terça-feira, fevereiro 23, 2010

Posição sobre a política energética nacional: I - Sobrecustos e inviabilidade técnica

Com este post, inicio a publicação de um documento de posição sobre a política energética nacional, em 15 pontos. A publicação desdobrar-se-á em 4 posts, a publicar diariamente a partir de hoje, e cuja versão impressa poderá ser acedida num hyperlink que colocarei no final.

1. Portugal ainda tinha em 2009 preços médios da electricidade, na Europa, mas com subsidiação cruzada das empresas pelas famílias.


Na Europa dos 27 e antes de IVA, segundo as estatísticas da Eurostat, em 2009 a electricidade para consumo doméstico em Portugal teve um custo médio idêntico à média da EU-27, mas 6% superior ao espanhol. No entanto, para os consumidores mais pobres, esse custo foi 50% superior à média europeia e dos maiores!
Para o consumo industrial o preço médio foi 13% inferior ao da média da EU-27  e 22% inferior ao de Espanha, sendo óbvia a subsidiação cruzada (das famílias à indústria) existente em Portugal, como em alguns outros países da Europa Ocidental, mas não em Espanha.
Porém, em 2009 verificou-se o diferimento do pagamento de 447 milhões de € de sobrecusto das energias renováveis que teria, só por si, acrescido em 6% o preço médio do kWh, diferimento que se adicionou a um défice já acumulado de anos anteriores, totalizando 709 milhões de €.


2. Nos últimos anos, Portugal tem praticado uma política de subsidiação à energia eléctrica de origens eólica e solar em que a quantidade de energia produzida por essas formas tem sido mistificada.

No actual estado de desenvolvimento tecnológico, a energia eléctrica de origens eólica e solar não é economicamente viável sem uma forte subsidiação, tendo vindo a ser sistematicamente confundidas para a opinião pública a potência instalada, indicativa dos volumes de investimento realizados, e a energia produzida por essas fontes, cuja inerente intermitência é escamoteada. Assim, embora se tenha atingido uma potência eólica instalada total de 3500 MW no final de 2009, com quase 1900 geradores localizados em perto de 200 parques eólicos, a potência média anual que esses geradores produzem é de apenas 1/4 dessa potência instalada.

Menor ainda é a relação entre a potência média anual efectivamente gerada e a instalada na energia solar fotovoltaica, em que apesar de terem sido montados 84 MW até ao final de 2009, a potência média deles extraível não ultrapassa 1/5 desse valor, e 1/6 no caso dos painéis fixos em edifícios.

No total, e apesar de um investimento estimável em 4100 milhões de € nos último anos, a que se poderão adicionar cerca de 700 milhões de € (20%) de investimentos adicionais requeridos às redes, particularmente à de Transporte da REN, as gerações de energia eólica e solar já instaladas não atingem sequer a produção anual típica de uma única central a carvão como a de Sines, e não satisfazem em média anual mais que 15% do actual consumo nacional de electricidade.

Entretanto e ao longo da década, a produção nacional de energia eléctrica não conseguiu acompanhar um aumento de consumo de cerca de 50% (agora reduzido em perto de 6% pela grave crise económica), passando-se de uma situação de auto-suficiência energética para um saldo importador crónico de cerca de 10% da electricidade consumida.


3. Os sobrecustos da energia resultantes da subsidiação das produções de origem eólica e solar já instaladas têm sido remetidos para um défice tarifário cuja satisfação implicará, nos próximos anos, um substancial agravamento do preço da energia eléctrica.

O preço médio previsto para 2010 de referência para a energia eléctrica no mercado ibérico é de 5 ç/kWh, uma redução de 2 ç/kWh relativamente ao valor assumido para 2009. Porém, o preço médio da energia de origem eólica é presentemente de 9,1 ç/kWh e, com excepção da hidroeléctrica, da cogeração e da provinente das ETAR já instaladas, as outras são ainda mais caras, atingindo 34,5 ç/kWh na solar fotovoltaica e 58,7 ç/kWh na microgeração.
Até recentemente estes sobrecustos foram diferidos, como mencionado em 1., mas o Governo aprovou em 2008 a proposta da ERSE para o seu pagamento até 2024, no valor já referido de 709 milhões de €. Porém, este valor apenas diz respeito ao défice registado até ao final de 2009 e que fora diferido, não incluindo, pois, o sobrecusto dessas energias já instaladas nos anos futuros e que, só em 2010, a ERSE prevê ascenderem a 611 milhões de €.

Ao valor deste sobrecusto directo das renováveis, de que as eólicas constituem cerca de metade e a cogeração 1/5, há que adicionar o sobrecusto associado na rede de Transporte da REN, somando tudo um valor que se pode estimar em mais de 11% do preço médio – a qual aumentou apenas 3% relativamente a 2009, graças à forte queda de preços da energia eléctrica no mercado ibérico e dos combustíveis de referência nos mercados internacionais como o carvão e o gás natural, que, se tivesse sido acompanhada pelas tarifas, teria redundado numa descida significativa de preços. Esta incorporação do sobrecusto das renováveis no preço da electricidade será sentida pelos consumidores quando os custos internacionais dos outros factores regressarem aos valores anteriores à crise.


4. Recentemente foi retomado o aproveitamento dos recursos hidroeléctricos nacionais, com uma mistificação ainda maior quanto à quantidade de energia de origem hídrica por eles produzível.

Estando já em construção ou concessionados para tal 10 novos aproveitamentos hidroeléctricos, e a serem reforçadas as potências de mais 6, num aumento da potência instalada total de cerca de 4650 MW, o investimento associado atinge o valor anunciado de 4850 milhões de €, mas a potência eléctrica de origem hídrica que efectivamente tal investimento produzirá em média será apenas de perto de 175 MW, 1/27 da potência a instalar e só 3% do actual consumo nacional de electricidade.

Na verdade, sendo o nosso país relativamente dotado, em termos médios europeus, de potencial hidroeléctrico, a sua exploração no século passado constituiu por algumas décadas a fonte principal da electricidade consumida no país, mas nessa época o país era pobre e mal electrificado, sendo o consumo de electricidade por habitante em 1980 30% do actual, e em 1970 apenas 1/6.

Devido ao crescimento do consumo propiciado pela democracia, a energia hidroeléctrica já só satisfaz, em média anual, 23% do consumo nacional, apesar deste ainda só atingir 3/4 da média europeia por habitante, não sendo passível de aumentos drásticos. Por isso, apesar de os novos aproveitamentos incrementarem em 1/7.5 a energia nacional de origem hídrica, relativamente ao consumo actual do país isso é apenas 1/7.5 de 23%, 3%. Este valor cobriria o aumento de consumo nacional de apenas um ano com o ritmo de crescimento que ele tinha antes da actual crise económica, não justificando os 4850 milhões de € de investimento envolvidos que, de uma forma ou de outra, terão de ser pagos pelos portugueses.


5. A intermitência da energia eólica cria problemas técnicos a Portugal insolúveis num quadro de exploração racional e que estão a ser desastrosamente tratados

Embora os 3500 MW instalados de produção eólica só produzam realmente, em média anual, 1/4 desse valor, 900 MW, essa produção varia a cada momento em função das condições meteorológicas e de localização, sendo estatisticamente máxima de madrugada e de Inverno, particularmente em Invernos húmidos, e muito fraca em extensas épocas do ano. Por outro lado, a exploração desta forma de energia assim como a de todas as outras renováveis, com exclusão das grandes hidroeléctricas, obedece a um quadro legislativo e a meios técnicos que impedem a sua modulação em função das necessidades do consumo (produção em regime especial, ou PRE, não controlável).

Considerando a totalidade de fontes de energia renovável exploradas em regime especial e existentes presentemente no país, e que incluem importantes componentes energéticas de cogeração e de mini-hídricas, essa produção tanto se pode reduzir a menos de 700 MW (com predomínio da cogeração, biomassa, etc), em muitas alturas do ano, como exceder os 3500 MW em certos períodos (com predomínio eólico). Esta variabilidade é incontrolável, no quadro existente, e requer a existência em reserva permanente de centrais termoeléctricas de controlo rápido, só para fazer face às bruscas, grandes e imprevisíveis quedas de produção da geração eólica!

Por outro lado, o consumo nacional de energia eléctrica tem presentemente o valor médio de 5700 MW, mas oscila entre o mínimo de 3300 MW nas madrugadas de dias de descanso e mais de 8500 MW nas horas de ponta. Infelizmente e como é patente, a produção de energia eólica tende a ser maior nas horas de menor procura, ou seja, de madrugada, assim como em Invernos húmidos com temperaturas amenas e consumos reduzidos de aquecimento. Estas circunstâncias conduziram já, em Dezembro de 2009, à existência de muitas dezenas de horas em que a produção de energia renovável excedeu largamente o consumo nacional e teve de ser entregue a Espanha gratuitamente, por o país vizinho não necessitar dela, embora essa energia tenha sido paga aos respectivos produtores aos preços subsidiados já referidos, com a correspondente perda nacional de vários milhões de €.

Ora este problema técnico de excesso de energia renovável relativamente às necessidades de consumo em certos períodos do ano agravar-se-á severamente no futuro próximo, caso o programa energético do Governo não seja alterado.
Com efeito, está já concessionada a instalação de mais 800 MW de produção eólica (mais 23% que a existente), e o Plano do Governo prevê ainda a concessão de mais 1400 MW, totalizando 5/3 do existente. Neste cenário, embora a totalidade dessas instalações pretenda adicionar à produção nacional uma potência média anual de 540 MW (9.5% do consumo médio actual do país), a incompatibilidade técnica entre a sua disponibilidade e o consumo tornar-se-á impossível de gerir sem medidas que terão sempre um custo extraordinário para o país.

A cumprir-se o plano governamental para a produção eólica, Portugal teria 25% do seu consumo de electricidade satisfeito por essa forma de energia, ultrapassando a Dinamarca, actual campeã mundial com 20%. Porém, a Dinamarca é um pequeno país com ligações eléctricas por cabos submarinos à Suécia e que tem por vizinha a grande Alemanha, que por sua vez tem fortes ligações eléctricas a vários outros países europeus. Por estes motivos, quando a Dinamarca tem excesso de produção eólica não tem grande dificuldade em exportar a sua energia eléctrica.
Portugal, pelo contrário, tem um único vizinho com quem constitui verdadeiramente uma península eléctrica, dada a carência de linhas de transporte de energia na fronteira dos Pirenéus. Nestas condições, Portugal tem de se subordinar às condições de aceitabilidade do seu único país fronteiriço, que ainda por cima tem também uma grande produção de energia eólica fortemente correlacionada meteorologicamente com a nossa.

A solução efectivamente prevista pelos responsáveis portugueses para a gestão técnica deste problema são os aproveitamentos hidroeléctricos referidos em 4., na maioria dos quais se está a instalar capacidade de bombagem, isto é, de uso das suas albufeiras para o armazenamento de água içada de jusante, consumindo energia eléctrica de origem eólica, para a turbinar depois devolvendo a energia em horas convenientes. Na verdade, considerando quer os dados técnicos previstos para esses aproveitamentos, quer as próprias declarações orais e escritas de responsáveis, essa função complementar da produção eólica é, de facto, o objectivo principal dos referidos investimentos.
Ora esta planeada utilização em grande escala de armazenamento hídrico de energia de origem eólica nunca foi testada em país algum, podendo-se prever duas hipóteses de funcionamento:

a) Na melhor hipótese, o plano funciona, mas o processo de bombagem para posterior turbinagem da água tem um rendimento energético da ordem de 75 a 80%, que se pode fixar em 75% considerando as perdas nas redes entre as eólicas e as hidroeléctricas (2-3%). Umas contas simples mostram que para a quantidade de energia de origem eólica para que se prevê armazenamento, os aproveitamentos consumirão em média anual 700 MW de produção eólica, para devolverem apenas cerca de 525 MW. Ou seja, as perdas energéticas nestas barragens igualarão os 175 MW de origem hídrica que elas poderão produzir, sendo que o saldo energético real gerado pelos 4850 milhões de € investidos será na verdade nulo, ou até negativo se a energia consumida em bombagem ultrapassar os 700 MW;

b) Na hipótese mais provável e tal como as ocorrência de Dezembro passado ilustram, as situações prolongadas de vento forte invernal coincidirão com chuva abundante que competirá com a bombagem pela capacidade das albufeiras, e estas não terão, frequentemente, capacidade disponível para o armazenamento da energia de origem eólica. Nestas condições, e tal como já aconteceu em Dezembro passado na barragem do Alqueva, os aproveitamentos hidroeléctricos poderão usar a sua capacidade de bombagem para dar consumo à excedentária produção eólica, mas terão que abrir simultaneamente as comportas para vazar a água em excesso, sem a turbinar. Ou seja, os planeados aproveitamentos hidroeléctricos funcionarão como dissipadores de energia de origem eólica! O absurdo deste provável cenário não carece de mais comentários.

quarta-feira, fevereiro 17, 2010

Mais sobre o emprego nas renováveis - actualizado

Há dias falei de um paper espanhol em que se fazia a contabilidade do número de empregos criados, em Espanha, pelas indústrias de energias renováveis, e dos destruídos pela subida de custos da energia que elas comportavam. A conclusão espanhola (da Universidade Juan Carlos, de Madrid), era a de que por cada emprego criado eram destruídos 2.2, mas eu verifiquei que o estudo subestimara os empregos criados, pelo que o seu resultado seria demasiado pessimista; o balanço real seria o de por cada emprego temporário criado pelas renováveis, ser destruído um duradouro.
Agora, entretanto, descobri que há um número razoável de estudos similares, mais abrangentes, feitos na Alemanha, que retiram a mesma conclusão. Podem também ver aqui e aqui.
Ou seja: a prazo, o efeito sobre o emprego das energias renováveis é mesmo negativo; são em maior número os destruídos duradouramente que os criados temporariamente.

O gráfico anexo mostra a estimativa da evolução bruta de emprego associada às renováveis. Inicialmente há criação de emprego, sobretudo durante a fase de investimento, mas depois a maior parte desse emprego desaparece e subsiste o efeito da subida de preços da energia causado por essas renováveis, com a retracção geral da economia. A redução de emprego é tanto maior quanto maior for a subsidiação das renováveis.
Estes estudos são globais. Porém, numa economia aberta como a europeia, é evidente que a repartição da criação de emprego e da do desemprego não se distribuiem homogeneamente pelos diversos países: a maioria da criação de emprego, sobretudo do mais tecnológico e bem pago, ocorre nos países fabricantes de equipamentos (Alemanha, que tem metade de todo o emprego criado pelas renováveis na Europa, e Dinamarca), enquanto a destruição de emprego recai mais sobre os países que são sobretudo compradores - como Portugal.

Tem também interesse avaliar o balanço de criação de emprego por tipo de energia renovável. Diversos estudos mostram que a energia renovável que cria mais empregos sustentáveis é a baseada na biomassa, com as suas fileiras agrícolas e florestais, e a que tem o balanço mais negativo é a eólica. Estas, uma vez instaladas, não precisam praticamente de gente.
Este aspecto ajuda a entender porque razão no norte da Europa é a biomassa a principal fonte de energia renovável (o caso da Finlândia é paradigmatíco). E a ênfase posta pelo Presidente Obama, ao anunciar hoje a construção da 1ª nova central nuclear nos EUA em 30 anos, de que ela iria cria "800 empregos permanentes e bem pagos".
É que nos EUA estas coisas discutem-se e não podem ser mistificadas como cá!...

terça-feira, fevereiro 16, 2010

Morrer de frio em Portugal

Nos últimos dias os media têm noticiado que morreram doze idosos, só na região de Lisboa, dos quais pelo menos 4 confirmadamente de frio.
E Lisboa está longe de ser das regiões mais frias do país.
Em comentário, os media circularam que um estudo irlandês já tinha notado que Portugal é o país europeu onde mais se morre de frio, apesar do seu clima ameno.
Que em Portugal faz muito frio nas casas é sabido há muito para quem já esteve no estrangeiro ou que oiça estrangeiros que estejam por cá.
Mas o que é interessante, e de facto repugnante, é a razão que os nossos media têm dado para isto: que "as casas têm falta de isolamento", que "a distribuição de riqueza é má", que na Suécia e na Finlândia, por exemplo, todas as casas são impecavelmente isoladas e têm vidros duplos, etc. O que é verdade.
O que é o "newspeak" de que falava Orwell, o discurso em que se mente sempre parecendo que se diz a verdade, é que toda esta conversa esconde o óbvio: em Portugal morre-se de frio porque não há dinheiro para pagar o aquecimento, cuja energia é caríssima para o poder de compra português, especialmente o dos pobres!
É por isso que se falam no isolamento das casas na Finlândia, por exemplo, mas não dizem que nesse país o consumo de eelectricidade per capita é 4 vezes o nosso!...
Tornou-se politicamente incorrecto gastar energia, para estes "verdes" que não dispensam nenhuma das comodidades da modernidade.
O exemplo de Salazar, que punha uma mantinha nos joelhos para poupar energia é, na verdade, o que eles destinam ao nosso povo. Porque, quando o custo da actual política energética passar para a factura que esse povo pagará, muito mais gente irá morrer de frio no Inverno, em Portugal.

quinta-feira, fevereiro 11, 2010

A ideologia ecotópica europeia que está por detrás de toda a nossa delirante política energética

O Rerum Natura prestou o relevante serviço público de postar a versão integral da entrevista do Professor Delgado Domingos ao jornal Público, no passado domingo.
Com a devida vénia ao Rerum Natura, e o meu respeito pelo Prof. Delgado Domingos, transcrevo aqui por inteiro a referida entrevista, dada a importância político-científica que lhe atribuo.


O fracasso e a humilhação da União Europeia em Copenhaga


O Público de 24.12.2009 publicou nas páginas centrais do suplemento P2 um esclarecedor artigo de Viriato Soromenho Marques (VSM) intitulado “De Copenhaga rumo ao México a União Europeia pode fazer a diferença”. O desfecho da conferência de Copenhaga era previsível pelos motivos que indiquei (J.Negócios 3.11.2009, Expresso Online 30.11.2009). Os que sempre vangloriaram a liderança da UE na questão das alterações climáticas confrontam-se agora com o facto de o acordo de que a COP15 tomou conhecimento em Copenhaga ter sido sobretudo uma humilhação para a UE, pois a realidade virtual que criou e liderou não lhe deu sequer acesso à mesa onde o acordo foi negociado.


Rumo ao México, a UE pode fazer efectivamente a diferença se capitalizar no que de pioneiro e muito relevante trouxe para a sustentabilidade ambiental e sobretudo energética, e na ajuda aos países mais pobres. Para isso, tem de reconhecer que a sensibilização/mobilização pública conseguida com o alarmismo climático está esgotada e é contraproducente. Esse alarmismo, baseado num pseudo-consenso científico, levou à defesa de cortes nas emissões de CO2, impossíveis de realizar sem devastadoras consequências económicas e sociais. Efectivamente, e segundo VSM, “num impressionante estudo que procura aliar ciência dura e diplomacia, o Conselho Federal Alemão para a Mudança Global (WBGU), dirigido pelo eminente físico Hans Joachim Schellnhuber“ (que se propunha ser o guião para as negociações em Copenhaga), concluía-se que, até 2015-2020, o consumo de combustíveis fósseis teria de estabilizar para vir a desaparecer dentro de 40 anos. Portugal, p. ex., teria de reduzir cerca de 7 vezes o seu consumo actual de combustíveis fósseis até 2050 e para a maioria dos países desenvolvidos esse consumo per capita teria de regredir para valores próximos do primeiro quartel do século XX. Tendo em conta que as energias fósseis constituem o maior sector da economia mundial (de que representam cerca de 8%), o seu desaparecimento em 3 ou 4 décadas, para ser substituído por energias renováveis, mesmo admitindo que era financeiramente viável, seria fisicamente impossível, tendo meramente em conta o tempo necessário para a concretização de soluções tecnológicas já conhecidas. Por este, entre outros motivos, o acordo legalmente vinculativo defendido pela UE/ONU e a maioria das ONGs não poderia ser cumprido. E quem o quisesse honestamente cumprir, não o poderia assinar. Não admira, por isso, que a UE nem sequer tenha sido convidada a participar na negociação do documento que posteriormente subscreveu.


Mas será que tal acordo significou mesmo a “incapacidade da comunidade internacional (...) prevenir a primeira mudança da estrutura ecológica e ontológica do Planeta causada pela acção humana” como afirma VSM? Não me parece, porque o pilar fundamental deste tipo de argumentação é uma grosseira adulteração das implicações do conhecimento científico fundamental e básico (*), em torno do qual o consenso é inequívoco.


“Fazer batota com as leis da física ...”


Alterações Climáticas e Aquecimento Global foram vulgarizados como sinónimos, e o passo seguinte foi atribuir erradamente o aquecimento global (quase exclusivamente) às emissões de CO2eq. Invocou-se, para isso, um difuso consenso científico, no qual nunca ficou claro a que fenómenos ou leis físicas se referia. Existe, efectivamente, há décadas, indiscutível consenso científico quanto ao facto de o CO2 ter um efeito de estufa e de o vapor de água ter um efeito de estufa muito maior. Mas tal consenso não existe quanto à relação quantitativa entre o aumento da concentração CO2eq na atmosfera e a elevação da temperatura média global do ar junto à superfície (ETMGAJS). Segundo o próprio relatório cientifico do IPCC, considerado como referência fundamental, (ARA4WG1,p. 114), a ETMGAJS devida a uma duplicação da concentração em CO2 na atmosfera tanto poderia ser de 1,9ºC como de 5.9ºC (dependendo do modo como se considera o efeito das nuvens). Na relação habitualmente considerada (*) a ETMGAJS é proporcional ao logaritmo da concentração da atmosfera em CO2. A constante de proporcionalidade, a chamada sensibilidade climática, varia entre ~2 e 4,5 e em relação a ela o IPCC afirma(ARA4WG1, p. 640) que:


a set of model metrics that might be used to narrow the range of plausible climate change feedbacks and climate sensitivity has yet to be developed


Ou seja, o próprio IPCC reconhece que não se sabe qual o valor a escolher para a sensibilidade climática. O IPCC não sabe mas os proponentes de cortes radicais, como os referidos, actuam como se soubessem. Para isso, partem das conclusões que querem obter e escolhem o valor da sensibilidade climática que mais lhes convêm, não se coibindo sequer de invocar um suposto consenso, ou mesmo de citar o IPCC, se for conveniente. A verdade é que, por exemplo, o IPCC nunca recomendou 2ºC como aumento de temperatura a não exceder, tal como nunca recomendou um limite de emissões para o conseguir. Um e outros valores são decisões políticas (não científicas!) da UE.


Em resumo: a argumentação da UE tem por base uma batota com as leis da Física. Uma batota que consiste em apresentar (como consequência de leis físicas fundamentais) uma relação quantificada entre emissões de CO2eq e aumento de temperatura média, que só pode ser obtida com grosseiras simplificações e factores numéricos politicamente escolhidos (*)!


O limite dos 2ºC e os modelos climáticos


O acordo em Copenhaga fixou em 2ºC o aumento de temperatura média a não ultrapassar. Esse valor justifica-se, nomeadamente, porque um aumento de 2ºC se teria verificado durante o chamado período quente medieval sem que tivesse ocorrido qualquer desastre climático. Aliás, muitos dos indícios indirectos que hoje se invocam para defender que existe aquecimento (antecipação das florações na Primavera, migrações de fauna e flora, etc) são a réplica do que a História nos diz ter existido naquele período. Foi também durante este período que os vikings colonizaram a Groenlândia (“Greenland” =Terra Verde).


Não associar um aumento da temperatura de 2ºC a um aumento quantificado de emissões de CO2eq, é uma decisão aceitável, tendo em conta os dados das observações existentes. De facto, aceitando como válidos os valores de referência utilizados pelo IPCC, houve um aquecimento médio global nos últimos 150 anos que não ultrapassou os 0.8ºC. Houve um aquecimento entre ~1900 e ~1945, seguido de arrefecimento entre ~1945 e ~1975. E voltou a aquecer entre ~1975 e ~1988. Desde 1998 não há aquecimento. As taxas de aumento de temperatura por década foram maiores nos períodos antes de 1945 do que depois de 1975. Durante todo este período, a concentração de CO2eq na atmosfera nunca parou de aumentar. A relação directa e quantificada entre CO2eq e aumento de temperatura (utilizada pelos alarmistas) não é validada pelas observações. Para o ser, deveria ser capaz (e não é) de reproduzir a evolução das temperaturas, em cada uma de 2 ou 3 décadas, adoptando a mesma sensibilidade climática. Se os modelos climáticos actuais não conseguem sequer reproduzir, de modo aceitável, a evolução verificada nos últimos 50 anos, a única conclusão a extrair é a de que tais modelos são inadequados para prever alterações climáticas com décadas de antecedência, mesmo em termos de probabilidades fiáveis. Utilizá-los como único fundamento de políticas ou acordos internacionais legalmente vinculativos é, no mínimo, um contra-senso.


Conclusão


Ninguém pode seriamente negar a existência de um aquecimento global nos últimos 150 anos. Mas esse aquecimento não ultrapassou 0.8ºC e não se pode garantir, com fundamento sólido, qual a evolução futura. Embora haja fenómenos climáticos que se podem associar ao aquecimento, atribuir tudo ao aumento da concertação de CO2eq na atmosfera é um absurdo. É muito mais honesto reconhecer que se não conhecem todas as causas do que inventar as fantasias catastróficas de que a comunicação social e algumas ONGs tanto gostam, mas que só levam ao descrédito.


Se a UE quer, de facto, liderar, tem de dar o exemplo de uma fundamentação científica das suas propostas sem contaminações políticas (que deram o climagate), e de medidas exigentes, exequíveis e verificáveis. Se está de facto preocupada com as alterações climáticas de origem humana (e deve estar) não precisa de invocar os resultados pouco fiáveis dos modelos climáticos actuais para actuar em profundidade na reforma do seu sistema energético, porque tal reforma é exigida pela competitividade económica e pela sua dependência de fontes de energia inseguras e insustentáveis. Se está de facto preocupada, deve acabar com a hipocrisia do mercado do carbono e da contabilidade de Quioto e substituí-la pelos instrumentos regulatórios e fiscais de que tem grande experiência. Grande parte da lista do que pode e deve fazer já foi enunciado/iniciado a pretexto de aquecimento global. Manter o que se justifica por si próprio, sem ter de recorrer à ameaça de catástrofes climáticas é o pequeno grande passo que a UE tem de dar para recuperar a credibilidade perdida e uma liderança real.


(*) http://jddomingos.ist.utl.pt


(**) Referimo-nos à Elevação da Temperatura Média Global do Ar Junto à Superfície( ETMAJS) quando se diz, por simplicidade, “aquecimento global” , “elevação da temperatura média” “ou aumento da temperatura”

quarta-feira, fevereiro 10, 2010

Portugal e Espanha, unidos na mesma fantasia (e na mesma recessão)!

Dizem-me que o actual Secretário de Estado da Energia, Carlos Zorrinho, é boa pessoa. E isso ainda mais triste me deixa quanto à existência de uma mente delirante que o que ele diz manifesta.
Ao que parece, Zorrinho acha que não é precisa mais energia na rede eléctrica para abastecer os (inexistentes) carros eléctricos, e parece que partilha essa ideia com o seu congénere espanhol. Mas como não é precisa mais energia, se a energia não se cria nem se gasta, apenas se transforma? Para a meter nos (inexistentes) automóveis eléctricos, é preciso ir buscá-la a algum lado, quando eles existirem!
Se viermos a ter todos automóveis eléctricos, uns 4 milhões em circulação a uma média de 12 mil km /ano, com um consumo de 15 kWh /100 km, mais os transportes comerciais, será preciso gerar como ordem de grandeza, em média, uns 900 MW de electricidade, pelo menos mais 1/6 do que o consumo anual actual de energia eléctrica.
É verdade que isso não acontecerá antes de daqui a 25 anos, já supondo muito optimisticamente que se inventam novas baterias que resolvam o problema das de iões de lítio nos próximos 10 anos, que os veículos eléctricos começam a substituir no mercado os com motores de combustão daqui a 5 a 10 anos e que depois serão precisos mais 15 a 20 para a substituição de toda a frota automóvel existente, ao ritmo anual normal com que compram automóveis novos em Portugal...
O que Zorrinho quer dizer, porém, só pode ser outra coisa que a sua manifesta incompetência no assunto não lhe permite explicar com clareza (acreditando na sua boa fé). O que ele quer dizer é que não serão precisas outras fontes de energia a não ser as renováveis que o Governo planeia instalar. Ou mais exactamente, as eólicas, já que as outras são pura ficção (caso do solar em grande escala) ou requerem um planeamento que este Governo é incapaz de fazer (casos da biomassa, biogás, biocombustíveis, etc) e de qualquer modo de custo exorbitante.
E como a energia eólica é altamente intermitente e aleatória, é aí que entram as "redes inteligentes" desta visão eco-utópica, que terão por papel adaptar o consumo à produção, que é pôr as pessoas ao serviço de uma forma de energia. Coisa que, nos automóveis eléctricos, exige além do mais que toda a gente tenha garagem onde possa deixar o carro ligado à tomada durante a madrugada, quando o vento sopra mais, garagem que a maior parte dos portugueses não tem...
Tudo isto manifesta é a aflição do Governo e outros responsáveis pela nossa política energética perante a incontrolável intermitência do vento, e o seu desespero por ainda não existirem os tais carros eléctricos que Zorrinho e o 1º Ministro querem para logo à noite (wishful thinking)!
Entretanto, o que a notícia que menciono testemunha de realmente importante é a tomada de corpo da proposta de um verdadeiro mercado europeu de energia, com vocação inter-continental, e de construção da sofisticada Super-Rede (smart Super-grid) que o infra-estruture e para que tenho vindo a chamar a atenção!...

terça-feira, fevereiro 09, 2010

A política europeia das batatas de energia.

Suponhamos, caros amigos, que sendo 27 de nós proprietários de terrenos, nos reuníamos e que eu, que jamais fora agricultor e que de batatas só sabia que se vendiam em sacos no hipermercado, mas a quem um vendedor de sementes tinha prometido uma "atenção" e a quem uma amiga devota das folhas de batata me prometera mimos, vos arengava: temos que produzir batatas, para garantir a nossa independência alimentar! Temos que atingir a produção de 1000 toneladas de batatas em dez anos, e para isso proponho que cada um de vós incremente a produção de batatas em 10 toneladas cada um, mais um tanto proporcional à vossa riqueza, que será de x, segundo as contas que fiz.
E vocês, que de batatas também só sabiam que as há nos hipermercados, aprovavam esta proposta por unanimidade e aclamação!
Voltavámos para as nossas propriedades e constatávamos que alguns de nós tínhamos uns excelentes terrenos agrícolas, planos e férteis, outros tinham uns terrenos pedregosos em montanhas, outros tinham pântanos bons para arrozais e alguns ainda apenas tinham um bocado de deserto. E punhamo-nos com entusiasmo, cada um isoladamente, a atentar atingir a quota de produção de batatas a que nos tínhamos comprometido!...
Ao fim de uns anos os que tinham bons terrenos tinham conseguido atingir a meta sem esforço e ainda lhes sobrava espaço para semear milho e alguns, até, tinham tido que deitar fora batatas por as terem em excesso, outros estavam assim-assim, alguns tinham atingido a meta mas à custa de abandonarem a agricultura de arroz para que tinham excelentes condições, e os que só tinham deserto tinham tido de construir umas estufas especiais, caríssimas, para plantar as batatas e estavam amargamente falidos.
Que vos parece a inteligência desta medida colectiva?
Pois foi isto que a União Europeia decidiu para si própria quanto às metas de energia renovável para 2020, na sua Directiva 2009/28/EC, e que levou na carteira como exemplo para o mundo em Copenhaga...
Não admira, pois, que haja algumas vozes em crescendo que vêm a criticar esta maneira de organizar a plantação de batatas e que defendem que se plantem batatas onde os terrenos são melhores para isso, em vez de se imporem quotas para todos que têm em conta tudo menos a adequação dos terrenos para o efeito. E mostram, estas vozes, que se os agricultores dali e dacolá, que têm óptimo terreno e gosto por batatas, plantassem batatas para todos, o custo de produzir as 1000 toneladas de batatas seria menor, no conjunto. Claro que esses amigos iriam ficar com batatas em excesso, e por isso seria necessário criar um sistema de trocas e de transportes que disseminassem as batatas dos agricultores favorecidos pela sorte pelos outros amigos. No conjunto todos pagariam menos e o esforço seria equilibrado e verdadeiramente proporcional às posses de cada um.
Os que defendem esta abordagem são os que defendem o desenvolvimento da Super-Rede eléctrica europeia, assim como Sarkozy e Madame Merkel que acordaram arrancar com isso na sua cimeira recente.
Agora imaginem que esta ideia acaba por ir para a frente, mas que alguns dos 27 com terrenos muito maus já plantaram a sua quota de batatas quando isso acontecer, enquanto outros estiveram a arrastar os pés e a ver em que davam as coisas; quando o tal sistema de transporte de batatas estiver pronto e se generalizarem as trocas, os que já se arruinaram a plantá-las em maus terrenos descobrirão que afinal poderão comprar batatas mais baratas que as suas aos vizinhos, e os que tiverem ficado à espera farão um bom negócio...
Que cenário acham que vos vai calhar?

segunda-feira, fevereiro 08, 2010

Economia das energias eólica e hidroeléctrica:que potencial de emprego?.

Qual o potencial de criação de emprego da nova economia das energias renováveis eólica e hidroeléctrica?

Há semanas, no programa da RPT1 "Prós++ e Contras", o impagável Sr. Aníbal Fernandes, líder do cluster eólico "nacional", prometia 36.000 empregos para breve, perante o olhar circunspecto dos restantes convidados e em particular do Eng.º Luís Filipe Pereira da EFACEC, por cujo olhar perpassou um lampejo de incredulidade. Similar entusiasmo mostrou o jornalista Victor Andrade, numa entrevista recente à SIC (a partir do 5º minuto).

No entanto, já aqui mostrei que os dados disponíveis da própria Associação Europeia de Energia Eólica, a EWEA, atestavam a existência, há 2 anos, de 800 empregos directos confirmados a que se somavam mais 500 em actividades acessórias de projecto, instalação, etc, embora se anunciasse a intenção (comunicada pelo Governo português) de criação no referido cluster, em 2009, de mais 3.000 empregos no fabrico de componentes. Porém, de facto, até agora a Enercon terá criado apenas mais 1000 empregos...
É possível no entanto que, somando outros empregos criados por outras entidades como a Martifer, se possam contabilizar presentemente uns 3.000 empregos directos e quiçá uns 1000 indirectos mas, dada a exigência pela maioria dos países que constituem potenciais mercados de exportação de que as turbinas sejam montadas lá, não se vê como a exportação poderá vir a substituir o esgotamento em breve do nosso próprio mercado. Nem, portanto, como poderão estes empregos manter-se.
Para comparação, Espanha, com uma forte indústria própria e o 3º fabricante mundial de aerogeradores (Gamesa), com 5,5 vezes a nossa potência eólica instalada, tem 37.700 empregos (20.500 directos e 17.200indirectos).
Tem-se também propalado o número de dezenas de milhar de empregos para a construção de barragens, escamoteando que se tratam na grande maioria de empregos de construção civil a prazo de 3 anos (cada barragem leva uns 4 anos a construir e atinge um pico de emprego típico de 2 mil), mal pagos e em locais inóspitos, que atrairão apenas uma maioria de imigrantes. Fala-se na "criação" de empregos e deixa-se a falsa ideia de que são empregos duradouros...
Porém, a ideia de que a economia das energias renováveis tem um grande potencial de criação de emprego é propalada por Bruxelas, onde o lobby alemão dos verdes tem uma força determinante, e tem sido tão exaltada pelo Presidente da UE, Durão Barroso, e pelo 1º Ministro de Espanha, Zapatero, como pelo nosso, tendo sido recentemente também defendida pela Administração Obama nos EUA. Tem, por isso, muito interesse saber o que mostram os estudos económicos sérios na matéria, caso existam. E existem alguns.
A Universidade Juan Carlos de Madrid editou em 2009 um trabalho em que faz o balanço de criação de empregos (no hyperlink) da política espanhola de apoio à renováveis, e chega à seguinte conclusão: em média, por cada 4 novos empregos criados pela economia das energias renováveis, são destruídos 9, e isto sem contar com os empregos que poderiam ter sido criados com os subsídios concedidos aos produtores eólicos. Ou seja, globalmente esta nova economia não cria empregos: destrói-os!
A principal originalidade deste trabalho é a avaliação da destruição de emprego causada pela subida dos custos da energia. São particularmente afectadas as indústrias metalúrgicas, a mineração, as indústrias alimentares, de bebidas e de tabaco.
O estudo parte da consideração do aumento do preço da electricidade espanhola que será necessário para os consumidores pagarem o défice tarifário acumulado resultante da subsidiação às energias renováveis, 31% segundo a entidade reguladora espanhola. Na verdade, este sobre-custo das renováveis ainda não foi sentido pela economia de Espanha porque lá, como cá, ele tem sido remetido para um défice tarifário e o estudo espanhol parte do princípio que esse aumento de 31% será repartido por todos os consumidores equitativamente. Mas pode ser que Espanha opte pela subsidiação cruzada que Portugal está a começar a praticar, pondo apenas os consumidores domésticos a pagá-lo. Neste caso o cálculo do efeito é mais complexo, porque então se terá um aumento da tarifa muito superior aos 31% para estes consumidores, e será pela respectiva perda de poder de compra que o retraímento económico se fará sentir - mas neste caso o desemprego afectará sectores diferentes da economia.
Porém, e como o estudo espanhol mostra, quer seja usado este método (subsidiação cruzada), quer o de impostos directos ou indirectos, o pagamento do défice e a redução de poder de compra e/ou de crédito dos atingidos levará sempre ao mesmo resultado: a destruição de  empregos.
O referido estudo considera a criação em Espanha de 15 mil empregos pelas energias renováveis, mas baseia-se para isso num trabalho prospectivo europeu de 2003. Os dados mais recentes da EWEA mostram que esse número está subestimado e que, se for considerado o emprego efectivamente criado, se pode afirmar o seguinte: por cada emprego temporário criado pelas energias renováveis, será destruído duradouramente outro quando os respectivos sobre-custos se repercutirem nas tarifas e na correspondente retracção do poder de compra da população.

sexta-feira, fevereiro 05, 2010

Mais uma Ministra da Propaganda?

A nova Ministra do Ambiente acaba de declarar que as 10 novas barragens do Plano Nacional do Governo irão poupar a Portugal a importação de 3,3 milhões de barris de petróleo para as centrais termoeléctricas.
Será que temos, pois, uma nova Ministra da Propaganda no Governo?
É que:
1º) - As centrais termoeléctricas em Portugal não funcionam a petróleo. Funcionam a carvão (Sines e Abrantes) e a gás natural (Tapada do Outeiro, Lares, etc).
2º) - A energia que as novas barragens vão produzir é zero, como já mostrei aqui. De facto, a pouca energia de origem hídrica que produzirão só chega, se chegar, para cobrir as perdas na bombagem necessária à armazenagem de energia de origem eólica que é o seu verdadeiro propósito.

E a propósito, a adicionar aos 3 mil milhões de € de custo de 8 destas novas barragens, a que se adicionam mais 1,85 mil milhões pelas outras 2 em construção e pelo reforço de potência de mais 6, para todas juntas produzirem nenhuma energia, o Governo prepara-se para concessionar mais duas: Pinhosão e Almourol! Diz o Governo que reduzirão o défice público, visto que os concessionados terão de pagar por elas, como pagaram 640 milhões pelas 8 já concessionada. Mas e quem vai pagar depois isso tudo na tarifa da electricidade?
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Sei que há quem fique incrédulo com os valores de energia de origem hídrica que tenho indicado como sendo a verdadeira produção destas novas barragens. No entanto, os dados estão todos na Memória Descritiva do Plano, acessível na net. Estão é em energia anual prevista, e não em potência, e por isso é preciso dividir essa energia pelo número de horas do ano, 8760, para pôr as duas coisas (potência instalada e energia produzível) na mesma base - em potências. Potência instalada e potência média. Uma conta que parece ninguém ter feito, com excepção do Prof. Joanaz de Melo da Universidade Nova.
Para que as minhas contas fiquem claras, aqui vão as potências médias anuais de origem hídrica obtidas assim para cada aproveitamento:
Girabolhos (Endesa): 11,3 MW;
Vigado (Iberdrola): 13,01 MW;
Daivões (Iberdrola): 16,89 MW;
Padroselo (Iberdrola): 11,64 MW;
Gouvães (Iberdrola): 17,47 MW;
Foz Tua (EDP): 31,39 MW;
Fridão (EDP): 34,1 MW;
Alvito (EDP): 7,1 MW;
E ainda:
Baixo Sabor (EDP): 26,23 MW;
Ribeiradio (EDP): 15,3 MW;
Quanto aos "reforços de potência" de Picote II, Bemposta II, Alqueva II, Venda Nova III, Salamonde I e Paradela II, pouco adicionam em energia: 3,54 MW médios no Alqueva, e mais uns 9 MW médios no resto. A recentemente inaugurada com grande pompa Venda Nova III, de origem hídrica propriamente só produzirá 2 MW; o resto é para bombagem!...
Total: 197 MW.
Como a potência média do consumo nacional é de 5930 MW (52 Thw / 8760 horas), esta produção só cobre 3,3% desse consumo, o aumento previsível de consumo nacional de apenas 1 ou 2 anos.
No entanto, a energia "bruta" prevista para fornecimento corresponde a mais 525 MW, mas de origem eólica. Como para fornecer estes 525 MW é preciso que as eólicas forneçam 700, temos que as perdas por bombagem serão 175 MW médios, ou 25%, nos quais, para que não me acusem de má vontade, já incluo os 2% de perdas na rede eléctrica que transportará a energia das eólicas até às barragens. Praticamente a produção de origem propriamente hídrica.
Balanço final do contributo energético destas barragens para Portugal e dos 4,85 mil milhões de € que teremos de pagar, mais os juros do seu financiamento e mais os custos de expansão da rede da REN: quase zero!

domingo, janeiro 31, 2010

Uma reflexão masculina heterodoxa da história da monogamia :-)

Hoje vou mudar de assunto e partilhar convosco uma conjectura que sei ser discutível e de que eu próprio me rio, mas contra a qual na verdade ainda não encontrei argumentos científicos. Quem quiser divertir-se, que se adiante. De qualquer modo e antes de prosseguirem a leitura, repito que o que se segue não pretende ser inteiramente ciência, mas apenas ilustrar galhofeiramente como a Ciência não é neutra.

Como muitos saberão, há muitos investigadores que se têm interessado pelo estudo evolutivo de alguns marcadores genéticos, em particular dos haplótipos, umas combinações de alelos ou genes com variantes que determinam, por exemplo, as diferentes cores de olhos ou de cabelo entre indivíduos. É a partir dessas investigações que, por exemplo, se chega à conclusão de uma origem única para a nossa espécie no corno de África, de onde aliás partiram várias vagas de humanos, a última das quais, a nossa (Homo Sapiens), há cerca de 40-50 mil anos. Estudos similares na linguística chegam às mesmas conclusões, o que não é de surpreender visto os dialectos se desenvolverem em comunidades mais ou menos fechadas que tendem naturalmente também para a afinidade genética.
Basicamente esta linha de pensamento considera que numa dada comunidade de onde se separe um sub-conjunto de indivíduos, este sub-conjunto é portador de apenas parte da diversidade genética do grupo original, de modo que à medida que vai ocorrendo a "sub-especiação" a homogeneidade genética dos novos sub-grupos aumenta. Por conseguinte, os grupos com maior diversidade genética serão os mais antigos, e os com menor os mais recentes.
Como noutras áreas da Ciência, porém, esta teoria (ou da origem única) é controversa e tem a oposição dos que defendem uma origem multi-regional da espécie, com múltiplos cruzamentos ao longo do tempo. Porém, à medida que a informática e o estudo do genoma permite o tratamento de volumes cada vez maiores de dados genéticos de diferentes populações, a teoria da origem única tem vindo a ganhar terreno enfraquecendo os argumentos da teoria da origem múltipla. As consequências ideológicas destas duas teorias permitem compreender porque é tão acesa a luta entre elas: a teoria da origem múltipla aponta para uma natureza humana originalmente boa e tolerante às diferenças, mais tarde pervertida pelas estruturas sociais da civilização, enquanto a teoria da origem única aponta para a supremacia de uma única linhagem original, sem cruzamentos entre sub-espécies substancialmente diferentes e com a eliminação das menos aptas (não forçosamente pela guerra, entenda-se).
Um exemplo típico desta polémica é a que foi despoletada pela descoberta em 1998 do nosso célebre "menino de Lapedo", que o arqueólogo João Zilhão e outros defendem constituir uma prova do cruzamento de Neanderthais com Homo Sapiens, há uns 25 mil anos (a península ibérica foi o último lugar onde viveram Neanderthais, até há 25-30 mil anos), mas outros argumentam ser impossível ainda haver traços morfológicos de Neanderthal muitas gerações depois desta sub-espécie humana ter desaparecido. Um projecto de sequenciação do Genoma do Neanderthal, entretanto, tem vindo a reforçar a hipótese de que não haverá, de facto, traços genéticos dessa sub-espécie na nossa. Note-se que, segundo a teoria da origem única, terão havido várias vagas migratórias originais de África de espécies humanas, mas só a última vingou. A nossa, obviamente.
Muitos destes estudos centram-se no ADN mitocondrial, que quase só se propaga por via materna, ou no do cromossa Y, que só se propaga por via paterna, embora em ambos se usem modelos de "relógios moleculares" para temporizar (estatisticamente) as mutações e, retrospectivamente, origens ancestrais das populações.

Entretanto, um dado assente é que o advento da agricultura e, com ela, a "1ª vaga" de explosão demográfica humana (a 2ª ocorreu com a industrialização e a 3ª estará em curso com a revolução do conhecimento), deu-se no Próximo Oriente e propagou-se daí pela Europa. A "1ª vaga" correspondeu à chegada do Neolítico e com ela à superação do Paleolítico, dominado pela caça e pela apanha do que a Natureza proporcionasse, e ocorreu há cerca de 10 mil anos, chegando à ponta da Europa mais afastada do Médio Oriente, a Irlanda, há uns 6 mil anos (e cá há uns 8 mil). Muito antes disto e praticamente logo que aparecera, a nossa espécie dedicara-se a realizar "crimes contra a biodiversidade" do planeta, depradando até à extinção muitas das grandes espécies que encontrou, dos mamutes norte-americanos aos cangurus gigantes da Austrália.
Se a propagação da 1ª vaga foi por via cultural (conversa e aprendizagem) ou por migrações (deslocação pessoal) tem sido uma questão em aberto entre os investigadores.

Ora acaba de ser publicado um estudo envolvendo um largo conjunto de investigadores europeus de diferentes países que demonstra que há uma extrema coincidência entre a conhecida propagação da agricultura na Europa, de Sudeste para Noroeste, e a presença de um marcador específico no cromossa Y dos homens - e essa coincidência é no sentido de a maioria dos homens europeus, cerca de 80%, descenderem dos mesmos "avôs", ou antepassados masculinos. O que não se verifica quanto aos marcadores genéticos de origem feminina. Estes novos resultados parecem corrigir as conclusões obtidas há uma década e que apontavam para uma maior diversidade de origens masculinas, embora já então fosse evidente elas não coincidirem com as femininas.
Quer isto dizer que com o advento da agricultura, foram os homens agrícolas que predominantemente se reproduziram, com mulheres locais (paleolíticas). O que aponta para a regra da poligamia ter acompanhado a 1ª vaga.
Aliás, outros estudos genéticos recentes do mesmo género também já apontavam para o facto de sermos todos descendentes de um número reduzido de homens, muito menor que do número de mulheres.
Estas conclusões parecem dar razão à opinião de um amigo meu, segundo a qual há uma alienação na busca masculina de sucesso social e riqueza como fim último da existência, visto o verdadeiro fim natural desta ser o da posse do maior número possível de mulheres, com vista à maximização da reprodução dos genes masculinos. E, invocando o exemplo de muitas espécies animais, nota ele que verificando-se aí a existência de machos dominantes que após acesa competição logram o "the winner takes it all", isso é a forma como a Natureza procede ao apuramento dos genes que garantem a adaptação evolutiva permanente ao ambiente - por via da competição entre os machos e pela reprodução apenas dos dominantes. Aliás, do ponto da vista da Natureza os machos não teriam mesmo mais nenhum papel.
Embora admita que o cromossoma Y é o que mais mutações tem sofrido e que será predominantemente através dele que a evolução genética se processa nos mamíferos, a mim sempre me pareceu que esta teoria dos machos dominantes e polígamos era uma generalização abusiva das práticas dos herbívoros, que vivem, de facto, em grandes grupos (de fêmas, crias, e um macho dominante). Nos carnívoros, porém, que são muito mais inteligentes que os herbívoros, as práticas "familiares" são diferentes. Há só uma regra comum: os machos não toleram crias alheias, o que cria um curioso fundamento para o regime "familiar" dos leões, por exemplo: as leoas acarinham o seu leão macho porque é ele que lhes protege as crias contra os outros machos de fora da "família" - mesmo que esse macho tenha ganho o seu estatuto matando as crias anteriores da leoa! Mas, nos carnívoros, as coisas são de facto diferentes, e mesmo nas poucas espécies que constituem grandes grupos, como as dos eficazes canídeos, ou há também uma fêmea dominante que também mata as crias das outras fêmeas e forma um casal real, como nos lobos, ou são mesmo as fêmas que são dominantes, como nas temíveis hienas.
Seja como for, a revelação de que o número dos nossos antepassados masculinos é muito menor que que o dos femininos parece apontar para a predominância do paradigma sexual dos chimpanzés sobre o dos bonoboos na nossa ancestralidade, o que para quem se imagina um macho dominante nesses tempos antigos pode parecer interessante, mas a quem eu notaria que, probabilisticamente, se fossem machos transportados no tempo para essa antiguidade seria bastante mais provável, pela simples lógica dos números, que pertencessem ao maioritário conjunto dos excluídos, e não ao da minoria dominante. Uma lógica similar à que se pode aplicar às bonitas histórias sobre príncipes e cavaleiros antigos e em que gostamos de nos imaginar a viver como eles, mas em que a simples lógica dos números nos indica ser muito mais provável sermos os seus miseráveis criados ou servos da gleba, se fossemos transportados para tais cenários.
E vem isto tudo a propósito do advento da monogamia, ocorrida há uns 5 mil anos, depois de bem assente a revolução neolítica e quando as cidades se erigiram em civilizações, com Estado, leis e escrita. Monogamia tratada legislativamente em detalhe no Código de Hamurabi, regulada nos 10 Mandamentos judaicos e imposta, claro, pelo cristianismo.

E a conjectura que me traz aqui é esta: hoje, que graças à invenção da pílula e ao facto da 3ª vaga ser partilhada pelas mulheres, temos vindo a viver uma nova revolução sexual, a das mulheres, há muito quem olhe para a monogamia tradicional como um ferrolho da liberdade. Porém, a monogamia veio trazer a cada homem o direito de ter uma mulher, quando antes essa propriedade seria exclusiva de chefes e reis, que as tinham a todas, a julgar pela descendência que deixaram (incluindo nós).

Ou seja: a monogamia, longe de ter sido um ferrolho à liberdade pessoal masculina, foi de facto uma grande evolução democrática e uma importante limitação do poder dos chefes e reis.
Para os homens, claro.
Para as mulheres, a democratização sexual teria que esperar mais 5 mil anos e ainda não foi aceite pelos muçulmanos, razão maior da guerra mundial em curso e apesar de uma amiga minha defender, talvez com algum exagero, que "no fundo de cada homem há sempre um muçulmano recalcado"...   :-)

sexta-feira, janeiro 29, 2010

Preços da electricidade - com e sem impostos

No meu post anterior, afirmei que o preço da electricidade ao consumidor doméstico era, na Holanda, 2/3 do da Dinamarca e 30 % superior ao preço em Portugal.
Porém, devia ter comparado o preço dessa electricidade antes de impostos. Por isso trouxe aqui um gráfico dos preços ao consumidor da electricidade (há 4 anos), na Europa - com impostos (o total) e sem (as barras azuis escuras).
Como é evidente, antes de impostos o preço da electricidade na Holanda é inferior ao português. Aliás, antes de impostos só a Irlanda (com os seus custos de insularidade) e a Itália têm preços superiores aos nossos.
O custo da electridade em Portugal tem um preço para o consumidor que é médio, em termos europeus, porque cá o Estado financia a energia (com subsídios às renováveis), enquanto nos países mais ricos da Europa os Estados financiam-se com a Energia.
E isto é assim porque o nosso Governo não tem a coragem de permitir que os preços reflictam inteiramento o custo da sua política de subsidiação às renováveis.
Quando esses subsídios forem inteiramente reflectidos nos preços, provavelmente então "sem tarifas" para que o Governo possa dizer nada ter a ver com esses preços e reclamar que eles apenas reflectem "o mercado", vamos garantidamente estar na gloriosa posição de ter a energia eléctrica mais cara da Europa, sobretudo considerando a necessidade de amortizar as inúteis hidroeléctricas em construção. Antes de impostos. Que se calhar também vão ter de subir, para pagar a dívida pública. E nessa altura talvez a EDP entre em falência, por incapacidade de competir com os preços da energia espanhola, e talvez as "eléctricas" espanholas a comprem. Fará isto tudo parte de um plano precisamente com esse objectivo?

quinta-feira, janeiro 28, 2010

O discurso do Estado da Nação e o que fez a Holanda

A previsão futurística que postei há 3 semanas de que os EUA irão apostar no nuclear como estratégia de posicionamento no movimento global para a "descarbonização" da economia, e que se baseia em somar 2 e 2 em geopolítica, tem mais um reforço: essa é a posição com que o Presidente Obama está a tentar obter o apoio dos senadores republicanos para a sua proposta de "descarbonização" e, de um modo geral, conseguir algum consenso na matéria, tanto nos EUA como na Europa. Acaba de o dizer no seu Discurso do Estado da União, embora a nossa imprensa "do regime" tenha "ignorado" esse detalhe...
Se, na verdade, olharmos para o mapa da Europa e agruparmos os seus países nos entusiastas das renováveis (Alemanha, Dinamarca, Espanha, Portugal e agora também a Inglaterra), e nos que tentam passar desapercebidos nessa matéria (Suécia, Finlândia, França, Bélgica, Itália, Polónia, República Checa, Eslováquia, Roménia, Lituânia, etc), vemos que há uma característica comum aos últimos: forte peso da energia nuclear na sua produção de energia! A Itália é um caso especial, porque fechou as 4 centrais que tinha nos anos 80 e com isso tornou-se o maior importador europeu de energia, mas recentemente acordou com a França o regresso a essa opção. E tanto a Alemanha como a Inglaterra e Espanha têm energia nuclear e correntes que o defendem, dependendo o futuro da evolução política dominante nesses países. Ou seja: quando o Governo nos tenta entusiasmar com a suposta posição de vanguarda de Portugal na corrida às renováveis, é conveniente notar que, na verdade, é uma minoria o leque de países que está nessa corrida, mau-grado toda a propaganda verde de Bruxelas nesse sentido.
Ora se os EUA vierem a afirmar, neste ano de 2010, o renascimento do nuclear conforme vaticino, a questão passará para a ordem do dia também por cá.
E, neste quadro, penso que a pior coisa que poderá acontecer a Portugal é o Governo começar a virar nessa direcção com a mesma incompetência, irresponsabilidade e sei lá que mais, com que isso foi feito na adesão à energia eólica. É de estar atento à cimeira de Abril próximo entre o nosso 1º Ministro e Sarkozy, porque penso não ser impossível vir de lá um pré-acordo de compra de uma EPR da AREVA, coisa para que o país não está minimamente preparado...

A segunda nota de hoje é que, embora continue a não encontrar nada que tenha em conta a correlação do vento com a chuva no planeamento do binómio eólico-hídrico, descobri uns papers muito recentes que ilustram o tipo de estudos que devem ser feitos no planeamento de uma opção nacional pela energia eólica, num país civilizado e com dimensões do género da do nosso.
Esse estudo foi encomendado pelo Ministério da Economia da Holanda, no contexto da Directiva Europeia para a produção de 20% da energia eléctrica com fontes renováveis até 2020 (embora estudos preliminares já viessem de 2003), e foi contratado com dois tipos de entidades: várias Universidades holandesas, e uma empresa estrangeira com as melhores ferramentas de cálculo e sólida experiência, a SIEMENS, e isto apesar da KEMA ser holandesa! Uma combinação avisada. 
A Holanda é ainda um exemplo interessante para nós pelo seguinte:
a) tem 1,4 vezes a nossa população e 2,4 vezes o nosso consumo de electricidade, nomeadamente uma ponta de consumo de 21 GW;
b) é um país com completa liberalização do mercado de electricidade: não há subsidiações e, como consequência, o carvão produz lá 35% da energia eléctrica, o gás natural 25% em centrais de ciclo combinado, a cogeração 20%, o nuclear 3% (num "pequeno" reactor de 482 MW), e o eólico aproximadamente o mesmo, mas a electricidade para o consumidor doméstico é cara: apenas 2/3 da campeã da careza que é a Dinamarca, mas mais 30% que em Portugal, onde por sua vez a electricidade custa mais 30% que em França e mais 40% que na Finlândia [estes preços são com impostos. Antes de impostos, os preços holandeses são ligeiramente inferiores aos nossos]...
c) tem dois vizinhos: a Bélgica e a Alemanha;
d) não tem nenhuma indústria forte de equipamentos eléctricos a proteger;
e) tem bons recursos eólicos, na sua costa.
Vale ainda a pena notar que, nas negociações com Bruxelas, a Holanda conseguiu que só lhe fosse atribuída a responsabilidade de vir a ter 14% de energia de origens renováveis, mas nos estudos encomendados pediu a avaliação da possibilidade de vir a ter mesmo os 20% da regra, o que requereria a instalação de 12000 MW (12 GW) de eólicas até 2020 - 4 GW em terra com uma utilização média de 25%, e 8 GW off-shore com uma utilização de 44%. Proporcionalmente aos consumos, isso equivaleria a 6400 MW em Portugal, mais que o valor planeado pelo nosso Governo, e que é de 5700 MW (o nosso Governo ofereceu-se estoicamente para exceder a quota definida pela verdura de Bruxelas, visto que Portugal já tinha hidroeléctricas, ao contrário da Holanda, e portanto não precisava de eólicas para cumprir os referidos 20%).
O consórcio da Universidade de Delft e a SIEMENS investigaram tudo como deve ser: séries temporais do vento baseadas em dados reais, previsões a longo prazo dos consumos, correlações com os trânsitos de energia nos países vizinhos e em particular com a Alemanha, e chegaram às seguintes conclusões:
- A partir de um valor de potência eólica de 7 GW (correspondentes a 3,3 GW em Portugal, um valor que já ultrapassámos este ano), haverá energia eólica em excesso - e o que nos aconteceu em Dezembro foi a confirmação empírica disto;
- A % de energia eólica em excesso irá aumentando até aos 12 MW. O gráfico anexo, retirado de um outro paper elaborado no mesmo estudo, mostra que ao se atingirem 10.9 GW, equivalentes à nossa meta nacional de 5.7 GW, 1/6 dessa energia estará em excesso e não pode ser utilizada no país!

Evidentemente, este excesso não resulta de 20% de energia eólica ultrapassarem os 100% de consumo, mas sim da natureza intermitente do vento, que ora produz pouco, ora produz em excesso.
O estudo averiguou diversas formas de resolver o problema da energia em excesso, mas defrontou-se com o facto de existir uma correlação de 0.71 entre os ventos na Holanda e os da Alemanha, o que impede a solução dinamarquesa de vender o excesso a esse país vizinho ou através dele (situação similar à nossa com Espanha). Entre outras soluções, uma das mais acarinhadas pelos académicos é a da "gestão de cargas" - isto é, obrigar os consumidores a transferir consumos das horas a que precisam de o fazer para as horas em que a rede tem energia em excesso.
Ideia que, como já expliquei, é o verdadeiro objectivo do grandioso projecto das "smart grids" de que o nosso MIT-Portugal tanto gosta e que o nosso Governo inscreveu no Orçamento de Estado deste ano como um dos seus grandes objectivos. Mas cá para mim, penso que para implementar tal propósito será precisa uma ditadura, ainda que vendida como um Admirável Mundo Novo!...
Quanto à Holanda, e graças a ter feito atempadamente este estudo, aposto que se vai ficar pelos 14% de renováveis comprometidos com Bruxelas, ou seja, pelos seus 8 GW de eólicas (que equivale, se tivéssemos o juízo deles, a parar imediatamente a instalação de eólicas no valor já atingido).
Tanto mais que estudos complementares encomendados a outras Universidades holandesas mostram que para atingir o referido objectivo o Governo terá de gastar uma média de 1500 milhões de € por ano (lá não escondem esses custos em obscuros défices tarifários; a subsidiação na Holanda não é à tarifa, mas sim com um valor fixo para a construção das eólicas, que depois têm de competir no mercado para vender a sua energia, como todos os outros produtores)...

terça-feira, janeiro 26, 2010

Quanta energia vão produzir todos os aproveitamentos hidroeléctricos planeados?

Notei, nos recentes debates sobre o Orçamento de Estado para 2010 e em diversas intervenções de responsáveis do Governo, que a planeada construção de um largo número de aproveitamentos hidroeléctricos passou a ser o eixo da política económica nacional.
Diz o 1º Ministro que a Energia é o eixo da sua aposta para o desenvolvimento económico, e na Energia a referida construção das hidroeléctricas é agora alegadamente o centro dessa estratégia.
Parece uma ideia consensual. Toda a gente acha bem que se aproveite a àgua da chuva, que é uma coisa limpa e renovável, e a construção das barragens parece algo capaz de criar muito emprego. Aliás, são anunciados muitos milhares de empregos, com essas barragens. E são também anunciados muitos MW de energia.
Infelizmente, tenho que vos dizer que vim aqui hoje fazer um bocadinho de "bota-abaixo". Se me quiserem seguir nos números, ficarão em condições de perceber porquê.

Tenho que começar por recordar que MW e energia não são a mesma coisa. Os MW são a capacidade de produzir energia de uma instalação, não a energia que ela efectivamente produz. Se eu fizer uma barragem de 1000 MW no deserto, terei "instalado" 1000 MW mas, obviamente, a energia que ela vai produzir será nula. Percebido? Então continuemos.
Se dermos uma vista de olhos nos números que acompanham a descrição dos 16 aproveitamentos hidroeléctricos em construção ou para construção próxima, constatamos o seguinte:
- Custo previsto: $4,85 mil milhões de €$;
- Potência média de origem hídrica:  +175 MW;
- Potência média de origem eólica (armazenada): 525 MW;
- Perdas estimáveis no processo de armazenagem da energia eólica: - 175 MW (em média);
- Saldo energético médio produzido (origem hídrica menos as perdas na armazenagem da energia eólica): ~0 MW.

Pois é, a resposta à pergunta do título é: zero! Não acreditam? Os dados estão todos no site da EDP, e se não sabem fazer contas de somar e subtrair peçam a alguém que saiba. Acho que o Governo conta com a vossa inumeracia...
Como é que eles vos enganam? Primeiro, falam em energia "bruta", que é a soma de toda a energia que sai das centrais independentemente da origem. E essa irá ser 175+525= 700 MW, em média. Vocês nem reparam na palavra "bruta" e, ao mesmo tempo, eles "esquecem-se" de explicar que para produzir os 525 MW de origem eólica as centrais terão de dispender primeiro, a bombar àgua para cima, 700 MW adquiridos à rede eléctrica, vindos... das eólicas.  A diferença entre estes 700 e os 525 devolvidos depois são as perdas do processo. Claro que se vocês subtrairem à tal energia eléctrica "bruta" produzida, a 700 MW em média, a consumida de que eles que se esquecem de falar, 700 MW em média, obtêm o saldo real das centrais, e é como vos digo: zero - se até não for menos...

Quanto aos milhares de empregos anunciados, como já notei aqui, são apenas durante o pico das obras durante os 4 anos de construção. Com uma diferença relativamente às barragens feitas até 1985: nesse tempo não havia imigrantes e a mão de obra da construção civil era portuguesa!...

Falta só acrescentar que ninguém teve em conta que quando fizer muito vento dias seguidos, no Inverno, também geralmente choverá muito dias seguidos, e não haverá espaço nas albufeiras para armazenar a energia eólica - como já se verificou este Inverno e ainda vamos só em 60% da quantidade de eólicas planeada pelo Governo...

sábado, janeiro 23, 2010

O pensamento único abre brechas!

Como sabem, há umas duas semanas dei aqui conta de como a convergência normal entre intenso vento e chuva copiosa em todo o território nacional levou à situação de termos as eólicas a produzir a plena potência e as hídricas também - e não termos onde meter essa energia. E daí a sua "oferta" a Espanha, que por sua vez a passou a França e por aí fora.


Este absurdo, resultante da política energética existente, tem passado ao largo do Pensamento Único, que continua na generalidade extasiado com a estratégia de quem nos governa nestas matérias. Mas não há machado que corte a raíz ao pensamento e hoje, finalmente, um dos baluartes da liberdade de Imprensa em Portugal dá notícia impressa do facto. Preza-me que seja o Expresso que o faça, porque já em 1973 este jornal era um dos dois cuja leitura era proibida em Caxias (o outro desapareceu há muito).
Claro que a notícia está correcta quanto aos factos mas errada quanto às causas que lhes aponta. A culpa do que tem acontecido não é do mau tempo. Do ponto de vista das energias eólica e hídrica, de facto, o mau tempo é o melhor tempo! Como se pode ver nos gráficos europeus que mostrei aqui, nos 3 meses de Inverno (25% do ano) as eólicas geram em média 35% da sua produção anual, mas nas horas de produção máxima geram o dobro no Inverno do que geram nas melhores horas de Verão!
Dizer que a culpa disto é do mau tempo é equivalente à culpabilização da cegonha pelo apagão nacional que ocorreu em 2000!

Um outro escrito impresso que o Expresso publica hoje e que é também uma brecha no Pensamento Único é o artigo de Todo Bom sobre as PME.
Cito dele as seguintes afirmações que contêm verdades lapidares (carregados meus):

"As economias sólidas apoiam-se em grandes empresas (GE) e não em PME. As PME são organizações complementares no preenchimento da malha industrial, ou transitórias no seu processo de crescimento para GE, onde ganham capacidades e recursos para poderem ser competitivas no mercado global.

...Este deslumbramento e obsessão nacional pelas PME é pouco saudável, assim como as declarações superficiais de que é necessário apoiar genericamente as PME.
Infelizmente, os estudos que têm sido produzidos e divulgados, incluindo os oriundos das associações empresarias, são de uma pobreza intelectual confrangedora em termos do seu suporte teórico.
Uma das suas fragilidades reside na ausência de análise matricial destas organizações em termos de tecnologias/mercados, de que resultariam recomendações de acções estruturantes diferenciadas.

...Acreditar que, na fase actual dos mercados, as PME portuguesas têm recursos suficientes, mesmo com apoios públicos, para desenvolverem com sucesso processos de investimento internacionais é pura ficção. Quando muito, poderão incrementar, marginalmente, as suas exportações.
... não se conhece nenhum programa, com a intervenção obrigatória das sociedades de capital de risco com fundos públicos, desenhado para o apoio às acções de fusão, concentração e reorganização sectorial de PME no sentido do seu crescimento e incremento de competitividade".

As PME são uma bandeira tanto da Oposição como do Governo, e tudo o que Todo Bom escreve sobre elas se aplica à grande ideia que agora assola as nossas Universidades segundo a qual a "Transferência de Conhecimento" recentemente arvorada como um objectivo a perseguir se mede pelo número de "start-ups" engendradas.
Na verdade, as "start-ups" tecnológicas só terão algum impacto sócio-económico se a sua actividade se articular com a das grandes empresas, como o há muito esquecido "relatório Porter" preconizava nos anos 90 com a sua ideia dos "clusters" e das ligações em "diamante".
Quando, por exemplo, em 1993 acordei com a nossa maior empresa nacional fabricante de material eléctrico o projecto de desenvolvimento de uma nova linha de produtos (protecções digitais), na verdade não era nessa linha de produtos que essa empresa estava interessada. No que estava interessada era na manutenção da competitividade de uma outra linha de produtos muito mais importante para ela (SCADA), que por sua vez era a peça essencial de uma estratégia lançada dez anos antes para a manutenção da competitividade dos produtos tradicionais da empresa. A tal referida nova linha de produtos que desenvolvi poderá não ter criado mais que uma dezena de empregos, mas ajudou a manter outras largas centenas!
Isto são factos mais que sabidos de quem, por exemplo, leia a IEEE Transactions on Management!
É por isso que o ardente entusiasmo da política tecnológica que guia as nossas Universidades e que agora descobriu as "start-up" tecnológicas é o contrário do que parece. É, de facto, a desistência da procura de laços com a sociedade e a economia reais, a desistência da procura dos problemas reais das empresas existentes e da humilde adaptação da I&D às suas necessidades. É a resoluta adopção da velha átitude da torre de marfim, agora travestida de "transferência de conhecimentos" para empresas que na verdade não existem: são meros arranjos de oportunidade copiosamente subsidiados por fundos públicos que nunca irão a parte nenhuma!
Exactamente como os grupos de estudantes maoístas que, há 40 anos, achavam ter descoberto a verdade revolucionária e decidiam promover a revolução proletária sem nunca sair da Universidade!