sábado, outubro 08, 2011
Nada muda?
sexta-feira, junho 25, 2010
Os 1900 empregos criados pela energia solar em Abrantes
Trata-se de um projecto de grande ambição e acarinhado pelo Governo como um PIN ("Projecto de Interesse Nacional"), o que lhe garantiu o enquadramento no QREN e o acessos aos correspondentes fundos públicos e comunitários: para já, 128 milhões de €, dos quais 58 M€ em "incentivos financeiros", ou seja, subsídios directos.
A RPP Solar teve também o generoso contributo da Câmara de Abrantes, que lhe terá vendido por apenas 100 mil € o terreno para a fábrica, terreno que custara à Câmara 10 vezes mais. O Presidente da Câmara que promoveu essa generosa contribuição foi, após o termo do seu mandato, recrutado pela RPP Solar "ainda sem saber para fazer o quê", mas compreende-se que com tantos empregos a criar e com os 58 M€ garantidos pelo nosso Governo para os sustentar, haja sempre lugar para mais um (só essa verba dá para sustentar os 1900 trabalhadores por ano e meio, pelo menos!).
O projecto, que se diz implicar um investimento total à volta de 1000 M€, é protagonizado pelo empresário Alexandre Alves, o famoso "Barão Vermelho" que foi presidente do Benfica e da há muito desaparecida por falência Fábrica Nacional de Ar Condicionado (FNAC) e se queixa amargamente da pequenez dos subsídios públicos conseguidos, invocando o facto da fábrica de Moura que foi construída nessa vila como "contrapartida" da mega-central solar de Moura ter sido co-financiada pelos contribuintes portugueses a 50%! E diz que só lhe deram esse dinheiro "porque não tem maricas na empresa"...
Segundo parece, os 1000 milhões de € que diz que vai investir na RPP Solar são assegurados, segundo o "Barão Vermelho", por financiamento bancário "além de capitais próprios gerados, sobretudo na actividade imobiliária onde apostou forte nos últimos dez anos, quer em Portugal quer em Espanha".
Esta iniciativa do "Barão Vermelho" revela um notável espírito inovador mas, quanto aos tais capitais gerados pela actividade imobiliária ele terá, ao que parece, alguns problemas com a justiça, segundo revela o Correio da Manhã de hoje. Isso e a falência recente de uma firma sua será o que suscita as atenções da PJ...
Ora os mais jovens nunca terão, talvez, ouvido falar do "Barão Vermelho", que adquiriu este cognome não só por ter sido Presidente do Benfica no início dos anos 90 mas sobretudo por conciliar, ao que constava, o ser capitalista com ser membro do PCP, o que lhe dava acesso nos anos 80, como a outros capitalistas comunistas de que conheci alguns, a negócios privilegiados com as então marxistas-leninistas ex-colónias portuguesas. Os mais jovens não o conhecerão, mas há quem se lembre, como evoca aqui o Ecotretas!
A FNAC faliu num processo que muita gente na altura (há 20 anos) considerou fraudulento, mas o "Barão Vermelho" não foi condenado, pelo que me preocupa mais a razão de fundo da falência da FNAC que os pormenores jurídicos do caso.
Ora eu lembro-me bem dos aparelhos de ar condicionado da FNAC que tinha, na altura, o prático monopólio do mercado nacional, numa época em que ainda não estávamos na União Europeia e este mercado era fechado. Depois apareceram no mercado os aparelhos de ar condicionado japoneses, muito mais silenciosos, económicos, eficientes e com controlo electrónico, e evidentemente a FNAC nunca mais vendeu nada! Lembro-me também de um colega que projectava instalações eléctricas me contar que os japoneses, quando decidiram atacar o mercado português, terem convidado os projectistas como ele para uma semana no Brasil onde lhes explicaram as suas condições, que incluíam prazos de pagamento a 6 meses - o que os deixava deliciados, habituados como estavam às condições severas da FNAC...
Mas pode ser que o "Barão Vermelho" tenha aprendido com isto tudo e agora o projecto corra bem, quem sabe!...
A minha curiosidade preocupada, de facto, é sobre outra coisa:
- Dados estes subsídios chorudos do nosso Governo ao fabrico de painéis solares em Portugal, não vai haver contrapartida nos respectivos preços de venda? E admitindo que sim, não vai haver descida nas tarifas pagas aos produtores de energia solar? Ou vamos ter de pagar, nós os contribuintes, o fabrico dos painéis e depois também a energia solar aos preços exorbitantes tarifados, confirmando a constituição da 2ª vaca leiteira que anunciei aqui?
quarta-feira, março 10, 2010
Uma história que é um aviso para quem a escute
Isto aconteceu porque o Governo de Zapatero decidiu subsidiar essa energia com a extraordinário valor de 58 ç/kWh, umas 15 vezes o que custa a produção do mesmo kWh pelas 9 nucleares espanholas em operação, e na esperança que isso fomentasse o desenvolvimento e maturação da indústria espanhola de equipamentos fotovoltaicos.
Porém, o Governo espanhol não previu a velocidade da corrida ao solar que a sua generosidade iria desencadear, e de repente viu-se a braços com um pesadíssimo encargo, pouca energia produzida, instalações que se avariam e dão repetidos problemas, e sobretudo uma invasão de equipamentos chineses, deixando a indústria espanhola encurralada numa competição que não pode vencer. E baixou o seu prémio, que está agora já só (!!!) em 39 ç/kWh, ainda umas 10 vezes o custo de produção das nucleares.
Resultado: a debandada geral!
O New York Times de ontem conta a história de Puertollano, uma cidadesinha que outrora vivia das minas de carvão e que julgou ver no advento do solar e na procura de terrenos para a sua montagem na região um renascimento económico capaz de reduzir a sua taxa de desemprego de 20%. E conseguiu reduzi-la para metade, de facto... por dois anos.
Agora, com a debandada dos "investidores" (que entretanto tinham criado uma "bolsa" de autorizações para instalação de solares que criou uma verdadeira bolha especulativa que rebentou depressa), Puertollano voltou á taxa de desemprego anterior.
O que ficou foi o encargo para Espanha desses 500 MW médios a serem pagos a 15 vezes o custo de produção normal...
Na Alemanha, que tinha em 2007 um subsídio ligeiramente mais baixo que o espanhol, de 53 ç/kWh, este valor desceu para 43 ç/kWh em 2009 e ocorreu a mesma descida abrupta, ali estando claramente assumido que por causa da constatação pelo Governo alemão de que estava a subsidiar a indústria chinesa. E também houve despedimentos maciços na indústria solar, como contei aqui há uns meses.
sexta-feira, novembro 27, 2009
Mais um negócio renovável, desta vez em convergência central
Pois é verdade. Acaba de ser assistido pelo Primeiro-Ministro em pessoa na inauguração da sua central solar urbana, a "maior do mundo" no seu género (que bom pertencer-se a um país de vanguarda assim!), uma central de 6 MW de " pico" cujo investimento orçou em 31 milhões de €, portanto a 5,15 mil € /Kw de "pico".
Central que, como a da Igreja de Fátima (que custou quase o mesmo por kw de "pico") só produzirá em média 15% desses 6 MW, ou 900 kW, sobretudo no Verão e só de dia, claro. Pelo que o custo da unidade de energia assim gerada superará os 40 ç/kwh, quase o triplo do que o próprio consumidor paga à EDP, mas que esta é obrigada por Lei a comprar!
Diz a notícia que esta energia dá para "abastecer 12 mil portugueses" - por uma vez, as contas estão certas. Só que não os abastece quando eles precisam, à noite...
E qual a incorporação portuguesa na central? O montá-la, o que demorou poucos meses! Quantos empregos criados? 100 durante a montagem, de Janeiro a Agosto.
Quanto à independência energética (eléctrica) assim obtida, convém não esquecer que os 31 milhões de € vieram certamente da Banca (quiçá em empréstimo politicamente bonificado), que por sua vez se financiou na Europa, a quem ficámos a dever; uma simples troca de dependências, mas se medida em €, para muito pior!...
segunda-feira, outubro 19, 2009
A nova central solar do Santuário de Fátima - com correcção
Ontem à tarde,"O padre Cristiano Saraiva, administrador do Santuário, acompanhou ...um grupo de jornalistas à instalação de energia. Trata-se de uma opção feita para colaborar no esforço global contra as alterações climáticas, mas também para tentar reduzir a factura energética do santuário, explicou".
Uma iniciativa destas pela Igreja Católica tem um alto valor simbólico e é, por isso, meritória. Penso que no futuro será de esperar um empenho crescente da Igreja nestas questões, sendo mesmo talvez de se lho reclamar, sabendo-se como as alterações climáticas antropogénicas derivam, no fundo, do excesso de população humana neste planeta finito e de como a Igreja se opõe à limitação da natalidade.
Áparte o valor simbólico da iniciativa, porém, a notícia que a acompanha contém, como infelizmente é usual, um enorme acervo de incorrecções técnicas que se inscrevem na retórica ecotópica do costume, e de que vou dissecar algumas. Não que pense que a Igreja tenha alguma responsabilidade nisto! Sinceramente, acredito que os clérigos envolvidos nesta decisão sejam inocentemente crédulos, quanto ao que ouvem a propaganda dizer sobre estas coisas...
O custo anunciado para esta Central é de meio milhão de €. Ou seja, 5000 € por kw de "pico".
Porém, como se tratam de painéis fixos instalados em telhado, incapazes de seguirem a deslocação do Sol ao longo do dia, a potência média desta Central nunca ultrapassará os 14 a 15 kw. Basicamente pela necessidade de amortizar o investimento, o custo de produção da energia assim produzida ficará pelos 44 ç/kwh, mais cara mais de 10 vezes do que se fosse produzida por uma central nuclear, quase 3 vezes o que o que o próprio consumidor paga à EDP! Só poderá ficar com um custo de produção inferior se as taxas de juros consideradas para o investimento forem subsidiadas...
Obviamente esta instalação só será rentável porque a energia por ela produzida é fortemente subsidiada. Como notei aqui, a EDP é obrigada a pagar 61,75 ç/kwh por esta produção, mas não será como remuneração pela venda de energia que a central solar de Fátima vai ser rentável; será, isso sim, pela captação dos subsídios de decisão política do Governo.
Entretanto, a notícia informa que a central produzirá 150 mil kw por ano (a eterna confusão entre potência - kw - e energia - kwh -...), o que é só um pequeno exagero, visto que a central poderá produzir de facto uns 130 mil kwh anuais (14.84% dos 100 kw de "pico" x 8760 horas que tem um ano). Naturalmente, produz muito mais nos dias longos e soalheiros de Verão do que nos nublados e curtos do Inverno, como se mostra na figura para uma instalação portuguesa típica similar.
Diz ainda a notícia que esta energia produzida pela central solar de Fátima "permitiria alimentar 500 casas". Mas trata-se evidentemente de um erro de zeros; o consumo doméstico médio em Portugal foi de 2611 kwh em 2007, e portanto 130 mil kwh dão para alimentar... 50 casas, e não 500! A 10 mil € de investimento por casa, note-se... se não se tivesse ainda de adicionar ao custo da Central o custo dos meios de armazenamento da energia, de modo a poder-se usufruí-la à noite, que é quando faz mais falta!
Uma estimativa por alto mostra que se considerarmos este custo extra das barragens de armazenamento e o da rede necessária para levar para lá a energia e trazê-la de volta ao início da noite (custo pago por todos os consumidores), e que as perdas energéticas nesse processo reduzem a energia total remanescente à capaz de satisfazer já não as 50 mas apenas 40 casas (o rendimento da armazenagem nunca é melhor que 3/4), mesmo admitindo que 1/3 do consumo seja durante o dia, o custo total deste empreendimento ficaria por nunca menos de 15 mil € por cada uma das 40 casas alimentadas, e isto sem considerar o pagamento dos lucros dos intervenientes no negócio... mas, felizmente, não há só energia de origem solar na rede, e pode-se conceder que na verdade toda a energia solar desta central é consumida durante o dia, em parte da povoação de Fátima, e que à noite, pelas 20-21 horas, quando o consumo doméstico atinge o máximo, as centrais eléctricas convencionais cá estarão para servir os consumidores - incluindo a iluminação da Igreja.
Finalmente, a notícia diz que "A central já instalada permite poupar o equivalente a 31.390 litros de gasolina ou 160 barris de óleo". Em "óleo", devem querer dizer "oil", petróleo. Mas é difícil entender como foi estabelecida esta relação entre gasolina e petróleo, por um lado, e electricidade, que não é produzida a partir daqueles combustíveis. O que talvez se pudesse dizer é que esta instalação permitiria poupar a emissão de 125 toneladas de CO2 por ano (de centrais a carvão), mas só a partir do termo da primeira meia dúzia de anos, já que até lá o CO2 poupado apenas "pagaria" o que teve de ser gasto para a produção dos próprios painéis solares, uma fabricação que requer imensa energia...
----------------
O leitor Fernando Marques comentou, com razão, que a tarifa remuneratória que eu mencionara de 61,75 ç/kwh só se aplica á microgeração (potências até 5 kw). De facto, dada a potência de 100 kw em causa, a tarifa remuneratória é definida de modo mais complexo, pelo Decreto-Lei nº 225/2007. Umas contas por alto mostram que sendo assim a tarifa que a EDP pagará pela energia produzida por esta central deverá andar á volta de 35 ç/kwh, o que efectivamente só pagará os custos de investimento do Santuário se este tiver conseguido condições de financiamento muito favoráveis (em taxas de juros) para o meio milhão de € investidos. Mas, ainda assim, esta tarifa será mais do dobro do que o consumidor médio paga pela energia eléctrica que compra, e o diferencial será pago pelo conjunto dos consumidores (senão pelos contribuintes, se um dia for o Estado que for chamado a saldar o défice das "eléctricas"), sem mencionar os custos de rede.
Diz ainda o leitor que de qualquer modo se trata de um "benefício para a sociedade". Nestes posts eu não tenho feito distinção entre quem lucra e quem perde nestes negócios em Portugal, porque todos constituímos"a sociedade". Interessa-me muito mais, precisamente, é discutir se "a sociedade" no seu conjunto beneficia destas políticas, e aí é que me parece óbvio que a "solução" solar como medida de combate ao aquecimento global é absolutamente insustentável para nós, para qualquer sociedade e para a Humanidade em geral, agora e nas próximas décadas, como já mostrei noutros posts.
quinta-feira, setembro 24, 2009
Noções básicas sobre Economia da Energia para não-especialistas - actualizado
Vou, por isso, tentar explicar aqui algumas dessas noções básicas.
- Potência e Energia de uma instalação de produção de electricidade
A potência mede-se em kw (kilowatt) ou MW (1 MW = 1000 kw), mas a energia mede-se em kwh (kilowatt-hora) ou MWh, sendo o kwh (o que pagamos em casa) a energia gerada ou consumida ao fim de uma hora ao ritmo (à potência) de 1 kw. A energia é a potência somada ao longo do tempo. A potência é a energia gerada em cada segundo, ou ao momento.
Ora, devido ao modo como funcionam, as instalações produtoras raramente conseguem trabalhar muito tempo à sua potência nominal. Depende da natureza da sua fonte primária de energia.
Por exemplo, uma central solar de 46 MW como a de Moura, é capaz de gerar energia no máximo a 46,4 MW, mas isso só acontece em condições ideais de Sol. À noite não trabalha, por exemplo. Para se ter uma ideia, então, de quanta energia é a central capaz de produzir, temos que fazer a média ao longo do ano da potência a que ela vai variavelmente trabalhando. E concluímos que numa instalação solar fotovoltaica doméstica simples, a potência média que, multiplicada pelo número de horas do ano, dá a energia anual gerada, é de apenas 15% da potência nominal. Mas, se a central puder controlar a orientação dos painéis ao longo do dia, seguindo o Sol, como na de Moura, isso aumenta consideravelmente o aproveitamento da luz, elevando a potência média para 21-23% da nominal.
Ou seja, para ter uma ideia da energia anual que a Central de Moura produz, o número indicativo é de 10,5 MW (a multiplicar pelas 8760 horas do ano), e não os 46,4 MW de potência instalada, e isto considerando que o Sul de Portugal, de Espanha e de Itália têm as melhores condições possíveis de energia solar na Europa.
Para que interessa, então, saber a potência nominal de uma central, se ela tem tão fraca relação com a energia que efectivamente produz? Para saber quanto custa o investimento na central, pois esse investimento é quase proporcional à potência nominal da instalação, mesmo que depois a central só funcione em média com uma fracção dessa potência!
O mesmo se aplica às turbinas eólicas, que também só trabalham quando há vento mas que são dimensionadas para aproveitarem as condições de vento máximo, que é quando operam à potência nominal.
Em Portugal, como aliás é típico, a potência média a que trabalha uma eólica é de perto de 1/4 (20 a 26%) da potência nominal, portanto ligeiramente mais que uma central solar com painéis móveis seguidores do Sol. Em Portugal havia no fim do ano passado 2800 MW de "potência eólica instalada", ou seja, um conjunto de parques eólicos cuja soma das potências nominais das turbinas atingia 2800 MW; mas a potência média produzida por essas eólicas todas é apenas de 1/4 disso, ou 700 MW. Esta média resulta de, se há ocasiões de vento forte, em metade do ano o vento é insignificante, e ainda há as paragens por avaria.
Raciocínio idêntico se pode também fazer para outro tipo de central de energia renovável: as hidroeléctricas. Também têm uma potência nominal prevista para as condições de máxima àgua turbinada, mas depois os rios têm períodos de seca ou de pouca água.
Numa hidroeléctrica a diferença entre potência nominal e potência média varia muito com os rios, e o investimento não é tão proporcional à potência nominal como no solar e no eólico porque depende muito de onde a barragem for construída. Além disso a água nos rios varia muito de ano para ano, mas tudo junto a potência média das nossas hidroeléctricas varia entre os pobres 12,8% de Alqueva e os 69% do Picote (no Douro). Em média, para o conjunto das nossas hidroeléctricas e para um ano de pluviosidade média, a potência média gerada ronda os 30% da potência "instalada".
Mas as hidroeléctricas têm uma enorme vantagem sobre as solares e as eólicas: podem armazenar água quando as eólicas ou solares (ou outras que não interesse desligar) estiverem a produzir muito, para a usarem depois quando é precisa, isto é, podem adaptar o ritmo de produção (a potência de funcionamento) às necessidades do consumo existentes em cada momento! Sem falar nas reservas de água potável e na utilização agrícola...
Em Portugal há ao todo cerca de 4350 MW de potência hidroeléctrica instalada, mas a potência média que as centrais hidroeléctricas debitam é de perto de 1300 MW.
Já nas centrais termoeléctricas não há dependência das condições climáticas (vento, água ou sol), e por isso poderiam, em princípio, trabalhar à potência instalada o tempo todo - excepto nas paragens para manutenção - e por isso é que Portugal teve de deixar de se basear exclusivamente em hidroeléctricas nos anos 70.
Por exemplo, uma central termoeléctrica de ciclo combinado, a gás natural, poderia funcionar sempre (ou quase, devido às necessidades de manutenção), mas não é isso que geralmente acontece, devido ao preço elevado do gás e ao moderado investimento da central. As centrais a gás, de facto, são usadas em regra apenas para suprir as restantes, até por serem de controlo fácil e, por isso, em média geralmente apenas geram de 1/4 a 1/2 da sua potência instalada. Em Portugal, no entanto, a grande central de ciclo combinado da Tapada do Outeiro tem desde 2008 funcionado com uma potência média acima de 1/2, por as centrais a gás serem presentemente em Portugal a única solução disponível garantida para cobrir a intermitência das eólicas. Isto, para além de este ano o país ter tido de importar 1/9 da electricidade consumida, à média de 625 MW...!
Já numa central a carvão geralmente a potência média é de perto de 80% da nominal. Isto é, uma central como a de Sines, que tem 1250 MW de potência nominal, gera em média perto de 1000 MW ao longo do ano. Por isso a energia produzida só pela central de Sines é mais 50% que a gerada por todo o parque eólico nacional, e pouco menos que a de todas as hidroeléctricas juntas.
Porém, as campeãs da utilização, as centrais que em todo o mundo produzem mais energia para a potência nominal que têm, as centrais cuja potência média de trabalho ao longo do ano atinge 91% da potência instalada, são as de um tipo de que não temos nenhuma: as nucleares.
É por causa destas diferenças entre as reais possibilidades de utilização dos diferentes tipos de central que é essencial saber qual a potência a que em média uma central realmente trabalha, e não a sua potência instalada, para avaliar do interesse económico do seu financiamento. Uma central nuclear de 1400 MW (potência nominal típica de uma grande nuclear) requereria um investimento muito semelhante ao da inacreditável central solar de 2000 MW anunciada pelos media recentemente; mas, enquanto a central solar só geraria em média 430 MW, a nuclear produziria 3 vezes a energia da tal solar... além de que duraria o triplo (60 anos)! E isto se o investimento anunciado para essa central Solar fosse real, o que é duvidoso, porque os preços de mercado actuais apontam para 30 a 50% mais do que o publicitado...
- Custo de produção da energia eléctrica, mesmo quando o combustível é grátis
E, se custa dinheiro, se requer um investimento, esse investimento tem de ser pago pela energia que a central produzirá. Por isso, ainda que o sol, o vento e a água dos rios sejam grátis, a energia eléctrica produzida por qualquer central, mesmo as que usam energias primárias renováveis, não pode ser grátis. Tem de, pelo menos, pagar o investimento da sua construção.
Na verdade, o custo da energia eléctrica produzida por uma central tem quatro parcelas: o custo de capital (o pagamento do investimento), o custo de operação e manutenção e outros, o custo do combustível e os lucros.
O custo de capital depende no número de anos de vida útil da central e inclui, claro, a amortização e os juros do crédito (o custo do dinheiro, o pagamento pelo serviço que nos prestam ao nos permitirem fazer um investimento para o qual não temos dinheiro nosso). Presentemente, por exemplo, a previsão mais recente da Administração dos EUA para os custos de construção (investimento) dos vários tipos de central é, por cada kw de potência instalada da referida central, sem considerar juros e já considerando prazos de construção (custos "overnight"), para centrais a investir agora e estarem prontas em 2015, convertendo USD para €:
- Solar fotovoltaico: 4000 € (mas na de Moura foi 5635 €...);
- Solar térmico: 3265 €;
- Eólica (no mar, off-shore): 2630 €;
- Carvão com dessulfurização e captura do CO2: 2390 € (simples estimativa);
- Nuclear: 2280 € (há quem considere este valor subestimado e o incremente em até 50%);
- Hidroeléctrica (em média): 1650 €;
- Eólica (em terra): 1355 €;
- Carvão com dessulfurização: 1345 €;
- Ciclo combinado a gás com captura do CO2: 1290 € (simples estimativa);
- Ciclo combinado a gás: 475 € (valor corrigido em 25/9/09 dos anteriores 675€, considerando o preço da acabada de fazer em Lares);
Uma segunda diferença é o custo do dinheiro, isto é, as taxas de juro. Podemos somar-lhe os lucros e obter as taxas de retorno; em mercados regulados, com preços relativamente garantidos, os investidores aceitam muitas vezes taxas de 5%, mas em mercados liberalizados, em que a incerteza quanto aos preços futuros é maior, os investidores exigem taxas de pelo menos 10%, para encurtar os prazos de amortização e, com isso, os riscos quanto ao futuro.
Umas contas simples mostram que para taxas de 10%, a anuidade a recuperar nas vendas de energia terá de ser de 10,1%, 10,25%, 10,61% e 11,75% conforme os prazos considerados forem de 50, 40, 30 ou 20 anos. Isto independentemente do tipo de central. O que depende do tipo de central é a relação entre a sua potência média de funcionamento (a que é proporcional a energia vendida), e a sua potência nominal, a que é proporcional o investimento a recuperar.
Contas feitas e para as centrais acima listadas, obtêm-se os seguintes custos de capital por unidade de energia a vender (kwh) e para a situação actual de escassez de crédito e elevadas taxas de desconto (10%), em cêntimos:
- Solar fotovoltaico: 24,4 ç (mas na de Moura seriam 34,3 ç);
- Solar térmico: 19,9 ç;
- Eólica (no mar, off-shore): 10,08 ç ( no mar a potência média das eólicas anda pelos 35% da nominal, melhor que as de terra);
- Eólica (em terra): 7,3 ç;
- Hidroeléctrica (em média, com utilização a 30%): 6,33 ç;
- Carvão com dessulfurização e captura do CO2: 3,67 ç;
- Ciclo combinado a gás com captura do CO2: 3,14 ç (com utilização a 35%);
- Nuclear: 2,93 ç;
- Carvão com dessulfurização: 2,06 ç;
- Ciclo combinado a gás: 1,28 ç (com utilização a 50%; 2,73 ç com utilização de 30%);
O custo do desmantelamento de uma central nuclear é estimado usualmente em 30% do de construção, mas o urânio é barato, menos de 10% do custo total (nos últimos anos o mercado foi inundado pelo urânio proveniente das ogivas nucleares desactivadas pelos acordos de desarmamento nuclear entre os EUA e a Rússia), embora se tenha de adicionar o custo de enterramento dos resíduos radioactivos. Por isso, o custo de uma central nuclear dependente muito das taxas de juro conseguidas, e estas dependem muito do risco, que é moderado se o Estado garantir a rentabilidade do investimento - razão porque praticamente se deixaram de construir no Ocidente, com a lucrativa excepção da França. Mas o custo depende essencialmente da construção não sofrer derrapagens!...
O carvão também é relativamente barato. Para uma central com o custo de construção indicado, uma central moderna com ciclo termodinâmico super-crítico (alta pressão e alta temperatura do vapor), os custos de combustível e de manutenção andarão (nos EUA) por 1,05 ç/kwh, mas mais se a central tiver captura do CO2, por nestas parte da energia gerada ter de ser utilizada para essa captura. Acresce cerca de 0,95 kg de CO2 emitido por cada kwh, a que corresponde uma multa de 1,9 ç/kwh (na Europa, uma tonelada de CO2 "paga" 20 €).
Já o gás é caro. Geradores similares aos instalado em Portugal têm consumos típicos de 0,18 m3 de gás por khw gerado, e embora as nossas centrais tenham contratos especiais de fornecimento, é plausível que os preços que consigam sejam da ordem dos 0,27 €/m3, o que conduz ao custo de combustível de 5 ç/kwh, muito superior ao custo de investimento dessas centrais, e a que há que adicionar os custos de operação, manutenção e CO2 (da ordem de 1 ç/kwh). Além disso, apesar do seu excelente rendimento e de a queima do gás emitir menos CO2 que a do carvão, estas centrais também o emitem, cerca de 0,35 kg de CO2 por kwh gerador, o que "paga" 0,7 ç/kwh de multa.
Tudo ponderado, pode-se listar os seguintes custos totais indicativos, como ordem de grandeza, para a unidade de energia (kwh) gerador por cada tipo de central:
- Solar fotovoltaico: 25 ç;
- Solar térmico: 20,5 ç;
- Ciclo combinado com captura do CO2: 12 ç (4,46ç investimento);
- Eólica off-shore: 11 ç;
- Eólicas em terra: 8,65 ç (com potência média = 25% da instalada);
- Ciclo combinado actual: 6,8 ç (4,5 ç/kwh custo do gás e 0,7 ç/kwh de multa pelo CO2, supondo 50% de uso);
- Hidroeléctricas: 6,7 ç (mas muito variável, dependente da "qualidade" do aproveitamento hídrico);
- Carvão com captura de CO2: 6,2 ç (3,67ç investimento; mais caro que com as actuais sem captura de CO2, mas sem multa);
- Carvão actual: 5,8 ç (1,9 ç de multa pelo CO2, inexistente na China, Índia e EUA, país este onde o carvão é também muito bom, trazendo o custo total para apenas cerca de 3,5 ç/kwh).
- Nuclear: 4,2 ç (3,0 ç investimento inicial; segundo a Administração americana é só 2,28 ç, o que baixaria o custo total do kwh para apenas 3,5 ç).
Porém, num horizonte sem CO2, é evidente que as centrais competitivas serão a nuclear e as a carvão com captura de CO2, com custos da mesma ordem de grandeza (embora algumas incertezas não permitam ter a certeza de qual será a de energia mais barata - de qualquer modo, pouco diferirá), enquanto de energia renovável, mas mais caras que as termoeléctricas, serão apenas as eólicas (em locais de bom vento) e as hidroeléctricas (em rios com boa água), Eólicas, mas em terra, porquanto as off-shore não só são muito mais caras, como Portugal não tem plataformas marítimas adequadas para elas, ao contrário do Mar do Norte.
------
Recebi o seguinte comentário do meu colega e amigo Prof. Santana, ex-administrador da ERSE:
Em primeiro lugar, quero felicitar o meu colega Pinto de Sá pelo seu blog.
Concordo com ele que, no sector eléctrico, o risco e o custo do dinheiro são determinantes, como por exemplo: os promotores da nova central nuclear finlandeza aceitaram uma taxa de remuneração do capital de 5%, naturalmente reduzindo os riscos do projecto; porém, o mais recente estudo do MIT, sobre a questão nuclear, assume o risco de construção e o risco de operar em ambiente de mercado, e com estas condições estabece as condições financeiros do projecto: 50% do capital é dívida com a taxa de 8%, e 50% é capital próprio com a taxa de 15%.
Assim, o custo previsto pelo finlandezes é cerca de 2,4 ç/kWh, enquanto o custo do kWh previsto pelo MIT é quase o triplo!
Relativamente aos custos variáveis dos combustíveis, apresentados pelo Pinto de Sá, tenho uma dúvida, estes custos referem-se a que data?
Actualmente, no OMEL onde predomina a produção a gás natural, o preço marginal na ponta não ultrapassa os 4,5 ç/kWh.
João Santana
Obrigado pelos dados. Fiz todos os cálculos de custo de capital com base na taxa de 10%, e obviamente que para o nuclear (mas também para as renováveis) essa taxa é essencial para determinar o custo final da energia. Os dados da DOE que usei, já de 2009, dão conta da subida dos preços dos materiais e do crédito, mas o relatório do MIT incluiu uma avaliação mais fina dos vários custos, e não só para o nuclear.
Comparando os dados das duas instituições, verifica-se que os custos de capital que o MIT indica são 20% superiores aos da DOE, tanto para o nuclear como para o carvão, mas para o ciclo combinado são 12% inferiores (depois de converter os USD para €, multiplicando por 0,7). O MIT merece toda a consideração, mas a DOE tem a informação estatística oficial da Administração dos EUA, ambos os dados são já de 2009 e os do MIT parecem-me muito arredondados.
Acresce que o MIT considera algumas hipóteses de cálculo, ao comparar custos, que me parecem académicos, nomeadamente: a) atribui o mesmo tempo de vida útil aos três tipos de centrais, 40 anos, quando na verdade as nucleares têm atribuídos 40 mas que têm sido estendidos para 60, enquanto às outras costuma-se atribuir-lhes 25 ou 30. Eu considerei 40 para as nucleares e 20 para as outras duas. b) Atribui o mesmo factor de utilização a todas, 85%, quando na verdade as nucleares têm-no em geral pelos 90%, as a carvão não chega a 80%, e as a gás menos - e isto é determinante no custo de capital por kwh, claro! Eu considerei, nas minhas contas, 91% para o nuclear, 80% para o carvão e 50% para as a gás...
De qualque modo, o MIT indica também os custos finais, já incluindo tudo e nomeadamente combustíveis, para atingir as seguintes previões de custo (não esquecendo de converter USD para €):
nuclear: 5,88 ç/kwh, versus os 4,2 que eu estimara - ainda assim, bem bom, mas o tal custo finlandês de 2,4 ç/kwh é que é excelente! Se considerarmos um factor de utilização de 91% em vez dos 85% do MIT, já o "custo MIT" desce para 5,57 ç/kwh... Mas calibrando os meus cálculos com os do MIT para os "outros custos", então terei de subir o "meu" preço do nuclear dos 4,2 ç/kwh para 4,7 ç/kwh. De qualquer forma, mesmo a 5,57 ç/kwh para a "opção nuclear", esta continua muito competitiva, apenas mais cara que a do carvão sem multa pelo CO2!
carvão: 4,34 ç/kwh, vs. os "meus" 4,0 , sem "multa" pelo CO2; com multa: 5,8 ç/kwh, o mesmo que os "meus". A diferença não é grande, mas aqui a questão principal está no custo atribuído ao carvão, que varia muitíssimo com a respectiva qualidade.
gás: 5,18 ç/kwh (com multa) vs os "meus" 6,8. Aqui é que a diferença é maior, por um lado por, ao contrário do que sucede para o carvão e o nuclear, para o gás o MIT considerar um custo de capital inferior ao da DOE, mas sobretudo pelo inferior preço do gás nos EUA.
Eu considerei um custo do gás de 0,25 ç/m3 para a Tapada do Outeiro, mas reconheço que foi uma estimativa com poucos fundamentos: vi que a ERSE informa que o custo mínimo de venda a retalho do gás pelas operadoras em Portugal é de 0,32 ç/m3, e considerei que a Turbogás da Tapada do Outeiro, por comprar directamente à GALP, tivesse 20% de desconto. Isto estaria em consonância com o tal custo marginal de 4,5 ç/kwh de venda na OMEL - mas ainda muito acima do preço nos EUA. Será por lá não haver a GALP controlar os preços do gás? :-)
Ah, o custo marginal de 4,0 ç/kwh está on-line na OMI. Aliás, o que lá está neste preciso momento até é só 3,83 ç/kwh...!
---
Acabei de perceber a razão da discrepância entre o custo de investimento das eólicas obtido das estatísticas do Departamento de Energia (DOE) dos EUA de Março passado, e as que eu tinha de Portugal (2007): é que estas estavam desactualizadas. Em 2008 houve uma subida dos preços das turbinas no mercado mundial! Além disso, subestimei os custos de Operação & Manutenção das eólicas que, segundo a EWEA, são das ordem de 1.2-1.5 ç/kwh, dos quais apenas 60% respeitam às turbinas - o restante é sobretudo para a renda dos terrenos, que eu negligenciara. Corrijo, pois, os cálculos em conformidade. Aliás, noto que a DOE aponta a alta generalizada dos preços das matérias-primas e do crédito para justificar, também, o alto custo actual de construção das nucleares, ainda assim as que produzem a energia mais barata num cenário sem CO2 e, portanto, sem carvão poluente...
sexta-feira, setembro 11, 2009
Inacreditável!
Nem posso acreditar!
Mesmo que a central apenas custe só 6 biliões de €, do que duvido, isso significa um custo de 3€/w, 2,2 vezes do que custa presentemente, em média, uma turbina eólica. Porém, a utilização média da potência de ponta de uma eólica é, por cá, de 25%, enquanto a de uma central solar com seguimento do Sol é de apenas 21,5%, pelo que para a mesma potência, uma solar produz 21,5/25=85% da energia da eólica. Acresce a isto a maior manutenção requerida pela solar, que precisa que se lhe limpe os painéis regularmente.
Por conseguinte, o custo de investimento para a produção do kwh solar será de pelo menos 3 vezes o do eólico.
Ora para que o eólico seja rentável já tem de ser fortemente subsidiado, dado custar mais do dobro do que custa o kwh gerado pelas fontes convencionais de energia! Veja-se, pois, o que custará em subsídios uma energia ainda 3 vezes mais cara!...
E isto só no que respeita ao investimento na central! Porque nas poucas horas em que a Central funcionar à potência máxima, a meio dos dias de Verão soalheiro, a rede terá mesmo de escoar os 2000 MW, quase o equivalente ao que produzem duas centrais de Sines! Nem todo o país tem capacidade para encaixar isso, daí a necessidade de criar rede que escoe isso para lá dos Pirinéus...
Mas como, em média, a central só produzirá 21,5% disso, na verdade gerará menos de metade da energia produzida pela referida central de Sines (que é "só" de 1250 MW)!
Um "cluster" nacional para a sua produção? Continuam a brincar connosco!!!
Penso que se alguém no Governo, na REN, ou qualquer outra instância pública, apadrinhou esta ideia, deve ser imediatamente preso!
quarta-feira, setembro 09, 2009
Energia solar: negócios portugueses e as perspectivas mundiais

Dizia-me o folheto que eu ganharia com isso em média 300 €/mês isentos de IRS, além de que poderia deduzir à colecta de IRS 796€ do investimento de 25200 € (mas que na verdade não é aplicável se a casa já estiver adquirida). Quanto aos custos de manutenção e de instalação do "kit" o folheto era omisso, mas pode-se presumir que a vida útil do "kit" seja de 20 anos, com substituição eventual do conversor por volta dos 10 anos. A manutenção terá de incluir a limpeza regular, já que a acumulação de pó reduz o rendimento dos módulos até 50%.
Umas breves contas sobre os dados do próprio folheto mostram que a energia produzida estimada aproveita em média apenas 15% da potência indicada de 3,68 kW, tendo em conta as noites, os períodos de céu nublado e as condições frequentemente não ideais de exploração, nomeadamente o ângulo variável de incidência da luz do sol ao longo do dia. É um valor típico das médias mundiais dos módulos solares.
Um rápido cálculo financeiro mostra também que, excluindo custos de manutenção e considerando as taxas de juro especiais oferecidas para o efeito pela Caixa Geral de Depósitos, o prazo de amortização do referido investimento andaria pelos 8 anos, se a tarifa se mantivesse a mesma. Porém, a referida tarifa só é "oferecida" pelo Governo para os primeiros 5 anos (facto "esquecido" no referido folheto), descendo a partir de então para o valor em que estiver na altura e que, com elevada probabilidade e pelo que adiante é discutido, será pouco superior à tarifa de compra. Quer isto dizer que com elevada probabilidade a instalação só estará de facto amortizada ao fim de 20 anos, o tempo de vida do equipamento e que, portanto, se trata de um investimento com interesse nulo enquanto negócio!
Tendo em conta que a energia produzida pelo vento custa à EDP quase o mesmo preço pela qual é depois vendida (0,1 €/kwh), o dobro do que custa a do carvão, já considerando os 0,2 €/kwh de "multa" pelo CO2 emitido pela queima deste e imposta pelo protocolo de Kioto, vemos que esta energia solar custará à EDP, presentemente, 6 vezes o que lhe custa a eólica e cerca de 15 vezes o que custa a extraída do carvão, "multa" pelo CO2 àparte (que os maiores consumidores mundiais de carvão para a produção de Energia, os EUA e a China, não pagam porque não subscreveram Kioto).
Poder-se-á argumentar que, sendo essa energia eléctrica produzida junto ao consumidor, a EDP poupa os encargos com o seu transporte e distribuição a partir das centrais usuais e que, portanto, o custo a comparar com os 0,62€ não será o da energia à boca dessas centrais mas o acrescido do seu transporte e distribuição, ou seja, perto dos 0,114€ pagos pelo consumidor. Mesmo assim é evidente que se trata de uma subsidiação de 0,55 €/kwh.
Por conseguinte, o custo desta energia solar é totalmente subsidiado pelos impostos cobrados pelo Estado e pelo défice da EDP, ele também a ser pago um dia, mais cedo que tarde, pelos consumidores, e pelo próprio "microprodutor", enquanto financiador e sobretudo pela disponibilizaçã0 da área de colocação dos painéis.
E o que subsidia ao certo esta estratégia energética?
Portugal é o único país que tem uma política generosa de subsidiação às energias renováveis por motivos apenas ideológicos. Porque, espantosamente e ao contrário de todos os outros países que subsidiam a procura interna de energias renováveis, Portugal não tem indústrias próprias de equipamentos produtores de energia renovável. Não as tem para a campeã eólica, e também as não tem para a energia solar!
Quandoo Presidente da República inaugurou a fábrica de módulos solares da Solar Plus em Dezembro passado, manifestou um entusiasmo talvez excessivo face à modesta dimensão do projecto: um empreendimento puramente financeiro de um consórcio nacional de apenas 15 a 18 M€, com tecnologia e organização totalmente estrangeiras, destinado à mera montagem de componentes importados e anunciando 109 empregos não-qualificados. As referências à "tecnologia inovadora" e à "participação das Universidades" do Presidente seriam encorajadoras se ele estivesse a falar de entidades portuguesas, mas sobre isso admito que o tivessem equivocado. A usual Martifer montará a maior parte dos painéis solares "fabricados" em Portugal mas, como se queixou o dirigente da GEOTA Manuel Santos, "a instalação de colectores solares em 65 mil habitações individuais não vai ter impacto no abastecimento energético do país, gerando apenas negócio para algumas empresas". Na verdade, trata-se de um negócio em tudo similar ao da energia eólica em Portugal, embora em menor escala, essencialmente um comércio de importação alimentado por subsídios públicos. Aquilo a que um antigo pensador político chamava de economia "burocrático-compradora"...
É verdade que o panorama mundial de fabrico de módulos solares é caracterizado por uma estratégia europeia de subsidiação à compra (tarifas "feed-in"), como em Portugal, mas que tem beneficiado sobretudo os fabricantes da Alemanha, até recentemente o país maior produtor destes módulos, aliás como de turbinas eólicas. Também a nossa vizinha Espanha tem várias grandes fábricas com tecnologia própria, particularmente na região de Valença, algumas das quais resultam de projectos iniciados há mais de 25 anos, quando em Portugal o Prof. Leopoldo Guimarães se interessava também pelo assunto na sua Faculdade mas sem que, entretanto, tenha havido no país qualquer iniciativa que transformasse esse interesse científico em produção económica, ao contrário de Espanha e já sem falar da Alemanha...
Ora uma estratégia diferente da subsidiação à compra tem sido a da China, cujos Governos central e regionais têm subsidiado antes a produção, com a exportação dos seus painéis a preços inferiores aos próprios custos marginais de produção (i.e., subtraindo os custos fixos administrativos e de I&D). Com esta estratégia, a quota chinesa do mercado mundial de painéis solares cresceu de 7% para 26% em apenas 4 anos, de 2005 a 2009, enquanto a produção dos EUA, em tempos pioneiro e líder, é agora de apenas 5%. A China acaba de ultrapassar a Alemanha como primeiro fabricante mundial de painéis solares o que, juntamente com a crise mundial de crédito, já criou dificuldades à Q-Cells, o fabricante alemão que detém a 2ª posição mundial como produtor e que teve por isso de despedir há semanas 500 dos seus 2600 trabalhadores. Esta concorrência é agravada, para os fabricantes europeus, pela radical redução da subsidiação à compra pelos Governos alemão e espanhol verificada em 2009. De facto, na Alemanha os políticos não estão para pôr os seus contribuintes a subsidiarem indústrias estrangeiras (como afirmou Markus Wieser, porta-voz da Q-Cells), e a Espanha parece ter a mesma atitude (aliás, só Portugal a não tem). Ora, juntas, a Alemanha e a Espanha constituem 70% do mercado mundial de módulos solares!
A posição da Q-Cells no ranking mundial de fabricantes de painéis foi já alcançada este ano pela Suntech Power Holdings chinesa, e este autêntico blietzkrieg chinês compromete mortalmente também, claro, os parcos investimentos feitos em Portugal na montagem de painéis solares estrangeiros. Diversos especialistas consideram, aliás, que nem a Europa nem os EUA têm hipóteses de concorrerem com a China. A China, entretanto, ainda não instalou no seu próprio território uma única central solar e, a primeira que anunciou, para 2010, exige 80% de incorporação chinesa...
Mas qual é a tendência evolutiva dos preços de produção da energia solar e, portanto, que papel se pode esperar para ela no futuro próximo?Cerca de metade do custo de um módulo solar está nos painéis, mas a outra metade vem dos conversores electrónicos necessários para a sua utilização e dos custos de instalação. Nos últimos anos, o custo total dos módulos tem baixado, mas isso deve-se principalmente aos conversores electrónicos e à automatização das montagens, e não ao componente principal dos módulos, as células foto-eléctricas.
Inicialmente de silício cristalino (o mesmo material de que são feitos os chips electrónicos), a evolução tecnológica juntou-lhes outras alternativas, das quais a mais rentável é presentemente a de películas finas (thin-film). Embora o rendimento energético das películas finas seja o pior, o seu menor custo de fabrico e maior longevidade compensam largamente esse pior rendimento, levando ao menor custo por kw de potência de pico.
No entanto, existem outras tecnologias em evolução competitiva, todas procurando o menor custo de fabrico por unidade de energia eléctrica produzida, de modo que é possível esperar que, a prazo de alguns anos (digamos, uma década), uma das tecnologias emerja como a consistentemente mais rentável. Porém, como é difícil prever que tecnologia será essa, também o é a forma dos módulos dela derivados e as condições ideais da sua exploração (a opção do "solar concentrado", por exemplo, requer grandes instalações cobrindo áreas consideráveis de terreno). É uma situação similar à existente com as baterias dos (futuros) carros eléctricos.
Presentemente, entretanto, o menor custo de produção obtido experimentalmente e já este ano para painéis solares de película fina é de 1 USD/Kw, um custo que torna o custo de investimento por kwh ainda duplo do da energia eólica (dado que os factores de utilização médios das instalações com painéis seguidores do Sol e das eólicas são respectivamente de 21% e de 25% e que falta ainda contabilizar o custo de investimento da integração dos painéis com os conversores e controladores), mas um recente estudo da Universidade de Berkeley para a Administração Obama mostra que será muito difícil conseguir melhor nos próximos anos.
Face aos custos insustentáveis da energia solar (o sol é grátis mas, tal como o vento, a água dos rios e até o petróleo do sub-solo, o problema é a sua transformação em algo utilizável), não admira que a totalidade mundial das instalações solares produtoras de electricidade não produza mais do que a energia gerada por uma única grande central nuclear ou a carvão!
Como afirma o mencionado estudo da Universidade de Berkeley, "the message ... is that unlike the stock market, we need to think long-term, and plan for the solar power we want to see a decade or more in the future. And that means doing some painstaking basic research on neglected materials that, for now, cost a lot more than a dollar a watt."
Esta é a estratégia recomendada para países que têm estratégias.
Para Portugal, e dada a triste realidade de desde Ferreira Dias não se planear a prazo em termos de política industrial e tecnológica, resta o que o Presidente da República recomenda na sua intervenção acima inserida: "redução do consumo" e "aumento da eficiência energética". Ou, noutros termos quiçá duros mais mais claros: aprendermos a viver pobremente da melhor maneira! E, acrescentaria eu: começar a trabalhar para um horizonte de daqui a uma década...
-------
Hoje mesmo, o Público on-line dá conta de uma notícia que confirma e completa este post e que pode ser lida aqui com maior detalhe: a China e a First Solar, o maior fabricante mundial de módulos solares (americano) e que ainda supera a alemã Q-Cells e a chinesa Suntech Holdings, acordaram no fornecimento de uma gigantesca central solar de 2000 Mw (potência de pico, correspondendo a 300 MW de potência média, pouco mais de um terço da da nossa central a carvão de Sines), ocupando uma área de 65 km2, na Mongólia interior. O custo previsto para a central é da ordem dos 2,5 a 3 USD/w, muito acima do desejável 1 USD/w que traria o custo da energia produzida pelo solar para um valor ligeiramente inferior à de origem eólica, mas os chineses esperam conseguir reduzir-lhes os custos. Vão também adoptar uma subsidiação à compra dessa energia, para a viabilizar. E, como sempre o têm feito, hão-de usar isso para aprenderem a tecnologia e para terem argumentos para exportar depois para os EUA...



