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quarta-feira, junho 15, 2011

Universidades: a ascensão do Formalismo e a burocratização.

Como certamente esperavam os que leram o meu post sobre "o papel da I&D no grupo EFACEC e os seus condicionamentos", chegaria a ocasião de falar das Universidades e do seu papel na I&D necessários ao desenvolvimento da economia e do bem-estar do povo que as sustentam.

Recordo que, depois do referido post (na verdade a publicação de um texto escrito na EFACEC 15 anos atrás), escrevi umas 1ªs notas de rodapé esclarecendo o que penso de dois assuntos em particular, o papel da componente curricular nos doutoramentos e a alienação na produção de papers académicos, e dias depois acrescentei umas 2ªs notas de rodapé sobre a importância dos projectos de I&D entre a Universidade e a Indústria e sobre a participação em projectos financiados por fundos europeus.
E, tendo já feito a crítica que penso necessária aos obstáculos à profícua colaboração entre as universidades e as empresas do lado das empresas, falta olhar para o outro lado.

No texto original eu já referira a Universidade e os obstáculos que lá se haviam verificado, até então, à desejada colaboração Universidades-empresas. Concretamente, referira 2 modelos de mentalidade com raízes históricas diferentes, que designara por a cultura aristocrática e o modelo americano, e depois comentara com algum detalhe o INESC. Porém, note-se, o texto de base que aqui me trouxera foi escrito há 15 anos!
Ora, se quisermos reconstituir a História da I&D nas nossas Universidades tecnológicas para situarmos a situação presente, podemos talvez caracterizar cada um de três períodos de 15 anos assim:


1965-1980: a maioria dos Professores universitários era auto-didacta e tinha o seu centro de vida nas empresas, moldando em função das necessidades percebidas nestas o que ensinava nas Universidades. A pouca Investigação que havia fazia-se em Laboratórios do Estado, como o Laboratório Nacional de Engenharia Civil, alguns Institutos médicos, a Junta de Energia Nuclear e o Laboratório Central de Sacavém da Companhia Portuguesa de Electricidade (antecessora da REN), rigidamente dirigidas numa lógica estritamente nacionalista e enquadrando os melhores engenheiros (que à época eram os melhores "crânios" que o país tinha). Uma rara excepção fora disto era a EFACEC com Renato Morgado e os seus laboratórios.
Entretanto e nessa mesma década, uma política de promoção de doutoramentos no estrangeiro, lançada nos finais dos anos 60 com a criação da JNICT (Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica, antecessora da actual FCT, Fundação para a Ciência e Tecnologia), veio a produzir umas poucas dezenas de doutorados no estrangeiro que, porém, regressaram para se enquadrar disciplinadamente no quadro que havia.
Era a época dos "Senhores Engenheiros".



1980-1995: Este é o período a que essencialmente me referia no trabalho escrito para a EFACEC em 1996.
Esta época começou com a promulgação do ECDU (Estatuto da Carreira Docente Universitária) - 1ª edição, que detonou uma verdadeira revolução: as Universidades passaram a privilegiar a Investigação e a geração de doutorados no estrangeiro na década de 70 tomou o poder!
Na imediata sequência desta revolução, a multidão de antigos "assistentes" que, na tradição anterior, acumulavam o trabalho nas empresas com "dar aulas" (e fazer "folhas" de apoio às mesmas), saíram da Universidade e, em seu lugar, foi recrutada uma geração de jovens com o propósito de fazerem I&D em dedicação exclusiva.
Esta geração era de boa qualidade, até porque o novo ECDU instituíra uma carreira académica que se articulava com a obtenção de pós-graduações e criara remunerações interessantes, ao instituir um "subsídio de dedicação exclusiva" que ainda permitia remunerações adicionais provenientes de serviços prestados à sociedade (desde que no âmbito da Universidade e com nível técnico-científico “adequado à dignidade” da mesma).
Mas, sobretudo, havia uma vaga de entusiasmo e esperança no progresso do país, que parecia virar uma página decisiva na sua História e ir integrar-se na Europa desenvolvida para que estivera de costas voltadas durante seis séculos.
Como notou uma estudiosa da época, porém, estes anos assistiram a uma acesa disputa no meio académico com influência no poder político. Este texto que hyperlinkei, porém, narra a História desses tempos na perspectiva do PS, vendo nela um confronto determinado pelo que havia de vir a dominar depois, quando na verdade nesses anos o confronto era, na opinião que eu tinha em 1996 e mantenho, entre a linha aristocrática e os pró-americanos, ou talvez melhor e numa divisão nacional antiga, entre castiços e estrangeirados.
Resumidamente, de um lado havia os que se opunham à própria ideia de qualquer relacionamento com a sociedade que não fosse o ensino, que faziam Investigação como puro exercício intelectual e exigiam do Estado a correspondente subsidiação, mas também quem, esclarecido pela experiência no estrangeiro e ao mesmo tempo ainda com algum espírito do período 1965-1980, mantivesse resquícios da cultura de "Senhor Engenheiro" e combinasse autoritarismo com genuína preocupação de aplicação da nova I&D académica à sociedade.
Eram duas perspectivas diferentes, mas que tinham em comum uma visão da Universidade como terra de principados e castas (donde os "castiços"), a que chamo mentalidade aristocrática. A diferença entre elas tinha origem no tipo de assuntos a que se dedicavam os respectivos protagonistas e parece universal, como constata um estudo americano de 1996: "The faculty in applied disciplines (in this case, chemical engineering, electrical engineering, computer science, and materials science) are much more supportive of various transfer alternatives than their colleagues in the basic or social sciences".
No outro lado também se encontravam duas linhas diferentes, que tinham em comum o estrangeirismo americano. Mas enquanto uma descartava qualquer ligação à sociedade portuguesa, que desprezava, e vivia num universo mental académico virtualmente americano, a outra tinha a ambição, a iniciativa e a formação tipicamente americanas mas também um projecto de desenvolvimento de Portugal, ainda que inspirado em instituições como os laboratórios Bell. O modelo americano comum e um parco conhecimento do país real é que me leva a defini-las como estrangeirados.
Eram, portanto e na verdade, 4 mentalidades, que se arrumaram em duas alianças, como mencionei. A grande "marca" desses tempos foi o INESC, como descrevi, mas também a criação e rápida expansão de cursos de Computadores e de Engenharia Informática por todas as Universidades do país.
Depois o país aderiu à União europeia em 1985 e vieram os fundos europeus na viragem da década de 80 para a 90, e com isso o impasse do "movimento INESC": a fertilização da economia portuguesa pela I&D universitária foi sendo sacrificada àqueles fundos e a filosofia de partir das "invenções" universitárias para a economia teve parco sucesso. No entanto, no domínio das "novas tecnologias", no das empresas de software e também, em alguns casos, de electrónica, estes foram os tempos em que germinaram algumas realizações da "nova economia" portuguesa que se vieram a consolidar posteriormente.
Entretanto, a produção contínua durante 20 anos de centenas de doutorados nestas Universidades, formados num contexto de raros contratos com empresas e endogeneizados pela própria Universidade e Politécnicos, fez emergir e depois crescer uma nova mentalidade que se tornaria dominante: a dos funcionários.


1995-2010: Estes 15 anos correspondem ao prolongado Ministério de Mariano Gago e à afirmação pujante do espírito de funcionário nas Universidades, à medida que a geração que tomara o poder em 1980 se foi aposentando e sendo substituída nos lugares de decisão pela nova imensa vaga.
O funcionário, ou burocrata, tende a guiar-se pela forma das coisas, pela exterioridade das funções. Extrapolando um texto de Desidério Murcho muito conhecido dos professores do Ensino pré-universitário: "Ao longo dos anos, e sobretudo ultimamente, o papel do Ministério da Educação tem sido largamente guiado pelo único tipo de coisa que os políticos e os burocratas conhecem: a realidade virtual. Não importa se os estudantes realmente aprendem, desde que se finja que aprendem e desde que não sejam reprovados. Também não interessa se os professores realmente ensinam, desde que preencham grelhas e formulários infinitos, para dar a impressão de que estão a trabalhar. É que para a mentalidade burocrática e política, a realidade só tem densidade se estiver organizada num formulário, ....".  E para uma formalização do conceito, vale a pena recordar a definição de um filósofo do sec. XIX: "... a burocracia é o ‘Estado enquanto formalismo’; ... Como este ‘formalismo de Estado’ se constitui em poder real e se transforma em seu próprio conteúdo material, é evidente que a ‘burocracia’ é um conjunto de ilusões práticas, ou seja, é a ‘ilusão do Estado’. O espírito burocrático é um espírito totalmente jesuítico, teológico. "
Esta caracterização do "espírito burocrático" e a constatação da funcionarização dos docentes universitários afiguram-se-me cruciais para identificar a principal mudança dos últimos 15 anos na vida nas Universidades e especialmente das mais próximas do "Terreiro do Paço". E daí, portanto, a necessidade de falar da acção Ministerial em matéria de I&D para entender a posição actual das Universidades.
Ora a política do Ministério que há 15 anos rege a I&D e as Universidades em Portugal caracteriza-se, na minha opinião, por três facetas: a) a preferência pela Ciência em prejuízo da Tecnologia, vistas em oposição; b) o controleirismo estatista e o desprezo pelas empresas que não frequentam a Corte; c) o formalismo nas medidas de promoção de “transferência de tecnologia” entre as Universidades e as empresas, baseado na cópia mecânica de fórmulas estrangeiras.
As primeiras duas facetas são, na realidade, faces de uma mesma moeda que despreza a iniciativa privada produtiva e que, como noutras matérias, se reivindica de um progressismo que na realidade apenas reinventa a mentalidade do Estado centralista e cortesão, anterior à revolução tecnológica-industrial, descrente e desconfiado das iniciativas cívicas (individuais e colectivas). E, de certa forma, mais governamentalmente controleirista que o próprio regime anterior a 1974.
Já no trabalho de 1996 atrás citado se notava que, ainda em 1990, Mariano Gago se pronunciara a favor de "uma nova tendência, favorável às Universidades como os lugares, por excelência, da Investigação, e à qualidade científica (não tanto à relevância económica) como o principal critério de avaliação da Investigação", contra "a filosofia de acção até então dominante, que associava ciência, tecnologia e desenvolvimento, e via na política de Ciência basicamente um exercício de definição de prioridades".
A ideologia por detrás desta oposição do "mérito científico" à "relevância económica" é clarificada num Manifesto do Prof. Moniz Pereira, um entusiástico apoiante da ascensão de Mariano Gago, onde se afirmava em 1996: "a Ciência tem razões e valores que a Economia desconhece e desconhecerá… Por exemplo, o maravilhamento perante o conhecimento;....  Há uma diferença entre a Esquerda e a Direita na forma como se relacionam com a Ciência. A Direita, em contraposição à Esquerda, preocupa-se menos com a Ciência e mais com a Tecnologia como forma de negócio. Menos com o global e social, e os tais valores intrínsecos à Ciência, e mais com o lucro tecnológico."
Ora não é preciso conhecer profundamente o pensamento comunista para saber que também ele partilha a preocupação com a Tecnologia como factor de desenvolvimento económico (pejorativamente vistos como "negócio" e "lucro tecnológico" por Moniz Pereira); ainda numa intervenção recente no Parlamento, um deputado comunista perguntava: "...ciência e tecnologia para quê? Ciência e tecnologia ao serviço de um aparelho produtivo, para pôr Portugal a produzir — isto para o PCP." Por conseguinte, a diferença que Moniz Pereira enuncia dificilmente se poderá considerar uma clivagem entre Direita e Esquerda; é, sim, uma linha de fractura entre a mentalidade aristocrática e a industrial-tecnológica, entre os que preferem que tudo assente nos favores da corte, como vem sendo em Portugal desde quando todo o comércio nos porões das naus da Índia era do rei que depois distribuía as tenças por quem tinha que lhas ir pedir, como o próprio Luís de Camões, e os que pretendem ajudar as empresas portuguesas a competir neste mundo globalizado...!
Que a verdadeira natureza do pensamento que opõe a Ciência à tecnologia dos "negócios" e que impregna o Ministério de Mariano Gago é a aristocrática também se vê pela sua base principal de apoio na Universidade: das 4 tendências que caracterizei atrás, os seus suportes são a descendente dos antigos Professores que achavam que a única interacção legítima da Universidade com a sociedade era o ensino, e a dos estrangeirados americanos que sempre desprezaram o atraso da sociedade portuguesa. Numa recomposição das antigas alianças, onde antes se opunham castiços e estrangeirados, agora opõem-se os adeptos de uma Universidade purificada da sociedade atrasada que a rodeia e os que continuam a achar que há uma dívida para com os contribuintes que sustentam o Estado e essas Universidades - contribuintes que se organizam livremente em colaborações produtivas denominadas... empresas. E, enquanto aquelas duas tendências e o Ministério se enamoraram mutuamente, o INESC viu-se obrigado a dividir as suas actividades, separando do INESC-ID o INESC-INOV, e as iniciativas individuais de ligação às empresas ficaram sob fogo cerrado e sério risco de extermínio (moral, pelo menos)!

Há no entanto uma evolução sociológica marcante da tendência que vê qualquer actividade de ligação à sociedade além do ensino como malsã e que só valoriza a Investigação pura: originalmente marcada pelo elitismo dos "Senhores Engenheiros", os seus herdeiros são meros funcionários. E, se não praticam como os seus predecessores um autoritarismo elitista, não raro prezam o inquisitório jesuítico instrumentalizando regras, regulamentos, leis e ordens superiores sem nunca questionarem o seu sentido profundo, exactamente como o Filósofo que citei caracterizava.

Indicadores da política actual de Estado na I&D

Abordemos agora a prática concreta como o Ministério e os seus funcionários universitários aplicam a preferência dada ao "mérito científico" sobre a articulação entre I&D e economia.
Uma das primeiras medidas do Ministério de Mariano Gago foi, logo em 1996, a instituição de critérios de avaliação dos Centros de Investigação Universitários. Estes Centros, cuja concentração foi encorajada, seguindo recomendações internacionais que há muito vinham criticando a excessiva pulverização dos grupos de I&D académicos em Portugal, vivem geralmente da subsidiação governamental e que em regra era apenas suficiente para manter o metabolismo de actividades com pouca utilização de recursos laboratoriais.
Com a instituição de critérios de avaliação, os Centros passaram a ser regularmente examinados, e o seu financiamento passou a depender da classificação obtida - actualmente de 5500€ anuais a metade disso per capita doutorada, conforme a classificação vá de Excellent a Good, e nada para os centros classificados apenas com Fair ou Poor, cuja dissolução passou a ser encorajada.
Sobre estes Centros, duas questões me parecem pertinentes: como é feita a sua avaliação, e para que serviu a encorajada concentração dos mesmos?
A avaliação é feita por cientistas internacionais, contratados para o efeito pelo Estado, e seguindo critérios usuais na avaliação científica. Sendo assim, natural é que as boas classificações privilegiem as actividades mais científicas em prejuízo das mais tecnológicas, e as de Investigação mais que as de Desenvolvimento. e, com efeito, dos 378 Centros acreditados em 2007, cerca de 17% eram de Engenharia, mas destes só 12% obtiveram a classificação de Excellent, apesar da percentagem geral de Excellent ter sido de 21%. Dos 8 Centros de Engenharia que obtiveram a classificação máxima, 1 é de Braga, 3 são do Porto, 3 de Coimbra e 1 de Leiria - mas apenas um deles se pode dizer que investiga no domínio das tecnologias de informação, as que estão na base das empresas High-Tech que o movimento dos anos 80-95 lançou. Com estes critérios de classificação, o INESC desapareceu do mapa das estrelas...
Quanto à questão da concentração dos Centros, naturalmente que ela é positiva se promover a articulação dos investigadores e a dimensão e relevância dos projectos de I&D em que eles se envolvam. Mas, com critérios de avaliação baseados nos papers (por natureza individuais, dado serem a base da competição entre académicos), no número de citações dos papers e quejandos, obviamente que a única articulação promovida entre investigadores é a burocrática - passaram a ter de juntar mais contribuições individuais nos relatórios para a FCT e a terem de repartir e disputar os subsídios do Estado por mais gente, e mais nada!

De facto, aquilo que pode promover uma real concentração de esforços e combater a pulverização de actividades em I&D são projectos de I&D - grandes projectos, projectos estratégicos e financiados em correspondência, frequentemente projectos multi-disciplinares que a sectarização dos investigadores em Centros cujo propósito é a captação de subsídos estatais não promove!
Ora em primeiro lugar o Ministério subalterniza o financiamento dos projectos ao das referidas instituições burocráticas que os Centros são, como se mostra na figura anexa; em segundo lugar dispersa esse financiamento por inúmeros pequenos projectos, e finalmente selecciona-os em 90% dos casos apenas na base do seu "mérito científico", sem pré-definição de temas específicos.

Esta desproporcionada preferência pelo financiamento público aos Centros de I&D em detrimento dos projectos de I&D, e nestes a pulverização dos subsídios, sem estratégia de escolha dos temas, é precisamente uma das principais críticas feitas à actual política Governamental pelo recente Relatório da Assembleia da República sobre a Ciência em Portugal, e muito em particular por Peter Villax da Hovione e outros especialistas!
 A par desta política de financiamento público à I&D, que reflecte e promove a burocracia universitária (curiosamente, as despezas administrativas do Ministério na gestão da I&D são também motivo de nota crítica no referido relatório do Parlamento), outra faceta que tem caracterizado a política Ministerial dos últimos 15 anos tem sido a enorme proliferação de bolsas de estudo para pós-graduação.
 Antes de prosseguir gostaria de notar desde já que a história que descrevi e os problemas actuais não são exclusivamente portugueses: há grandes paralelismos com outras regiões europeias, nomeadamente espanholas, e a isso voltarei.


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A doutrina contrária ao formalismo é o realismo (do dicionário).

segunda-feira, março 28, 2011

spin-offs

Ora aqui vem um estudioso confirmar o que eu já sabia há muito mas que parece difícil de entender a quem nunca saiu da torre de marfim!

sábado, janeiro 15, 2011

2ªs notas de rodapé sobre "O papel da I&D no grupo EFACEC"

Há duas semanas postei um texto que escrevera para a Administração da EFACEC - Sistemas de Electrónica há 14 anos e, como o texto já era bastante longo, procurei não o aumentar com esclarecimentos adicionais. Há dias escrevi umas notas de rodapé sobre dois dos aspectos focados naquele texto, elaborado na perspectiva da indústria nacional, sobre o papel da componente curricular nos doutoramentos e sobre a alienação na produção de "papers" seguindo as modas americanas. Hoje vou discutir outras duas questões tratadas naquele texto, mas antes quero adicionar uns esclarecimentos às últimas notas de rodapé.

Tenho a consciência que as notas que escrevi não me tornam popular entre muitos dos meus colegas académicos, mas não é minha intenção menorizá-los ou de alguma forma feri-los; o sistema é como é e cada um joga o jogo conforme as suas regras. O que eu pretendo é reflectir sobre o país e em como a Ciência o pode servir, algo que não faço como académico de carreira mas como cidadão interventivo - porque a Ciência em si
e neutra, mas a forma como a usamos não é. Obviamente, se puder contribuir para que os meus colegas questionem o que andam cá a fazer pelos contribuintes que os sustentam, mesmo que suscite a sua discordância, já não será mau. Da parte deles, em particular neste momento de profunda crise nacional, é tudo o que desejo.

Relativamente à importância que atribuo a uma forte componente curricular nos programas de doutoramento americanos, a razão talvez precise de ser explicitada: é que se o doutoramento for visto, como deve ser visto, apenas como a formação escolar de uma posterior carreira de Investigação fora da própria Universidade, e que é a perspectiva em que há 14 anos escrevi o texto para a EFACEC, então é claro que o doutorado deve ser capaz de trabalhar em assuntos diferentes do tema específico em que se doutorou. Para isso precisa de ter aprendido a investigar (papel propriamente da tese), mas também de ter background para o fazer em temas diversos do dessa tese, e é esse o papel principal da formação curricular pós-graduada.
Um colega meu que se doutorou nos EUA há umas décadas e que depois trabalhou uns anos numa grande empresa americana, contava-me que era regra testarem ali a capacidade do doutorado recém-contratado pondo-o a investigar numa área muito diversa da da sua tese, a ver como ele se saía...

Relativamente à produção de papers pelos académicos, é também de esclarecer que embora existam técnicas alienadas de maximizar a sua produção, alienadas por sacrificarem tudo ao número desses papers, nem todos os académicos que produzem muitos papers o logram dessa forma. Alguns conseguem ir mudando de assunto e mesmo assim publicar inovações em todas as áreas. Um modelo exemplar de tal académico foi o Prof. Carlos Portela que já aqui homenageei. Claro que destes não há muitos e um sistema meramente quantitativo de ponderação de papers não os consegue distinguir, e claro que uma actividade de engenharia que permita defrontar problemas reais de natureza diferente estimula essa versatilidade (como acontecia com Carlos Portela). Só gente com essa competência multi-facetada corresponde à ideia popular que fora da Universidade se tem do "Professor", o sábio...!
Infelizmente a Universidade nos últimos tempos tem optado pela orientação de ponderar os papers não pela sua diversidade temática mas pelo número de citações de que são objecto, o que é mais uma aplicação mecânica das fórmulas americanas: nunca em tecnologia haverá muitas citações a um trabalho verdadeiramente inovador feito integralmente em Portugal num tema importante (como sucederá se tiver resultado de um projecto feito com empresas nacionais), pelo simples facto de ser feito em Portugal! É como nos produtos comerciais: a "marca Portugal" é um handicap...

   1. A importância da ligação dos projectos académicos de I&D às empresas e à sociedade em geral

No texto escrito para a EFACEC afirmava a importância da ligação da Universidade às empresas, e exemplificava com o bom resultado de anteriores projectos de I&D feitos no âmbito de contratos entre a Universidade e uma empresa, concretamente a EDP; bom resultado em termos da utilidade posterior das pessoas ali formadas para a indústria. Esta é uma questão chave para que a I&D realizada por académicos - professores e formandos - possa fertilizar o desenvolvimento económico nacional, sobretudo se, como acontece por cá, a pós-graduação for pobre em componente curricular e na versatilidade que esta proporciona.

Para começar, importa que essa ligação Universidade-empresas se materialize em projectos de I&D contratados entre a Universidade e empresas. Os projectos devem ser suscitados por problemas empresariais e traduzir-se em Investigação associada à produção de Teses de pós-graduação, que é como na Universidade de faz a I&D, ligando-a sempre à formação.
Porém, uma perversão comum deste conceito é a interacção entre a Universidade e as empresas ser gerida por cúpulas institucionais desde o início, o que fatalmente redunda em contratos feitos por conveniência política, quase sempre por empresas monopolistas de produtos não-transaccionáveis, a quem os custos incorridos são indiferentes ou dedutíveis nos impostos (portanto pagos pelo contribuinte) e onde as nomeações das Administrações dependem do poder político.
Os resultados de tais projectos, geralmente apenas umas folhas de papel impresso, vão fatalmente para umas gavetas onde ficam a ganhar pó. Podem ser bons para as estatísticas (de parte a parte), podem trazer dinheiro à Universidade e publicidade às empresas, mas o seu resultado para o que me traz aqui, o desenvolvimento do país, é zero! Ou negativo, dado que alguém terá sempre de pagar os custos incorridos, e nunca será nenhuma das partes envolvidas nestes arranjos!
Os projectos devem, por isso, ser definidos por operacionais - os directores técnicos que nas empresas têm a responsabilidade tecnológica, e os professores universitários que irão gerir a I&D correspondente.
Claro que é essencial apoio superior a essa interacção, de ambos os lados (já aqui voltarei), mas têm de ser os operacionais a definir os projectos, e essa definição tem de ser interactiva, ela própria feita por aproximações sucessivas.
Por um lado porque muitas vezes os técnicos das empresas não têm uma ideia clara das alternativas tecnológicas, ou pelo contrário presumem que a têm e querem apenas usar os recursos humanos da Universidade como extensão dos que lhes faltam na empresa ("mão de obra barata"), e por outro lado porque frequentemente os académicos querem impingir um resultado qualquer que já desenvolveram e que pouca relação tem com os problemas da empresa, ou pelo contrário não têm recursos para responder às solicitações da empresa, seja mão-de-obra (formandos), seja conhecimentos, e comprometem-se com o que não podem realizar (para "sacar dinheiro"), .
Chegar a uma boa definição do que se pode e deve fazer num projecto de I&D Universidade-empresas implica acertar nisto tudo, e por isso frequentemente uma das partes, senão ambas, sai frustrada com os resultados - geralmente a parte empresarial, razão por que muitas empresas vêm tais parcerias como uma "despesa" e não como um investimento.
Obviamente que tudo será mais fácil quanto mais o Académico e/ou os técnicos da empresa conhecerem e respeitarem o mundo da outra parte, forem tecnologicamente competentes e negociadores honestos. O ideal é mesmo o Académico estar "embebido" no universo empresarial, mas associado ao seu desenvolvimento tecnológico e não, como por vezes sucede, em Administrações distantes de tal desenvolvimento, sendo por isso que a relação de consultoria técnica é das mais adequadas a essa simbiose.
Naturalmente também se pode defender que a presença de técnicos das empresas na docência universitária é outra forma de promover a ligação da I&D empresarial com a académica, mas isso raramente sucede: infelizmente, tal como as mais das vezes os académicos estão nas empresas em funções de Administração distantes do desenvolvimento tecnológico, também os técnicos das empresas vão às Universidades apenas dar aulas (e buscar prestígio) e não têm qualquer participação na actividade de I&D que ali se desenvolve.
Os casos de maior fertilidade nesta participação de técnicos de empresa na docência universitária são aqueles em que um doutorado em Engenharia faz uma carreira de grande criatividade nas empresas e só depois acaba na Universidade. Carlos Portela foi um desses, especialmente na parte da sua vida decorrida no Brasil. O "Papa" de uma das minhas áreas de interesse também. E nem me estou a referir aos Professores que, como Ferreira Dias e quando ainda não se fazia I&D em Portugal, criaram os conteúdos e métodos das disciplinas que então se ensinavam em função do que eram as necessidades da indústria nacional onde trabalhavam. Mas isto hoje não existe em Portugal (com a excepção de Renato Morgado na Univ. do Minho)!

Finalmente, dadas todas as muitas razões para que um projecto de I&D entre a Universidade e empresas falhe, importa ainda notar que além do entrosamento competente e honesto dos operacionais de ambos os lados, é também preciso o apoio das Direcções das partes.
Nas empresas, é obviamente preciso que as Administrações comecem por considerar a inovação tecnológica como importante na estratégia da empresa, e depois que saibam gerir os seus operacionais com sabedoria - mantendo-os ligados à terra, apoiando-os na defesa dos interesses da empresa contra os desvios académicos mas vigiando o espírito de quintinha, sabendo graduar as expectativas de carreira e os estímulos materiais (perante a concorrência de procura desses Recursos Humanos) e, sobretudo, sabendo integrar organicamente os elementos formados na Universidade nesses projectos.
Em áreas que constituam novos negócios da empresa, a criação de novas estruturas organizativas correspondentes é uma boa solução, mas terá de defrontar o despeito das estruturas e ambições já existentes.
Uma variante mais elaborada da má tendência por vezes existente nas empresas de "irem à Universidade buscar mão-de-obra barata" para projectos cuja definição já foi feita na empresa (mal ou bem), é a de, embora reconhecendo inicialmente a sua incompetência em determinado assunto que lhes interesse e darem, por isso, espaço à iniciativa universitária na exploração das soluções tecnológicas, terminado o projecto contratado e levados os graduados liquidarem a continuidade da experiência, por vezes até "apagando" o papel da Universidade nos sucessos alcançados e fazendo crer que eles foram obtidos no seio da empresa. Embora empresarialmente isto possa fazer algum sentido em termos de imagem, é uma falta de visão de longo prazo que liquida a sustentabilidade destas relações.
Invariavelmente as exigências depois do dia-a-dia na empresa levam à incapacidade de acompanhamento da evolução tecnológica que vai ocorrendo e, a prazo de meia dúzia de anos, no máximo uma década, todos os frutos do projecto ficam obsoletos - com a agravante da "terra queimada" deixada na Universidade ser depois muito mais difícil de voltar a lavrar.
É certo que estas empresas pensam, por vezes, que se e quando o assunto precisar de novo projecto de I&D poderão ir bater a outra porta; mas infelizmente o nosso país quase nunca tem outra porta com a mesma competência da primeira, quando o projecto na primeira correu bem, porque só por acaso a empresa encontra "know-how" que lhe seja útil e já criado em algum Professor ou grupo de Professores, e porque é exactamente este tipo de projecto que permite orientar os Professores para o tipo de tecnologia efectivamente necessária às empresas.
Mesmo que a empresa incentive o desenvolvimento do know-how de que necessita noutra Universidade por si preferida, levará muitos anos, se chegar a suceder, para que essa Universidade possa igualar as qualidades da que com ela colaborou inicialmente.
E menciono este tipo de prática empresarial na relação com as Universidades porque ela existe e é típica da EFACEC, por exemplo. Só em desespero de causa recorre à colaboração de uma Universidades fora do "norte" e, por melhor que esses projectos lhe corram, "mata-os" uma vez acabados tentando sempre que da "próxima vez" o projecto seja feito na FEUP. O INESC-Norte agradece mas é bom registar que com tal comportamento a EFACEC se comporta, relativamente ao que não é "norte" de Portugal, como uma empresa tão ou mais estrangeira que algumas suas concorrentes. Portugal é assim...

Quanto às Universidades... são outra longa matéria, para desenvolvimento em próximo post!

   2.  Os projectos europeus de I&D

 No post original sobre a EFACEC, mencionei o afluxo dos fundos europeus na viragem da década de 80 para a de 90, e em como o INESC se tinha especializado na sua captação, coisa com que a EFACEC devia competir, na minha opinião.
Ora esta questão dos fundos e dos projectos europeus é crucial para a contribuição da I&D das nossas Universidades para o desenvolvimento da nossa economia. É crucial mas tem sido quase sempre... altamente negativa!
Negativa porque tem desviado as Universidades e Institutos para-universitários da procura de ligações à realidade nacional, sem que os projectos desenvolvidos com tais fundos tenham sequer dado algum contributo útil à Europa. Ou seja, a participação nos projectos comunitários de I&D tem um alto custo de oportunidade (o custo da perda dos benefícios dos projectos nacionais que, por causa destes, se deixaram de fazer), e o único benefício que terão é a obtenção de fundos pelas Universidades e institutos afins, que reforçam assim a tendência a se pensarem como um fim em si mesmo - tal como acontece com todas as burocracias.
Não sou o único a colocar estas questões. Na mesma altura em que as colocava à EFACEC, em 1996, elas eram discutidas no Parlamento do Reino Unido, por exemplo.
Ora os fundos "estruturais" para I&D só constituem uma parcela determinante dos seus financiamentos para os países periféricos, como se pode ver neste relatório. E, também como se pode ver neste outro trabalho (há muitos), a correlação entre o uso destes fundos e o desenvolvimento económico nas regiões europeias não é positiva.
Como compatibilizar, se tal é possível, a captação dos fundos europeus com a aplicação da I&D ao desenvolvimento das empresas nacionais (ou localizadas em Portugal) e, portanto, ao bem estar do povo português?
Sem dúvida, começando por ter objectivos nacionais, uma estratégia nacional, um plano nacional e, depois, explorando oportunisticamente esses fundos e os projectos em que vêm. Oportunisticamente significa aproveitá-los para fazer o que realmente nos interessa, de acordo com a nossa própria estratégia, sem pena da Europa porque esses projectos nunca resultam em nada nem para a própria Europa. E sobre isto termino este post, com dois louváveis exemplos do oportunismo que defendo quanto aos fundos europeus:

Há cerca de 18 anos, uma sucursal da GE norte-americana em Espanha, onde esta instalara no tempo do plano Marshall uma fábrica de equipamentos de protecção de redes eléctricas, decidiu promover um projecto de modernização dos seus equipamentos com fundos europeus. Para isso organizou um projecto de I&D multi-participado, em que até Portugal entrou, a par de empresas francesas e alemãs. E, nesse projecto, foram de facto desenvolvidas novas tecnologias, mas o projecto não chegou à criação de nenhum novo produto. E não chegou porque, entretanto, outra jogada oportunista se desenvolvera dentro do oportunismo da GE: um grupo de técnicos dessa sucursal espanhola, com o apoio de outras entidades exteriores, abandonou a empresa quando o projecto estava perto do fim e criou a primeira empresa espanhola daquela tecnologia, a ZIV. Que tem sido um sucesso...

O segundo exemplo é nacional. Há 20 anos Portugal conseguiu participar num projecto europeu para o desenvolvimento de uma nova geração de Sensores e Actuadores Inteligentes e Distribuídos. Tratava-se de um projecto visando essencialmente a melhoria da segurança de algumas indústrias químicas perigosas italianas e de centrais nucleares francesas e, portanto, a participação de Portugal surgiu por pressão política, e não por necessidade técnica. Como tal a tarefa que foi atribuída a Portugal foi secundária, a da criação da "interface homem-máquina" do sistema. Esta interface requeria por um lado vizualizações gráficas, do que se encarregou a Universidade, e de uma Base de Dados ligada em tempo real aos sensores e actuadores, de que se encarregou a EFACEC. E porque se interessou a EFACEC por tal tarefa? Porque estava interessada em desenvolver precisamente o seu know-how e produtos de Bases de Dados para Tempo Real para os sistemas de SCADA de redes eléctricas, SCADA que tinham sido estrategicamente definidos como área de negócio da empresa. E tudo correu bem (excepto que não há notícia do projecto ter tido alguma aplicação às centrais nucleares ou às fábricas de química)...!

Pessoalmente, se a participação em projectos de I&D tecnológica com fundos europeus não se puder inserir numa estratégia oportunista destas, sou contra a participação nacional. Para Portugal, os custos de oportunidade que esses projectos implicam não compensam os dinheiros obtidos.

domingo, janeiro 09, 2011

1ªs notas de rodapé sobre "O papel da I&D no grupo EFACEC"

Há umas duas semanas, postei um texto que escrevera para a Administração da EFACEC - Sistemas de Electrónica 14 anos antes, após terminar o desenvolvimento de 3 anos da primeira série de Unidades Terminais e de Protecção nacionais (para Média e Alta Tensão), no laboratório que criei para essa empresa, em Carnaxide. Como o texto já era bastante longo procurei não o alongar com esclarecimentos adicionais mas, agora e tendo em conta que os muitos anos passados trouxeram outra luz ao que então escrevera, julgo que vale a pena desenvolver e/ou discutir certas ideias presentes naquele texto, que fora escrito na perspectiva da indústria nacional, da economia, e não na dos Investigadores académicos, da Universidade!

  1. O papel da componente curricular nos doutoramentos
Afirmava eu que "a faceta das pós-graduações ameri­canas que é talvez a mais útil, a da ex­is­tência de uma com­ponente curri­cular de elevado nível e exigência, não está interiorizada (diria mesmo que mui­tas das ca­dei­ras de mestrado das escolas de eng. portuguesas são uma fraude)". Talvez se surpreenda com esta afirmação quem pense que isto de "inovação" é uma questão de "espírito positivo", de "auto-estima", de tirar umas cadeiras de "Empreendedorismo" e "Inovação". Eu penso que será isso se entendermos por "inovação" a arte da vigarice, a qual frequentemente também nos surpreende pela criatividade!
Na verdade, em tudo o que é realmente produtivo, a criação depende da fertilização cruzada de diferentes conhecimentos. E é por isso que é preciso antes de mais nada ter esses diferentes conhecimentos!
Tal como é sabido na Inteligência Artificial que, mais que a capacidade de inferência, o que mais interessa na Inteligência é a quantidade e qualidade do conhecimento sobre o qual realizar inferências, também na capacidade de inovação tecnológica importa antes de mais saber bem e muito.
O modelo de doutoramentos americanos é aquele em que se formou não só a espantosa criatividade tecnológica americana, mas também a asiática e muita da europeia!
Até há alguns anos, para se atingir um doutoramento em Engenharia nos EUA tinha-se de ter feito primeiro um Bacharelato de 4 anos, e depois um Mestrado de 2 anos, com tipicamente ano e meio de cadeiras. As cadeiras de Mestrado pertenciam a uma categoria muito mais exigente que as do Bacharelato, as de pós-graduação, e em regra apenas 1 em 4 bacharéis americanos em Eng.ª fazia o Mestrado. Porém, devido à procura por estudantes estrangeiros, o número de Mestres produzidos em Engenharia nos EUA era de facto de 1 para cada 3 Bacharéis.
Tirando a importantíssima diferenciação qualitativa entre as cadeiras de pós-graduação do Mestrado e as do Bacharelato, em número de anos curriculares a exigência não era muito superior à que tínhamos em Portugal antes de Bolonha (mais meio ano, e mais outro tanto para a Tese) e era mesmo igual á que existia até 1970 (quando as licenciaturas em Eng.ª eram de 6 anos em Portugal). Havia também nos EUA Mestrados profissionais, sem Tese, e que em vez desta tinham (mais) cadeiras.
Ora o doutoramento americano requeria em regra mais outro tanto de cadeiras de pós-graduação (portanto, tipicamente mais ano e meio), o que totalizava 7 anos de cadeiras, dos quais 3 de nível superior. 
Quando o Mestrado em Engenharia surgiu em Portugal, em 1983, além de exigir a licenciatura prévia de 5 anos, exigia também que esta tivesse sido feita com média de pelo menos 14 valores. As cadeiras estendiam-se por um ano e pode-se dizer, portanto, que nessa altura o Mestrado português em Eng.ª equivalia ao americano, do qual fora aliás em alguns casos simplesmente copiado, nomeadamente a nível dos conteúdos curriculares. Foi a época da criação do INESC e da explosão de doutoramentos em geral. Estes doutoramentos, porém, continuavam a não ter componente curricular, na tradição europeia de origem alemã, e daí as minhas críticas observações no texto feito para a EFACEC.
Compare-se isto com o que trouxe Bolonha: "licenciaturas" de 3 anos, e um Mestrado de 5 com apenas 4 anos e meio de cadeiras, e sem pré-selecção entre uma coisa e outra!
Por outro lado os doutoramentos agora disponíveis seguem o modelo de Bolonha (3º ciclo),alguns em parceria com Universidades americanas, nomeadamente no âmbito do "MIT-Portugal", mas onde se tem apenas um ano de cadeiras (no caso do MIT-Portugal, de qualidade mais que duvidosa!...).
Ou seja: com Bolonha, a componente curricular do doutoramento totaliza agora 5 anos e meio, menos que um Mestrado dos anos 80/90 e tanto como um Mestrado americano, além de que deixou de existir o requisito de ter feito o grau anterior com pelo menos 14 valores!
Por outro lado, a Tese que antes não tinha componente curricular mas se estendia em regra por 4 ou 5 anos, agora é para 2 anos.
Em suma: o Mestrado actual curricularmente é menos do que a antiga licenciatura, e o Doutoramento actual totaliza menos cadeiras que o Mestrado dos anos 80/90, para já nem falar no doutoramento americano...
Quanto ao Doutoramento antigo, de tipicamente de 5 anos de Tese, pura e simplesmente desapareceu. Não há. Nem o correspondente treino de I&D!...


          2. A alienação na produção de "papers" seguindo as modas americanas


Outra coisa que mencionava no referido texto, escrito há 14 anos, era a "perversão dos “papers” como um fim em si, levando a técnicas de publicação por recombinação de todo o tipo de no­vas modas, e da perversão dessas próprias modas, nascidas muitas vezes de resul­ta­dos obtidos na I&D de aplicação militar (o que é oculto mas ocupa mais de 50% da I&D uni­ver­sitária norte-americana), com fraca relação com os problemas in­dustriais".
Uma máxima que governa a carreira académica americana é: publish or perish!
A ideia subjacente é que a Investigação produzida se traduz sempre em papers, publicações avalizadas por pares (referees), privilegiando-se as publicadas em revistas (definitivas, arquiváveis em bibliotecas), sobre as publicadas apenas em Conferências (visando trocas de impressões com pares sobre os mais recentes resultados).
Porém, como a carreira académica depende sobretudo do número destas publicações, um académico tende a dedicar todo o esforço a isso, tornando a publicação do máximo número de papers o seu principal objectivo na vida. E para este efeito (publicação do máximo número de papers) existem várias técnicas, como por exemplo:
 - Conseguir que num assunto qualquer muito específico se seja uma referência mundial, e depois nunca mais largar esse assunto, explorando-o de todas as perspectivas possíveis e fazendo raides sobre assuntos conexos, mas sempre centrados no referido assunto, ganhando assim uma imagem de autoridade na matéria e trabalhando para a manutenção dessa imagem. Pode-se não saber mais nada de coisa nenhuma e o tal assunto ser irrelevante, mas se naquele assunto muito específico se publicar muito, a carreira académica é garantida e pode-se mesmo chegar a ser considerado um sábio!
- Seguir as últimas modas. Quando as modas aparecem, é fácil a qualquer trabalho que as aplique ser publicado, porque será sempre inovador desde que se mantenha na crista da onda da moda (que, como as ondas, morrem na praia e são substituídas por modas novas). Exemplos passados: Inteligência Artificial, redes neuronais, agentes, etc... A moda desta estação: smart grids!


O Ministério da I&D considera essencial publicar muito e ufana-se da melhoria estatística que se consiga nessa matéria, mas as empresas que produzem bens transaccionáveis, isto é, as que não dependem de favores estatais para a vida mas sim de terem capacidade competitiva, como a EFACEC, abominam os papers. Se há coisa que com toda a justiça detestam é que um investigador seu esteja preocupado em publicar, em vez de terminar o novo produto no prazo curto que a concorrência exige! E também não lêem papers - porque, obviamente, papers sobre assuntos exotéricos muito especializados ou sobre modas de ocasião desligadas da realidade em nada contribuem para a competitividade das empresas!
Quando muito, os únicos papers que lhes poderão interessa publicar, e às empresas compradoras de bens de equipamento ler, são que se apresentam em algumas Conferências em que também haja Exposições de novos equipamentos!
Claro que neste contexto de subordinação à produção e comercialização, durante os 7 anos em que colaborei com a EFACEC só publiquei alguns papers e em conferências dessas, os quais são irrelevantes para efeitos de carreira académica...
Quanto às modas tecnológicas, vale a pena mencionar ainda alguns exemplos de disparidade entre elas e as necessidades empresariais. Nos anos 80/90 a grande moda era a Inteligência Artificial. No Porto houve um doutoramento de alguém que durante vários anos desenvolveu uma aplicação de Inteligência Artificial para a gestão das avalanches de alarmes geradas nos centros de controlo da rede eléctrica de Muito Alta Tensão em caso de incidentes; mas, ao mesmo tempo, um eng.º desses centros desenvolveu em apenas alguns meses um programa que fazia exactamente a mesma coisa mas usando apenas o seu bom senso. Outro exemplo são os algoritmos baseados em redes neuronais para a identificação de padrões de incidentes nas redes eléctricas e de que há anos se publicam inúmeros papers: não há um único em comercialização. Os algoritmos clássicos servem perfeitamente, e os problemas reais que existem têm a ver é com as redes e protocolos de comunicação, e nada com redes neuronais!
Donde vêm, então, essas modas? Não o posso provar (dado o secretismo inerente), mas estou convencido que vêm da I&D militar, que nos EUA despende 58% dos recursos pagos pelo Estado em I&D. Senão, vejamos: a moda da Inteligência Artificial nos anos 80 é contemporânea do projecto de Reagan para a "guerra das estrelas", cujo principal problema tecnológico era o sistema automático de gestão de batalha, capaz de se auto-reconfigurar, e onde aquela tecnologia parecia ser a solução; as redes neuronais são óptimas para o reconhecimento automático de alvos militares por satélites, ou de caras de suspeitos por redes de videovigilância.
É sabido que estas tecnologias procuram, depois de desenvolvidas, aplicações civis que as rentabilizem, e é assim que estou convencido que passam dos Departamentos de Controlo e Robótica onde são desenvolvidas nos EUA para os outros Departamentos académicos. E, a propósito, é discutível o peso que têm em Portugal esses Departamentos académicos, dado não termos indústria de Defesa; andam, assim, entretidos a desenvolver robots para jogar futebol e outros brinquedos, suportados pelo erário público, em vez de estarem a desenvolver o "drône" português ou torpedos mais inteligentes para os novos submarinos, ou então serem reestruturados em algo de útil...

terça-feira, dezembro 28, 2010

O papel da I&D no grupo EFACEC e os seus condicionamentos


Há 14 anos, estava a desenvolver na EFACEC - Sistemas de Electrónica com alunos e um assistente que para lá levara comigo as Unidades Terminais (de SCADA) e de Protecção de Subestações (TPU, Terminal and Protection Unities), e foi-me pedido pelo Director de área que contribuísse para uma reflexão então em curso na empresa sobre as suas perspectivas de internacionalização. O que se segue é o documento interno que redigi em resposta a este pedido e que correspondia ao que pensava da política de I&D tecnológica e que hoje, mais que nunca, se encontra em oposição ao pensamento dominante - não só no Ministério de Mariano Gago, como também na minha própria Universidade, aliás alinhada com o poder (como sempre). Em 14 anos algumas coisas mudaram, mas na maioria para pior - e por isso creio ser oportuno atirar esta pedrada ao charco!
A EFACEC é o maior grupo industrial privado nacional. É também, segundo números publi­ca­dos na imprensa, a entidade empresarial que maior despesa consagra à actividade de I&D (embora estes números possam estar algo empolados por uma arte bem desenvolvida e não criticável de captação de subsídios para I&D) [Nota: como vêm, não falo grátis quando falo de I&D "fiscal", mas naquele tempo os subsídios vinham essencialmente de fundos europeus, pelo PEDIP-"Medida 3" de Mira Amaral]. Mais importante ainda, a EFACEC se­gue per­sistentemente uma estratégia de internacionalização como resposta ao desafio da in­tegração europeia, e aposta no desen­volvimento de tecnologia própria como suporte para tal. São mui­tíssimo raras as empresas nacionais que fazem tal aposta, a qual, com todas as difi­culdades, é certamente a única que pode possibilitar um futuro ao país no 1º Mundo.
E no entanto, o grau de desenvolvimento tecnológico da EFACEC é baixo. Tal deriva de ra­zões históricas, começando pelo facto de o próprio aparecimento da EFACEC, há cerca de 50 anos, ter ocorrido um século depois do de empresas como a SIEMENS, quando os capi­tais acumulados com a neutralidade do país na II Guerra Mundial e a visão do minis­tro eng.º Fer­reira Dias o permitiram. Um século depois do nascimento das grandes empresas suas competi­doras e, o que é bem mais grave, sem tecnologia própria, ao contrário daquelas!...
Depois disso, e sem deixar de reconhecer a justeza da estratégia de protecção à nossa indústria nascente, trinta anos de aversão à liberdade de mercado e, portanto, de ausência de estímulo à ino­vação como factor de competitividade, não permitiram mais do que iniciativas isoladas como as dos estudos experimentais em transformadores do eng.º Renato Morgado, ou a aprendi­zagem empírica de algumas técnicas quando das visitas à ACEC ou resultantes da aná­lise cuidada a que os projec­tos licenciados sempre foram sujeitos. Esse torpor tec­noló­gico nes­ses 30 anos foi, aliás, geral no país - não esqueçamos que foi apenas nos anos 70 que chegaram ao país os primeiros en­genheiros doutorados no estrangeiro, onde haviam realizado Investiga­ção, e ainda por cima a maior parte deles no sofrível sistema britânico [Nota: no Reino Unido um licenciado brilhante do IST fazia o doutoramento em 2 anos, enquanto nos EUA nunca o fazia em menos de 4; o próprio IEEE considerava o doutoramento britânico um meio termos entre as teses de mestrado e as de doutoramento americanas. Mas hoje penso que apesar disso esses doutoramentos britânicos tinham também a grande virtude de "virarem" para a sociedade concreta].
O esforço de aquisição de competências próprias na globalidade das actividades industriais da EFACEC teria sempre de ser, com tal passado, impossível, dada a pe­que­nez do mercado naci­o­nal, mesmo se ele fosse totalmente protegido. Por isso, e por causa tam­bém das peias resul­tantes da de­pendência da ACEC, a administra­ção da empresa apostou, e bem, na Electrónica Industrial como área nova e prioritária de desen­volvimento tecnológico, numa estratégia bem explicada por Renato Morgado em 1983. Porém, a integração europeia realizada na última dé­cada, se veio tornar ainda mais urgente a aquisição de competências pró­prias traduzidas em produtos capazes de competir nos mercados globalizados, veio por outro lado agravar a com­petição no próprio mercado nacional, re­du­zindo com isso os volumes de vendas e praticamente anulando as margens de comercialização e, em consequên­cia, a disponibilidade de meios de in­vestimento para a aquisição das referidas com­petências. Competências que têm duas vertentes: a tecnoló­gica e a comercial. Mas, sendo reconhe­cida a extraordinária habilidade comercial da empresa, é certamente na disponibilidade de produtos de concepção própria e capazes de ofe­recerem vantagens competitivas no mercado internacional que reside a grande dificuldade da internacionalização - e, portanto, da própria sobrevivência.
A referida escassez de meios de investimento é entretanto compensada pela disponibilidade tem­po­rária de fun­dos europeus, pelo que as maiores dificuldades ao referido desenvolvimento de com­petências não se situarão na escassez de dinheiro. Mas, sendo esses fundos de dis­poni­bili­dade tem­porária, é compreensível que a empresa desenvolva uma corrida contra o tempo e só endogenize na sua es­trutura os Recursos que forem sendo capazes de se auto-sustentar - isto é, cuja criação de ri­queza prove a sua viabilidade.
A esta encruzilhada difícil que é, em grande medida, a do próprio país, junta-se um contexto tec­nológico nacional desfavorável - isto é, os parcos Recursos Huma­nos existentes, concentra­dos na Universidade e desenvolvidos aí ao longo dos anos 80, não têm uma cultura de apoio à indústria, pela qual têm, aliás, um considerável des­prezo, um muito disseminado desconheci­mento das capaci­dades exis­tentes, e uma fre­quente visão das empresas como galinhas de ovos de ouro a ex­plorar em benefício da Uni­versidade, vista como fim em si.
Esta situação resulta de diversos factores, de que os mais importantes serão:
1) uma cultura aristocrática na Universidade, tradicional até aos anos 70, mas ainda presente em muitos doutorados sobre­tudo dessa década, e que se manifesta no próprio facto de terem na maioria feito doutoramen­tos no Reino Unido e não nos Estados Unidos da América - isto é, mais que com­petências, obtive­ram um título nobiliárquico de prestígio. Tal espírito con­tras­ta, por e­xem­plo, com a ati­tude corrente dos asiáticos que se doutoram nos EUA, país em que, devido sobretudo à realiza­ção de cadeiras de pós-graduação tanto no mestrado como no dou­toramento, estes graus têm uma qualidade muito supe­rior à eu­ropeia. Ora é prá­tica corrente nos EUA os asiáticos re­a­lizarem estágios em empre­sas ameri­canas após os douto­ramentos e antes de re­gressarem aos seus países - isto é, não só adquirem o “background” cur­ricular e a capacidade de iniciativa em I&D, como treinam de­pois a sua aplicação no ambi­ente em­pre­sa­r­ial. É que o seu objectivo não é a ob­tenção de um título no­biliárquico para faze­rem car­reira nas Universi­dades públicas dos seus países, mas sim o de ad­quirirem competências úteis à actividade em­presarial. No nosso país, currículos desses con­tam-se pelos dedos - Tribo­let, Fon­seca de Moura, Salcedo, etc. Claro que o ambiente na­cional dos anos 70 tam­bém não fa­vorecia uma estratégia de pós-graduações no estrangeiro visando a aquisição de com­petên­cias de utilidade empresarial...! Que empresas tin­ha al­guma vez havido, em Por­tu­gal, que produzis­sem baseadas em tec­nologia própria, tec­nologia de ponta da que se aprendia no es­trangeiro e que é preciso manter em desen­volvimento? Seja como for, o certo é que tal men­ta­li­dade aris­tocrática que despreza a noção de produção de ri­queza e procura a pura “realização in­telec­tual”, existe. E se ela é infelizmente im­por­tante nas Uni­versidades, nos labo­ratórios do Estado é mesmo um verdadeiro paradigma...
2) Outro factor crucial que, na Universidade, se opõe à criação de tecnologia de apli­cação em­pre­sarial é a adopção do modelo norte-americano. Neste modelo, é a pro­dução de I&D tradu­zida em “papers” que determina a valorização dos currículos e, como consequência, da pro­gressão na car­reira. Ora os “papers” só são possíveis nas áreas de con­hecimento em que, em absoluto mundial, haja inovação. O modelo norte-americano pressupõe que serão depois as empresas, ou os labo­ratórios do Estado, quem fará o Desen­volvimento e as aplicações comer­ciais. Esse sistema funciona bem nos EUA, com a Universidade a fazer principalmente a In­ves­tigação de alto risco, alargando as fronteiras do conhecimento, e as empresas a faze­rem o De­s­envolvimento, aplicando o melhor daquele conhecimento e desenvolvendo as tec­nologias ren­táveis. O problema é que este modelo é bom para países em que é a indústria que detém o “know-how” aplicado, que o desenvolve e con­cretiza; mas nos países em que a in­d­ús­tria não tem esse “know-how” e pre­cisa de redescobrir muito do que, em ab­soluto mun­dial, já é co­n­he­cido (mas não divul­gado), o modelo norte-americano pro­duz um fosso en­tre os in­teresses tec­nológicos da indústria e os da Universidade. A existência deste fosso no nosso país foi bem apontada por Renato Morgado diversas vezes nos anos 80. Na prática ele traduz-se em que para um Universitário promissor, capaz de se en­volver na com­petição por uma car­reira, os te­mas de I&D capazes de o interessarem só po­dem ser os propiciadores de “papers” e não os de produtos. De “papers” aceitáveis em revistas geralmente editadas nos EUA...
Além deste fosso entre os interesses tecnológicos da Universidade e os das em­pre­sas portu­guesas, gerado pelo modelo norte-americano, acontece que infelizmente o próprio modelo norte-ame­ri­cano tende a ser aplicado, nas Universidades portuguesas, de forma degradada. Tal de­grada­ção mani­festa-se no baixo nível de muitas das cadeiras de pós-gradua­ção ensinadas nos mestrados (cuja e­x­is­tência no país, é de recor­dar, tem pouco mais de uma dé­cada) [Nota: os mestrados de que estava aqui a falar não têm nada a ver com os actuais de Bolonha!], e na inexis­tência de cadeiras no doutoramento - ou seja, a faceta das pós-graduações ameri­canas que é talvez a mais útil, a da ex­is­tência de uma com­ponente curri­cular de elevado nível e exigência, não está interiorizada (diria mesmo que mui­tas das ca­dei­ras de mestrado das escolas de eng. portuguesas são uma fraude)! Por outro lado, o grau de exi­gência das Teses de Mestrado e de Doutoramento nacionais nada têm tido a ver, em anos re­centes, com o das norte-americanas.
Esta degradação resulta em primeiro lugar de muitos dos docentes da pós-graduação não te­rem, eles próprios, realizado qualquer estudo curricular nas suas pós-graduações: ou por que as fizeram no Reino Unido ou França, onde tal prática não existe, ou por que as fizeram em Portugal antes da existência de mestrados, ou por que já as fizeram no actual sistema de­gra­dado - reproduzindo e acentuando o seu baixo nível. A invocação, por vezes exprimida, de que as licenciaturas portuguesas de 5 anos já incorporam o conteúdo das cadei­ras de pós-gradua­ção norte-americanas, esquece a tremenda diferença de nível e de exigência dessas cadei­ras - re­sultante, antes de mais, da pré-se­lecção dos alunos feita, no sistema americano, pela separa­ção do bacharelato relativamente ao mestrado, permitindo exigir nes­te incom­paravel­mente mais, e por a admissão aos doutoramentos exigir a aprovação com "A" em todas as cadei­ras pré-condicionantes!...
A importação do modelo norte-americano de valores Universitários só adoptou, infelizmente e em regra, a valorização dos “papers” como medida de competitividade, não conseguindo in­corporar a elevada qualidade das suas pós-graduações. Ora esta valorização tende por sua vez a sofrer da perversão dos “papers” como um fim em si, levando a técnicas de publicação por recombinação de todo o tipo de no­vas modas, e da perversão dessas próprias modas, nascidas muitas vezes de resul­ta­dos obtidos na I&D de aplicação militar (o que é oculto mas ocupa mais de 50% da I&D uni­ver­sitária norte-americana), com fraca relação com os problemas in­dustri­ais.
O facto é que, tal como a mentalidade aristocrática, o modelo de valores norte-ameri­canos na Uni­versidade é um facto incontornável. Certo é que haverá sempre indivíduos excepcionais que mesmo no ambiente descrito, ou até sem passarem pela pós-graduação universitária, con­seguem obter um conhecimento aplicável de elevado valor empresarial. Mas são essencial­mente auto-didactas, como tal em pequeno número, um número claramente insuficiente para as necessidades de desen­volvimento tecnológico sustentado da EFACEC.
3) Finalmente, o factor INESC. Ao contrário dos dois factores anteriores que se divorciam das es­tratégias de desenvolvimento tecnológico empresarial e, em particular, da do Grupo EFA­CEC, o INESC não recusa o Desenvolvimento de tecnologia aplicada em produtos. Porém, a forma como o faz é inconsequente e, muitas vezes, oposta ao real desenvolvimento tec­noló­gico empresarial e à correspondente criação de riqueza.
O INESC foi criado em 1981 (na mesma altura que a EFACEC/SE...), pelo Prof. Tribolet, tendo como modelo os laboratórios Bell dos EUA. Tanto estes laboratórios da ATT em que Tribolet esta­giou, como o MIT onde se doutorou, são as grandes referências da sua actua­ção. À época da sua criação, o I­NESC constituiu uma verdadeira revolução nacional no panorama tec­noló­gico então cir­cunscrito à Universidade e defrontou, com êxito, a oposição da cultura aris­tocrá­tica domi­nante, aliando-se aos defensores do modelo Universitário norte-americano, lide­rados pelo Prof. Fon­seca de Moura. A revolução consistiu essencialmente na defesa da In­ves­tigação Aplicada, na do De­sen­volvimento Tecnológico, e na ligação às em­presas CTT e TLP, con­gé­neres nacionais da ATT americana numa relação replicante da que os laboratórios Bell têm com a ATT.
Em meia dúzia de anos o INESC atingiu um inegável sucesso: 1) galvanizou um largo con­junto de professores e de alunos para o seu projecto, em muitos casos por motivos ge­ne­ro­sos, particular­mente entre os jovens; 2) Criou uma estrutura que rapidamente se tornou a mais efi­caz no país na captação de subsídios à I&D; 3) Conseguiu criar uma imagem nacional de ins­ti­tuição tecnologica­mente competente e disponível, vindo aliás a determinar, em grande medida, as es­tratégias governa­mentais na primeira metade dos anos 90; 4) estendeu-se a quase todas as Universidades e atingiu uma grande dimensão em quadros.
Apesar da inegável inovação que o INESC constituiu na História da engenharia nacional, ele tem geralmente falhado no seu objectivo primordial inicial: a transferência de tecnologia para o tecido económico existente. E isso resulta, sem dúvida, de uma errada filosofia que consiste em pen­sar a tecnologia, nascida da Investigação Universitária, no seguimento das modas e ten­dên­cias norte-americanas, como o primeiro objectivo para o qual há depois que procurar apli­cação económica - ou seja, em pensar a Universidade e não as empresas em mercado como o motor do de­sen­volvimento eco­nómico...!
Esta filosofia foi sobejamente demonstrada pela História como incapaz de criar os resulta­dos indica­dos, acabando sempre, inclusive nos laboratórios Bell em que se inspirou, por gerar apa­relhos pesa­dos e improdutivos que se tornam, por força das coisas, um fim em si mesmo - aca­bando a competir contra as entidades económicas que pretendiam inicialmente servir, pe­los Recursos Humanos, pelos subsídios, e, em certos casos, pelos próprios mercados.
Esta filosofia só é possível por que a actividade económica não é a fonte que sustenta as suas estru­turas. O INESC vive à custa do Estado - através da Universidade que lhe paga os Profes­sores e lhe cede os alunos, e dos subsídios para I&D e “formação” profissional. Os produtos resultantes da sua tec­nolo­gia não são o seu ganha-pão. E esta irrealidade acaba por ser, pelas razões oportuna­mente explicadas por Michael Porter, um travão à viabilização económica da I&D empresarial.
Na EFACEC e outras empresas existe, pelo contrário, a saudável noção de que o seu objec­tivo fi­nal são as vendas e as margens - ou seja, o dinheiro - e que a tecnologia é um meio, por ve­zes, de conseguir esse fim. Esta é, sem dúvida, a única perspectiva que pode fazer da tec­nolo­gia uma fonte de riqueza. A perspectiva que parte das necessidades do mercado para o Desen­vol­vimento de pro­dutos, e deste para a Investigação, e não ao contrário...
Porém, uma excessiva polarização no esforço de vendas e de aumento de margens pode tam­bém fazer perder de vista a necessária cadeia de criação tecnológica. No limite, a atenção pode centrar-se de tal forma nas vendas que tenda a tornar-se uma actividade eminentemente co­mer­cial, pouco in­teressa de quê, e a procurar margens na redução de custos até à auto­fagia! Quando o mer­cado exige depois a disponibilidade de produtos incorporando uma tec­nologia inexistente, a solução de recurso à Universidade ou INESC descobre, com frequência, a ine­xis­tência de conhecimentos e pessoas utilizáveis.

Do que foi dito resulta que é minha opinião que, numa perspectiva estratégica de longo prazo, a EFACEC deve procurar garantir o controlo da cadeia de criação tecnológica desde a sua ori­gem, a Investigação aplicada e a formação que lhe está associada nas Universidades.
O Desenvolvimento de produtos não deve ser realizado na Universidade. A Universidade visa e deve visar a obtenção de conhecimentos e o seu ensino e, por conseguinte, deve centrar-se na In­vestigação associada a Teses - de licenciatura, de mestrado e de doutoramento.
O De­senvolvimento visa a criação de produtos vendáveis em mercados abertos, e portanto deve ser orientada por objectivos comerciais, ter em conta desde a concepção os custos de produção e de compo­nentes, contemplar os aspectos de imagem, o design e as interfaces Ho­mem-Máquina, guiar-se por preços-objectivo e pelas soluções da concorrência, e ser go­v­er­nada pelas regras da Pro­priedade Intelectual. Estes aspectos só são possíveis no interior de empresas, num ambiente em­presarial fortemente integrado, nunca num ambiente de Ensi­no!
A EFACEC deve pugnar junto do Governo para que os subsídios que têm sido destinados ao IN­ESC e utilizados para projectos de Desenvolvimento, sejam canalizados para as em­presas, e em particular para a EFACEC. Tal transferência de fundos, que poderá ser subs­tan­cial, poderá permitir à EFACEC desviar parte dos Recursos Humanos e materiais do INESC para seu próprio uso (notícias recentes parecem indicar uma reorientação positiva dos finan­ci­amentos estatais nesta direcção).
Por outro lado, a política de subsidiação da Investigação Universitária deverá ser também de­finida em estruturas consultivas do Estado em que a EFACEC - e eventualmente outras em­pre­sas - ten­ham um papel determinante. Esta é a fórmula sueca, por exemplo.
Mas, reconhecendo à Universidade o papel de efectuar a Investigação e a formação associada, e não pretendendo degradar esse papel com objectivos oportunistas de exploração de mão de obra barata, é necessário que a EFACEC possua uma noção clara das áreas em que lhe interessa estrategicamente ter “know-how”, o que por sua vez exige recur­sos próprios de elevado nível. Na prática, a associação a Professores universitários em áreas chave poderá ser uma solução - elementos que ajam, claro, como agentes da EFACEC na Universi­dade, e não o con­trário.
Note-se que o oportunismo não consiste, naturalmente, em exigir trabalho gratuito a estudan­tes, ou em exigi-lo em quantidade. Nem tão pouco em querer que o façam para benefício de uma empresa externa à Universidade, desde que não se perca de vista que o referido trabalho gratuito é um inves­timento do estudante e das suas famílias visando a sua formação. O opor­tunismo reside em sacrificar a aquisição de conhecimentos técnico-científicos à produção de resultados comercializáveis acaba­dos, já que não é esta a função da Escola. No entanto, a aprendizagem de matiz nitidamente profis­sionalizante no interior das empresas é possível e mesmo desejável - como estágios.
Há também que ter em conta que por Investigação se não en­tende apenas a Investigação te­ó­rica dos grandes temas, ou seja, a correspondente às Teses de doutoramento - mas sobretudo a Investi­gação aplicada de certos assuntos ou pro­blemas bem definidos e mais ou menos com­plexos, que podem ir desde o estudo das po­tencia­lidades de um novo microcontrolador para alguma aplicação específica, à implemen­tação de um algoritmo de estimação de estado num certo ambiente de soft­ware. Investiga­ções, por ou­tras palavras, adequadas a Teses de Licencia­tura (sem tradição no nosso país mas equivalentes a Trabalhos Finais de Curso) ou de Mes­trado - dado que toda a Inves­ti­ga­ção Universitária tem ser capaz de se traduzir numa formação académica bem identificada ou é oportunista. Desde que estas condições sejam verificadas, só se pode desejar que toda a actividade de Investigação seja do interesse das empresas e susci­tada por elas, não faltando na EFACEC os temas que a motivem.
Entretanto, é de sublinhar a importância que tiveram dois projectos de I&D desenvolvidos sob contrato entre a Indústria e a Universidade, para a formação de dois engenheiros que aliam, nas suas competências, a formação tradicional em Sistemas de Energia com o domínio de no­vas tecnologias informáticas, e que são dos raros, no país, a possuir as aptidões de que a EFACEC necessita. Não há qualquer dúvida de que re­sultaram do facto de os seus trabalhos de Investigação terem sido orientados por necessida­des industriais (embora da EDP, em ambos os casos).
Para que esta subordinação da Universidade seja possível, é necessário desenvolver uma estra­tégia de relacionamento institucional com a Universidade. O limite desejável será gerir uma Uni­ver­si­dade em parceria com outras empresas e determinados organismos do Estado, como é bom e­xemplo o SUPÉLEC, sem dúvida a Universidade francesa que maior prestígio tem con­se­guido nos últimos anos, e cujos “papers” são do melhor que se tem pu­bli­cado re­centemente no estudo de problemas bem reais, usando com alto ní­vel no­vas ferramentas mas bem adequa­das a esses proble­mas...
Tal limite será difícil no nosso pequeno país, a curto prazo. A alternativa poderá ser, então, uma es­tratégia de aliança a grupos de Professores visando a tomada do poder interno de al­guma(s) Univer­sidade(s) existente(s), estratégia do tipo da que o INESC desenvolve como grupo na Univer­sidade, o que requer meios de pressão e de atracção - provavelmente o poder de, através do Estado, definir as políticas de subsidiação da Investigação Universitária.

Muito do que aqui exprimia em Janeiro de 1997 ficou desactualizado com a adopção de Bolonha, na última década. E, por outro lado, no que respeita especificamente à EFACEC, pode-se dizer que ela prosseguiu esta visão mas muito moderadamente e circuncrevendo-se à FEUP, onde o INESC-Porto conseguiu escapar à voragem estatista e pior que aristocrática, cortesã (numa tradição nossa milenar que não enfraquece), que os Governos do PS trouxeram consigo como modelo à I&D tecnológica. Conseguiu até passar a ter enorme influência sobre o Governo dos "mouros", enquanto preservava a sua estratégia própria.
Pena é que reine ali um regionalismo radical e auto-exclusivo da nação no seu todo.