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quinta-feira, janeiro 07, 2010

O apagão do Oeste e a necessidade de micro-redes

Há dias, na TV, quando do "apagão" da região Oeste em que numerosos agricultores ficaram sem energia - assim como o pensador Pacheco Pereira, que disso se queixou na Quadratura do Círculo - houve vozes, quer da EDP quer nos jornais, que afirmaram que isto era assim porque os consumidores ainda não tinham auto-produção, como os ecotópicos apregoam que acontecerá nos amanhãs que cantarão.
Ou seja, no futuro haverá micro-redes autónomas "auto-cicatrizantes" que permitirão a um agricultor ou a um pensador isolado ficar desligado da grande rede eléctrica e continuar a ter energia.
Quero anunciar-vos a boa nova de que esse futuro já chegou, e há muitos anos.
Basta comprar e instalar grupos electrogéneos...
Em África é como toda a gente que se preza faz, como quem visitar os bairros chiques do Sul de Luanda poderá verificar.

segunda-feira, agosto 03, 2009

Gestão da procura, "smart grids" e quem paga a factura

Muito a propósito do momento eufórico que vivemos, cheio de propaganda ao futuro radioso só com energias renováveis e "redes eléctricas espertinhas" (smart grids) que adaptem o consumo à produção, acaba de chegar aos nossos media uma notícia que já andou pelo New York Times e que mobilizou as hostes ecotópicas contra a "conspiração do grande capital monopolista". Concretamente, contra a EDF, a EDP francesa.
Comentei a notícia no Público on-line e a jornalista, a Senhora D. Lurdes Ferreira, uma esfusiante entusiasta da ecotopia, corrigiu-a e bem, aqui e aqui. Mas com novos erros, que também já lá comentei e que vou discutir convosco no seguimento.

Em França, uma empresa resolveu oferecer uma caixinha que desliga os consumos nas horas de ponta ou, mais exactamente, quando as tarifas estão caras por carência de produção disponível na rede. É exactamente este tipo de serviços que os "contadores espertinhos", ou smart meters, nos irão oferecer (ou impôr?) quando os ecotópicos tiverem reduzido toda a produção de energia a fontes renováveis e, em vez de haver produção que se adapte às nossas necessidades de consumo como hoje em dia, passarmos a ser nós que teremos de adaptar o nosso consumo às vicissitudes do estado do tempo.
Do ponto de vista do consumidor e neste momento, em França, que fazem de facto essas caixinhas? Desligam consumos como o ar condicionado (de longe o principal consumidor numa casa ou escritório, quando está ligado). Obviamente, isto significa que o ar ambiente vai aquecer, e é precisamente por não querermos isso que instalámos e ligámos o ar condicionado!
Se não quisermos gastar a energia do ar condicionado, o melhor é termos ventoinhas ou tirar as gravatas, como já aqui aconselhei. Mas se o quisermos, uma alternativa menos má será aceitar a referida desligação do ar condicionado apenas por uns minutos, digamos meia hora. E depois voltar a ligá-lo. Porquê?
Porque os interiores de edifícios têm uma inércia térmica considerável. Uma vez desligada a climatização, a temperatura evolui devagar, e ao fim de meia hora apenas terá subido alguns graus, o que pode ser suportável se durar pouco tempo. Mas depois, quando se voltar a ligar o ar condicionado, o termostato de regulação vai levar o aparelho, que normalmente trabalha por curtos períodos e depois se desliga por alguns minutos, a trabalhar ininterruptamente até repôr a temperatura no valor regulado inicialmente. Pode também fazer-se o inverso pouco antes de chegar a hora de ponta: arrefecer um pouco demais o ambiente, para depois se poder aguentar o aparelho desligado uma meia hora no início dessa hora de ponta.
Obviamente, a energia que se poupou durante a meia hora de desligação é inteiramente dissipada de novo durante o arrefecimento posterior (ou anterior) do equipamento. Nenhuma energia se poupa, no total. Então, onde está o negócio?
O negócio existe se o consumidor tiver uma tarifa bi-horária (no futuro ecotópico, a tarifa estará permanentemente a variar, sendo comunicada pela net aos tais "contadores espertinhos"). O negócio consiste em desligar o consumo à horas da tarifa mais cara, que são as horas de ponta, para o voltar a ligar quando a tarifa tiver mudado para mais barata, por terem passado as hora de ponta - ou antes desta, também.
Ora, porque é a tarifa mais cara nas horas de ponta?
Porque, para a satisfazer, a rede tem que ter centrais só para produzir energia nessas horas de ponta, e isso é um investimento pouco rentável para todos, razão porque é a própria dona da rede que desincentiva esse consumo encarecendo a tarifa nessas horas.
A principal vantagem das grandes redes interligadas é, aliás, precisamente a poupança de centrais de ponta, porque numa grande rede, como a europeia toda, quando o consumo atinge a ponta aqui não o está a atingir na Áustria, e vice-versa. Nos EUA o mesmo sucede entre as costas Leste e Oeste, que é onde reside a maioria da população e dos consumos.

Presentemente e no caso da França, as centrais de base, que trabalham permanentemente ao mesmo ritmo (a potência constante) são as nucleares. Por cá, são as a carvão. As centrais de ponta, capazes de variar facilmente a sua produção em função da procura, são essencialmente as hidroeléctricas, e em menor grau as de ciclo combinado a gás natural. As eólicas são quase totalmente imprevisíveis e, por isso, têm de ter outras hídricas e, sobretudo, a gás, permanentemente prontas só para lhes fazer reserva, caso falhe o vento. Portanto, reduzir as pontas de consumo deslocando-a para as horas de vazio não só não reduz energia nenhuma, no total, como aumenta a porção desta que vem das centrais nucleares e a carvão, em prejuízo da das renováveis hidroeléctricas!
Acontece que por cá, em Portugal, os fornecedores da energia são pagos pela encomenda, ou seja, mesmo que não cheguem a vender a energia das horas de ponta para as quais fizeram as centrais, recebem à mesma! Adivinhem quem paga? Não, não são só vocês! É também o défice, essa invenção maravilhosa que permite gastar sem ter com que pagar...! :-)
Mas em França não é assim, e os donos das centrais de ponta só recebem mesmo se venderem. Ora terem feito uma hidroeléctrica para satisfazer as pontas, e depois não haver consumo para ela por que não houve ponta, e não haver o mecanismo português de receber quer se venda quer não, é natural que tenha indisposto a EDF e que a ERSE lá do sítio lhe tenha dado razão!

Entretanto, e esta é a questão mais interessante, se este sistema em França efectivamente não reduz nenhum consumo de energia e até aumenta a porção proveniente das centrais nucleares em prejuízo das hidroeléctricas, porque se movimentam com tanta virulência os ecotópicos contra esta decisão da ERSE francesa?
Por uma questão de princípio que nada tem a ver com o actual sistema francês! Porque de facto eles querem poder controlar-nos o consumo de energia, pela verdadeira razão de quererem que o sistema produtor seja integralmente composto de fontes renováveis e, como tal, dependentes do estado do tempo, de se é dia ou noite, de se choveu ou não!!!
Só que, quando tudo provier de fontes renováveis, não haverá horas de ponta nem de vazio - tudo será altamente variável e imprevisível. E portanto, os tais mecanismos que se baseiam na antecipação das horas das tarifas serão em geral incapazes de "gerir a procura", e o que vai acontecer é que teremos mesmo de pagar as altas tarifas de quando não há vento, é noite e os rios estão secos. Isto se formos ricos, senão teremos de passar sem a electricidade.
Como já expliquei aqui!

sexta-feira, julho 31, 2009

Contra o pós-modernismo energético: I - as ficções da microgeração e da gestão da procura

Duas das visões mais fantásticas que os ecologistas utópicos, ou ecotópicos, pretendem materializar, são a da chamada "microgeração" e a da "gestão da procura".
Segundo esta visão, as redes eléctricas interligadas com controlos centralisados são uma velharia em vias de desaparecimento com o advento das energias renováveis e, com estas, vem a "democratização" da produção para cada consumidor.
A visão apregoada pelos ecotópicos é, porém, ainda mais ousada: no futuro, um futuro já muito próximo, segundo eles, o consumidor de energia será não só também um produtor, como um consumidor adaptável.
Esta visão resulta, por sua vez, de os ecotópicos preverem cheios de felicidade que em breve a garantia actual de termos sempre energia eléctrica à disposição quando ligamos o interruptor irá desaparecer.
Mais exactamente: poderá não desaparecer, mas ficará imensamente cara a certas horas de antemão imprevisíveis, o que será registado pelos "contadores espertinhos" ("smart meters") que nos irão montar nas casas e que ajustarão as tarifas a cada momento em função de haver muita ou pouca energia na rede eléctrica para usarmos, e a que chamam "smart grids". Ou seja, a energia será tão cara a certas horas e dias que os que não puderem pagar terão de passar sem ela. Chamam a isso "gestão da procura".
Porque prevêm os ecotópicos que isso vá suceder, e porque o desejam?
Prevêm-no porque o futuro que eles nos desejam baseia-se no abandono da sociedade industrial que nos trouxe a energia que nos habituámos a usar com todo o conforto, inteiramente substituída por energias renováveis que, como é evidente, dependem das condições ambientais.
Energia eólica só há quando o vento sopra com alguma intensidade; sol só há de dia e com céu limpo; àgua caudalosa nos rios só há se tiver chovido e se os cursos de água não tiverem sido transvasado para fins agrícolas pelos espanhóis; e energia geotérmica só há nos Açores!
Todas as outras fontes de energia, as centrais a carvão barato e até as a gás de ciclo combinado, para já não falar do diabólico nuclear, serão banidas por não serem ecológicas.
Por conseguinte, haverá horas do dia (especialmente à noite) e dias do ano (especialmente no Verão) em que não haverá energia que chegue para todos, e por isso os ecotópicos propõem-nos para então a "democratização" da produção e a "gestão da procura".
Que produção democrática de energia prevêm eles?
A microgeração a gás, com micro-turbinas que, além de também poluirem, têm custos que até os ecotópicos reconhecem só serem acessíveis a empresas e colectividades, a venda da energia armazenada nas baterias dos nossos futuros carros eléctricos e a venda da energia produzida nos painéis solares dos telhados das nossas casas.
Quanto aos carros, já vos falei do que esperam de nós e que já foi afirmado na TV: que deixemos os carros eléctricos em casa a descarregar as baterias para a rede e que vamos de transporte público levar os filhos à escola e para o emprego! Nunca acontecerá tal coisa, evidentemente!
Quanto à energia eléctrica com origem nos painéis solares dos telhados, também não acontecerá nos próximos 10 anos nem provavelmente nos próximos 30, pelos motivos que vos exporei num próximo post! Estou a excluir, claro, pequenas experiências promovidas pela subsidiação estatal, que obviamente seria insustentável se de facto toda a gente aderisse...
Mas, além da prometida "microprodução" de energia que, como é evidente, não vai acontecer, os ecotópicos têm outra proposta "complementar", como já referi: a da "gestão da procura".
Candidamente, dizem-nos que se as tarifas subirem muito por falta de energia na rede, isso nos levará a desviar os consumos para as outras horas e dias em que, pelo contrário, haja excesso. Ou seja, que desligaremos os frigoríficos e o ar condicionado no pino do calor de Verão e os ligaremos no Inverno; que apagaremos as luzes à noite e que as ligaremos de manhã; e que aproveitaremos as férias de Natal para deixar as máquinas de lavar a trabalhar mas que em certos fins de semana nos convirá deixar a louça acumular-se no lavatório...
Obviamente, isto também não vai acontecer!
O que vai acontecer é que nas tais horas em que houver excesso de energia eólica e os rios estiverem cheios e não houver consumo, terão de desligar as turbinas. E, por outro lado, quando houver falta de energia a certas horas e em certos dias, só os ricos a poderão pagar e todos os outros terão de passar sem ela e, com o tempo, voltar a viver como na era pré-industrial. E é com este dinheiro extra ganho nas "horas de ponta de consumo" que compensarão a desligação das turbinas nas outras horas e dias, em que houver produção em excesso.
E é esse futuro feliz, "green", que de facto os ecologistas utópicos nos pretendem impingir como se fosse moderno e progressista!
Andam tão entusiasmados com esta ideologia que começaram o habitual processo de reescrever a História. Na wikipedia, por exemplo e a propósito das smart grids, pode ler-se que as redes eléctricas são como são, centralizadas, por isso resultar da "visão do sec. XX" quando, na verdade, as primeiras redes eléctricas do sec. XIX e inícios do XX é que eram dispersas como as que agora nos pretendem impingir como progresso, e a unificação das redes foi um grande avanço que entre nós até veio já tarde, só na segunda metade do sec. XX!

terça-feira, julho 28, 2009

Contra o pós-modernismo energético: Manifesto anti-ecotópico

Uma corrente ideológica domina hoje em Portugal as estratégicas opções energéticas do país: o ecologismo utópico, ou ecotopia!

A ecotopia fantasia um futuro romântico que combina a vida frugal e saudável com a magia tecnológica.
A ecotopia visiona um quotidiano bucólico, cheio de pastos verdes com ovelhinhas "biológicas" e painéis fotovoltaicos nos telhados das casas rurais, acolhedoras e floridas.
A ecotopia imagina multidões a deslocarem-se calmamente de bicicleta pelas ruas das cidades coloridas a caminho dos escritórios.
A ecotopia devaneia com as paredes das suas futuras casas rurais decoradas com gravuras de torres eólicas em horizontes verdes, muito verdes e soalheiros.
Na ecotopia, não haverá engarrafamentos de automóveis, porque a magia tecnológica e a reformatação do homem novo terão abolido a necessidade de deslocações de automóvel.
Na ecotopia não haverá doenças, porque "a vida saudável" eliminará a poluição, os pesticidas e os adubos que as causam.
A ecotopia tem uma utopia: um mundo ecológico. Verde. Muito verde e feliz.

Os ecotópicos querem-nos cobrir os telhados das casas com painéis solares, mesmo que a electricidade daí resultante seja 10 vezes mais cara que a que actualmente pagamos e os painéis deixem de funcionar ao fim de 3 anos.
Para os ecotópicos só haverá energias renováveis: sol, vento e água.
Os ecotópicos querem-nos fazer comprar carros eléctricos para depois os deixarmos em casa a carregar e a descarregar as baterias para estabilizar a energia eléctrica que só haverá quando houver sol, ou vento, ou água nos rios.
Os ecotópicos depois vendem-nos as baterias desses carros eléctricos que teremos de mudar de 3 em 3 anos, mas retomam as baterias velhas para reciclar.
Os ecotópicos vão proibir a circulação de carros nas cidades, pelo menos a quem não possa pagar os altos preços dos parquímetros, por causa das alterações climáticas.
Os ecotópicos querem-nos fazer levar os nossos filhos à escola de metro.
Os ecotópicos querem-nos instalar contadores de energia "smart" com tarifas variáveis a cada momento e que estarão sempre mais caras à hora em que precisarmos de ligar a máquina de lavar roupa, ou as luzes do escritório à noite, ou a torradeira de manhã. Para nos encorajar a sermos homens novos.
Os ecotópicos já mandam no Mundo Ocidental e estão a proibir que se estudem outras soluções contra a emissão de CO2, como o nuclear seguro e o carvão limpo.

Os ecotópicos são fortes e conseguiram chegar subrepticiamente ao poder. Surgiram nos anos 80 e têm a sua base principal na Alemanha, mas os herdeiros dos hippies americanos também são ecotópicos.
Todos os dias vários canais da TV nos martelam programas de propaganda ecotópica dizendo-nos que é o que já se faz "lá fora".
Os ecotópicos apresentam-se sempre com propagandistas jovens, para nos fazerem sentir que é com eles que está o futuro.

Os ecotópicos querem fazer de nós homens novos compatíveis com os amanhãs que cantam com que eles sonham.
Para nos mudar, os ecotópicos precisam de nos vigiar.
Os contadores "smart" vão saber tudo sobre os nossos hábitos caseiros de consumo energético.
E os chips que vamos ter nos carros vão permitir saber tudo sobre as nossas deslocações.
O que se vai somar ao que já sabem sobre como, onde e em quê gastamos o nosso dinheiro.
E a todas as conversas que temos ao telemóvel e que ficam gravadas durante um ano.
E quem não for ecotópico não terá direito a nada por parte do Governo.
E tudo o que se fizer dependerá da concordância do Governo.
E isso será verdadeiramente o Admirável Mundo Novo, mas em verde!

O Governo é ecotópico e tem nisso a sua melhor bandeira.
A oposição critica o Governo em muitas coisas, mas concorda que ele age bem no que diz respeito "ás energias renováveis e às tecnologias", ou seja, à ecotopia.
Marcelo Rebelo de Sousa elogia no Governo a ecotopia.
O "Compromisso Portugal" elogia no governo a ecotopia.
Até Pacheco Pereira já louvou no Governo a ecotopia.

As empresas também são todas ecotópicas, agora.
A EDP é ecotópica e tem como seu grande projecto tecnológico o que o Governo lhe mandou fazer: o Inovgrid ecotópico.
A EFACEC é ecotópica porque o Governo lhe deu a construção dos pontos de abastecimento dos ecotópicos carros elécticos.
A Novabase é ecotópica porque vai desenvolver o sistema de gestão desses pontos de abastecimento.
A Critical software também lá está e por isso é ecotópica.
Os "empresários do norte" almoçam com o ex-ministro da Ecotopia Manuel Pinho, e são todos ecotópicos também.
Por causa da Martifer e das fábricas de componentes eólicos de Viana do Castelo.
E da força que foi dada ao INESC-Porto na justificação da política ecotópica do Governo.
E de outras razões com que o Governo, ecotopicamente, escolhe a quem distribuir as receitas dos impostos que pagamos.

As Universidades também são todas ecotópicas, agora.
Há dinheiro a rodos para I&D em temas ecotópicos, como as "smart grids".
E há muitas revistas onde publicar temas ecotópicos.

E os media também são ecotópicos, ou porque estão a mando, ou porque simplesmente há muito que deixaram de ter gente conhecedora a escrever lá.

Por isso, não há uma única voz que se erga a questionar a ecotopia. Exceptuando uma curta coluna quinzenal no Expresso do cavaleiro solitário Mira Amaral...

Mas os ecotópicos não mandam e jamais mandarão na China!
Nem na Índia!
Nem na África!
E haverá sempre quem resista à ecotopia.

Este blog publicará uma série de artigos desmontando a visão ecológica utópica da tecnologia e da energia, nos próximos tempos.
Porque acredito na racionalidade da modernidade e me assumo como adversário do pensamento mágico pós-moderno que suporta a ecotopia.
E porque prezo o direito dos mais fracos à verdade e à liberdade.

quinta-feira, julho 09, 2009

Provincianos q.b.!

Quando 1/5 (20%) da energia eléctrica for de origem eólica no nosso país, como planeou o actual Governo, haverá ocasiões em que o conjunto das eólicas produzirá mais que o consumo nacional.
Que fazer a essa energia excedente?
Pode-se exportá-la, mas a Espanha vai ter o mesmo problema, e de Espanha para a restante Europa há poucas linhas de Alta Tensão por onde escoar excedentes.
Há, na verdade, duas soluções.
A primeira é o que estão a fazer países como a Alemanha, a Irlanda e os EUA (e até, em segredo, a Espanha), que é exigir aos fabricantes das turbinas que as munam da capacidade de reduzirem temporariamente a potência gerada e de pilotarem a que estiverem a produzir em função do consumo da rede, como fazem as centrais eléctricas clássicas. Exceptua-se a Dinamarca que resolve o problema com a sua forte interligação à rede eléctrica alemã, muito maior.
A segunda solução são as ideias "iluminadas" que se propõem em Portugal: as eólicas trabalharem sempre à máxima potência como até aqui, e arranjar-se alguma coisa que "armazene" a energia excedente.
Do MIT-Portugal ouvi ontem na TV a extraordinária "inovação" para os Açores (elevados a "green islands") de as pessoas comprarem carros eléctricos e, quando houver excesso de energia na rede, deixarem os carros em casa a carregar as baterias (para escoar a energia em excesso) e irem para o trabalho e levarem os filhos à creche de autocarro ou a pé! :-)
O Governo arranjou também uma solução altamente inovadora para o Continente (ninguém ainda teve esta ideia lá fora para resolver o excesso pontual de energia das eólicas, a não ser alguns académicos): as novas centrais hidroeléctricas que vão agora ser construídas serão de bombagem: isto é, terão albufeiras com previsão de armazenamento e serão capazes de funcionar ao contrário, como motores de bombagem de água, levando-a de baixo para cima de volta às albufeiras. Quanto ao que estas hidroeléctricas custarão a mais por causa disto e quanta energia se perde neste processo ainda não vi contas...
Mas porque não começamos por ver o que fazem os outros?

Portugal já foi um país com a maior parte da energia gerada por renováveis; porque deixou de o ser?

Durante muitos anos, Portugal teve nos seus rios a fonte da maior parte da energia eléctrica que produzia, e de forma completamente auto-suficiente.
De facto, até meados do século passado não havia uma rede eléctrica única no país. Cada cidade ou região administrativa tinha as suas próprias centrais eléctricas: uma quantidade apreciável de pequenas mini-hídricas, e algumas térmicas, como Lisboa, que era alimentada pela "Central Tejo", construída durante a Grande Guerra e hoje convertida em museu da electricidade, e que funcionava com carvão importado de Inglaterra. No final dos anos 30 havia cerca de 400 pequenas centrais eléctricas em Portugal, mas só 5 ultrapassavam a potência de 5 MW. Era quase o paradigma da microgeração que agora se propugna como inovador....
Naturalmente, o país era muito pobre e grande parte da população não tinha acesso à electricidade.
Depois, durante a Guerra Mundial, Salazar resolveu dar uma oportunidade aos "industrialistas" que defendiam ser possível o progresso económico do país apesar dele não ser rico em carvão, contra os "ruralistas" que dominavam a Corte da época. E chamou o Eng.º Ferreira Dias (na foto), professor de Electrotecnia do Instituto Superior Técnico, que publicaria o famoso "Linha de Rumo" (reeditado em 1998), onde defenderia o primeiro (e talvez único...) projecto estratégico coerente de desenvolvimento industrial de Portugal. Foi com base no trabalho de Ferreira Dias como Sub-Secretário de Estado que foi publicada a lei da Electrificação Nacional de 1944, onde se estabelecia o princípio de que "a produção de electricidade teria de ser de origem hidráulica, devendo as centrais térmicas reservar-se para funções complementares, nomeadamente durante o Verão, para aproveitar os carvões pobres de origem nacional". Como vêm, Ferreira Dias estaria na moda hoje!...
E foi assim que, sobretudo na década de 50, foram construídas as grandes (para a época) centrais hidroeléctricas de Castelo de Bode e do Alto Douro, Cávado, Zêzere e Tejo. E que todas essas centrais foram interligadas numa rede eléctrica nacional.
Dos anos 50 aos 80 do século passado, portanto, a maioria da energia eléctrica em Portugal foi de origem renovável, concretamente hidroeléctrica!
Mas mais: a construção e exploração dessas centrais hidroeléctricas foi inteiramente nacional, porque Ferreira Dias arquitectara um plano integrado de desenvolvimento, assim:
- para que Portugal dominasse a engenharia civil necessária ao projecto e construção das barragens, criou o LNEC, indo ao IST buscar um professor para o efeito, Manuel Rocha. O LNEC teve tal importância que foi a partir de engenheiros nele treinados que se vieram a formar as grandes empresas de engenharia e construção civil portuguesas, que ainda hoje tanto peso têm;
- enquanto professor do IST, promoveu o ensino das aplicações da electricidade e seleccionou sistematicamente os melhores alunos para irem ajudá-lo a planear a rede eléctrica nacional, que é um sistema complexo;
- para que fosse Portugal a construir as máquinas eléctricas que equipariam essa rede eléctrica nacional, promoveu a criação da EFACEC e da SIEMENS de Portugal, em 1948, e a SOREFAME viria a construir comportas para as barragens;
- e para que se garantisse consumo para a energia que se iria produzir, o Porto foi privado de rede de distribuição de gás.

Porque e quando deixaram as "renováveis" de ser dominantes na produção de energia eléctrica portuguesa?
A primeira grande central térmica de Portugal foi a do Carregado, e entrou em funcionamento no início dos anos 70: concebida antes do 1º choque petrolífero de 1973, operava a partir do petróleo, mas a sua função essencial era mais a de equilibrar a tensão das linhas que traziam a maior parte da energia das barragens do Norte do que outra coisa. Já razoavelmente maior foi a outra central a petróleo que se lhe seguiu pouco depois, a de Setúbal, e que entrou em serviço no final da mesma década de 70. Há já largos anos que essas centrais raramente operam, agora.
Acontece que após o 25 de Abril as empresas de electricidade foram nacionalizadas e a rede eléctrica estendeu-se finalmente a todo o país, levando a energia a todo o lado, o que estava longe de acontecer até então. E o grande aumento do consumo daí decorrente, bem como da industrialização acelerada que ocorrera nos últimos anos do regime deposto em 74 é que tornaram inaceitável estar-se à mercê da variabilidade dos rios - secos no Verão e cujo potencial energético depende, em cada ano, do acaso das chuvas que tiverem ocorrido - tornaram inaceitável a dependência da chuva que enche os rios.
Foi assim que foi construída, já nos anos 80, a grande central a carvão de Sines e, só então, a energia eléctrica nacional deixou de ter origem renovável na sua maior parte.
Ora a energia eólica ainda é muito mais variável que a dos rios. Se esta varia com os meses do ano e por vezes, fora do Verão, com os dias de chuva ou não, o vento muda radicalmente quase hora a hora e é muito mais imprevisível! E o mesmo sucede com a energia solar, que depende das nuvens no céu e que, obviamente, não funciona à noite quando se precisa de acender a iluminação!
É por isso que, pela mesma razão que em tempos se teve de complementar a nossa energia renovável de origem hídrica com centrais térmicas, o mesmo terá de acontecer com o eólico. Mas uma central térmica não tem de ser forçosamente poluente. Para o carvão estão em desenvolvimento tecnologias de "captura do carbono", e nas centrais nucleares o vapor que acciona as turbinas é produzido pela cisão atómica, que não liberta fumos.
Mas claro que seria conveniente era que qualquer projecto de desenvolvimento energético copiasse as preocupações de Ferreira Dias quanto à incorporação nacional! Não por qualquer bandeira nacionalista de outros tempos, mas porque Portugal precisa desesperadamente de empregos, de empregos qualificados e sustentáveis como os que tais actividades criam!

terça-feira, julho 07, 2009

Uma "esperteza" realmente necessária nas redes eléctricas

Um dos graves problemas que a proliferação das eólicas está a trazer às redes eléctricas é a da sua segurança.
Com efeito e ao contrário do que desde sempre foi exigido às centrais de geração tradicionais, às eólicas não tem sido exigido que suportem as oscilações de potência que ocorrem quando dos inevitáveis incidentes a que a rede está sujeita, o que as predispõe a que "desafinem" facilmente, se desliguem e possam causar apagões, como notei aqui.
Mesmo que as turbinas eólicas evoluam para serem capazes de aguentar essas oscilações e darem o seu contributo à segurança das redes, o que tecnologicamente já está a acontecer graças à pressão das regras técnicas alemãs, que claramente pretendem manter a liderança tecnológica mundial da sua indústria de turbinas (que os EUA se preparam para desafiar), é preciso que países como o nosso adoptem regras técnicas similares para não se tornarem o "caixote do lixo" das indústrias de turbinas obsoletas. Como está exemplarmente a fazer a Irlanda, por exemplo, que também não fabrica turbinas mas também tem muita energia eólica (pudera, têm os melhores ventos da Europa!...)
Mas isto não basta.
Há um problema crítico com as grandes instalações eólicas ligadas às redes de Distribuição de energia, que não foram pensadas para encaixarem essa produção, e que em Portugal, como em alguns outros países (mas não em Espanha) encaixam quase metade da produção eólica. Esse problema é um problema técnico, e consiste em como poderão as instalações eólicas distinguir um incidente na rede de origem local, de um com origem na rede de Muito Alta Tensão da REN. Trata-se de um problema crítico para que se evitem os apagões, desde que as turbinas tenham as modernas capacidades que referi.
Ora a solução desse problema passa por sistemas de protecção que requerem comunicações muito rápidas e flexíveis entre equipamentos dispersos na rede eléctrica, comunicações que são a base do futurista conceito das "smart grids".
Há normas internacionais em desenvolvimento para o efeito, mas tratam-se de coisas ainda pouco maduras para as quais não há ainda produtos no mercado mundial. Eis um assunto correspondendo a um problema realmente existente que poderia ser uma oportunidade para as nossas empresas, se quem de direito - concretamente, o Ministério da Economia, que é quem supervisiona estes assuntos - produzisse a legislação com normativos técnicos a cumprir pelos produtores de energia que os melhores dos outros países têm...

sábado, julho 04, 2009

"Smart grids" - uma bolha financeira em formação?



quem tenha sérios receios de que todo este enorme capital disponibilizado primeiro pela União Europeia, e agora pela Administração Obama, para a realização das "redes de energia inteligentes", venha a traduzir-se numa enorme bolha especulativa que um dia rebentará em nada.
Na verdade, de concreto, todo este "movimento" assenta apenas em dois pressupostos muito longe de estarem confirmados:

- Um, é que vêm aí formas de microgeração de electricidade rentáveis, como o solar fotovoltaico, de tal forma que os consumidores poderão vir a ter horas em que lhes interesse vender "excessos" de produção; trata-se de pura fé, esta expectativa na microgeração. A menos que seja fortemente subsidiada pelo Estado, mas duvido que a China vá nisso - e se ela não for, muito menos o irão os EUA e a Índia...
- O outro é que com contadores inteligentes e ligados aos aparelhos eléctricos, os consumidores aceitarão desligar este ou aquele consumo em função da tarifa.

Ora esta ideia de que os consumidores poderão ajustar os consumos ao preço instantâneo da energia já é velha: há 30 anos chamavam-lhe "gestão de cargas", foi experimentada usando sinais codificados nas emissões de rádio comerciais (como as usadas nos rádios dos carros para dar informações de tráfego), e nunca deu em nada. Pois se uma das grandes belezas da electricidade é poder-se usá-la quando se quer, quem é que estará disposto a desligar o ar condicionado ou a luz só porque a energia está mais cara neste preciso momento, e ainda ter de pagar para ter todo o equipamento electrónico para isso?