Não é só cá que se verifica uma despudorada campanha de mentira e intoxicação sobre o que se passa em Fukushima! Este excelente post num blog australiano ambientalista mostra como a notícia que por cá passou "plantada" à LUSA pelo sr. Volodomyr Bebechko (de que hei-de voltar a falar a propósito de epidemiologia) passou noutros continentes muito parecida mas com uma origem completamente diferente!
Não admira que com esta campanha maciça, o medo tenha renascido nas populações - mas é isso mesmo que essa campanha pretende: o terror!
E, no entanto, como ontem mencionei, os robots enviados às salas dos reactores mediram 58 mSv/h, 1% do que os trabalhadores de Chernobyl tiveram de heroicamente enfrentar, e a radioactividade acumulada à volta da central é insignificante! Logo que a situação na central esteja controlada (Julho, prevê a TEPCO), as populações poderão voltar às suas casas rodeadas de montanhas de escombros... devidos ao tsunami!
Alguns eco-terroristas persistem em que Fukushima poderá ser uma "Chernobyl em fogo lento", querendo com isso sugerir que a radioactividade emitida é apreciável e que o continua a ser. Mas não é verdade, como mostram os gráficos seguintes da radioactividade nos arredores da central.
O primeiro mostra como as emissões se concentraram nos momentos em que ocorreram as explosões de hidrogénio e o início de incêndio da piscina do reactor nº 4.
A figura seguinte mostra como tem evoluído a radioactividade em diversas pontos próximos da Central: em redução rápida, desde os tais "picos" de Março!
Note-se que a radioactividade ambiente natural é da ordem de 0,3 microSv/h, mas há locais no Mundo em que chega a ser de 5 microSv/h. O limite abaixo do qual não há prova de qualquer efeito patológico é de 12 microSv/h durante um ano seguido (100 mSv/ano), e o limite prudentemente permitido a trabalhadores é metade desse (portanto, 6 microSv/h). Como se vê, até mesmo em Iitate, a povoação para onde os ventos levaram uma maior concentração, a radioactividade já há semanas que caiu abaixo dos referidos 6 microSv/h!...
Logo que tenha tempo hei-de voltar aqui para analisar o que se sabe e o que supõe sobre radioactividade e seus efeitos na saúde. É um dever que assumo: a luta contra a mistificação, a ignorância e o terrorismo obscurantista. Porque a Ciência não é neutra!
Mostrar mensagens com a etiqueta nuclear. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta nuclear. Mostrar todas as mensagens
quarta-feira, abril 20, 2011
segunda-feira, abril 18, 2011
Japão repete erros de Chernobyl?!!!
Há notícias que chegam aos media de que não sei a origem, mas que são espantosas pelas sua falsidade e pela pressa com que são publicadas!
Hoje, são vários os jornais que têm estado a publicar alegadas afirmações de um suposto cientista ucraniano, um tal Vladimir Bebechko, que "...apontou como o maior erro dos japoneses o excessivo heroísmo atribuído aos trabalhos de liquidação das consequências da avaria na Central Nuclear de Fukushima, sublinhando que "neles é utilizado um número maior de salvadores do que o necessário", e "Daí que, não obstante o alto nível de civilização do país e o profissionalismo na abordagem da liquidação da avaria, a envergadura das consequências será significativamente maior do que poderia ser", rematando que "é impossível passar sem atos de heroísmo em operações deste género, mas "os japoneses sujeitam-se teimosamente a um risco injustificado". "As consequências negativas do heroísmo injustificado aquando da neutralização das consequências da avaria na Central Nuclear de Tchernobyl deviam ter dado uma lição a toda a Humanidade", acrescentou.".
Ora estas afirmações nâo têm pés nem cabeça, como sabem todos os que seguem minimamente as notícias! Os japoneses ainda não entraram sequer nos recintos dos reactores, mais de um mês passado sobre o tsunami, e é precisamente por isso que a TEPCO prevê tantos meses para controlar a situação!!!
Em Chernobyl, com efeito, o governo soviético criou aquilo a que se chamou a "comissão de liquidadores", com homens de todas as Repúblicas e totalizando centenas de milhar, que foram enviados à vez para dar o seu contributo ao enterramento do reactor destruído sob um pesado sarcófago de cimento, onde ainda está hoje. Com o reactor a arder a céu aberto dificilmente haveria na altura melhor solução (executada 10 dias depois do incêndio começar, após a explosão que destruiu a cobertura), e se é certo que exigiu coragem, propriamente heroísmo só foi pedido aos técnicos da central que se sacrificaram logo de imediato tentando minimizar o acidente e aos bombeiros que chegaram pouco depois. Foram 134, de que morreram 28 com radiações agudas. Vários deles foram condecorados a título póstumo.
Nos "liquidadores", que estiveram expostos por pouco tempo (por isso é que foram muitos, para que cada um tivesse muito pouco tempo de exposição), não houve nenhum aumento detectável de cancro, posteriormente!
Mas Fukushima é muito diferente desde o princípio! Não houve ali nenhum rebentamento dos contentores de reactores, que são espessamente blindados, ao contrário do que acontecia em Chernobyl! E por isso não foi necessária a medida desesperada mas inevitável tomada na URSS!
Em Fukushima há umas centenas de trabalhadores a trabalhar mas fora dos edifícios, e... muitos robots!
Na verdade, ontem mesmo um primeiro robot penetrou até junto do reactor nº 1 e outro até ao nº 3, medindo a radioactividade, que está elevada (58 mSv/h - junto do reactor, um trabalhador levaria 4 horas e meia a esgotar o seu plafond de segurança de 250 mSv/ano...), e planeiam fazer o mesmo ao reactor nº 2 amanhã.
A foto anexa é precisamente a primeira tirada do reactor (a amarelo), ontem, por um robot "abre-portas".
Hoje, são vários os jornais que têm estado a publicar alegadas afirmações de um suposto cientista ucraniano, um tal Vladimir Bebechko, que "...apontou como o maior erro dos japoneses o excessivo heroísmo atribuído aos trabalhos de liquidação das consequências da avaria na Central Nuclear de Fukushima, sublinhando que "neles é utilizado um número maior de salvadores do que o necessário", e "Daí que, não obstante o alto nível de civilização do país e o profissionalismo na abordagem da liquidação da avaria, a envergadura das consequências será significativamente maior do que poderia ser", rematando que "é impossível passar sem atos de heroísmo em operações deste género, mas "os japoneses sujeitam-se teimosamente a um risco injustificado". "As consequências negativas do heroísmo injustificado aquando da neutralização das consequências da avaria na Central Nuclear de Tchernobyl deviam ter dado uma lição a toda a Humanidade", acrescentou.".
Ora estas afirmações nâo têm pés nem cabeça, como sabem todos os que seguem minimamente as notícias! Os japoneses ainda não entraram sequer nos recintos dos reactores, mais de um mês passado sobre o tsunami, e é precisamente por isso que a TEPCO prevê tantos meses para controlar a situação!!!
Em Chernobyl, com efeito, o governo soviético criou aquilo a que se chamou a "comissão de liquidadores", com homens de todas as Repúblicas e totalizando centenas de milhar, que foram enviados à vez para dar o seu contributo ao enterramento do reactor destruído sob um pesado sarcófago de cimento, onde ainda está hoje. Com o reactor a arder a céu aberto dificilmente haveria na altura melhor solução (executada 10 dias depois do incêndio começar, após a explosão que destruiu a cobertura), e se é certo que exigiu coragem, propriamente heroísmo só foi pedido aos técnicos da central que se sacrificaram logo de imediato tentando minimizar o acidente e aos bombeiros que chegaram pouco depois. Foram 134, de que morreram 28 com radiações agudas. Vários deles foram condecorados a título póstumo.
Nos "liquidadores", que estiveram expostos por pouco tempo (por isso é que foram muitos, para que cada um tivesse muito pouco tempo de exposição), não houve nenhum aumento detectável de cancro, posteriormente!
Mas Fukushima é muito diferente desde o princípio! Não houve ali nenhum rebentamento dos contentores de reactores, que são espessamente blindados, ao contrário do que acontecia em Chernobyl! E por isso não foi necessária a medida desesperada mas inevitável tomada na URSS!
Em Fukushima há umas centenas de trabalhadores a trabalhar mas fora dos edifícios, e... muitos robots!
Na verdade, ontem mesmo um primeiro robot penetrou até junto do reactor nº 1 e outro até ao nº 3, medindo a radioactividade, que está elevada (58 mSv/h - junto do reactor, um trabalhador levaria 4 horas e meia a esgotar o seu plafond de segurança de 250 mSv/ano...), e planeiam fazer o mesmo ao reactor nº 2 amanhã.
A foto anexa é precisamente a primeira tirada do reactor (a amarelo), ontem, por um robot "abre-portas".
Etiquetas:
nuclear
sexta-feira, abril 15, 2011
A energia nuclear pós-Fukushima
Como escrevi em Janeiro de 2010, ao decidir afrontar o tabu ideológico instalado em Portugal quanto à energia nuclear pelos ecotópicos e interesses associados, a energia nuclear não está morta.
Ou não estava, naquela altura, e registava mesmo um renascimento com um crescimento mundial previsto de 130% para os próximos 15 anos; e agora, depois de Fukushima?
Actualizando o que escrevera então:
1/7 da electricidade mundial é produzida a partir de energia nuclear, mas a percentagem é muito maior nos países industrializados. Existem em funcionamento no mundo 440 reactores em 30 países, com uma potência instalada de 337 Gw.
Na Europa dos 27, a energia nuclear produz 25% da electricidade, valor que chega aos 75% em França e 76% na Lituânia.
A Espanha tem 8 reactores nucleares somando 7.5 GW (já teve 10) que produzem 17,5% da sua electricidade, que exporta parcialmente para Portugal. Essa origem nuclear da electricidade que consumimos é verificável na factura da EDP que recebemos.
A percentagem de electricidade de origem nuclear é de 35% na Coreia e no Japão e 20% nos EUA. A China, entretanto, tem "apenas" 13 reactores a funcionar, mas em construção no ano corrente de 2011 tem mais 27 e projectados tem já um total de mais... 160!!!
A Índia tem "apenas" 20 centrais nucleares e mais 5 em construção, mas tem projectados até 2030 mais 58 e, embora comparada com a China pareça ter ambições modestas, está envolvida num ambicioso plano de I&D visando usar Tórium em vez de Urânio como combustível, dado ser rica naquele mineral e pobre neste.
A Coreia, de que já há tempos falei, tem 21 reactores em operação, 5 em construção e mais 6 projectados, e o Japão tem 51 em funcionamento (depois da perda de Fukushima-Daiichi) e 2 em construção, estando planeados "apenas" mais 15...
Entretanto, a Rússia e a Ucrânia têm em conjunto 46 reactores em funcionamento, 9 em construção e... 64 planeados ou propostos!
Com um plano de crescimento também impressionante, em termos relativos, a África do Sul, que tem presentemente apenas 2 reactores a funcionarem, já planeou mais 6!
O Brasil, entretanto, tem 2 reactores em funcionamento, um 3º em construção, e mais 4 projectados até 2025. O Brasil projecta também a construção de um submarino nuclear seu.
Como é patente e apesar de ser cedo, existem já alguns aspectos de segurança críticos identificados no caso de Fukushima, nomeadamente a questão das piscinas de arrefecimento dos resíduos, o haver tantos reactores concentrados numa única central, para além da localização da central (os solos das nucleares japonesas são escolhidos rochosos para reduzirem o impacto dos terramotos, mas os tsunamis...) e da necessidade de previsão de que pode acontecer o pior possível, como um terramoto com tsunami e com destruição geral fora da central.
Sobre Outras coisas:
Entretanto, a reunião tratou também os seguintes importantes pontos que deveriam merecer especial atenção em Portugal e de que eu já mencionava alguns em 2010:
25. "Many Contracting Parties expressed concern regarding the human and financial resources available and their ability to recruit and train sufficient numbers of staff to meet the needs of the regulatory body. This is a challenge that will continue to grow, particularly for those Contracting Parties who foresee an expansion of their nuclear programme, for those with existing ageing Nuclear Power Plants, as well as for those embarking on nuclear programmes. In response to these challenges, some Contracting Parties reported enhanced recruitment policies to attract a new generation of experts and also reported on the implementation of enhanced knowledge management systems."
27. "Contracting Parties constructing new Nuclear Power Plants reported on the challenges of providing regulatory assessment of new designs and oversight of construction and commissioning of Nuclear Power Plants".
30. "Some Contracting Parties have focused on ensuring that Nuclear Power Plant design information and the necessary technical expertise is retained in the country for both domestic and non-domestic suppliers of Nuclear Power Plants. The establishment of a design organization to achieve this aim was identified as a good practice."
31. " Some Contracting Parties are actively keeping in contact with foreign operators and suppliers, with an objective to improve the imported technology and to implement improvements also at the operating Nuclear Power Plants". Como exemplo desta preocupação em aprender tecnologias importadas, vale a pena notar o exemplo búlgaro e a parceria ali assinada ontem mesmo com a AREVA para o treino e formação de pessoal local.
E finalmente, a merecer especial atenção caso um dia se decida finalmente começar a pensar no assunto em Portugal:
40. "Several Contracting Parties are planning to embark on building Nuclear Power Plants for the first time. The challenge identified for these Contracting Parties was to establish the necessary legal, regulatory and other infrastructural elements and personnel numbers and competences in all areas related to siting, constructing, operating, and decommissioning and regulating any proposed Nuclear Power Plants. In particular, the importance of strong early governmental support was emphasized in connection with the establishment of the regulatory body. ...". Tal como eu defendia em 2010!...
Ou não estava, naquela altura, e registava mesmo um renascimento com um crescimento mundial previsto de 130% para os próximos 15 anos; e agora, depois de Fukushima?
Actualizando o que escrevera então:
1/7 da electricidade mundial é produzida a partir de energia nuclear, mas a percentagem é muito maior nos países industrializados. Existem em funcionamento no mundo 440 reactores em 30 países, com uma potência instalada de 337 Gw.
Na Europa dos 27, a energia nuclear produz 25% da electricidade, valor que chega aos 75% em França e 76% na Lituânia.
A Espanha tem 8 reactores nucleares somando 7.5 GW (já teve 10) que produzem 17,5% da sua electricidade, que exporta parcialmente para Portugal. Essa origem nuclear da electricidade que consumimos é verificável na factura da EDP que recebemos.
A percentagem de electricidade de origem nuclear é de 35% na Coreia e no Japão e 20% nos EUA. A China, entretanto, tem "apenas" 13 reactores a funcionar, mas em construção no ano corrente de 2011 tem mais 27 e projectados tem já um total de mais... 160!!!
A Índia tem "apenas" 20 centrais nucleares e mais 5 em construção, mas tem projectados até 2030 mais 58 e, embora comparada com a China pareça ter ambições modestas, está envolvida num ambicioso plano de I&D visando usar Tórium em vez de Urânio como combustível, dado ser rica naquele mineral e pobre neste.
A Coreia, de que já há tempos falei, tem 21 reactores em operação, 5 em construção e mais 6 projectados, e o Japão tem 51 em funcionamento (depois da perda de Fukushima-Daiichi) e 2 em construção, estando planeados "apenas" mais 15...
Entretanto, a Rússia e a Ucrânia têm em conjunto 46 reactores em funcionamento, 9 em construção e... 64 planeados ou propostos!

Com um plano de crescimento também impressionante, em termos relativos, a África do Sul, que tem presentemente apenas 2 reactores a funcionarem, já planeou mais 6!
O Brasil, entretanto, tem 2 reactores em funcionamento, um 3º em construção, e mais 4 projectados até 2025. O Brasil projecta também a construção de um submarino nuclear seu.
A propósito, além destes actuais 440 reactores em centrais eléctricas há mais 220 em submarinos e navios de superfície movidos a energia nuclear, que é também a fonte energética da maioria das sondas espaciais e dos satélites militares...
No total, a somar aos 440 reactores operacionais no mundo (dos quais 165 na Europa excluindo a Rússia), há mais 61 em construção e mais 484 planeados ou propostos, 55% dos quais na Ásia. Mas a própria Turquia tem 4 reactores planeados e mais 4 propostos, e até o Vietnam tem 2 planeados e 12 propostos...
Como é patente, entre em contrução, planeados ou propostos (em estudo), há mais reactores nucleares do que os já existentes! O Mundo assiste, portanto, a um Renascimento da energia nuclear, depois da relativa estagnação que se verificou nos 25 anos que mediaram entre Chernobyl e Fukushima...
No total, a somar aos 440 reactores operacionais no mundo (dos quais 165 na Europa excluindo a Rússia), há mais 61 em construção e mais 484 planeados ou propostos, 55% dos quais na Ásia. Mas a própria Turquia tem 4 reactores planeados e mais 4 propostos, e até o Vietnam tem 2 planeados e 12 propostos...
Como é patente, entre em contrução, planeados ou propostos (em estudo), há mais reactores nucleares do que os já existentes! O Mundo assiste, portanto, a um Renascimento da energia nuclear, depois da relativa estagnação que se verificou nos 25 anos que mediaram entre Chernobyl e Fukushima...
E porquê este renascimento?
Por causa de Kioto e da necessidade de reduzir as emissões de CO2 associadas ao carvão, além de outros malefícios ambientais deste abundante e barato combustível fóssil, como por exemplo o facto do seu uso emitir 100 vezes mais radioactividade que a energia nuclear!!!
Ora, vendo as fontes principais da electricidade no Mundo e em particular nos países asiáticos que mais estão agora a apostar na alternativa nuclear, é patente o peso que neles tem tido o carvão, ao qual o nuclear é a única alterntiva - em quantidade de energia, em preço e em características não-intermitentes e controláveis! Aliás, no gráfico junto é patente que os países em que o consumo de carvão para a produção de electricidade é moderado são precisamente aqueles que o substituíram pela alternativa nuclear!
O nuclear é, de facto, a única energia alternativa actual, e é também por isso que, os mesmos que em 1980 defenderam a opção pelo carvão em Portugal, defendem agora, pós-Kioto, a sua substituição pelo nuclear! A opção nuclear é a única alternativa energética "green" e simultaneamente barata, e se Portugal teve e tem recursos hidroelécticos consideráveis, por ter a sorte da maior parte dos rios ibéricos desaguar aqui, essa sorte não se verifica na maior parte do resto do Mundo, especialmente nos países muito continentais, incluindo a ecotópica Alemanha!
E, por isso, o Renascimento nuclear prosseguirá em todo o Mundo depois de Fukushima-Daiichi, como prontamente o reafirmaram as autoridades americanas, chinesas, francesas, indianas e em geral, com excepção da Alemanha e a sua crescente deriva nacional-ambientalista!
Naturalmente, o Renascimento nuclear prosseguirá mas aprendendo com a vida, como em todas as tecnologias! Fukushima é um caso sério mas datado, de consequências económicas graves mas nenhuma morte ou injúria física, e de que há muito a aprender. E, por isso, a 5ª reunião internacional da Convenção para a Segurança Nuclear, terminada ontem em Viena e em que estiveram presentes 61 países (até Portugal!) e observadores da OCDE e da EURATOM, sob o patrocínio da Agência Internacional de Energia Atómica (IAEA), apresentou ao público o seu relatório, já considerando Fukushima, e de que realço os seguintes pontos:
Sobre Fukushima:
10. Tirar as lições devidas, voltar a analisar o caso em Junho próximo para "provide an opportunity to make an initial assessment of the Fukushima accident, consider lessons that need to be learned, help launch a process to strengthen global nuclear safety and consider ways to further strengthen the response to nuclear accidents and emergencies", e realizar um encontro específico em 2012 "to enhance safety through reviewing and sharing lessons learned and actions taken by Contracting Parties in response to events of Fukushima and to reviewing the effectiveness".
12. Que se inicie a análise, em cada país, de::
1. Nuclear power plant design against external events;
2. Offsite response to emergency situations (e.g. station blackout);
3. Emergency management and preparedness following worst case accident scenarios;
4. Safety consideration for operation of multi-units at the same Nuclear Power Plant site;
5. Cooling of spent fuel storage in severe accident scenarios;
6. Training of Nuclear Power Plant operators for severe accident scenarios;
7. Radiological monitoring following Nuclear Power Plant accident involving radiological release;
8. Public protection emergency actions; and
9. Communications in emergency situations.
Sobre Outras coisas:
Entretanto, a reunião tratou também os seguintes importantes pontos que deveriam merecer especial atenção em Portugal e de que eu já mencionava alguns em 2010:
25. "Many Contracting Parties expressed concern regarding the human and financial resources available and their ability to recruit and train sufficient numbers of staff to meet the needs of the regulatory body. This is a challenge that will continue to grow, particularly for those Contracting Parties who foresee an expansion of their nuclear programme, for those with existing ageing Nuclear Power Plants, as well as for those embarking on nuclear programmes. In response to these challenges, some Contracting Parties reported enhanced recruitment policies to attract a new generation of experts and also reported on the implementation of enhanced knowledge management systems."
27. "Contracting Parties constructing new Nuclear Power Plants reported on the challenges of providing regulatory assessment of new designs and oversight of construction and commissioning of Nuclear Power Plants".
30. "Some Contracting Parties have focused on ensuring that Nuclear Power Plant design information and the necessary technical expertise is retained in the country for both domestic and non-domestic suppliers of Nuclear Power Plants. The establishment of a design organization to achieve this aim was identified as a good practice."
31. " Some Contracting Parties are actively keeping in contact with foreign operators and suppliers, with an objective to improve the imported technology and to implement improvements also at the operating Nuclear Power Plants". Como exemplo desta preocupação em aprender tecnologias importadas, vale a pena notar o exemplo búlgaro e a parceria ali assinada ontem mesmo com a AREVA para o treino e formação de pessoal local.
E finalmente, a merecer especial atenção caso um dia se decida finalmente começar a pensar no assunto em Portugal:
40. "Several Contracting Parties are planning to embark on building Nuclear Power Plants for the first time. The challenge identified for these Contracting Parties was to establish the necessary legal, regulatory and other infrastructural elements and personnel numbers and competences in all areas related to siting, constructing, operating, and decommissioning and regulating any proposed Nuclear Power Plants. In particular, the importance of strong early governmental support was emphasized in connection with the establishment of the regulatory body. ...". Tal como eu defendia em 2010!...
Etiquetas:
nuclear,
política energética
quarta-feira, abril 13, 2011
A TEPCO e Fukushima
Faz cerca 30 anos que apareceram os primeiros microprocessadores de 16 bit da Intel e Motorola (os anteriores, de 8 bit, tinham aparecido meia dúzia de anos antes). No entanto, estes chips eram rudimentares, quando comparados com o que se faz hoje: operavam a 8 Mhz e só faziam contas em vírgula fixa, embora já tivessem a multiplicação em firmware. Insuficiente para os algoritmos que desde o início dos anos 70 vinham a ser propostos para a realização digital das funções de protecção e controlo em instalações de energia eléctrica...
No entanto, enquanto nos EUA e Europa se estudavam formas de simplificar os algoritmos, o que se confrontava com a perda de eficácia que isso acarretava, havia uma empresa de electricidade que fazia experiências em instalações reais: a TEPCO. Na realidade, houve mais que uma empresa, mas as outras (a EDF francesa e a AEP americana) só experimentaram protótipos avulsos, ao passo que a TEPCO digitalizava completamente a protecção e controlo de Subestações, e por isso é desde já há 30 anos que a conheço e admiro. Nessa época, o Japão instalara já tantos km de fibra óptica como todo o resto do mundo junto...
Como conseguia a TEPCO obter a performance computacional necessária aquilo que realizava? Usando não esses novos microprocessadores de electrónica MOS, mas outros muito mais caros e menos integrados mas potentes, os "bit slice" da INTEL. E isso enchia-me de admiração: o Japão, com a TEPCO, não se poupava a despesas e trabalhos para ganhar experiência industrial nestas novas tecnologias, enquanto no Ocidente se andava só pelas teorias ou pelos protótipos de laboratório! Isto mostrava uma firme intenção estratégica de ajudar a indústria exportadora japonesa a ganhar experiência em casa (Hitachi e Toshiba, sobretudo), de modo a manter a supremacia que o Japão cultivava então na indústria em geral, e que só na Alemanha encontrava algum paralelo. Coisas de países que lideram indústrias...
Os japoneses também apareciam nas conferências onde estas investigações eram apresentadas. Mas, enquanto os autores dos papers ocidentais eram geralmente dois ou três (o doutorando, o orientador e eventualmente o subsidiador), os papers japoneses eram assinados por equipas de uma dezena ou mais de autores! E toda a assistência americana os escutava reverencialmente - não tanto pelo brilho das ideias, mas pela capacidade de realização industrial que demonstravam!
Por sinal o Japão nunca chegou a liderar a indústria mundial destes equipamentos digitais, que acabaram por se impor comercialmente apenas nos anos 90 (e de que tenho o orgulho de ter sido quem o fez em Portugal, para a indústria nacional). E nunca liderou nem lidera por que há um ramo em que os japoneses se têm mostrado fracos: no software. Costumizar software alheio ainda fazem, mas criar novo, não é grande vocação sua, por razões que eu considero explicadas no filme "Merry Christmas, Mr. Lawrence"...
No entanto, enquanto nos EUA e Europa se estudavam formas de simplificar os algoritmos, o que se confrontava com a perda de eficácia que isso acarretava, havia uma empresa de electricidade que fazia experiências em instalações reais: a TEPCO. Na realidade, houve mais que uma empresa, mas as outras (a EDF francesa e a AEP americana) só experimentaram protótipos avulsos, ao passo que a TEPCO digitalizava completamente a protecção e controlo de Subestações, e por isso é desde já há 30 anos que a conheço e admiro. Nessa época, o Japão instalara já tantos km de fibra óptica como todo o resto do mundo junto...
Como conseguia a TEPCO obter a performance computacional necessária aquilo que realizava? Usando não esses novos microprocessadores de electrónica MOS, mas outros muito mais caros e menos integrados mas potentes, os "bit slice" da INTEL. E isso enchia-me de admiração: o Japão, com a TEPCO, não se poupava a despesas e trabalhos para ganhar experiência industrial nestas novas tecnologias, enquanto no Ocidente se andava só pelas teorias ou pelos protótipos de laboratório! Isto mostrava uma firme intenção estratégica de ajudar a indústria exportadora japonesa a ganhar experiência em casa (Hitachi e Toshiba, sobretudo), de modo a manter a supremacia que o Japão cultivava então na indústria em geral, e que só na Alemanha encontrava algum paralelo. Coisas de países que lideram indústrias...
Os japoneses também apareciam nas conferências onde estas investigações eram apresentadas. Mas, enquanto os autores dos papers ocidentais eram geralmente dois ou três (o doutorando, o orientador e eventualmente o subsidiador), os papers japoneses eram assinados por equipas de uma dezena ou mais de autores! E toda a assistência americana os escutava reverencialmente - não tanto pelo brilho das ideias, mas pela capacidade de realização industrial que demonstravam!
Por sinal o Japão nunca chegou a liderar a indústria mundial destes equipamentos digitais, que acabaram por se impor comercialmente apenas nos anos 90 (e de que tenho o orgulho de ter sido quem o fez em Portugal, para a indústria nacional). E nunca liderou nem lidera por que há um ramo em que os japoneses se têm mostrado fracos: no software. Costumizar software alheio ainda fazem, mas criar novo, não é grande vocação sua, por razões que eu considero explicadas no filme "Merry Christmas, Mr. Lawrence"...
Este espírito industrialmente inovador mas pragmático da TEPCO também se verifica na aposta que fez na energia nuclear. Note-se que, tendo o Japão sido o único país que sofreu na pele uma amostra de guerra nuclear, e havendo por isso lá um forte sentimento pacifista (típico de países agressivos que levaram uma sova, como também sucede com a Alemanha), apesar disso o Japão tornou-se um líder no fabrico de componentes da indústria nuclear, nomeadamente no contentor de aço dos reactores. Concepção de base americana, mas aperfeiçoada nos pormenores pelos japoneses, numa vocação que fomos os primeiros a conhecer quando Fernão Mendes Pinto lhes ofereceu duas espingardas há 450 anos e eles as copiaram e rapidamente massificaram, e a que atribuem festivamente a unificação política do país.
A TEPCO é também um colosso. Fornecendo cerca de 1/3 da electricidade japonesa, tanto como o consumo de Itália e 6 vezes o nosso, só 3 das 17 centrais nucleares japonesas são suas, mas contêm 17 dos 53 reactores do país, 1/3 deles. Tal como os executivos que dirigem as grandes marcas japonesas, os da TEPCO têm remunerações modestas, se comparadas com os dos seus pares americanos e portugueses: 310 k€/ano em média para os 20 executivos da empresa (1/2,5 a remuneração média actual dos Administradores da EDP), para um rendimento médio nacional per capita de 24 k€ (quase 3 vezes o português, embora apenas 1,5 vezes se ajustado para o seu alto custo de vida)...
Com o terramoto e o tsunami, as perdas financeiras da TEPCO serão tremendas! Só para indemnizar as populações evacuadas do raio de 20 km em torno de Fukushima-Daiichi, prevê-se a verba de 16 mil milhões de € (16 biliões, na notação americana internacionalmente aceite), praticamente tanto como a dívida da nossa EDP! E, embora o Presidente da Associação de Bancos japoneses já tenha vindo anunciar a sua disponibilidade para apoiar a TEPCO, naturalmente que os Seguros não cobrem estes custos colaterais da perda da central, e provavelmente a empresa será socorrida pelas suas congéneres japonesas.
Em redor da central de Fukushima-Daiichi, o tsunami penetrou até 5 km da costa e matou 5700 pessoas (mortos e desaparecidos), incluindo dois jovens trabalhadores que estavam na cave da central e foram afogados. A destruição que o tsunami causou à volta da central pode ser avaliada na foto anexa (da TEPCO).
Entretanto, a situação teve a evolução imediata que se sabe, com os reactores em shutdown mas sem refrigeração durante dias, acabando por levar à descarga programada do vapor de água a alta pressão dos 3 reactores afectados, que por sua vez causou a sucessiva explosão do hidrogénio libertado nessas ventilações e entretanto gerado pela fusão do revestimento de zircónio das varas de urânio - explosões que destruíram as coberturas dos edifícios e, com quase certeza, parte do circuito de refrigeração de um dos reactores, o nº 2. Três explosões que libertaram para a atmosfera materiais radioactivos, nomeadamente os solúveis e voláteis Iodo-131 e Césio, e com um circuito de refrigeração roto obviamente a vazar para a água lançada por todos os meios para arrefecer os reactores, água radioactiva que se tem acumulado nas caves da central, impedindo o acesso das equipas de reparação. Por este motivo, embora a situação dos reactores (e das piscinas de resíduos...!) esteja agora estacionária, ainda não está estável. Estável no sentido de perfeitamente controlada, visto o arrefecimento ainda estar a ser conseguido por meios improvisados.
Depois do tsunami de há um mês têm-se sucedido novos terramotos, e o último deixou o arrefecimento dos reactores novamente sem energia por 50 minutos. E, pouco depois, as autoridades elevaram a gravidade da situação para 7, o nível máximo.
Mas que aconteceu de novo que tenha justificado este agravamento?
Na realidade nada de novo, na central. O que aconteceu é que os japoneses têm andado a trabalhar num modelo de computador que visa estimar a radioactividade libertada pela central por ocasião das ventilações (e explosões), a partir de métodos indirectos baseados na medida da radioactividade presente fora da Central e em extrapolações, a partir daí, da que terá saído dos reactores. Estes modelos são apenas aproximados e terão requerido bastantes medidas até darem uma estimativa razoável. E, face a essa estimativa, as autoridades concluíram que a gravidade da situação a enquadrava no nível 7.
A radioactividade emitida terá sido de 3,7x 10 exp(17) Bq, o que não diz muito por si; os japoneses dizem que isto equivale a 10% do libertado em Chernobyl, mas aqui têm-se números mais precisos, para o Iodo-131 e o Césio, e que equivalem a 7% do gerado em 1986. A situação em si, na Central e nas medições realizadas no Japão, não piorou, como a IAEA relata aqui, e o MIT aproveitou para elucidar o significado prático dos cálculos realizados, aqui. Recomendo a sua leitura aos interessados.
sábado, abril 09, 2011
Terrorismo mediático em curso
Na sequência do novo terramoto de grau 7.1 que assolou antes de ontem o Japão e de que ontem dei aqui notícia, notando a robustez com que as centrais nucleares japonesas lhe resistiram, alguns dos nossos jornais publicaram "informações" alarmantes contrariando o que eu escrevera.
Como qualquer pessoa pode confirmar pelos hyperlinks que eu inserira no texto, o que eu afirmara baseava-se nos comunicados das instâncias que, no terreno, estão naquelas centrais, ou seja, a TEPCO (a "EDP" local) e a Agência Internacional de Energia Atómica (IAEA). Procurei, por isso, tentar saber se alguma coisa me escapara na informação disponível.
Mas vejamos primeiro o que noticiaram on-line estes nossos jornais.
O Jornal de Negócios, por exemplo, afirmou aqui, sob o título de "duas novas centrais nucleares afectadas no Japão", que "Duas novas centrais nucleares do Japão tiveram que recorrer a geradores de emergência depois de terem perdido a sua fonte de alimentação externa", e que "As centrais nucleares de Onagawa e Higashidori sofreram infiltrações ". Subscreveu a notícia a jornalista Andreia Major.
O Diário de Notícias, em Revista de Imprensa Internacional, com o título "Novo sismo provoca fuga em central nuclear japonesa", é um pouco mais cuidadoso na menção das fontes, e afirmou aqui que "Segundo o El País, que cita a televisão NHK, a central nuclear de Onagawa, situada na província de Miyagim, no Noroeste do Japão, está a sofrer infiltrações de água, mas não se registou ainda um aumento da radioactividade". "Ainda", notem...!
Finalmente, o Expresso, um pouco mais comedido no título, diz que "Novo abalo de terra de 7.1 graus no Japão causou pelo menos dois mortos e 132 feridos, apagão em mais de 3,3 milhões de edifícios e fuga radioatioativa na central nuclear de Oanagawa".
Ora, que se passou que eu não soubesse ontem e não tivesse mencionado?
Como ontem expliquei, o que se passou foi um terramoto muito similar ao que devastou o Haiti em 2010, e que derrubou boa parte das linhas de Alta Tensão da rede de transporte, causando um apagão. Normal, para um terramoto como este. Já em Março isso também acontecera. A construção de habitações, no Japão, é feita para resistir a terramotos destes, mas as coisas menos importantes para a segurança de pessoas, não. Em Março, além de derrubar postes de linhas de energia, o terramoto danificou 1700 estradas, destruiu 50 pontes e fendeu 7 barragens, destruindo uma, incendiou refinarias e assolou fábricas. Normal, para um terramoto de grau 9. E este? Deste os media não deram a menor notícia, mas certamente houve mais estragos, além do derrube de postes de Alta Tensão, que no entanto não preocuparam minimamente os media...
No Japão, as habitações são projectadas para resistir aos terramotos e as centrais nucleares também, por maioria de razão! E resistiram!
Como noticiei, se a rede eléctrica a que as centrais estão ligadas sofre um apagão, as centrais recorrem aos seus geradores próprios, os Diesel, que lhes garantem a autonomia. Tudo isso funcionou bem, agora como em Março, e em Março o que houve a mais foi o tsunami!
Mas de onde vêm estas histórias da "fuga radioactiva", de "infiltrações", na centrais nucleares japonesas? A informação mais detalhada e actualizada, nas fontes, é a seguinte, consultável por todos aqui:
Relativamente a Onagawa, além do que eu já escrevera ontem (antes de conhecer estas "notícias" dos jornais), isto é, que a central estava desligada, portanto apenas com as piscinas dos resíduos a requererem arrefecimento (as piscinas têm uma enorme capacidade calorífica; a do reactor 4 de Fukushima só ao fim de 10 dias sem circulação da água terá entrado em ebulição), e que das 3 linhas de Alta Tensão que ligam a central à rede duas foram derrubadas, mas que a central, como é normal, resolveu o problema com os seus próprios recursos e a 3ª linha, a única coisa nova que há a mais relativamente ao que noticiara é a seguinte: "the plant also suffered water leaks at eight locations, including a spillage of about 3.8 litres in total from the three reactors' spent fuel pools". Ou seja: com o tremor de terra, transbordou água das piscinas, dentro da central, num total de 3,8 litros de água! Para quem ignora como são estas gigantescas piscinas, pode ver aqui um filme explicativo.
Relativamente à outra central nuclear que também ficou isolada da rede eléctrica, de acordo com o Ministro da Economia japonês, Meti, "There have been no signs of any radioactive release from Higashidori".
Onde foram, portanto, as "infiltrações" e as "fugas radioactivas"?
Alguns anónimos têm-me pedido para comentar notícias de jornais ou da TV sobre os acontecimentos no Japão, contrapondo-as ao que aqui tenho escrito. Espero que fique claro que, de acordo com a formação científica que me prezo de cultivar, o que escrevo não se baseia em notícias de jornais; conheço bem a fraca qualidade de muitos jornalistas actuais e, pior ainda, os interesses e influências a que muitas vezes eles são permeáveis. Sobre coisas desta responsabilidade só escrevo o que posso consultar em fontes credíveis, e não jornais ou televisões.
Por isso, também só adiciono aos comentários informação adicional vinda de fontes originais e credíveis. Tudo o resto é mero ruído. Neste caso, ruído terrorista.
Nota extra: que isto não é só por cá pode-se ver nesta excelente apreciação feita nos EUA.
Como qualquer pessoa pode confirmar pelos hyperlinks que eu inserira no texto, o que eu afirmara baseava-se nos comunicados das instâncias que, no terreno, estão naquelas centrais, ou seja, a TEPCO (a "EDP" local) e a Agência Internacional de Energia Atómica (IAEA). Procurei, por isso, tentar saber se alguma coisa me escapara na informação disponível.
Mas vejamos primeiro o que noticiaram on-line estes nossos jornais.
O Jornal de Negócios, por exemplo, afirmou aqui, sob o título de "duas novas centrais nucleares afectadas no Japão", que "Duas novas centrais nucleares do Japão tiveram que recorrer a geradores de emergência depois de terem perdido a sua fonte de alimentação externa", e que "As centrais nucleares de Onagawa e Higashidori sofreram infiltrações ". Subscreveu a notícia a jornalista Andreia Major.
O Diário de Notícias, em Revista de Imprensa Internacional, com o título "Novo sismo provoca fuga em central nuclear japonesa", é um pouco mais cuidadoso na menção das fontes, e afirmou aqui que "Segundo o El País, que cita a televisão NHK, a central nuclear de Onagawa, situada na província de Miyagim, no Noroeste do Japão, está a sofrer infiltrações de água, mas não se registou ainda um aumento da radioactividade". "Ainda", notem...!
Finalmente, o Expresso, um pouco mais comedido no título, diz que "Novo abalo de terra de 7.1 graus no Japão causou pelo menos dois mortos e 132 feridos, apagão em mais de 3,3 milhões de edifícios e fuga radioatioativa na central nuclear de Oanagawa".
Ora, que se passou que eu não soubesse ontem e não tivesse mencionado?
Como ontem expliquei, o que se passou foi um terramoto muito similar ao que devastou o Haiti em 2010, e que derrubou boa parte das linhas de Alta Tensão da rede de transporte, causando um apagão. Normal, para um terramoto como este. Já em Março isso também acontecera. A construção de habitações, no Japão, é feita para resistir a terramotos destes, mas as coisas menos importantes para a segurança de pessoas, não. Em Março, além de derrubar postes de linhas de energia, o terramoto danificou 1700 estradas, destruiu 50 pontes e fendeu 7 barragens, destruindo uma, incendiou refinarias e assolou fábricas. Normal, para um terramoto de grau 9. E este? Deste os media não deram a menor notícia, mas certamente houve mais estragos, além do derrube de postes de Alta Tensão, que no entanto não preocuparam minimamente os media...
No Japão, as habitações são projectadas para resistir aos terramotos e as centrais nucleares também, por maioria de razão! E resistiram!
Como noticiei, se a rede eléctrica a que as centrais estão ligadas sofre um apagão, as centrais recorrem aos seus geradores próprios, os Diesel, que lhes garantem a autonomia. Tudo isso funcionou bem, agora como em Março, e em Março o que houve a mais foi o tsunami!
Mas de onde vêm estas histórias da "fuga radioactiva", de "infiltrações", na centrais nucleares japonesas? A informação mais detalhada e actualizada, nas fontes, é a seguinte, consultável por todos aqui:
Relativamente a Onagawa, além do que eu já escrevera ontem (antes de conhecer estas "notícias" dos jornais), isto é, que a central estava desligada, portanto apenas com as piscinas dos resíduos a requererem arrefecimento (as piscinas têm uma enorme capacidade calorífica; a do reactor 4 de Fukushima só ao fim de 10 dias sem circulação da água terá entrado em ebulição), e que das 3 linhas de Alta Tensão que ligam a central à rede duas foram derrubadas, mas que a central, como é normal, resolveu o problema com os seus próprios recursos e a 3ª linha, a única coisa nova que há a mais relativamente ao que noticiara é a seguinte: "the plant also suffered water leaks at eight locations, including a spillage of about 3.8 litres in total from the three reactors' spent fuel pools". Ou seja: com o tremor de terra, transbordou água das piscinas, dentro da central, num total de 3,8 litros de água! Para quem ignora como são estas gigantescas piscinas, pode ver aqui um filme explicativo.
Relativamente à outra central nuclear que também ficou isolada da rede eléctrica, de acordo com o Ministro da Economia japonês, Meti, "There have been no signs of any radioactive release from Higashidori".
Onde foram, portanto, as "infiltrações" e as "fugas radioactivas"?
Alguns anónimos têm-me pedido para comentar notícias de jornais ou da TV sobre os acontecimentos no Japão, contrapondo-as ao que aqui tenho escrito. Espero que fique claro que, de acordo com a formação científica que me prezo de cultivar, o que escrevo não se baseia em notícias de jornais; conheço bem a fraca qualidade de muitos jornalistas actuais e, pior ainda, os interesses e influências a que muitas vezes eles são permeáveis. Sobre coisas desta responsabilidade só escrevo o que posso consultar em fontes credíveis, e não jornais ou televisões.
Por isso, também só adiciono aos comentários informação adicional vinda de fontes originais e credíveis. Tudo o resto é mero ruído. Neste caso, ruído terrorista.
Nota extra: que isto não é só por cá pode-se ver nesta excelente apreciação feita nos EUA.
Etiquetas:
nuclear
sexta-feira, abril 08, 2011
Mais um terramoto no Japão e a "ajuda" portuguesa a Fukushima
Ontem houve um novo terramoto, de grau 7.1, no Japão. O epicentro deste sismo deu-se a apenas 20 km da central nuclear de Onagawa e a 120 km de Fukushima.
Comparado com o sismo de 11 de Março, este foi apenas um "pequeno" sismo, mas comparado com o que em 2010 assolou o Haiti, foi muito semelhante: praticamente a mesma intensidade (o do Haiti foi de 7.0) e à mesma distância da costa (o do Haiti teve o epicentro a 25 km da capital). O Haiti ficou como a foto documenta e sofreu mais de 250 000 mortos! Quanto ao Japão, fala-se em 2 mortos e 90 feridos, e naturalmente houve destruições!...
Por exemplo, na central nuclear mais próxima do epicentro, Onagawa: o último relatório que a Agência Internacional da Energia Atómica (IAEA) publicou sobre a situação nas nucleares japonesas, há minutos, dá conta que, efectivamente, das 3 linhas de Alta Tensão que alimentam a central (que está em shutdown desde o terramoto de Março), duas foram derrubadas pelo novo terramoto, o que indisponibizou a alimentação das piscinas de arrefecimento de resíduos (que levam, sem alimentação das respectivas bombas de circulação de água, pelo menos uma semana a entrarem em ebulição), mas pouco depois a respectiva alimentação foi reposta. Uma outra central nuclear, também em manutenção (Higashidori), sofreu um "apagão" da rede eléctrica exterior à central, mas o arrefecimento das piscinas foi garantido com os respectivos geradores Diesel. E, em Fukushima, as operações de gestão da crise continuaram como dantes...
Naturalmente, o que desta vez não houve foram maremotos!
Entretanto e relativamente a Fukushima, este relatório da IAEA e os que também regularmente a TEPCO publica dá conta da situação (numa exemplar transparência, contrastante com o "fecho em copas" da nossa TAP quanto à grave avaria do Airbus que vinha do Rio de Janeiro para Lisboa e que teve de aterrar de emergência em Salvador).
Os reactores e as piscinas estão estabilizados, a fuga de água altamente radioactiva das caves para o mar que se detectara foi estancada, e todos os níveis de radioactividade em terra e no mar estão dentro dos limites de segurança legislados!
Claro que Fukushima ainda tem muito trabalho pela frente até tudo estar resolvido, nomeadamente o controlo total do que se passa nos reactores 1 a 3, sem o qual se compreende que o Governo japonês e a IAEA mantenham as medidas preventivas de afastamento das populações até 20 km da central. Nesta, por outro lado, as medidas de segurança da TEPCO relativamente aos seus trabalhadores também garantem a segurança destes, fora acidentes imprevisíveis que têm acontecido mas de pouca gravidade.
Mas, embora de envergadura bem maior que Three Miles Island, logo pelo facto de em 1979 só ter estado envolvido um reactor, a crise de Fukushima continua a ser-lhe essencialmente similar, ou seja, de grau 5 (ver figura anexa para clarificação da escala de gravidade).
Entretanto, o MIT mantém a sua acção pedagógica com esclarecimentos pontuais mas rigorosos sobre este ou aquele assunto mais relevante. Ontem, por exemplo, explicou aqui como são estabelecidos os limiares de segurança contra a radioactividade pelas entidades regulamentadoras. O tema do que se sabe sobre os efeitos da radioactividade é um a que penso voltar em breve, tanto mais que se baseia em muito numa ferramenta que me tem interessado por outras razões: a epidemiologia.
De passagem, uma questão: no seu recente brief (hyperlinkado acima), a IAEA informava: "In addition to those reported in previous briefs, the following countries have submitted monitoring data and/or links to national websites where data is available: Denmark, Germany, Lithuania, Luxembourg, Mexico and Portugal". Que estará exactamente a fazer Portugal nisto?
Comparado com o sismo de 11 de Março, este foi apenas um "pequeno" sismo, mas comparado com o que em 2010 assolou o Haiti, foi muito semelhante: praticamente a mesma intensidade (o do Haiti foi de 7.0) e à mesma distância da costa (o do Haiti teve o epicentro a 25 km da capital). O Haiti ficou como a foto documenta e sofreu mais de 250 000 mortos! Quanto ao Japão, fala-se em 2 mortos e 90 feridos, e naturalmente houve destruições!...
Por exemplo, na central nuclear mais próxima do epicentro, Onagawa: o último relatório que a Agência Internacional da Energia Atómica (IAEA) publicou sobre a situação nas nucleares japonesas, há minutos, dá conta que, efectivamente, das 3 linhas de Alta Tensão que alimentam a central (que está em shutdown desde o terramoto de Março), duas foram derrubadas pelo novo terramoto, o que indisponibizou a alimentação das piscinas de arrefecimento de resíduos (que levam, sem alimentação das respectivas bombas de circulação de água, pelo menos uma semana a entrarem em ebulição), mas pouco depois a respectiva alimentação foi reposta. Uma outra central nuclear, também em manutenção (Higashidori), sofreu um "apagão" da rede eléctrica exterior à central, mas o arrefecimento das piscinas foi garantido com os respectivos geradores Diesel. E, em Fukushima, as operações de gestão da crise continuaram como dantes...
Naturalmente, o que desta vez não houve foram maremotos!
Entretanto e relativamente a Fukushima, este relatório da IAEA e os que também regularmente a TEPCO publica dá conta da situação (numa exemplar transparência, contrastante com o "fecho em copas" da nossa TAP quanto à grave avaria do Airbus que vinha do Rio de Janeiro para Lisboa e que teve de aterrar de emergência em Salvador).
Os reactores e as piscinas estão estabilizados, a fuga de água altamente radioactiva das caves para o mar que se detectara foi estancada, e todos os níveis de radioactividade em terra e no mar estão dentro dos limites de segurança legislados!
Claro que Fukushima ainda tem muito trabalho pela frente até tudo estar resolvido, nomeadamente o controlo total do que se passa nos reactores 1 a 3, sem o qual se compreende que o Governo japonês e a IAEA mantenham as medidas preventivas de afastamento das populações até 20 km da central. Nesta, por outro lado, as medidas de segurança da TEPCO relativamente aos seus trabalhadores também garantem a segurança destes, fora acidentes imprevisíveis que têm acontecido mas de pouca gravidade.
Mas, embora de envergadura bem maior que Three Miles Island, logo pelo facto de em 1979 só ter estado envolvido um reactor, a crise de Fukushima continua a ser-lhe essencialmente similar, ou seja, de grau 5 (ver figura anexa para clarificação da escala de gravidade).
Entretanto, o MIT mantém a sua acção pedagógica com esclarecimentos pontuais mas rigorosos sobre este ou aquele assunto mais relevante. Ontem, por exemplo, explicou aqui como são estabelecidos os limiares de segurança contra a radioactividade pelas entidades regulamentadoras. O tema do que se sabe sobre os efeitos da radioactividade é um a que penso voltar em breve, tanto mais que se baseia em muito numa ferramenta que me tem interessado por outras razões: a epidemiologia.
De passagem, uma questão: no seu recente brief (hyperlinkado acima), a IAEA informava: "In addition to those reported in previous briefs, the following countries have submitted monitoring data and/or links to national websites where data is available: Denmark, Germany, Lithuania, Luxembourg, Mexico and Portugal". Que estará exactamente a fazer Portugal nisto?
Etiquetas:
nuclear
quarta-feira, abril 06, 2011
segunda-feira, abril 04, 2011
Os 2 mortos de Fukushima e a "nacionalização" da TEPCO
Infelizmente, em resultado do acidente na central nuclear de Fukushima-Daiichi, já há a registar dois mortos. Não, não me refiro à crise na central depois do acidente - refiro-me ao acidente, isto é, ao terramoto e ao tsunami!
O mesmo tsunami que alagou e destruiu os geradores Diesel e demais quadros eléctricos dos serviços auxiliares da Central, afogou 2 trabalhadores que estavam num turno de rotina de verificação de equipamentos numa cave da central. Claro que isto já era esperado, porque desde o início que a TEPCO vinha informando do desaparecimento de 2 trabalhadores de um empreiteiro seu, mas mesmo assim há quem queira atribuir estas mortes às posteriores avarias dos reactores!...
Na mesma linha terrorista, há quem tenha vindo a dizer que o prejuízo causado pelas avarias em Fukushima levará à nacionalização da TEPCO.
Ora a TEPCO tem, com efeito, graves prejuízos com este terramoto-maremoto! Como todo o Japão, de resto.
Mas, como se pode comprovar aqui, além da perda irreparável de 3 ou 4 reactores nucleares em Fukushima I e das destruições nas restantes instalações da central causadas pelo terramoto-maremoto, a TEPCO sofreu ainda avarias noutra central nuclear, Fukushima II (mas sem problemas de segurança), em mais 3 centrais térmicas convencionais (Hirono, Hitachinaka e Kashima), que estão indisponíveis, e ainda em centrais hidroeléctricas e Subestações de Transporte, obrigando a cortes de energia rotativos entre os consumidores.
Nestas condições, juntando a estes prejuízos as indemnizações que o governo japonês já declarou que a TEPCO terá de pagar às populações deslocadas (deslocadas preventivamente, note-se, e não por os 20 km de área á volta da central estarem "radioactivos"), é natural que a empresa se veja em face de grandes necessidades financeiras, estando em discussão a forma que a ajuda do Governo japonês deverá tomar; no entanto, uma nacionalização completa está fora de questão, sendo antes de esperar a prestação de garantias bancárias para a realização de um empréstimo de emergência. Claro que a perda da central nuclear de Fukushima I e sobretudo de todos os problemas associados constitui a maior parte dos prejuízos da TEPCO, mas não serão os contribuintes japoneses a "socializarem" esse prejuízo.
Por outro lado, a TEPCO não é a única empresa japonesa a ter sofrido perdas enormes com o terramoto-maremoto: as acções da maioria dos grandes conglomerados japoneses estão em queda, e no total os prejuízos estimam-se em 310 biliões de USD (140% do PIB português)!...
Mesmo assim, a comunidade internacional espera que o Japão recupere depressa.
Entretanto e para quem estiver interessado em alguns esclarecimentos prestados à nossa TV sobre o que se tem passado em Fukushima, sugiro a visualização desta edição do programa "Olhar o Mundo".
O mesmo tsunami que alagou e destruiu os geradores Diesel e demais quadros eléctricos dos serviços auxiliares da Central, afogou 2 trabalhadores que estavam num turno de rotina de verificação de equipamentos numa cave da central. Claro que isto já era esperado, porque desde o início que a TEPCO vinha informando do desaparecimento de 2 trabalhadores de um empreiteiro seu, mas mesmo assim há quem queira atribuir estas mortes às posteriores avarias dos reactores!...
Na mesma linha terrorista, há quem tenha vindo a dizer que o prejuízo causado pelas avarias em Fukushima levará à nacionalização da TEPCO.
Ora a TEPCO tem, com efeito, graves prejuízos com este terramoto-maremoto! Como todo o Japão, de resto.
Mas, como se pode comprovar aqui, além da perda irreparável de 3 ou 4 reactores nucleares em Fukushima I e das destruições nas restantes instalações da central causadas pelo terramoto-maremoto, a TEPCO sofreu ainda avarias noutra central nuclear, Fukushima II (mas sem problemas de segurança), em mais 3 centrais térmicas convencionais (Hirono, Hitachinaka e Kashima), que estão indisponíveis, e ainda em centrais hidroeléctricas e Subestações de Transporte, obrigando a cortes de energia rotativos entre os consumidores.
Nestas condições, juntando a estes prejuízos as indemnizações que o governo japonês já declarou que a TEPCO terá de pagar às populações deslocadas (deslocadas preventivamente, note-se, e não por os 20 km de área á volta da central estarem "radioactivos"), é natural que a empresa se veja em face de grandes necessidades financeiras, estando em discussão a forma que a ajuda do Governo japonês deverá tomar; no entanto, uma nacionalização completa está fora de questão, sendo antes de esperar a prestação de garantias bancárias para a realização de um empréstimo de emergência. Claro que a perda da central nuclear de Fukushima I e sobretudo de todos os problemas associados constitui a maior parte dos prejuízos da TEPCO, mas não serão os contribuintes japoneses a "socializarem" esse prejuízo.
Por outro lado, a TEPCO não é a única empresa japonesa a ter sofrido perdas enormes com o terramoto-maremoto: as acções da maioria dos grandes conglomerados japoneses estão em queda, e no total os prejuízos estimam-se em 310 biliões de USD (140% do PIB português)!...
Mesmo assim, a comunidade internacional espera que o Japão recupere depressa.
Entretanto e para quem estiver interessado em alguns esclarecimentos prestados à nossa TV sobre o que se tem passado em Fukushima, sugiro a visualização desta edição do programa "Olhar o Mundo".
Etiquetas:
nuclear
domingo, abril 03, 2011
Seguros e nuclear civil
Uma das atoardas que alguns demagogos gostam de propalar, às vezes publicamente, é que as centrais nucleares não têm seguro contra casos como o de Fukushima, dado o alto custo que ele comportaria.
Ora isso é completamente falso, como se pode comprovar pela explicação aqui constante!
Em todo o caso e relativamente a Fukushima, acrescentaria que:
Ora isso é completamente falso, como se pode comprovar pela explicação aqui constante!
Em todo o caso e relativamente a Fukushima, acrescentaria que:
- Bem mais preocupados do que com a recuperação das perdas económicas com a central de Fukushima, os japoneses estão-no é com toda a imensa destruição de toda a costa oriental de Honchu! Só os seguros reclamáveis relativamente á propriedade imobiliária destruída estimam-se ascender a 35 biliões de USD!
- Fukushima estava amortizada, dados os seus 40 anos de vida, embora tivesse acabado (2010) de ver autorizada a extensão da sua licença de funcionamento por mais 10 anos.
Etiquetas:
nuclear
sábado, abril 02, 2011
O risco de estar vivo - Fukushima "update"
Estar vivo é uma actividade cujo risco acumulado é sempre fatal!
Posto isto, a singularidade humana consiste em enfrentar permanentemente e desde sempre esse risco ganhando controlo sobre as ameaças. "Transformando o mundo em função das suas necessidades", dirão os marxistas, chamando a isso "trabalho" e que consideram a essência da natureza humana. "À imagem de Deus", dirão os crentes nas religiões dos livros.
Como indivíduos, luta-se contra o risco "fazendo pela vida". Mas além de indivíduos somos elementos sociais, inseridos em organismos, e por isso também lutamos contra os riscos que ameaçam o grupo. Não somos aliás únicos nisso - qualquer vertebrado defende as suas crias...
No caso humano, porém, esta luta pela imortalidade (ou contra a morte, como queiram) levou à criação das civilizações. E, embora a maioria delas tenha perecido pelo caminho, há legados que se têm vindo a passar num crescendo de imunidade à morte.
Tudo começou quando deixámos o corno de África há uns cem mil anos. Hoje tentamos compreender e dominar o ADN, e mandamos sondas fotografar de perto planetas distantes. Já sabemos que também há planetas fora do sistema solar, e não paramos. Parar é morrer. Individual e colectivamente. É o super-vulcão de Yellowstone que pode irromper. Um asteróide perdido que nos pode extinguir. Um novo vírus, com letalidade e tempo de incubação entre o HIV e o Ébola, que pode surgir de alguma mutação aleatória. E, mesmo que nenhuma dessas más surpresas ocorra, hão-de haver novas épocas glaciares e novos estios gerais, e por fim o Sol há-de esmorecer. Quem julga que o Universo é pacífico e o stress uma alienação, que veja os filmes e as fotos das luas de Júpiter!...
É evidente que, no presente, o maior risco para o Homem é o próprio Homem. Com esse risco não sabemos bem como lidar: parece haver agora um consenso de que o melhor é permitir a liberdade de cada forma de expressão humana, o paradigma do "equilíbrio dos ecossistemas, da harmonia na diversidade interactiva". Filosoficamente não estou certo que isto se mantenha, mas pelo menos somos mais felizes que no paradigma ecológico que esteve na moda até ao esmagamento do nazismo, o da "lei da selva" em que "vencem os mais fortes"...! Mas não tenho qualquer dúvida que só muito recentemente e ao atingirmos o presente estádio de civilização é que começámos a cuidar da preservação da Natureza e a respeitar as diferenças mesmo entre nós, humanos!
O certo é que enquanto não pudermos viajar pelo espaço inter-planetário e um dia pelo inter-estelar, como espécie estaremos em risco mortal. E, para isso, precisaremos de energia. Nem fóssil, nem renovável. Apenas com energia nuclear será possível viver "out there"!...
Portanto, aprendamos com Fukushima e sigamos em frente!
As últimas notícias sobre a situação na central nuclear de Fukushima-Daiichi são boas, por mais que o terrorismo eco-fascista o tente ensurdecedoramente iludir. Podem ser consultados resumos "certificados" aqui, no site do MIT. Desde o meu último post sobre isto, a situação estabilizou:
Para começar, haverá que evitar que os sistemas de reserva de energia possam ser simplesmente eliminados por um maremoto ou algo equivalente como em Fukushima-Daiichi. Nas nucleares de geração III europeias (EPR) existem quatro sistemas de geradores Diesel redundantes e separados, dois dos quais estão colocados em casamatas à prova de água, dos quais basta um único sistema para manter o núcleo do reactor em temperaturas seguras após a desligação da central. Se esta for construída perto da costa, os Diesel poderão ser colocados do lado mais afastado do mar, usando os edifícios da central como barreira adicional para condições de tempo extremas, ou maremotos.
Nas nucleares de geração III americanas (AP 1000) todos os sistemas de energia de reserva estão protegidos dentro do edifício blindado e dentro do seu contentor interior, e portanto não estão em risco face mesmo às mais extremas condições naturais anómalas. Além disso os sistemas de segurança passiva destas centrais não requerem alimentação, visto serem projectados para simplesmente permitirem que caia água no núcleo por efeito da gravidade e que circule depois apenas por convecção natural.
Mesmo que todos estes sistemas falhem e ocorra fusão do núcleo do reactor, as consequências radiológicas externas não seriam nestas centrais sequer como as relativamente menores verificadas em Fukushima. Em primeiro lugar, ambos estes tipos de centrais têm sistemas de mitigação do hidrogénio, portanto sem possibilidade do tipo de explosões ali verificadas. Por outro lado, a EPR dispõe de um contentor duplo e de uma cova de espalhamento do córium (nada pode sair dele), enquanto o contentor de aço da AP 1000 pode ser indefinidamente arrefecido do exterior.
Entretanto, uma provável e inesperada lição a tirar é a vulnerabilidade das piscinas de arrefecimento dos resíduos a faltas prolongadas de energia. Embora possam levar semanas a atingir a temperatura de ebulição, Fukushima demonstra que essa possibilidade existe, o que recomenda que a quantidade de resíduos ali mantida seja minimizada, de modo a limitar o calor que geram. Isso, por sua vez, conduzirá provavelmente à recomendação de que os referidos resíduos sejam sempre, tão cedo quanto a sua temperatura o permita, processados e transferidos para cascos secos, sem necessidade de água com circulação forçada.
Energia nuclear? Contra isto aqui é que há que ser contra! E uma boa forma é "queimar" o urânio e o plutónio dessas bombas em reactores!
Posto isto, a singularidade humana consiste em enfrentar permanentemente e desde sempre esse risco ganhando controlo sobre as ameaças. "Transformando o mundo em função das suas necessidades", dirão os marxistas, chamando a isso "trabalho" e que consideram a essência da natureza humana. "À imagem de Deus", dirão os crentes nas religiões dos livros.
Como indivíduos, luta-se contra o risco "fazendo pela vida". Mas além de indivíduos somos elementos sociais, inseridos em organismos, e por isso também lutamos contra os riscos que ameaçam o grupo. Não somos aliás únicos nisso - qualquer vertebrado defende as suas crias...
No caso humano, porém, esta luta pela imortalidade (ou contra a morte, como queiram) levou à criação das civilizações. E, embora a maioria delas tenha perecido pelo caminho, há legados que se têm vindo a passar num crescendo de imunidade à morte.
Tudo começou quando deixámos o corno de África há uns cem mil anos. Hoje tentamos compreender e dominar o ADN, e mandamos sondas fotografar de perto planetas distantes. Já sabemos que também há planetas fora do sistema solar, e não paramos. Parar é morrer. Individual e colectivamente. É o super-vulcão de Yellowstone que pode irromper. Um asteróide perdido que nos pode extinguir. Um novo vírus, com letalidade e tempo de incubação entre o HIV e o Ébola, que pode surgir de alguma mutação aleatória. E, mesmo que nenhuma dessas más surpresas ocorra, hão-de haver novas épocas glaciares e novos estios gerais, e por fim o Sol há-de esmorecer. Quem julga que o Universo é pacífico e o stress uma alienação, que veja os filmes e as fotos das luas de Júpiter!...
Há, porém, uma ideologia persistente que acredita que os bons tempos eram aqueles em que, de geração em geração, se vivia na natureza, em "harmonia" com ela. O mais parecido com isso que houve, porém, foi a Idade Média, onde um dia apareceu a peste negra e matou 1/3 da população europeia. Para já não mencionar o desaparecimento geral da megafauna do planeta com a proliferação da nossa espécie, no fim da última glaciação, muito antes sequer da História, quanto mais da sociedade industrial que os ecotópicos culpam pelo suposto "desequilíbrio" com a Natureza...
Contra essa utopia ecológica, relativamente à qual partilho muito do que pensa o meu guru ideológico de há 40 anos, a Humanidade tem vindo sempre a querer mais. O que não admira, enquanto formos mortais. E estaremos sempre em risco enquanto não dominarmos a biologia e, em última análise, a galáxia, e mesmo aí...É evidente que, no presente, o maior risco para o Homem é o próprio Homem. Com esse risco não sabemos bem como lidar: parece haver agora um consenso de que o melhor é permitir a liberdade de cada forma de expressão humana, o paradigma do "equilíbrio dos ecossistemas, da harmonia na diversidade interactiva". Filosoficamente não estou certo que isto se mantenha, mas pelo menos somos mais felizes que no paradigma ecológico que esteve na moda até ao esmagamento do nazismo, o da "lei da selva" em que "vencem os mais fortes"...! Mas não tenho qualquer dúvida que só muito recentemente e ao atingirmos o presente estádio de civilização é que começámos a cuidar da preservação da Natureza e a respeitar as diferenças mesmo entre nós, humanos!
O certo é que enquanto não pudermos viajar pelo espaço inter-planetário e um dia pelo inter-estelar, como espécie estaremos em risco mortal. E, para isso, precisaremos de energia. Nem fóssil, nem renovável. Apenas com energia nuclear será possível viver "out there"!...
Portanto, aprendamos com Fukushima e sigamos em frente!
As últimas notícias sobre a situação na central nuclear de Fukushima-Daiichi são boas, por mais que o terrorismo eco-fascista o tente ensurdecedoramente iludir. Podem ser consultados resumos "certificados" aqui, no site do MIT. Desde o meu último post sobre isto, a situação estabilizou:
- dentro dos reactores, a água está agora líquida, cobrindo as varas de urânio, e as piscinas de resíduos mantêm-se cheias de água, graças aos carros especiais japoneses e aos a chegar de outros países;
- Foi detectada água contaminada nas caleiras e caves dos edifícios dos reactores, alguma dela altamente radioactiva(1000 mSv/h!), a do reactor nº 2 cujo toro de refrigeração deverá ter sido fendido pela explosão de hidrogénio quando da sua ventilação, o que dificulta a aproximação dos trabalhadores (em Chernobyl foram lá mesmo assim e 28 morreram, mas estamos noutra galáxia, apesar das porcas mentiras que se propalam sobre isto). A água está a ser bombeada a bom ritmo para reservatórios mas, pela 1h30 de hoje em Lisboa detectaram uma racha de 20 cm na trincheira do reactor nº 2, de onde estaria a correr água para o mar - estando em curso o enchimento com cimento dessa racha (talvez com os robôs que já lá estão a realizar a melhor tarefa para que se pode desejar um robô...)! A água destas trincheiras, porém, proveio não dos reactores mas sim do tsunami, embora tenha efectivamente sido depois contaminada.
- Houve 20 trabalhadores que receberam doses de radioactividade superiores a 100 mSv; o limite legal no Japão, nestas condições de trabalho, é de 250 mSv. Há porém, um trabalhador que se feriu numa queda ao mar quando ajudava na atracagem de um navio-tanque americano e outro que sofreu uma entaladela, além dos 3 que se queimaram nos pés quando entraram pela primeira vez no edifício do reactor e, às escuras, não notaram que havia água (radioactiva!) no chão e não ligaram aos avisos dos monitores individuais que todos transportam...
- Claro que há radioactividade na água do mar perto da central, resultante quer das ventilações ocorridas nos primeiros dias, com as infelizes explosões do hidrogénio presente no vapor ventilado juntamente com resíduos radioactivos, quer da provável fissura existente no toro de arrefecimento de um dos reactores (resultante de uma dessas explosões do hidrogénio) e que contaminou a água de refrigeração que escorreu para as trincheiras exteriores ainda alagadas pelo tsunami! Os mais recentes registos estão aqui, mas é evidente que a radioactividade no mar não tem importância: as correntes e a diluição natural em pouco tempo reduzirão a concentração dos resíduos a valores inócuos - se não fosse assim, teria havido graves consequências dos testes que em tempos se fizeram com dezenas de bombas nucleares explodidas no mar!!! Neste momento, as concentrações de Iodo-131 são à volta de10 Bq/litro, e as de Césio-134 de menos de 1 -4 Bq/l; as doses máximas recomendadas para alimentação infaltil pelo Euratom são de 150 Bq/l para o Iodo-131 e 400 Bq/l para o Césio e outros, embora o Japão seja ainda mais exigente e estabeleça 100 Bq/litro como limite de Iodo-131 para crianças...
- A água já se pode beber em todo o Japão, isto é, a sua concentração de Iodo-131 e outros resíduos menos graves desceu abaixo dos limites ultra-seguros estabelecidos pela OMS, excepto em 4 localidades próximas da Central;
- De 113 locais em que foi monitorizado o nível de radioactividade no solo e produtos alimentares agrícolas, também em 4 foram detectados níveis de Iodo-131 e Césio superiores aos limites legais. Entretanto, e dada a estabilização da situação, o Governo japonês começou no passado dia 30 a estudar as condições de regresso das populações deslocadas.
- De um modo geral e para quem se quiser manter actualizado, recomendo a consulta deste site oficial. Para quem queira uma excelente descrição gráfica do que sucedeu, sugiro isto.
Para começar, haverá que evitar que os sistemas de reserva de energia possam ser simplesmente eliminados por um maremoto ou algo equivalente como em Fukushima-Daiichi. Nas nucleares de geração III europeias (EPR) existem quatro sistemas de geradores Diesel redundantes e separados, dois dos quais estão colocados em casamatas à prova de água, dos quais basta um único sistema para manter o núcleo do reactor em temperaturas seguras após a desligação da central. Se esta for construída perto da costa, os Diesel poderão ser colocados do lado mais afastado do mar, usando os edifícios da central como barreira adicional para condições de tempo extremas, ou maremotos.
Nas nucleares de geração III americanas (AP 1000) todos os sistemas de energia de reserva estão protegidos dentro do edifício blindado e dentro do seu contentor interior, e portanto não estão em risco face mesmo às mais extremas condições naturais anómalas. Além disso os sistemas de segurança passiva destas centrais não requerem alimentação, visto serem projectados para simplesmente permitirem que caia água no núcleo por efeito da gravidade e que circule depois apenas por convecção natural.
Mesmo que todos estes sistemas falhem e ocorra fusão do núcleo do reactor, as consequências radiológicas externas não seriam nestas centrais sequer como as relativamente menores verificadas em Fukushima. Em primeiro lugar, ambos estes tipos de centrais têm sistemas de mitigação do hidrogénio, portanto sem possibilidade do tipo de explosões ali verificadas. Por outro lado, a EPR dispõe de um contentor duplo e de uma cova de espalhamento do córium (nada pode sair dele), enquanto o contentor de aço da AP 1000 pode ser indefinidamente arrefecido do exterior.
Entretanto, uma provável e inesperada lição a tirar é a vulnerabilidade das piscinas de arrefecimento dos resíduos a faltas prolongadas de energia. Embora possam levar semanas a atingir a temperatura de ebulição, Fukushima demonstra que essa possibilidade existe, o que recomenda que a quantidade de resíduos ali mantida seja minimizada, de modo a limitar o calor que geram. Isso, por sua vez, conduzirá provavelmente à recomendação de que os referidos resíduos sejam sempre, tão cedo quanto a sua temperatura o permita, processados e transferidos para cascos secos, sem necessidade de água com circulação forçada.
Energia nuclear? Contra isto aqui é que há que ser contra! E uma boa forma é "queimar" o urânio e o plutónio dessas bombas em reactores!
Etiquetas:
ciências da vida,
nuclear
domingo, março 27, 2011
Fukushima e os ecotópicos
Quando, há 15 dias, chegaram as primeiras notícias do terramoto e do tsunami no Japão, que falavam em menos de mil mortos e mostravam os edifícios de Tóquio a abanarem com a população perfeitamente calma, dei-as por conclusivas e notei que se tratava do ultimate teste à capacidade das centrais nucleares suportarem sismos.
Rapidamente, porém, me dei conta de que me precipitara e que estupidamente ignorara as experiências anteriores: o retrato do que se passava no Japão ainda ia no início, e as dimensões do desastre só pouco a pouco se iriam revelar - e vim aqui imediatamente reconhecer o meu erro.
Os ecotópicos, entretanto, parece que tomaram a minha nota de que isto era um teste à capacidade anti-sísmica das centrais nucleares como desafio à sua ecotopia e passaram a não falar doutra coisa, chegando ao ponto de no jornal "O Público", por exemplo, sistematicamente darem notícia do número de mortos pelo desastre natural em sub-título das notícias sobre Fukushima, como se esses mortos resultassem das avarias nesta central e não do tsunami!...
Outros jornalistas ("Expresso", suplemento económico) ironizaram este sábado sobre as afirmações que um responsável da TEPCO (a "EDP" proprietária de Fukushima) teria feito sobre a absoluta segurança desta central, e deram nota semanal baixa às afirmações desdramatizantes de Pedro Sampaio Nunes, acabando mesmo o "Expresso" por, a despropósito, publicar como notícia a informação de que, segundo o Eurostat, o preço da nossa electricidade para os consumidores domésticos estaria abaixo da média europeia graças à aposta nas renováveis - desinformação que começo por esclarecer com o quadro seguinte tirado dos últimos dados publicados pelo Eurostat, precisamente:
Neste quadro, as "outras taxas" são custos da energia com outro nome, como se sabe bem por cá (os famosos CIEG, CMEC, CAE, etc), e vale a pena é olhar para a componente rosa superior, o IVA. No preço total, é verdade que Portugal (PT) estava em 2010 com preços inferiores aos da média europeia (15,8 ç/kWh versus 16,7), mas também é patente que isso se deve a um IVA português de apenas 6%, quando a média europeia é de 15 a 16%! Sem IVA, a nossa electricidade doméstica é mais cara que essa média europeia e custa o mesmo que a espanhola. Na verdade, o Governo subsidia o preço da electricidade com este IVA especial (só o Reino Unido faz algo parecido), mas veremos se a dívida pública permitirá manter isso no futuro...
Esta nota sobre o preço da electricidade foi um pequeno desvio (e nem falei do défice tarifário...) ao tema que me traz aqui hoje, e que é o da forma como os ecotópicos falam de Fukushima. Resumamos, então, os factos já conhecidos sobre o sismo japonês.
O terramoto, de grau 9, tão intenso como o que destruiu Lisboa (e muitas povoações algarvias) em 1755, segundo a OMS danificou 1700 estradas (fechando muitas delas), destruiu uma barragem (Fujinuma, matando 12 pessoas) e abriu fendas em mais 7, derrubou mais de 50 pontes e muitas torres de electricidade e de comunicações, deixando sem energia nem água milhões de pessoas. No entanto, a esmagadora maioria dos edifícios resistiu sem danos de maior, incluindo todas as centrais nucleares.
O Japão demonstrou brilhantemente ser possível ter uma construção civil resistente aos maiores sismos que se possam esperar! E a nossa, resistirá ao inevitável próximo grande terramoto?
O que o Japão subestimou foram os tsunamis!
Sendo um país de ilhas vulcânicas e montanhoso, 40% da população vive na orla costeira e, por isso, o Japão construiu ao longo do tempo barreiras e defesas contra tsunamis, sendo consensual que dispõe do sistema mais avançado do mundo nessa matéria.
Mas o tsunami que chegou à costa entre meia a uma hora depois do terramoto foi muito superior ao que se havia previsto nessas defesas. Sabe-se agora que, por exemplo e no que respeita à central nuclear de Fukushima, esta fora projectada (há 50 anos) para tsunamis com 6 metros de altura e que os serviços auxiliares (geradores Diesel e circuitos eléctricos associados) estavam 10 metros acima do nível do mar, mas que o tsunami que atingiu a central teve... 13 metros de altura!
Porém, para o Japão, muito mais importantes que os danos na Central eléctrica foram os outros danos: mais de 27 mil mortos, até agora, e uma indescritível destruição de toda a orla costeira! Em certas zonas o mar penetrou até 10 km da costa, e estima-se que pelo menos 8% dos arrosais japoneses precisem de um ano para se lhes retirar o sal depositado pelo mar e recomeçarem a produzir!
E nós, Portugal, que defesas previmos para o tsunami que há-de acompanhar o grande terramoto que um dia havemos de ter? Estima-se que o tsunami de 1755 tenha atingido 20 metros de altura...
E, no entanto, aos ecotópicos a única coisa que interessa aprender sobre este terramoto japonês é o "falhanço" da central nuclear de Fukushima-Dachaii!
É claro que houve falhas na central nuclear! Antes de mais a falta de previsão de um tsunami desta envergadura mas que, como é óbvio, não foi um erro de concepção específico da central - foi um erro sistemático de todo o Japão, pago bem caro com a mortandade e a demais destruição que se constata!
A central, como todas as outras no Japão, resistiu na perfeição ao sismo e ao "apagão" geral resultante da destruição da rede eléctrica. Introduziu de imediato as barras moderadoras nos reactores, desligando-os, e os Diesel da central iniciaram automaticamente e conforme foram projectados a tarefa para que foram previstos, a de alimentarem as bombas de circulação de água para o arrefecimento de reactores e piscinas de resíduos. Até que, uma hora depois do terramoto, chegou o tsunami e destruiu tudo o que estava no piso inferior da central, ou seja, os Diesel e os circuitos eléctricos associados.
Houve outros erros de concepção ou operação e lições a tirar?
Quanto aos procedimentos de operação realizados pelas equipas da central e as autoridades, não há nenhuma razão para pensar que não tenham trabalhado, até agora, na perfeição. Não seria de esperar outra coisa do Japão, que faz os produtos industriais de melhor qualidade do Mundo e que tem uma cultura em que a honra e o sentido de dever são únicos! Aliás, é de fazerem rir os temores relativos aos produtos alimentares e ao shushi importados do Japão, como se fosse sequer imaginável que aquele país exportasse alguma coisa contendo riscos para a saúde própria ou alheia! E, a propósito, recordo a campanha que em 2010 se fez nos EUA contra a Toyota, por supostamente haver bugs no computador de controlo dos motores que alegadamente teriam levado um número de automóveis a acelararem inopinadamente, causando acidentes - as investigações posteriores pelas autoridades americanas provaram que não havia bugs nenhuns e que em metade dos casos o que sucedera era que os condutores tinham confundido o pedal do acelerador com o do travão (nos carros americanos não há pedal de embraiagem e os outros dois são grandes)...
Quanto a erros de concepção da central, sim, há lições a tirar.
Em primeiro lugar o facto do arrefecimento dos reactores precisar de energia eléctrica - coisa, precisamente, que os sistemas de segurança passiva dos modernos reactores de III geração já não têm, III geração de que por sinal o Japão foi o primeiro país a ter uma central, em 1996.
Em segundo lugar o sistema de armazenamento em piscinas dos resíduos, e que se mostra com isto serem bem mais arriscados que o armazenamento em cascos secos, como se faz na Europa (vejam-se as fotos que postei aqui).
Em terceiro lugar o toro de injecção de água de arrefecimento, adicionado à concepção inicial deste reactor da GE, um ponto fraco no confinamento dos reactores e que com grande probabilidade terá sido fendido no reactor nº 3, dando azo a fugas de água radioactiva, na sequência da explosão do hidrogénio que, nesse reactor, terá ocorrido dentro desse toro e não nas condutas de escoamento.
Em quarto lugar, a imprevisão da susceptibilidade à explosão da mistura de hidrogénio decorrente da fusão do revestimento de zircónio das barras de urânio em contacto com a água de arrefecimento, explosão que estará na causa dos aparentes danos graves do toro mencionado atrás.
E, em quinto lugar, a tecnologia de água fervente do reactor, em que a água banha directamente as barras de urânio do reactor.
Todos estes erros de concepção já eram conhecidos e não existem nas modernas centrais nucleares de III geração.
E é por isso que, ao contrário do que diz por exemplo o jornalista Pedro Lima do "Expresso" do último sábado, não se verifica nenhum "movimento um pouco por todo o mundo" de questionamento da energia nuclear.
Houve moratórias, por curto tempo, na Alemanha e na Itália. Mas nos EUA nada parou na construção das novas centrais, e na China o presidente do comité da Ciência e Tecnologia, Pan Ziqiang, fez o ponto na passada sexta-feira: "From a safety perspective, up to now China has never had an incident higher than level 2. From the 1950s when development began, there hasn't been a single death caused by radiation -- not one -- and there hasn't been a single fatal disease (caused by radiation). Of course, there have been skin burns, and 10 people were killed in a work accident in 2007, but this is very far from the amount of deaths from China's coal industry." E para rematar: "We need to adopt stricter management and strengthen the safety culture and our monitoring (but) I think we should accept nuclear development".
Rapidamente, porém, me dei conta de que me precipitara e que estupidamente ignorara as experiências anteriores: o retrato do que se passava no Japão ainda ia no início, e as dimensões do desastre só pouco a pouco se iriam revelar - e vim aqui imediatamente reconhecer o meu erro.
Os ecotópicos, entretanto, parece que tomaram a minha nota de que isto era um teste à capacidade anti-sísmica das centrais nucleares como desafio à sua ecotopia e passaram a não falar doutra coisa, chegando ao ponto de no jornal "O Público", por exemplo, sistematicamente darem notícia do número de mortos pelo desastre natural em sub-título das notícias sobre Fukushima, como se esses mortos resultassem das avarias nesta central e não do tsunami!...
Outros jornalistas ("Expresso", suplemento económico) ironizaram este sábado sobre as afirmações que um responsável da TEPCO (a "EDP" proprietária de Fukushima) teria feito sobre a absoluta segurança desta central, e deram nota semanal baixa às afirmações desdramatizantes de Pedro Sampaio Nunes, acabando mesmo o "Expresso" por, a despropósito, publicar como notícia a informação de que, segundo o Eurostat, o preço da nossa electricidade para os consumidores domésticos estaria abaixo da média europeia graças à aposta nas renováveis - desinformação que começo por esclarecer com o quadro seguinte tirado dos últimos dados publicados pelo Eurostat, precisamente:
Neste quadro, as "outras taxas" são custos da energia com outro nome, como se sabe bem por cá (os famosos CIEG, CMEC, CAE, etc), e vale a pena é olhar para a componente rosa superior, o IVA. No preço total, é verdade que Portugal (PT) estava em 2010 com preços inferiores aos da média europeia (15,8 ç/kWh versus 16,7), mas também é patente que isso se deve a um IVA português de apenas 6%, quando a média europeia é de 15 a 16%! Sem IVA, a nossa electricidade doméstica é mais cara que essa média europeia e custa o mesmo que a espanhola. Na verdade, o Governo subsidia o preço da electricidade com este IVA especial (só o Reino Unido faz algo parecido), mas veremos se a dívida pública permitirá manter isso no futuro...
Esta nota sobre o preço da electricidade foi um pequeno desvio (e nem falei do défice tarifário...) ao tema que me traz aqui hoje, e que é o da forma como os ecotópicos falam de Fukushima. Resumamos, então, os factos já conhecidos sobre o sismo japonês.
O terramoto, de grau 9, tão intenso como o que destruiu Lisboa (e muitas povoações algarvias) em 1755, segundo a OMS danificou 1700 estradas (fechando muitas delas), destruiu uma barragem (Fujinuma, matando 12 pessoas) e abriu fendas em mais 7, derrubou mais de 50 pontes e muitas torres de electricidade e de comunicações, deixando sem energia nem água milhões de pessoas. No entanto, a esmagadora maioria dos edifícios resistiu sem danos de maior, incluindo todas as centrais nucleares.
O Japão demonstrou brilhantemente ser possível ter uma construção civil resistente aos maiores sismos que se possam esperar! E a nossa, resistirá ao inevitável próximo grande terramoto?
O que o Japão subestimou foram os tsunamis!
Sendo um país de ilhas vulcânicas e montanhoso, 40% da população vive na orla costeira e, por isso, o Japão construiu ao longo do tempo barreiras e defesas contra tsunamis, sendo consensual que dispõe do sistema mais avançado do mundo nessa matéria.
Mas o tsunami que chegou à costa entre meia a uma hora depois do terramoto foi muito superior ao que se havia previsto nessas defesas. Sabe-se agora que, por exemplo e no que respeita à central nuclear de Fukushima, esta fora projectada (há 50 anos) para tsunamis com 6 metros de altura e que os serviços auxiliares (geradores Diesel e circuitos eléctricos associados) estavam 10 metros acima do nível do mar, mas que o tsunami que atingiu a central teve... 13 metros de altura!
Porém, para o Japão, muito mais importantes que os danos na Central eléctrica foram os outros danos: mais de 27 mil mortos, até agora, e uma indescritível destruição de toda a orla costeira! Em certas zonas o mar penetrou até 10 km da costa, e estima-se que pelo menos 8% dos arrosais japoneses precisem de um ano para se lhes retirar o sal depositado pelo mar e recomeçarem a produzir!
E nós, Portugal, que defesas previmos para o tsunami que há-de acompanhar o grande terramoto que um dia havemos de ter? Estima-se que o tsunami de 1755 tenha atingido 20 metros de altura...
E, no entanto, aos ecotópicos a única coisa que interessa aprender sobre este terramoto japonês é o "falhanço" da central nuclear de Fukushima-Dachaii!
É claro que houve falhas na central nuclear! Antes de mais a falta de previsão de um tsunami desta envergadura mas que, como é óbvio, não foi um erro de concepção específico da central - foi um erro sistemático de todo o Japão, pago bem caro com a mortandade e a demais destruição que se constata!
A central, como todas as outras no Japão, resistiu na perfeição ao sismo e ao "apagão" geral resultante da destruição da rede eléctrica. Introduziu de imediato as barras moderadoras nos reactores, desligando-os, e os Diesel da central iniciaram automaticamente e conforme foram projectados a tarefa para que foram previstos, a de alimentarem as bombas de circulação de água para o arrefecimento de reactores e piscinas de resíduos. Até que, uma hora depois do terramoto, chegou o tsunami e destruiu tudo o que estava no piso inferior da central, ou seja, os Diesel e os circuitos eléctricos associados.
Houve outros erros de concepção ou operação e lições a tirar?
Quanto aos procedimentos de operação realizados pelas equipas da central e as autoridades, não há nenhuma razão para pensar que não tenham trabalhado, até agora, na perfeição. Não seria de esperar outra coisa do Japão, que faz os produtos industriais de melhor qualidade do Mundo e que tem uma cultura em que a honra e o sentido de dever são únicos! Aliás, é de fazerem rir os temores relativos aos produtos alimentares e ao shushi importados do Japão, como se fosse sequer imaginável que aquele país exportasse alguma coisa contendo riscos para a saúde própria ou alheia! E, a propósito, recordo a campanha que em 2010 se fez nos EUA contra a Toyota, por supostamente haver bugs no computador de controlo dos motores que alegadamente teriam levado um número de automóveis a acelararem inopinadamente, causando acidentes - as investigações posteriores pelas autoridades americanas provaram que não havia bugs nenhuns e que em metade dos casos o que sucedera era que os condutores tinham confundido o pedal do acelerador com o do travão (nos carros americanos não há pedal de embraiagem e os outros dois são grandes)...
Quanto a erros de concepção da central, sim, há lições a tirar.
Em primeiro lugar o facto do arrefecimento dos reactores precisar de energia eléctrica - coisa, precisamente, que os sistemas de segurança passiva dos modernos reactores de III geração já não têm, III geração de que por sinal o Japão foi o primeiro país a ter uma central, em 1996.
Em segundo lugar o sistema de armazenamento em piscinas dos resíduos, e que se mostra com isto serem bem mais arriscados que o armazenamento em cascos secos, como se faz na Europa (vejam-se as fotos que postei aqui).
Em terceiro lugar o toro de injecção de água de arrefecimento, adicionado à concepção inicial deste reactor da GE, um ponto fraco no confinamento dos reactores e que com grande probabilidade terá sido fendido no reactor nº 3, dando azo a fugas de água radioactiva, na sequência da explosão do hidrogénio que, nesse reactor, terá ocorrido dentro desse toro e não nas condutas de escoamento.
Em quarto lugar, a imprevisão da susceptibilidade à explosão da mistura de hidrogénio decorrente da fusão do revestimento de zircónio das barras de urânio em contacto com a água de arrefecimento, explosão que estará na causa dos aparentes danos graves do toro mencionado atrás.
E, em quinto lugar, a tecnologia de água fervente do reactor, em que a água banha directamente as barras de urânio do reactor.
Todos estes erros de concepção já eram conhecidos e não existem nas modernas centrais nucleares de III geração.
E é por isso que, ao contrário do que diz por exemplo o jornalista Pedro Lima do "Expresso" do último sábado, não se verifica nenhum "movimento um pouco por todo o mundo" de questionamento da energia nuclear.
Houve moratórias, por curto tempo, na Alemanha e na Itália. Mas nos EUA nada parou na construção das novas centrais, e na China o presidente do comité da Ciência e Tecnologia, Pan Ziqiang, fez o ponto na passada sexta-feira: "From a safety perspective, up to now China has never had an incident higher than level 2. From the 1950s when development began, there hasn't been a single death caused by radiation -- not one -- and there hasn't been a single fatal disease (caused by radiation). Of course, there have been skin burns, and 10 people were killed in a work accident in 2007, but this is very far from the amount of deaths from China's coal industry." E para rematar: "We need to adopt stricter management and strengthen the safety culture and our monitoring (but) I think we should accept nuclear development".
Etiquetas:
nuclear,
política energética
Subscrever:
Mensagens (Atom)

















