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domingo, outubro 30, 2011

Smartgrids: Fantasia e realidade. Parte IV: os roteiros de Portugal

Há cerca de um ano iniciei uma série de posts sobre as smartgrids, começando por uma apreciação do roteiro europeu.
Dias depois acrescentei uma apreciação do roteiro norte-americano, e a seguir do roteiro da China, onde concluía com um sublinhado da importância de normas internacionais, standards, de comunicação informática para a viabilização das smartgrids em larga escala.
Neste último post anunciava que terminaria a série com um post final sobre as perspectivas portuguesas, mas passaria um ano até que as condições para isso estivessem maduras, coisa que considero estar neste momento. No último número (3º) da revista Energia e Futuro publiquei um artigo de síntese sobre o assunto, de que respigo aqui as conclusões:
7.    Lições do périplo e opções para o roteiro português nas smartgrids
Portugal, como já foi referido, adoptou na década transacta a visão europeia mais utópica  das smartgrids, com um firme apoio do Governo e das empresas de electricidade em que este detinha golden-shares. Exemplos da promoção governamental desta visão foram o projecto “Green Islands” para os Açores, e na EDP uma experiência de instalação de smart meters foi reali­zada na cidade de Évora, embora ainda não sejam conhecidos resultados práticos da mesma. No entanto, o périplo que aqui se fez pelos diversos roteiros para as smartgrids nos grandes blocos mundiais permite suportar as seguintes lições:
I.     O objectivo principal da instalação de smart meters, como componente das smartgrids, é o suporte de tarifas de electricidade volá­teis e rapidamente variáveis que reflictam a disponibi­li­dade intermitente da energia gerada por fontes eólicas e solares, supostas dominantes ou mesmo exclusivas no mix elec­tro-produtor; um objectivo secundário mas importante nos EUA é uma racionalização dos consumos e correspondente redução. Um outro propósito pode exis­tir, o da redução de “per­das comerciais” (fraudes e furtos) quando estas são signifi­cativas [1], moti­va­ção princi­pal da Itália quando iniciou a instalação de smart meters em larga escala em 2006; mas este propósito pouco tem a ver com smart­grids.
II.     A operacionalização dos smart meters acarreta sempre, no actual estado da tecnologia, um subs­tancial agravamento de custos [2], agravado pelo contexto de uma geração predominante intermitente que arrasta uma subida generalizada das tarifas. Este aumento de custos sus­cita reacções negativas dos consumidores que são dificil­mente suportáveis pelos operadores em ambientes democráticos, e os estudos realizados na Europa sobre a rentabilidade do investi­mento em smart meters têm sido todos negativos (excepto quando as “perdas comerciais” evi­tadas são importantes).
III.     As experiências americanas mostram que a racionalização de consumos e alguma adaptação dos mesmos à intermitência da geração (reflectida nas tarifas) só é aceite por parte conside­rá­vel dos consumidores se: 1) lhes proporcionar ganhos económicos; 2) não causar descon­forto excessivo; 3) garantir a privacidade e permitir dizer “não”; 4) exigir uma intervenção mínima, intuitiva e livre (do tipo “carregar num botão”). Estes requisitos só podem ser satisfeitos por sistemas intei­ramente automáticos que liguem em rede aparelhos consumidores e electrodomésticos aos smart meters, sistemas esses de baixo custo. Este baixo custo requer, por sua vez, a existên­cia de normas de comu­nica­ção para essas redes domésticas que permita a interoperabilidade de novos apa­relhos consumidores fabricáveis em massa, garantindo, assim, a concorrência e a ino­vação. Estas normas ainda não existem e, sem elas, não haverá fabri­cação dos referidos apare­lhos “smart” e, sem estes, não haverá “gestão da pro­cura” em escala significativa.
IV.     Dos pontos anteriores conclui-se que a “gestão da procura” numa escala económica e sistemi­camente significativa não ocorrerá enquanto uma nova tecnologia de redes de comu­nicações domésticas e respectivos aparelhos de consumo se não desenvolver em larga escala, o que não sucederá previsivelmente antes de uma década (a um nível capaz de ter impacto), opinião esta partilhada pela China. Dada por um lado a fra­queza da indús­tria por­tuguesa de electro­do­mésti­cos e outros aparelhos de consumo em Baixa Tensão, e por outro lado a natureza de mer­cado verdadeiramente global de produtos em jogo nestas tec­nologias, não parece que Portugal tenha um interesse prioritário em disputar lide­ranças nesta frente tecnológica das smart­grids.
V.     As micro-redes não se concretizarão, a não ser em certas instalações militares. Uma super-rede continental europeia, pelo contrário, poderá vir a materializar-se, se resolver algumas questões de soberania, mas Portugal não tem condições geográficas adequadas a uma signifi­ca­tiva inter­venção no assunto.
VI.     Nem a “gestão da procura” nem as “super-redes”, que em todo o caso não se materializarão no futuro próximo, resolverão completamente o problema da intermitência de uma exces­siva gera­ção eólica e fotovoltaica. Os EUA, a China e diversos países europeus (da Polónia à Holanda) pla­neiam, por isso, uma importante componente nuclear no mix descarbonizado de geração eléc­trica.
VII.     Qualquer instalação em larga escala de tecnologias “smart” nas redes eléctricas exige a adopção internacional de normas de comunicação. Recentemente a Europa, os EUA e a China chegaram a consenso sobre essas normas, mas apenas no domínio da ciber­segurança e das comunicações usadas nas redes de Média e de Alta Ten­são.
O último ponto tem um particular interesse se se considerarem as tecnologias de Automatização das redes de Média e Alta Tensão (Distribuição e Transmissão), ou seja, as redes que se situam entre as de Baixa Tensão das micro-redes e as especiais em Muito Alta Tensão das super-redes. Um estudo do mercado norte-americano[3] em que, como se viu, a modernização das redes EXISTEN­TES e do seu controlo informático é um dos pilares do projecto das smartgrids, perspec­tiva: “Uma infra-estrutura avançada de contagem e smart meters são as tecnologias fundacionais da rede eléctrica “smart”. Mas esta é mais do que contadores domésticos inteligentes.… Há outros projectos em fases iniciais de implementação de tecnologias e conceitos mais avançados de smartgrids….  A Automatização da Distribuição é a próxima “big thing” em smartgrids…. Para as empresas de electricidade, a sua implantação pode propiciar economias significativas através de melhorias mensuráveis na eficiência operacional, fiabilidade, qualidade de serviço e conserva­ção de energia –todas contribuindo para a satisfação dos consumidores. … A maioria dos gastos das empresas de energia serão em aparelhos de corte na Distribuição e respectivos con­trolos.
É de notar a coincidência das conclusões deste estudo do mercado americano com a opinião apresentada pelo Director da CPFL no Brasil, podendo afirmar-se que, seja qual for o ritmo de evo­lução das tecnologias “smart” na Baixa e na Muito Alta Tensão, a Automatização da Distribui­ção em Média e Alta tensão é algo que sucederá seguramente, visto que se aplica a redes já exis­tentes e para as quais também já existem as normas internacionais de comunicação informática.
Acontece que, por razões históricas, Portugal desenvolveu desde há 30 anos considerável expe­riência académica, industrial e de utilização nas tecnologias de Automatização da Distribuição de energia, o que lhe dá em princípio uma oportunidade de lutar aí por um lugar na liderança das smartgrids. Assim não seja esse “know-how”  perdido em prol de visões tecnoló­gicas determina­das por ideologias utópicas!
[1] O custo só da instalação dos smart meters é estimado, para grandes escalas, em 250€ por unidade, mas alguns sistemas mais simples, como o italiano, terão custado apenas cerca de 70€/unidade.
[2] Groupement Européen des entreprises et Organismes de Distribution d’ Energie, «GEODE Position Paper on Smart Metering», Novembro 2009.
[3] MRG Inc, “U.S. Smart Grid, Beyond the Smart Meter”, Março 2010.

Num próximo post final analisarei o que está a acontecer neste quadro em Portugal.

quarta-feira, novembro 17, 2010

SmartGrids: fantasia e realidade. Parte III: a visão chinesa e os standards

Por isto ser um tema de grande relevância na nossa I&D tecnológica e, por acaso, ser também o tema central da minha I&D académica e industrial há já 30 anos (embora sem estas novas buzzwords), e sendo uma das bandeiras da imagem de inovação apregoada pelo poder estabelecido, é oportuno discutir as SmartGrids e respectivos desafios tecnológicos.
Na parte I revi a visão europeia do assunto, assente na ideia de condicionar as pessoas a adaptarem os seus padrões de consumo à intermitência das fontes de energia renovável intermitentes, ou seja, à energia eólica e à fotovoltaica, e adoptada por cá com espírito "revolucionário" e grandes parangonas.
Na parte II expus a visão americana do assunto, um mix da utopia europeia com a resposta a necessidades americanas particulares, concretamente a modernização do controlo informático da sua rede eléctrica tradicional e a redução do esbanjamento energético inegável nos seus padrões de consumo.
Para terminar este périplo, e antes de falar de nós, proponho-vos conhecer a visão da China das SmartGrids e o que é tecnologicamente consensual por esse mundo fora.
É evidente que, sendo a China já o maior produtor de CO2 originado na queima do carvão para a produção de electricidade (carvão de que a China possui as maiores reservas mundiais), com uma população que é 1/5 da Humanidade e a duplicar o seu PIB a cada 6-7 anos, não há acordo mundial para a redução das emissões de CO2 e sobretudo para a redução da dependência do petróleo que a possa excluir.
Acresce a este contexto a emergência da China como o maior financiador do consumo ocidental e também o de maior produtor industrial, como a crise mundial em curso veio revelar a toda a gente.
Ora a China, que surpreendeu muitos com a firme mas colaborante posição que adoptou na Conferência de Copenhaga (e de que eu já avisara aqui), tem vindo a procurar um lugar no pelotão da frente também nas SmartGrids, e isso é expresso no documento que acaba de publicar e onde afirma a sua visão do assunto.
Logo no prefácio deste documento, diz a China que a sua estratégia oficial nesta matéria é construir  "a world-leading strong and smart grid with ultra high voltage grid as its backbone and subordinate grids coordinated at various voltage levels, featured as being IT-based, automated, interactive, based on independent innovation."
Leram bem? Repito: "rede de ultra-alta tensão", e não de Baixa Tensão e muito menos micro-redes!!!
Como se vê, portanto, a China coincide inteiramente na minha visão do assunto, como tenho vindo a expor (nomeadamente aqui, há quase um ano)!
Na continuição do Prefácio, o documento chinês começa por fazer um balanço da História, afirmando de entrada: "Nos últimos 200 anos o mundo passou por 3 revoluções industriais, marcadas respectivamente pela máquina a vapor, a electricidade, e as tecnologias de computadores e de energia nuclear". Sim, energia nuclear, leram bem...
E depois de explicar que é necessário evoluir para fontes não-fósseis de energia, por causa do seu esgotamento a prazo (as alterações climáticas são mencionadas apenas em segundo plano...), o documento clarifica a sua visão: "Devido à intermitência e à aleatoriedade de fontes de energia renovável como a do vento e a solar, o desenvolvimento rápido e em grande escala das fontes de energia renovável coloca um grande desafio à segurança da rede eléctrica. ... A construção de uma rede eléctrica forte e "smart" fornecerá um maior suporte à utilização em grande escala de fontes de energia renovável, reduzindo a dependência de combustíveis fósseis e alargando o âmbito e a dimensão dos recursos energéticos".
E, mais adiante, a visão chinesa é clarificada como sendo a de vir a haver alterações do lado da geração e também do consumo: mas, neste, o que há a gerir é uma maior eficiência (como para os americanos) e também o facto da "descarbonização" da economia ir implicar a substituição das fontes de energia fósseis usadas em consumos não-eléctricos - como na indústria, aquecimento e transportes - por consumos eléctricos...! Não se fala em "educar" o povo, ao contrário de na "Europa".
A prazo, a visão chinesa também menciona automóveis eléctricos e painéis solares caseiros a permitirem vender electricidade à rede, a par e passo de uma prevista generalização futura da internet de baixo custo e do desenvolvimento de standards de comunicação para todos os gadgets que permitirão essa gestão mais inteligente do consumo.
Porém, a ênfase imediata vai para a construção da infra-estrutura de transporte flexível em ultra-alta tensão que permita ligar os gigantescos recursos renováveis localizados em regiões específicas, com os centros de consumo - os rios para hidroeléctricas do Sudoeste, o carvão do norte e ocidente, o vento nas estepes mongóis e a norte, o Sol nos planaltos tibetanos, e os consumos que estão no litoral e no centro. Ou seja: exactamente a mesma lógica que, como já notei, justifica uma Super-rede na Europa - a qual, porém, não é um único gigantesco país, ao contrário da China e dos EUA.
Para a realização desta visão a China propõe-se cumprir as seguintes etapas: 1ª - planeamento geral; 2ª - standards unificados de comunicações; 3ª - projectos-piloto; 4ª - aplicação generalizada. As primeiras 3 etapas, já em curso, têm por horizonte de termo 2015, e 2020 para a última etapa. Tecnicamente, a maior prioridade para os próximos anos é a consolidação de standards, de que são à priori escolhidos 5 que garantem a posterior internacionalização dos produtos a desenvolver.
É difícil não reconhecer na visão chinesa um perfeito realismo quer sobre as possibilidades da tecnologia, quer na estratégia escolhida para o seu desenvolvimento. Tanto mais que, embora isso não seja mencionado no documento em causa porque essas centrais estão planeadas para próximo dos centros de consumo do litoral, a China tem também uma aposta decisiva na energia nuclear, tendo de momento 23 novos reactores em construção e planeando vir a ter 200 GW instalados dentro de 20 anos - todos de III geração e máxima incorporação chinesa (embora predominantemente baseados na tecnologia americana das AP1000), e apontando para os de IV geração (regeneradores) lá para 2050... números que ampliam o que eu já informara aqui no início deste ano.

Tem entretanto especial interesse analisar um pouco melhor a ênfase colocada a curto prazo pela China na questão dos standards, porque essa ênfase é partilhada por outros países asiáticos industrializados exportadores como a Coreia do Sul e o Japão, e é uma questão económica essencial.

Do ponto de vista técnico, as SmartGrids basear-se-ão em sistemas de dispositivos electrónicos digitais ("smart") ligados em rede (de comunicações). Dada a multiplicidade de dispositivos que se poderão fabricar e utilizar, só se poderá garantir que as referidas redes de comunicações serão abertas a novos e variados produtos se elas "falarem" uma linguagem comum. Ou seja, se tiverem um "protocolo" de comunicações normalizado ("standard").
Para o utilizador, seja ele uma grande empresa de electricidade ou um consumidor de electrodomésticos "smart" (isto é, com controlo digital e ligável em rede a "smart meters" = contadores de energia digitais), a sua escolha no mercado só será livre se tiver a garantia que cada dispositivo que compre poderá "falar" em rede com os restantes sem dificuldade. Tal como os PC com as impressoras ou os routers de ligação à net, ou os auriculares sem fios com os telemóveis.
Para o industrial que desenvolva um novo produto, seja ele um frigorífico "smart" ou um equipamento digital de protecção para Subestações da rede eléctrica, também só se esse produto "falar" uma linguagem que os outros dispositivos entendam lhe garantirá que os clientes o comprarão.
Por conseguinte, o acordo internacional prévio sobre as "linguagens" (ou protocolos de comunicação) que "falarão" todos os dispositivos "smart" é um pré-requisito absolutamente essencial à viabilidade de qualquer desenvolvimento industrial de SmartGrids.
Para a Baixa Tensão não há ainda nenhum acordo à vista. E, não havendo tal acordo, nenhum projecto nesta área pode ser mais que um projecto-piloto investigatório sem perspectivas de comercialização em larga escala.
Para a Média e a Alta Tensão, porém, a China, no documento em causa, recomenda a adopção de 5 standards de comunicação já definidos internacionalmente pela Comissão Electrotécnica Internacional (CEI). Os EUA, por sua vez, já tinham muito recentemente adoptado também 5 standards, dos quais 4 vieram a ser adoptados pela China. São eles as normas CEI 62351 (para a cyber-segurança),  61970 e 61968 (Modelos de Informação Comum respectivamente para as redes de Muito Alta e de Alta e Média tensão), e 61850 (para as redes e Subestações de Distribuição de Alta e Média tensão).
Nenhum trabalho de I&D visando a aplicação industrial e, portanto, a criação de riqueza, seja como fabricante (de produtos para as SmartGrids), seja como comprador, terá qualquer sustentabilidade se ignorar estes standards.
Na próxima IV e última parte deste post debruçar-me-ei sobre a situação portuguesa.

segunda-feira, novembro 15, 2010

SmartGrids: fantasia e realidade. Parte II: a visão americana.

Há poucos dias iniciei um post sobre a questão das SmartGrids, ou redes eléctricas "espertinhas", tendo então publicado a respectiva parte I, revendo a "visão" da "Europa" sobre o tema e a respectiva falta de perspectiva económica numa ideologia abarrotada de "wishful thinking" de futuros produtores-consumidores a micro-gerarem energia e a armazenarem-na em imaginários automóveis eléctricos...
Vou agora, nesta parte II, estender essa revisão a outro dos outros dois pólos que importam: os EUA e a China.

A "visão" americana para as SmartGrids oficializou-se no "Energy Independence and Security Act", também conhecido por "Clean Energy act", proposto pelos Democratas e aprovado pelo Congresso nos finais de 2007 ainda sob a Admnistração Bush, e que as define pela combinação das seguintes características:
" (1) Increased use of digital information and controls technology to improve reliability, security, and efficiency of the electric grid. (2) Dynamic optimization of grid operations and resources, with full cyber-security. (3) Deployment and integration of distributed resources and generation, including renewable resources. (4) Development and incorporation of demand response, demand-side resources, and energy-efficiency resources. (5) Deployment of ‘‘smart’’ technologies (real-time, automated, interactive technologies that optimize the physical operation of appliances and consumer devices) for metering, communications concerning grid operations and status, and distribution automation. (6) Integration of ‘‘smart’’ appliances and consumer devices. (7) Deployment and integration of advanced electricity storage and peak-shaving technologies, including plug-in electric and hybrid electric vehicles, and thermal-storage air conditioning. (8) Provision to consumers of timely information and control options. (9) Development of standards for communication and interoperability of appliances and equipment connected to the electric grid, including the infrastructure serving the grid. (10) Identification and lowering of unreasonable or unnecessary barriers to adoption of smart grid technologies, practices, and services."
Esta mesma lei atribuiu ao IEEE a quantia de 5 milhões de dólares para suporte ao respectivo programa, o que ajuda a entender o entusiasmo desta prestigiada instituição nos temas propostos, embora eles sejam, de facto, uma mistura de diferentes coisas.

Por um lado, encontramos nesta Lei algumas das mesmas fantasias ecotópicas em moda na Europa, como a do armazenamento de energia pelos consumidores em baterias de automóveis eléctricos ou a do condicionamento do consumo, embora inclinando-se mais para o uso de electrodómésticos "espertos" do que para a "educação" do consumidor - mas, tal como na Europa, a respectiva necessidade advém do desejo de adaptar o consumo à intermitência da energia eólica (e, mais remotamente, da solar fotovoltaica). Embora, nos EUA, outra determinante desta preocupação com o condicionamento do consumo seja o aumento da mera eficiência, dado o inegável enorme esbanjamento que por lá se verifica no consumo energético (com preços da energia a menos de metade dos europeus).
Os electrodomésticos controláveis que mais têm sido considerados são as máquinas de lavar roupa e loiça, e também os frigoríficos. Isso requer duas coisas: que tais aparelhos comuniquem digitalmente com os contadores "espertinhos" (smart meters), cuja tarifa por sua vez reflectirá em cada momento a oferta de energia (e portanto a intermitência das fontes renováveis eólicas e solares), de modo a funcionarem automaticamente nas horas de melhor preço; e que as pessoas adaptem os seus horários de vida, nomeadamente que sujeitem a altura em que tiram a loiça ou a roupa das máquinas ao horário aleatório de funcionamento das mesmas.
A primeira destas coisas requer, entre outras, a existência de standards de comunicação informática para os electrodomésticos "espertos"; a segunda requer a "educação" das pessoas. Os standards e as tecnologias têm aparecido, como o ZigBee, assim como "chips" que os implementem,  mas as pessoas é que não parecem fáceis de "educar", e isso torna de alto risco qualquer aposta dos fabricantes de electrodomésticos no desenvolvimento desses aparelhos, tudo forçosamente mais caro, claro... razão porque ainda não há à venda um único electrodoméstico desses que seja! Os optimistas prevêm-nos lá para 2015, mas é desconhecido qualquer estudo de mercado que mostre as suas vantagens para os consumidores - talvez por ainda não se lhes ter querido revelar o preço a que ficará a electricidade de origem eólica e solar, quando considerados os respectivos sobrecustos sistémicos...

A "visão" americana das SmartGrids, porém, contém componentes que não são mais que a modernização das redes eléctricas lá existentes as quais, em certos aspectos, se atrasaram tecnologicamente em relação às redes europeias. E, para o explicar melhor, é necessário saber que há já muitas décadas que as redes eléctricas são controladas informaticamente e que possuem redes de comunicações sobrepostas; de facto, há muito que nos EUA a indústria de energia eléctrica é o maior consumidor de tecnologias informáticas, depois da Defesa e da Banca.
Ainda antes de existir informática, as redes eléctricas americanas já dispunham de muitos automatismos dispersos na Distribuição e controlos sofisticados na Geração, em geral mais avançados que as suas congéneres europeias. Depois, nos anos 60 e 70 os EUA foram rápidos a instalar em todas as redes eléctricas Sistemas de Supervisão e de Aquisição de Dados (SCADA), os quais recolhiam informação remota das Centrais e Subestações, e as concentravam em Centros de Controlo. Portugal, por exemplo, só dispôs de um Centro de Controlo nacional moderno da sua rede eléctrica de Geração e Transporte de electricidade no final dos anos 80, e nas redes de Distribuição (Alta e parte da Média Tensão) ainda mais tarde...
Acontece que nos anos 80 se assistiu ao aparecimento das tecnologias baseadas em microprocessadores na automatização, e depois na protecção (um tipo especial de automatização) das redes eléctricas, e foi nessa época que os EUA se atrasaram, pela relutância dos seus grandes fabricantes em fazerem investimentos tecnológicos inovadores em electricidade, depois do movimento político que congelou os grandes investimentos na energia nuclear das décadas anteriores. A desregulamentação que Reagan trouxe à indústria da electricidade nesses anos 80 também contribuiu para essa paragem de investimentos, de modo que ao fim de vinte anos os EUA passaram a ter redes eléctricas relativamente obsoletas. Até que o 11 de Setembro de 2001 veio revelar a vulnerabilidade militar das infra-estruturas americanas, e essa foi uma das razões da Administração Bush para a preocupação com a modernização informática da sua rede eléctrica, nomeadamente na ênfase especificamente americana dada à cyber-segurança.
E é por isso que as 3 primeiras das 10 prioridades da visão americana das SmartGrids são, simplesmente, o "incremento da tecnologia e do controlo digitais" na rede eléctrica. Ao contrário da Europa e do Japão, a América atrasou-se na aplicação da revolução dos microprocessadores  (vulgarizados a partir dos anos 80 e sobretudo 90) às redes eléctricas!
E é assim que, por exemplo num documento publicado já no ano corrente de 2010, o Governo americano se centra na promoção de standards de comunicação digital entre dispositivos e sistemas a usar nas SmartGrids, mas dos 8 temas considerados prioritários o 1º é meramente a extensão e modernização dos sistemas de SCADA já existentes na Produção e transporte de electridade, e o 8º o mesmo para as redes de Distribuição; os outros 6 temas incluem questões essencialmente tecnológicas, como os sistemas de comunicações a modernizar e a sua cyber-segurança e, em apenas cerca de 50%, as ideias mais futuristas associadas à intermitência da geração eólica e solar, do condicionamento do consumo à preparação para os automóveis híbridos carregáveis electricamente (os automóveis puramente eléctricos nem sequer são considerados nos estudos americanos, como já tinha notado aqui).
Claro que nos EUA há muito quem não acredite na viabilidade comercial (ou orçamental) dos conceitos mais "green" importados da Europa. Mas, mais sabiamente que os europeus, os americanos só apostam metade dos seus recursos nesta via, deixando espaço para o desenvolvimento de inovações com os pés mais na terra, nomeadamente a modernização de um sistema que se atrasara tecnologicamente e a redução da ineficiência energética, um grave problema lá resultante dos seus baixos preços na energia.
Pés na terra até porque a isso a China oblige, como mostrarei na parte III deste post.

sábado, novembro 13, 2010

SmartGrids: fantasia e realidade. Parte I: a visão europeia.

Desde o Verão passado que tem vindo a tomar forma uma iniciativa político-académica nacional visando a participação num projecto europeu que dispõe de algumas centenas de milhões de € comunitários para distribuir, o que pôs imediatamente em campo aqueles a quem pouco importa se os projectos de I&D têm alguma utilidade para a Humanidade e menos ainda para Portugal.
Nestes casos, as atitudes dividem-se entre os que nem questionam a racionalidade dos projectos, desinteressados de pensar pela sua cabeça e eivados da crença de que tudo o que vem da "Europa" é luz, os cínicos que acham que isso pouco importa e que o que interessa é o dinheiro e, finalmente, os que, brincando com Lénine, pensam que "deve-se trabalhar obrigatoriamente onde estejam as massas", subtraindo-as "aos oportunistas", para se fazer com elas o trabalho realmente necessário. Massas no sentido de $massas$... :-))
Neste contexto, proponho-me reflectir convosco sobre a natureza do "movimento" pelas SmartGrids que desde 2008 e o início da recessão no Ocidente desenvolvido ganhou grande projecção internacional e também nacional, e que é o objectivo do muito dinheiro de que vos estou a falar.
As visões do que será uma smartgrid estão eivadas de ideologia, e por isso a própria definição do que são varia com quem a define. Em Portugal tem-se estabelecido a visão ideológica ecotópica, emergente da Alemanha "green" e merecendo por isso o eco pronto do nosso stablishment e dos interesses pró-eólicos associados, tendo no entanto por advogados alguns académicos que sabem, ou têm a obrigação de saber, a dimensão dos enganos em curso - como a aliança INESC-Norte / Ministério da Ciência e Tecnologia.
Para clarificar então as coisas, nada melhor que começar por citar (traduzindo-o), um paper holandês publicado em 2009 e que continua a ser um dos 10 mais consultados no MUNDO electrotécnico, que ousa o título de "Smart Grids: o futuro ou fantasia?":
"SmartGrids é um denominador comum para uma ampla gama de desenvolvimentos que tornam as redes de energia de média e baixa tensão mais inteligentes e flexíveis do que são hoje em dia. A motivação principal para as iniciativas de SmartGrids é que tais desenvolvimentos melhorariam a fiabilidade do fornecimento e/ou apoiariam a tendência para fontes de energia mais sustentáveis. Presentemente, as redes de média e baixa tensão não podem ser observadas nem controladas remotamente.
Diversas empresas estão a desenvolver tecnologias visando a criação de redes inteligentes. No entanto, estes desenvolvimentos tendem a radicar-se em possibilidades tecnológicas, em vez de numa sã análise dos problemas e numa abordagem estruturada para a sua solução.
No passado recente, uma grande variedade de sensores, protocolos, equipamentos de comunicação e similares tem sido concebida para apoiar a transição para as SmartGrids. No entanto, muitos deles não têm encontrado grande aplicação, o que pode ser atribuído, pelo menos parcialmente, ao facto de que não havia problemas para os quais fornecessem uma solução, pelo que não lhes foi possível elaborar um "business case" positivo. Em suma, houve demasiada pressão da tecnologia e solicitação a menos do mercado.
O facto de alguns dos fabricantes destas tecnologias sem sucesso até culparem os operadores das redes eléctricas de conservadorismo, em vez de melhorarem a relação qualidade / preço dos seus produtos, dificulta ainda mais um verdadeiro arranque das Smart Grids."
O paper, no seguimento, tenta propor uma abordagem mais útil e comercialmente orientada para este "movimento", mas é demasiado evidente que o faz para poder ter sido aceite na Conferência em que foi apresentado, e onde imperava o mesmo "pensamento único" ecotópico que o artigo critica.
Um dos dedos postos na ferida que o paper anterior ilumina (que o "movimento" das SmartGrids tem sido um conjunto de "soluções" à procura de problemas, em vez do contrário), é elucidado por outro paper acabado de apresentar internacionalmente e que é, também ele, um dos 10 mais lidos de momento no mundo electrotécnico. Citando-o:
"Uma rede de energia moderna precisa de se tornar mais inteligente, a fim de proporcionar uma oferta barata, fiável e sustentável de electricidade. Por esses motivos, tem estado a ser realizada uma considerável actividade nos Estados Unidos e na Europa para formular e promover uma visão para o desenvolvimento de futuras redes de energia inteligentes.
No entanto, a maior parte dessas actividades tem enfatizado apenas a rede de distribuição e o consumo, deixando no escuro o quadro maior da rede de transporte no contexto das smartgrids."
E, para finalizar esta introdução, um bom resumo das coisas pode ser encontrado neste outro recente artigo, onde se dá conta que "there are people questioning the need for Smart Grids while others are more than convinced that it is the only way to handle the future" e que reconhece a inexistência de critérios para aferir da bondade dos investimentos feitos nesta tecnologia.
Tem, por tudo isto, interesse descrever agora os roadmaps da Europa, da América e da China nesta matéria das SmartGrids, para se começar por perceber que a visão ecotópica que por cá passa por suposta evidência consensual está, de facto, longe de ser um consenso. De caminho, noto só que, como já escrevi na blogosfera, "ter soluções à procura de problemas" em vez do contrário é precisamente o paradigma dominante da nossa I&D académica, hoje instituída em política oficial.

A visão "europeia" das SmartGrids está panfletada, por exemplo, neste documento de 2005, em que se explicita claramente que os seus objectivos são "aumentar a eficiência, segurança e fiabilidade do sistema europeu da electricidade e do gás e das respectivas redes, por exemplo pela transformação das actuais redes de electricidade em interactivas (clientes / operadores), e pela remoção dos obstáculos técnicos à implantação em larga escala e à integração efectiva de fontes de energia distribuídas e renováveis".
E em que "interacção clientes/operadores" estavam eles a pensar, e em que fontes de energia distribuídas e renováveis? A figura anexa ilustra-o: energia fotovoltaica e micro-turbinas.
Como já mostrei abundantemente neste blog, por exemplo aqui e aqui, nenhuma das tecnologias de microgeração de electricidade, daquelas que poderiam ser produzidas em Baixa Tensão por consumidores dispersos, é economicamente viável - nem o vai ser nas próximas décadas! E quando digo que não é economicamente viável, não me refiro a serem um bocadinho mais caras que as fontes actualmente usadas, mas sim 10 a 20 vezes mais caras! E não há nenhuma evolução tecnológica no horizonte próximo que permita prever uma inversão da situação.
As tecnologias energéticas não evoluem como as informáticas, que vivem uma revolução, e muito menos obedecem à lei de Moore; as tecnologias energéticas evoluem a um ritmo muito mais semelhante à tecnologia dos automóveis!...
O irrealismo económico da ecotopia da microgeração é tão gritante que a "Europa" tem vindo a secundarizá-la, mas apenas para a substituir por outra fantasia, a do automóvel eléctrico (que também tenho comentado abundamente neste blog; só como exemplo, aqui e aqui), e isto apesar das instituições internacionais mais conceituadas em previsões energéticas, incluindo as próprias europeias, não preverem o advento próximo desse automóvel, como dei conta recentemente aqui!
Note-se que não se trata de ser "pró" ou "contra" o carro eléctrico ou o conceito de "produtor-consumidor" em termos de "gostar de", como já uma vez expliquei; trata-se de pensar com espírito científico, e não na base do que se gostaria que fosse, trata-se de opor a Ciência ao wishful thinking, de ter a lucidez de não embarcar na fusão nuclear fria, ainda que a desejássemos!

Ora, já neste ano de 2010 um documento de desenvolvimento estratégico para as SmartGrids reforça a visão que "a Europa" tem defendido desde 2006. A necessidade das Smartgrids é explicitamente justificada assim: "It is vital that Europe’s electricity networks are able to integrate all low carbon generation technologies as well as to encourage the demand side to play an active part in the supply chain. This must be done by upgrading and evolving the networks efficiently and economically. It will involve network development at all voltage levels. For example, substantial offshore and improved onshore transmission infrastructure will be required in the near term to facilitate the  development of wind power across Europe. Distribution networks will need to embrace active network management technologies to efficiently integrate distributed generation (DG), including residential micro generation, on a large scale".
Dada a inexistência presente ou futura de microgeração residencial, trata-se, como tenho vindo a denunciar desde há ano e meio, apenas de adaptar o consumo de energia e as redes de Transporte e Distribuição à intermitência da geração eólica! O quadro idílico da visão da "Europa" que o documento contém sobre um imaginário "produmidor" (produtor-consumidor) e que reproduzo aqui, não passa disso: puro idílio!

O documento enuncia depois os principais desafios que se colocam a esta visão, de momento, e que vão todos no sentido de permitir o encaixe de mais produção eólica: reforço das redes para permitirem o trânsito de energia nas horas de (pouca) produção renovável máxima, instalação de produção eólica offshore em grande escala, integração da geração intermitente, "gestão activa da procura" de todos os consumidores, com ou sem geração própria, aproveitamento das tecnologias de armazenamento (storage) de energia e preparação para o automóvel eléctrico. A única verdadeira evolução nesta visão é a de agora permitir implicitamente que ela se concretize através da anunciada Super-rede, ao mesmo tempo que desaparece qualquer alusão às "micro-redes" tão queridas do Prof. Peças Lopes do INESC-Norte e que têm dominado a nossa estratégia nacional de I&D no assunto...

Mas, de todas as actividades propostas, a que suscita maiores preocupações à "Europa" é a da Gestão da procura, ou seja, a tentativa de forçar os consumidores a adaptarem os seus padrões de consumo á intermitência da produção eólica. O documento reconhece: "The majority of electricity end consumers today have a passive relationship with the electricity supply system. The complexities of the system, and the operation of the electricity markets, deter customers from taking a more active role. A simple example of this is the fact that after nine years of market opening in Europe the overall rate of customers switching supplier is less than 10%." E, para combater esta resistência popular, o documento recomenda que o povo seja "educado", e que lhe sejam explicados os benefícios de gerir o seu próprio consumo, nomeadamente ambientais.
Ora nos EUA, de que falarei na Parte II deste post (assim como da China), o processo de instalação de smart meters (contadores electrónicos de energia, comunicantes), está a suscitar um amplo movimento de resistência popular, como reconhece hoje mesmo um artigp do New York Times. Os consumidores dão-se conta que, depois de instalados os smart meters, quase sempre as facturas sobem, e por vezes muitíssimo! Sucedem-se os processos judiciais contra as empresas de electicidade, e tudo isto confirma o que venho escrevendo sobre o assunto e, mais importante, a natureza totalitária deste movimento. O qual se reclama de uma visão utópica de "salvação" da Humanidade mas com a particularidade de se sustentar em interesses económicos bem definidos e subsídio-dependentes, visto que, por tudo que expus, não há viabilidade para esta política que se baseie na sã procura de soluções para problemas reais, ou seja, na lógica de mercado. O que é uma característica que distingue os fascismos de outras ideologias totalitárias. Neste caso, o ecofascimo
Por cá, temos em curso uma experiência destas em Évora. Vamos ver...

quinta-feira, fevereiro 25, 2010

Posição sobre a política energética nacional. III - Realidades e mistificações económicas

Este é o 3º post, de 4 previstos, de apresentação de uma posição sobre a política energética nacional em curso. O post anterior pode ser acedido aqui.

 10. Está em curso um movimento europeu para a realização não de micro-redes eléctricas, mas sim de uma Super-Rede intercontinental, que poderá afectar seriamente Portugal mas relativamente à qual o Governo é omisso.

Muito recentemente, e após a evidência comprovada da impossibilidade de gestão do continuado crescimento da energia eólica na Europa nas condições de redes nacionais existentes, sobretudo com as novas metas definidas para 2020, tem ganho corpo na UE a ideia, oriunda da Alemanha, de que a incontrolável intermitência inerente às energias eólica e solar, com a impossibilidade da sua regularização por armazenamento, pode ser mitigada explorando a variabilidade das condições meteorológicas em grandes extensões geográficas.
Concretamente, se se explorar a produção de energia eólica onde ela é mais abundante, nas costas do Mar do Norte, do Reino Unido e em toda a restante costa atlântica (incluindo Marrocos), assim como nas planícies ucranianas e russas, se se instalarem grandes centrais solares onde o Sol é mais intenso, no Sahara norte-africano, se se puder aproveitar um gigantesco recurso hidroeléctrico existente em África (“Grande Inga”, na foz do Zaire), adicionando ainda algumas barragens para armazenamento de energia na Europa (sobretudo na Noruega e Suécia), poder-se-á lograr uma filtragem da intermitência das produções locais de energia renovável, aproveitando-a onde haja melhores recursos.
Esta ideia requer a interligação de todos esses meios na Europa e continentes próximos, por uma Super-Rede eléctrica de cabos submarinos e linhas aéreas de grande extensão, a construir, usando novas tecnologias de controlo. Esta Super-Rede exigirá grandes meios informáticos e de telecomunicações para a sua gestão técnica em tempo real, dada a intermitência das energias renováveis e a grande escala e rapidez das transacções previstas, sendo, a realizar-se, a verdadeira materialização do conceito de “smart grid”.
Não as “smart grids” dos míticos “consumidores-produtores” domésticos, fantasiosamente promovidos a parceiros activos do sistema de energia eléctrico, mas a “smart grid” de um Império.

É de recordar que esta ideia não é nova e, tendo já sido academicamente enunciada há cerca de duas décadas, ela incluía também, então, a consideração de um grande potencial de energia renovável de marés que existe em algumas bacias da Rússia e que reaparece em alguns cenários futuristas deste novo projecto. A razão porque então a ideia não foi desenvolvida foi a evidente vulnerabilidade político-militar de uma tal rede eléctrica.

Esta ideia ressurge agora, pois, quando para as energias eólica e solar se planeia um enorme incremento em vários países europeus, por Directiva dos centros de poder da UE, e levanta duas questões de que o nosso Governo parece totalmente distraído: como serão repartidos os custos e os benefícios de um tal sistema intercontinental, e que poderes político-militares serão usados para garantir a sua segurança.

Os riscos desta ideia para um país periférico como Portugal são claros, mas o nosso Governo e demais responsáveis pela política energética nacional parecem muito mais ocupados com fantasiosas (e politicamente perigosas) micro-redes do que com a real Super-Rede eléctrica cuja ideia ganha corpo nos centros de poder europeus, como a continuada publicidade a certas grandes centrais solares a construir no Sahara (projecto "DESERTEC"), e outros documentos recentemente publicados, atestam.

11. O gás natural é a solução imediata a que o Governo se vê obrigado a ceder, mas é uma solução dependente dos voláteis preços internacionais do mesmo, a sofrer um grande incremento de procura mundial. Além disso aumenta a emissão de CO2, anulando o esforço feito de investimento em renováveis.

Limitados que são os recursos de energia renovável tecnicamente exploráveis no país, e dada a sua incontrolável intermitência, o Governo tem concedido licenças de exploração para a construção de centrais termoeléctricas a gás natural de ciclo combinado, efectivamente capazes de colmatar as insuficiências técnicas das formas de produção renovável, graças à sua controlabilidade.

A tecnologia de ciclo combinado permite investimentos privados de relativamente reduzido montante, mas está dependente dos custos do gás natural no mercado regional que abastece a península ibérica.
Embora a rápida evolução das técnicas de liquefacção e armazenamento do gás tenha permitido diversificar a alguns países subsarianos os fornecedores do gás consumido em Portugal, embora o desenvolvimento recente de novas tecnologias de extracção em subsolos xistosos tenha aumentado as suas reservas mundiais úteis e se preveja a mundialização do seu mercado internacional, com a expansão das instalações de liquefacção, embora os preços internacionais do gás natural tenham sofrido uma forte quebra em 2009 devido à recessão internacional, o aumento explosivo do seu consumo augura uma grande volatilidade aos seus preços, a um prazo de dez anos. Além disso, o custo de produção de energia eléctrica por estas centrais é consideravelmente superior ao das a carvão e, embora em escala consideravelmente inferior ao emitido por estas, as suas emissões de CO2 são também incompatíveis com as reduções pretendidas pela comunidade internacional para 2050, pelo que não são uma solução sustentável a longo prazo.
E, sobretudo, o recurso imposto pelas circunstâncias técnicas a este tipo de centrais é a negação de todo o esforço feito em investimentos em energias renováveis, visando alegadamente combater a dependência de importações de combustíveis fósseis e a redução das emissões de CO2.

12. Juntamente com as fantasiosas ficções sobre os benefícios da política energética seguida para as produções de origem eólica e solar, têm sido completamente mistificados os impactos económicos e sociais desta política, nomeadamente quanto à criação de empregos e ao esforço necessário para o acesso às respectivas tecnologias.

A ignorância técnica relativamente às produções de energia renovável tem sido incentivada pela irresponsabilidade e pela atitude mistificadora com que estas novas tecnologias têm sido abordadas pelo Governo e outros responsáveis, e de que o caso da central das ondas e dos automóveis eléctricos atrás referidos são exemplares. Não admira, por isso, que comecem a verificar-se alguns casos de aparecimento mediático fugaz de aventureiros invocando a invenção desta ou daquela tecnologia de que no entanto não são reveladas quaisquer referências, com o pretexto de “segredo industrial”, como uma alegada nova turbina eólica a ser comercialmente explorada na Ucrânia e descoberta por um empresário beirão, ou um alegado novo tipo de gerador para a energia das ondas por parte de um grupo de jovens alunos de licenciatura de Lisboa onde só dois são estudantes de electrotecnia e nem muito brilhantes, mas que mereceram grande promoção mediática e no último caso até prémios pecuniários. É neste quadro mistificador que se tem propagandeado a criação de clusters nacionais para a produção de equipamentos de energias renováveis, nomeadamente eólicos e solares, anunciando-se dezenas de milhar de empregos e uma “aposta” nacional estratégica no sector.

Ora a verdade é que a tecnologia das turbinas eólicas leva já perto de um século de Investigação e Desenvolvimento internacional, tendo escapado inteiramente ao interesse português, com excepção de alguns empenhados académicos que, todavia, nunca foram envolvidos nos actuais projectos nacionais (como o não foram os especialistas de longa data na central de ondas do Pico). E, por outro lado, a respectiva tecnologia tem sido objecto de acesas guerras internacionais de patentes que proibiram o acesso ao mercado americano, até 2010, do industrial alemão escolhido pelo Governo português para parceiro no respectivo cluster.
Neste contexto, é evidente que a participação nacional numa indústria de turbinas eólicas não pode ser senão acessória, e como quase todos os países que pudessem ser mercados de exportação importantes para esta produção têm exigido a montagem no seu território dessas turbinas, não se vê como se possa sustentar a prazo a existência do referido cluster. Ora na verdade, embora o líder desse cluster prometa a criação de “dezenas de milhar de empregos”, os números disponíveis em instituições internacionais credíveis apontam para a criação, até ao presente, de menos de 3000 empregos, numa produção destinada a um mercado nacional que atingirá em breve a saturação.

Logro similar se tem verificado com a construção dos novos aproveitamentos hidroeléctricos, para os quais também se fala na criação de “dezenas de milhar de empregos”, escamoteando que se tratam na esmagadora maioria de empregos transitórios, na construção civil das barragens e apenas durante parte dos 4 anos que dura a de cada uma, em geral em condições de alojamento em locais isolados e com ordenados tão baixos que só tornam esses empregos atractivos a uma maioria de trabalhadores imigrantes. Em qualquer dos casos, não são empregos sustentáveis e muito menos de qualidade.

Pelo contrário, nas fileiras da biomassa, que tem um enorme peso na produção de energias renováveis no norte da Europa e que é diminuto em Portugal, nas dos biogás, nas dos Resíduos Sólidos e na dos biocombustíveis, sectores que requerem uma ocupação de mão-de-obra permanente em quantidade e que se podem articular sustentadamente com outras actividades, nomeadamente agrícolas e florestais, não tem havido “aposta”. Nem têm sido considerados os estudos que demonstram que aos empregos temporários criados na fase de investimento das instalações de energia renovável se segue a destruição de empregos duradouros resultante da subida decorrente dos custos da electricidade.

quarta-feira, fevereiro 24, 2010

Posição sobre a política energética nacional. II - Irresponsabilidade e delírios tecnológicos

Este é o 2º post, em 4 previstos, de apresentação de uma posição sobre a política energética nacional. O post anterior, o 1º, pode ser acedido aqui.

6. Os novos aproveitamentos eólicos e hidroeléctricos planeados, comportando um investimento estimável de 7900 milhões de € para a produção média de apenas 540 MW, terão de ser pagos pelos portugueses

Os 2200 MW a instalar em produção eólica nos anos próximos, conjugados com os aproveitamentos hidroeléctricos para bombagem que eles exigem, comportarão um investimento estimável de 2650 milhões de €, aos custos actuais das turbinas eólicas, valor a adicionar aos 4850 milhões de € das hidroeléctricas. A estes valores há que acrescentar ainda os investimentos a realizar pela REN em linhas de transporte de energia que permitam o trânsito da mesma entre as instalações eólicas e as barragens, num valor estimável de 500 milhões de €. No total, estes investimentos serão da ordem de 7900 milhões de €, 5% do PIB nacional.

Recentemente estes investimentos têm sido apresentados como sendo feitos por empresas privadas e não onerando, por isso, a dívida pública. E, na realidade, com a concessão de 8 dos novos aproveitamentos hidroeléctricos, o Estado obteve das empresas concessionadas 640 milhões de € à cabeça, sendo também verdade que parte do rendimento dos produtores eólicos reverte para autarquias na forma de rendas. Porém, se é verdade que os poderes públicos poderão assim beneficiar destes empreendimentos, não é menos verdade que o povo português e a sua economia os terão de pagar.

Ora sendo certo que de uma forma ou de outra os referidos valores virão a ter de ser repercutidos nos preços da electricidade, pode-se estimar o adicional aos preços actuais que esses encargos implicarão, e que sem qualquer dúvida os levarão para valores ainda mais acima dos da média europeia, antes de impostos. Na verdade, assumindo com a ERSE uma taxa de juro de 8.4% anuais, com amortizações a 20 anos, é fácil de ver que o custo destes 540 MW médios anuais de energia renovável agravarão só por si em 1.5 ç (10%) o preço médio do kWh pago pelo consumidor. E se, como até aqui, se verificar a subsidiação cruzada da indústria pelos consumidores domésticos, esse aumento será ainda bem maior para estes, elevando o preço da electricidade para valores ainda mais altos na EU-27.

Por outro lado, e embora feitos por empresas privadas, o investimento associado a estas opções é financiado por uma Banca que por sua vez se financia no mercado financeiro internacional, portanto com aumento do défice externo do país.

 
7. Não contente com a aventura do excesso de energia eólica a regularizar com uma dispendiosa bombagem hidroeléctrica de improvável eficácia, o Governo prepara novas aventuras na energia das ondas, no eólico offshore, no solar fotovoltaico e na microgeração, as quais não são técnica ou economicamente viáveis.

A avaria definitiva da central das ondas da Póvoa do Varzim, após apenas 2 meses de operação dos primeiros geradores e em que terão sido dissipados 9 milhões de €, dos quais 1,2 milhões do erário público, ilustra a irresponsabilidade da política energética do Governo, que ignorou toda a experiência internacional de Investigação e Desenvolvimento acumulada desde há mais de 60 anos nesta tecnologia, por países muito mais industrializados e tecnicamente desenvolvidos, como o Japão, assim como a própria experiência portuguesa de quase uma década na ilha do Pico, onde também se aprendeu mas há muito que a instalação avariou. Na verdade, apesar de todos os esforços, ainda não há solução técnica que permita sequer a esta forma de energia funcionar, quanto mais fazê-lo de modo economicamente rentável.

Por outro lado, se a energia eólica sediada em terra firme é dispendiosa e sofre dos problemas de intermitência identificados que recomendam a sua limitação a valores já ultrapassados em Portugal, como foi demonstrado, outras formas de energia renovável pelas quais o Governo tem mostrado grande entusiasmo sofrem de similares problemas de intermitência e são ainda mais dispendiosas.

A energia eólica instalada em plataformas oceânicas, ou offshore, pode beneficiar de ventos melhores que em terra firme, mas o custo de produção do seu kWh é pelo menos 30% superior ao das eólicas em terra, e só é tecnicamente viável em plataformas marítimas de baixa profundidade e moderadas condições de ondulação e correntes, como as verificadas em certas costas do Mar do Norte mas que se verificam em muito poucas zonas da costa portuguesa. Acresce a esta exigência técnica a falta de experiência mundial na exploração prolongada de instalações desse tipo, desconhecendo-se a sua fiabilidade a longo prazo e sendo apenas certo o alto custo da sua manutenção.

A energia fotovoltaica, pelo seu lado, não funciona à noite e o seu rendimento é também muito dependente das condições meteorológicas, custando presentemente a unidade de energia eléctrica obtida por essa via quase 3,5 vezes o que custa a da eólica, já depois de uma descida de preços internacional ocorrida em 2006, resultante de certos progressos nas técnicas de fabrico. No entanto, o preço do componente principal dos equipamentos de produção fotovoltaica não poderá descer de forma significativa sem uma radical alteração tecnológica. Essa alteração é possível que ocorra e venha a ser industrializável a prazo de uma década, com o aperfeiçoamento de painéis ditos de películas finas.
Porém, apesar de poderem vir a ter custos mais competitivos, as tecnologias em competição para os futuros painéis fotovoltaicos são muito variadas, podendo vir a exigir áreas de exposição solar muito superiores às dos painéis de silício hoje em dia promovidos para uso em telhados, ou formatos e produções combinadas de electricidade e de calor incompatíveis com as utilizações actuais. A conclusão retirável destes factos é que nenhuma entidade internacional credível espera o uso generalizado de instalações de energia solar antes de 10 a 20 anos, e que é muito incerta qual a tecnologia concreta com que tal virá a ocorrer.

Resulta do exposto que o propagandeado advento da microgeração e de um suposto novo paradigma de consumidor-produtor é uma pura ficção sem qualquer base técnica ou económica sustentável para a próxima década, já que sem produção de energia de origem solar não existe previsão de alguma forma de geração de energia eléctrica que seja sustentável e muito menos competitiva à escala das redes de Baixa Tensão – com a excepção, em casos muito pontuais, dos velhos grupos electrogéneos a gasóleo.

8. Procurando arvorar uma imagem de vanguardismo tecnológico, o Governo tem promovido a ideia de que os automóveis eléctricos estarão comercialmente disponíveis a curto prazo, suscitando infundadas expectativas na população

Um dos mitos energéticos que o Governo e outros responsáveis têm explorado é o da existência de uma relação entre independência das importações de petróleo e a aposta nas energias renováveis. Ora a geração de electricidade há muito que em Portugal e na Europa praticamente não usa petróleo nem nenhum dos seus derivados. Para que a electricidade gerada a partir de energias renováveis, ou outras, possa substituir importações de petróleo, será necessário que o sector que é o principal consumidor deste, os transportes, seja eléctrico em vez de baseado em motores de combustão.

Esta substituição de transportes consumindo derivados de petróleo por veículos eléctricos tem um suporte tecnológico testado e eficiente em ferrovias e em autocarros de tracção eléctrica (“trolley buses”). Em qualquer dos casos trata-se de veículos que não retiram a sua energia de baterias, as quais há mais de um século constituem o impedimento tecnológico à vulgarização de automóveis eléctricos.

Ora este impedimento persiste, apesar da grande evolução que as comunicações móveis e os computadores portáteis promoveram na tecnologia de baterias, levando ao advento das de iões de lítio. Com efeito, embora as baterias para automóveis baseadas em iões de lítio, com pesos de algumas centenas de kg, já permitam assegurar autonomias de 100 a 200 km, permanecem muito caras e sobretudo sofrem do mesmo problema conhecido nos computadores portáteis e telemóveis: têm um curto tempo de vida, de cerca de 2 anos. Este problema continua tecnologicamente por resolver o que, com as limitações de preço e autonomia, torna o automóvel eléctrico inviável no presente, desejando-se sinceramente que o apoio do Estado português à fábrica de baterias de Aveiro inaugurada em 2009 tenha melhor sorte que o da de células de combustível inaugurada em 2007, e que nunca funcionou.

Dados os grandes investimentos em curso internacionalmente na procura de novas tecnologias de baterias, é possível que a prazo de 5 a 10 anos se encontre uma solução técnica e economicamente satisfatória, mas nenhum organismo internacional responsável, como o Painel inter-governamental para as Alterações Climáticas (IPCC) da ONU, espera que os automóveis eléctricos tenham uma importância significativa no sector energético antes de 20 anos. Pelo que os muitos pontos de abastecimento de carros eléctricos e os descontos fiscais na compra dos mesmos que o Governo tem promovido não passam de pura mistificação, a aplicar a veículos que, na realidade, não existem. E, não existindo, persiste também a inexistência de qualquer relação entre electricidade e petróleo que não sejam os transportes colectivos electrificados que não têm, porém, merecido qualquer atenção séria. E por isso também não existe, nem existirá na próxima década, suporte para a fantasiosa ideia de usar as baterias dos automóveis eléctricos como meio de regularização da intermitência das energias renováveis, que continuará por isso sem solução técnica através de processos de armazenagem.

Sendo pois infundado e mistificador o entusiasmo induzido na população pelo possível desenvolvimento nacional próximo de automóveis eléctricos, tem em contrapartida sido descurada a previsão internacional de que a tecnologia para que efectivamente se prevê um possível desenvolvimento rápido é a dos automóveis híbridos, a que se espera que se sigam os híbridos carregáveis electricamente (“plug-in”). Porém, esta tecnologia ainda não é comercializada por marcas europeias, requerendo a adição articulada da motorização eléctrica a veículos com motores de combustão, pelo que uma indústria nacional neste domínio não é realisticamente acessível a Portugal.
Poderia, porém, ser viável uma incorporação nacional em indústrias internacionais de automóveis se fosse devidamente articulada, por exemplo, com o cluster da Auto-Europa, espaço técnico-económico que, devido à falta de atenção dos responsáveis portugueses, tem estado a ser ocupado por países como a República Checa.

9. Outra aposta mistificadora que tem sido promovida é a das redes eléctricas inteligentes (“smart grids”), com novos custos para o país, perigo de aplicações limitativas da liberdade, e descuido de responsabilidades técnicas urgentes.

Associado ao fantasioso paradigma de um futuro próximo de “consumidores-produtores” de energia, detentores de microgeração caseira e automóveis eléctricos com energia nas baterias que poderá ser revendida à rede eléctrica, e que como se mostrou é pura ficção (“wishful thinking”), têm o Governo e outros responsáveis promovido o desenvolvimento do que é conhecido como redes eléctricas inteligentes, ou “smart grids”. Esse desenvolvimento foi anunciado pelo Governo como indo ter a sua primeira experimentação em escala apreciável em 2010, em Évora, e terá custado já 12 milhões de €.

O anunciado propósito do projecto é a gestão inteligente de uma rede eléctrica repleta de microgeração nos consumidores mas, na prática, as suas componentes principais são novos contadores electrónicos de tarifa comutável personalizada e capazes de gerir (ligar e desligar) electrodomésticos, telecomunicantes com grandes centros de gestão da rede eléctrica. Adicionalmente e em caso de “apagões”, os referidos consumidores-produtores poderiam organizar-se em micro-redes autónomas, conforme foi referido em certos media quando dos estragos causados pelo temporal que recentemente assolou a região Oeste do país.
No cenário idílico com que esta tecnologia tem sido anunciada, ela permitiria ao consumidor facturar a suposta energia que tivesse para vender e “escolher” instantaneamente a tarifa da que pretendesse adquirir, mas o que tem sido escondido é porque interessaria a esse consumidor fazer tal escolha.
Ora o cenário completo que os grandes entusiastas desta tecnologia prevêem é, de facto, o dos preços da electricidade fornecida pela rede variarem com a maior ou menor disponibilidade da geração de energia renovável, ou seja, a dos preços da energia acompanharem a intermitência da produção renovável de forma a induzir a deslocação dos consumos das horas preferidas pelos consumidores para aquelas em que haja mais geração. O que, sendo uma forma imaginativa de resolver o problema da intermitência das fontes renováveis de energia, implicará evidentemente enormes restrições à liberdade da vida pessoal a que a sociedade industrial habituou os cidadãos, com a mudança aleatória em cada dia das horas, por exemplo, de lavagem de roupa e loiça, senão mesmo do uso de climatização e iluminação – excepto àqueles que puderem pagar mais, e é essa a “escolha de tarifa” que efectivamente será facultada.

Acresce a esta perda de liberdade a vigilância permanente a que os consumos dos cidadãos serão sujeitos, a partir de centros de gestão de rede que poderão vir a ter outros usos menos inocentes.
Obviamente, os exorbitantes custos de tal sistema serão suportados pelos próprios consumidores.

Entretanto e enquanto promove este tipo de projectos, o Governo ainda não publicou a regulamentação técnica que, em toda a União Europeia e com excepção da Espanha, tem vindo desde o início da década passada a ser estabelecida para as condições de ligação às redes da Produção em Regime Especial, desde as normas inibidoras da emissão de poluições electromagnéticas, até à exigência de meios de moderação da intermitência da produção renovável em situações de emergência da rede eléctrica.
Esta situação tem conduzido a estabilidade da rede eléctrica nacional no seu conjunto a um risco iminente de apagões em grande escala, dada a incapacidade das fontes de energia renovável contribuírem para essa estabilidade, à falta da referida regulamentação e da sua implementação.