no total, temos um investimento realizado de cerca de 3,8 biliões de € (milhares de milhões) só nas eólicas, das quais 70% para os aerogeradores e o resto para "outros custos", segundo a EWEA (a Organização Europeia das Indústrias Eólicas).
Ora precisamente por este preço podia-se ter construído uma central nuclear de 1650 MW, como se pode verificar pelos valores actuais estimados pela DOE, a Agência Americana para a Energia e que eu já citei aqui.
Em "potência instalada" tal nuclear teria menos de metade da das eólicas existentes por cá, mas com uma primeira enorme diferença: uma central nuclear funciona à sua potência nominal quase permanentemente! Descontadas as paragens para manutenção, em média uma nuclear funciona à sua potência instalada 91% do tempo. Portanto, uma nuclear de 1650 MW geraria em média anual o equivalente à produção contínua de 1500 MW, +70% de electricidade que os 200 parques eólicos já instalados em Portugal!
Uma segunda grande diferença é que o tempo de vida estimado para um aerogerador é de 20 anos, mas para uma nuclear é de 40 anos. Porém, como noticia hoje a Scientific American, nos EUA está-se a chegar à conclusão que as centrais nucleares lá instaladas podem de facto, depois de fazerem os 40 anos de idade como muitas já estão a fazer, fazer mais 50 com actualizações relativamente menores!
Ou seja, o tempo de vida de uma nuclear é incomparavelmente superior ao de uma éólica, na verdade semelhante ao de uma hidroeléctrica. Pelo que o seu custo, distribuído por todo esse tempo, acaba por produzir energia uma ordem de grandeza mais barata. Claro, há que contabilizar os 8% de custo extra para o urânio (presentemente em saldo no mercado mundial, proveniente das ogivas desmanteladas pelos acordos de desarmamento), mas tal custo extra também existe nas eólicas - em rendas pelos terrenos ocupados.

quinta-feira, novembro 12, 2009

Os apagões, o nuclear e as eólicas

Há uns dias o Expresso publicou on-line um vídeo mostrando uma visita ao reactor nuclear que Portugal tem perto de Lisboa, em Sacavém, há quase 50 anos, e que a maioria da juventude desconhece que existe.
Trata-se de um reactor experimental que Portugal comprou com o intuito de adquirir know-how na matéria, e que justificou até, então, a criação da defunta Junta de Energia Nuclear, onde trabalharam alguns dos melhores "cérebros" que Portugal tinha antes da queda do regime em 1974.
Na sequência da publicação da notícia proliferaram os comentários on-line sobre o reactor e surgiu um argumento contra a opção de instalação de uma central nuclear em Portugal que fora defendido há 30 anos, na última vez que tal opção foi discutida em Portugal. Esse argumento é que uma central nuclear é tão grande que a sua avaria repentina pode "mandar abaixo" toda a rede eléctrica, provocando um "apagão".
Ora e a propósito de apagões, houve ontem um no Brasil que deixou 50 milhões de pessoas às escuras (1/4 da população brasileira), havendo quem argumentasse que tal se deveu "à falta de investimento na rede de distribuição" devida "à ganância dos accionistas". Mas, na realidade, o apagão de ontem no Brasil nada tem a ver com redes de distribuição, e ilustra precisamente o que pode acontecer quando uma grande central "salta fora" repentinamente de uma rede eléctrica.
De facto, foi a central de Itaipu, que fica na fronteira do Brasil com o Paraguai e com a Argentina, que "saltou fora". Itaipu é umas maiores centrais hidroeléctricas do mundo, de facto a maior do mundo em produção de energia, produzindo uma potência média de 11 GW, o que é quase o dobro do consumo médio de Portugal! Fornece 90% da energia consumida pelo Paraguai e quase 1/5 da consumida pelo Brasil, mas está muito longe dos centros de consumo deste país, com linhas especiais de Alta Tensão com mais de 900 km de comprimento.
Foi uma sequência (rara) de incidentes que desligou essas linhas de Transmissão e levou a central a "saltar fora" e, no seguimento, a rede "partiu-se" (algumas linhas de Muito Alta Tensão terão desligado por não aguentarem a sobrecarga pedida ao norte) e as poucas centrais que havia na rede que ficou a Sul não aguentaram o pedido de energia que lhes caiu em cima repentinamente e saltaram fora também. É aliás assim que acontecem quase todos os apagões.
Uma vez ocorrido o apagão, a reposição da rede em serviço, ligando-se uma central de cada vez enquanto se procura a causa do incidente, leva tempo - neste caso levou 6 horas, provocando o caos e obrigando a cantora Madonna, que estava no Rio de Janeiro a visitar umas favelas, a ter de ir jantar à luz das velas.
Ora uma central nuclear não pode ser pequena, em termos da potência que fornece, para ser rentável. 1,35 GW é uma potência típica. E, naturalmente, pode-lhe sempre acontecer o que aconteceu agora com Itaipu.
Porém, hoje em dia o consumo médio de Portugal é de 6,0 GW, variando entre cerca de 3,5 GW de mínimo pela madrugada, e 9,0 GW de ponta pelas 20 horas, o que é muito mais do que o que acontecia há 30 anos, quando os consumos de electricidade eram de pouco mais de 1/4 dos actuais, em Portugal. Nessa altura, o consumo nas horas de vazio (madrugada) era inferior à produção de uma tal central, cerca de apenas 1 GW, o que criava um problema ao excedente e o grande risco de, caso a nuclear se tivesse de desligar inopinadamente, toda a rede "ir abaixo" e se ter um apagão. Mas isso já não é assim hoje, e o disparo de uma nuclear teria efeitos semelhantes, na pior hipótese, aos do disparo da central de Sines (1,2 GW), que aliás já tem acontecido e "mandado abaixo" o Sul do país - mas a fiabilidade de uma nuclear é muito superior à de uma central a carvão, e por isso o risco de tal acontecer é bem menor, menos de metade. E depende muito da concepção da rede em que se insira.
Entretanto, porém, a mesma energia que produziria uma tal nuclear será produzida, já no fim de 2010, pelos 5,1 GW de centrais eólicas que estão em instalação (e de que neste momento já estarão instalados uns 3,5 GW). Ou seja, a mesma potência média de 1,23 GW que uma central nuclear de 1,35 GW produz anualmente, serão produzidos por um conjunto de parques eólicos de 5,1 GW.
Acontece, porém, que a energia eólica é intermitente. Na maior parte do tempo, não produz mais que 5% (0,25 GW) da potência instalada, mas há ocasiões, sobretudo no Inverno e à noite, em que podem produzir 90%, ou seja, 4,5 a 5 GW. E isso é muito mais que os 3,5 GW que Portugal estará a consumir nessa altura e que é a razão de ser do projecto das 8 hidroeléctricas adjudicadas, como já mostrei , que trabalharão como estações de bombagem para dar consumo a essas eólicas.
É evidente, portanto, que vamos estar, com estas eólicas a superarem o consumo das madrugadas, precisamente na situação que há 30 anos levou a excluir a instalação da nuclear de Ferrel!
Há quem argumente que a situação é diferente porque no caso de uma nuclear se perderiam 1,35 GW de uma vez, enquanto que agora temos muitas turbinas eólicas pequenas e que, portanto, o risco de se desligarem todas simultaneamente é muito menor.
Ora isto é falso, e é precisamente a principal razão de ser deste meu post hoje: o risco de "saltarem fora" de uma só vez 3 a 4 GW de eólicas é maior do que o de saltar a tal nuclear (de 1,35 GW)! E porquê? Porque:
  1. Os parques eólicos estão concentrados, na sua maioria, em zonas restritas, especialmente no Minho;
  2. As eólicas que temos não foram concebidas para suportarem perturbações na rede eléctrica a que estão ligadas, desligando-se à menor perturbação; isto acontece porque o Estado português não previu nem publicou normas técnicas que o exigissem (ao contrário de todos os outros países com eólica em quantidade significativa, e apesar delas terem sido elaboradas no Instituto Superior Técnico no início desta década). Ou seja, cada eólica e cada parque eólico dos que temos suporta muito menos perturbações na rede eléctrica do que qualquer central tradicional, incluindo uma nuclear!
Há uns anos o Instituto Superior Técnico fez um estudo da situação e verificou que, muito antes de se atingirem os 5,7 GW planeados pelo Governo, se estará numa situação em que um incidente na rede de Muito Alta Tensão da REN na região do Minho fará "saltar fora" todas as eólicas da região. E o estudo mostrou que as linhas de ligação a Espanha aguentariam o "solavanco", mas que seria a própria rede espanhola que o não aguentaria (ela própria com eólica em excesso), vindo a ser as linhas de interligação a França que disparariam por sobrecarga, verificando-se de seguida o que aconteceu agora no Brasil: desligação das centrais remanescentes, por não aguentarem a energia subitamente pedida, e "queda" de toda a rede... ibérica!
Ou seja: quando ocorrer o inevitável apagão ibérico que tudo isto prepara, já sabem o motivo! E lembrem-se que a nuclear de há 30 anos foi rejeitada em parte por isto poder acontecer, na altura, mas que agora para o eólico nenhum responsável quis saber disso...

quarta-feira, setembro 30, 2009

Clusters industrais nas renováveis: 23 mil empregos, ou a fraude portuguesa do século? Parte II - o caso das hidroeléctricas

Recentemente, o Ministro da Economia em acumulação de funções anunciou um plano de aposta nas energias renováveis que implicaria a criação de 23 mil empregos e 15,5 biliões de euros de investimento. O plano estará em execução há já 2 anos e é para continuar por mais 6.

A enormidade do investimento anunciado e as implicações que ele terá para o futuro nacional tornam irrecusável o imperativo ético de trazer à discussão pública a bondade desta decisão. Um contributo para essa discussão, até aqui ausente do palco mediático (salvo posições do antigo Ministro da Indústria dos Governos de Cavaco Silva, Mestre Eng.º Mira Amaral), é o que decidi escrever no que acabará por ser um texto longo. Decidi escrevê-lo por partes, para postar à medida que o tempo mo permita.

Na parte I, mostrei, historiando, como as tecnologias da energia eólica levam tempo a dominar, como é preciso ter estratégias nacionais para atingir esse domínio, que problemas técnicos e que valor acrescentado existe no fabrico de instalações eólicas e, finalmente, como o que Portugal tem feito na matéria peca por um terceiro-mundismo sem sustentabilidade, nomeadamente quanto aos 1800 empregos que estará a criar. Nas eólicas, que em breve terão esgotado o potencial nacional, terão sido investidos directamente 6,5 a 7 biliões de €, importanto quase tudo e subsidiando fortemente essa importação, num exemplo único no mundo de fomento de indústrias estrangeiras. Àquele investimento haverá ainda que adicionar 1 bilião de €, pelo menos, na expansão de rede necessária para ligar as eólicas à rede eléctrica.

Nesta parte II, agora, debruçar-me-ei sobre os projectos hidroeléctricos em curso. Embora estes projectos sejam apresentados como visando o aproveitamento dos Recursos Hídricos nacionais, objectivo que naturalmente recolhe o apoio consensual dos portugueses, na verdade a energia de origem hídrica que estes investimentos acrescentam ao país é insignificante e, como demonstrarei, não é esse o seu objectivo principal.
O objectivo principal dos projectos hidroeléctricos em curso é a criação de reservatórios de energia... eólica, e principalmente energia eólica de Espanha! Mas que, na sua maior parte, vão ficar sem qualquer utilização.

  • Os factos dos investimentos hidroeléctricos em curso
Em 2008, começou a ser publicitado o relançamento do aproveitamento dos recursos hidroeléctricos nacionais, prosseguindo a construção de centrais que tinha sido bloqueada quando em 1995 o filósofo Prof. Doutor Manuel Carrilho acusou, no Parlamento, o então Ministro da Indústria e ex-especialista da EDP Eng.º Mira Amaral, de "barbarismo tecnocrático" por ele defender a barragem de Foz Coa. A barragem, que já estava em plena construção, foi suspensa pelo sub-sequente Governo de Guterres (1995-2001), e as gravuras pré-históricas lá encontradas só podem hoje ser visitadas com marcação prévia e com muita antecedência, como descobrem os ingénuos visitantes a quem ocasionalmente ocorre ir até lá fazer um passeio turístico.

As 8 hidroeléctricas cujo licenciamento foi atribuído já neste ano de 2009 tinham prevista uma potência instalada total, inicialmente, de 941 MW, mas a potência média esperada, considerando o caudal dos respectivos rios (que não se pode mudar), era de apenas 120,9 MW, menos de 1/8 do que produz em média a central a carvão de Sines e uns míseros 2,1 % do actual consumo nacional, um valor que apenas dá para cobrir o aumento de consumo de um único ano (sem recessão), como bem notou o ambientalista Prof. Doutor Joanaz de Melo.
Recordo que, como expliquei aqui, é a potência média que nos dá uma ideia da energia que uma central eléctrica efectivamente produz, e não a sua "potência instalada", que só é atingida muito ocasionalmente, ao longo do ano.

Dos referidos 941 MW inicialmente previstos para as 8 barragens, quase metade (424 MW) foram concedidos à espanhola Iberdrola, concretamente 4 das referidas 8 hidroeléctricas e que se situam na bacia do Tâmega e cuja exploração é inter-dependente.

A potência média dessas centrais da bacia do Tâmega, porém, era de apenas 59 MW, e há quem diga que mesmo este valor está sobreavaliado em 20%. E, no entanto, a Iberdrola ofereceu no leilão de concessionamento 1 bilião de € por elas, e mais tarde anunciou que afinal vai investir 1,7 biliões de € ali.
Ao mesmo tempo, a Iberdrola anunciou que vai ampliar a "potência instalada" das referidas centrais dos 424 MW inicialmente previstos para 1135 MW, mais 711 MW que o valor inicial, sobretudo na barragem de Gouvães!

Por outro lado a EDP, que ficou com 3 das 8 centrais e quase metade da potência a instalar inicialmente prevista (444 MW), anunciou também a ampliação desta potência em mais 263 MW, sobretudo na barragem do Alvito, e os investimentos atingirão, somando valores mencionados na imprensa, cerca de 1,1 biliões de €. Porém, a potência média destes 3 aproveitamentos, cuja potência instalada atingirá assim os 707 MW, a potência a que realmente é proporcional a energia de origem hídrica a gerar, será de apenas 50,6 MW.

A última das 8 barragens, Girabolhos, foi atribuída à espanhola Endesa, para um investimento inicialmente anunciado de 110 milhões de €. Esta barragem tinha prevista uma potência a instalar de 72 MW e uma potência média (proporcional à energia hídrica disponível) de apenas 11,3 MW, mas também a Endesa decidiu, já depois de ganha a concessão e similarmente ao que aconteceu com as outras 7 centrais, multiplicar por cinco a potência instalada, para 355 MW! O investimento final é agora indicado como sendo de 360 milhões de €!

Temos assim que, no total das 8 barragens, se estima em apenas 121 MW a potência média de origem hídrica disponível, mas a potência a instalar prevista no Caderno de Encargos, que era de 941 MW, vai ser efectivamente de... 2200 MW! Isto, para um investimento total anunciado (na imprensa) de 3,0 biliões de € (2/3 dos quais espanhois).

Desde já chamo a atenção de um detalhe crucial para entender estes aumentos de potência instalada e que adiante explicarei para que servem: em quase todos os casos os aproveitamentos serão reversíveis, isto é, as turbinas poderão trabalhar como bombas hidráulicas, enchendo os reservatórios das albufeiras com água já turbinada, puxada de jusante. Como comenta encantado o Eng.º Carlos Pimenta, "põe-se o rio a andar ao contrário"...

Entretanto, a estratégia destes investimentos só se entenderá perfeitamente se se recordar que a EDP tem em curso o reforço de potência instalada de outras 8 barragens (Bemposta II, Picote II, Alqueva II, Venda Nova II e III, Salamonde II, Paradela II e Cabril II), aumentando essa potência num total de 2000 MW, e ainda mais duas novas em construção (Ribeiradio e Baixo Sabor, com 244 MW de potência instalada), que adicionarão ao todo apenas uma potência média de 41,6 MW, para um investimento total de 1,85 biliões de €.

Somando todos estes investimentos, temos que no conjunto se está a falar de 4,85 biliões de € (2,85 da EDP e 2 espanhóis), + 0,55 biliões de € estimáveis de investimentos na rede eléctrica (pela REN), valor igual ao custo do novo aeroporto ou 4/5 do do TGV (embora no TGV o Estado co-financie 2/5, enquanto das novas hidroeléctricas o Estado tenha recebido 666 milhões de €). A potência instalada total será de 4640 MW, dos quais 4070 reversíveis mas, como mostrarei mais adiante, a energia de origem hídrica efectivamente produzida por tudo isto não ultrapassará o valor insignificante correspondente à potência média de 175 MW, menos do que produz um só dos 4 geradores da central a carvão de Sines. Na verdade, não é para esta energia que isto tudo está a ser feito, como ficará patente.

  • Quantos empregos? Milhares, só durante a construção dos aproveitamentos...!

As centrais hidroeléctricas, quando em exploração normal, ocupam muito pouca mão-de-obra porque hoje em dia são automatizadas e tele-comandadas. Fora alguns guardas e pessoal de manutenção permanente, as centrais não precisam de operadores, e dos 18 empreendimentos em curso só 10, como vimos, são inteiramente novos. O número de empregos permanentes criados por estas novas centrais não irá ultrapassar sensivelmente uma centena.
Já durante a construção dos aproveitamentos haverá uma utilização intensiva de mão-de-obra, mas o tempo de construção de cada um é, em média, cerca de 4 anos. Trata-se em grande parte de mão-de-obra temporária e deslocada para as empreitadas que, no auge da construção, atinge tipicamente o milhar. Assim, e à média de mil homens por 3 anos e por cada aproveitamento, tem-se que todos os empreendimentos somados poderão ocupar directamente, como ordem de grandeza, 6 mil trabalhadores durante 9 anos (2007-2016). Mas, dadas as condições de trabalho em causa (temporário, duro, e exigindo a deslocação para locais isolados), é muito provável que essas condições atraiam sobretudo trabalhadores imigrantes, considerando ainda que o ordenado típico oferecido para o pessoal não-qualificado nesta construção civil é de 550 € mensais com contratos por 3 anos (a duração típica da fase mais intensiva de cada obra).
Além destes quiçá seis mil empregos temporários, é frequente considerar que por cada um são criados 3 outros indirectos - obviamente, também só durante a construção dos empreendimentos. Parte destes empregos poderão estar nos serviços de apoio aos próprios trabalhadores deslocados (restaurantes, hospedarias), mas a maioria estará nas indústrias fornecedoras dos materais para os empreendimentos - cimenteiras, fábricas de equipamento eléctrico e mecânico, etc. Se, como é provável, houver uma situação de quebra de encomendas nessas indústrias devida à recessão em curso, é conjecturável que essas indústrias se encontrem numa situação de sub-ocupação dos recursos produtivos e que, portanto, as encomendas provenientes das barragens se limitem a ajudar a manter empregos já existentes - e em boa parte nas empresas estrangeiras donde se importem os equipamentos e materiais. Quanto tempo cada um destes empregos é ocupado pelas referidas encomendas é um dado desconhecido, mas certamente será, em média, bem inferior aos 4 anos de duração das obras.
Não deixa de ser verdade, no entanto, que a construção destes empreendimentos sempre incorpora uma maioria de valor acrescentado nacional, ao contrário dos parques eólicos.
  • O "reforço de potência" das centrais hidroeléctricas e a energia de origem hídrica que elas produzem
Recentemente, o Ministro do Ambiente clarificou no Parlamento alguns números actualizados destes projectos, mencionando os aumentos de potência instalada que acabaram por ser decididos pelas "eléctricas" depois da concessão, e associando-lhe um aumento de energia produzida. Esta associação entre a potência instalada numa central e a energia que ela produz é extremamente comum mas, como já expliquei aqui, é uma tremenda confusão, habilmente explorada por alguns e propagada depois por muitos outros (que não sabem Física elementar)!
Numa hidroeléctrica, a quantidade de energia produzível depende, antes de mais, do caudal do rio, ou seja, da quantidade de água por segundo que nele corre, e é evidente que no Verão há menos água que no Inverno, e que há anos secos e anos chuvosos - mas a potência instalada da central é projectada para se poder tirar dela o máximo de energia possível, quando for desejável!

E isto leva-nos à seguinte pergunta: basta aumentar a potência dos geradores de uma central hidroeléctrica, para tirar de um rio mais energia? Infelizmente a resposta é: não!

A energia que se pode tirar de um rio depende do caudal deste e da altura da queda de água da barragem. A energia que aí reside, a energia primária das hidroeléctricas, é a energia mecânica potencial que, todos o sabemos do ensino secundário, é quantificada pela massa de água multiplicada pela altura da sua queda.
A massa de água depende do caudal natural do rio, e não há nada que possamos fazer para o aumentar, pelo menos continuadamente.
A altura da queda depende da altura da barragem, mas esta depois de concessionada também não pode ser aumentada, porque isso iria alargar muito a albufeira e inundar terras não previstas na concessão.
Por conseguinte, a energia que a Iberdrola, a Endesa e a EDP vão poder tirar destas barragens, essa energia, ou a potência média, se preferirem, é praticamente a mesma - aumentem estas "eléctricas" a potência lá instalada ou não! As únicas excepções são algumas centrais que, já antes, não podiam aproveitar toda a água do rio no Inverno - centrais que tinham de "deixar passar" água sem a turbinar em alturas de cheia, quando o rio está muito caudaloso, por insuficiência de turbinas - como é o caso das velhas centrais do Picote e Bemposta, no Douro.

O que o "reforço de potência" permite, na verdade, é turbinar mais água no mesmo tempo - mas isso não aumenta a água disponível no rio, e portanto a energia!

Por exemplo, suponhamos que o rio tem um caudal de 10 metros cúbicos de água por segundo no Verão, mas de 100 metros cúbicos na época de chuvas; se se tiver potência instalada que chegue, consegue-se turbinar os 100 metros cúbicos por segundo no Inverno, mas no Verão as turbinas só funcionarão a 10% da sua capacidade - a menos que se tenha um reservatório, uma albufeira, onde se armazene a água de modo que se possa então, por exemplo, fechar as turbinas durante 9 horas e depois, à hora de ponta, a 10ª hora, despejar tudo de uma vez. Que é precisamente para que servem essas albufeiras, ou reservatórios elevados de água, e portanto de energia! Obviamente a energia gerada é a mesma, e a diferença está só no ritmo a que isso é feito ao longo do tempo, aquilo a que se chama potência.
Em regra, se a central não tiver albufeira, a diferença entre o caudal médio e o caudal de Inverno de um rio é por cá de 1 para 3, e por isso tipicamente a potência média que a central debita é à volta de 30% da potência instalada (que é a máxima de que ela é capaz). Se a central tiver albufeira, pode armazenar a água para ser usada nas horas em que mais falte a energia eléctrica, as horas de ponta, e aí já a potência média da central pode ser de apenas 1/6 da potência instalada - ou seja, a central poderá ter uma potência instalada dupla da do caso anterior, mas isso não significa que produza mais energia, repito, e sim e apenas que pode concentrar essa produção em certas horas.

Espero ter conseguido explicar esta diferença essencial entre potência instalada e potência média (a que é proporcional a energia) aos senhores jornalistas e politólogos!...

Ora, no caso dos investimentos em realização em Portugal, se a energia de origem hídrica que todos estes investimentos vão produzir é tão pequena (potência média de 175 MW), e se o reforço da potência instalada pouco aumenta a energia hídrica das centrais que já existiam, porque razão, então, se vão investir tantos biliões adicionais nestas barragens? Porque razão se não constrói uma potência instalada de até 6 vezes essa potência média de 175 MW, que seria 1100 MW, e em vez disso se vão construir 4640 MW, 4 vezes mais?
A resposta está no facto das turbinas previstas serem reversíveis, de poderem "pôr o rio a funcionar ao contrário", e o interesse desse facto explico-o no seguimento - mas, como é óbvio, quaisquer que sejam as turbinas elas não podem aumentar nem o caudal do rio nem a altura da sua queda, e portanto não aumentam a energia de origem hídrica extraível dos rios.

  • As turbinas reversíveis e as albufeiras como reservatórios de energia... eólica!
Antes de prosseguir, e só para fixar conceitos, noto que a energia é sempre a mesma entidade, mas que pode mudar de forma - pode ser mecânica, na forma de água nas alturas de uma albufeira, mudar para a forma eléctrica na central e nessa forma ser transportada até aos consumidores - mas, se a central funcionar ao contrário, se as turbinas puderem trabalhar como bombas hidráulicas, então é possível fornecer energia eléctrica à central e ela transformá-la de novo em energia mecânica de água nas alturas. Qual o interesse? Armazenamento! A água contida numa albufeira é energia armazenada que pode ser turbinada de novo, convertendo-se em electricidade, quando convier!

Ora esta utilização da albufeira como reservatório de energia, carregado pela central eléctrica a funcionar como uma estação de bombagem, é muito útil e de facto usada há muito pelo mundo fora quando existe, algures, uma outra fonte de energia que se queira aproveitar mas que se não possa controlar. É, precisamente, o caso das fontes de energia renovável, muitas vezes. O Sol não ilumina de noite e, portanto, se se quiser aproveitar a energia solar à noite, é preciso armazenar essa energia nalgum lado. Pode-se, pois, converter a energia solar em eléctrica, transportar essa electricidade até uma hidroeléctrica com turbinas reversíveis, bombar água para cima com essa electricidade, e á noite voltar a turbinar a água da albufeira, produzindo de novo electricidade. A albufeira funcionou como reservatório de energia de origem... solar.

Evidentemente, desde já se pode ver que se quisermos usar energia solar à noite, e só solar, além da central fotovoltaica (já de si caríssima) vamos ter que construir uma estação de armazenamento par tal. Se for muita, justifica-se a dimensão de uma hidroeléctrica com albufeira para a armazenar até á noite... e é exactamente isso que acontece com os aproveitamentos hidroeléctricos em causa, só que não para armazenar energia de origem solar (por enquanto...), e sim energia de origem eólica!

Que a reversibilidade das turbinas das novas hidroeléctricas visa o uso destas como reservatórios de energia de origem eólica pode ser confirmado no próprio Caderno de Encargos oficial dos aproveitamentos e também aqui e em muitas declarações públicas de entusiastas das renováveis! A questão que interessará saber ao povo, entretanto, é que problema técnico justifica o uso das presentes hidroeléctricas como reservatórios de energia de origem eólica, e isso é o que vou tentar explicar de seguida, não vos pedindo que saibam Engenharia ou Física mas apenas que consigam perceber uns gráficos simples, extraídos do próprio Caderno de Encargos dos empreendimentos.

Na figura ao lado mostra-se como evoluiu a produção da energia eólica produzida no nosso país num dia típico de 2006. No nosso país, a legislação criada no tempo de Guterres garante aos produtores eólicos a compra pela rede eléctrica de toda a energia que sejam capazes de produzir, com uma tarifa altamente lucrativa, e por isso eles produzem tudo o que podem. Porém, e como é patente no gráfico, o vento sopra com uma extrema irregularidade, produzindo uma energia eléctrica muito intermitente e que não se adequa nada ao diagrama de consumos dos utentes da rede. Ainda por cima, e em média, sopra predominantemente à noite, quando há menos consumos.
Se não houver muita potência eólica instalada na rede, o problema poderá não ter grandes consequências, porque as outras centrais convencionais se encarregarão de filtrar estas irregularidades, especialmente as centrais fáceis de controlar, como as hidroeléctricas e as a gás.
Porém, se a energia de origem eólica ultrapassar, digamos, 20% do total (o máximo dos máximos internacionalmente considerado como comportável e só atingido na Dinamarca), acontece o que se mostra no gráfico seguinte, previsto já para 2011 em Portugal, data em que a energia eólica atingirá os 25% da produção total nacional, com 5700 MW de potência instalada (e 1400 MW de potência média), o dobro do que se tinha no final de 2008.
Neste diagrama, a linha vermelha superior assinala o consumo nacional num dia chuvoso. Como se pode ver, a produção de energia supera largamente o consumo, e isso devido sobretudo à produção eólica (verde alface) que, pelos contratos feitos com os produtores e pela legislação existente, nunca pode ser parada ou reduzida, e que "sopra" predominantemente à noite! Que fazer para equilibrar a produção total com o consumo?
A produção de origem térmica (verde escuro) pelas "cogerações" (outro negócio semelhante e ainda pior, porque até polui, e de que falarei qualquer dia) também não pode ser parada, nem a das hidroeléctricas sem albufeira (em baixo, azul marinho), e sempre é precisa alguma térmica convencional para controlar o sistema (cinzento). Poder-se-ia pensar em exportar para Espanha, mas a Espanha estará nessa altura com um problema semelhante, cheia de "vento" e um consumo de horas mortas!

É aí, já estão a ver, que entram as novas hidroeléctricas com turbinas reversíveis: para consumir a energia de origem eólica em excesso, armazenando-a na forma de água nas alturas, como é mostrado na linha azul grossa, em baixo.
Depois, nas horas de maior consumo e menos vento, durante o dia, essa água armazenada é turbinada, e a energia de novo devolvida à rede, juntamente com a que veio propriamente do rio (zona azul superior a partir das 9 da manhã, por baixo da linha vermelha do consumo).
Por conseguinte, a necessidade das hidroeléctricas reversíveis resulta de haver energia eólica em excesso, e é a solução para o problema que isso cria. Por um preço extraordinário, como se viu!
E falta acrescentar um detalhe: no ciclo de bombagem de água para cima da albufeira e depois de novo a sua turbinagem, perde-se energia, por atrito nas condutas de água da central. Concretamente, por cada 4 kwh que se gastam a bombar a água para cima, só se recuperam 3 kwh depois no retorno da água. A água é a mesma (áparte alguma evaporação da albufeira), mas é preciso aplicar mais "força" para a içar do que a que ela devolve ao descer de novo, por causa dos atritos.
  • Serão precisos 2000 MW de potência hidroeléctrica reversível para dar consumo às eólicas, mas vão existir 4900!
A REN fez um estudo sobre quanta potência de bombagem, ou hidroeléctrica revertida, virá a ser precisa para conseguir consumir o excesso de potência eólica na pior situação, e essa situação é a ilustrada na figura anterior, que mostra que por volta das 5 da manhã será preciso dar vazão a 2000 MW de potência eólica.
Com os novos aproveitamentos e reforços de potência aprovados a capacidade hidroeléctrica reversível atinge os 4070 MW, mas Portugal já tinha, antes destas novas centrais, cinco hidroeléctricas antigas com capacidade de bombagem ou reversíveis: Aguieira, Alqueva I, Torrão, Vilarinho das Furnas e Alto Rabagão. Estas hidroeléctricas ofereciam já 820 MW de bombagem, pelo que com os novos investimentos o país ficará a dispôr de 4890 MW reversíveis. Ter-se-ão, portanto, quase 2900 MW de hidroeléctricas reversíveis, em grande parte aquelas que foram decididas já depois do concurso das famosas "10" de 2008, cujo propósito é desconhecido.
É possíve, no entanto, conjecturar duas hipóteses alternativas:
  1. O Governo planeia instalar mais de 3000 MW de energia solar ou de eólicas offshore, para que não se antevê consumo (a menos que se esteja a pensar fechar definitivamente a barata produção a carvão que, no cenário previsto pela REN e como se pode ver pela figura anterior, já se prevê que só funcione metade dos dias em 2011);
  2. Há um plano oculto de disponibilização das centrais reversíveis portuguesas a Espanha, para dar consumo ao excesso de potência eólica e solar daquele país.
Este último cenário merece algum desenvolvimento.
A Espanha tem, presentemente, 3272 MW de potência hidroeléctrica reversível, e planeia construir em breve mais 1600 MW, em duas centrais. Com estas, atingirá os 4872 MW, por coincidência quase exactamente o mesmo valor que Portugal!
Se se admitir que a potência eólica instalada em Espanha acompanhe a mesma proporção da portuguesa, e atendendo a que o seu consumo de energia eléctrica é 6 vezes o nosso, é conjecturável que ela venha a precisar de uns 9.000 MW de potência hidroeléctrica reversível para encaixar o seu excesso de produção, para os quais só dispõe de 4900... a menos que os restantes 4100 sejam disponibilizados por Portugal. Isso explicaria os investimentos da Iberdrola e da Endesa nos 1370 MW em Portugal, e a EDP disponibilizaria os restantes 2900 MW que terá em excesso...
A questão final que se põe, entretanto, é de como será remunerada a função de armazenamento de energia pelas hidroeléctricas reversíveis.
Não é difícil fazer umas contas e verificar que a função de bombagem chega para justificar o investimento destas hidroeléctricas, somando-a à pouca energia de origem hídrica que poderão produzir, se o preço da energia eléctrica que consumirem para a bombagem for... grátis! Isto é, se a água que for bombada custar o mesmo que a que vem do rio!
A rede é que terá de arcar com o custo de pagar aos produtores eólicos a sua desnecessária energia à tarifa contratada, para a vender de borla às hidroeléctricas reversíveis, repercutindo o respectivo prejuízo no défice ou nos consumidores domésticos, claro.
Mas, quanto à energia proveniente de Espanha nestas condições, obtê-la grátis é capaz de ser difícil. E, se ela for paga ao preço de mercado corrente, isso significará que Espanha terá conseguido arranjar uma fórmula para se desfazer da sua energia renovável excedentária transferindo parte do prejuízo para Portugal.
Ora, se as hidroeléctricas reversíveis comprarem a energia eléctrica para bombar água, terão de revendê-la por 4/3 do preço de compra só para não terem prejuízo (devido às perdas por atrito), e nesse caso os respectivos investimentos nunca serão recuperados, aos preços actuais na praça ibérica de energia eléctrica (3 ç/kwh nas horas mortas e 5 ç/kwh nas horas de ponta)!

Entretanto, em Maio do ano corrente de 2009 Espanha praticamente acabou com a subsidiação da energia renovável, e assim muito dificilmente se ultrapassarão os 20.000 MW de potência eólica instalada lá até ao fim de 2010. Essa potência corresponde à que tínhamos instalado em Portugal até ao Verão transacto (3334 MW), dada a proporção de consumos nos dois países, mas que ainda é só 60% da que o Governo português decidiu subsidiar. Com o fim da subsidiação em Espanha, esta não vai precisar das hidroeléctricas portuguesas para armazenar excessos de energia, porque os seus instaladores, já em grandes coros de protesto, vão parar os seus investimentos - mas Espanha terá parado a tempo de a energia eólica e solar não se tornar lá um encargo totalmente descontrolado!

De uma forma ou de outra, mesmo admitindo que boa parte destes investimentos se justificam pela (pouca) energia que estas hidroeléctricas vão produzir, haverá sempre 2,6 biliões de €, dos quais pelo menos 1,7 biliões de € portugueses (estando os espanhóis a "arder" com 0,95 bilião), que só se justificam por causa dos planos do Governo para a instalação de energia eólica e que, em bom rigor, deveriam ser imputados a essa opção eólica, e não às próprias hidroeléctricas!Somados os 2,6 biliões de € destes investimentos hidroeléctricos aos 6,5-7 biliões que o investimento das eólicas terá custado quando os 5700 MW estiverem todos no terreno, dentro de um ano ou dois, temos que o custo para o consumidor desta energia ficará pelo menos em 140% do custo ao produtor, ou 11 a 13 ç/kwh - o quádruplo do que custa a do carvão ou o triplo da de uma nuclear!...
Por enquanto o consumidor não o sente, porque o operador da rede vai remetendo para o défice, mas alguém terá de vir a pagar isto e é duvidoso que seja o Governo ou as "eléctricas"...
Além disso, se descontarmos aos 175 MW médios de origem hídrica as perdas na bombagem que vão correr nestas hidroeléctricas, poder-se-á afirmar que o seu contributo líquido para a produção de energia nacional deste colossal investimento será muito aproximadamente... ZERO!