quarta-feira, setembro 09, 2009

Energia solar: negócios portugueses e as perspectivas mundiais

No regresso de férias recebi na caixa de correio uma "oferta" de uma empresa que, por 25.200 €, se propunha tornar-me um "microprodutor" pela instalação de um painel solar fotovoltaico na forma de um "kit" de 3,68 kW, o qual me permitiria vender à EDP energia a 0,6175 €/Kwh e recomprá-la depois, da mesma EDP, a 0,121 €/kwh. Embora o folheto o não explicasse, o painel solar do referido kit não terá menos de 25 m2 (cerca de 6 x 4,25 m), ocupando considerável área do telhado. Uma rápida pesquisa permitiu averiguar que a empresa em questão é um obscuro empreiteiro de província.

Dizia-me o folheto que eu ganharia com isso em média 300 €/mês isentos de IRS, além de que poderia deduzir à colecta de IRS 796€ do investimento de 25200 € (mas que na verdade não é aplicável se a casa já estiver adquirida). Quanto aos custos de manutenção e de instalação do "kit" o folheto era omisso, mas pode-se presumir que a vida útil do "kit" seja de 20 anos, com substituição eventual do conversor por volta dos 10 anos. A manutenção terá de incluir a limpeza regular, já que a acumulação de pó reduz o rendimento dos módulos até 50%.

Umas breves contas sobre os dados do próprio folheto mostram que a energia produzida estimada aproveita em média apenas 15% da potência indicada de 3,68 kW, tendo em conta as noites, os períodos de céu nublado e as condições frequentemente não ideais de exploração, nomeadamente o ângulo variável de incidência da luz do sol ao longo do dia. É um valor típico das médias mundiais dos módulos solares.
Um rápido cálculo financeiro mostra também que, excluindo custos de manutenção e considerando as taxas de juro especiais oferecidas para o efeito pela Caixa Geral de Depósitos, o prazo de amortização do referido investimento andaria pelos 8 anos, se a tarifa se mantivesse a mesma. Porém, a referida tarifa só é "oferecida" pelo Governo para os primeiros 5 anos (facto "esquecido" no referido folheto), descendo a partir de então para o valor em que estiver na altura e que, com elevada probabilidade e pelo que adiante é discutido, será pouco superior à tarifa de compra. Quer isto dizer que com elevada probabilidade a instalação só estará de facto amortizada ao fim de 20 anos, o tempo de vida do equipamento e que, portanto, se trata de um investimento com interesse nulo enquanto negócio!

Tendo em conta que a energia produzida pelo vento custa à EDP quase o mesmo preço pela qual é depois vendida (0,1 €/kwh), o dobro do que custa a do carvão, já considerando os 0,2 €/kwh de "multa" pelo CO2 emitido pela queima deste e imposta pelo protocolo de Kioto, vemos que esta energia solar custará à EDP, presentemente, 6 vezes o que lhe custa a eólica e cerca de 15 vezes o que custa a extraída do carvão, "multa" pelo CO2 àparte (que os maiores consumidores mundiais de carvão para a produção de Energia, os EUA e a China, não pagam porque não subscreveram Kioto).
Poder-se-á argumentar que, sendo essa energia eléctrica produzida junto ao consumidor, a EDP poupa os encargos com o seu transporte e distribuição a partir das centrais usuais e que, portanto, o custo a comparar com os 0,62€ não será o da energia à boca dessas centrais mas o acrescido do seu transporte e distribuição, ou seja, perto dos 0,114€ pagos pelo consumidor. Mesmo assim é evidente que se trata de uma subsidiação de 0,55 €/kwh.
Por conseguinte, o custo desta energia solar é totalmente subsidiado pelos impostos cobrados pelo Estado e pelo défice da EDP, ele também a ser pago um dia, mais cedo que tarde, pelos consumidores, e pelo próprio "microprodutor", enquanto financiador e sobretudo pela disponibilizaçã0 da área de colocação dos painéis.
E o que subsidia ao certo esta estratégia energética?

Portugal é o único país que tem uma política generosa de subsidiação às energias renováveis por motivos apenas ideológicos. Porque, espantosamente e ao contrário de todos os outros países que subsidiam a procura interna de energias renováveis, Portugal não tem indústrias próprias de equipamentos produtores de energia renovável. Não as tem para a campeã eólica, e também as não tem para a energia solar!
Quandoo Presidente da República inaugurou a fábrica de módulos solares da Solar Plus em Dezembro passado, manifestou um entusiasmo talvez excessivo face à modesta dimensão do projecto: um empreendimento puramente financeiro de um consórcio nacional de apenas 15 a 18 M€, com tecnologia e organização totalmente estrangeiras, destinado à mera montagem de componentes importados e anunciando 109 empregos não-qualificados. As referências à "tecnologia inovadora" e à "participação das Universidades" do Presidente seriam encorajadoras se ele estivesse a falar de entidades portuguesas, mas sobre isso admito que o tivessem equivocado. A usual Martifer montará a maior parte dos painéis solares "fabricados" em Portugal mas, como se queixou o dirigente da GEOTA Manuel Santos, "a instalação de colectores solares em 65 mil habitações individuais não vai ter impacto no abastecimento energético do país, gerando apenas negócio para algumas empresas". Na verdade, trata-se de um negócio em tudo similar ao da energia eólica em Portugal, embora em menor escala, essencialmente um comércio de importação alimentado por subsídios públicos. Aquilo a que um antigo pensador político chamava de economia "burocrático-compradora"...

É verdade que o panorama mundial de fabrico de módulos solares é caracterizado por uma estratégia europeia de subsidiação à compra (tarifas "feed-in"), como em Portugal, mas que tem beneficiado sobretudo os fabricantes da Alemanha, até recentemente o país maior produtor destes módulos, aliás como de turbinas eólicas. Também a nossa vizinha Espanha tem várias grandes fábricas com tecnologia própria, particularmente na região de Valença, algumas das quais resultam de projectos iniciados há mais de 25 anos, quando em Portugal o Prof. Leopoldo Guimarães se interessava também pelo assunto na sua Faculdade mas sem que, entretanto, tenha havido no país qualquer iniciativa que transformasse esse interesse científico em produção económica, ao contrário de Espanha e já sem falar da Alemanha...

Ora uma estratégia diferente da subsidiação à compra tem sido a da China, cujos Governos central e regionais têm subsidiado antes a produção, com a exportação dos seus painéis a preços inferiores aos próprios custos marginais de produção (i.e., subtraindo os custos fixos administrativos e de I&D). Com esta estratégia, a quota chinesa do mercado mundial de painéis solares cresceu de 7% para 26% em apenas 4 anos, de 2005 a 2009, enquanto a produção dos EUA, em tempos pioneiro e líder, é agora de apenas 5%. A China acaba de ultrapassar a Alemanha como primeiro fabricante mundial de painéis solares o que, juntamente com a crise mundial de crédito, já criou dificuldades à Q-Cells, o fabricante alemão que detém a 2ª posição mundial como produtor e que teve por isso de despedir há semanas 500 dos seus 2600 trabalhadores. Esta concorrência é agravada, para os fabricantes europeus, pela radical redução da subsidiação à compra pelos Governos alemão e espanhol verificada em 2009. De facto, na Alemanha os políticos não estão para pôr os seus contribuintes a subsidiarem indústrias estrangeiras (como afirmou Markus Wieser, porta-voz da Q-Cells), e a Espanha parece ter a mesma atitude (aliás, só Portugal a não tem). Ora, juntas, a Alemanha e a Espanha constituem 70% do mercado mundial de módulos solares!

A posição da Q-Cells no ranking mundial de fabricantes de painéis foi já alcançada este ano pela Suntech Power Holdings chinesa, e este autêntico blietzkrieg chinês compromete mortalmente também, claro, os parcos investimentos feitos em Portugal na montagem de painéis solares estrangeiros. Diversos especialistas consideram, aliás, que nem a Europa nem os EUA têm hipóteses de concorrerem com a China. A China, entretanto, ainda não instalou no seu próprio território uma única central solar e, a primeira que anunciou, para 2010, exige 80% de incorporação chinesa...
Mas qual é a tendência evolutiva dos preços de produção da energia solar e, portanto, que papel se pode esperar para ela no futuro próximo?

Cerca de metade do custo de um módulo solar está nos painéis, mas a outra metade vem dos conversores electrónicos necessários para a sua utilização e dos custos de instalação. Nos últimos anos, o custo total dos módulos tem baixado, mas isso deve-se principalmente aos conversores electrónicos e à automatização das montagens, e não ao componente principal dos módulos, as células foto-eléctricas.
Inicialmente de silício cristalino (o mesmo material de que são feitos os chips electrónicos), a evolução tecnológica juntou-lhes outras alternativas, das quais a mais rentável é presentemente a de películas finas (thin-film). Embora o rendimento energético das películas finas seja o pior, o seu menor custo de fabrico e maior longevidade compensam largamente esse pior rendimento, levando ao menor custo por kw de potência de pico.
No entanto, existem outras tecnologias em evolução competitiva, todas procurando o menor custo de fabrico por unidade de energia eléctrica produzida, de modo que é possível esperar que, a prazo de alguns anos (digamos, uma década), uma das tecnologias emerja como a consistentemente mais rentável. Porém, como é difícil prever que tecnologia será essa, também o é a forma dos módulos dela derivados e as condições ideais da sua exploração (a opção do "solar concentrado", por exemplo, requer grandes instalações cobrindo áreas consideráveis de terreno). É uma situação similar à existente com as baterias dos (futuros) carros eléctricos.
Presentemente, entretanto, o menor custo de produção obtido experimentalmente e já este ano para painéis solares de película fina é de 1 USD/Kw, um custo que torna o custo de investimento por kwh ainda duplo do da energia eólica (dado que os factores de utilização médios das instalações com painéis seguidores do Sol e das eólicas são respectivamente de 21% e de 25% e que falta ainda contabilizar o custo de investimento da integração dos painéis com os conversores e controladores), mas um recente estudo da Universidade de Berkeley para a Administração Obama mostra que será muito difícil conseguir melhor nos próximos anos.

Face aos custos insustentáveis da energia solar (o sol é grátis mas, tal como o vento, a água dos rios e até o petróleo do sub-solo, o problema é a sua transformação em algo utilizável), não admira que a totalidade mundial das instalações solares produtoras de electricidade não produza mais do que a energia gerada por uma única grande central nuclear ou a carvão!
Como afirma o mencionado estudo da Universidade de Berkeley, "the message ... is that unlike the stock market, we need to think long-term, and plan for the solar power we want to see a decade or more in the future. And that means doing some painstaking basic research on neglected materials that, for now, cost a lot more than a dollar a watt."
Esta é a estratégia recomendada para países que têm estratégias.

Para Portugal, e dada a triste realidade de desde Ferreira Dias não se planear a prazo em termos de política industrial e tecnológica, resta o que o Presidente da República recomenda na sua intervenção acima inserida: "redução do consumo" e "aumento da eficiência energética". Ou, noutros termos quiçá duros mais mais claros: aprendermos a viver pobremente da melhor maneira! E, acrescentaria eu: começar a trabalhar para um horizonte de daqui a uma década...
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Hoje mesmo, o Público on-line dá conta de uma notícia que confirma e completa este post e que pode ser lida aqui com maior detalhe: a China e a First Solar, o maior fabricante mundial de módulos solares (americano) e que ainda supera a alemã Q-Cells e a chinesa Suntech Holdings, acordaram no fornecimento de uma gigantesca central solar de 2000 Mw (potência de pico, correspondendo a 300 MW de potência média, pouco mais de um terço da da nossa central a carvão de Sines), ocupando uma área de 65 km2, na Mongólia interior. O custo previsto para a central é da ordem dos 2,5 a 3 USD/w, muito acima do desejável 1 USD/w que traria o custo da energia produzida pelo solar para um valor ligeiramente inferior à de origem eólica, mas os chineses esperam conseguir reduzir-lhes os custos. Vão também adoptar uma subsidiação à compra dessa energia, para a viabilizar. E, como sempre o têm feito, hão-de usar isso para aprenderem a tecnologia e para terem argumentos para exportar depois para os EUA...

quinta-feira, setembro 03, 2009

A avaliação dos professores, as "Ciências" da Educação e a estratégia da Administração de Obama

Sendo professor há várias décadas e familiar de muitos docentes e alunos, há muito tempo que concordo com Nuno Crato e a sua crítica ao "eduquês", a linguagem da ideologia "romântica e construtivista" da educação, como ele a caracteriza. Ideologia que, nas suas componentes mágicas, relativistas e subjectivistas ("românticas", chama-lhes benevolamente o Nuno), faz parte do pós-modernismo e embebe outra corrente de pensamento que é prima desta, o ecologismo utópico ou "ecotopia".

No domínio da Educação, esta ideologia tem promovido ideias como a da "promoção da auto-estima" dos alunos sem necessidade dela ser merecida e, de um modo geral, o facilitismo, o culto do divertimento e o horror ao esforço e à disciplina (sobretudo à auto-disciplina), a estranheza perante o valor moral do trabalho e a ideia de que combinando "criatividade" e "empreendedorismo" com isso tudo se poderá ir mais longe do que à promoção da chico-esperteza, que é precisamente como se define criatividade sem esforço nem trabalho.

Considero esta política educativa, ao comprometer por uma geração inteira a capacidade dos portugueses fazerem evoluir o seu país e com isso a sua própria qualidade de vida, um verdadeiro CRIME contra Portugal (ou contra o povo português, como preferirem), no que não sou único, como sabe quem tenha ouvido Medina Carreira a comentar!

E no entanto, a ideologia pós-moderna que sustenta esta política é promovida como tratando-se de "Ciências da Educação", em muitos cursos cuja frequência hoje se exige a quem é docente do ensino pré-universitário, mas a quem não se pede que saiba do que ensina, isto é, que saiba efectivamente português, matemática, ciências em geral (naturais e humanas) e línguas! Ora, na verdade, o segredo do bom professor é antes de mais saber profundamente do que se ensina e gostar de o partilhar, no sentido com que Einstein ironisava que só se tinha conseguido compreender verdadeiramente a sua Teoria da Relatividade quando se conseguia explicá-la à mulher a dias, e ainda capacidade de liderança.

A colmatar o já crónico descalabro da educação, que abrange também os programas fantasticamente imbecis e manuais escolares de qualidade frequentemente criminosa (sobretudo no ensino básico), o actual Governo decidiu avançar com um modelo burocrático de avaliação dos professores que os classifica segundo fórmulas complicadas em função de critérios tão pós-modernos como os do ensino que são levados a praticar!

Será que os professores não devem ser avaliados e que devem manter o direito à irresponsabilidade a que décadas de ausência de hierarquia nas escolas os habituaram? Claro que não penso isso!

Porém, qualquer sistema de avaliação deve complementar toda uma estratégia educativa em que o objectivo final seja a qualificação dos portugueses, e deve estar ao seu serviço como mais uma das suas ferramentas, a par de programas sensatos e correctos, manuais de rigorosa qualidade e objectivos de competência para os alunos cuidadosamente definidos a partir do estudo comparado das melhores práticas internacionais.

A política deste Governo para a avaliação dos professores não tratou de reintroduzir uma avaliação que tivesse estado ausente durante 30 anos, como ouvi o Primeiro-Ministro e muito boa gente defender, como se antigamente (isto é, no salazarismo) houvesse avaliação dos professores, o PREC a tivesse suspendido e agora se estivesse a retomá-la.
Na verdade, essa tese é revisionismo histórico, um truque barato para agradar aos descontentes com a balda existente, pois o facto é que os professores NUNCA foram avaliados por quaisquer critérios classificativos em Portugal, nem antes nem depois do 25 de Abril!

Quem, de facto, era avaliado antigamente (antes do 25 de Abril e até que os pós-modernos tivessem tomado por dentro o Ministério e as Escolas de Educação, já o PREC ia longe), quem era avaliado... eram os alunos! E foi essa avaliação que deixou de existir!

Talvez vocês, jovens, se espantem quando afirmo que a avaliação dos alunos deixou de existir. Claro que continua a haver notas, testes e "trabalhos" classificativos nas escolas. Porém, essa avaliação tem progressivamente sido descentralizada para cada escola e cada professor o que, conjugado com a pedagogia "romântica e construtivista" promovida pelas ditas "Ciências da Educação", conduziu a que agora a avaliação dependa essencialmente do critério de cada professor.

Tal facto é na minha opinião a causa principal da indisciplina existente nas escolas, da perda de autoridade e do clima de intimidação em que muitos professores vivem agora, por parte de alunos e respectivos pais.

Se as aprovações dependem apenas dos professores e se o clima geral é de facilitismo e desprezo pelo trabalho disciplinado, deixou de fazer sentido que os pais e os próprios alunos exijam aos professores que ensinem, para em vez disso se lhes exigir é que facilitem a aprovação.

Para exemplificar a ideia de como o cerne do problema está na falta de uma verdadeira avaliação aos alunos, vale a pena lembrar um sistema de ensino que conheci de perto antes do 25 de Abril, numa região remota do Império ultramarino onde não havia escolas secundárias do Estado.
O ensino era organizado pelos próprios pais dos alunos, em edifícios habitacionais improvisados, e os docentes eram escolhidos de entre os próprios colonos, frequentemente sem sequer terem uma licenciatura completa e sem qualquer hierarquia.
Havia cerca de uma dúzia de alunos por ano lectivo e os exames nacionais eram feitos em liceus oficiais em cidades distantes, de tantos em tantos anos dos ciclos de estudos, e na verdade o sistema assemelhava-se a um centro de explicações, como aliás era oficialmente classificado ("ensino doméstico").
Pois desse esquema improvisado e artesanal vieram a sair muitos futuros licenciados de grande reconhecimento hoje em Portugal e na América, e vários professores universitários actuais...! Qual o seu segredo?
Sem dúvida os tais exames nacionais que ocorriam periodicamente e o empenho dos pais na escola!
O que todos queriam é que os filhos fossem devidamente preparados para os tais exames, que era onde se tinha de obter a aprovação! Portanto, pais e alunos preocupavam-se em saber se a formação ministrada efectivamente preparava para esses exames, e claro que era impensável admitir que um professor não desse o programa todo (que saía nos exames) ou que faltasse às aulas (reduzindo a preparação para esses exames)!
Um aluno desordeiro que impedisse os colegas de se prepararem para os exames, abandalhando as aulas, era rapidamente afastado (e obrigado a ir estudar para internatos em cidades longínquas), pela pressão dos pais dos outros alunos por ele prejudicados. O mesmo afastamento (no final dos anos lectivos) sucedia aos raros docentes que se revelassem menos empenhados ou capazes. Raros, por que a facilitar o trabalho desses improvisados professores, havia programas claros e bons manuais de estudo.
Naturalmente, nesse tempo era motivo de grande orgulho e reconhecimento (ou "auto-estima") obter-se aprovação nos tais exames nacionais, sobretudo quando se tinha boas notas! Um desses exames, o do 2º ciclo (correspondente ao actual 9º ano) compreendia 10 provas escritas realizadas numa só semana, duas por dia, e sobre toda a matéria de 3 anos de estudo!... Ninguém ficava "traumatizado" e a precisar de "apoio psicológico"!...
Naturalmente, os bons professores eram reconhecidos pelo sucesso dos seus alunos nesses exames.
Evidentemente, em escolas de massas como as das cidades, o acompanhamento pelos pais da vida nas escolas como se fazia no exemplo citado é praticamente impossível, e caberá ao Estado substituir os pais nessas funções de avaliação dos professores e em geral da vida escolar. Porém, não há razões para que o referencial dessa avaliação não continue a ser os resultados dos alunos em exames nacionais. E não sou só eu que penso assim, como já mostrarei.

O Mundo mudou, e a "pedagogica romântica e construtivista" não foi só em Portugal que se radicou. Na verdade, e muito semelhantemente à ecotopia, trata-se de uma ideologia internacional que se tornou mesmo dominante em muitos, se não a maioria, dos países ocidentais, crescendo quase sem oposição ao arvorar uma imagem de modernismo que, na verdade, esconde um pós-modernismo profundamente irracionalista e anti-científico.
É uma ideologia que também singrou com êxito nos EUA, mas que enfrenta aí um debate público de ideias que é quase inexistente em Portugal (como aliás também acontece com a ecotopia).

Num país com a dimensão e diversidade cultural dos EUA, habituado à autonomia dos Estados e com uma aversão epidérmica arreigada à interferência do Governo Federal na vida colectiva dos cidadãos, não há exames nacionais e as práticas escolares são as mais variadas. Mas, lá como cá, a carreira dos professores dos ensinos básico e secundário (K-12, como lhe chamam) tem sido desde os anos 80 essencialmente baseada nos anos de experiência e nos graus obtidos em cursos de Ciências de Educação, particularmente pós-graduações.
Porém, os testes globais feitos regularmente mostram que lá, como cá, os resultados escolares estagnaram desde os anos 80, e que muitos cursos de "Ciências de Educação" não valem nada.
Na verdade, a política da Administração Obama e em particular do seu Secretário de Estado Arne Duncan baseia-se no reconhecimento de que não existe qualquer relação entre as pós-graduações em "Ciências da Educação" e os resultados obtidos pelos alunos em testes globais padronizados (isto é, de validade comparável).

Isto é algo que vem sido afirmado há muito entre nós pelo incansável Nuno Crato, mas para se entender melhor o que está em jogo, vale a pena conhecer por exemplo a opinião de Martin Kozloff, professor de Educação na Universidade da Carolina do Norte:

"A master’s degree in most subfields in education (especially reading — or what they like to call “literacy” — early childhood education, teaching and elementary education) adds little or nothing to students’ knowledge or practical skills.
An M.A. in education stamps in the baloney that infects the undergraduate curriculum.
Indeed, a master’s degree in most education subfields further stamps in the “progressive,” “child-centered,” “constructivist,” “developmentally appropriate,” postmodernist, pseudo-liberationist baloney that infects the undergraduate curriculum, and which leaves graduating ed students unprepared to provide their own students with coherent, logically sequenced instruction.
Undergrad students enter ed schools and eventually graduate from master’s programs still 1. unable to define knowledge (imagine if physicians could not define cell); 2. unable to identify, define and show exactly how to teach the different kinds of knowledge (e.g., facts, concepts, rule, routines); 3. unable to explain how learning is a simple and straightforward process of inductive reasoning (and not a mysterious process of “discovery” and “meaning making” that can only be “facilitated” by teachers who are more like artistes than skilled technicians); and 4. unable to determine whether teaching materials (e.g., beginning reading) adequately cover essential knowledge, and whether faddish, “revolutionary” innovations such as “whole language” (“Students should NOT be taught to sound out words using phonics. They should GUESS what words say using pictures on the page and the shape of words”) have solid empirical support and will not make children illiterate.
And if you ask graduating master’s students who have managed to escape indoctrination (because they are fortunately endowed with a wide streak of skepticism), they will tell you that they learned nothing new. Yes, many teachers with master’s degrees in education are more skilled teachers. But this is not because they got a master’s degree
."

O programa de Duncan/Obama para a reforma da educação nos EUA centra-se na avaliação dos professores - na verdade, na própria definição dos critérios do seu recrutamento e carreira - a partir dos resultados dos respectivos alunos em exames "padronizados". Ou seja e resumindo, no regresso ao velho critério de bom-senso do antigo ensino em que, afinal, toda a classe actualmente dirigente foi ela própria educada!
O pós-modernismo nas escolas americanas resiste a esta política, claro, e em alguns Estados tenta mesmo decretar a ilegalidade da avaliação dos professores invocando direitos autonómicos. Mas Obama não desiste, prosseguindo uma estratégia que, aliás e nas suas linhas essenciais ideológicos de bom-senso e realismo - particularmente a exigência de exames globais a nível estadual como fundamento dos programas de ensino - fora já iniciada pela Administração Bush com o programa "No Child left behind". Trata-se, pois, de uma viragem histórica decisiva que está em curso nos EUA e que, mais tarde ou mais cedo, a Europa primeiro, e Portugal também, seguirão, como sempre.

Exames nacionais já existem por cá, dir-me-ão. Pois, mas todos sabemos como a extraordinária melhoria dos seus resultados nos últimos anos é altamente suspeita.
Nuno Crato e a sua Sociedade Portuguesa de Matemática têm tentado correlacionar os exames de Matemática nacionais com os níveis internacionais e concluído que as melhorias obtidas se tratam de grosseiras mentiras, obtidas à custa de um maior facilistismo que desautoriza os professores que efectivamente se esforçam por manter um nível elevado de ensino.
A Ministra, porém e ainda hoje o repetiu, diz que não, que o aumento em 50% de aprovações em Matemática em 4 anos se deveu à sua política e aos professores que trabalharam mais graças à sua política, e parece ser apoiada pela Associação de Professores de Matemática, a "outra associação" e que é "politicamente correcta".
Ora quem quer que tenha estudado (e/ou ensinado) Matemática sabe perfeitamente que melhorias destas são estatisticamente impossíveis! Como terão sido obtidas?
O actual Director do Gabinete de Avaliação Educacional (GAVE) do Ministério é um colega meu do IST e competente Professor de Robótica e Controlo. Desconheço-lhe competências em Ciências de Educação e surpreender-me-ia que tivesse conhecimentos por dentro do nosso ensino "K-12", mas não tenho dúvidas de que tem a capacidade matemática necessária para aferir a dificuldade das provas de exame nacionais, antes de serem submetidas aos alunos, de modo a que produzam as estatísticas que se pretendam.

quarta-feira, setembro 02, 2009

Alta do petroleo, Regulação e energia eólica - com comentário

Dia 5, na SIC-Notícias, o Dr. Eng.º Costa e Silva, meu colega no IST e Presidente da PARTEX, a petrolífera que sustenta a Gulbenkian, deu explicações muito interessantes sobre as razões da actual alta de preços do petróleo e das suas perspectivas futuras.
Entre outras causas para esta alta de preços está, como factor determinante, a especulação financeira no mercado mundial de futuros.
A situação é de tal modo alarmante que o Regulador norte-americano do mercado de futuros defendeu recentemente a aplicação de limites mais apertados aos valores de investimento permitidos aos investidores não comerciais no mercado do petróleo e do gás. Referia-se essencialmente à Banca e a certos fundos de investimento.
Será certamente difícil limitar esta especulação, dado o caracter internacional do capital financeiro, mas o certo é que, como disse Costa e Silva, 1/3 da frota petroleira mundial está presentemente parada no mar, com os porões cheios de petróleo, à espera que o preço deste suba para o descarregar.
A própria indisponibilidade destes petroleiros contribui para a alta dos preços do petróleo, ao dificultar o seu transporte (Costa e Silva mencionou, nomeadamente, o estrangulamento do transporte de gasóleo da América para a Europa e da gasolina no sentido inverso - os americanos não usam Diesel e os europeus usam-no cada vez mais).
A base desta especulação é a expectativa de que os preços do petróleo venham a subir. Esperar que eles subam leva a guardá-lo para vender mais tarde, e esse mesmo açambarcamento reforça a rarefacção que lhe faz subir os preços.
No fundo, trata-se do mesmo tipo de especulação que acontece nas Bolsas nas épocas de euforia, e que aconteceu no mercado imobiliário até recentemente. Já tem acontecido também no mercado das obras de arte e até no dos selos de colecção. Baseia-se sempre na expectativa de uma subida futura dos preços e alimenta-se a si própria disso, geralmente até que alguma coisa quebre o ciclo e a bolha rebente.
No caso das Bolsas, dos imóveis e dos selos, porém, esta especulação tem um fundamento muito subjectivo e, portanto, o rebentamento das bolhas é sempre garantido e uma questão de tempo. Os últimos ficarão arruinados mas a tentação de jogar neste Casino enquanto os preços sobem é grande.
E no petróleo?
À primeira vista ele é um bem físico limitado e cuja produção será incapaz de acompanhar o previsto crescimento mundial da procura. Portanto, aparentemente a sua rarefacção futura parece garantida e a consequente subida de preços também. E, neste contexto, o mercado de futuros e a respectiva especulação poderá até parecer razoável e prestando um serviço necessário, ao assumir ele o risco dos preços futuros.

Mas será mesmo assim? Pode ser que sim.
E pode ser que não.
Em primeiro lugar há a questão de saber ao certo que reservas existem. E, para além das reservas existentes, há a questão da possível evolução da tecnologia de extracção que, presentemente, apenas é capaz de extrair cerca de 30% do petróleo existente.
Mas, em segundo lugar e quiçá com muito maior impacto, há o efeito que terá uma redução da procura, motivada pelo aumento da eficiência no seu consumo! Não é precisa uma eliminação da procura; basta uma redução consistente, para que os pressupostos quanto ao futuro em que se baseia a especulação possam ficar subvertidos e a bolha rebente, como as outras!
Ora, como disse Costa e Silva e eu já referi aqui, nos EUA os automóveis primam pela ineficiência. O carro médio americano gasta 10 litros aos 100 km, contra uma média de 7 na Europa e Japão. E, como os americanos vivem em geral longe dos empregos, o consumo de gasolina dos EUA é, só ele, cerca de 35% do total mundial, o dobro do de toda a Europa e mais do quádruplo per capita. Costa e Silva disse que bastava que o rendimento dos automóveis americanos aumentasse 15%, com a adopção generalizada dos híbridos e dos Diesel, para que o panorama da procura se alterasse radicalmente a relativamente curto prazo. Convém notar que adoptar híbridos e Diesel não requer apostas em tecnologias inexistentes, ao contrário dos automóveis eléctricos...
Mas, além da estratégia americana para os automóveis, há também nos EUA propostas sólidas para a adopção do TGV eléctrico em certos circuitos com distâncias apropriadas (a distância tecnicamente apropriada para o TGV é a de Lisboa-Madrid; abaixo disso o automóvel é mais prático, e acima é preferível o avião), como é o caso dos trajectos San Francisco-Los Angeles, Dallas-Santo Antonio-Houston e Boston-New York-Washington. E a melhoria de eficiência dos aviões comerciais, responsáveis por uma parcela importante e crescente do consumo mundial de combustíveis, também já se faz sentir.
Tudo isto significa que, a um horizonte de 10 anos, digamos, não é certo que se mantenha a actual tendência de subida do preço do petróleo.
Existe, claro, o problema do aquecimento climático e das emissões de CO2.
Porém, convém ver que, até agora, essa preocupação e as medidas limitadoras associadas resultantes do protocolo de Kyoto deixam de fora os dois maiores poluidores industriais, os EUA e a China, para já não referir que os problemas da desflorestação e do mau uso dos terrenos agrícolas, responsáveis por de 1/3 a metade das emissões e na sua maioria da responsabilidade de países não-industrializados, nem sequer começou a ser encarado pró-activamente.
Ora no fim deste ano ocorrerá a cimeira de Copenhague, e pela primeira vez existe um empenho activo dos EUA nessas negociações e, com maiores reservas geo-políticas, da China. Se houver um acordo que englobe esses dois gigantes, o panorama mundial relativo às emissões de gases de efeito de estufa poderá modificar-se radicalmente, reforçando o empenho mundial na redução da dependência do petróleo (de que a China tem pouco, no seu sub-solo).
Tudo isto para dizer que não se justifica uma pressa excessiva no abandono do petróleo e dos combustíveis fósseis, e que há tempo para delinear estratégias sustentáveis a 10 ou 20 anos, esperando para ver o que vão decidir os EUA e a China.

Entretanto, Costa e Silva reconheceu o que toda a gente sabe: que as petrolíferas nacionais acompanham a subida internacional dos preços do petróleo ao momento, mas para a descida esperam umas semanas...
E disse outra coisa que também toda a gente sabe: que a Entidade Reguladora de Manuel Sebastião é mais uma Reguladora da "falta de concorrência" do que da Concorrência, em matéria de combustíveis.
Ora, é bem sabido que o actual Governo deu cabo das Entidades Reguladoras, enquanto entidades independentes para a defesa dos consumidores. Transformou-as em Direcções-Gerais do Estado. E, curiosamente, se o Governo fecha os olhos à especulação existente sobre o preço dos combustíveis, já relativamente ao preço da electricidade e ao défice que o antigo Regulador Vasconcelos queria repercutir nos preços desta, foi intransigente.
Temos que é muito claro que o Governo tem uma estratégia de encorajamento de subida do preço dos combustíveis, e de congelamento do preço da electricidade. E também é claro que isto alimenta uma retórica de aposta nas "renováveis" que, espremida de tudo o que são meras palavras ou fantasias, se traduz apenas numa única aposta: a da energia eólica.
Energia eólica cuja potência de ponta ultrapassará em breve o consumo nacional a certas horas de vazio, como já expliquei aqui, e por causa da qual parte das 8 novas hidroeléctricas a construir vai ter capacidade de bombagem, um custo extra que se deve atribuir ainda às eólicas, porque é a intermitência e irregularidade destas que requer essa capacidade às hídricas.
A quantidade de turbinas eólicas instaladas e em instalação levar-nos-á aos píncaros no uso da mesma, o que é extraordinário tendo em conta que não incorporam qualquer know-how nacional, quase nenhuma construção nacional, e muito poucos empregos no país!
E, como entretanto o Governo se deu conta de que não pode invocar a aposta nas eólicas como medida contra a dependência do petróleo importado, inventou a aposta na fantasia do carro eléctrico para ligar uma coisa à outra!

Dizia o Expresso da semana passada que a subsidiação das eólicas custava ao país perto de 500 milhões de € por ano. 50 € anuais por residente. E está-se a subsidiar o quê? Essencialmente as indústrias de turbinas alemã e espanhola!

E, claro, alguns negociantes nacionais de concessões e de "pontos de injecção" de energia!
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Um distinto engenheiro conhecedor do assunto enviou o seguinte comentário:

A factura agora divulgada (447 M€) corresponde às contas da ERSE feitas em 2008 para as tarifas de 2009 e são relativas a toda a produção em regime especial e não apenas às eólicas. Só que estas contas têm um problema: já estão muito desactualizadas! A ERSE estimou para 2009 o custo do MWh de referência (no mercado diário e intradiário OMIE) em 70 €/MWh, mas na verdade o seu preço médio real até 31 de Julho foi de 39 €/MWh, e não dá indicações de subida (pode ver os preços no mercado a prazo OMIP).
Daqui resulta que, o que podia ser uma boa notícia para os particulares e para as empresas, na realidade não o é, bem pelo contrário. Os 447 M€ passam para o dobro, como passo a explicar: a diferença do preço médio das renováveis (101 €/MWh) face ao mercado não é de 31 €/MWh (101-70 = 31), mas sim de 62 €/MWh (101-39 = 62). A ERSE vai ter que corrigir estas contas, e não é difícil de calcular uma boa aproximação ao custo final das renováveis: só no ano de 2009, serão 14.540 MWh (produção estimada dos PRE, o real pode até ser superior) x 62 €/MWh, e o verdadeiro número será muito aproximadamente 900 M€, e não os 447 M€ anunciados na imprensa.
Mas se juntarmos a este valor o investimento obrigatório da REN e da EDP para a ligação das renováveis, o valor é ainda superior, muito perto dos 1.000 M€.
E isto a pagar num único ano, veja agora quando tivermos que pagar o resultado do visionarismo em voga!

O carro a hidrogénio, ainda se lembram?

Até há muito pouco tempo, pouca gente ainda falava no carro eléctrico, e a grande visão do futuro era o carro a hidrogénio.
O Presidente Bush destinou 1.2 biliões de dólares em 2003 para esse projecto e houve até quem começasse a fantasiar sobre uma futura "economia do hidrogénio". Esta "grande visão" caiu de chofre no caixote do lixo da História quando o actual Secretário de Estado da Energia da Administração Obama e prémio Nobel, Chu, sugeriu ao Congresso uma redução em 100 milhões da quantia atribuída por Bush, argumentando que não seria nos próximos 20 anos que o carro a hidrogénio poderia ser produzido em massa.
Há quem pensasse que o hidrogénio, sendo o elemento mais abundante no Universo, deveria ser muito barato - uma ideia que muitos têm também quanto à àgua da hidroelectricidade e ao vento da energia eólica, esquecendo que na natureza tudo é à partida de borla (incluindo o petróleo que existe gratuitamente no sub-solo) mas que o problema é transformar isso em algo utilizável. Ora na verdade o hidrogénio que nos é acessível (excluindo, portanto, o que existe em estado livre mas... no espaço sideral) tem de ser extraído dos compostos onde ele realmente existe. E isso requer energia, e essa energia tem de provir de alguma outra fonte.
Por isso, e ao contrário do que muitos pensam, o hidrogénio não seria a fonte de energia, mas sim apenas um meio de a transportar. A fonte de energia seria a que extrairia o hidrogénio dos compostos onde ele existe (nomeadamente a água), energia essa que o hidrogénio devolveria de novo ao ser combustido nos motores do tal futuro carro.
E, para extrair o hidrogénio da água nas quantidades necessárias para alimentar as frotas de transporte mundiais, seriam sempre precisas fontes de energia colossais que, no actual estado da tecnologia, só poderiam ser centrais nucleares.
Ora convém notar que, enquanto forma de transporte de energia, o hidrogénio tem um concorrente experimentado: a electricidade!
Na verdade, tal como o hidrogénio, a energia eléctrica que usamos também não passa de uma forma de transporte de energia. A electricidade e as redes eléctricas que a sustentam são apenas, de facto, formas de transportar a energia gerada por outros meios (queima de carvão, queda de água em barragens, vento, cisão dos núcleos atómicos do Urânio-235) até aos locais e aparelhos onde a consumimos. A facilidade de transformação e o baixo custo relativo do transporte da electricidade são, precisamente, as razões por que se usa esta forma de energia como intermediária entre as fontes primárias de energia não-eléctrica das centrais e o seu consumo.
Ora nesta competição com a electricidade, o hidrogénio tem uma enorme desvantagem: ocupa volume. E muito volume, se se estiver a pensar na quantidade necessária para equivaler, por exemplo, à energia existente num depósito de gasolina de um carro. E esse problema não se vê como ultrapassar (claro que se pode comprimir o hidrogénio, claro que se pode pensar em incluí-lo em certos compostos, mas todas estas ideias têm problemas colaterais que se não sabe como ultrapassar).
A desistência da ideia do carro a hidrogénio deveria fazer pensar os decisores que estão agora a apostar noutra ideia cheia de problemas por resolver, a do carro eléctrico. Mas parece que a memória tecnológica desses decisores políticos e dos media é curta...

sábado, agosto 22, 2009

Notas da América: a promoção à troca de carros

Está aceso o debate nos EUA sobre o "cash-for-clunkers", a medida da Administração Obama pela qual são dados 3500 a 4500 dólares por carros velhos poluidores em troca de novos mais eficientes. O valor para cada comprador depende da eficiência dos carros comprados, em termos de consumo e CO2 emitido, e só se aplica se o carro a trocar for pior que um certo limite nestes critérios. O Congresso aprovou primeiro 1 e depois 3 biliões de dólares para esta medida, prevista para durar 4 meses, mas o fundo esgotou-se em 3 semanas, devido ao enorme sucesso que teve. A medida visa também ajudar a indústria automóvel americana em crise, embora na verdade tenha aumentado ainda mais a quota de mercado dos carros japoneses, sabidamente mais eficientes. O debate divide republicanos e democratas, com os republicanos a acharem que é dinheiro mal gasto e os ecologistas a acusarem a medida de ser insuficientmente green.

Para ter uma melhor ideia da medida, convém começar por notar que nos EUA os carros são muito baratos, porque não existe o "Imposto sobre veículos" que nós temos. Um Honda Civic, por exemplo, custa aproximadamente tantos dólares lá como euros em Portugal, mas o dólar vale 0,7 euros. Por isso, a quantia em jogo em cada carro é muito apreciável.

Ora vale a pena comparar esta medida com a bonificação acrescida na compra de carros que o actual Governo propôs e o Parlamento aprovou recentemente em Portugal. Esta bonificação consiste num desconto de 1250 € para carros com 10 ou mais anos, que sobe para 1500 € se o carro a trocar tiver mais de 15 anos, no Imposto Sobre Veículos (ISV) do carro novo.

Em primeiro lugar, como não consumimos automóveis produzidos em Portugal, economicamente esta medida só pode incrementar o comércio importador dos mesmos e beneficiar alguns comerciantes, mas à custa do défice externo.

Porém, importa notar que a referida bonificação tem a forma de um desconto sobre o ISV, e que a fórmula deste é tal que beneficia (correctamente) os automóveis menos poluentes e mais eficientes. Significa isto que, na realidade, a medida tem pouca aplicação prática para os carros mais baratos e/ou eficientes, e que promove é a aquisição de veículos gastadores e poluidores. Um exemplo demonstra isto.
Supunhamos que se pretende adquirir um Honda híbrido Insight, que custa cerca de 20 mil €: o seu ISV é de 857 €, pelo que de facto esse é o desconto máximo que se poderá ter na sua compra, e não os 1250 ou 1500 € anunciados pelo Governo! Mas conjecturemos que quem tem um carro com 15 anos para trocar é provavelmente pobre e procurará antes um carro de gama baixa, por exemplo um Honda Jazz de 14 mil €: o ISV deste é de 797 €, pelo que é esse de facto o desconto "oferecido" pelo Governo ao referido pobre. Para que ele aproveite melhor a "oferta" do Governo, deverá antes comprar um Mazda 2, carro de preço similar mas que, por ter um motor mais antigo e menos eficiente, paga 1264 € de ISV...
E, continuando a fazer contas, é fácil de ver que para se aproveitar integralmente os 1500 € se terá de trocar o tal "chasso" com 15 anos por um carro novo de gama média, bastante gastador de gasolina e nunca híbrido!
Para quem promove o carro eléctrico como a salvação ecológica do mundo, há aqui uma contradiçãosinha...

domingo, agosto 16, 2009

Mais mentiras sobre os empregos verdes em Portugal!

Mais uma vez, os ecotópicos vêm anunciar os imensos empregos verdes que as "renováveis" vão criar. No futuro.
Portugal está já a 2/3 da capacidade total de energia eólica instalável, é um país que por muitas décadas teve nas hidroeléctricas a sua principal fonte de energia eléctrica, mas é no futuro exaltante que aí vem que a renováveis vão criar muitos empregos entre nós!
É sempre algo que vai acontecer no futuro, esta economica empregadora!
E isto é assim para esconder, obviamente, que ATÉ AGORA as renováveis, ou mais exactamente a eólica, apenas criaram em Portugal 1300 empregos ao todo, 800 directos e 500 indirectos! Os quais com grande probabilidade desaparecerão quando o 1/3 que falta estiver instalado, já que as eólicas são quase sempre monitorizadas directamente do estrangeiro, pelos seus fabricantes, por tele-comunicação!
E que, tendo destruído em grande parte a antiga capacidade nacional na engenharia das barragens com a sua substituição pelas integralmente importadas eólicas, agora que a construção destas foi retomada, quase 20 anos depois da última ter sido projectada, 2/3 delas foram doadas a Espanha. Muito em particular à Iberdrola, que nunca escondeu o seu apetite pela posse do sistema hidroelétrico português e que tem agora em Pina Moura a influência que sempre desejou sobre o poder em Portugal! E, naturalmente, a Iberdrola dará é emprego a espanhóis, como nós fariamos no lugar deles!
Um negócio como este que ontem os jornais explicavam, vejam bem: se vocês instalarem "microprodução" de energia em casa, a EDP é obrigada a comprar-vo-la a 0,65 para depois vo-la revender a 0,11! Quem paga a diferença? Para que serve tal política, se não temos em Portugal nenhuma indústria empregadora que faça nada nestas tecnologias?
Na verdade, a economia que as renováveis estão a criar em Portugal é apenas a de uma classe social que um antigo dirigente político designava por "burguesia burocrático-compradora": uma economia que se limita aos negócios da importação e que é suportada pela burocracia do Estado, cujo papel é apenas o de criar os subsídios e as leis que permitem os lucros da importação.
Tudo isto começou com o Prof Oliveira Fernandes, actual dirigente do MIT-Portugal para a Energia, no tempo de Guterres, atingiu o clímax com Castro Guerra, neste Governo, mas também deve muito a Manuel Lencastre do Governo de Durão Barroso!...

terça-feira, agosto 04, 2009

Coreia do sul aderiu à salvação do planeta? Sim, mas...

Uma notícia de hoje dá conta que a Coreia do Sul decidiu definir metas de limitação do CO2 emitido para 2020.
A Coreia, que emitia em 2005 11,1 toneladas de CO2 per capita (mais 25% que nós), duplicou as suas emissões nos 15 anos anteriores, sinal do excelente desenvolvimento económico que teve. Notável, para um país que há 55 anos tinha o mesmo rendimento per capita do Gabão!
Segundo a notícia, "O Governo estima que esta meta custará entre 0,3 e 0,5 por cento do PIB e conta reduzir as emissões ao promover os carros híbridos, as renováveis, o nuclear e a eficiência energética."
Alguns ecologistas utópicos pensarão, talvez, que a Coreia assim se sacrifará, gastando uma % do PIB, em prol da salvação do planeta.
Mas há algo que falta à notícia para se ter um quadro mais completo desta aposta coreana.
É que a Coreia do Sul tem em construção, até essa data, 12 centrais nucleares de projecto sul-coreano, e é mesmo hoje em dia um dos únicos 4 países (juntamente com a Rússia, a China e o Japão) capazes de forjarem as gigantescas caldeiras de alta pressão das centrais nucleares com mais de 1 GW!...
Ora sabendo-se como o grande problema económico da energia nuclear é a incerteza quando às taxas de juro e ao preço futuro da energia, este anúncio do Governo sul-coreano é um compromisso de estabilidade para a sua indústria nuclear, sem dúvida uma inteligente opção estratégica na antevisão de que vai haver muita procura internacional para o nuclear e que há agora já poucos que as saibam fazer.
Não nos devemos por isso admirar muito se, um dia destes, além de importarmos Hiunday híbridos, também lhes comprarmos uma centralsita nuclear...

segunda-feira, agosto 03, 2009

Gestão da procura, "smart grids" e quem paga a factura

Muito a propósito do momento eufórico que vivemos, cheio de propaganda ao futuro radioso só com energias renováveis e "redes eléctricas espertinhas" (smart grids) que adaptem o consumo à produção, acaba de chegar aos nossos media uma notícia que já andou pelo New York Times e que mobilizou as hostes ecotópicas contra a "conspiração do grande capital monopolista". Concretamente, contra a EDF, a EDP francesa.
Comentei a notícia no Público on-line e a jornalista, a Senhora D. Lurdes Ferreira, uma esfusiante entusiasta da ecotopia, corrigiu-a e bem, aqui e aqui. Mas com novos erros, que também já lá comentei e que vou discutir convosco no seguimento.

Em França, uma empresa resolveu oferecer uma caixinha que desliga os consumos nas horas de ponta ou, mais exactamente, quando as tarifas estão caras por carência de produção disponível na rede. É exactamente este tipo de serviços que os "contadores espertinhos", ou smart meters, nos irão oferecer (ou impôr?) quando os ecotópicos tiverem reduzido toda a produção de energia a fontes renováveis e, em vez de haver produção que se adapte às nossas necessidades de consumo como hoje em dia, passarmos a ser nós que teremos de adaptar o nosso consumo às vicissitudes do estado do tempo.
Do ponto de vista do consumidor e neste momento, em França, que fazem de facto essas caixinhas? Desligam consumos como o ar condicionado (de longe o principal consumidor numa casa ou escritório, quando está ligado). Obviamente, isto significa que o ar ambiente vai aquecer, e é precisamente por não querermos isso que instalámos e ligámos o ar condicionado!
Se não quisermos gastar a energia do ar condicionado, o melhor é termos ventoinhas ou tirar as gravatas, como já aqui aconselhei. Mas se o quisermos, uma alternativa menos má será aceitar a referida desligação do ar condicionado apenas por uns minutos, digamos meia hora. E depois voltar a ligá-lo. Porquê?
Porque os interiores de edifícios têm uma inércia térmica considerável. Uma vez desligada a climatização, a temperatura evolui devagar, e ao fim de meia hora apenas terá subido alguns graus, o que pode ser suportável se durar pouco tempo. Mas depois, quando se voltar a ligar o ar condicionado, o termostato de regulação vai levar o aparelho, que normalmente trabalha por curtos períodos e depois se desliga por alguns minutos, a trabalhar ininterruptamente até repôr a temperatura no valor regulado inicialmente. Pode também fazer-se o inverso pouco antes de chegar a hora de ponta: arrefecer um pouco demais o ambiente, para depois se poder aguentar o aparelho desligado uma meia hora no início dessa hora de ponta.
Obviamente, a energia que se poupou durante a meia hora de desligação é inteiramente dissipada de novo durante o arrefecimento posterior (ou anterior) do equipamento. Nenhuma energia se poupa, no total. Então, onde está o negócio?
O negócio existe se o consumidor tiver uma tarifa bi-horária (no futuro ecotópico, a tarifa estará permanentemente a variar, sendo comunicada pela net aos tais "contadores espertinhos"). O negócio consiste em desligar o consumo à horas da tarifa mais cara, que são as horas de ponta, para o voltar a ligar quando a tarifa tiver mudado para mais barata, por terem passado as hora de ponta - ou antes desta, também.
Ora, porque é a tarifa mais cara nas horas de ponta?
Porque, para a satisfazer, a rede tem que ter centrais só para produzir energia nessas horas de ponta, e isso é um investimento pouco rentável para todos, razão porque é a própria dona da rede que desincentiva esse consumo encarecendo a tarifa nessas horas.
A principal vantagem das grandes redes interligadas é, aliás, precisamente a poupança de centrais de ponta, porque numa grande rede, como a europeia toda, quando o consumo atinge a ponta aqui não o está a atingir na Áustria, e vice-versa. Nos EUA o mesmo sucede entre as costas Leste e Oeste, que é onde reside a maioria da população e dos consumos.

Presentemente e no caso da França, as centrais de base, que trabalham permanentemente ao mesmo ritmo (a potência constante) são as nucleares. Por cá, são as a carvão. As centrais de ponta, capazes de variar facilmente a sua produção em função da procura, são essencialmente as hidroeléctricas, e em menor grau as de ciclo combinado a gás natural. As eólicas são quase totalmente imprevisíveis e, por isso, têm de ter outras hídricas e, sobretudo, a gás, permanentemente prontas só para lhes fazer reserva, caso falhe o vento. Portanto, reduzir as pontas de consumo deslocando-a para as horas de vazio não só não reduz energia nenhuma, no total, como aumenta a porção desta que vem das centrais nucleares e a carvão, em prejuízo da das renováveis hidroeléctricas!
Acontece que por cá, em Portugal, os fornecedores da energia são pagos pela encomenda, ou seja, mesmo que não cheguem a vender a energia das horas de ponta para as quais fizeram as centrais, recebem à mesma! Adivinhem quem paga? Não, não são só vocês! É também o défice, essa invenção maravilhosa que permite gastar sem ter com que pagar...! :-)
Mas em França não é assim, e os donos das centrais de ponta só recebem mesmo se venderem. Ora terem feito uma hidroeléctrica para satisfazer as pontas, e depois não haver consumo para ela por que não houve ponta, e não haver o mecanismo português de receber quer se venda quer não, é natural que tenha indisposto a EDF e que a ERSE lá do sítio lhe tenha dado razão!

Entretanto, e esta é a questão mais interessante, se este sistema em França efectivamente não reduz nenhum consumo de energia e até aumenta a porção proveniente das centrais nucleares em prejuízo das hidroeléctricas, porque se movimentam com tanta virulência os ecotópicos contra esta decisão da ERSE francesa?
Por uma questão de princípio que nada tem a ver com o actual sistema francês! Porque de facto eles querem poder controlar-nos o consumo de energia, pela verdadeira razão de quererem que o sistema produtor seja integralmente composto de fontes renováveis e, como tal, dependentes do estado do tempo, de se é dia ou noite, de se choveu ou não!!!
Só que, quando tudo provier de fontes renováveis, não haverá horas de ponta nem de vazio - tudo será altamente variável e imprevisível. E portanto, os tais mecanismos que se baseiam na antecipação das horas das tarifas serão em geral incapazes de "gerir a procura", e o que vai acontecer é que teremos mesmo de pagar as altas tarifas de quando não há vento, é noite e os rios estão secos. Isto se formos ricos, senão teremos de passar sem a electricidade.
Como já expliquei aqui!

Fogos de Verão e lixo: da limpeza como alternativa ao carro eléctrico

Como já referi aqui, a desflorestação e o mau uso dos terrenos agrícolas e de pastagens são responsáveis, à escala mundial, por entre 1/3 e metade da emissão de gases de efeito de estufa (GEE). O lixo, por outro lado, é responsável por cerca de 3%, segundo o Painel Inter-governamental para as Alterações Climáticas (IPCC) da ONU.

No que respeita à desflorestação e ao uso agrícola da terra, o problema está quase todo no 3º Mundo o que, obviamente, o torna num problema político difícil, considerando os complexos de culpa ex-coloniais do 1º Mundo e a política "correcta" das boas consciências que acham que a culpa de tudo é nossa, os ocidentais.

Provavelmente quando se lê "desflorestação" pensa-se nos fogos da Amazónia. Mas a desflorestação no hemisfério Sul é muito mais que isso.

Nasci e cresci em África, a 1200 km do mar, na savana, e havia uma coisa que me maravilhava nas noites estreladas do cacimbo: o céu vermelho das queimadas no horizonte e o esplendor do fogo na savana. O fogo era tão belo que ainda hoje tenho na sala um quadro enorme a óleo de uma queimada nocturna africana, herança de família, pintado há quase 50 anos!

Depois, às vezes de dia, chuvia cinza durante horas, e era preciso refugiarmo-nos nas casas para não ficarmos todos enfarruscados. A administração colonial não gostava muito destas práticas, mas tolerava-as enquanto tradição indígena e deixava fazê-las umas quantas vezes por ano.

As queimadas eram a forma dos tchokwes caçarem. Faziam uma larga meia-lua de chamas na savana e os homens postavam-se na boca do fogo a apanharem toda a bicharada que fugia espavorida. Claro que era um método bárbaro: as queimadas matavam tudo o que não conseguia fugir, crias e rebentos de vegetação e, quando ainda eram a única forma de vida, passado algum tempo as tribos tinham que se deslocar para novas savanas ainda vivas, e eventualmente disputá-las pela força. Depois os colonos limitaram as queimadas e os tchokwes sedentarizaram-se, aprendendo a plantar a mandioca que os portugueses trouxeram do Brasil e que lá chegou com os caçadores de escravos do litoral, ainda antes da chegada dos colonos.
Ora com a descolonização e as guerras civis subsequentes, é claro que as queimadas voltaram em força. A diferença é que a morte da caça agora é feita com kalashnikovs, e já não com canhangulos de carregar pela boca e zagaias.

Outra diferença essencial é que agora sabe-se quão nociva é a prática das queimadas para o aquecimento global. Não é só o CO2 emitido durante a combustão da vegetação; é também a morte desta e o fim da função clorofila por uns tempos largos, após o fogo.

Ora em Portugal os fogos florestais de Verão têm o mesmo efeito. Qual a sua contribuição para o total de GEE emitidos, não está quantificado. Aparentemente isso interessa muito menos os ambientalistas do Estado do que os negócios dos terrenos e das concessões para as eólicas, visto que todos os estudos existentes e consultáveis sobre a emissão de GEE em Portugal bem como sobre as medidas para a sua mitigação reconhecem que lhes falta esse dado, mas não parecem preocupar-se com isso.
No entanto, já mencionei um estudo rigoroso que calculou, para 2003, o valor emitido pelos fogos florestais e que terá acrescido 9% às cerca de 85 Megaton de CO2 equivalente reconhecidamente geradas no país.

2003 foi um ano mau em fogos (400 mil hectares), mas a àrea ardida tem vindo regularmente a crescer, com máximos cada 5 anos, a uma média anual de 120 mil ha. Isto corresponde, portanto, a pelo menos 3% do total de GEE emitidos em Portugal, cerca de 1/7 do valor gerado pela totalidade do parque automóvel em circulação.

Os fogos florestais em Portugal resultam sobretudo da falta de limpeza das florestas, além da sua má ordenação. Não há incentivos para a limpeza da vegetação seca e morta que junca o solo das florestas, a biomassa, e que é o grande propagador do fogo.
Tem, por isso, muito interesse ambiental a ideia de promover a queima dessa biomassa para a produção de energia eléctrica (e de calor, na forma de cogeração). E foi, portanto e em princípio, louvável a iniciativa do Governo de pôr a concurso a construção de 15 centrais eléctricas a biomassa em 2006, totalizando uma potência de 100 MW. Não tanto pela pouca energia eléctrica a obter com isso, mas por criar um incentivo económico aos madeireiros e às empresas de celulose para apanharem também a biomassa dos eucaliptais, além da madeira. Nas centrais de biomassa, algumas poucas centenas de MW de potência eléctrica podem significar a redução de 2 a 3% de GEE emitidos, pelo efeito indirecto que elas têm na limpeza da floresta e, portanto, na prevenção dos fogos. Claro que a queima em si da biomassa nas centrais também produz CO2, mas muito menos que os incêndios florestais!

Porém, a ideia estava tecnicamente mal fundamentada, como infelizmente é habitual, e por isso falhou. Das 15 centrais a concurso, uma única está em construção, e das restantes a maioria nem sequer teve concorrentes. Em Abril passado, Marques Mendes indignou-se com a situação, mas ninguém lhe ligou. Provavelmente tinha razão quando disse: "O Governo nem quer saber disso, dá pouco nas vistas". E porque é que ninguém se interessou pelo "oportunidade" oferecida pelo Governo?
Porque o subsídio às tarifas era demasiado baixo e as centrais demasiado grandes. Porque para produzir alguns MW numa central de biomassa são precisas imensas àreas de floresta e muitas toneladas de biomassa, porque o poder energético desta é muito baixo. E portanto, as tarifas têm de ser pensadas para pagarem a apanha e transporte da biomassa. Mas não foram! Em Espanha paga-se 159 €/MWh pela energia assim produzida, quando em Portugal se oferecem apenas 108 €. Podem acusar-me de estar a defender maior subsidiação, quando tenho vindo a criticar os subsídios; mas neste caso é para poucos MWh, uma ínfima fracção da energia de origem eólica, e os benefícios indirectos são enormes! Não se trata apenas de evitar fogos e a emissão de GEE; a apanha da biomassa dá emprego, enquanto a do vento, não! Sem falar nos prejuízos evitados pelos incêndios que deixam de haver...!

Mais grave ainda do que passa com o desleixo em matéria de fogos florestais, é o desleixo em matéria de tratamento dos lixos. Toda a gente que viaja sabe que Portugal é um país sujo. Todos os turistas que nos visitam o afirmam, também. E por isso não admira que em Portugal o lixo seja responsável pelo espantoso valor de 8,5% dos GEE, sobretudo por causa do metano, que é 20 vezes mais nocivo que o CO2. Trata-se de um valor típico de países do 3º Mundo onde, mais uma vez, se encontra o principal crescimento desta forma de poluição atmosférica - sobretudo por via dos aterros.

O IPCC considera sensatamente que a melhor forma de reduzir a contribuição do lixo para os GEE é a reciclagem, que é também uma actividade economicamente rentável e geradora de empregos.

Porém, e no que respeita ao problema maior dos aterros e do metano que emitem, a co-incineração do lixo reduz a massa a enterrar deste para 1/4 e a àrea dos aterros para 1/10, reduzindo na mesma proporção os GEE emitidos. Embora emita CO2, a incineração queima o metano, que é muito pior que o CO2, e pode também ser utilizada para a produção de energia eléctrica, tal como a biomassa das florestas.

Em Portugal os ecologistas utópicos têm movido uma oposição encarniçada à co-incineração, sendo de reconhecer a correcta tendência do Governo nesta matéria. Porém, o progresso tem sido lento, e deve fazer parte de uma estratégia multi-facetada que contemple a reciclagem e o devido esclarecimento público.

Os relatórios do IPCC mostram que uma política de tratamento dos lixos correcta com a devida implantação da co-incineração, como é feita por exemplo na Alemanha e no Japão, pode reduzir muitissimo os GEE emitidos. A directiva europeia 1999/31/EC estipulou que até 2016 os Estados membros deverão reduzir em 2/3 (relativamente a 1995) o lixo orgânico aterrado. Não conheço medidas do Governo que tenham em conta tal objectivo.

Porém, a redução em 2/3 dos GEE emitidos em Portugal pelo lixo corresponderá à redução em 6% do total de GEE emitidos, o equivalente a 2/7 dos GEE emitidos pelo parque automóvel.

Pelo que, a simples limpeza do país (das florestas e do restante lixo ) poderá reduzir os gases de efeito de estufa emitidos em Portugal em quase metade do que emite todo o parque automóvel. De certeza que é muito mais sensato e produtivo limpar o país do que delirar com a rápida substituição do nosso parque automóvel por viaturas eléctricas!

sábado, agosto 01, 2009

Incêndios de Verão, lixeiras e carros eléctricos.

Como já mencionei aqui, a percentagem de gases causadores de "efeito de estuda" que são emitidos pelos fogos florestais e pela agricultura "descarbonizante" é responsável por entre 1/3 a metade do total de gases emitidos pela Humanidade, segundo o IPPC (Painel Climático Inter-governamental). A dúvida sobre o valor exacto resulta da dificuldade que ainda existe na contabilização desse efeito, que tem uma margem de erro de 50%.
A maioria destes agentes das alterações climáticas provêem do 3º Mundo mas, em Portugal, os especialistas em ambiente estimam em de 10 a 30% a sua parcela - 20% sendo o valor mais provável.
A parcela destas emissões que é proveniente dos incêndios de Verão é algo que está mal estudado em Portugal, e algumas estranhas manipulações de dados não contribuem para a credibilidade das estimativas existentes. No entanto, e conforme os anos, alguns estudos pontuais sérios mostram que estes incêndios contribuem com de 5 a 10% para o total.

Ora os automóveis contribuiem, em Portugal, com cerca de 20% da emissão de gases.

Pelo que resolver o problema dos incêndios de Verão em Portugal seria equivalente, em termos de CO2 não-emitido, a substituir quase metade de toda a frota automóvel actual por carros eléctricos...

Se, além disso, se acabasse com as lixeiras portuguesas e o metano que emitem (20 vezes mais forte que o CO2 a gerar efeito de estufa), e que são responsáveis por mais 8,5% das emissões nacionais, ter-se-ia o equivalente à substituição da outra metade da frota automóvel por carros eléctricos!
Nota: os valores numéricos aqui indicados foram afinados num post subsequente, depois de ter consultado mais dados. A conclusão dessa afinação é que, em média, o tratamento do lixo e a prevenção dos fogos florestais não equivaleria à eliminação da totalidade das emissões do parque automóvel existente, mas apenas a cerca de metade. Mesmo assim...

Contra o pós-modernismo energético: II - esclarecimento de posições

Para que não me interpretem mal e não pensem que tenho interesse em fazer propaganda partidária, esclareço que embora o actual Governo seja o responsável pelas actuais opções, ainda não vi ninguém da oposição levantar a mais pequena voz contra a actual política energética nem a política tecnológica do Governo, com a excepção solitária e incansável de Mira Amaral que, no entanto e tanto quanto sei, também já não representa nenhuma posição partidária. Aliás e como já referi, aparentemente toda a classe política vê com benevolência o ecologismo utópico dominante!...
Penso ser também oportuno recordar que não ponho em causa a relação entre emissão de CO2 e alterações climáticas, nem a competitividade económica, sob certas condições, da energia eléctrica de origem eólica!
Tenciono, aliás, voltar a esse tema (o das condições em que a energia eólica é competitiva), mas o desastre é que a sua proliferação em Portugal foi, e é, altamente subsidiada, sem que se tenha acautelado a prévia aquisição do respectivo know-how e a criação de uma indústria nacional com tecnologia própria (e portanto sustentável) de turbinas, produtora de grande valor acrescentado, de empregos e de exportações, como fizeram todos os outros países que apostaram fortemente nesta fonte de energia! De um ponto de vista do interesse nacional tal subsidiação é um perfeito desastre e uma autêntica anedota perante os outros países, exceptuando alguns ecotópicos que nos vêm como heróis da salvação do planeta enquanto os nossos importadores esfregam as mãos de contentamento!
A questão é simples: que subsidiam os países que apostaram no eólico antes de nós e que imitámos, como a Alemanha, a Dinamarca ou a Espanha? A salvação do planeta? Não! Subsidiam as respectivas indústrias de fabricação de turbinas, que em todos esses países exportam mais de metade da sua produção e que empregam muita gente!!!
Importa sublinhar que a única fonte de energia eléctrica cuja tecnologia em tempos dominámos era a hidroeléctrica, fruto da única vez em que foi formulada e executada uma estratégia nacional correcta em matéria de aprovisionamento de energia!
Porém, quando há 15 anos o "filósofo" Manuel Carrilho do PS se insurgiu no Parlamento contra o "barbarismo" da construção da barragem de Foz Coa, precipitou-se o grande desastre energético nacional. O projecto e construção das barragens, uma coisa que sabíamos fazer e que ocupava efectivamente mão-de-obra e matérias-primas nacionais, foi suspensa e trocada pouco depois pela estratégia eólica, em que a única incorporação nacional é o negócios dos terrenos e das autorizações para a sua construção! E isto quando, se havia tecnologia energética com condições para virmos a dominar pela sua relativa simplicidade, era precisamente a eólica, dado que quanto a centrais térmicas ninguém bom da cabeça pode imaginar que venhamos algum dia a riscar alguma coisa!
Mas como desenvolver tal know-how e respectiva capacidade industrial é coisa para levar de 5 a 10 anos, isso teria exigido visão e capacidade política, coisa de que a nossa classe dirigente parece carecer como se fosse africana (sem ofensa para os africanos, entre os quais aliás me incluo)!
Ora, entretanto e nestes 15 anos, a engenharia nacional de barragens, que já em 95 se ressentia de haver poucos projectos, praticamente desapareceu! Os especialistas reformaram-se ou mudaram de ramo (vi com os meus olhos isso a acontecer numa das empreas especialistas) e muita da indústria nacional de componentes foi abandonada: na mesma altura em 94 em que Carrilho atacava Foz Coa, ainda antes de Guterres ganhar as eleições, a Sorefame que fabricava as comportas das hidroeléctricas era comprada pela ABB, por exemplo.
As barragens têm ainda um outro enorme valor: o de constituirem reservas de água, uma provisão que há-de ser cada vez mais imprescindível à medida que a água se tornar o recurso do planeta mais disputado como algumas secas que temos tido em anos recentes já nos permitem antever.
Só agora é que o actual Governo, de repente, decidiu a construção de dez barragens, mas 2 delas ninguém as quiz e 2/3 das restantes deu-as aos espanhóis, em particular à Iberdrola de Pina Moura!
Ora se, em vez disto, os Governos pós-95 tivessem decidido fazer as 10 barragens mas há 15 anos e, ao mesmo tempo, tivessem então apostado seriamente na I&D nacional (predominantemente em empresas) em tecnologia eólica, poderíamos estar agora a lançar em força a sua produção com know-how nacional, e a sua subsidiação ajudaria de facto alguma actividade produtiva sustentável! Seria tarde para entrarmos no eólico? Não! Os indianos também apanharam o comboio com a Suzlon, os EUA garantiram atempadamente a tecnologia espiando-a aos alemães, e os chineses para isso se preparam também!...
Mas nós entrámos foi em delírio com o automóvel eléctrico, o solar e outras fantasias congéneres! Até que o dinheiro para os subsídios se acabe e seja preciso começar a pensar em produzir alguma coisa!...

sexta-feira, julho 31, 2009

Contra o pós-modernismo energético: I - as ficções da microgeração e da gestão da procura

Duas das visões mais fantásticas que os ecologistas utópicos, ou ecotópicos, pretendem materializar, são a da chamada "microgeração" e a da "gestão da procura".
Segundo esta visão, as redes eléctricas interligadas com controlos centralisados são uma velharia em vias de desaparecimento com o advento das energias renováveis e, com estas, vem a "democratização" da produção para cada consumidor.
A visão apregoada pelos ecotópicos é, porém, ainda mais ousada: no futuro, um futuro já muito próximo, segundo eles, o consumidor de energia será não só também um produtor, como um consumidor adaptável.
Esta visão resulta, por sua vez, de os ecotópicos preverem cheios de felicidade que em breve a garantia actual de termos sempre energia eléctrica à disposição quando ligamos o interruptor irá desaparecer.
Mais exactamente: poderá não desaparecer, mas ficará imensamente cara a certas horas de antemão imprevisíveis, o que será registado pelos "contadores espertinhos" ("smart meters") que nos irão montar nas casas e que ajustarão as tarifas a cada momento em função de haver muita ou pouca energia na rede eléctrica para usarmos, e a que chamam "smart grids". Ou seja, a energia será tão cara a certas horas e dias que os que não puderem pagar terão de passar sem ela. Chamam a isso "gestão da procura".
Porque prevêm os ecotópicos que isso vá suceder, e porque o desejam?
Prevêm-no porque o futuro que eles nos desejam baseia-se no abandono da sociedade industrial que nos trouxe a energia que nos habituámos a usar com todo o conforto, inteiramente substituída por energias renováveis que, como é evidente, dependem das condições ambientais.
Energia eólica só há quando o vento sopra com alguma intensidade; sol só há de dia e com céu limpo; àgua caudalosa nos rios só há se tiver chovido e se os cursos de água não tiverem sido transvasado para fins agrícolas pelos espanhóis; e energia geotérmica só há nos Açores!
Todas as outras fontes de energia, as centrais a carvão barato e até as a gás de ciclo combinado, para já não falar do diabólico nuclear, serão banidas por não serem ecológicas.
Por conseguinte, haverá horas do dia (especialmente à noite) e dias do ano (especialmente no Verão) em que não haverá energia que chegue para todos, e por isso os ecotópicos propõem-nos para então a "democratização" da produção e a "gestão da procura".
Que produção democrática de energia prevêm eles?
A microgeração a gás, com micro-turbinas que, além de também poluirem, têm custos que até os ecotópicos reconhecem só serem acessíveis a empresas e colectividades, a venda da energia armazenada nas baterias dos nossos futuros carros eléctricos e a venda da energia produzida nos painéis solares dos telhados das nossas casas.
Quanto aos carros, já vos falei do que esperam de nós e que já foi afirmado na TV: que deixemos os carros eléctricos em casa a descarregar as baterias para a rede e que vamos de transporte público levar os filhos à escola e para o emprego! Nunca acontecerá tal coisa, evidentemente!
Quanto à energia eléctrica com origem nos painéis solares dos telhados, também não acontecerá nos próximos 10 anos nem provavelmente nos próximos 30, pelos motivos que vos exporei num próximo post! Estou a excluir, claro, pequenas experiências promovidas pela subsidiação estatal, que obviamente seria insustentável se de facto toda a gente aderisse...
Mas, além da prometida "microprodução" de energia que, como é evidente, não vai acontecer, os ecotópicos têm outra proposta "complementar", como já referi: a da "gestão da procura".
Candidamente, dizem-nos que se as tarifas subirem muito por falta de energia na rede, isso nos levará a desviar os consumos para as outras horas e dias em que, pelo contrário, haja excesso. Ou seja, que desligaremos os frigoríficos e o ar condicionado no pino do calor de Verão e os ligaremos no Inverno; que apagaremos as luzes à noite e que as ligaremos de manhã; e que aproveitaremos as férias de Natal para deixar as máquinas de lavar a trabalhar mas que em certos fins de semana nos convirá deixar a louça acumular-se no lavatório...
Obviamente, isto também não vai acontecer!
O que vai acontecer é que nas tais horas em que houver excesso de energia eólica e os rios estiverem cheios e não houver consumo, terão de desligar as turbinas. E, por outro lado, quando houver falta de energia a certas horas e em certos dias, só os ricos a poderão pagar e todos os outros terão de passar sem ela e, com o tempo, voltar a viver como na era pré-industrial. E é com este dinheiro extra ganho nas "horas de ponta de consumo" que compensarão a desligação das turbinas nas outras horas e dias, em que houver produção em excesso.
E é esse futuro feliz, "green", que de facto os ecologistas utópicos nos pretendem impingir como se fosse moderno e progressista!
Andam tão entusiasmados com esta ideologia que começaram o habitual processo de reescrever a História. Na wikipedia, por exemplo e a propósito das smart grids, pode ler-se que as redes eléctricas são como são, centralizadas, por isso resultar da "visão do sec. XX" quando, na verdade, as primeiras redes eléctricas do sec. XIX e inícios do XX é que eram dispersas como as que agora nos pretendem impingir como progresso, e a unificação das redes foi um grande avanço que entre nós até veio já tarde, só na segunda metade do sec. XX!

terça-feira, julho 28, 2009

O que impede as empresas de efectivamente investirem no desenvolvimento de produtos transaccionáveis?

Um leitor deste blog fez esta pergunta, cuja resposta valeria, se a soubesse, "one-million dollars"...

Penso que a questão mereceria por si só pelo menos uma tese de doutoramento (em Sociologia) e provavelmente uma ampla linha de Investigação. Mas, nos muitos anos que tenho de andar por cá preocupado com o assunto, resultaram-me algumas peças do puzle que vou mostrar-vos.

Muito resumidamente sintetizaria a resposta que tenho, assim: o que impede as empresas portuguesas de desenvolverem produtos transaccionáveis inovadores é... o peso da História!

Poderia divagar muito para trás, até ao rei D. Manuel e à expulsão dos judeus, ou mesmo mais longe... poderia recordar D. João III e a chegada da Inquisição na precisa altura em que arrancava o Renascimento, poderia recomendar-vos a leitura de "Portugal no antigo regime" de Vitorino Magalhães Godinho, ou de Eça de Queiroz, ou de Ramalho Ortigão... mas não vou tão longe.

Vou só recordar-vos uma coisa, que vi de perto há uns 30 anos.

No tempo de Salazar, não era um qualquer que abria um negócio e o geria a seu bel-prazer.
Para se poder ter um negócio era preciso alvará, e esse só era concedido se o regime tivesse a certeza que não ia provocar uma concorrência desestabilizadora ao que já havia. A Coca-cola, por exemplo, era proibida, para viabilizar a produção de cervejas nacionais...

Uma vez obtido o alvará, estava-se á vontade porque não havia nem concorrência estrangeira (os mercados eram fechados e a Espanha, coisa incrível, só tinha 3% do nosso comércio externo à data da queda do regime), nem reivindicações salariais (proibidas, bem como os Sindicatos), nem coisas técnicas por definir - os grémios regulamentavam tudo, do tamanho dos parafusos à composição das farinhas!
Como é que neste contexto se geria um negócio?

Bem, organizava-se a produção e os aprovisionamentos de matéria-prima, somavam-se os custos, adicionava-se a margem de lucro limitada por lei a 10%, e com tudo somado obtinha-se o preço de venda. E depois era só distribuir a mercadoria, porque como não havia concorrência a venda estava garantida, qualquer que fosse o preço, embora naturalmente para um mercado pequenino porque éramos muito pobres.

Mesmo que se quisesse ceder aos trabalhadores aumentando-lhes ordenados, o regime não deixava. Nas grandes greves dos anos 40 houve patrões que quiseram contemporizar com os grevistas mas o regime obrigou-os a despedi-los, e não a aumentá-los! O regime achava que isso seria um precedente que podia desencadear uma reacção em cadeia descontrolada e, se havia coisa de que o regime não gostava, era de coisas que não controlasse!

Tecnologia, também, não era preciso tê-la. Comprava-se no estrangeiro, se fosse precisa, ou com uma parceria, como nas coisas grandes, mas em geral evitando coisas que precisassem de tecnologia. A EFACEC, por exemplo, a nossa grande e única fabricante de equipamentos de energia eléctrica, foi criada a partir de uma oficina de rebobinagem de motores (que é apenas o que há nos países atrasados, como por exemplo em Angola hoje em dia) e da ACEC belga, que tinha a tecnologia, aliás por sua vez dependente da Westinghouse americana. Isto em 1948! No mesmo ano foi deixado que a Siemens se instalasse em Portugal, para haver alguma concorrência, e porque Ferreira Dias queria electrificar o país - mas essa Siemens, a grande gigante mundial a par da GE americana, fora criada na Alemanha cem anos antes, em 1848, e ao contrário da EFACEC foi criada com tecnologia própria, a partir de uma invenção do próprio Siemens, uma máquina que transformava em letras impressas o código morse do telégrafo, ou seja, que fazia telegramas!

Vejam agora o que aconteceu quando, só em 1985, Portugal aderiu ao Mercado Comum europeu e foi forçado a abrir as portas à concorrência - 10 anos depois do 25 de Abril.

Agora já não é possível começar pela produção, somar os custos e o lucro legal e assim chegar ao preço que tiver de ser. Agora as coisas passaram a ser ao contrário! Agora para criar um negócio tem de se começar pelo preço-alvo, porque este é imposto pela concorrência e se o nosso for mais caro não se vende, e depois andar para trás, até chegar a custos de produção que permitam aquele preço ou menos e ainda ter lucro - sem o que não há reinvestimento e o negócio não é sustentável!

Ou se têm ordenados muito baixos, mas agora há liberdade sindical e de emigração, ou se consegue organizar a produção melhor que a concorrência, mas ela já o sabe fazer há muito, ou se têm produtos melhores que os dela.
Mas para isto é preciso conceber esses produtos diferentes, e para tal é preciso estar de olhos postos nesse mercado mundial onde se move a concorrência há muito. E isso nunca se tinha aprendido a fazer! E entretanto a tal concorrência leva mais de cem anos de avanço em saber fazê-lo!...

A maioria dos empresários da grande indústria, pura e simplesmente desistiu. A maioria das coisas que se fabricavam com tecnologia estrangeira licenciada só fazia sentido para o mercado nacional. Nos mercados de fora quem nos dera as licenças de tecnologia tinha-as também dado a outros nesses mercados, ou eles próprios os exploravam, e não se podia ir simplesmente competir lá fora com empresas que tinham as mesmas licenças tecnológicas. E por outro lado agora o nosso mercado estava aberto à concorrência de produtos com outras tecnologias que não dominávamos. Por isso muitos desistiram e venderam as fábricas ao estrangeiro logo que puderam.

Mas houve quem resistisse.
Na EFACEC, por exemplo, onde sempre se tentara perceber como eram feitos os equipamentos fabricados sob licença estrangeira, delineou-se uma estratégia. Começar uma nova área de negócios, na electrónica de energia, que complementasse os produtos tradicionais e explorasse os seus mercados, até porque nessa nova área de negócios não se dependia de licenças estrangeiras. E ancorar os novos produtos nos antigos, comercialmente, e tentar manter alguns destes com know-how próprio. E assim foi. Graças a um único homem invulgar que por lá havia e que depois criou uma escola de atitudes e auto-confiança, o Eng.º Renato Morgado!
A história destes 25 anos passados desde aí não tem sido das mais animadoras. A EFACEC já deixou de fabricar muita coisa, por não conseguir aguentar a concorrência internacional. Tem também sido lenta a aprender a mexer-se nos mercados internacionais. Mas ainda aí está, e é do melhor que temos!
Como poderia ser de outra forma?
Quem souber, ganha one-million dollars!... :-)

Contra o pós-modernismo energético: Manifesto anti-ecotópico

Uma corrente ideológica domina hoje em Portugal as estratégicas opções energéticas do país: o ecologismo utópico, ou ecotopia!

A ecotopia fantasia um futuro romântico que combina a vida frugal e saudável com a magia tecnológica.
A ecotopia visiona um quotidiano bucólico, cheio de pastos verdes com ovelhinhas "biológicas" e painéis fotovoltaicos nos telhados das casas rurais, acolhedoras e floridas.
A ecotopia imagina multidões a deslocarem-se calmamente de bicicleta pelas ruas das cidades coloridas a caminho dos escritórios.
A ecotopia devaneia com as paredes das suas futuras casas rurais decoradas com gravuras de torres eólicas em horizontes verdes, muito verdes e soalheiros.
Na ecotopia, não haverá engarrafamentos de automóveis, porque a magia tecnológica e a reformatação do homem novo terão abolido a necessidade de deslocações de automóvel.
Na ecotopia não haverá doenças, porque "a vida saudável" eliminará a poluição, os pesticidas e os adubos que as causam.
A ecotopia tem uma utopia: um mundo ecológico. Verde. Muito verde e feliz.

Os ecotópicos querem-nos cobrir os telhados das casas com painéis solares, mesmo que a electricidade daí resultante seja 10 vezes mais cara que a que actualmente pagamos e os painéis deixem de funcionar ao fim de 3 anos.
Para os ecotópicos só haverá energias renováveis: sol, vento e água.
Os ecotópicos querem-nos fazer comprar carros eléctricos para depois os deixarmos em casa a carregar e a descarregar as baterias para estabilizar a energia eléctrica que só haverá quando houver sol, ou vento, ou água nos rios.
Os ecotópicos depois vendem-nos as baterias desses carros eléctricos que teremos de mudar de 3 em 3 anos, mas retomam as baterias velhas para reciclar.
Os ecotópicos vão proibir a circulação de carros nas cidades, pelo menos a quem não possa pagar os altos preços dos parquímetros, por causa das alterações climáticas.
Os ecotópicos querem-nos fazer levar os nossos filhos à escola de metro.
Os ecotópicos querem-nos instalar contadores de energia "smart" com tarifas variáveis a cada momento e que estarão sempre mais caras à hora em que precisarmos de ligar a máquina de lavar roupa, ou as luzes do escritório à noite, ou a torradeira de manhã. Para nos encorajar a sermos homens novos.
Os ecotópicos já mandam no Mundo Ocidental e estão a proibir que se estudem outras soluções contra a emissão de CO2, como o nuclear seguro e o carvão limpo.

Os ecotópicos são fortes e conseguiram chegar subrepticiamente ao poder. Surgiram nos anos 80 e têm a sua base principal na Alemanha, mas os herdeiros dos hippies americanos também são ecotópicos.
Todos os dias vários canais da TV nos martelam programas de propaganda ecotópica dizendo-nos que é o que já se faz "lá fora".
Os ecotópicos apresentam-se sempre com propagandistas jovens, para nos fazerem sentir que é com eles que está o futuro.

Os ecotópicos querem fazer de nós homens novos compatíveis com os amanhãs que cantam com que eles sonham.
Para nos mudar, os ecotópicos precisam de nos vigiar.
Os contadores "smart" vão saber tudo sobre os nossos hábitos caseiros de consumo energético.
E os chips que vamos ter nos carros vão permitir saber tudo sobre as nossas deslocações.
O que se vai somar ao que já sabem sobre como, onde e em quê gastamos o nosso dinheiro.
E a todas as conversas que temos ao telemóvel e que ficam gravadas durante um ano.
E quem não for ecotópico não terá direito a nada por parte do Governo.
E tudo o que se fizer dependerá da concordância do Governo.
E isso será verdadeiramente o Admirável Mundo Novo, mas em verde!

O Governo é ecotópico e tem nisso a sua melhor bandeira.
A oposição critica o Governo em muitas coisas, mas concorda que ele age bem no que diz respeito "ás energias renováveis e às tecnologias", ou seja, à ecotopia.
Marcelo Rebelo de Sousa elogia no Governo a ecotopia.
O "Compromisso Portugal" elogia no governo a ecotopia.
Até Pacheco Pereira já louvou no Governo a ecotopia.

As empresas também são todas ecotópicas, agora.
A EDP é ecotópica e tem como seu grande projecto tecnológico o que o Governo lhe mandou fazer: o Inovgrid ecotópico.
A EFACEC é ecotópica porque o Governo lhe deu a construção dos pontos de abastecimento dos ecotópicos carros elécticos.
A Novabase é ecotópica porque vai desenvolver o sistema de gestão desses pontos de abastecimento.
A Critical software também lá está e por isso é ecotópica.
Os "empresários do norte" almoçam com o ex-ministro da Ecotopia Manuel Pinho, e são todos ecotópicos também.
Por causa da Martifer e das fábricas de componentes eólicos de Viana do Castelo.
E da força que foi dada ao INESC-Porto na justificação da política ecotópica do Governo.
E de outras razões com que o Governo, ecotopicamente, escolhe a quem distribuir as receitas dos impostos que pagamos.

As Universidades também são todas ecotópicas, agora.
Há dinheiro a rodos para I&D em temas ecotópicos, como as "smart grids".
E há muitas revistas onde publicar temas ecotópicos.

E os media também são ecotópicos, ou porque estão a mando, ou porque simplesmente há muito que deixaram de ter gente conhecedora a escrever lá.

Por isso, não há uma única voz que se erga a questionar a ecotopia. Exceptuando uma curta coluna quinzenal no Expresso do cavaleiro solitário Mira Amaral...

Mas os ecotópicos não mandam e jamais mandarão na China!
Nem na Índia!
Nem na África!
E haverá sempre quem resista à ecotopia.

Este blog publicará uma série de artigos desmontando a visão ecológica utópica da tecnologia e da energia, nos próximos tempos.
Porque acredito na racionalidade da modernidade e me assumo como adversário do pensamento mágico pós-moderno que suporta a ecotopia.
E porque prezo o direito dos mais fracos à verdade e à liberdade.

segunda-feira, julho 27, 2009

I&D das empresas: um critério de aferição - patentes!

Demonstrado que está que o aumento de 115% da I&D privada em Portugal, de 2005 para 2007, resultou apenas da reformulação contabilística promovida pelo SIFIDE, o Sistema de Incentivos fiscais legislado pelo actual Governo, subsiste uma interrogação fundamental:
  • Terá o novo método de Contabilidade da I&D sido apenas uma correcção, um pôr em linha com as práticas da OCDE, como afirmou Manuel Heitor, "destapando muita I&D que se vinha fazendo" nas empresas, e neste caso há muito que Portugal não está mal no que respeita à participação das empresas no esforço em I&D?
  • Ou terá o novo método de Contabilidade apenas passado a contabilizar como I&D o que é Engenharia de concepção simples, sendo neste caso um erro crasso só possível em quem não faz ideia do que seja Engenharia real (descontando eventuais desígnios estatísticos politicamente menos honestos)?
Penso que há um critério de aferição simples para resolver este dilema: a I&D empresarial, se efectivamente visa a criação de produtos ou processos de princípios novos, traduz-se em patentes. Mesmo que nem toda origine patentes, haverá uma estreita correlação. De facto, as patentes estão para a I&D nas empresas como as comunicações científicas estão para a I&D académica, enquanto critério de produtividade!
Ora, em matéria de patentes, continuamos a produzir 1/4 per capita do que produz Espanha. Concretamente, 20 patentes por ano, contra 320 de Espanha.
E este valor está muito mais em consonância com a "antiga" Contabilidade. Infelizmente.

domingo, julho 26, 2009

Ainda o mistério do grande salto em frente da I&D das empresas: conjectura final

Hoje, na sequência do que tenho vindo a escrever aqui, no desenvolvimento do que escrevera aqui e aqui e iniciara aqui, o jornal o Pùblico on-line publicou um artigo que confirma e desenvolve tudo o que eu já tinha dito sobre este assunto!
Depois do bom trabalho jornalístico do jornal, acrescentaria apenas e para finalizar este assunto, a seguinte conjectura:

  • Entre as principais empresas industriais que entre nós fazem realmente I&D e que os investigadores conhecemos bem, além da Hovione há que assinalar que a EFACEC continua com uma boa posição (surge nas estatísticas agora integrada no Grupo Mello, sinal de que os Mello tomaram ascendência sobre a TMG nortenha na sua gestão e o que é excelente, porque este grupo lhe dá a solidez financeira de que ela carecia), mas que a SIEMENS ainda investe muito mais que a EFACEC! E investe mesmo! As centenas de "crâneos" que trabalham em Alfragide fazem-no para todo o Mundo! E a I&D da EFACEC poderia ter muito mais sucesso se a empresa conseguisse pôr fim à guerra Porto-Lisboa que a assola!...
  • Entre as empresas de Informática, o grupo Novabase do meu amigo Rogério Carapuça continua a gastar metade da despesa nacional em I&D do sector informático. Não esqueçamos que a Novabase deve a sua origem ao INESC e é, por isso, uma das (poucas) iniciativas empresariais de sucesso nascidas na Universidade - mas o Carapuça já tinha inoculado o bichinho da iniciativa empresarial na família...
  • Quanto à Banca é que estou convencido que 95% pelo menos da sua despesa de I&D é mera imputação de custos de engenharia informática simples. De qualidade, mas simples engenharia. Mais conjecturo que o BCP foi quem sempre o fez (até 2008 e desde 2001 foi ele quem liderou a despesa empresarial nacional, e não a PT inovação), sabendo-se como a ética deste Banco sempre foi muito elástica, e que o BPI e outros Bancos só se lhe juntaram em 2007 depois de verem que o próprio Governo desejava essa "contabilidade criativa", para não lhe chamar o que de facto é: uma peta!
Indagado, o meu amigo engenheiro que tem uma empresa informática que trabalha para a Banca e que conhece perfeitamente o que ela faz na matéria, opina: "O BCP na área da investigação? Não acredito. Acho que há aí uma grande confusão entre investimento na área do negócio e investimento em I&D. Com efeito eles foram pioneiros na área da banca telefónica (lembras-te do Banco7?), na área dos “call centers” (tem um centro topo de gama no site do Tagus Park) e genericamente em investimento de IT (mainframes, comunicações, sistemas de disaster recovery etc). Mas daí a considerar tais investimentos como se fossem I&D vai um passo enorme."
  • Peta essa que se generalizou nas empresas tuteladas pelo Governo.
E posto isto, duas conclusões:
  1. Na verdade e com esta "inovação" estatística, não sabemos ao certo que evolução houve de facto na I&D empresarial nacional;
  2. Esta maquilhagem estatística deve ter custado ao erário público, em receitas de IRC não cobradas, algumas dezenas de M€ por ano, desde 2006. A duplicar, a partir de 2010...

sábado, julho 25, 2009

Ninguém faz contas? Deve ser pela dificuldade com a Matemática...

As cidades do norte da Europa estão cheias disto aqui (veja o vídeo). Sendo barato, porque foi abandonado na generalidade das nossas cidades?
Será que o não usamos mais precisamente por ser "demasiado" barato?