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sexta-feira, fevereiro 05, 2010

Mais uma Ministra da Propaganda?

A nova Ministra do Ambiente acaba de declarar que as 10 novas barragens do Plano Nacional do Governo irão poupar a Portugal a importação de 3,3 milhões de barris de petróleo para as centrais termoeléctricas.
Será que temos, pois, uma nova Ministra da Propaganda no Governo?
É que:
1º) - As centrais termoeléctricas em Portugal não funcionam a petróleo. Funcionam a carvão (Sines e Abrantes) e a gás natural (Tapada do Outeiro, Lares, etc).
2º) - A energia que as novas barragens vão produzir é zero, como já mostrei aqui. De facto, a pouca energia de origem hídrica que produzirão só chega, se chegar, para cobrir as perdas na bombagem necessária à armazenagem de energia de origem eólica que é o seu verdadeiro propósito.

E a propósito, a adicionar aos 3 mil milhões de € de custo de 8 destas novas barragens, a que se adicionam mais 1,85 mil milhões pelas outras 2 em construção e pelo reforço de potência de mais 6, para todas juntas produzirem nenhuma energia, o Governo prepara-se para concessionar mais duas: Pinhosão e Almourol! Diz o Governo que reduzirão o défice público, visto que os concessionados terão de pagar por elas, como pagaram 640 milhões pelas 8 já concessionada. Mas e quem vai pagar depois isso tudo na tarifa da electricidade?
______________________________
Sei que há quem fique incrédulo com os valores de energia de origem hídrica que tenho indicado como sendo a verdadeira produção destas novas barragens. No entanto, os dados estão todos na Memória Descritiva do Plano, acessível na net. Estão é em energia anual prevista, e não em potência, e por isso é preciso dividir essa energia pelo número de horas do ano, 8760, para pôr as duas coisas (potência instalada e energia produzível) na mesma base - em potências. Potência instalada e potência média. Uma conta que parece ninguém ter feito, com excepção do Prof. Joanaz de Melo da Universidade Nova.
Para que as minhas contas fiquem claras, aqui vão as potências médias anuais de origem hídrica obtidas assim para cada aproveitamento:
Girabolhos (Endesa): 11,3 MW;
Vigado (Iberdrola): 13,01 MW;
Daivões (Iberdrola): 16,89 MW;
Padroselo (Iberdrola): 11,64 MW;
Gouvães (Iberdrola): 17,47 MW;
Foz Tua (EDP): 31,39 MW;
Fridão (EDP): 34,1 MW;
Alvito (EDP): 7,1 MW;
E ainda:
Baixo Sabor (EDP): 26,23 MW;
Ribeiradio (EDP): 15,3 MW;
Quanto aos "reforços de potência" de Picote II, Bemposta II, Alqueva II, Venda Nova III, Salamonde I e Paradela II, pouco adicionam em energia: 3,54 MW médios no Alqueva, e mais uns 9 MW médios no resto. A recentemente inaugurada com grande pompa Venda Nova III, de origem hídrica propriamente só produzirá 2 MW; o resto é para bombagem!...
Total: 197 MW.
Como a potência média do consumo nacional é de 5930 MW (52 Thw / 8760 horas), esta produção só cobre 3,3% desse consumo, o aumento previsível de consumo nacional de apenas 1 ou 2 anos.
No entanto, a energia "bruta" prevista para fornecimento corresponde a mais 525 MW, mas de origem eólica. Como para fornecer estes 525 MW é preciso que as eólicas forneçam 700, temos que as perdas por bombagem serão 175 MW médios, ou 25%, nos quais, para que não me acusem de má vontade, já incluo os 2% de perdas na rede eléctrica que transportará a energia das eólicas até às barragens. Praticamente a produção de origem propriamente hídrica.
Balanço final do contributo energético destas barragens para Portugal e dos 4,85 mil milhões de € que teremos de pagar, mais os juros do seu financiamento e mais os custos de expansão da rede da REN: quase zero!

terça-feira, janeiro 26, 2010

Quanta energia vão produzir todos os aproveitamentos hidroeléctricos planeados?

Notei, nos recentes debates sobre o Orçamento de Estado para 2010 e em diversas intervenções de responsáveis do Governo, que a planeada construção de um largo número de aproveitamentos hidroeléctricos passou a ser o eixo da política económica nacional.
Diz o 1º Ministro que a Energia é o eixo da sua aposta para o desenvolvimento económico, e na Energia a referida construção das hidroeléctricas é agora alegadamente o centro dessa estratégia.
Parece uma ideia consensual. Toda a gente acha bem que se aproveite a àgua da chuva, que é uma coisa limpa e renovável, e a construção das barragens parece algo capaz de criar muito emprego. Aliás, são anunciados muitos milhares de empregos, com essas barragens. E são também anunciados muitos MW de energia.
Infelizmente, tenho que vos dizer que vim aqui hoje fazer um bocadinho de "bota-abaixo". Se me quiserem seguir nos números, ficarão em condições de perceber porquê.

Tenho que começar por recordar que MW e energia não são a mesma coisa. Os MW são a capacidade de produzir energia de uma instalação, não a energia que ela efectivamente produz. Se eu fizer uma barragem de 1000 MW no deserto, terei "instalado" 1000 MW mas, obviamente, a energia que ela vai produzir será nula. Percebido? Então continuemos.
Se dermos uma vista de olhos nos números que acompanham a descrição dos 16 aproveitamentos hidroeléctricos em construção ou para construção próxima, constatamos o seguinte:
- Custo previsto: $4,85 mil milhões de €$;
- Potência média de origem hídrica:  +175 MW;
- Potência média de origem eólica (armazenada): 525 MW;
- Perdas estimáveis no processo de armazenagem da energia eólica: - 175 MW (em média);
- Saldo energético médio produzido (origem hídrica menos as perdas na armazenagem da energia eólica): ~0 MW.

Pois é, a resposta à pergunta do título é: zero! Não acreditam? Os dados estão todos no site da EDP, e se não sabem fazer contas de somar e subtrair peçam a alguém que saiba. Acho que o Governo conta com a vossa inumeracia...
Como é que eles vos enganam? Primeiro, falam em energia "bruta", que é a soma de toda a energia que sai das centrais independentemente da origem. E essa irá ser 175+525= 700 MW, em média. Vocês nem reparam na palavra "bruta" e, ao mesmo tempo, eles "esquecem-se" de explicar que para produzir os 525 MW de origem eólica as centrais terão de dispender primeiro, a bombar àgua para cima, 700 MW adquiridos à rede eléctrica, vindos... das eólicas.  A diferença entre estes 700 e os 525 devolvidos depois são as perdas do processo. Claro que se vocês subtrairem à tal energia eléctrica "bruta" produzida, a 700 MW em média, a consumida de que eles que se esquecem de falar, 700 MW em média, obtêm o saldo real das centrais, e é como vos digo: zero - se até não for menos...

Quanto aos milhares de empregos anunciados, como já notei aqui, são apenas durante o pico das obras durante os 4 anos de construção. Com uma diferença relativamente às barragens feitas até 1985: nesse tempo não havia imigrantes e a mão de obra da construção civil era portuguesa!...

Falta só acrescentar que ninguém teve em conta que quando fizer muito vento dias seguidos, no Inverno, também geralmente choverá muito dias seguidos, e não haverá espaço nas albufeiras para armazenar a energia eólica - como já se verificou este Inverno e ainda vamos só em 60% da quantidade de eólicas planeada pelo Governo...

terça-feira, janeiro 19, 2010

Correlação entre vento e chuva e soluções à procura de problemas

Já houve quem tivesse notado que há uma estreita correlação entre o vento e o "inflow" de água da chuva nas albufeiras com bombagem, e que isso "limita a possibilidade do uso destas para armazenamento". Não foi foi nenhum académico!
De facto quase sempre os trabalhos académicos estão centrados na investigação de um qualquer novo método teórico e não na caracterização fidedigna do problema a tratar. Ou, como já notei em tempos, em regra os académicos têm uma solução que anda à procura de problemas, enquanto na vida real as coisas requerem o contrário.

Sintoma do nosso sub-desenvolvimento terceiro-mundista é os nossos políticos desconhecerem isto e deixarem-se entusiasmar com as fantasias dos académicos, que por sua vez se entusiasmam frquentemente com políticas totalmente irrealistas.

sábado, janeiro 16, 2010

Ainda uma nota sobre o absurdo eólico

Um comentador irado com o que tenho revelado sobre o facto do excesso de vento ser concomitante com a chuva intensa, o que inviabiliza a ideia da armazenagem hidroeléctrica, escreveu-me a dizer que só chove assim poucas semanas por ano.
Ora isso é verdade. Mas também o é que só faz vento de jeito poucas semanas por ano, e que isso coincide com as semanas de chuva intensa. Com uma correlação metereológica de 98%!
Os gráficos que junto são tirados de uma Agência europeia financiada pela própria UE.

O primeiro gráfico mostra a quantidade de horas que as eólicas funcionam a uma dada % da sua capacidade ao longo do ano, para uma utilização média da sua capacidade de 1/4 (25%), que é o que se verifica na Dinamarca e também em Portugal.


O segundo gráfico mostra como essa produção se distribui ao longo do ano (valores escandinavos). É evidente que a produção eólica é muito maior no Inverno que no Verão, e isso é um facto tão bem conhecido que os EUA, por exemplo, o têm estado a considerar nos estudos lá feitos, dado que a ponta de consumo deles (como a nossa) é no Verão, mas o da produção eólica é no Inverno - e eles não têm a alta % de produção hidroeléctica que nós temos, a qual tem um padrão sazonal de produção ainda mais acentuadamente invernal.
Em Portugal, por exemplo e segundo dados da REN, em 2008 o mês de menor produção eólica foi Setembro, e o da maior foi Dezembro (2,5 vezes a de Setembro), o que confirma a distribuição sazonal normal em todo o Mundo.

Vi há pouco um interessante debate na SIC, no programa "Expresso da Meia Noite". E nele, um Prof. da Universidade Católica que até desconheço, João Confraria, disse o que me parece óbvio: o Estado precisa de estruturas de apoio técnico para o estudo e planeamento destas coisas, que não existem. Aliás, também disse outra coisa antes que subscrevo: a própria menção ao "interesse nacional" parece que passou a ser pecado!...

quinta-feira, janeiro 14, 2010

A culpa é da liberalização. Ou não?

A propósito do "absurdo eólico" para que tenho vindo a chamar a atenção, em que temos produção a mais sem ter onde a meter e a temos que deitar fora, fiz uma pesquisa aos papers mais recentes que pudessem ter sido publicados sobre o assunto internacionalmente, e falei com um colega muito sabedor.
Encontrei um único paper, já publicado este ano, que se lembra do problema do dimensionamento do reservatório da barragem, ou seja, da sua capacidade em energia armazenável, e não apenas em potência bombável ou turbinável. Mas mesmo este paper, publicado na melhor revista mundial do assunto e que por sinal é português (de alguém que tem estado envolvido no nosso grandioso pioneirismo eólico), mesmo este paper se esquece de considerar o efeito acumulado ao longo de vários dias da chuva e do vento e simplifica o problema evitando tratar a sua aleatoriedade - aliás e de facto, não trata do efeito cumulativo da chuva e da bombagem no enchimento das albufeiras. Aliás, não trata da chuva, sequer. É, portanto, um típico paper académico, mas já é um começo...
Entretanto, lembrei-me que em tempos, antes de aparecerem as eólicas, houve na antecessora da REN alguns engenheiros de grande qualidade que sabiam muito do assunto e, em particular, conheciam bem os nossos regimes hidrológicos. E tentei saber que era feito deles. Pois estão em funções meritórias, mas grupos de estudos com engenheiros desses é que já não há!
E porquê? Porque se raciocinou que, com a liberalização do mercado de energia, deixava de fazer sentido planificar o sistema energético e que os equilíbrios seriam conseguidos pelo simples jogo do mercado. O quer seria bom, porque o planeamento tolhia a inovação e a concorrência, pelo contrário, levaria sempre às melhores soluções.
Temos então que a presente situação resulta dessa liberalização dos mercados?
Bem, se os mercados energéticos fossem realmente livres e, portanto, geridos pelos interesses privados em competição, o que provavelmente teríamos era toda a nova produção energética a ser feita por centrais de ciclo combinado a gás natural! Não seria uma solução de longo prazo, mas ao menos a electricidade seria relativamente barata e sem défice tarifário.
Mas não é isso que temos.
O que temos é um sistema energético regido pelos ditames políticos de Bruxelas relativamente à redução das emissões de CO2, o que leva a subsidiar e a priveligiar as caríssimas energias renováveis e à presente situação!
O que de facto temos, não é um fruto da liberalização energética. É o fruto de um sistema definido por critérios estritamente políticos, mas sem o antigo planeamento nacional...
Ou seja, temos o pior dos dois mundos!
Ah, mas o tal paper de que falei atrás considera uma ideia interessante para quando tivermos as hídricas com capacidade reversível (mas sem capacidade de armazenamento) e que evita a vergonha de termos de doar a Espanha o excesso de energia eólica: as futuras hídricas poderão bombar a água para dar consumo eléctrico às eólicas e manter a rede estável, e ao mesmo tempo abrir as comportas de segurança ao lado para deixar a água sair (sem ser turbinada) antes que as albufeiras transbordem.
Lindo! A capacidade de inovação portuguesa tem realmente progredido muito, nos últimos anos...!

domingo, janeiro 10, 2010

Energia eólica e armazenagem hídrica: um problema de mera gestão diária, ou também de planeamento?

Ontem os jornais davam conta que a barragem do Alqueva, que é basicamente apenas um grande depósito de água, dado o seu fraco caudal, está cheia.
O Plano Hidroeléctrico de Elevado Potencial visa, como mostrei aqui, explorar a capacidade de armazenamento das 8 novas barragens a construir para escoarem a energia eólica excedentária, objectivo reforçado pelo "reforço de potência" de um largo número de barragens já existentes, e entre elas a do Alqueva.
A ideia de usar barragens para armazenar energia de origem eólica surgiu já há uns anos, mas só tem sido estudada em alguns meios académicos. Não há de facto ainda, em parte alguma do mundo, experiência do uso prático da armazenagem hidroeléctrica para regularizar a intermitência da energia eólica. Nisto, Portugal é pioneiro, ainda que a ideia leve o custo o kwh de origem eólica para valores absolutamente extravagantes, como já mostrei.
Naturalmente, é por causas desses custos exorbitantes que Portugal é pioneiro.
Acontece que, à falta de experiência, os estudos publicados têm-se todos centrado no problema da gestão diária instantânea ("despacho") ou diária do binómio eólicas-barragens. O próprio Plano Hidroeléctrico, usando simulações da REN, baseia-se numa estimativa da potência eólica excedentária que pode ocorrer a certas horas do dia, e na necessidade de a conseguir armazenar toda de umas horas para outras.
Por conseguinte, o Plano estimou a potência (a quantidade de energia por segundo) que as barragens terão de ser capazes de bombar, para corresponder ao excesso de eólicas, e daí todos esses "reforços de potência" em curso.
Ora estes estudos baseiam-se sempre na ideia de que há capacidade de armazenamento nas barragens, o que geralmente é verdade, em média anual. Mas e se chover intensamente durante uns meses, e ao mesmo tempo fizer vento, como é frequente por cá no Inverno e está a acontecer agora?
Poderemos ter então uma situação em que as barragens não possam bombar mais  àgua para escoar a energia eólica, porque estão cheias e têm é de, em muitos casos, despejar a àgua proveniente da chuva, e não meter lá mais. E isto não se resolve com "reforços de potência" das barragens, num país pequeno como o nosso em que quando chove muito chove em todo o lado, e o mesmo acontece ao mesmo tempo com o vento, como agora.

quinta-feira, novembro 12, 2009

O caso das hidroeléctricas

É interessante (e triste) verificar que a Comissão Europeia acaba de publicar uma dura crítica ao Plano Nacional de Barragens, centrando-se sobre a (invocada) violação de normas ambientais relativas às águas, mas onde o Plano também "é criticado por não ter apresentado alternativas que permitissem uma mais clara relação entre os custos e benefícios do projecto, pelo que face aos dados disponíveis os autores do relatório consideram que "não se compreende esta decisão" do Estado português".
Exactamente, neste aspecto, isto é o que demonstrei detalhadamente aqui há cerca de dois meses!

No meio da crítica e contra-crítica que de imediato se seguiram, desde ontem, entre nós, os "verdes" no Parlamento criticam o Governo por este não ter preferido apostar no eólico off-shore em vez de nas barragens, não percebendo que o fito das barragens é precisamente o armazenamento da excedentária energia eólica que vamos ter.
E o Presidente do INAG, em resposta, descansou-nos dizendo que o investimento iria ser feito por privados e não pelo Estado, e que se os privados o fariam com certeza era porque os investimentos seriam rentáveis. Esqueceu-se foi de dizer que esses privados, a EDP, a Iberdrola e a Endesa, têm tarifas reguladas pela ERSE e definidas pelo Governo, e que portanto os tais investimentos só serão rentáveis porque o Governo garantiu a sua repercussão no défice e na tarifa que todos nós, consumidores, iremos pagar! Ou seja: os investimentos poderão ser rentáveis para essas empresas; não o serão de certeza é para Portugal e os portugueses!

quarta-feira, setembro 30, 2009

Clusters industrais nas renováveis: 23 mil empregos, ou a fraude portuguesa do século? Parte II - o caso das hidroeléctricas

Recentemente, o Ministro da Economia em acumulação de funções anunciou um plano de aposta nas energias renováveis que implicaria a criação de 23 mil empregos e 15,5 biliões de euros de investimento. O plano estará em execução há já 2 anos e é para continuar por mais 6.

A enormidade do investimento anunciado e as implicações que ele terá para o futuro nacional tornam irrecusável o imperativo ético de trazer à discussão pública a bondade desta decisão. Um contributo para essa discussão, até aqui ausente do palco mediático (salvo posições do antigo Ministro da Indústria dos Governos de Cavaco Silva, Mestre Eng.º Mira Amaral), é o que decidi escrever no que acabará por ser um texto longo. Decidi escrevê-lo por partes, para postar à medida que o tempo mo permita.

Na parte I, mostrei, historiando, como as tecnologias da energia eólica levam tempo a dominar, como é preciso ter estratégias nacionais para atingir esse domínio, que problemas técnicos e que valor acrescentado existe no fabrico de instalações eólicas e, finalmente, como o que Portugal tem feito na matéria peca por um terceiro-mundismo sem sustentabilidade, nomeadamente quanto aos 1800 empregos que estará a criar. Nas eólicas, que em breve terão esgotado o potencial nacional, terão sido investidos directamente 6,5 a 7 biliões de €, importanto quase tudo e subsidiando fortemente essa importação, num exemplo único no mundo de fomento de indústrias estrangeiras. Àquele investimento haverá ainda que adicionar 1 bilião de €, pelo menos, na expansão de rede necessária para ligar as eólicas à rede eléctrica.

Nesta parte II, agora, debruçar-me-ei sobre os projectos hidroeléctricos em curso. Embora estes projectos sejam apresentados como visando o aproveitamento dos Recursos Hídricos nacionais, objectivo que naturalmente recolhe o apoio consensual dos portugueses, na verdade a energia de origem hídrica que estes investimentos acrescentam ao país é insignificante e, como demonstrarei, não é esse o seu objectivo principal.
O objectivo principal dos projectos hidroeléctricos em curso é a criação de reservatórios de energia... eólica, e principalmente energia eólica de Espanha! Mas que, na sua maior parte, vão ficar sem qualquer utilização.

  • Os factos dos investimentos hidroeléctricos em curso
Em 2008, começou a ser publicitado o relançamento do aproveitamento dos recursos hidroeléctricos nacionais, prosseguindo a construção de centrais que tinha sido bloqueada quando em 1995 o filósofo Prof. Doutor Manuel Carrilho acusou, no Parlamento, o então Ministro da Indústria e ex-especialista da EDP Eng.º Mira Amaral, de "barbarismo tecnocrático" por ele defender a barragem de Foz Coa. A barragem, que já estava em plena construção, foi suspensa pelo sub-sequente Governo de Guterres (1995-2001), e as gravuras pré-históricas lá encontradas só podem hoje ser visitadas com marcação prévia e com muita antecedência, como descobrem os ingénuos visitantes a quem ocasionalmente ocorre ir até lá fazer um passeio turístico.

As 8 hidroeléctricas cujo licenciamento foi atribuído já neste ano de 2009 tinham prevista uma potência instalada total, inicialmente, de 941 MW, mas a potência média esperada, considerando o caudal dos respectivos rios (que não se pode mudar), era de apenas 120,9 MW, menos de 1/8 do que produz em média a central a carvão de Sines e uns míseros 2,1 % do actual consumo nacional, um valor que apenas dá para cobrir o aumento de consumo de um único ano (sem recessão), como bem notou o ambientalista Prof. Doutor Joanaz de Melo.
Recordo que, como expliquei aqui, é a potência média que nos dá uma ideia da energia que uma central eléctrica efectivamente produz, e não a sua "potência instalada", que só é atingida muito ocasionalmente, ao longo do ano.

Dos referidos 941 MW inicialmente previstos para as 8 barragens, quase metade (424 MW) foram concedidos à espanhola Iberdrola, concretamente 4 das referidas 8 hidroeléctricas e que se situam na bacia do Tâmega e cuja exploração é inter-dependente.

A potência média dessas centrais da bacia do Tâmega, porém, era de apenas 59 MW, e há quem diga que mesmo este valor está sobreavaliado em 20%. E, no entanto, a Iberdrola ofereceu no leilão de concessionamento 1 bilião de € por elas, e mais tarde anunciou que afinal vai investir 1,7 biliões de € ali.
Ao mesmo tempo, a Iberdrola anunciou que vai ampliar a "potência instalada" das referidas centrais dos 424 MW inicialmente previstos para 1135 MW, mais 711 MW que o valor inicial, sobretudo na barragem de Gouvães!

Por outro lado a EDP, que ficou com 3 das 8 centrais e quase metade da potência a instalar inicialmente prevista (444 MW), anunciou também a ampliação desta potência em mais 263 MW, sobretudo na barragem do Alvito, e os investimentos atingirão, somando valores mencionados na imprensa, cerca de 1,1 biliões de €. Porém, a potência média destes 3 aproveitamentos, cuja potência instalada atingirá assim os 707 MW, a potência a que realmente é proporcional a energia de origem hídrica a gerar, será de apenas 50,6 MW.

A última das 8 barragens, Girabolhos, foi atribuída à espanhola Endesa, para um investimento inicialmente anunciado de 110 milhões de €. Esta barragem tinha prevista uma potência a instalar de 72 MW e uma potência média (proporcional à energia hídrica disponível) de apenas 11,3 MW, mas também a Endesa decidiu, já depois de ganha a concessão e similarmente ao que aconteceu com as outras 7 centrais, multiplicar por cinco a potência instalada, para 355 MW! O investimento final é agora indicado como sendo de 360 milhões de €!

Temos assim que, no total das 8 barragens, se estima em apenas 121 MW a potência média de origem hídrica disponível, mas a potência a instalar prevista no Caderno de Encargos, que era de 941 MW, vai ser efectivamente de... 2200 MW! Isto, para um investimento total anunciado (na imprensa) de 3,0 biliões de € (2/3 dos quais espanhois).

Desde já chamo a atenção de um detalhe crucial para entender estes aumentos de potência instalada e que adiante explicarei para que servem: em quase todos os casos os aproveitamentos serão reversíveis, isto é, as turbinas poderão trabalhar como bombas hidráulicas, enchendo os reservatórios das albufeiras com água já turbinada, puxada de jusante. Como comenta encantado o Eng.º Carlos Pimenta, "põe-se o rio a andar ao contrário"...

Entretanto, a estratégia destes investimentos só se entenderá perfeitamente se se recordar que a EDP tem em curso o reforço de potência instalada de outras 8 barragens (Bemposta II, Picote II, Alqueva II, Venda Nova II e III, Salamonde II, Paradela II e Cabril II), aumentando essa potência num total de 2000 MW, e ainda mais duas novas em construção (Ribeiradio e Baixo Sabor, com 244 MW de potência instalada), que adicionarão ao todo apenas uma potência média de 41,6 MW, para um investimento total de 1,85 biliões de €.

Somando todos estes investimentos, temos que no conjunto se está a falar de 4,85 biliões de € (2,85 da EDP e 2 espanhóis), + 0,55 biliões de € estimáveis de investimentos na rede eléctrica (pela REN), valor igual ao custo do novo aeroporto ou 4/5 do do TGV (embora no TGV o Estado co-financie 2/5, enquanto das novas hidroeléctricas o Estado tenha recebido 666 milhões de €). A potência instalada total será de 4640 MW, dos quais 4070 reversíveis mas, como mostrarei mais adiante, a energia de origem hídrica efectivamente produzida por tudo isto não ultrapassará o valor insignificante correspondente à potência média de 175 MW, menos do que produz um só dos 4 geradores da central a carvão de Sines. Na verdade, não é para esta energia que isto tudo está a ser feito, como ficará patente.

  • Quantos empregos? Milhares, só durante a construção dos aproveitamentos...!

As centrais hidroeléctricas, quando em exploração normal, ocupam muito pouca mão-de-obra porque hoje em dia são automatizadas e tele-comandadas. Fora alguns guardas e pessoal de manutenção permanente, as centrais não precisam de operadores, e dos 18 empreendimentos em curso só 10, como vimos, são inteiramente novos. O número de empregos permanentes criados por estas novas centrais não irá ultrapassar sensivelmente uma centena.
Já durante a construção dos aproveitamentos haverá uma utilização intensiva de mão-de-obra, mas o tempo de construção de cada um é, em média, cerca de 4 anos. Trata-se em grande parte de mão-de-obra temporária e deslocada para as empreitadas que, no auge da construção, atinge tipicamente o milhar. Assim, e à média de mil homens por 3 anos e por cada aproveitamento, tem-se que todos os empreendimentos somados poderão ocupar directamente, como ordem de grandeza, 6 mil trabalhadores durante 9 anos (2007-2016). Mas, dadas as condições de trabalho em causa (temporário, duro, e exigindo a deslocação para locais isolados), é muito provável que essas condições atraiam sobretudo trabalhadores imigrantes, considerando ainda que o ordenado típico oferecido para o pessoal não-qualificado nesta construção civil é de 550 € mensais com contratos por 3 anos (a duração típica da fase mais intensiva de cada obra).
Além destes quiçá seis mil empregos temporários, é frequente considerar que por cada um são criados 3 outros indirectos - obviamente, também só durante a construção dos empreendimentos. Parte destes empregos poderão estar nos serviços de apoio aos próprios trabalhadores deslocados (restaurantes, hospedarias), mas a maioria estará nas indústrias fornecedoras dos materais para os empreendimentos - cimenteiras, fábricas de equipamento eléctrico e mecânico, etc. Se, como é provável, houver uma situação de quebra de encomendas nessas indústrias devida à recessão em curso, é conjecturável que essas indústrias se encontrem numa situação de sub-ocupação dos recursos produtivos e que, portanto, as encomendas provenientes das barragens se limitem a ajudar a manter empregos já existentes - e em boa parte nas empresas estrangeiras donde se importem os equipamentos e materiais. Quanto tempo cada um destes empregos é ocupado pelas referidas encomendas é um dado desconhecido, mas certamente será, em média, bem inferior aos 4 anos de duração das obras.
Não deixa de ser verdade, no entanto, que a construção destes empreendimentos sempre incorpora uma maioria de valor acrescentado nacional, ao contrário dos parques eólicos.
  • O "reforço de potência" das centrais hidroeléctricas e a energia de origem hídrica que elas produzem
Recentemente, o Ministro do Ambiente clarificou no Parlamento alguns números actualizados destes projectos, mencionando os aumentos de potência instalada que acabaram por ser decididos pelas "eléctricas" depois da concessão, e associando-lhe um aumento de energia produzida. Esta associação entre a potência instalada numa central e a energia que ela produz é extremamente comum mas, como já expliquei aqui, é uma tremenda confusão, habilmente explorada por alguns e propagada depois por muitos outros (que não sabem Física elementar)!
Numa hidroeléctrica, a quantidade de energia produzível depende, antes de mais, do caudal do rio, ou seja, da quantidade de água por segundo que nele corre, e é evidente que no Verão há menos água que no Inverno, e que há anos secos e anos chuvosos - mas a potência instalada da central é projectada para se poder tirar dela o máximo de energia possível, quando for desejável!

E isto leva-nos à seguinte pergunta: basta aumentar a potência dos geradores de uma central hidroeléctrica, para tirar de um rio mais energia? Infelizmente a resposta é: não!

A energia que se pode tirar de um rio depende do caudal deste e da altura da queda de água da barragem. A energia que aí reside, a energia primária das hidroeléctricas, é a energia mecânica potencial que, todos o sabemos do ensino secundário, é quantificada pela massa de água multiplicada pela altura da sua queda.
A massa de água depende do caudal natural do rio, e não há nada que possamos fazer para o aumentar, pelo menos continuadamente.
A altura da queda depende da altura da barragem, mas esta depois de concessionada também não pode ser aumentada, porque isso iria alargar muito a albufeira e inundar terras não previstas na concessão.
Por conseguinte, a energia que a Iberdrola, a Endesa e a EDP vão poder tirar destas barragens, essa energia, ou a potência média, se preferirem, é praticamente a mesma - aumentem estas "eléctricas" a potência lá instalada ou não! As únicas excepções são algumas centrais que, já antes, não podiam aproveitar toda a água do rio no Inverno - centrais que tinham de "deixar passar" água sem a turbinar em alturas de cheia, quando o rio está muito caudaloso, por insuficiência de turbinas - como é o caso das velhas centrais do Picote e Bemposta, no Douro.

O que o "reforço de potência" permite, na verdade, é turbinar mais água no mesmo tempo - mas isso não aumenta a água disponível no rio, e portanto a energia!

Por exemplo, suponhamos que o rio tem um caudal de 10 metros cúbicos de água por segundo no Verão, mas de 100 metros cúbicos na época de chuvas; se se tiver potência instalada que chegue, consegue-se turbinar os 100 metros cúbicos por segundo no Inverno, mas no Verão as turbinas só funcionarão a 10% da sua capacidade - a menos que se tenha um reservatório, uma albufeira, onde se armazene a água de modo que se possa então, por exemplo, fechar as turbinas durante 9 horas e depois, à hora de ponta, a 10ª hora, despejar tudo de uma vez. Que é precisamente para que servem essas albufeiras, ou reservatórios elevados de água, e portanto de energia! Obviamente a energia gerada é a mesma, e a diferença está só no ritmo a que isso é feito ao longo do tempo, aquilo a que se chama potência.
Em regra, se a central não tiver albufeira, a diferença entre o caudal médio e o caudal de Inverno de um rio é por cá de 1 para 3, e por isso tipicamente a potência média que a central debita é à volta de 30% da potência instalada (que é a máxima de que ela é capaz). Se a central tiver albufeira, pode armazenar a água para ser usada nas horas em que mais falte a energia eléctrica, as horas de ponta, e aí já a potência média da central pode ser de apenas 1/6 da potência instalada - ou seja, a central poderá ter uma potência instalada dupla da do caso anterior, mas isso não significa que produza mais energia, repito, e sim e apenas que pode concentrar essa produção em certas horas.

Espero ter conseguido explicar esta diferença essencial entre potência instalada e potência média (a que é proporcional a energia) aos senhores jornalistas e politólogos!...

Ora, no caso dos investimentos em realização em Portugal, se a energia de origem hídrica que todos estes investimentos vão produzir é tão pequena (potência média de 175 MW), e se o reforço da potência instalada pouco aumenta a energia hídrica das centrais que já existiam, porque razão, então, se vão investir tantos biliões adicionais nestas barragens? Porque razão se não constrói uma potência instalada de até 6 vezes essa potência média de 175 MW, que seria 1100 MW, e em vez disso se vão construir 4640 MW, 4 vezes mais?
A resposta está no facto das turbinas previstas serem reversíveis, de poderem "pôr o rio a funcionar ao contrário", e o interesse desse facto explico-o no seguimento - mas, como é óbvio, quaisquer que sejam as turbinas elas não podem aumentar nem o caudal do rio nem a altura da sua queda, e portanto não aumentam a energia de origem hídrica extraível dos rios.

  • As turbinas reversíveis e as albufeiras como reservatórios de energia... eólica!
Antes de prosseguir, e só para fixar conceitos, noto que a energia é sempre a mesma entidade, mas que pode mudar de forma - pode ser mecânica, na forma de água nas alturas de uma albufeira, mudar para a forma eléctrica na central e nessa forma ser transportada até aos consumidores - mas, se a central funcionar ao contrário, se as turbinas puderem trabalhar como bombas hidráulicas, então é possível fornecer energia eléctrica à central e ela transformá-la de novo em energia mecânica de água nas alturas. Qual o interesse? Armazenamento! A água contida numa albufeira é energia armazenada que pode ser turbinada de novo, convertendo-se em electricidade, quando convier!

Ora esta utilização da albufeira como reservatório de energia, carregado pela central eléctrica a funcionar como uma estação de bombagem, é muito útil e de facto usada há muito pelo mundo fora quando existe, algures, uma outra fonte de energia que se queira aproveitar mas que se não possa controlar. É, precisamente, o caso das fontes de energia renovável, muitas vezes. O Sol não ilumina de noite e, portanto, se se quiser aproveitar a energia solar à noite, é preciso armazenar essa energia nalgum lado. Pode-se, pois, converter a energia solar em eléctrica, transportar essa electricidade até uma hidroeléctrica com turbinas reversíveis, bombar água para cima com essa electricidade, e á noite voltar a turbinar a água da albufeira, produzindo de novo electricidade. A albufeira funcionou como reservatório de energia de origem... solar.

Evidentemente, desde já se pode ver que se quisermos usar energia solar à noite, e só solar, além da central fotovoltaica (já de si caríssima) vamos ter que construir uma estação de armazenamento par tal. Se for muita, justifica-se a dimensão de uma hidroeléctrica com albufeira para a armazenar até á noite... e é exactamente isso que acontece com os aproveitamentos hidroeléctricos em causa, só que não para armazenar energia de origem solar (por enquanto...), e sim energia de origem eólica!

Que a reversibilidade das turbinas das novas hidroeléctricas visa o uso destas como reservatórios de energia de origem eólica pode ser confirmado no próprio Caderno de Encargos oficial dos aproveitamentos e também aqui e em muitas declarações públicas de entusiastas das renováveis! A questão que interessará saber ao povo, entretanto, é que problema técnico justifica o uso das presentes hidroeléctricas como reservatórios de energia de origem eólica, e isso é o que vou tentar explicar de seguida, não vos pedindo que saibam Engenharia ou Física mas apenas que consigam perceber uns gráficos simples, extraídos do próprio Caderno de Encargos dos empreendimentos.

Na figura ao lado mostra-se como evoluiu a produção da energia eólica produzida no nosso país num dia típico de 2006. No nosso país, a legislação criada no tempo de Guterres garante aos produtores eólicos a compra pela rede eléctrica de toda a energia que sejam capazes de produzir, com uma tarifa altamente lucrativa, e por isso eles produzem tudo o que podem. Porém, e como é patente no gráfico, o vento sopra com uma extrema irregularidade, produzindo uma energia eléctrica muito intermitente e que não se adequa nada ao diagrama de consumos dos utentes da rede. Ainda por cima, e em média, sopra predominantemente à noite, quando há menos consumos.
Se não houver muita potência eólica instalada na rede, o problema poderá não ter grandes consequências, porque as outras centrais convencionais se encarregarão de filtrar estas irregularidades, especialmente as centrais fáceis de controlar, como as hidroeléctricas e as a gás.
Porém, se a energia de origem eólica ultrapassar, digamos, 20% do total (o máximo dos máximos internacionalmente considerado como comportável e só atingido na Dinamarca), acontece o que se mostra no gráfico seguinte, previsto já para 2011 em Portugal, data em que a energia eólica atingirá os 25% da produção total nacional, com 5700 MW de potência instalada (e 1400 MW de potência média), o dobro do que se tinha no final de 2008.
Neste diagrama, a linha vermelha superior assinala o consumo nacional num dia chuvoso. Como se pode ver, a produção de energia supera largamente o consumo, e isso devido sobretudo à produção eólica (verde alface) que, pelos contratos feitos com os produtores e pela legislação existente, nunca pode ser parada ou reduzida, e que "sopra" predominantemente à noite! Que fazer para equilibrar a produção total com o consumo?
A produção de origem térmica (verde escuro) pelas "cogerações" (outro negócio semelhante e ainda pior, porque até polui, e de que falarei qualquer dia) também não pode ser parada, nem a das hidroeléctricas sem albufeira (em baixo, azul marinho), e sempre é precisa alguma térmica convencional para controlar o sistema (cinzento). Poder-se-ia pensar em exportar para Espanha, mas a Espanha estará nessa altura com um problema semelhante, cheia de "vento" e um consumo de horas mortas!

É aí, já estão a ver, que entram as novas hidroeléctricas com turbinas reversíveis: para consumir a energia de origem eólica em excesso, armazenando-a na forma de água nas alturas, como é mostrado na linha azul grossa, em baixo.
Depois, nas horas de maior consumo e menos vento, durante o dia, essa água armazenada é turbinada, e a energia de novo devolvida à rede, juntamente com a que veio propriamente do rio (zona azul superior a partir das 9 da manhã, por baixo da linha vermelha do consumo).
Por conseguinte, a necessidade das hidroeléctricas reversíveis resulta de haver energia eólica em excesso, e é a solução para o problema que isso cria. Por um preço extraordinário, como se viu!
E falta acrescentar um detalhe: no ciclo de bombagem de água para cima da albufeira e depois de novo a sua turbinagem, perde-se energia, por atrito nas condutas de água da central. Concretamente, por cada 4 kwh que se gastam a bombar a água para cima, só se recuperam 3 kwh depois no retorno da água. A água é a mesma (áparte alguma evaporação da albufeira), mas é preciso aplicar mais "força" para a içar do que a que ela devolve ao descer de novo, por causa dos atritos.
  • Serão precisos 2000 MW de potência hidroeléctrica reversível para dar consumo às eólicas, mas vão existir 4900!
A REN fez um estudo sobre quanta potência de bombagem, ou hidroeléctrica revertida, virá a ser precisa para conseguir consumir o excesso de potência eólica na pior situação, e essa situação é a ilustrada na figura anterior, que mostra que por volta das 5 da manhã será preciso dar vazão a 2000 MW de potência eólica.
Com os novos aproveitamentos e reforços de potência aprovados a capacidade hidroeléctrica reversível atinge os 4070 MW, mas Portugal já tinha, antes destas novas centrais, cinco hidroeléctricas antigas com capacidade de bombagem ou reversíveis: Aguieira, Alqueva I, Torrão, Vilarinho das Furnas e Alto Rabagão. Estas hidroeléctricas ofereciam já 820 MW de bombagem, pelo que com os novos investimentos o país ficará a dispôr de 4890 MW reversíveis. Ter-se-ão, portanto, quase 2900 MW de hidroeléctricas reversíveis, em grande parte aquelas que foram decididas já depois do concurso das famosas "10" de 2008, cujo propósito é desconhecido.
É possíve, no entanto, conjecturar duas hipóteses alternativas:
  1. O Governo planeia instalar mais de 3000 MW de energia solar ou de eólicas offshore, para que não se antevê consumo (a menos que se esteja a pensar fechar definitivamente a barata produção a carvão que, no cenário previsto pela REN e como se pode ver pela figura anterior, já se prevê que só funcione metade dos dias em 2011);
  2. Há um plano oculto de disponibilização das centrais reversíveis portuguesas a Espanha, para dar consumo ao excesso de potência eólica e solar daquele país.
Este último cenário merece algum desenvolvimento.
A Espanha tem, presentemente, 3272 MW de potência hidroeléctrica reversível, e planeia construir em breve mais 1600 MW, em duas centrais. Com estas, atingirá os 4872 MW, por coincidência quase exactamente o mesmo valor que Portugal!
Se se admitir que a potência eólica instalada em Espanha acompanhe a mesma proporção da portuguesa, e atendendo a que o seu consumo de energia eléctrica é 6 vezes o nosso, é conjecturável que ela venha a precisar de uns 9.000 MW de potência hidroeléctrica reversível para encaixar o seu excesso de produção, para os quais só dispõe de 4900... a menos que os restantes 4100 sejam disponibilizados por Portugal. Isso explicaria os investimentos da Iberdrola e da Endesa nos 1370 MW em Portugal, e a EDP disponibilizaria os restantes 2900 MW que terá em excesso...
A questão final que se põe, entretanto, é de como será remunerada a função de armazenamento de energia pelas hidroeléctricas reversíveis.
Não é difícil fazer umas contas e verificar que a função de bombagem chega para justificar o investimento destas hidroeléctricas, somando-a à pouca energia de origem hídrica que poderão produzir, se o preço da energia eléctrica que consumirem para a bombagem for... grátis! Isto é, se a água que for bombada custar o mesmo que a que vem do rio!
A rede é que terá de arcar com o custo de pagar aos produtores eólicos a sua desnecessária energia à tarifa contratada, para a vender de borla às hidroeléctricas reversíveis, repercutindo o respectivo prejuízo no défice ou nos consumidores domésticos, claro.
Mas, quanto à energia proveniente de Espanha nestas condições, obtê-la grátis é capaz de ser difícil. E, se ela for paga ao preço de mercado corrente, isso significará que Espanha terá conseguido arranjar uma fórmula para se desfazer da sua energia renovável excedentária transferindo parte do prejuízo para Portugal.
Ora, se as hidroeléctricas reversíveis comprarem a energia eléctrica para bombar água, terão de revendê-la por 4/3 do preço de compra só para não terem prejuízo (devido às perdas por atrito), e nesse caso os respectivos investimentos nunca serão recuperados, aos preços actuais na praça ibérica de energia eléctrica (3 ç/kwh nas horas mortas e 5 ç/kwh nas horas de ponta)!

Entretanto, em Maio do ano corrente de 2009 Espanha praticamente acabou com a subsidiação da energia renovável, e assim muito dificilmente se ultrapassarão os 20.000 MW de potência eólica instalada lá até ao fim de 2010. Essa potência corresponde à que tínhamos instalado em Portugal até ao Verão transacto (3334 MW), dada a proporção de consumos nos dois países, mas que ainda é só 60% da que o Governo português decidiu subsidiar. Com o fim da subsidiação em Espanha, esta não vai precisar das hidroeléctricas portuguesas para armazenar excessos de energia, porque os seus instaladores, já em grandes coros de protesto, vão parar os seus investimentos - mas Espanha terá parado a tempo de a energia eólica e solar não se tornar lá um encargo totalmente descontrolado!

De uma forma ou de outra, mesmo admitindo que boa parte destes investimentos se justificam pela (pouca) energia que estas hidroeléctricas vão produzir, haverá sempre 2,6 biliões de €, dos quais pelo menos 1,7 biliões de € portugueses (estando os espanhóis a "arder" com 0,95 bilião), que só se justificam por causa dos planos do Governo para a instalação de energia eólica e que, em bom rigor, deveriam ser imputados a essa opção eólica, e não às próprias hidroeléctricas!Somados os 2,6 biliões de € destes investimentos hidroeléctricos aos 6,5-7 biliões que o investimento das eólicas terá custado quando os 5700 MW estiverem todos no terreno, dentro de um ano ou dois, temos que o custo para o consumidor desta energia ficará pelo menos em 140% do custo ao produtor, ou 11 a 13 ç/kwh - o quádruplo do que custa a do carvão ou o triplo da de uma nuclear!...
Por enquanto o consumidor não o sente, porque o operador da rede vai remetendo para o défice, mas alguém terá de vir a pagar isto e é duvidoso que seja o Governo ou as "eléctricas"...
Além disso, se descontarmos aos 175 MW médios de origem hídrica as perdas na bombagem que vão correr nestas hidroeléctricas, poder-se-á afirmar que o seu contributo líquido para a produção de energia nacional deste colossal investimento será muito aproximadamente... ZERO!

quinta-feira, julho 09, 2009

Portugal já foi um país com a maior parte da energia gerada por renováveis; porque deixou de o ser?

Durante muitos anos, Portugal teve nos seus rios a fonte da maior parte da energia eléctrica que produzia, e de forma completamente auto-suficiente.
De facto, até meados do século passado não havia uma rede eléctrica única no país. Cada cidade ou região administrativa tinha as suas próprias centrais eléctricas: uma quantidade apreciável de pequenas mini-hídricas, e algumas térmicas, como Lisboa, que era alimentada pela "Central Tejo", construída durante a Grande Guerra e hoje convertida em museu da electricidade, e que funcionava com carvão importado de Inglaterra. No final dos anos 30 havia cerca de 400 pequenas centrais eléctricas em Portugal, mas só 5 ultrapassavam a potência de 5 MW. Era quase o paradigma da microgeração que agora se propugna como inovador....
Naturalmente, o país era muito pobre e grande parte da população não tinha acesso à electricidade.
Depois, durante a Guerra Mundial, Salazar resolveu dar uma oportunidade aos "industrialistas" que defendiam ser possível o progresso económico do país apesar dele não ser rico em carvão, contra os "ruralistas" que dominavam a Corte da época. E chamou o Eng.º Ferreira Dias (na foto), professor de Electrotecnia do Instituto Superior Técnico, que publicaria o famoso "Linha de Rumo" (reeditado em 1998), onde defenderia o primeiro (e talvez único...) projecto estratégico coerente de desenvolvimento industrial de Portugal. Foi com base no trabalho de Ferreira Dias como Sub-Secretário de Estado que foi publicada a lei da Electrificação Nacional de 1944, onde se estabelecia o princípio de que "a produção de electricidade teria de ser de origem hidráulica, devendo as centrais térmicas reservar-se para funções complementares, nomeadamente durante o Verão, para aproveitar os carvões pobres de origem nacional". Como vêm, Ferreira Dias estaria na moda hoje!...
E foi assim que, sobretudo na década de 50, foram construídas as grandes (para a época) centrais hidroeléctricas de Castelo de Bode e do Alto Douro, Cávado, Zêzere e Tejo. E que todas essas centrais foram interligadas numa rede eléctrica nacional.
Dos anos 50 aos 80 do século passado, portanto, a maioria da energia eléctrica em Portugal foi de origem renovável, concretamente hidroeléctrica!
Mas mais: a construção e exploração dessas centrais hidroeléctricas foi inteiramente nacional, porque Ferreira Dias arquitectara um plano integrado de desenvolvimento, assim:
- para que Portugal dominasse a engenharia civil necessária ao projecto e construção das barragens, criou o LNEC, indo ao IST buscar um professor para o efeito, Manuel Rocha. O LNEC teve tal importância que foi a partir de engenheiros nele treinados que se vieram a formar as grandes empresas de engenharia e construção civil portuguesas, que ainda hoje tanto peso têm;
- enquanto professor do IST, promoveu o ensino das aplicações da electricidade e seleccionou sistematicamente os melhores alunos para irem ajudá-lo a planear a rede eléctrica nacional, que é um sistema complexo;
- para que fosse Portugal a construir as máquinas eléctricas que equipariam essa rede eléctrica nacional, promoveu a criação da EFACEC e da SIEMENS de Portugal, em 1948, e a SOREFAME viria a construir comportas para as barragens;
- e para que se garantisse consumo para a energia que se iria produzir, o Porto foi privado de rede de distribuição de gás.

Porque e quando deixaram as "renováveis" de ser dominantes na produção de energia eléctrica portuguesa?
A primeira grande central térmica de Portugal foi a do Carregado, e entrou em funcionamento no início dos anos 70: concebida antes do 1º choque petrolífero de 1973, operava a partir do petróleo, mas a sua função essencial era mais a de equilibrar a tensão das linhas que traziam a maior parte da energia das barragens do Norte do que outra coisa. Já razoavelmente maior foi a outra central a petróleo que se lhe seguiu pouco depois, a de Setúbal, e que entrou em serviço no final da mesma década de 70. Há já largos anos que essas centrais raramente operam, agora.
Acontece que após o 25 de Abril as empresas de electricidade foram nacionalizadas e a rede eléctrica estendeu-se finalmente a todo o país, levando a energia a todo o lado, o que estava longe de acontecer até então. E o grande aumento do consumo daí decorrente, bem como da industrialização acelerada que ocorrera nos últimos anos do regime deposto em 74 é que tornaram inaceitável estar-se à mercê da variabilidade dos rios - secos no Verão e cujo potencial energético depende, em cada ano, do acaso das chuvas que tiverem ocorrido - tornaram inaceitável a dependência da chuva que enche os rios.
Foi assim que foi construída, já nos anos 80, a grande central a carvão de Sines e, só então, a energia eléctrica nacional deixou de ter origem renovável na sua maior parte.
Ora a energia eólica ainda é muito mais variável que a dos rios. Se esta varia com os meses do ano e por vezes, fora do Verão, com os dias de chuva ou não, o vento muda radicalmente quase hora a hora e é muito mais imprevisível! E o mesmo sucede com a energia solar, que depende das nuvens no céu e que, obviamente, não funciona à noite quando se precisa de acender a iluminação!
É por isso que, pela mesma razão que em tempos se teve de complementar a nossa energia renovável de origem hídrica com centrais térmicas, o mesmo terá de acontecer com o eólico. Mas uma central térmica não tem de ser forçosamente poluente. Para o carvão estão em desenvolvimento tecnologias de "captura do carbono", e nas centrais nucleares o vapor que acciona as turbinas é produzido pela cisão atómica, que não liberta fumos.
Mas claro que seria conveniente era que qualquer projecto de desenvolvimento energético copiasse as preocupações de Ferreira Dias quanto à incorporação nacional! Não por qualquer bandeira nacionalista de outros tempos, mas porque Portugal precisa desesperadamente de empregos, de empregos qualificados e sustentáveis como os que tais actividades criam!