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segunda-feira, julho 25, 2011

A construção naval portuguesa e o salto em frente... no vazio!

Os jornais de ontem publicavam uma notícia que dá conta que a indústria naval portuguesa chegou a empregar 26 mil trabalhadores, em meados dos anos 70, e que hoje tem... menos de mil! E em risco de mesmo estes desaparecerem, com os despedimentos agora programados para os estaleiros de Viana do Castelo!...
O Público, em particular, publica extractos de uma interessante entrevista com um conhecedor do sector, um homem com uma visão estratégica a que talvez não seja alheia a sua condição de militar, e que explica como toda a Europa, e Portugal em particular, foram perdendo competividade para a indústria asiática, ao longo deste último terço de século, até se chegar ao ponto onde se está hoje.
"As crises económicas cíclicas desde 1973 fizeram reduzir a procura e desviar a indústria da construção naval desde a América do Norte e Europa para a Ásia. Mais recentemente a China e outros países vizinhos tornaram-se construtores com elevada quota de mercado”, explica o Contra-almirante Gonçalves de Brito.  "Maior produtividade, menores custos de produção e condições de mercado distorcidas”, aponta este responsável como causas desta evolução, explicando que “A importação de soluções desenvolvidas no Ocidente permitiram a implantação da Ásia como principal centro da indústria naval de grandes navios e de embarcações de serviços”. A Europa foi relegada para “nichos de navios específicos de alta tecnologia, incluindo navios militares e equipamento para plataformas de exploração oceânica”.
E, quanto a Portugal especificamente, diz:"Portugal apenas deverá aspirar à construção de navios em nichos dentro dos nichos, aproveitando situações pontuais de ocasião, potenciando a diplomacia económica e valorizando a entrada na construção de navios militares de tecnologia média, marítimo turísticas e mais algumas outras oportunidades que aparecem esporadicamente”, e queneste momento a indústria naval portuguesa debate-se com o problema adicional de falta de profissionais qualificados”. “Mesmo que ocorresse uma viragem nas perspectivas de mercado de procura, a incapacidade de resposta seria um facto face à dita falta de recursos humanos qualificados e à descapitalização dos estaleiros que limita a respectiva actualização tecnológica e a inovação”, assume, resumindo:“Portugal deixou de ser competitivo”. "O país não tem custos de produção baixos, produtividade ou sequer capacidade de gestão adequadas. E não dispomos de centros de excelência que disponibilizem rapidamente projectos técnicos inovadores e atractivos para os armadores, por total descapitalização das poucas estruturas de engenheiros e projectistas existentes."
Este retrato é comum a outros importantes ramos da indústria portuguesa, e é por isso surpreendente que o nosso contra-almirante, depois de enunciar com sabedoria a falta de especialistas, de tecnologia, de inovação e de centros de excelência no sector, que nos capacitem para competir nos nichos de mercado de alta tecnologia ainda possíveis, alvitre como solução o salto para... as energias renováveis! Concretamente, propõe ele: "Sobretudo grandes estruturas oceânicas de energia, investigação e recolha de matérias primas para as águas sob controlo nacional, onde seja importante minimizar a distância do local de construção ao local de utilização"!
Ora se já nem navios sabemos construir, como poderemos resolver isso saltando para a inovação em tecnologias que ainda não existem? Pergunta que associo à de como poderá o mar, esse grande desígnio que por vezes nos apontam, passar de uma miragem a alguma realidade?
Na verdade, este salto no vazio como resposta ao nosso atraso tecnológico foi apanágio da nossa governação nos 15 anos terminados, e o seu maior expoente foi o "momento em que se fez História" com a inauguração da central das ondas da Póvoa do Varzim pelo inacreditável ministro Manuel Pinho, como noticiei aqui em tempos!
A verdade, infelizmente, é que a nossa construção naval nunca soube muito da ciência moderna dessa construção.
No tempo em que dividíamos os mares com Espanha e a Ribeira das Naus era um imenso complexo fabril, a técnica da construção naval, que dominávamos mas em que pouco inovávamos, era muito empírica e baseada em princípios de simetria pouco científicos, como Franklin Guerra nos recorda na sua História da Engenharia em Portugal. Quando a engenharia naval veio a ganhar raízes na matemática e na física modernas, no sec. XVIII, dando origem aos velozes brigues do sec. XIX que faziam de Lisboa à Índia em 3 meses, contra os 6 meses das nossas naus, já há muito que Portugal deixara de dominar os mares ao mesmo tempo que viria a passar ao lado dessa revolução industrial...
O boom da construção naval em Portugal no início dos anos 70 (na verdade, essencialmente reparação naval), resultou de duas circunstâncias: a excelente posição geográfica do país, que faz com que todos os petroleiros que abastecem a Europa passem ao largo da nossa costa, e o fecho do canal do Suez de 1967 a 1975, em resultado da guerra dos 6 dias e do bloqueio egípicio decorrente. Este bloqueio promoveu a construção, com destaque para o Japão, de superpetroleiros que passaram a ter de fazer a rota do Cabo, contornando a África, para trazerem do Médio Oriente o precioso líquido. Os estaleiros, cujos operários bem pagos eram baluartes apetecidos da esquerda revolucionária dos anos 70, chegaram a ter de facto um peso económico relevante mas, surpreendentemente, Portugal só veio a ter a sua primeira licenciatura em Eng.ª Naval em 1981, quando os estaleiros já tinham entrado em decadência acentuada!...
Presentemente, coordena esta licenciatura um velho amigo meu e colega do liceu que se me queixa da pouca aplicação que encontra em Portugal para a I&D em que se especializou (doutorou-se há muito na Holanda, com que depois colaborou por muitos anos). E, por isso, ele também tem procurado novas áreas de aplicação dos seus conhecimentos, como as energias renováveis.
Temos, pois, uma construção naval agonizante e sem know-how, e uma tecnologia universitária que não encontra aplicação industrial.
E há quem imagine resolver isto, tanto do lado da indústria como da Universidade, saltando para novas áreas que não existem...!

segunda-feira, maio 23, 2011

Se sabes contar até 8 já tens positiva a Física

Pergunta do exame de Física do 9º ano:
O sistema solar é constituído pelo Sol e pelos corpos celestes que orbitam à sua volta. Actualmente, considera-se que os planetas que fazem parte do sistema solar são Mercúrio, Vénus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano e Neptuno. Em 2006, Plutão deixou de ser classificado como um planeta, embora continue a fazer parte do sistema solar. Actualmente, considera-se que o sistema solar é constituído por quantos planetas?

Outra pergunta do mesmo exame:
Num gráfico mostra-se a temperatura de água a ser aquecida, ao longo de um certo tempo, até que aos 1400 s essa temperatura estabiliza nos 100ºC. Resposta múltipla a escolher pelo aluno: o que ocorreu na água foi: a) condensação; b) fusão; c) solidificação; d) ebulição.

A notícia vem toda aqui.

E receio que quem disser que isto é uma completa aldrabice, seja acusado de estar a chamar ignorantes aos portugueses...

terça-feira, janeiro 25, 2011

Não é só cá!

No post em que publiquei uma reflexão feita para a EFACEC há 14 anos, mencionava o conteúdo esforçado dos doutoramentos americanos, com uma forte componente curricular e uma Tese cuja preparação exigia aproveitamento com "A" nas disciplinas precedentes, e comparava isso com o facilistimo dos nossos doutoramentos da altura, e com os actuais.
Um leitor irado escreveu-me a dizer que agora já havia muitas Universidades americanas que ficavam satisfeitas com "B" nas disciplinas de doutoramento. E provavelmente tem razão!...
Numa interessante entrevista, o Prof. S. Sachdev, uma das figuras internacionais mais proeminentes de uma das minhas áreas de interesse e um homem suave e conciliador, narra a sua experiência como Professor numa Universidade canadiana, onde fez carreira após 20 anos de experiência na indústria. E, perguntado sobre se via diferenças entre os estudantes que tinha no início da sua vida de Professor, nos anos 70, e os dos finais dos anos 90, dizia:
"I see a tremendous difference in the Canadian students of the 1970’s and 1990’s.  In 1970, I instructed a final year class of 30 students.  About one-half of those students had a few years experience working with technologies.  Those students joined the engineering program to enhance their knowledge and understanding of engineering principles.  Those students made sure that their colleagues paid attention to the instructions; I did not have to make any effort in maintaining the discipline in the class.  After every examination, they always came to me to discuss the problems they could not handle.  They never complained about the marks they received for their answers.   In the 1990’s, maintaining discipline in the class was one additional task of the instructor.  Some students would disturb others by talking while the lecture was going on.  The average student did not have much interest in learning; they wanted to get a degree so that they would be able to land a job.  After the examination, many students wanted higher grades without understanding why their grade was not what they would have liked to see.  Of course the smart students continued to be good, thoughtful and concerned about understanding the techniques and technologies. "

Esta evolução da atitude e valores dos estudantes norte-americanos reflecte-se naturalmente no grau de exigência das Universidades, e tem por isso muito interesse o artigo hoje publicado no New York Times.
Depois de referir um outro artigo segundo o qual um estudo da Universidade da Califórnia mostrou que de 1961 para 2003 o número de horas semanais de aulas e estudo dos estudantes se reduziu de 40 para 23, o NYT cita um outro estudo recente, abrangendo dezenas de Universidades, e  que mostra que os estudantes americanos aprendem agora muito pouco nos dois primeiros anos de Universidade. Na verdade, o número médio de horas semanais de estudo é agora de... 12!
Outro investigador americano em Educação comentou estes resultados dizendo que "No work, all play, no job". E desenvolveu: "Owing to the generally weak state of K-12 schooling, most high school graduates are not accustomed to serious academic work. They enroll in college with the expectation that it will be a continuation of K-12, that is, undemanding. What most of them want is just a credential attesting to their employability, accompanied by as much fun as possible." E de seguida acusava: "Wishing to keep such “students” happy and enrolled, many schools have acquiesced in or even encouraged the faculty to lower academic standards. High grades are encouraged lest students get angry and drop out when graded on their true performance".
Parte do desemprego dos nossos licenciados tem sem dúvida raízes semelhantes.
Mas um facto que evidencia que o mercado de trabalho não se compadece com fracas preparações também se começa a notar. Um Mestre em Eng.ª Electrotécnica do IST continua a ter emprego praticamente garantido, hoje em dia, mas o ordenado de entrada anda agora frequentemente nos 800€ e raramente supera os 1000€.
Contas feitas e actualizando valores à taxa de inflacção, isto é 20 a 40% abaixo dos ordenados de entrada dos licenciados de há 15 anos...

domingo, janeiro 16, 2011

PISA chinesa, Confúcio e estratégia energética

Como se sabe, recentemente o país rejubilou com a melhoria das classificações obtidas pelos nossos adolescentes nos testes internacionais de competência em leitura, ciência e matemática, os chamados PISA.
Não foi só Portugal, porém, que melhorou os seus resultados.
Como mostro na figura anexa, todos os países "fracos" melhoraram, enquanto ao mesmo tempo houve uma (ligeira) pioria de grande parte dos países bonzinhos (mas não dos mesmos bons!).
A explicação reside nas negociações que ocorreram na preparação destes testes da OCDE, em que os países "fracos", a começar pelo representado pelo Presidente da OCDE, o México, conseguiram uma maior facilitação das perguntas "fáceis", acompanhada por um aumento correspondente da dificuldade das perguntas "difíceis". Assim, a média geral manteve-se, mas a dispersão em torno dessa média reduziu-se: os "fracos" ficaram melhor, e os "bonzinhos" ficaram pior, como assinalo na figura.
Mas o que me traz aqui não é a denúncia de (mais) esta manipulação de resultados. O que me traz aqui é um resultado que faltava nesta figura, e que eu acrescentei a verde à esquerda: o de Xangai. 600!!!...

Ora o New York Times de hoje traz um artigo de opinião sobre estes resultados, em que assinala o que há de comum entre os países/regiões que conseguiram os melhores resultados: todos, com excepção da Finlândia (China, Singapura e Coreia do Sul), têm em comum na sua tradição cultural... Confúcio. De facto, a multi-milenar reverência confucionista pela educação está profundamente radicada na cultura destes povos, e é bom lembrar que os exames foram inventados na China e que durante muitos séculos a China foi governada por uma meritocracia seleccionada por exames. A Revolução Cultural tentou eliminar os vestígios do confucionismo mas, para sorte dos chineses, falhou. Claro que o confucionismo tem as suas fraquezas, mas o que queria aqui notar é que a China não é só mão-de-obra barata - é um Estado alicerçado em 25 séculos de civilização! É como se o Ocidente ainda vivesse no Império Romano (modernizado, claro)...

Ora e isto leva-me a notar outra notícia do NYT de hoje: mais uma fábrica americana de paineís solares fechou, despedindo 800 trabalhadores, para se transferir para a China.
há um ano eu vaticinava que não havia possibilidades do Ocidente competir com a China no domínio das tecnologias de equipamentos de energias renováveis, nomeadamente a solar e a eólica, e que, portanto, a estratégia tecnico-económica óbvia para os EUA (e a Rússia) era, no plano das indústrias de bens de equipamento para a produção de energia, a aposta no nuclear, a que é muito mais difícil a países menos desenvolvidos lá chegarem.
Mas posso ter-me enganado.
Posso ter-me enganado porque também quanto à energia nuclear a China tem uma estratégia clara, sensata e que se move sem hesitações. As 25 centrais nucleares que tem presentemente em construção inserem-se numa estratégia que vê a 4ª geração destas centrais, as de neutróes rápidos e que processam o quase inesgotável Urânio 238 (e a maioria dos próprios resíduos), como a tecnologia base da sua produção energética a partir de meados deste século.
E, enquanto isso, os EUA fornecem a tecnologia de partida mas, no seu próprio território, avançam devagar, e da "Europa" nem vale a pena falar...

E para terminar, recomendo a leitura atenta deste excelente testemunho publicado no Wall Street Journal. Já há anos a Scientific American publicara um dos muitos estudos que há sobre a superioridade dos resultados dos sino-descendentes no sistema de ensino dos EUA, e onde se chega sempre à conclusão de que a causa está na atitude dos pais perante a educação dos filhos - embora dos EUA me digam que muitos americanos preferem atribuir a diferença à genética: assim, ficam desculpabilizados e não têm de mudar nada...

quinta-feira, setembro 30, 2010

Uma Investigação no IST que obteve resultados "incorrectos"

Nuno Crato, um dos cavaleiros solitários que se devotou à defesa da educação do nosso povo contra o "eduquês", referiu no último Expresso um interessante paper publicado por estudantes do IST, em parceria com Carnegie-Mellon.
O que o paper relata são os resultados de um estudo "econométrico" que analisou matematicamente os efeitos, de 2005 para 2009, da introdução da Internet em 900 escolas portuguesas, concomitante à oferta dos Magalhães, em alunos do 9º ao 12º anos.
E que resultados são esses?
Pois, que os alunos pioraram substancialmente de aproveitamento, que pioraram tanto mais quanto mais fracos já eram, e sobretudo nos rapazes. Porque os computadores, naquela idade e sem uso controlado, são sobretudo uns brinquedos que servem para distraír e divertir, e não uma ferramenta de trabalho.
Estes resultados não são inesperados, todavia. Já aqui mencionei como, há já uns 20 anos, quando apareceram os Spectrum (uns microcomputadores ainda sem disco)  e em Portugal havia grande entusiasmo com o projecto Minerva, que desenvolvia ferramentas didácticas para uso em computador, o IEEE publicou um estudo sobre o impacto dos computadores na educação precoce. E esse estudo já então concluía o mesmo: que os computadores só melhoravam os resultados dos que já eram bons alunos, e que pioravam os dos que o não eram.
Aliás, calculo que seja uma experiência que já todos terão feito: a oferta pelo Natal ou aniversário de um programa de computador didáctico a um miúdo cábula - não se lhes pode dar castigo mais cruel, como o desapontamento deles ao receber a prenda decerto vos terá mostrado...

Confesso que me surpreende que a FCT tenha financiado uma investigação com resultados tão politicamente incorrectos... mas ainda bem! Espero que continue!
Pena é que os nossos "eduquesadores" nunca tenham lido sobre este assunto a revista IEEE on Education...

terça-feira, setembro 21, 2010

O melhor aluno de Portugal!

Talvez já tenham ouvido falar do melhor aluno deste ano, que terminou o secundário com 20 valores.
Um verdadeiro génio, que todos os docentes universitários ambicionamos ter nas nossas aulas! Ou não?
Podem ver a história dele noticiada aqui, e contada com mais pormenor aqui...
... e depois digam lá se o Medina Carreira não tem razão?

terça-feira, agosto 17, 2010

Um engenheiro modelo e a contra-corrente

Um dos maiores engenheiros portugueses nascidos no século XX foi, há poucos anos (2007), agraciado com a Ordem do Mérito Científico pelo Presidente da República... do Brasil!
Trata-se de Carlos Portela, em tempos Catedrático do Instituto Superior Técnico e que deixou o país durante o PREC. Para quem quiser conhecer a sua história, pode encontrá-la nesta entrevista que deu em 2006.
Nunca conheci pessoalmente o Prof. Portela, mas estudei pelos apontamentos que deixou na sua escola e que me marcaram profundamente pelo seu rigor intocável. E partilho com ele a procura do equilíbrio entre a vida universitária e a actuação profissional fora dela, com a mesma opinião de que "se uma pessoa se restringe à Academia, perde a noção da realidade. Mas se apenas actua no mercado, perde a preocupação com o rigor".
Opinião que, nestes tempos de avanço do controlo político total sobre a Universidade, é cada vez mais uma contra-corrente.
Na entrevista que hyperlinkei e que vos recomendo, sobretudo aos que ainda são estudantes, Portela insurge-se contra o culto das normas mal-feitas, e acusa: "no Brasil, se o sujeito mata cem pessoas mas para isso calculou segundo as normas, não há problema nenhum. Ou seja, usam as normas para se absterem das responsabilidades".
Ora remar assim contra corrente de normas feitas por comités internacionais requer um tipo de espírito de rigor, de insubmissão de pensamento e de amor ao bem público que é raro. Mas Portela nunca foi uma pessoa fácil.
E isto traz-me a um problema existente em Portugal que é exactamente igual ao que Portela critica no Brasil. É uma questão que vou ter de abordar com algum tecnicismo, o que sempre tenho evitado neste blogue, mas não vejo alternativa a isso.

Nas redes eléctricas, é frequente terem de se fazer trabalhos de manutenção em linhas aéreas e outros equipamentos de alta tensão. Para o efeito existem normas de segurança que são quase uma trancrição de normas europeias e que estão minuciosamente detalhadas em diversos regulamentos e manuais das nossas empresas de electricidade. E, no entanto, praticamente todos os anos há algumas mortes em acidentes em trabalho destes.
Em regra, as nossas empresas de electricidade atribuem tais funestos eventos ao incumprimento das normas, e em alguns casos isso sucede. Mas o facto é que mesmo cumprindo essas normas os acidentes são frequentemente fatais, porque o que acontece é que as normas estão erradas. As portuguesas e as europeias em que elas se baseiam.
Basicamente, o problema técnico é o seguinte: as normas mandam ligar à terra os equipamentos susceptíveis de ficarem em tensão durante os referidos trabalhos, de um lado e do outro do equipamento onde o trabalho de manutenção decorra. E isso está errado, porque as tais ligações à terra têm sempre uma resistência eléctrica tal que são praticamente inúteis.
O que se deve fazer é precisamente o contrário: é ligar o ponto onde o trabalhador se mova aos equipamentos susceptíveis de ficarem em tensão, de modo a criar o que os anglo-saxónicos denominam de "zona equipotencial de trabalho".
Isto foi estudado nos EUA há já uns 40 anos e é praticado lá, na Nova Zelândia, na Austrália, etc. Mas claro que afirmar que os comités normalizadores nacionais e europeus estão errados é, mais uma vez, ir contra a corrente...

sexta-feira, agosto 06, 2010

O outro grande líder

Há 40 anos, durante a Primavera marcelista, quem chegava das províncias do Império à Universidade em Lisboa encontrava uma efervescência de ideias, discussões e preocupações no movimento estudantil que eram mais instrutivas que as escolas propriamente ditas. Começava pelo próprio vocabulário, e estendia-se à largueza de horizontes.
As Associações de Estudantes do Técnico (IST) e de Económicas (ISEG) eram um viveiro de activistas e pensadores que produziam textos como o "Contra a Fábrica", onde se aprendia o que eram o taylorismo e o fordismo, onde o modelo de uma sociedade livre dos valores consumistas em que tínhamos sido educados, e que rejeitávamos, era a China da Revolução Cultural - um lugar onde só havia dois tipos de fatos, o cinzento e o azul, onde a diferença máxima de salários era de 2 para 1, onde as pessoas se moviam por ideais e não pela busca mesquinha de mais um carro ou electrodoméstico, e onde quem mandava eram os jovens idealistas como nós - os guardas vermelhos!
China maoísta onde havia debates acesos, mas não se levava os opositores à cave para levarem um tiro na nuca como na Rússia revisionista - apenas se passeava a vítima pela cidade com um cartaz no peito e a malta à volta a gritar-lhe aos ouvidos a linha justa até ele se convencer. Um mundo fascinante!...
Claro que tudo isso foi uma ilusão, mas ainda hoje gosto de lembrar que a diferença entre a Revolução russa e a chinesa se podia resumir na forma como ambas trataram os respectivos monarcas depostos: na Rússia, o Czar, a família e até a respectiva criadagem foram todos mortos numa cave, a tiro e à baioneta, mas na China o Imperador foi reeducado e convertido em guia do palácio imperial de que outrora fora o dono, e que agora pertencia ao povo.

Vem tudo isto a propósito de que esse movimento estudantil de há 40 anos em Lisboa tinha dois fantásticos pensadores e líderes, que aliás em regra estavam de acordo e que eram ouvidos em completo embevecimento pelos caloiros como eu: os dirigentes das Associações de Estudantes do Técnico e sobretudo de Económicas, respectivamente o Zé Mariano e o Félix Ribeiro.
Do Zé Mariano todos sabemos o percurso que seguiu.
Mas do Félix Ribeiro sabemos em geral menos, porque ele se apagou. Apagou-se como político mas não como pensador, como o atesta esta extraordinária entrevista que vivamente vos recomendo:
Público - A Europa vai ser comprada pela China e pelos príncipes árabes

domingo, julho 11, 2010

O Magalhães e o eduquês - II

Algumas décadas atrás, nos anos 80, quando estava em curso o Projecto Minerva para a introdução de ferramentas informáticas nos ensinos básico e secundário e as miragens então prometidas pela Inteligência Artificial animaram o grande projecto japonês da 3ª geração de computadores, foi desenvolvida uma linguagem de programação para ensinar o raciocínio lógico a crianças de 8 anos: o LOGOS.
Eu próprio me entusiasmei na altura com a ideia (além de ser grande entusiasta então - e ainda sou, confesso - da Inteligência Artificial), até que li na Spectrum, a revista generalista do IEEE (Institute of Electrical and Electronic Engineers), um primeiro estudo de avaliação do impacto dos computadores na performance educativa das crianças. E o que esse estudo revelava era que os que já eram bons alunos aproveitavam, de facto, estas ferramentas para melhorarem os seus conhecimentos, mas aos outros a informática nada adiantava. O próprio esforço mental que essas ferramentas exigiam os levava a não quererem sequer tirar partido delas!
Claro que viria a procurar instruir os meus filhos tão cedo quanto possível nestas tecnologias do mundo em que iriam viver, mas já na altura sabendo que elas não iriam mudar nada daquilo que realmente separa os instruídos dos que o não são. Não iriam nunca anular, nem sequer reduzir, bem pelo contrário, as diferenças da natureza humana.
É por isso que nunca acreditei nesta ideia bem intencionada de Guterres de que investindo em infra-estruturas de acesso rápido à Internet e em computadores para toda a gente se combateria o analfabetismo funcional dos portugueses. E, claro, nunca acreditei que o Magalhães pudesse ter qualquer outro efeito que o de reforçar a aversão ao trabalho em que a nossa política educativa cultiva os nossos miúdos e o de reforçar a ideia de que para ter coisas é do Estado que as devemos esperar, e não do nosso próprio esforço!
Mais: considero tão absurda a esperança de que dando computadores e Internet a todos os jovens há-de daí resultar uma geração proficiente na economia do conhecimento, como seria a ideia de que distribuindo automóveis a toda a gente daí resultaria uma grande indústria metalo-mecânica nacional!
Já há tempos comentei aqui um estudo americano recente que mostra de novo que o acesso precoce aos computadores pelos jovens não só não os enriquece em nada culturalmente, como os desvia do trabalho e do esforço escolares que são a única verdadeira base de qualquer aprendizagem. E hoje, ao ler o New York Times, encontro mais um estudo rigoroso feito pela Universidade de Chicago sobre os resultados de algo similar ao Magalhães feito na Roménia (com a diferença que lá não houve favores a uma empresa particular, aliás com sérios problemas fiscais): negativo! Os resultados revelam-se negativos, tal como os que haviam sido publicitados recentemente para os próprios EUA: "few children whose families obtained computers said they used the machines for homework. What they were used for — daily — was playing games." Isto é sobretudo verdade para as crianças dos meios mais desfavorecidos, aquelas que o eduquês diz querer promover.
O artigo do NYT para que "linkei" tem ligações para os outros estudos, pelo que deixo ao leitor interessado a respectiva pesquisa, se quiser.
O que mais me espanta é que tudo isto já se sabia há 25 anos, quando os PC ainda estavam nos primórdios! Porque foi tudo esquecido?
E, por falar em experiências antigas, que resultados, que avaliação teve o projecto Minerva?
Há gente que, como se vê, não aprende nada.
E não aprende nada porque o que os move é uma fé de que se há-de encontrar algum milagre, antigamente uma revolução cultural de guardas vermelhos, hoje uma tecnologia, quiçá uma revolução tecnológica, que traga consigo a Grande Igualdade. Fé essa que é imune aos factos.
E para terminar, não cedo à tentação de vos recomendar um excelente texto de Guilherme Valente, o criador da GRADIVA e cavaleiro de uma Távola a que também pertencem Nuno Crato, Paulo Guinot, Maria do Carmo, o blog Rerum Natura e alguns poucos outros, Távola que jurou por missão a luta contra o mal do eduquês: aqui.

terça-feira, junho 22, 2010

27% dos alunos do Técnico não sabe calcular 1/2+1/2...

Diz hoje o Público que 27% dos alunos do Técnico não sabem calcular 1/2+1/2...
"Em algum lado têm de começar a ser responsáveis. Têm uma preparação de uma pessoa de início de secundário ou pior. São ensinados a não pensar e isso em Matemática é desastroso. Foram treinados como um cãozinho para um exame”, diz a minha colega Luísa Ribeiro.
Subscrevo.
Também não tenho nenhuma dúvida que a actual geração juvenil não fará parte da solução do problema do atraso de Portugal. Pelo contrário, faz parte do problema.
E eles sabem.
Por isso ou não querem pensar na vida, preferindo festas e cerveja, ou vão-se embora, os bem orientados, ou se agarram ansiosos uns à propaganda segundo a qual tudo se consegue com "espírito positivo", "inovação" e "gestão", ou seja, com truques de xico-esperto, outros à esperança de que alguma coisa mude e que o seu trabalho os recompense.
Todos merecem o nosso esforço, mas os últimos são quem nos encoraja...

segunda-feira, junho 21, 2010

O Magalhães e o eduquês

O blog Rerum Natura chama a atenção para um estudo extensivo e prolongado feito pela Universidade de Standfor sobre o impacto do uso precoce de computadores no sucesso escolar dos jovens, medido em termos de real aprendizagem de capacidades de leitura e matemática.
Como todos os pais sabem, o impacto é negativo!
O computador serve muito mais para dispersar as crianças com jogos e comunicação ligeira, do que para fazer os trabalhos de casa. Aliás, como todos sabem, tende é a roubar-lhes tempo para os trabalhos de casa...

domingo, maio 23, 2010

Guerra ao eduquês!

Da brutal crise económica que está a chegar agora ao vivo, o pior é a desanimadora desesperança no futuro que a (des)educação da nossa juventude inspira.
Por isso é tão importante combater o eduquês. Como faz Guilherme Valente  no Público de ontem e que pode ser lido aqui.

segunda-feira, maio 03, 2010

Manifestos: contra a ecotopia e o eduquês, a mesma luta.

Uma das características do Manifesto para uma Nova Política Energética é ter concitado o apoio de personalidades de múltiplas ou nenhumas filiações partidárias.
Concitou também a crítica de inesperadas personalidades de inclinações partidárias diversificadas mas na zona do centrão, além, claro, de um ataque cerrado mas esperado dos ecotópicos.
Um dos melhores exemplos desta transversalidade partidária foi o debate entre o Eng.º Carlos Pimenta, que foi Secretário de Estado de Cavaco Silva, e de Henrique Neto, que foi deputado do PS nos anos 90. Pimentinha defendeu a política energética promovida pelo PS na última década como se tivesse sido delineada por ele próprio (e se calhar foi), enquanto o self-made man Henrique Neto a criticou como se fosse de um Partido da oposição.
O Dr-Ing Jorge Vasconcelos, que muitos supunham ter sido despedido da Presidência da ERSE por se ter oposto a uma política tarifária mentirosa, surgiu a esclarecer que afinal apoia inteiramente a política de subsidiação pública às eólicas e fotovoltaicas, mas em contrapartida sei de outros prestigiados especialistas energéticos do PS que só não assinaram o Manifesto por não terem sabido dele a tempo.
A posição do Prof. Costa e Silva foi outra surpresa, ao defender as eólicas depois de há tempos ter criticado na TV a (falta) de regulação nos petróleos, mas foi compensada pela presença do Eng.º Demétrio Alves do PCP entre os signatários do Manifesto.

Esta transversalidade partidária entre os apoiantes e os opositores do Manifesto mostra como as questões que ele levanta são muito mais fundas que as disputas de curto prazo pelo poder que move os Partidos de Governo. São, na verdade, questões de uma natureza estratégica que dividem na base de valores e de sistemas de ideias, ou ideologias.
Na essência, os apoiantes do Manifesto caracterizam-se pela valorização da Ciência e da tecnologia como factores de progresso humano, da Pátria como comunidade próxima e perene de pertença, do trabalho como condição humana, da liberdade e da responsabilidade individuais. Valores que são típicos da modernidade.
Os outros representam uma mistura de ecologismo romântico e utópico, a que tenho chamado ecotopia (um termo inventado na América), que relativiza a verdade e a liberdade, com interesses que têm todos em comum a subsídio-dependência, ou seja, a extorsão de toda a comunidade nacional através do poder de Estado.
São pós-modernos.

Ora a ideologia pós-moderna dos ecotópicos, em que se cruzam a defesa da irracionalidade e da mentira com interesses parasitas de Estado, não se manifesta apenas nas questões energéticas.  Outra área onde ela está presente e talvez de forma ainda mais grave é na educação.
No programa "plano inclinado" do último sábado, Guilherme Valente, o criador da Gradiva e um dos promotores de um outro Manifesto publicado há já 8 anos, dissecou a ideologia do eduquês e mostrou onde se acantonam os seus criadores.
Tal como Guilherme Valente, descobri-o neste programa, penso que a ascensão deste tipo de ideologia tem muitas semelhanças com o início da ascensão do fascismo há quase um século. Têm em comum o mesmo ódio à modernidade, a mesma mescla de ideologia retrógrada com interesses rasteiros, a mesma oposição aos valores basilares da nossa civilização. Invocam algumas bandeiras da velha esquerda, mas o fascismo ascendente também o fazia: a do nazismo até tinha um fundo vermelho...
Mas os tempos são outros e a História nunca se repete da mesma forma. Por enquanto, a sociedade totalitária que o ovo do pós-modernismo traz em gestação é mais parecida com o Admirável Mundo Novo de Huxley do que com a Quinta dos Animais de Orwell, mas não lhe dou mais que 10 anos para que a sua verdadeira natureza se revele plenamente.

Aqui transcrevo o Manifesto para a Educação da República de Guilherme Valente, Nuno Crato, Carlos Fiolhais e outros. As nossas frentes de combate são diferentes, mas a luta é a mesma.

MANIFESTO PARA A EDUCAÇÃO DA REPÚLICA

Todos os estudos nacionais e internacionais sobre a educação dos portugueses convergem para a conclusão incontroversa de que a República está a educar mal os seus filhos. É essa a razão fundamental por que os portugueses continuam a não ser capazes de produzir a riqueza que consomem. É ainda por essa razão que Portugal se está a afastar dos padrões civilizacionais dos países com quem decidiu partilhar um futuro comum.

Os países desenvolvidos renovaram os seus sistemas de educação e de formação profissional em pontos de viragem da sua história. Portugal não seguiu esse exemplo, nem quando descolonizou, nem quando passou a integrar a Comunidade Europeia. Em vez da intervenção profunda e coerente que então se impunha, os sucessivos governos optaram por encarar os problemas educativos à medida que surgiam, envolvendo-nos numa densa teia de interesses e irracionalidades da qual não conseguimos ainda desenvencilhar-nos.
Abriu-se a escola a um maior número de crianças, como era a obrigação dum regime democrático. Mas mesmo esse sucesso é mais aparente do que real, já que somos o país da comunidade com a maior taxa de abandono escolar. Por outro lado, os estudantes que resistem ao abandono recebem, de um modo geral, uma educação muito deficiente a preços excessivamente elevados. Isso faz com que Portugal seja hoje um dos países da União que proporcionalmente mais gasta com a educação e, ao mesmo tempo, aquele que piores resultados obtém. Assim, a melhoria das condições económicas e sociais que foi conseguida em condições bastante favoráveis corre o risco de se perder, desbaratando-se uma oportunidade que dificilmente se repetirá.
Além disso, a indevida referência à democracia na designação do sistema irracional de gestão imposto pelo Estado às escolas e, em particular, às universidades, desacreditou a verdadeira democracia, passando os cidadãos a associá-la com a ignorância, a demagogia, o egoísmo e, sobretudo, com a indisciplina e a irresponsabilidade.
Portugal vive presentemente momentos de ansiedade perante o desmoronar de grandes expectativas nacionais. Os portugueses julgaram — alimentou-se-lhes esse sonho! — que podiam aceder sem esforço aos elevados padrões civilizacionais dos países mais desenvolvidos da Europa. Ao verificar que isso não é verdade, sentem-se defraudados e cépticos.
De um modo geral, o sistema de ensino e de formação profissional não fornece aos portugueses as ferramentas intelectuais que lhes permitiriam tirar proveito das enormes oportunidades de bem-estar que as sociedades pós-industriais oferecem à humanidade e evitar os riscos a elas inerentes.
Ao integrar a União Europeia, Portugal mergulhou num grande espaço económico onde o conhecimento é o principal factor de desenvolvimento. Não sendo menos dotados do que os outros povos, podemos atingir graus de desenvolvimento equivalentes se for proporcionada educação semelhante. Podemos ser um país mais rico se estivermos dispostos a suportar o esforço intelectual intenso e prolongado que é actualmente necessário para adquirir, aplicar e criar conhecimento, muito particularmente o conhecimento científico.
Por isso, é urgente mobilizar as instituições e os cidadãos para a grande batalha por um sistema educativo que possa contribuir para o progresso da sociedade portuguesa. Em particular, é preciso mobilizar as elites, recorrendo aos portugueses formados em contextos educativos de maior exigência intelectual e profissional, que estarão certamente dispostos e motivados para dar o seu contributo ao esforço decisivo que pode tornar Portugal uma comunidade informada, qualificada e empreendedora.
Neste quadro, apelamos ao senhor Presidente da República para que mobilize para a batalha inadiável da educação as instituições e os cidadãos, o Governo e a Assembleia da República, as escolas e as associações científicas, profissionais, empresariais e sindicais.
Problemas concretos tais como os objectivos e a articulação dos vários graus de ensino, a avaliação do desempenho dos estudantes, dos professores e das escolas, o apoio aos estudantes, os currículos e a acreditação dos cursos e das instituições, a qualificação académica e profissional, a formação inicial e continuada, o acesso ao ensino superior, o financiamento e a gestão das escolas, em particular das universidades, e o impacte da escola na inovação e na produtividade têm de passar a ser encarados em conjunto, de um modo coerente.
Solicitamos ao senhor Presidente da República que utilize os meios constitucionais ao seu dispor para promover a consciência e o esforço convergente dos competentes órgãos de soberania e dos cidadãos na construção de um sistema educativo que, à semelhança do que acontece noutras sociedades, forme intelectualmente e qualifique profissionalmente os Portugueses. Para que possamos ser, finalmente, o país por que todos ansiamos.

Também este Manifesto suscitou reacções ferozes e uma polémica. O Rerum Natura recordou aqui parte dela.

segunda-feira, outubro 05, 2009

A prova final

Como é sabido, as classificações dos alunos do secundário nos exames de Matemática têm melhorado espectacularmente, nos últimos anos.
O Governo e em particular a Ministra da Educação têm justificado esta melhoria como uma prova do "Portugal positivo" que o Governo estaria a construir, e concretamente como um produto da reforma da educação que o Governo realizou, através do novo estatuto do aluno e da avaliação dos professores.
Pelo contrário, a Associação Portugesa de Matemática, de Nuno Crato, e outros especialistas providos de "pessimismo" e "espírito do bota-abaixo", dizem que esses melhores resultados são fruto de mero facilitismo nos exames e constituem um engano.

Quem terá razão?

Ora o Instituto Superior Técnico, com o apoio da Sociedade Portugesa de Matemática, realizou este ano uma prova de matemática a todos os alunos que lhe chegaram do secundário, para averiguar da sua preparação.
A última vez que uma tal prova fora realizada, fora há 7 anos.
Nessa prova realizada há 7 anos, tiveram positiva 80% dos alunos, e 2/3 tiveram mais de 15 valores.
Já na prova deste ano, tiveram positiva 45% dos alunos, e só 10% conseguiram mais de 13,3 valores.
Terá isto alguma coisa a ver com o facto de a Esolováquia (bastante mais pobre que a sua vizinha Checa) nos estar a ultrapassar em PIB por habitante?

quinta-feira, setembro 03, 2009

A avaliação dos professores, as "Ciências" da Educação e a estratégia da Administração de Obama

Sendo professor há várias décadas e familiar de muitos docentes e alunos, há muito tempo que concordo com Nuno Crato e a sua crítica ao "eduquês", a linguagem da ideologia "romântica e construtivista" da educação, como ele a caracteriza. Ideologia que, nas suas componentes mágicas, relativistas e subjectivistas ("românticas", chama-lhes benevolamente o Nuno), faz parte do pós-modernismo e embebe outra corrente de pensamento que é prima desta, o ecologismo utópico ou "ecotopia".

No domínio da Educação, esta ideologia tem promovido ideias como a da "promoção da auto-estima" dos alunos sem necessidade dela ser merecida e, de um modo geral, o facilitismo, o culto do divertimento e o horror ao esforço e à disciplina (sobretudo à auto-disciplina), a estranheza perante o valor moral do trabalho e a ideia de que combinando "criatividade" e "empreendedorismo" com isso tudo se poderá ir mais longe do que à promoção da chico-esperteza, que é precisamente como se define criatividade sem esforço nem trabalho.

Considero esta política educativa, ao comprometer por uma geração inteira a capacidade dos portugueses fazerem evoluir o seu país e com isso a sua própria qualidade de vida, um verdadeiro CRIME contra Portugal (ou contra o povo português, como preferirem), no que não sou único, como sabe quem tenha ouvido Medina Carreira a comentar!

E no entanto, a ideologia pós-moderna que sustenta esta política é promovida como tratando-se de "Ciências da Educação", em muitos cursos cuja frequência hoje se exige a quem é docente do ensino pré-universitário, mas a quem não se pede que saiba do que ensina, isto é, que saiba efectivamente português, matemática, ciências em geral (naturais e humanas) e línguas! Ora, na verdade, o segredo do bom professor é antes de mais saber profundamente do que se ensina e gostar de o partilhar, no sentido com que Einstein ironisava que só se tinha conseguido compreender verdadeiramente a sua Teoria da Relatividade quando se conseguia explicá-la à mulher a dias, e ainda capacidade de liderança.

A colmatar o já crónico descalabro da educação, que abrange também os programas fantasticamente imbecis e manuais escolares de qualidade frequentemente criminosa (sobretudo no ensino básico), o actual Governo decidiu avançar com um modelo burocrático de avaliação dos professores que os classifica segundo fórmulas complicadas em função de critérios tão pós-modernos como os do ensino que são levados a praticar!

Será que os professores não devem ser avaliados e que devem manter o direito à irresponsabilidade a que décadas de ausência de hierarquia nas escolas os habituaram? Claro que não penso isso!

Porém, qualquer sistema de avaliação deve complementar toda uma estratégia educativa em que o objectivo final seja a qualificação dos portugueses, e deve estar ao seu serviço como mais uma das suas ferramentas, a par de programas sensatos e correctos, manuais de rigorosa qualidade e objectivos de competência para os alunos cuidadosamente definidos a partir do estudo comparado das melhores práticas internacionais.

A política deste Governo para a avaliação dos professores não tratou de reintroduzir uma avaliação que tivesse estado ausente durante 30 anos, como ouvi o Primeiro-Ministro e muito boa gente defender, como se antigamente (isto é, no salazarismo) houvesse avaliação dos professores, o PREC a tivesse suspendido e agora se estivesse a retomá-la.
Na verdade, essa tese é revisionismo histórico, um truque barato para agradar aos descontentes com a balda existente, pois o facto é que os professores NUNCA foram avaliados por quaisquer critérios classificativos em Portugal, nem antes nem depois do 25 de Abril!

Quem, de facto, era avaliado antigamente (antes do 25 de Abril e até que os pós-modernos tivessem tomado por dentro o Ministério e as Escolas de Educação, já o PREC ia longe), quem era avaliado... eram os alunos! E foi essa avaliação que deixou de existir!

Talvez vocês, jovens, se espantem quando afirmo que a avaliação dos alunos deixou de existir. Claro que continua a haver notas, testes e "trabalhos" classificativos nas escolas. Porém, essa avaliação tem progressivamente sido descentralizada para cada escola e cada professor o que, conjugado com a pedagogia "romântica e construtivista" promovida pelas ditas "Ciências da Educação", conduziu a que agora a avaliação dependa essencialmente do critério de cada professor.

Tal facto é na minha opinião a causa principal da indisciplina existente nas escolas, da perda de autoridade e do clima de intimidação em que muitos professores vivem agora, por parte de alunos e respectivos pais.

Se as aprovações dependem apenas dos professores e se o clima geral é de facilitismo e desprezo pelo trabalho disciplinado, deixou de fazer sentido que os pais e os próprios alunos exijam aos professores que ensinem, para em vez disso se lhes exigir é que facilitem a aprovação.

Para exemplificar a ideia de como o cerne do problema está na falta de uma verdadeira avaliação aos alunos, vale a pena lembrar um sistema de ensino que conheci de perto antes do 25 de Abril, numa região remota do Império ultramarino onde não havia escolas secundárias do Estado.
O ensino era organizado pelos próprios pais dos alunos, em edifícios habitacionais improvisados, e os docentes eram escolhidos de entre os próprios colonos, frequentemente sem sequer terem uma licenciatura completa e sem qualquer hierarquia.
Havia cerca de uma dúzia de alunos por ano lectivo e os exames nacionais eram feitos em liceus oficiais em cidades distantes, de tantos em tantos anos dos ciclos de estudos, e na verdade o sistema assemelhava-se a um centro de explicações, como aliás era oficialmente classificado ("ensino doméstico").
Pois desse esquema improvisado e artesanal vieram a sair muitos futuros licenciados de grande reconhecimento hoje em Portugal e na América, e vários professores universitários actuais...! Qual o seu segredo?
Sem dúvida os tais exames nacionais que ocorriam periodicamente e o empenho dos pais na escola!
O que todos queriam é que os filhos fossem devidamente preparados para os tais exames, que era onde se tinha de obter a aprovação! Portanto, pais e alunos preocupavam-se em saber se a formação ministrada efectivamente preparava para esses exames, e claro que era impensável admitir que um professor não desse o programa todo (que saía nos exames) ou que faltasse às aulas (reduzindo a preparação para esses exames)!
Um aluno desordeiro que impedisse os colegas de se prepararem para os exames, abandalhando as aulas, era rapidamente afastado (e obrigado a ir estudar para internatos em cidades longínquas), pela pressão dos pais dos outros alunos por ele prejudicados. O mesmo afastamento (no final dos anos lectivos) sucedia aos raros docentes que se revelassem menos empenhados ou capazes. Raros, por que a facilitar o trabalho desses improvisados professores, havia programas claros e bons manuais de estudo.
Naturalmente, nesse tempo era motivo de grande orgulho e reconhecimento (ou "auto-estima") obter-se aprovação nos tais exames nacionais, sobretudo quando se tinha boas notas! Um desses exames, o do 2º ciclo (correspondente ao actual 9º ano) compreendia 10 provas escritas realizadas numa só semana, duas por dia, e sobre toda a matéria de 3 anos de estudo!... Ninguém ficava "traumatizado" e a precisar de "apoio psicológico"!...
Naturalmente, os bons professores eram reconhecidos pelo sucesso dos seus alunos nesses exames.
Evidentemente, em escolas de massas como as das cidades, o acompanhamento pelos pais da vida nas escolas como se fazia no exemplo citado é praticamente impossível, e caberá ao Estado substituir os pais nessas funções de avaliação dos professores e em geral da vida escolar. Porém, não há razões para que o referencial dessa avaliação não continue a ser os resultados dos alunos em exames nacionais. E não sou só eu que penso assim, como já mostrarei.

O Mundo mudou, e a "pedagogica romântica e construtivista" não foi só em Portugal que se radicou. Na verdade, e muito semelhantemente à ecotopia, trata-se de uma ideologia internacional que se tornou mesmo dominante em muitos, se não a maioria, dos países ocidentais, crescendo quase sem oposição ao arvorar uma imagem de modernismo que, na verdade, esconde um pós-modernismo profundamente irracionalista e anti-científico.
É uma ideologia que também singrou com êxito nos EUA, mas que enfrenta aí um debate público de ideias que é quase inexistente em Portugal (como aliás também acontece com a ecotopia).

Num país com a dimensão e diversidade cultural dos EUA, habituado à autonomia dos Estados e com uma aversão epidérmica arreigada à interferência do Governo Federal na vida colectiva dos cidadãos, não há exames nacionais e as práticas escolares são as mais variadas. Mas, lá como cá, a carreira dos professores dos ensinos básico e secundário (K-12, como lhe chamam) tem sido desde os anos 80 essencialmente baseada nos anos de experiência e nos graus obtidos em cursos de Ciências de Educação, particularmente pós-graduações.
Porém, os testes globais feitos regularmente mostram que lá, como cá, os resultados escolares estagnaram desde os anos 80, e que muitos cursos de "Ciências de Educação" não valem nada.
Na verdade, a política da Administração Obama e em particular do seu Secretário de Estado Arne Duncan baseia-se no reconhecimento de que não existe qualquer relação entre as pós-graduações em "Ciências da Educação" e os resultados obtidos pelos alunos em testes globais padronizados (isto é, de validade comparável).

Isto é algo que vem sido afirmado há muito entre nós pelo incansável Nuno Crato, mas para se entender melhor o que está em jogo, vale a pena conhecer por exemplo a opinião de Martin Kozloff, professor de Educação na Universidade da Carolina do Norte:

"A master’s degree in most subfields in education (especially reading — or what they like to call “literacy” — early childhood education, teaching and elementary education) adds little or nothing to students’ knowledge or practical skills.
An M.A. in education stamps in the baloney that infects the undergraduate curriculum.
Indeed, a master’s degree in most education subfields further stamps in the “progressive,” “child-centered,” “constructivist,” “developmentally appropriate,” postmodernist, pseudo-liberationist baloney that infects the undergraduate curriculum, and which leaves graduating ed students unprepared to provide their own students with coherent, logically sequenced instruction.
Undergrad students enter ed schools and eventually graduate from master’s programs still 1. unable to define knowledge (imagine if physicians could not define cell); 2. unable to identify, define and show exactly how to teach the different kinds of knowledge (e.g., facts, concepts, rule, routines); 3. unable to explain how learning is a simple and straightforward process of inductive reasoning (and not a mysterious process of “discovery” and “meaning making” that can only be “facilitated” by teachers who are more like artistes than skilled technicians); and 4. unable to determine whether teaching materials (e.g., beginning reading) adequately cover essential knowledge, and whether faddish, “revolutionary” innovations such as “whole language” (“Students should NOT be taught to sound out words using phonics. They should GUESS what words say using pictures on the page and the shape of words”) have solid empirical support and will not make children illiterate.
And if you ask graduating master’s students who have managed to escape indoctrination (because they are fortunately endowed with a wide streak of skepticism), they will tell you that they learned nothing new. Yes, many teachers with master’s degrees in education are more skilled teachers. But this is not because they got a master’s degree
."

O programa de Duncan/Obama para a reforma da educação nos EUA centra-se na avaliação dos professores - na verdade, na própria definição dos critérios do seu recrutamento e carreira - a partir dos resultados dos respectivos alunos em exames "padronizados". Ou seja e resumindo, no regresso ao velho critério de bom-senso do antigo ensino em que, afinal, toda a classe actualmente dirigente foi ela própria educada!
O pós-modernismo nas escolas americanas resiste a esta política, claro, e em alguns Estados tenta mesmo decretar a ilegalidade da avaliação dos professores invocando direitos autonómicos. Mas Obama não desiste, prosseguindo uma estratégia que, aliás e nas suas linhas essenciais ideológicos de bom-senso e realismo - particularmente a exigência de exames globais a nível estadual como fundamento dos programas de ensino - fora já iniciada pela Administração Bush com o programa "No Child left behind". Trata-se, pois, de uma viragem histórica decisiva que está em curso nos EUA e que, mais tarde ou mais cedo, a Europa primeiro, e Portugal também, seguirão, como sempre.

Exames nacionais já existem por cá, dir-me-ão. Pois, mas todos sabemos como a extraordinária melhoria dos seus resultados nos últimos anos é altamente suspeita.
Nuno Crato e a sua Sociedade Portuguesa de Matemática têm tentado correlacionar os exames de Matemática nacionais com os níveis internacionais e concluído que as melhorias obtidas se tratam de grosseiras mentiras, obtidas à custa de um maior facilistismo que desautoriza os professores que efectivamente se esforçam por manter um nível elevado de ensino.
A Ministra, porém e ainda hoje o repetiu, diz que não, que o aumento em 50% de aprovações em Matemática em 4 anos se deveu à sua política e aos professores que trabalharam mais graças à sua política, e parece ser apoiada pela Associação de Professores de Matemática, a "outra associação" e que é "politicamente correcta".
Ora quem quer que tenha estudado (e/ou ensinado) Matemática sabe perfeitamente que melhorias destas são estatisticamente impossíveis! Como terão sido obtidas?
O actual Director do Gabinete de Avaliação Educacional (GAVE) do Ministério é um colega meu do IST e competente Professor de Robótica e Controlo. Desconheço-lhe competências em Ciências de Educação e surpreender-me-ia que tivesse conhecimentos por dentro do nosso ensino "K-12", mas não tenho dúvidas de que tem a capacidade matemática necessária para aferir a dificuldade das provas de exame nacionais, antes de serem submetidas aos alunos, de modo a que produzam as estatísticas que se pretendam.

quinta-feira, julho 02, 2009

Do regresso dos cientistas portugueses

Li há dias as declarações feitas em Londres pelo Ministro da Ciência e ocorreram-me de imediato umas memórias reflexivas dos primeiros contactos com colegas estrangeiros em conferências nos EUA, no início dos anos 90. Na altura conheci muitos doutorados sul-coreanos, chineses (da Formosa), indianos e até egípcios, e descobri uma diferença de atitude notória relativamente à maioria dos portugueses que conhecia, também doutorados nos EUA.
Em regra, havia nesses asiáticos uma enorme apetência pela criação de riqueza. Mais exactamente, a assimilação do espírito que mais tarde conheceria no Silicon Valley (onde tenho um amigo de infância, hoje americano, que veio a criar lá a sua empresa high-tech e pela mão de quem visitei muitas outras empresas lá, anos depois): o de que o sucesso científico – melhor ainda: o sucesso pessoal! - se mede pela capacidade de enriquecer com o que se sabe fazer. Daqui derivava a prática generalizada de quase todos terem feito um post-doc… não numa Universidade, mas sim numa empresa high-tech americana! Com vista a aprenderem a transformar conhecimento em negócio.
E, passo seguinte, abriam a sua própria empresa, as mais das vezes com sede nos EUA (por causa do seu mercado aberto e inovador mas também pela questão da imagem), tentando usar a mão-de-obra qualificada dos países de origem com que mantinham laços. Inúmeras empresas high-tech que conheci nos EUA eram feitas assim. Aliás, uma constatação imediata é a de quão desajustada é da realidade a ideia de promover a "marca Portugal"! Ninguém com sucesso real seguiu esse percurso; pelo contrário, procuravam era esconder o país de origem! E só depois, se o seu produto ganhava a confiança do mercado, é que começavam a revelar a sua natureza estrangeira, e só se isso tivesse algum interesse económico.
O terceiro passo era o regresso ao país de origem, se para tal houvesse acolhimento em empresas grandes com estratégia tecnológica lá. Os casos mais conhecidos são, claro, os da Coreia, China e Índia. E, desde há anos, o regresso da "diáspora chinesa" é bem conhecido: todos voltam, se no seu país houver oportunidades, mesmo que numa pequena fracção das existentes nos EUA.
Os nossos colegas lusitanos, porém, padeciam em regra de uma visão que se me afigurava aristocrática: o seu sonho era o regresso a um lugar na Administração pública onde a Corte lhes garantisse uma renda vitalícia – ou seja, o regresso a um pequeno lugar numa Universidade de um país com a população de Manhattan! Na altura ocorria-me que só queriam ser reis numa terra onde chegava ter um olho para tal. Alguns voltaram para depois se irem de novo embora de vez, e alguns desses reencontrei em Palo Alto. Mas mesmo nestes nenhum parecia ter a ambição de ser rico, no sentido em que, para os colegas americanos, isso é uma medida da própria ambição de sucesso profissional. De facto e com esse espírito, só conheço um caso cá na terra, de alguém que conheço há muitos anos: o do Epifânio e a sua Chipidea!
O espírito do Silicon Valley, de resto, é irreproduzível no contexto da nossa mentalidade, mesmo a mais avançada! Ali existe um espírito de aventura, de gosto pelo risco e pelos desafios, que é típico dos países de colonos. Entre uma autêntica Babilónia de origens, etnias e idiossincrasias individuais (o Vale lembra-me uma base lunar da espécie humana dos romances de ficção científica), o típico investigador do Vale não tem horários de trabalho (quantas vezes dorme num colchão ao lado da secretária!), gosta de desportos radicais (ciclismo de montanha, viaturas todo-o-terreno, canoísmo), preza a individualidade (é frequente ter o peluche de infância sobre a secretária) e sonha ser rico. Não rico de um modo qualquer, mas pelo valor do que descobrir ou inventar!
O espírito do investigador do Vale é o mesmo do do antigo garimpeiro da corrida ao ouro na Califórnia. Ele trabalha numa empresa geralmente pequena e considera a Microsoft o "Império do mal", e tenta desenvolver uma ideia nova que, se vingar, multiplicará por muito o valor da empresa na bolsa - e muitas vezes o seu sonho é a seguir vendê-la e gozar da riqueza assim conquistada. Em regra, porém, e tal como acontecia com os antigos garimpeiros, não descobre o filão da sua vida. Apenas umas pepitas e, esgotado o veio (ou o capital de risco da empresa), parte para outra. Essencial para tal é a rede de contactos que vai criando com os colegas que, com o tempo, se espalham por múltiplas empresas. É um ser que adora o alto risco. Alguns não praticam apenas desportos radicais: de um deles sei que pertencia às Forças especiais inglesas e que desaparecia por uns tempos sempre que começava uma guerra no Oriente!...
O capital de risco que financia estes empreendimentos também nada tem a ver com a Banca tradicional. É gerido por empresas específicas, financiadas de facto pela Banca mas geridas por gente que conhece bem o espírito do Vale e que o partilha, gente do mesmo género, e não gente da Banca!
Por tudo isto, é completamente espúrio pensar em replicar coisas como o Silicon Valley em Portugal. Olhemos antes para as experiências francesas ou alemãs...