O blog Rerum Natura chama a atenção para um estudo extensivo e prolongado feito pela Universidade de Standfor sobre o impacto do uso precoce de computadores no sucesso escolar dos jovens, medido em termos de real aprendizagem de capacidades de leitura e matemática.
Como todos os pais sabem, o impacto é negativo!
O computador serve muito mais para dispersar as crianças com jogos e comunicação ligeira, do que para fazer os trabalhos de casa. Aliás, como todos sabem, tende é a roubar-lhes tempo para os trabalhos de casa...
segunda-feira, junho 21, 2010
sexta-feira, junho 11, 2010
A relação entre os preços da electricidade, o mercado e as fontes renováveis.
O Manifesto para uma Nova Política Energética veio chamar a atenção para o sobrecusto das fontes intermitentes de energia renovável na produção da energia eléctrica, invocando dados publicados pela própria Entidade Reguladora da Energia, a ERSE.
Desde então multiplicaram-se as "explicações" que procuram, com desfaçatez, mistificar tudo ao ponto de defenderem que são as próprias renováveis que fazem baixar os preços da energia, ao baixarem os do respectivo mercado ibérico!A argumentação começou com o ataque de Vasconcelos ao Manifesto, ainda este nem fora publicado, intoxicou-se com os escritos de Miguel Barreto e Álvaro Martins e passou a ser martelada repetidamente nos media, como há um mês pela mão de Lurdes Ferreira do Público e há dias pelo ex-director do "i" num telejornal da SIC. É o grande consenso "verde" ao serviço objectivo (e em alguns casos subjectivo) do que realmente importa, os interesses instalados na subsídio-dependência energética.
É oportuno, portanto, explicar claramente como se formam os preços da electricidade, e que relação existe de facto entre as fontes renováveis e os "preços do mercado".
Como funciona, então, o comércio da electricidade?
Em primeiro lugar, os denominados "Produtores em Regime Especial" (PRE), que incluem os eólicos, a cogeração e outras produções térmicas como as de biomassa, lixo ("Resíduos Sólidos Urbanos") e biogás, as mini-hídricas e o solar, entregam tudo o que conseguem produzir às redes - à da EDP Distribuição mas também à da REN em mais de metade da energia eólica - a um preço fixo definido por Decreto-Lei: à volta de 11.5 ç/kWh em média para as térmicas (das quais as que queimam lixo são as que recebem menos), 9.5 ç/KWh para as eólicas, cerca de 8.5 ç/kWh para a mini-hídricas, 34 ç/kWh para as solares, e muito mais para a "microprodução". Quer a quantidade de energia entregue, quer os preços facturados, não dependem da procura que haja nem, portanto, têm alguma coisa a ver com a ideia de "mercado"!
Esta energia produzida pelos PRE varia entre 1/9 e mais do que a totalidade da procura, conforme a época do ano e as horas do dia mas, em média, satisfaz presentemente à volta de 30% do consumo nacional.
Depois de encaixar obrigatoriamente a energia dos PRE, o sistema satisfaz então a procura que falta com as ofertas de produção existentes, por ordem crescente dos preços pedidos. Se toda a procura já estiver satisfeita pela energia dos PRE, o valor que a procura atribui à energia que falta é, obviamente, zero, visto não ser precisa mais nenhuma! Zero que, obviamente, não é o que custou essa energia dos PRE com que se terá satisfeito toda a procura, nem é o que vai ser pago pelos consumidores por ela, mas é apenas o valor que a procura atribui à energia que falta depois de absorvida a dos PRE!...
Em geral, porém, ainda sobra procura, sobretudo no Verão e nas horas de ponta de consumo, pelo que é preciso recorrer aos "Produtores em Regime Ordinário" (os que não são PRE), e a prioridade vai para os que pedem preços menores.
Porém, nada neste "mercado" de electricidade é o que parece, como passo a explicar.Até 2003 os preços pagos aos produtores ordinários eram calculados em função dos seus custos de produção, e não pela concorrência de mercado. Esses custos incluíam a amortização dos investimentos, os custos de Operação e Manutenção que garantiam a disponibilidade das centrais mesmo que não estivessem a produzir, custos de combustível se fosse caso disso (nas termoeléctricas), e "prémios de risco" (lucros). Esses custos definiam um preço que era combinado nos denominados "Contratos de Aquisição de Energia" (CAE), firmados entre as centrais e a REN, que é responsável pela gestão técnica da rede eléctrica.
Com a preparação para a adesão ao Mercado Ibérico de Electricidade (MIBEL), em 2007, os CAE foram extintos e supostamente entrou-se numa lógica concorrencial, promotora da eficiência e da inovação. Supostamente!...
Mas, primeiro os espanhóis, e depois nós, substituímos os CAE pelos "Custos de Manutenção do Equilíbrio Contratual" (CMEC), que constituem uma fórmula que garantiu que ficava tudo praticamente na mesma para as centrais já existentes, mas com uma habilidade contabilística: essas centrais vendem aparentemente ao preço de mercado, que pode ser muito inferior aos custos de produção, mas a diferença é-lhes depois devolvida! Essa remuneração dos seus custos reais de produção não é, assim, contabilizada como custo de energia, mas é disfarçada numa rubrica contabilistíca denominada "Custos de Interesse Económico Geral" (CIEG)...
Devo dizer que a ideia dos CMEC me não parece má. Porque se de repente mudássemos a fórmula que os construtores dessas centrais tinham considerado para a retribuição do seu investimento, tendo em conta os seus elevados tempos de execução e os enormes capitais envolvidos, estaríamos a garantir a ruína das nossas infra-estruturas nacionais - sobretudo tendo em conta que foram os nossos concorrentes espanhóis quem primeiro teve essa ideia! Aliás, a partir do momento em que lógica concorrencial passou a reinar na produção de electricidade, as incertezas quanto ao futuro levaram a que só houvesse dois tipos de investimentos que interessam: os de remuneração garantida por Decreto-lei, como os dos PRE, e daí a viragem que a EDP realizou para esse sector, ela que tanto torcera o nariz ao fim do monopólio que permitiu o advento das mini-hídricas e da cogeração nos anos 80, e as centrais a gás natural de ciclo combinado que, como já em tempos expliquei, têm um custo de investimento relativo muito baixo e, por isso, remunerações desse investimento pouco sensíveis aos preços de venda conseguidos.
Bem, e que centrais das existentes estão protegidas por CMEC ou, até, ainda por CAE que foram permitidos remanescer? Das que já havia em 2007, quase TODAS! Na verdade, em regime liberalizado existem apenas as novas de ciclo combinado a gás natural do Carregado e Lares (EDP), 8 velhas e amortizadas hidroeléctricas de pequena potência, e a do Alqueva (que também é de baixa potência, apesar de grande albufeira)!
Com algum peso, portanto, só as duas a gás são relevantes, e a elas voltarei.E a quanto montam as "compensações" pela diferença entre os preços de venda no mercado e os reais custos de produção dessa larga maioria de centrais, disfarçados nos tais CAE e CMEC? Para se saber o seu montante global, basta consultar os relatórios da ERSE!
Um exercício de análise desses relatórios foi feito pela jornalista "verde" Lurdes Ferreira de O Público, em Maio passado, mas a sua intenção era demonstrar que as termoeléctricas também recebiam subsídios, de modo a absolver a subsidiação das renováveis, e nada esclareceu.O que os referidos relatórios mostram é que a ERSE contabilizou em 223,4 M€ as compensações dos CAE e CMEC a atribuir a todas as centrais por eles protegidas em 2009, e em 553 M€ o valor previsto para 2010. Essas compensações são-no relativamente ao preço médio de mercado verificado em 2009 (4.3 ç/kWh) ou esperado em 2010 (5.0 ç/kWh), mas como no fim do ano é preciso ver que preços efectivamente ocorreram, há sempre uma "compensação" que transita para o ano seguinte.
As renováveis, entretanto, requereram uma "compensação" de 95,8 M€ em 2009 e um valor previsto de 805,1 M€ para 2010, a entregar às empresas que tiveram de pagar a respectiva energia aos preços definidos por Decreto-Lei acima indicados e depois a tiveram de revender ao preço de mercado. No caso dos PRE a contabilidade complica-se porque este diferencial, que já ocorrera em anos anteriores, fora até 2010 remetido para o défice tarifário, isto é, o Governo autorizara que a sua compensação não fosse reflectida nas tarifas dos consumidores mas que também não tivesse de ser suportada pelas empresas que a tiveram de aceitar, concretamente a EDP Distribuição e a REN; e agora decidiu começar a pagar essa compensação a estas empresas, mas "em prestações", embora com juros.
Além destes mecanismos contabilísticos dos CAE e dos CMEC, existe ainda uma outra fórmula compensatória, o "diferencial de correcção de hidraulicidade" (CH), que garante que as hidroeléctricas recebem sempre mais ou menos o mesmo: se chover pouco, recebem mais para compensar, e se chover muito (como este ano), recebem menos.
Voltemos então ao "mercado" de electricidade: se quase todos os produtores recebem, afinal, um preço regulado pelo que produzem, qual é o papel dessa figura de "mercado" que obriga a tanta ginástica contabilística para que a maioria de produtores seja de facto imune à concorrência?
Para o perceber, basta ver quem é que de facto sobra e se tem de sujeitar aos preços de mercado: as novas centrais a gás natural da EDP e... o comércio luso-espanhol! Mais nada!Ora este comércio transfronteiriço é ainda limitado por mecanismos que protegem as nossas centrais dos preços espanhóis, mais baixos que os nossos em média 0,33 ç/kWh, devido à parcela nuclear da sua produção, que em Espanha custa 3/4 do preço médio da hidroeléctrica e 4/5 da a gás natural, como relatórios internos da EDP reconhecem (a figura acima é retirada de um desses relatórios da EDP).
Por tabela são também prejudicadas as novas centrais a gás natural da EDP, já que nos últimos meses, quando havia muita água nos rios e albufeiras, as velhas hidroeléctricas da EDP podiam vender a preços despreocupados porque os CMEC se encarregarão de as "compensar" por isso.Trata-se, porém e principalmente, do reflexo da queda de consumo resultante da crise económica.
Agora que chegou o Verão e as nossas albufeiras começam a estar vazias, o preço de mercado da energia já tem estado sustentadamente acima dos 4 ç/kWh, o que lá vai pagando os custos de O&M das centrais a gás mas que, garantidamente, não pagam sequer os custos do gás que devem ter comprado por grosso e agora têm que gastar, com ou sem lucro.
É por isso que a EDP e todos os negociantes é nas renováveis que apostam cada vez mais - é que aí é que o preço de venda é mesmo imune ao mercado (já que os CAE e CMEC só há nas antigas)!
E é também por isso que, como a jornalista Lurdes Ferreira notava com aparente surpresa, o preço de mercado da electricidade bem pode descer que isso não tem qualquer reflexo no que os consumidores pagam. É que, de facto, mercado de electricidade é coisa que praticamente não há!
[e a propósito: no recente debate organizado pelo Núcleo de Estudantes de Engenharia do Ambiente do Técnico, alguém desvalorizou o custo de 4.1 ç/kWh que eu ali indicara para a energia nuclear francesa como sendo "propaganda da EDF". Ora devo esclarecer que o custo que a EDF indica é de 4.4 ç/kWh, e que é o regulador francês, a ERSE lá do sítio, quem diz que a EDF exagera com vista a aumentar a tarifa e que o custo real é o que eu indiquei!...]
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terça-feira, junho 08, 2010
A Energia e o Futuro
Transcrevo no seguimento o artigo de opinião que o Prof. Clemente Pedro Nunes, co-autor como eu do Manifesto para uma Nova Política Energética, publicou no último número do Expresso em conclusão do debate ali travado entre ele e o Prof. Costa e Silva, todos nós colegas no IST.
Para benefício dos leitores do Expresso, e da opinião pública em geral, o Manifesto “Uma Nova Política Energética para Portugal” tem permitido um rico debate epistolar, revelador dos estilos e da argumentação em presença. Ficamos muito satisfeitos, porque foi também para isso que o Manifesto foi lançado.
Os epítetos que António Costa Silva utiliza no seu novo artigo de 15 de Maio de 2010 ficam com quem os utiliza, mesmo que escondido por detrás do biombo de pretensa citação de filósofo espanhol.
Mas a um outro nível, certamente mais consentâneo com os pergaminhos académicos invocados por Costa Silva, são de registar neste seu último artigo vários aspectos interessantes, alguns de clara convergência de posições com o que é defendido no manifesto. Analisemos pois a evolução registada:
1. Desde logo, a afirmação de que “temos de discutir as energias renováveis uma a uma em termos da sua maturidade tecnológica e da sua competitividade económica” só peca por não ser ainda mais abrangente: é que temos de estudar, exactamente com esta abrangência e com grande profundidade, todas as fontes de energia primária, tanto as renováveis como as não renováveis, que podem ser comercialmente utilizáveis em Portugal. É exactamente isso que o Manifesto propõe em primeiro lugar aos responsáveis pelo governo de Portugal, e à própria sociedade civil no seu conjunto. A bem da competitividade da economia portuguesa no seu todo .
2. Registe-se também com evidente apreço que Costa Silva reconhece expressamente que "a energia solar está a dar os primeiros passos em Portugal e começou mal com as centrais de Moura e Serpa” para criticar de seguida “o conceito das grandes centrais fotovoltaicas porque ele é errado, integra-se no modelo energético rígido e centralizador que temos”.
Ou seja, o autor subscreve aqui as críticas feitas pelo Manifesto à aventura das grandes centrais fotovoltaicas. Só se esquece de referir que o preço dessa louca aventura recai obrigatoriamente, por obra e graça dum Decreto-Lei, nos bolsos dos consumidores.
3. Mas já é de criticar que Costa Silva não queira teimosamente reconhecer a "total incapacidade da actual politica em reduzir a nossa dependência energética, que se manteve em redor de 83 % ao longo dos últimos dez anos “, como se afirma no Manifesto.
Como igualmente é inquestionável que a actual politica energética não conseguiu reduzir a importação do conjunto “petróleo e gás natural “, e foi por isso que o aumento entretanto registado no respectivo preço foi o principal responsável por “o saldo liquido da factura energética ter tido, a valores constantes de 1998, um aumento de 322 % nos dez anos entre 1998 e 2008 “.
É isto que está no Manifesto e é esta a verdade !
4. Também é de lamentar que o autor se contradiga a si próprio quando se recusa mais uma vez a analisar em profundidade algumas das principais energias renováveis actualmente utilizadas em Portugal, concretamente “a biomassa, biocombustíveis, a lenha e outros derivados da madeira”.
É pois Costa Silva que se recusa na prática a cumprir a sua própria proposta de estudar "todas as renováveis uma a uma em termos tecnológicos e económicos”. Pelos vistos, de biomassa, que é a mais importante energia renovável actualmente utilizada em Portugal, o autor não quer nem ouvir falar.
5. De facto a preocupação de Costa Silva está exclusivamente centrada na energia eólica. A tal ponto vai essa defesa acérrima dos “negócios decretinos” com a energia eólica que afirma expressamente no ponto 4 do seu artigo que "a energia eólica é hoje uma tecnologia madura e muito competitiva”, quando algumas linhas atrás ele próprio afirmara que “o sobrecusto das eólicas é de 340 milhões de Euros, com contratos celebrados para 15 anos”, reconhecendo também que, de acordo com os números oficiais da ERSE para o 1º trimestre do corrente ano de 2010, a energia eólica foi “paga a um preço quatro vezes acima (91 Euros/MWh contra 22,4 Euros) do preço do mercado”.
Uma verdadeira pérola da incongruência interna da própria argumentação de Costa Silva: a energia eólica é hoje muito competitiva mas acarreta um sobrecusto de 340 milhões de Euros, e é paga quatro vezes acima do preço de mercado! Melhor é impossível …
6. Costa Silva usa também uma distorção argumentativa ao afirmar que "o défice tarifário tem mais de dez parcelas diferentes“. Nada disso !
O défice tarifário é apenas a diferença aritmética entre, por um lado, o valor total que os consumidores deveriam pagar se as tarifas cobrissem todos os custos calculados pela ERSE e, por outro lado, o valor que resulta duma intervenção do governo quando impõe administrativamente tarifas mais baixas. Essa diferença é depois remetida para ser recuperada "em anos futuros“, com juros obviamente .
Quanto às “ mais de dez parcelas“, o que certamente aconteceu é que se tem confundido “défice tarifário“ com os chamados Custos de Interesse Económico Geral (CIEG) que, tal como muitos outros custos, são incorporados na tarifa e nos quais se incluem os sobrecustos da Produção em Regime Especial (PRE) , cuja parcela mais significativa corresponde exactamente à energia eólica . A propósito, será igualmente de sublinhar que em Espanha está já muito avançada uma profunda reavaliação dos pesadíssimos sobrecustos que também aí têm sido registados com o apoio político às energias solar e eólica
Concluindo: Todo este debate só reforça a necessidade e a urgência de se elaborar um Novo Plano Energético para Portugal que substitua o de 1984, exactamente como se reclama no Manifesto.
Clemente Pedro Nunes
Professor Catedrático do IST
Para benefício dos leitores do Expresso, e da opinião pública em geral, o Manifesto “Uma Nova Política Energética para Portugal” tem permitido um rico debate epistolar, revelador dos estilos e da argumentação em presença. Ficamos muito satisfeitos, porque foi também para isso que o Manifesto foi lançado.
Os epítetos que António Costa Silva utiliza no seu novo artigo de 15 de Maio de 2010 ficam com quem os utiliza, mesmo que escondido por detrás do biombo de pretensa citação de filósofo espanhol.
Mas a um outro nível, certamente mais consentâneo com os pergaminhos académicos invocados por Costa Silva, são de registar neste seu último artigo vários aspectos interessantes, alguns de clara convergência de posições com o que é defendido no manifesto. Analisemos pois a evolução registada:
1. Desde logo, a afirmação de que “temos de discutir as energias renováveis uma a uma em termos da sua maturidade tecnológica e da sua competitividade económica” só peca por não ser ainda mais abrangente: é que temos de estudar, exactamente com esta abrangência e com grande profundidade, todas as fontes de energia primária, tanto as renováveis como as não renováveis, que podem ser comercialmente utilizáveis em Portugal. É exactamente isso que o Manifesto propõe em primeiro lugar aos responsáveis pelo governo de Portugal, e à própria sociedade civil no seu conjunto. A bem da competitividade da economia portuguesa no seu todo .
2. Registe-se também com evidente apreço que Costa Silva reconhece expressamente que "a energia solar está a dar os primeiros passos em Portugal e começou mal com as centrais de Moura e Serpa” para criticar de seguida “o conceito das grandes centrais fotovoltaicas porque ele é errado, integra-se no modelo energético rígido e centralizador que temos”.
Ou seja, o autor subscreve aqui as críticas feitas pelo Manifesto à aventura das grandes centrais fotovoltaicas. Só se esquece de referir que o preço dessa louca aventura recai obrigatoriamente, por obra e graça dum Decreto-Lei, nos bolsos dos consumidores.
3. Mas já é de criticar que Costa Silva não queira teimosamente reconhecer a "total incapacidade da actual politica em reduzir a nossa dependência energética, que se manteve em redor de 83 % ao longo dos últimos dez anos “, como se afirma no Manifesto.
Como igualmente é inquestionável que a actual politica energética não conseguiu reduzir a importação do conjunto “petróleo e gás natural “, e foi por isso que o aumento entretanto registado no respectivo preço foi o principal responsável por “o saldo liquido da factura energética ter tido, a valores constantes de 1998, um aumento de 322 % nos dez anos entre 1998 e 2008 “.
É isto que está no Manifesto e é esta a verdade !
4. Também é de lamentar que o autor se contradiga a si próprio quando se recusa mais uma vez a analisar em profundidade algumas das principais energias renováveis actualmente utilizadas em Portugal, concretamente “a biomassa, biocombustíveis, a lenha e outros derivados da madeira”.
É pois Costa Silva que se recusa na prática a cumprir a sua própria proposta de estudar "todas as renováveis uma a uma em termos tecnológicos e económicos”. Pelos vistos, de biomassa, que é a mais importante energia renovável actualmente utilizada em Portugal, o autor não quer nem ouvir falar.
5. De facto a preocupação de Costa Silva está exclusivamente centrada na energia eólica. A tal ponto vai essa defesa acérrima dos “negócios decretinos” com a energia eólica que afirma expressamente no ponto 4 do seu artigo que "a energia eólica é hoje uma tecnologia madura e muito competitiva”, quando algumas linhas atrás ele próprio afirmara que “o sobrecusto das eólicas é de 340 milhões de Euros, com contratos celebrados para 15 anos”, reconhecendo também que, de acordo com os números oficiais da ERSE para o 1º trimestre do corrente ano de 2010, a energia eólica foi “paga a um preço quatro vezes acima (91 Euros/MWh contra 22,4 Euros) do preço do mercado”.
Uma verdadeira pérola da incongruência interna da própria argumentação de Costa Silva: a energia eólica é hoje muito competitiva mas acarreta um sobrecusto de 340 milhões de Euros, e é paga quatro vezes acima do preço de mercado! Melhor é impossível …
6. Costa Silva usa também uma distorção argumentativa ao afirmar que "o défice tarifário tem mais de dez parcelas diferentes“. Nada disso !
O défice tarifário é apenas a diferença aritmética entre, por um lado, o valor total que os consumidores deveriam pagar se as tarifas cobrissem todos os custos calculados pela ERSE e, por outro lado, o valor que resulta duma intervenção do governo quando impõe administrativamente tarifas mais baixas. Essa diferença é depois remetida para ser recuperada "em anos futuros“, com juros obviamente .
Quanto às “ mais de dez parcelas“, o que certamente aconteceu é que se tem confundido “défice tarifário“ com os chamados Custos de Interesse Económico Geral (CIEG) que, tal como muitos outros custos, são incorporados na tarifa e nos quais se incluem os sobrecustos da Produção em Regime Especial (PRE) , cuja parcela mais significativa corresponde exactamente à energia eólica . A propósito, será igualmente de sublinhar que em Espanha está já muito avançada uma profunda reavaliação dos pesadíssimos sobrecustos que também aí têm sido registados com o apoio político às energias solar e eólica
Concluindo: Todo este debate só reforça a necessidade e a urgência de se elaborar um Novo Plano Energético para Portugal que substitua o de 1984, exactamente como se reclama no Manifesto.
Clemente Pedro Nunes
Professor Catedrático do IST
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domingo, maio 30, 2010
A 1ª prova dos factos sobre os automóveis eléctricos: o Nissan Leaf!
Há uns tempos dei aqui notícia de um estudo feito por Professores da Universidade de Carnegie-Melon sobre os automóveis eléctricos, em que se notava que uma bateria de iões de lítio de 30 kWh, necessária para garantir uma autonomia de 100 milhas (165 km), pesaria uns 300 kg, o que requeria outro tanto de reforço da estrutura do carro e, portanto, um veículo que nunca poderia ser pequeno - o que ainda aumentaria mais o consumo. Contas feitas, e a 700 €/kWh da bateria, um automóvel desses seria sempre extremamente caro.
Entretanto, os nossos media têm-se multiplicado em propaganda mentirosa sobre isto tudo, num delírio que me faz sentir, como a Medina Carreira, estar a reviver os tempos de Goebbels. Há semanas era o Expresso que trazia uma lista de automóveis pequenos com autonomias previstas completamente delirantes, e ontem ainda era a SIC que, num daqueles programas de propaganda oriundos de Bruxelas, mostrava um carrito mais pequeno que o Smart a passear-se pela cidade e no fim a parquear numa bela vivenda com garagem e dizia que ele tinha uma autonomia de 150 km, escondendo que o filme se tratava de uma construção digital e que tal carro não existe...
Sem excepção, toda esta propaganda mostra automóveis construídos com o "paint shop pro" e outros meios digitais e que, realmente, não existem materialmente! Tanto Estaline como Goebbels teriam delirado com esta capacidade das novas tecnologias para não só "apagarem" fotografias, como para as construirem! Mas, para quem viu o Avatar, não é surpresa...
A questão que se coloca é: com tanta opinião contraditória, como saber a verdade? Como sempre: atentemos à realidade experimental, palpável! E quanto a esta aí temos o primeiro verdadeiro automóvel eléctrico comercializado: o Nissan Leaf!
Custa 30 mil € sem impostos nem subsídios e a sua bateria, de 24 kWh, pesa 200 kg. O Governo dá de subísio praticamente a isenção de IVA, ou seja, de quaisquer impostos, aos 5000 primeiros automóveis, o que obviamente não será sustentável.
Só a bateria custa uns 15 mil €, um valor muito em linha com o calculado no estudo de Carnegie-Melon e, quanto à sua duração, ainda não há, naturalmente, experiência prática, mas a regra é, nestas baterias, a perda de 20% da sua capacidade por ano. A autonomia anunciada, quando novo, é de 160 km, mas em condições ideais de utilização; em condições médias deverá andar pelos 140km - enquanto a bateria for nova!...
O carro pesa perto de 1600 kg (3500 libras, e diz quem o conduziu que "é pesado"), um peso que era previsível para poder suportar o peso da bateria e os reforços estruturais associados e, feitas as contas, gastará uns 2.6 €/100 km de electricidade - ao custo a que ela está hoje em dia. Como um híbrido gasta quiçá 2,5 vezes isso em gasolina, (mas que seria na verdade o mesmo, se a gasolina pagasse tantos impostos como a electricidade), o custo extra do carro poderá ser compensado, para os primeiros compradores, pelo baixo custo da sua condução para quem fizer muitos km por ano.
Mas, com esta autonomia, quem é que pensa fazer regularmente grandes viagens com este carro?
Quanto aos carrinhos tipo Smart, é o que diz o estudo do Carnegie-Melon: autonomias de 20 km será o que se deverá esperar! E, por isso e ainda como diz aquele estudo, faria muito mais sentido que os políticos apostassem na promoção era destes carros, mas sem mentirem - ou seja, não propagandeando micro-carros baratos como se pudessem vir a ter a autonomia do caríssimo Nissan Leaf, cujo preço, sem impostos, iguala o de um BMW!...
Entretanto, os nossos media têm-se multiplicado em propaganda mentirosa sobre isto tudo, num delírio que me faz sentir, como a Medina Carreira, estar a reviver os tempos de Goebbels. Há semanas era o Expresso que trazia uma lista de automóveis pequenos com autonomias previstas completamente delirantes, e ontem ainda era a SIC que, num daqueles programas de propaganda oriundos de Bruxelas, mostrava um carrito mais pequeno que o Smart a passear-se pela cidade e no fim a parquear numa bela vivenda com garagem e dizia que ele tinha uma autonomia de 150 km, escondendo que o filme se tratava de uma construção digital e que tal carro não existe...
Sem excepção, toda esta propaganda mostra automóveis construídos com o "paint shop pro" e outros meios digitais e que, realmente, não existem materialmente! Tanto Estaline como Goebbels teriam delirado com esta capacidade das novas tecnologias para não só "apagarem" fotografias, como para as construirem! Mas, para quem viu o Avatar, não é surpresa...
A questão que se coloca é: com tanta opinião contraditória, como saber a verdade? Como sempre: atentemos à realidade experimental, palpável! E quanto a esta aí temos o primeiro verdadeiro automóvel eléctrico comercializado: o Nissan Leaf!
Custa 30 mil € sem impostos nem subsídios e a sua bateria, de 24 kWh, pesa 200 kg. O Governo dá de subísio praticamente a isenção de IVA, ou seja, de quaisquer impostos, aos 5000 primeiros automóveis, o que obviamente não será sustentável.
Só a bateria custa uns 15 mil €, um valor muito em linha com o calculado no estudo de Carnegie-Melon e, quanto à sua duração, ainda não há, naturalmente, experiência prática, mas a regra é, nestas baterias, a perda de 20% da sua capacidade por ano. A autonomia anunciada, quando novo, é de 160 km, mas em condições ideais de utilização; em condições médias deverá andar pelos 140km - enquanto a bateria for nova!...
O carro pesa perto de 1600 kg (3500 libras, e diz quem o conduziu que "é pesado"), um peso que era previsível para poder suportar o peso da bateria e os reforços estruturais associados e, feitas as contas, gastará uns 2.6 €/100 km de electricidade - ao custo a que ela está hoje em dia. Como um híbrido gasta quiçá 2,5 vezes isso em gasolina, (mas que seria na verdade o mesmo, se a gasolina pagasse tantos impostos como a electricidade), o custo extra do carro poderá ser compensado, para os primeiros compradores, pelo baixo custo da sua condução para quem fizer muitos km por ano.
Mas, com esta autonomia, quem é que pensa fazer regularmente grandes viagens com este carro?
Quanto aos carrinhos tipo Smart, é o que diz o estudo do Carnegie-Melon: autonomias de 20 km será o que se deverá esperar! E, por isso e ainda como diz aquele estudo, faria muito mais sentido que os políticos apostassem na promoção era destes carros, mas sem mentirem - ou seja, não propagandeando micro-carros baratos como se pudessem vir a ter a autonomia do caríssimo Nissan Leaf, cujo preço, sem impostos, iguala o de um BMW!...
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sexta-feira, maio 28, 2010
Como o sobrecusto das renováveis foi metido sem dor
Na definição da factura da electricidade para 2010, a ERSE mostrava, nos seus relatórios, que o sobrecusto das renováveis que, até 2009, fora escondido do povo remetendo-o para um défice tarifário em explosão, deixava em 2010 de ser remetido para esse défice e era finalmente metido na factura.
Como ainda assim o aumento da tarifa eléctrica anunciada só subiu 3.9%, alguns críticos mais impacientes da política governamental continuaram a clamar "Défice! Défice!...", o que na verdade não corresponde à realidade pura. Em 2010, o sobrecusto previsto para as renováveis já não foi remetido para o défice.
Quer então isto dizer que afinal o sobrecusto das renováveis é pequeno e aceitável?
Não.
O que isto quer dizer é que os responsáveis pala definição da tarifa eléctrica foram espertos como ratos, e aproveitaram a queda drástica que em 2009 se verificou no custo internacional dos combustíveis fósseis para, em troca dessa descida, enfiarem o sobrecusto das renováveis na tarifa.
Pode-se então é questionar: mas se houve uma queda dos preços desses combustíveis, nos países onde tal marosca não foi feita o preço da electricidade deve ter baixado, enquanto cá subiu; ou não?
E é verdade. Aí estão os primeiros dados do Eurostat relativos a 2010 por que eu esperava. A nossa tarifa eléctrica "só" subiu 3.9% relativamente ao ano anterior, mas na restante Europa o que houve foi uma descida generalizada das tarifas. Pelo que cá a tarifa subiu "pouco" se comparado com o ano anterior, mas muito se comparada com os valores internacionais, que obviamente os portugueses não sentem. Concretamente: em termos relativos, a nossa tarifa eléctrica subiu 6%, exactamente o necessário para cobrir o sobrecusto das renováveis instaladas até agora. Até agora - porque quando vier o que o governo planeou de renováveis, será muito mais!
O pior, entretanto, vai ser em 2011, porque entretanto os preços internacionais dos combustíveis fósseis voltaram a subir. Mas provavelmente o actual Governo já cá não estará então e os seus apoiantes poderão, então, culpar o novo Governo por essas subidas.
Como ainda assim o aumento da tarifa eléctrica anunciada só subiu 3.9%, alguns críticos mais impacientes da política governamental continuaram a clamar "Défice! Défice!...", o que na verdade não corresponde à realidade pura. Em 2010, o sobrecusto previsto para as renováveis já não foi remetido para o défice.
Quer então isto dizer que afinal o sobrecusto das renováveis é pequeno e aceitável?
Não.
O que isto quer dizer é que os responsáveis pala definição da tarifa eléctrica foram espertos como ratos, e aproveitaram a queda drástica que em 2009 se verificou no custo internacional dos combustíveis fósseis para, em troca dessa descida, enfiarem o sobrecusto das renováveis na tarifa.
Pode-se então é questionar: mas se houve uma queda dos preços desses combustíveis, nos países onde tal marosca não foi feita o preço da electricidade deve ter baixado, enquanto cá subiu; ou não?
E é verdade. Aí estão os primeiros dados do Eurostat relativos a 2010 por que eu esperava. A nossa tarifa eléctrica "só" subiu 3.9% relativamente ao ano anterior, mas na restante Europa o que houve foi uma descida generalizada das tarifas. Pelo que cá a tarifa subiu "pouco" se comparado com o ano anterior, mas muito se comparada com os valores internacionais, que obviamente os portugueses não sentem. Concretamente: em termos relativos, a nossa tarifa eléctrica subiu 6%, exactamente o necessário para cobrir o sobrecusto das renováveis instaladas até agora. Até agora - porque quando vier o que o governo planeou de renováveis, será muito mais!
O pior, entretanto, vai ser em 2011, porque entretanto os preços internacionais dos combustíveis fósseis voltaram a subir. Mas provavelmente o actual Governo já cá não estará então e os seus apoiantes poderão, então, culpar o novo Governo por essas subidas.
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política energética
domingo, maio 23, 2010
Guerra ao eduquês!
Da brutal crise económica que está a chegar agora ao vivo, o pior é a desanimadora desesperança no futuro que a (des)educação da nossa juventude inspira.
Por isso é tão importante combater o eduquês. Como faz Guilherme Valente no Público de ontem e que pode ser lido aqui.
Por isso é tão importante combater o eduquês. Como faz Guilherme Valente no Público de ontem e que pode ser lido aqui.
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educação
segunda-feira, maio 03, 2010
Manifestos: contra a ecotopia e o eduquês, a mesma luta.
Uma das características do Manifesto para uma Nova Política Energética é ter concitado o apoio de personalidades de múltiplas ou nenhumas filiações partidárias.
Concitou também a crítica de inesperadas personalidades de inclinações partidárias diversificadas mas na zona do centrão, além, claro, de um ataque cerrado mas esperado dos ecotópicos.
Um dos melhores exemplos desta transversalidade partidária foi o debate entre o Eng.º Carlos Pimenta, que foi Secretário de Estado de Cavaco Silva, e de Henrique Neto, que foi deputado do PS nos anos 90. Pimentinha defendeu a política energética promovida pelo PS na última década como se tivesse sido delineada por ele próprio (e se calhar foi), enquanto o self-made man Henrique Neto a criticou como se fosse de um Partido da oposição.
O Dr-Ing Jorge Vasconcelos, que muitos supunham ter sido despedido da Presidência da ERSE por se ter oposto a uma política tarifária mentirosa, surgiu a esclarecer que afinal apoia inteiramente a política de subsidiação pública às eólicas e fotovoltaicas, mas em contrapartida sei de outros prestigiados especialistas energéticos do PS que só não assinaram o Manifesto por não terem sabido dele a tempo.
A posição do Prof. Costa e Silva foi outra surpresa, ao defender as eólicas depois de há tempos ter criticado na TV a (falta) de regulação nos petróleos, mas foi compensada pela presença do Eng.º Demétrio Alves do PCP entre os signatários do Manifesto.
Esta transversalidade partidária entre os apoiantes e os opositores do Manifesto mostra como as questões que ele levanta são muito mais fundas que as disputas de curto prazo pelo poder que move os Partidos de Governo. São, na verdade, questões de uma natureza estratégica que dividem na base de valores e de sistemas de ideias, ou ideologias.
Na essência, os apoiantes do Manifesto caracterizam-se pela valorização da Ciência e da tecnologia como factores de progresso humano, da Pátria como comunidade próxima e perene de pertença, do trabalho como condição humana, da liberdade e da responsabilidade individuais. Valores que são típicos da modernidade.
Os outros representam uma mistura de ecologismo romântico e utópico, a que tenho chamado ecotopia (um termo inventado na América), que relativiza a verdade e a liberdade, com interesses que têm todos em comum a subsídio-dependência, ou seja, a extorsão de toda a comunidade nacional através do poder de Estado.
São pós-modernos.
Ora a ideologia pós-moderna dos ecotópicos, em que se cruzam a defesa da irracionalidade e da mentira com interesses parasitas de Estado, não se manifesta apenas nas questões energéticas. Outra área onde ela está presente e talvez de forma ainda mais grave é na educação.
No programa "plano inclinado" do último sábado, Guilherme Valente, o criador da Gradiva e um dos promotores de um outro Manifesto publicado há já 8 anos, dissecou a ideologia do eduquês e mostrou onde se acantonam os seus criadores.
Tal como Guilherme Valente, descobri-o neste programa, penso que a ascensão deste tipo de ideologia tem muitas semelhanças com o início da ascensão do fascismo há quase um século. Têm em comum o mesmo ódio à modernidade, a mesma mescla de ideologia retrógrada com interesses rasteiros, a mesma oposição aos valores basilares da nossa civilização. Invocam algumas bandeiras da velha esquerda, mas o fascismo ascendente também o fazia: a do nazismo até tinha um fundo vermelho...
Mas os tempos são outros e a História nunca se repete da mesma forma. Por enquanto, a sociedade totalitária que o ovo do pós-modernismo traz em gestação é mais parecida com o Admirável Mundo Novo de Huxley do que com a Quinta dos Animais de Orwell, mas não lhe dou mais que 10 anos para que a sua verdadeira natureza se revele plenamente.
Aqui transcrevo o Manifesto para a Educação da República de Guilherme Valente, Nuno Crato, Carlos Fiolhais e outros. As nossas frentes de combate são diferentes, mas a luta é a mesma.
Todos os estudos nacionais e internacionais sobre a educação dos portugueses convergem para a conclusão incontroversa de que a República está a educar mal os seus filhos. É essa a razão fundamental por que os portugueses continuam a não ser capazes de produzir a riqueza que consomem. É ainda por essa razão que Portugal se está a afastar dos padrões civilizacionais dos países com quem decidiu partilhar um futuro comum.
Os países desenvolvidos renovaram os seus sistemas de educação e de formação profissional em pontos de viragem da sua história. Portugal não seguiu esse exemplo, nem quando descolonizou, nem quando passou a integrar a Comunidade Europeia. Em vez da intervenção profunda e coerente que então se impunha, os sucessivos governos optaram por encarar os problemas educativos à medida que surgiam, envolvendo-nos numa densa teia de interesses e irracionalidades da qual não conseguimos ainda desenvencilhar-nos.
Abriu-se a escola a um maior número de crianças, como era a obrigação dum regime democrático. Mas mesmo esse sucesso é mais aparente do que real, já que somos o país da comunidade com a maior taxa de abandono escolar. Por outro lado, os estudantes que resistem ao abandono recebem, de um modo geral, uma educação muito deficiente a preços excessivamente elevados. Isso faz com que Portugal seja hoje um dos países da União que proporcionalmente mais gasta com a educação e, ao mesmo tempo, aquele que piores resultados obtém. Assim, a melhoria das condições económicas e sociais que foi conseguida em condições bastante favoráveis corre o risco de se perder, desbaratando-se uma oportunidade que dificilmente se repetirá.
Além disso, a indevida referência à democracia na designação do sistema irracional de gestão imposto pelo Estado às escolas e, em particular, às universidades, desacreditou a verdadeira democracia, passando os cidadãos a associá-la com a ignorância, a demagogia, o egoísmo e, sobretudo, com a indisciplina e a irresponsabilidade.
Portugal vive presentemente momentos de ansiedade perante o desmoronar de grandes expectativas nacionais. Os portugueses julgaram — alimentou-se-lhes esse sonho! — que podiam aceder sem esforço aos elevados padrões civilizacionais dos países mais desenvolvidos da Europa. Ao verificar que isso não é verdade, sentem-se defraudados e cépticos.
De um modo geral, o sistema de ensino e de formação profissional não fornece aos portugueses as ferramentas intelectuais que lhes permitiriam tirar proveito das enormes oportunidades de bem-estar que as sociedades pós-industriais oferecem à humanidade e evitar os riscos a elas inerentes.
Ao integrar a União Europeia, Portugal mergulhou num grande espaço económico onde o conhecimento é o principal factor de desenvolvimento. Não sendo menos dotados do que os outros povos, podemos atingir graus de desenvolvimento equivalentes se for proporcionada educação semelhante. Podemos ser um país mais rico se estivermos dispostos a suportar o esforço intelectual intenso e prolongado que é actualmente necessário para adquirir, aplicar e criar conhecimento, muito particularmente o conhecimento científico.
Por isso, é urgente mobilizar as instituições e os cidadãos para a grande batalha por um sistema educativo que possa contribuir para o progresso da sociedade portuguesa. Em particular, é preciso mobilizar as elites, recorrendo aos portugueses formados em contextos educativos de maior exigência intelectual e profissional, que estarão certamente dispostos e motivados para dar o seu contributo ao esforço decisivo que pode tornar Portugal uma comunidade informada, qualificada e empreendedora.
Neste quadro, apelamos ao senhor Presidente da República para que mobilize para a batalha inadiável da educação as instituições e os cidadãos, o Governo e a Assembleia da República, as escolas e as associações científicas, profissionais, empresariais e sindicais.
Problemas concretos tais como os objectivos e a articulação dos vários graus de ensino, a avaliação do desempenho dos estudantes, dos professores e das escolas, o apoio aos estudantes, os currículos e a acreditação dos cursos e das instituições, a qualificação académica e profissional, a formação inicial e continuada, o acesso ao ensino superior, o financiamento e a gestão das escolas, em particular das universidades, e o impacte da escola na inovação e na produtividade têm de passar a ser encarados em conjunto, de um modo coerente.
Solicitamos ao senhor Presidente da República que utilize os meios constitucionais ao seu dispor para promover a consciência e o esforço convergente dos competentes órgãos de soberania e dos cidadãos na construção de um sistema educativo que, à semelhança do que acontece noutras sociedades, forme intelectualmente e qualifique profissionalmente os Portugueses. Para que possamos ser, finalmente, o país por que todos ansiamos.
Também este Manifesto suscitou reacções ferozes e uma polémica. O Rerum Natura recordou aqui parte dela.
Concitou também a crítica de inesperadas personalidades de inclinações partidárias diversificadas mas na zona do centrão, além, claro, de um ataque cerrado mas esperado dos ecotópicos.
Um dos melhores exemplos desta transversalidade partidária foi o debate entre o Eng.º Carlos Pimenta, que foi Secretário de Estado de Cavaco Silva, e de Henrique Neto, que foi deputado do PS nos anos 90. Pimentinha defendeu a política energética promovida pelo PS na última década como se tivesse sido delineada por ele próprio (e se calhar foi), enquanto o self-made man Henrique Neto a criticou como se fosse de um Partido da oposição.
O Dr-Ing Jorge Vasconcelos, que muitos supunham ter sido despedido da Presidência da ERSE por se ter oposto a uma política tarifária mentirosa, surgiu a esclarecer que afinal apoia inteiramente a política de subsidiação pública às eólicas e fotovoltaicas, mas em contrapartida sei de outros prestigiados especialistas energéticos do PS que só não assinaram o Manifesto por não terem sabido dele a tempo.
A posição do Prof. Costa e Silva foi outra surpresa, ao defender as eólicas depois de há tempos ter criticado na TV a (falta) de regulação nos petróleos, mas foi compensada pela presença do Eng.º Demétrio Alves do PCP entre os signatários do Manifesto.
Esta transversalidade partidária entre os apoiantes e os opositores do Manifesto mostra como as questões que ele levanta são muito mais fundas que as disputas de curto prazo pelo poder que move os Partidos de Governo. São, na verdade, questões de uma natureza estratégica que dividem na base de valores e de sistemas de ideias, ou ideologias.
Na essência, os apoiantes do Manifesto caracterizam-se pela valorização da Ciência e da tecnologia como factores de progresso humano, da Pátria como comunidade próxima e perene de pertença, do trabalho como condição humana, da liberdade e da responsabilidade individuais. Valores que são típicos da modernidade.
Os outros representam uma mistura de ecologismo romântico e utópico, a que tenho chamado ecotopia (um termo inventado na América), que relativiza a verdade e a liberdade, com interesses que têm todos em comum a subsídio-dependência, ou seja, a extorsão de toda a comunidade nacional através do poder de Estado.
São pós-modernos.
Ora a ideologia pós-moderna dos ecotópicos, em que se cruzam a defesa da irracionalidade e da mentira com interesses parasitas de Estado, não se manifesta apenas nas questões energéticas. Outra área onde ela está presente e talvez de forma ainda mais grave é na educação.
No programa "plano inclinado" do último sábado, Guilherme Valente, o criador da Gradiva e um dos promotores de um outro Manifesto publicado há já 8 anos, dissecou a ideologia do eduquês e mostrou onde se acantonam os seus criadores.
Tal como Guilherme Valente, descobri-o neste programa, penso que a ascensão deste tipo de ideologia tem muitas semelhanças com o início da ascensão do fascismo há quase um século. Têm em comum o mesmo ódio à modernidade, a mesma mescla de ideologia retrógrada com interesses rasteiros, a mesma oposição aos valores basilares da nossa civilização. Invocam algumas bandeiras da velha esquerda, mas o fascismo ascendente também o fazia: a do nazismo até tinha um fundo vermelho...
Mas os tempos são outros e a História nunca se repete da mesma forma. Por enquanto, a sociedade totalitária que o ovo do pós-modernismo traz em gestação é mais parecida com o Admirável Mundo Novo de Huxley do que com a Quinta dos Animais de Orwell, mas não lhe dou mais que 10 anos para que a sua verdadeira natureza se revele plenamente.
Aqui transcrevo o Manifesto para a Educação da República de Guilherme Valente, Nuno Crato, Carlos Fiolhais e outros. As nossas frentes de combate são diferentes, mas a luta é a mesma.
MANIFESTO PARA A EDUCAÇÃO DA REPÚLICA
Todos os estudos nacionais e internacionais sobre a educação dos portugueses convergem para a conclusão incontroversa de que a República está a educar mal os seus filhos. É essa a razão fundamental por que os portugueses continuam a não ser capazes de produzir a riqueza que consomem. É ainda por essa razão que Portugal se está a afastar dos padrões civilizacionais dos países com quem decidiu partilhar um futuro comum.
Os países desenvolvidos renovaram os seus sistemas de educação e de formação profissional em pontos de viragem da sua história. Portugal não seguiu esse exemplo, nem quando descolonizou, nem quando passou a integrar a Comunidade Europeia. Em vez da intervenção profunda e coerente que então se impunha, os sucessivos governos optaram por encarar os problemas educativos à medida que surgiam, envolvendo-nos numa densa teia de interesses e irracionalidades da qual não conseguimos ainda desenvencilhar-nos.
Abriu-se a escola a um maior número de crianças, como era a obrigação dum regime democrático. Mas mesmo esse sucesso é mais aparente do que real, já que somos o país da comunidade com a maior taxa de abandono escolar. Por outro lado, os estudantes que resistem ao abandono recebem, de um modo geral, uma educação muito deficiente a preços excessivamente elevados. Isso faz com que Portugal seja hoje um dos países da União que proporcionalmente mais gasta com a educação e, ao mesmo tempo, aquele que piores resultados obtém. Assim, a melhoria das condições económicas e sociais que foi conseguida em condições bastante favoráveis corre o risco de se perder, desbaratando-se uma oportunidade que dificilmente se repetirá.
Além disso, a indevida referência à democracia na designação do sistema irracional de gestão imposto pelo Estado às escolas e, em particular, às universidades, desacreditou a verdadeira democracia, passando os cidadãos a associá-la com a ignorância, a demagogia, o egoísmo e, sobretudo, com a indisciplina e a irresponsabilidade.
Portugal vive presentemente momentos de ansiedade perante o desmoronar de grandes expectativas nacionais. Os portugueses julgaram — alimentou-se-lhes esse sonho! — que podiam aceder sem esforço aos elevados padrões civilizacionais dos países mais desenvolvidos da Europa. Ao verificar que isso não é verdade, sentem-se defraudados e cépticos.
De um modo geral, o sistema de ensino e de formação profissional não fornece aos portugueses as ferramentas intelectuais que lhes permitiriam tirar proveito das enormes oportunidades de bem-estar que as sociedades pós-industriais oferecem à humanidade e evitar os riscos a elas inerentes.
Ao integrar a União Europeia, Portugal mergulhou num grande espaço económico onde o conhecimento é o principal factor de desenvolvimento. Não sendo menos dotados do que os outros povos, podemos atingir graus de desenvolvimento equivalentes se for proporcionada educação semelhante. Podemos ser um país mais rico se estivermos dispostos a suportar o esforço intelectual intenso e prolongado que é actualmente necessário para adquirir, aplicar e criar conhecimento, muito particularmente o conhecimento científico.
Por isso, é urgente mobilizar as instituições e os cidadãos para a grande batalha por um sistema educativo que possa contribuir para o progresso da sociedade portuguesa. Em particular, é preciso mobilizar as elites, recorrendo aos portugueses formados em contextos educativos de maior exigência intelectual e profissional, que estarão certamente dispostos e motivados para dar o seu contributo ao esforço decisivo que pode tornar Portugal uma comunidade informada, qualificada e empreendedora.
Neste quadro, apelamos ao senhor Presidente da República para que mobilize para a batalha inadiável da educação as instituições e os cidadãos, o Governo e a Assembleia da República, as escolas e as associações científicas, profissionais, empresariais e sindicais.
Problemas concretos tais como os objectivos e a articulação dos vários graus de ensino, a avaliação do desempenho dos estudantes, dos professores e das escolas, o apoio aos estudantes, os currículos e a acreditação dos cursos e das instituições, a qualificação académica e profissional, a formação inicial e continuada, o acesso ao ensino superior, o financiamento e a gestão das escolas, em particular das universidades, e o impacte da escola na inovação e na produtividade têm de passar a ser encarados em conjunto, de um modo coerente.
Solicitamos ao senhor Presidente da República que utilize os meios constitucionais ao seu dispor para promover a consciência e o esforço convergente dos competentes órgãos de soberania e dos cidadãos na construção de um sistema educativo que, à semelhança do que acontece noutras sociedades, forme intelectualmente e qualifique profissionalmente os Portugueses. Para que possamos ser, finalmente, o país por que todos ansiamos.
Também este Manifesto suscitou reacções ferozes e uma polémica. O Rerum Natura recordou aqui parte dela.
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sábado, maio 01, 2010
Um magnífico troco dado ao Prof. Costa e Silva
O Professor Costa e Silva do IST, distinto especialista em petróleos e Administrador da PARTEX e que já aqui citei pela explicação que deu à actual alta de preços do petróleo, (resultante da especulação e não de algum esgotamento das reservas mundiais), decidiu cascar no Manifesto para uma nova política energértica e aproveitar a página inteira que o Pensamento ùnico lhe concedeu no Expresso do passado dia 17 para o efeito.
O ainda mais distinto Professor do IST, experiente Administrador de indústrias e meu estimado co-autor do Manifesto, Clemente Pedro Nunes, publicou no Expresso do 1º de Maio a resposta a Costa e Silva. Aqui a transcrevo, pela sua magnificiência, na íntegra.
O Manifesto “Uma Nova Política Energética para Portugal” tem provocado uma salutar reacção de variados quadrantes.
Como um dos 36 subscritores, só me tenho a felicitar por isso.
Por exemplo, António Costa e Silva, ilustre especialista de questões petrolíferas, revela no seu artigo publicado no Expresso no passado dia 17 de Abril de 2010 uma notável apetência pela defesa da protecção política aos investimentos nas energias eólicas e fotovoltaicas.
Aceita-se perfeitamente dado o seu interesse nas energias eólicas.
De acordo com as regras de diversificação de portfolio e de gestão de oportunidades, ninguém pode levar a mal que se utilizem as benesses que o legislador concede ao dar incentivos excessivos para investir em energias eólicas e fotovoltaicas. Mesmo que esses excessos de incentivos sejam à custa das famílias e das empresas de Portugal!
E o que está em causa nesta difícil encruzilhada que se nos depara, é a criação duma base energética que assegure a viabilidade económica de Portugal, e foi por isso que o Manifesto foi lançado.
Mas para melhor esclarecimento dos leitores do Expresso analisemos ponto por ponto as críticas que constam do artigo.
1. Falta de Rigor
Ao contrário do que se insinua, o próprio artigo confirma o absoluto rigor da afirmação do Manifesto de “que em 2008, último ano de que existem dados publicados pela DGEG, o saldo líquido da factura energética portuguesa atingiu o valor de 8.219 milhões de euros, ao passo que em 1998 não ultrapassara os 1.464 milhões”.
Não podendo beliscar minimamente a afirmação produzida, o artigo entra por divagações pseudo-explicativas desse facto. E o que é estranho é que quem invoca uma tão grande “exegese de rigor” inicie essas explicações dos números apresentados no Manifesto com a afirmação de que o petróleo representou em 2008 “75% do valor” do saldo líquido da factura energética portuguesa quando o número correcto, de acordo com os dados da DGEG, é de apenas 63,8%; é uma distorção matemática significativa.
Mas, mais importante que isso, a redução indicada na importação oficial de crude tem a ver com o facto de, como é bem conhecido, a fonte de energia primária que mais aumentou entre 1998 e 2008 foi o gás natural, que nesse período substituiu derivados do petróleo. E esta é não só um hidrocarboneto de origem fóssil, como é também importado na sua totalidade, exactamente como o petróleo.
Quanto ao contributo das “novas” energias renováveis, que são aquelas que o artigo tanto quer defender, o Manifesto responde directamente à pergunta formulada: em 2008 o total do conjunto de solar, fotovoltaica e geotérmica representou apenas 2,11% do total do consumo das fontes de energia primárias em Portugal. E infelizmente a dependência energética de Portugal em termos de fontes de energia primária manteve-se em cerca de 83% desde 1998 até 2008.
Isto apesar dos milhares de milhões de euros de apoios decretados pelo Estado a favor dos investimentos nestas energias, à custa das famílias e das empresas de Portugal!
2. Falta de Enquadramento
A prioridade que deve ser dada à política energética do país, é que a base energética deve promover a competitividade económica de Portugal, em vez de ser posta ao serviço de negócios que só existem porque são feitos à sombra de Decretos Lei que os protegem desmesuradamente. Aquilo que por isso alguns já designaram por “capitalismo decretino”.
É este o enquadramento base do Manifesto, e estamos certos que no fundo António Costa e Silva até concorda com ele.
3. O preconceito contra as energias renováveis
As duas fontes de energias primárias endógenas mais utilizadas em Portugal em 2008 foram a biomassa e a hidroeléctrica e ambas são renováveis. Curiosamente o artigo nada diz sobre elas. É uma omissão, absolutamente incompreensível por quem se diz tão grande defensor das energias renováveis. Por exemplo, relativamente ao aproveitamento energético da biomassa em Portugal podia e devia em termos relativos ter-se ido muito mais longe no apoio concedido, face ao que se passa com a energia eólica, e sobretudo com a energia fotovoltaica e a microgeração.
É que as centrais térmicas a biomassa, para além de utilizarem uma matéria prima totalmente nacional, podem contribuir muito para a estabilização económica e social de vastas regiões do interior do país, viabilizando também economicamente a limpeza das florestas e assim combater preventivamente os fogos florestais.
Acresce que são uma fonte de energia renovável perfeitamente programável, em que a produção pode ser directamente ajustada à procura.
Exactamente ao contrário do que se passa com a eólica e a fotovoltaica. Aqui a respectiva intermitência obriga, na melhor das hipóteses, a um armazenamento forçado por bombagem da água em albufeiras a montante, e a sua posterior turbinagem, tudo isto agravando substancialmente o pesado sobrecusto que as eólicas acarretam. Pagar-se 344 euros/MWh pela energia fotovoltaica, em centrais construídas à base de painéis chineses importados, e 587 euros/MWh para a microgeração doméstica quando se paga apenas 107 Euros por cada MWh produzido em centrais termoeléctricas que utilizam biomassa produzida em Portugal, é um total absurdo económico, tecnológico e estratégico.
Também não há nenhuma referência no artigo ao facto da produção de biocombustíveis, nomeadamente o biodiesel, não ter ainda qualquer quadro legal para o respectivo nível de isenção de ISP a partir de 1 de Janeiro de 2011. E estamos já em finais de Abril de 2010.
Ou seja, enquanto as energias eólicas têm um preço fixo estabelecido por 15 anos, um produtor de biodiesel não sabe qual o respectivo enquadramento fiscal que se vai aplicar daqui a apenas 8 meses, sendo que neste caso, e ao contrário das eólicas, o preço de venda do biodiesel está directamente indexado ao preço do mercado alternativo, o gasóleo, sendo apenas legislado o eventual nível de isenção do ISP. E note-se que os biocombustíveis podem ajudar a resolver o problema energético ligado aos transportes que, como o próprio artigo refere, é um problema sério e profundo.
Também não se entende porque é que em Portugal a lenha, e os outros derivados da madeira utilizados como combustíveis domésticos estão sujeitos a uma taxa de IVA de 20%, sendo fontes de energia renovável, de produção nacional, e contribuindo bastante para a redução das emissões líquidas de CO2, enquanto o gás natural que é um hidrocarboneto fóssil, que produz CO2 e é todo importado, beneficia de taxa reduzida de 5% de IVA.
Igualmente no artigo nada diz sobre esta flagrante distorção que muito prejudica precisamente a energia renovável que é actualmente a mais utilizada em Portugal.
É exactamente porque um verdadeiro plano energético tem que entrar em linha de conta com todas as fontes de energia primária disponíveis, quer sejam renováveis ou não, que o Manifesto foi feito.
4. Visão Estática da Tecnologia, Preços e Subsidiação
A gestão da Inovação Tecnológica é de facto um tema apaixonante para quem dedicou quase quarenta anos da sua carreira académica e industrial à promoção da inovação tecnológica economicamente competitiva.
Costa e Silva não ignora certamente que as três fases básicas dos processos de inovação e desenvolvimento tecnológico: a investigação laboratorial, as instalações piloto, e as unidades comerciais.
Como não ignora também que uma unidade de demonstração piloto deve ter “a dimensão mínima para que dela se possam extrair resultados tecnologicamente relevantes”.
Ora em Portugal, o que se tem passado, relativamente às “renováveis da moda”, é construírem-se instalações à escala comercial para nelas se fazerem ensaios que deveriam ter sido feitos primeiro à escala laboratorial ou de piloto. E o preço desse risco e desse desperdício é transferido na sua totalidade, por força dum Decreto Lei, para o cidadão consumidor.
Fazer uma central fotovoltaica de 50 MW e garantir-lhe um preço de 344 Euros/MWh quer essa electricidade seja necessária ou não, como se pode classificar em termos económicos? É um brinquedo tecnológico de “meninos ricos” que não sabem o que fazer ao dinheiro?
O Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior é que deve financiar os desenvolvimentos tecnológicos de equipamentos inovadores. O Ministério da Economia só os deve promover comercialmente, se e quando esses equipamentos tiverem passado o teste da respectiva viabilidade tecnológica e económica. E para isso deve necessariamente haver a adequada articulação de políticas públicas entre estes dois Ministérios, como muito bem salientou o último relatório da Agência Internacional da Energia sobre Portugal.
Num processo de desenvolvimento tecnológico dum novo tipo de equipamento têm de se avaliar em profundidade as respectivas características, tanto as positivas como as negativas.
E, por exemplo, a energia eólica tem como características base ser intermitente, e incontrolável.
E a realidade, nomeadamente dos números apresentados pela ERSE, está já a revelar que para se adaptarem estas características de base da energia eólica aos padrões de consumo do mercado, os sobrecustos são de facto bastante elevados.
Mesmo a construção de barragens que permitam a bombagem/armazenamento de energia eólica sob a forma hídrica, e que é talvez no caso português a menos má das soluções para se tentar corrigir as características negativas da energia eólica, tem custos elevados que têm que ser devidamente analisados e comparados, em termos tecnológicos, económicos e ambientais, face a todas as alternativas disponíveis.
E é exactamente isso que um novo Plano Energético sério e fundamentado terá que fazer de novo, tal como em 1984.
É que não há voluntarismos exacerbados, ou encenações mediáticas mal fundamentadas, que possam substituir um processo de desenvolvimento tecnológico consistente. Além disso, a atribuição dum preço fixo, garantido por Decreto durante 15 anos, ao MWh eólico estiola a própria competitividade tecnológica que forçaria a redução dos respectivos custos .
Ora verifica-se em 2010 que, quase dez anos depois do lançamento dos apoios bilionários à energia eólica, o MWh eólico custa ao consumidor 91 Euros/MWh enquanto que actualmente o valor de mercado de um MWh é de apenas 22,4 Euros/MWh, ou seja quase quatro vezes menos.
É isso que está na origem da maior parte do sobrecusto do PRE que para o conjunto do ano de 2010, e de acordo com a estimativa da ERSE, ascenderá a mais de 800 milhões de euros, sendo que mais de 50% destes valores são devidos precisamente aos sobrecustos provocados pelos preços políticos concedidos às energias eólica e fotovoltaica. E é essa exactamente uma componente fundamental do déficit tarifário que ultrapassou os 2.000 milhões de euros em 2009.
Há assim que ter a coragem de tirar conclusões que evitem esta corrida para um abismo de desperdícios crescentes que agora tanto se quer promover!
Em conclusão:
O futuro da economia de Portugal decide-se a partir da eficácia, competência e inteligência com que são utilizados os recursos disponíveis.
Por outro lado, a viabilidade e a competitividade da nossa economia está hoje posta em causa, como há muitos anos não acontecia.
Sendo a energia uma base indispensável ao sucesso da economia do nosso país, não é admissível desperdiçar recursos em aventuras tecnológicas que ainda não foram sequer testadas devidamente ao nível dum piloto industrial.
Por isso é agora indispensável avançar duma forma séria, fundamentada e isenta, com um novo Plano Energético Nacional, que equacione todas as fontes de energia primárias disponíveis, sem excepção, e que substitua o último Plano que data já de 1984 e que se tornou manifestamente obsoleto quando as grandes opções então feitas, o carvão e o gás natural, foram inviabilizadas porque, por um lado, Portugal assinou o protocolo de Kyoto e, por outro lado, os grandes países exportadores de gás natural decidiram indexar o respectivo preço ao do petróleo.
É pois tempo de se construir uma nova base energética que garanta o futuro da economia de Portugal.
Clemente Pedro Nunes
Professor Catedrático do IST
O ainda mais distinto Professor do IST, experiente Administrador de indústrias e meu estimado co-autor do Manifesto, Clemente Pedro Nunes, publicou no Expresso do 1º de Maio a resposta a Costa e Silva. Aqui a transcrevo, pela sua magnificiência, na íntegra.
Manifesto: o Tempo do futuro
O Manifesto “Uma Nova Política Energética para Portugal” tem provocado uma salutar reacção de variados quadrantes.
Como um dos 36 subscritores, só me tenho a felicitar por isso.
Por exemplo, António Costa e Silva, ilustre especialista de questões petrolíferas, revela no seu artigo publicado no Expresso no passado dia 17 de Abril de 2010 uma notável apetência pela defesa da protecção política aos investimentos nas energias eólicas e fotovoltaicas.
Aceita-se perfeitamente dado o seu interesse nas energias eólicas.
De acordo com as regras de diversificação de portfolio e de gestão de oportunidades, ninguém pode levar a mal que se utilizem as benesses que o legislador concede ao dar incentivos excessivos para investir em energias eólicas e fotovoltaicas. Mesmo que esses excessos de incentivos sejam à custa das famílias e das empresas de Portugal!
E o que está em causa nesta difícil encruzilhada que se nos depara, é a criação duma base energética que assegure a viabilidade económica de Portugal, e foi por isso que o Manifesto foi lançado.
Mas para melhor esclarecimento dos leitores do Expresso analisemos ponto por ponto as críticas que constam do artigo.
1. Falta de Rigor
Ao contrário do que se insinua, o próprio artigo confirma o absoluto rigor da afirmação do Manifesto de “que em 2008, último ano de que existem dados publicados pela DGEG, o saldo líquido da factura energética portuguesa atingiu o valor de 8.219 milhões de euros, ao passo que em 1998 não ultrapassara os 1.464 milhões”.
Não podendo beliscar minimamente a afirmação produzida, o artigo entra por divagações pseudo-explicativas desse facto. E o que é estranho é que quem invoca uma tão grande “exegese de rigor” inicie essas explicações dos números apresentados no Manifesto com a afirmação de que o petróleo representou em 2008 “75% do valor” do saldo líquido da factura energética portuguesa quando o número correcto, de acordo com os dados da DGEG, é de apenas 63,8%; é uma distorção matemática significativa.
Mas, mais importante que isso, a redução indicada na importação oficial de crude tem a ver com o facto de, como é bem conhecido, a fonte de energia primária que mais aumentou entre 1998 e 2008 foi o gás natural, que nesse período substituiu derivados do petróleo. E esta é não só um hidrocarboneto de origem fóssil, como é também importado na sua totalidade, exactamente como o petróleo.
Quanto ao contributo das “novas” energias renováveis, que são aquelas que o artigo tanto quer defender, o Manifesto responde directamente à pergunta formulada: em 2008 o total do conjunto de solar, fotovoltaica e geotérmica representou apenas 2,11% do total do consumo das fontes de energia primárias em Portugal. E infelizmente a dependência energética de Portugal em termos de fontes de energia primária manteve-se em cerca de 83% desde 1998 até 2008.
Isto apesar dos milhares de milhões de euros de apoios decretados pelo Estado a favor dos investimentos nestas energias, à custa das famílias e das empresas de Portugal!
2. Falta de Enquadramento
A prioridade que deve ser dada à política energética do país, é que a base energética deve promover a competitividade económica de Portugal, em vez de ser posta ao serviço de negócios que só existem porque são feitos à sombra de Decretos Lei que os protegem desmesuradamente. Aquilo que por isso alguns já designaram por “capitalismo decretino”.
É este o enquadramento base do Manifesto, e estamos certos que no fundo António Costa e Silva até concorda com ele.
3. O preconceito contra as energias renováveis
As duas fontes de energias primárias endógenas mais utilizadas em Portugal em 2008 foram a biomassa e a hidroeléctrica e ambas são renováveis. Curiosamente o artigo nada diz sobre elas. É uma omissão, absolutamente incompreensível por quem se diz tão grande defensor das energias renováveis. Por exemplo, relativamente ao aproveitamento energético da biomassa em Portugal podia e devia em termos relativos ter-se ido muito mais longe no apoio concedido, face ao que se passa com a energia eólica, e sobretudo com a energia fotovoltaica e a microgeração.
É que as centrais térmicas a biomassa, para além de utilizarem uma matéria prima totalmente nacional, podem contribuir muito para a estabilização económica e social de vastas regiões do interior do país, viabilizando também economicamente a limpeza das florestas e assim combater preventivamente os fogos florestais.
Acresce que são uma fonte de energia renovável perfeitamente programável, em que a produção pode ser directamente ajustada à procura.
Exactamente ao contrário do que se passa com a eólica e a fotovoltaica. Aqui a respectiva intermitência obriga, na melhor das hipóteses, a um armazenamento forçado por bombagem da água em albufeiras a montante, e a sua posterior turbinagem, tudo isto agravando substancialmente o pesado sobrecusto que as eólicas acarretam. Pagar-se 344 euros/MWh pela energia fotovoltaica, em centrais construídas à base de painéis chineses importados, e 587 euros/MWh para a microgeração doméstica quando se paga apenas 107 Euros por cada MWh produzido em centrais termoeléctricas que utilizam biomassa produzida em Portugal, é um total absurdo económico, tecnológico e estratégico.
Também não há nenhuma referência no artigo ao facto da produção de biocombustíveis, nomeadamente o biodiesel, não ter ainda qualquer quadro legal para o respectivo nível de isenção de ISP a partir de 1 de Janeiro de 2011. E estamos já em finais de Abril de 2010.
Ou seja, enquanto as energias eólicas têm um preço fixo estabelecido por 15 anos, um produtor de biodiesel não sabe qual o respectivo enquadramento fiscal que se vai aplicar daqui a apenas 8 meses, sendo que neste caso, e ao contrário das eólicas, o preço de venda do biodiesel está directamente indexado ao preço do mercado alternativo, o gasóleo, sendo apenas legislado o eventual nível de isenção do ISP. E note-se que os biocombustíveis podem ajudar a resolver o problema energético ligado aos transportes que, como o próprio artigo refere, é um problema sério e profundo.
Também não se entende porque é que em Portugal a lenha, e os outros derivados da madeira utilizados como combustíveis domésticos estão sujeitos a uma taxa de IVA de 20%, sendo fontes de energia renovável, de produção nacional, e contribuindo bastante para a redução das emissões líquidas de CO2, enquanto o gás natural que é um hidrocarboneto fóssil, que produz CO2 e é todo importado, beneficia de taxa reduzida de 5% de IVA.
Igualmente no artigo nada diz sobre esta flagrante distorção que muito prejudica precisamente a energia renovável que é actualmente a mais utilizada em Portugal.
É exactamente porque um verdadeiro plano energético tem que entrar em linha de conta com todas as fontes de energia primária disponíveis, quer sejam renováveis ou não, que o Manifesto foi feito.
4. Visão Estática da Tecnologia, Preços e Subsidiação
A gestão da Inovação Tecnológica é de facto um tema apaixonante para quem dedicou quase quarenta anos da sua carreira académica e industrial à promoção da inovação tecnológica economicamente competitiva.
Costa e Silva não ignora certamente que as três fases básicas dos processos de inovação e desenvolvimento tecnológico: a investigação laboratorial, as instalações piloto, e as unidades comerciais.
Como não ignora também que uma unidade de demonstração piloto deve ter “a dimensão mínima para que dela se possam extrair resultados tecnologicamente relevantes”.
Ora em Portugal, o que se tem passado, relativamente às “renováveis da moda”, é construírem-se instalações à escala comercial para nelas se fazerem ensaios que deveriam ter sido feitos primeiro à escala laboratorial ou de piloto. E o preço desse risco e desse desperdício é transferido na sua totalidade, por força dum Decreto Lei, para o cidadão consumidor.
Fazer uma central fotovoltaica de 50 MW e garantir-lhe um preço de 344 Euros/MWh quer essa electricidade seja necessária ou não, como se pode classificar em termos económicos? É um brinquedo tecnológico de “meninos ricos” que não sabem o que fazer ao dinheiro?
O Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior é que deve financiar os desenvolvimentos tecnológicos de equipamentos inovadores. O Ministério da Economia só os deve promover comercialmente, se e quando esses equipamentos tiverem passado o teste da respectiva viabilidade tecnológica e económica. E para isso deve necessariamente haver a adequada articulação de políticas públicas entre estes dois Ministérios, como muito bem salientou o último relatório da Agência Internacional da Energia sobre Portugal.
Num processo de desenvolvimento tecnológico dum novo tipo de equipamento têm de se avaliar em profundidade as respectivas características, tanto as positivas como as negativas.
E, por exemplo, a energia eólica tem como características base ser intermitente, e incontrolável.
E a realidade, nomeadamente dos números apresentados pela ERSE, está já a revelar que para se adaptarem estas características de base da energia eólica aos padrões de consumo do mercado, os sobrecustos são de facto bastante elevados.
Mesmo a construção de barragens que permitam a bombagem/armazenamento de energia eólica sob a forma hídrica, e que é talvez no caso português a menos má das soluções para se tentar corrigir as características negativas da energia eólica, tem custos elevados que têm que ser devidamente analisados e comparados, em termos tecnológicos, económicos e ambientais, face a todas as alternativas disponíveis.
E é exactamente isso que um novo Plano Energético sério e fundamentado terá que fazer de novo, tal como em 1984.
É que não há voluntarismos exacerbados, ou encenações mediáticas mal fundamentadas, que possam substituir um processo de desenvolvimento tecnológico consistente. Além disso, a atribuição dum preço fixo, garantido por Decreto durante 15 anos, ao MWh eólico estiola a própria competitividade tecnológica que forçaria a redução dos respectivos custos .
Ora verifica-se em 2010 que, quase dez anos depois do lançamento dos apoios bilionários à energia eólica, o MWh eólico custa ao consumidor 91 Euros/MWh enquanto que actualmente o valor de mercado de um MWh é de apenas 22,4 Euros/MWh, ou seja quase quatro vezes menos.
É isso que está na origem da maior parte do sobrecusto do PRE que para o conjunto do ano de 2010, e de acordo com a estimativa da ERSE, ascenderá a mais de 800 milhões de euros, sendo que mais de 50% destes valores são devidos precisamente aos sobrecustos provocados pelos preços políticos concedidos às energias eólica e fotovoltaica. E é essa exactamente uma componente fundamental do déficit tarifário que ultrapassou os 2.000 milhões de euros em 2009.
Há assim que ter a coragem de tirar conclusões que evitem esta corrida para um abismo de desperdícios crescentes que agora tanto se quer promover!
Em conclusão:
O futuro da economia de Portugal decide-se a partir da eficácia, competência e inteligência com que são utilizados os recursos disponíveis.
Por outro lado, a viabilidade e a competitividade da nossa economia está hoje posta em causa, como há muitos anos não acontecia.
Sendo a energia uma base indispensável ao sucesso da economia do nosso país, não é admissível desperdiçar recursos em aventuras tecnológicas que ainda não foram sequer testadas devidamente ao nível dum piloto industrial.
Por isso é agora indispensável avançar duma forma séria, fundamentada e isenta, com um novo Plano Energético Nacional, que equacione todas as fontes de energia primárias disponíveis, sem excepção, e que substitua o último Plano que data já de 1984 e que se tornou manifestamente obsoleto quando as grandes opções então feitas, o carvão e o gás natural, foram inviabilizadas porque, por um lado, Portugal assinou o protocolo de Kyoto e, por outro lado, os grandes países exportadores de gás natural decidiram indexar o respectivo preço ao do petróleo.
É pois tempo de se construir uma nova base energética que garanta o futuro da economia de Portugal.
Clemente Pedro Nunes
Professor Catedrático do IST
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política energética
quinta-feira, abril 29, 2010
O estudo de Carnegie-Melon sobre os automóveis eléctricos.
A Universidade de Carnegie-Melon (CMU), um dos suportes do projecto "MIT-Portugal" decidido pelos nossos grandes líderes como eixo da internacionalização que eles acham que faltava à nossa Investigação Universitária, tem-se entusiasmado a fazer protótipos de carros eléctricos. Porém, um grupo de investigadores seus de Engenharia Mecânica publicou há cerca de um ano um excelente trabalho sobre a estrutura que terão de ter os automóveis híbridos carregáveis eléctricamente (PHEV) e as respectivas implicações em autonomia, consumos e dimensões - note-se, de passagem, que nem sequer se põe a hipótese de automóveis puramente eléctricos, na I&D internacional...
O estudo nota que para que um PHEV tenha uma autonomia da ordem dos 170 km (100 milhas), precisa de ter uma bateria enorme (de iões de lítio), e todo o carro tem depois de ter uma dimensão proporcional - o chassis, e os motores necessários para carregar o peso da bateria e do chassis. Além disso, os consumos serão também consideráveis, dada a massa do carro determinada principalmente pela bateria.
Naturalmente, trata-se de uma concepção integrada do automóvel, como é natural, e não a anedota que há tempos andou por cá e que até teve honras de TV, de adaptar os carros actuais a essa aplicação (o que, como na altura ironizei, era uma ideia similar à dos construtores dos primeiros automóveis do sec. XIX, que basicamente montavam motores em carruagens de cavalos).
Num automóvel normal, 38 litros de gasolina pesam 28 kg e contêm 360 kWh de energia; uma bateria de iões de lítio com 30 kWh (8% daquela energia) pesa uns 300 kg a que se soma outro tanto de reforço da estrutura que a suporta e que têm de continuar a ser transportados mesmo depois da bateria descarregada, ao contrário do depósito de gasolina, que se vai tornando mais leve à medida que esta é consumida.
Por outro lado, para manter as características dinâmicas deste automóvel (aceleração e travagem), dado o aumento de peso da bateria e da estrutura, o PHEV tem também de ter motores e travões mais potentes, o que lhe aumenta ainda mais o peso.
O estudo desenvolveu assim modelos de vários PHEV em que variava a capacidade da bateria e portanto a autonomia do veículo, com um custo estimado para a bateria de 700 €/kwh (cerca de 20 mil € para uma bateria de 30 kWh, a preços de 2008). Com estes modelos estudaram-se os custos de diversos modos de funcionamento, assumindo uma vida útil de 12 anos para o automóvel com uma mudança de bateria a meio dessa vida (cenário optimista, visto que 7 anos é a máxima duração conseguida para as baterias de iões de lítio em condições ideais de laboratório, sendo mais de esperar uma vida útil de 4 anos nas condições reais de utilização).
O resultado do estudo é que para PHEV com autonomias acima de uns 30 km, eles ficarão sempre muito mais caros, incluindo o custo da electricidade, que os automóveis actuais - considerando que os preços da electricidade, mas também os da gasolina, são nos EUA metade do que são cá.
Para pequenos PHEV com autonomias de uns 20 km o custo reduz-se consideravelmente, porque requerendo baterias menores todo o carro pode ser mais leve e também o custo de substituição da bateria terá menor peso no custo total do automóvel ao longo da sua vida.
Ou seja: os PHEV tenderão a distinguir-se entre pequenos, para os pobres, e grandes, para os ricos. Mas, enquanto nos automóveis normais hoje em dia a diferença mecânica principal está na potência, nos PHEV estará na autonomia.
Os pequenos PHEV com autonomias de 20 km exigem, porém, a existência de imensos parques de estacionamento urbano com carregadores de electricidade, além dos sistemas de carga em casa, porque não terão autonomia sequer para ir e voltar de casa ao trabalho.
A Toyota, a pioneira criadora dos primeiros híbridos (de que o Prius continua a ser a referência) acha que, face a esta previsão de custos, é duvidosa a adesão que os PHEV virão a ter dos automobilistas e a rapidez com que virão a penetrar no mercado. E, por tudo isto, o "National Research Council" norte-americano, um Departamento da Academia de Ciências dos EUA, publicou recentemente um outro estudo em que conclui que a penetração dos automóveis híbridos carregáveis electricamente irá ser muito lenta, ao longo dos próximos 30 anos, enquanto a tecnologia de baterias for a existente e a menos que haja uma subsidiação macissa por parte dos Governos. O que coincide exactamente com a previsão que tenho feito por aqui.
Ora, como já notei aqui, presentemente no nosso país 2/3 do preço da gasolina é de impostos, enquanto pelo contrário a electricidade é subsidiada com um IVA de apenas 5% e um défice tarifário que lhe esconde o custo real. Não se vê onde poderá o Governo, a braços com um grave défice de contas públicas, vir a prescindir dos impostos dos combustíveis e a trocá-los pela subsidiação à electricidade, e o mesmo para os próprios automóveis, de uma forma sustentada.
Claro que os militantes da ordem nova ecotópica e os demagogos dos respectivos negócios invocarão que, com a subida do preço do petróleo, não haverá outra alternativa. Mas, ao mesmo tempo, escamoteiam a subida do custo da electricidade que a opção fundamentalista pelas energias renováveis irá acarretar.
Pode ser que com o domínio dos media transformados em máquinas de propaganda contínua, o silenciamento das vozes desalinhadas e, mais tarde ou mais cedo, a "recolha" dos dissidentes em suas casas pela calada da noite, estes desígnios se venham a conseguir realizar por cá e até talvez na União Europeia.
Mas no que não acredito é que o Mundo fora de Europa vá nisso. E, se a História nos ensina alguma coisa, receio que mesmo na Europa isso não aconteça sem sangue.
Oxalá que me engane...
O estudo nota que para que um PHEV tenha uma autonomia da ordem dos 170 km (100 milhas), precisa de ter uma bateria enorme (de iões de lítio), e todo o carro tem depois de ter uma dimensão proporcional - o chassis, e os motores necessários para carregar o peso da bateria e do chassis. Além disso, os consumos serão também consideráveis, dada a massa do carro determinada principalmente pela bateria.
Naturalmente, trata-se de uma concepção integrada do automóvel, como é natural, e não a anedota que há tempos andou por cá e que até teve honras de TV, de adaptar os carros actuais a essa aplicação (o que, como na altura ironizei, era uma ideia similar à dos construtores dos primeiros automóveis do sec. XIX, que basicamente montavam motores em carruagens de cavalos).
Num automóvel normal, 38 litros de gasolina pesam 28 kg e contêm 360 kWh de energia; uma bateria de iões de lítio com 30 kWh (8% daquela energia) pesa uns 300 kg a que se soma outro tanto de reforço da estrutura que a suporta e que têm de continuar a ser transportados mesmo depois da bateria descarregada, ao contrário do depósito de gasolina, que se vai tornando mais leve à medida que esta é consumida.
Por outro lado, para manter as características dinâmicas deste automóvel (aceleração e travagem), dado o aumento de peso da bateria e da estrutura, o PHEV tem também de ter motores e travões mais potentes, o que lhe aumenta ainda mais o peso.
O estudo desenvolveu assim modelos de vários PHEV em que variava a capacidade da bateria e portanto a autonomia do veículo, com um custo estimado para a bateria de 700 €/kwh (cerca de 20 mil € para uma bateria de 30 kWh, a preços de 2008). Com estes modelos estudaram-se os custos de diversos modos de funcionamento, assumindo uma vida útil de 12 anos para o automóvel com uma mudança de bateria a meio dessa vida (cenário optimista, visto que 7 anos é a máxima duração conseguida para as baterias de iões de lítio em condições ideais de laboratório, sendo mais de esperar uma vida útil de 4 anos nas condições reais de utilização).
O resultado do estudo é que para PHEV com autonomias acima de uns 30 km, eles ficarão sempre muito mais caros, incluindo o custo da electricidade, que os automóveis actuais - considerando que os preços da electricidade, mas também os da gasolina, são nos EUA metade do que são cá.
Para pequenos PHEV com autonomias de uns 20 km o custo reduz-se consideravelmente, porque requerendo baterias menores todo o carro pode ser mais leve e também o custo de substituição da bateria terá menor peso no custo total do automóvel ao longo da sua vida.
Ou seja: os PHEV tenderão a distinguir-se entre pequenos, para os pobres, e grandes, para os ricos. Mas, enquanto nos automóveis normais hoje em dia a diferença mecânica principal está na potência, nos PHEV estará na autonomia.
Os pequenos PHEV com autonomias de 20 km exigem, porém, a existência de imensos parques de estacionamento urbano com carregadores de electricidade, além dos sistemas de carga em casa, porque não terão autonomia sequer para ir e voltar de casa ao trabalho.
A Toyota, a pioneira criadora dos primeiros híbridos (de que o Prius continua a ser a referência) acha que, face a esta previsão de custos, é duvidosa a adesão que os PHEV virão a ter dos automobilistas e a rapidez com que virão a penetrar no mercado. E, por tudo isto, o "National Research Council" norte-americano, um Departamento da Academia de Ciências dos EUA, publicou recentemente um outro estudo em que conclui que a penetração dos automóveis híbridos carregáveis electricamente irá ser muito lenta, ao longo dos próximos 30 anos, enquanto a tecnologia de baterias for a existente e a menos que haja uma subsidiação macissa por parte dos Governos. O que coincide exactamente com a previsão que tenho feito por aqui.
Ora, como já notei aqui, presentemente no nosso país 2/3 do preço da gasolina é de impostos, enquanto pelo contrário a electricidade é subsidiada com um IVA de apenas 5% e um défice tarifário que lhe esconde o custo real. Não se vê onde poderá o Governo, a braços com um grave défice de contas públicas, vir a prescindir dos impostos dos combustíveis e a trocá-los pela subsidiação à electricidade, e o mesmo para os próprios automóveis, de uma forma sustentada.
Claro que os militantes da ordem nova ecotópica e os demagogos dos respectivos negócios invocarão que, com a subida do preço do petróleo, não haverá outra alternativa. Mas, ao mesmo tempo, escamoteiam a subida do custo da electricidade que a opção fundamentalista pelas energias renováveis irá acarretar.
Pode ser que com o domínio dos media transformados em máquinas de propaganda contínua, o silenciamento das vozes desalinhadas e, mais tarde ou mais cedo, a "recolha" dos dissidentes em suas casas pela calada da noite, estes desígnios se venham a conseguir realizar por cá e até talvez na União Europeia.
Mas no que não acredito é que o Mundo fora de Europa vá nisso. E, se a História nos ensina alguma coisa, receio que mesmo na Europa isso não aconteça sem sangue.
Oxalá que me engane...
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quarta-feira, abril 28, 2010
Os comentários soezes
Em O Público de ontem:
Nos termos do n.º1 do artigo 24.º da Lei n.º 2/99, de 13 de Janeiro, venho requerer a V. Ex.ª a seguinte resposta e rectificação à notícia publicada na edição impressa de O Público, na passada Quinta-feira, dia 8 de Abril de 2010.
O Público considerou que, na Conferência de Imprensa de apresentação do Manifesto para uma Nova Política energética em Portugal, eu teria “desvalorizado o peso económico do pólo industrial eólico criado em Viana do Castelo” considerando-o “um cluster que faz umas montagens”, e afirmado que a Enercon tem um “problema de exportações por um litígio de patentes com a General Electric que a proíbe de exportar para os EUA”.
A resposta que o Público transcreveu do responsável do projecto industrial da Enercon em Portugal, Aníbal Fernandes, a estas minhas alegadas afirmações, foi a de que “não aceita comentários soezes de um ex-PIDE/DG-S” e que a minha pessoa “não merece credibilidade”, mencionando “a minha ligação à polícia política durante o movimento estudantil”, que “considera assumida no livro Conquistadores de Almas publicado pela Guerra e Paz em 2006” de que sou autor.
Ora estas afirmações são difamatórias, porquanto, como o próprio livro citado documenta, fui de facto militante do movimento estudantil há quase 40 anos, mas sem nenhuma ligação à polícia política e, pelo contrário, por causa do que fui preso, torturado, julgado e condenado pela PIDE/DGS em Tribunal Plenário (processo-crime contra a Segurança do Estado nº 76-A/73).
Há 35 anos, durante o PREC, fui vítima pela extrema-esquerda das mesmas falsas acusações agora repescadas pelo Sr. Aníbal Fernandes, conforme é narrado no livro citado, que, ao contrário do afirmado, até inclui cópia das decisões proferidas pelos poderes militares da época que comprovam a falsidade destas afirmações.
José Luís Pinto de Sá, Professor do IST
O texto foi limitado a 300 palavras, nos termos da lei e por exigência do jornal.
Dirigente do Manifesto critica cluster eólico
Nos termos do n.º1 do artigo 24.º da Lei n.º 2/99, de 13 de Janeiro, venho requerer a V. Ex.ª a seguinte resposta e rectificação à notícia publicada na edição impressa de O Público, na passada Quinta-feira, dia 8 de Abril de 2010.
O Público considerou que, na Conferência de Imprensa de apresentação do Manifesto para uma Nova Política energética em Portugal, eu teria “desvalorizado o peso económico do pólo industrial eólico criado em Viana do Castelo” considerando-o “um cluster que faz umas montagens”, e afirmado que a Enercon tem um “problema de exportações por um litígio de patentes com a General Electric que a proíbe de exportar para os EUA”.
A resposta que o Público transcreveu do responsável do projecto industrial da Enercon em Portugal, Aníbal Fernandes, a estas minhas alegadas afirmações, foi a de que “não aceita comentários soezes de um ex-PIDE/DG-S” e que a minha pessoa “não merece credibilidade”, mencionando “a minha ligação à polícia política durante o movimento estudantil”, que “considera assumida no livro Conquistadores de Almas publicado pela Guerra e Paz em 2006” de que sou autor.
Ora estas afirmações são difamatórias, porquanto, como o próprio livro citado documenta, fui de facto militante do movimento estudantil há quase 40 anos, mas sem nenhuma ligação à polícia política e, pelo contrário, por causa do que fui preso, torturado, julgado e condenado pela PIDE/DGS em Tribunal Plenário (processo-crime contra a Segurança do Estado nº 76-A/73).
Há 35 anos, durante o PREC, fui vítima pela extrema-esquerda das mesmas falsas acusações agora repescadas pelo Sr. Aníbal Fernandes, conforme é narrado no livro citado, que, ao contrário do afirmado, até inclui cópia das decisões proferidas pelos poderes militares da época que comprovam a falsidade destas afirmações.
José Luís Pinto de Sá, Professor do IST
O texto foi limitado a 300 palavras, nos termos da lei e por exigência do jornal.
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terça-feira, abril 27, 2010
O cluster da ENERCON e as exportações do Pimentinha
Há dias, no verdadeiro massacre a que o programa do Miguel Sousa Tavares sujeitou o Eng.º Henrique Neto, um não-especialista em energia, pela mão do perito em demagogia e mentira convicta Eng.º Carlos Pimenta, este afirmou que em matéria de renováveis Portugal exportava "produtos e serviços".
Logo na altura pensei para comigo que "serviços" de facto sim, mas serviços financeiros! Ou seja, que a EDP investe em parques eólicos no estrangeiro subsidiados pelos Governos estranjeiros e equipados com equipamentos estrangeiros.
E também já aqui implorei por uma prova, uma informação que seja, de que exportamos alguma coisa do que se fabrica no cluster do Eng.º Aníbal Fernandes e que o que ele vende se não esgotará quando o mercado nacional se esgotar em breve.
E eis que aí está uma notícia deveras extrarodinária: a EDP Renováveis, no âmbito dos seus negócios financeiros pelo mundo fora e em especial nos EUA, acaba de fazer um contrato de aquisição por grosso de 2100 MW de eólicas, a maior encomenda de sempre feita a um fabricante de aerogeradores!
Fantástico, pensarão! Excelentes notícias para o cluster nacional da ENERCON e os trabalhadores de Viana do Castelo! Porque foi à ENERCON nacional que a encomenda da "Energias De Portugal" foi feita, não?
Não! Foi à VESTAS dinamarquesa!...
Logo na altura pensei para comigo que "serviços" de facto sim, mas serviços financeiros! Ou seja, que a EDP investe em parques eólicos no estrangeiro subsidiados pelos Governos estranjeiros e equipados com equipamentos estrangeiros.
E também já aqui implorei por uma prova, uma informação que seja, de que exportamos alguma coisa do que se fabrica no cluster do Eng.º Aníbal Fernandes e que o que ele vende se não esgotará quando o mercado nacional se esgotar em breve.
E eis que aí está uma notícia deveras extrarodinária: a EDP Renováveis, no âmbito dos seus negócios financeiros pelo mundo fora e em especial nos EUA, acaba de fazer um contrato de aquisição por grosso de 2100 MW de eólicas, a maior encomenda de sempre feita a um fabricante de aerogeradores!
Fantástico, pensarão! Excelentes notícias para o cluster nacional da ENERCON e os trabalhadores de Viana do Castelo! Porque foi à ENERCON nacional que a encomenda da "Energias De Portugal" foi feita, não?
Não! Foi à VESTAS dinamarquesa!...
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segunda-feira, abril 26, 2010
O mar, uma boa aposta para Portugal, dizem.
Volta e meia há um político que diz que Portugal deve apostar no mar, como desígnio de desenvolvimento.
Ontem foi o Presidente da República, mas tem havido outros, recorrentemente.
Esta ideia do mar dever ser a nossa aposta central de desenvolvimento deixa-me sempre com a estranha sensação de ter um problema grave de visão.
É que não consigo ver em que medida o mar poderá constituir uma coisa em que Portugal tenha alguma vantagem competitiva, tecnológica, industrial, científica ou o que seja!
Não temos marinha mercante. Somos irrelevantes no transporte marítimo internacional.
Não temos construção naval de envergadura. Os estaleiros de Viana do Castelo estão aflitos com falta de encomendas.
Nem sequer já somos um estaleiro preferencial de reparações, como no tempo em que a Lisnave e a Setenave estavam sempre cheias de grandes petroleiros.
Temos uma pesca sem tecnologia nem barcos.
Não temos marinha de guerra. Nem sequer um par de submarinos!
Não temos Império ultramarino nem nenhuma possibilidade de o recuperar.
Nem temos uma indústria de caça aos tesouros das naus afundadas aqui ao largo.
E, quando a energia eólica offshore, temos uma costa em que o mar se afunda brucamente, ao contrário do mar do norte, o que inviabiliza a instalação de torres a uns 10 a 15 km de terra, que é como são mais produtivas - tirando algumas pequenas zonas no litoral centro e norte.
A única coisa que temos é o mar aqui mesmo mas, se isso bastasse, o Taiti também era uma potência marítima.
É por isso que, intimamente, às vezes me ocorre a inebriante esperança de que talvez haja um segredo que eles sabem e eu não.
Um segredo que explicaria o interesse de Portugal em estender a sua zona marítima para além do alcance das motas de água que ensurdecem as praias.
Petróleo!
Será que há petróleo off-shore ao largo da nossa actual zona marítima exclusiva, e que isso é um segredo de Estado?
Só se for isso...
Ontem foi o Presidente da República, mas tem havido outros, recorrentemente.
Esta ideia do mar dever ser a nossa aposta central de desenvolvimento deixa-me sempre com a estranha sensação de ter um problema grave de visão.
É que não consigo ver em que medida o mar poderá constituir uma coisa em que Portugal tenha alguma vantagem competitiva, tecnológica, industrial, científica ou o que seja!
Não temos marinha mercante. Somos irrelevantes no transporte marítimo internacional.
Não temos construção naval de envergadura. Os estaleiros de Viana do Castelo estão aflitos com falta de encomendas.
Nem sequer já somos um estaleiro preferencial de reparações, como no tempo em que a Lisnave e a Setenave estavam sempre cheias de grandes petroleiros.
Temos uma pesca sem tecnologia nem barcos.
Não temos marinha de guerra. Nem sequer um par de submarinos!
Não temos Império ultramarino nem nenhuma possibilidade de o recuperar.
Nem temos uma indústria de caça aos tesouros das naus afundadas aqui ao largo.
E, quando a energia eólica offshore, temos uma costa em que o mar se afunda brucamente, ao contrário do mar do norte, o que inviabiliza a instalação de torres a uns 10 a 15 km de terra, que é como são mais produtivas - tirando algumas pequenas zonas no litoral centro e norte.
A única coisa que temos é o mar aqui mesmo mas, se isso bastasse, o Taiti também era uma potência marítima.
É por isso que, intimamente, às vezes me ocorre a inebriante esperança de que talvez haja um segredo que eles sabem e eu não.
Um segredo que explicaria o interesse de Portugal em estender a sua zona marítima para além do alcance das motas de água que ensurdecem as praias.
Petróleo!
Será que há petróleo off-shore ao largo da nossa actual zona marítima exclusiva, e que isso é um segredo de Estado?
Só se for isso...
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domingo, abril 25, 2010
Praga de cérebros
Hoje o jornal O Público traz um conjunto de artigos elogiosos do alegado sucesso da política do Governo em matéria de promoção de Investigação e Desenvolvimento, incluindo até um Editorial laudatório, sob o lema de "Portugal está a travar a fuga de cérebros".
Sobre o que de concreto se pode encontrar nestes artigos não vale a pena eu escrever porque isso acaba de ser feito, e bem, por David Marçal no Rerum Natura.
Mas ainda assim vale a pena perguntar: para que se tem de alardear que Portugal está a travar a fuga de cérebros, se isso é coisa que não existia?
Noa anos 70 doutoraram-se muitos investigadores no estrangeiro, graças à visonária política de bolsas do INIC de então, e quase todos esses investigadores voltaram, a tempo de promover a grande Reforma que a Universidade conheceu nos anos 80.
Depois, nos anos 80 e boa parte dos 90, houve a grande vaga de doutoramentos nacionais, promovida pelos que se haviam doutorado lá fora, mas como é sabido ficaram quase todos na Universidade.
Até há cerca de 10 anos, "fuga de cérebros" era coisa de que não se falava em Portugal. O "brain drain" era uma coisa de asiáticos e de gregos, que há muito enchem os corpos docentes das Universidades de língua inglesa, mas não acontecia cá.
Porque dizer agora, então, que "Portugal está a travar a fuga de cérebros", a não ser... precisamente porque essa fuga existe?
Sobre o que de concreto se pode encontrar nestes artigos não vale a pena eu escrever porque isso acaba de ser feito, e bem, por David Marçal no Rerum Natura.
Mas ainda assim vale a pena perguntar: para que se tem de alardear que Portugal está a travar a fuga de cérebros, se isso é coisa que não existia?
Noa anos 70 doutoraram-se muitos investigadores no estrangeiro, graças à visonária política de bolsas do INIC de então, e quase todos esses investigadores voltaram, a tempo de promover a grande Reforma que a Universidade conheceu nos anos 80.
Depois, nos anos 80 e boa parte dos 90, houve a grande vaga de doutoramentos nacionais, promovida pelos que se haviam doutorado lá fora, mas como é sabido ficaram quase todos na Universidade.
Até há cerca de 10 anos, "fuga de cérebros" era coisa de que não se falava em Portugal. O "brain drain" era uma coisa de asiáticos e de gregos, que há muito enchem os corpos docentes das Universidades de língua inglesa, mas não acontecia cá.
Porque dizer agora, então, que "Portugal está a travar a fuga de cérebros", a não ser... precisamente porque essa fuga existe?
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política científica
sexta-feira, abril 23, 2010
A subsidiação das energias renováveis e os estudos contraditórios
Na Conferência de Imprensa de apresentação do Manifesto para uma Nova Política Energética, a jornalista Lurdes Ferreira de O Público perguntou o que tínhamos a dizer dos estudos contraditórios aos trabalhos alemão e espanhol que o Manifesto invoca como testemunho do impacto negativo da subsidiação às energias renováveis nesses países-exemplos.
A questão era muito lateral ao Manifesto para ter ali uma discussão exaustiva mas agora, com mais tempo, vale a pena voltar a este assunto - tanto mais que Lurdes Ferreira, cujo entusiasmo pela política de Bruxelas caninamente seguida em Portugal é diariamente demonstrada na sua coluna ecotópica no Público, se apressou a publicar que os subscritores do Manifesto não tinham respondido satisfatoriamente à sua pergunta sobre as críticas aos tais textos (em vez de dar notícia, como seria de esperar numa reportagem sobre a apresentação do Manifesto, dos próprios argumentos do Manifesto).
Comecemos então pelo estudo espanhol, que tem sido largamente debatido nos EUA e que, por causa disso, é mais conhecido.
Dei notícia deste estudo aqui no início de Fevereiro, resumindo-o na sua conclusão de que por cada emprego criado eram destruídos 4. Logo na notícia que dei sobre o referido estudo eu próprio lhe apontei algumas imprecisões de dados, e escrevi expressamente então: "O referido estudo considera a criação em Espanha de 15 mil empregos pelas energias renováveis, mas baseia-se para isso num trabalho prospectivo europeu de 2003. Os dados mais recentes da EWEA mostram que esse número está subestimado e que, se for considerado o emprego efectivamente criado, se pode afirmar o seguinte: por cada emprego temporário criado pelas energias renováveis, será destruído duradouramente outro quando os respectivos sobre-custos se repercutirem nas tarifas e na correspondente retracção do poder de compra da população".
Dado o impacto político que este estudo espanhol teve nos EUA, o National Renewable Energy Laboratory (NREL) da Administração americana sentiu-se na obrigação de se pronunciar sobre ele, para lhe encontrar um conjunto de erros metodológicos semelhantes aos que eu próprio detectara, e que questionam a precisão dos resultados numéricos obtidos (como eu próprio fiz) mas não o método geral seguido. Tanto assim é que o próprio parecer do NREL cita, a dada altura, o estudo alemão de 2006 que o Manifesto invoca: "Work focused on Germany, conducted in 2005, found that feed-in tariff (FIT) policies in their country would result in a surge in employment between 2004 and 2008 as deployment proceeded rapidly; but net employment would turn negative in 2010 as construction of new facilities declined and the higher costs of renewable energy impacted the broader economy (Hillebrand et al. 2006)".
O parecer do NREL invoca dois estudos mais recentes que contrariariam as conclusões do referido estudo alemão de 2006: um feito por encomenda do Comissariado de Bruxelas, sobre cuja independência do lobby eólico-fotovoltaico germano-dinamarquês-espanhol estamos conversados (já lá volto), e outro realizado por vários centros universitários alemães incluindo um de energia solar, de 2007, e que é claramente uma resposta ao estudo de 2006.
Ora neste último estudo, embora o NREL afirme dele que "finds that, in Germany, net employment remains positive for all renewables deployment scenarios across a variety of sensitivities, and growing export markets greatly increase the net employment impact", a verdade é que esta conclusão assenta em algumas hipóteses muito interessantes que importa enunciar.
Começo por reconhecer que este trabalho é de boa qualidade, não fugindo a nada do que o estudo crítico de 2006 que o Manifesto invoca teve em conta, nomeadamente a redução de emprego causada pela subida dos custos da energia e pela redução das formas tradicionais da sua produção, e distinguindo-se por conter um modelo de emprego de Input-Output baseado nas estatísticas oficiais alemãs e, sobretudo, por ter em conta o comércio externo, isto é, o impacto para o emprego na Alemanha das exportações das suas indústrias de equipamentos de energias renováveis (aerogeradores e painéis fotovoltaicos) e das importações de componentes.
De facto, e como este estudo mostra, a manutenção da liderança industrial no mercado mundial de equipamentos de energia renovável é a questão chave para o sucesso económico da política alemã, e é muito interessante que o estudo articule 4 aspectos: a existência de um consenso mundial sobre as alterações climáticas (que cria o mercado), a cópia pelos países estrangeiros da política de subsidiação tarifária alemã, a deslocalização para esses países das parcelas de baixa tecnologia das indústrias de equipamento (mantendo a Alemanha a produção dos componentes críticos em tecnologia), e o foco nas energias eólica e solar, dada a menor capacidade exportadora das de biomassa ou hídrica.
Quando da realização deste estudo, a Alemanha produzia 40% dos aerogeradores e 30% dos painéis solares mundiais, mas 2/3 do seu mercado era europeu, e o estudo sublinha a necessidade dos outros países da UE continuarem a manter a sua política de subsidiação às renováveis para se garantir o futuro da indústria alemã.
Relativamente ao emprego existente em 2004, o complexo modelo de Input/Output utilizado conduz à quantificação de 157 mil empregos, dos quais 64 mil na indústria eólica e, destes, 43% directos (o que nos fornece um 1º multiplicador fiável para os empregos indirectos na indústria eólica: 1.3, um valor plausível e até inferior ao de 2.0 que eu estimara por alto aqui). A biomassa empregaria 52 mil pessoas, pouco menos que a indústria eólica mas com apenas cerca de 1/3 do investimento, e seriam empregos centrados na Operação & Manutenção (O&M), portanto sustentáveis.
As projecções para o futuro deste estudo dependem, entretanto, de 2 hipóteses fundamentais:
Fica assim claramente assumida a importância que tem para a economia alemã a continuação da política de subsidiação às energias renováveis eólica e solar de países como Portugal, embora no caso do solar se tenha entretanto tornado clara a incapacidade das exportações alemãs competirem com as chinesas.
Quanto ao estudo de 2009 encomendado pela Comissão Europeia é evidente que toma o que acabei de descrever como referência mas que o "retoca" convenientemente: basta notar que, onde o estudo alemão que descrevi afirma que havia na Alemanha em 2004 157 mil empregos (directos e indirectos) associados às renováveis, este diz que havia o dobro, 320 mil! E diz que em Portugal já havia então mais de 50 mil, o que até faz empalidecer os 30 mil recentemente alegados para o presente pelo nosso Governo...
Em todo o caso, estes trabalhos têm um dado muito útil: uma boa estimativa do "multiplicador de emprego" das renováveis, ou seja, o quociente do número de empregos directos + indirectos sobre o de directos, o qual se no estudo alemão de 2007 é de 2.3, no europeu é menor que 2 - o que vem, portanto, comprovar as colossais fantasias que nesta matéria têm sido propaladas pela APREN, pelo Governo e sobretudo pelo Sr. Aníbal Fernandes!...
Entretanto e voltando ao NREL, um Laboratório cujas publicações técnicas sobre renováveis consulto há muitos anos com agrado pelo seu rigor e qualidade, é evidente que as conclusões que retira das referências feitas aos estudos económicos europeus que acabei de descrever são polarizadas, por induzirem uma ideia sobre o que eles contêm que não é a que realmente lá está.
Não admira, por isso, que este relatório tenha suscitado fortes suspeitas de venalidade, algo que os americanos não toleram num organismo público sustentado pelos seus impostos, e isso conduziu à criação de uma Comissão de investigação sobre ligações do NREL ao lobby eólico que pediu, até, aos Tribunais, acesso aos emails trocados com empresas deste sector.
A acesa batalha que se trava nos EUA em torno desta questão pode ser seguida em vários blogs e jornais, como por exemplo neste blog aqui e neste jornal.
Entretanto e significativamente, ninguém menciona o demolidor estudo dinamarquês, do país campeão da energia eólica, onde esta nasceu há já quase um século e sede do maior fabricante mundial de aerogeradores...
A questão era muito lateral ao Manifesto para ter ali uma discussão exaustiva mas agora, com mais tempo, vale a pena voltar a este assunto - tanto mais que Lurdes Ferreira, cujo entusiasmo pela política de Bruxelas caninamente seguida em Portugal é diariamente demonstrada na sua coluna ecotópica no Público, se apressou a publicar que os subscritores do Manifesto não tinham respondido satisfatoriamente à sua pergunta sobre as críticas aos tais textos (em vez de dar notícia, como seria de esperar numa reportagem sobre a apresentação do Manifesto, dos próprios argumentos do Manifesto).
Comecemos então pelo estudo espanhol, que tem sido largamente debatido nos EUA e que, por causa disso, é mais conhecido.
Dei notícia deste estudo aqui no início de Fevereiro, resumindo-o na sua conclusão de que por cada emprego criado eram destruídos 4. Logo na notícia que dei sobre o referido estudo eu próprio lhe apontei algumas imprecisões de dados, e escrevi expressamente então: "O referido estudo considera a criação em Espanha de 15 mil empregos pelas energias renováveis, mas baseia-se para isso num trabalho prospectivo europeu de 2003. Os dados mais recentes da EWEA mostram que esse número está subestimado e que, se for considerado o emprego efectivamente criado, se pode afirmar o seguinte: por cada emprego temporário criado pelas energias renováveis, será destruído duradouramente outro quando os respectivos sobre-custos se repercutirem nas tarifas e na correspondente retracção do poder de compra da população".
Dado o impacto político que este estudo espanhol teve nos EUA, o National Renewable Energy Laboratory (NREL) da Administração americana sentiu-se na obrigação de se pronunciar sobre ele, para lhe encontrar um conjunto de erros metodológicos semelhantes aos que eu próprio detectara, e que questionam a precisão dos resultados numéricos obtidos (como eu próprio fiz) mas não o método geral seguido. Tanto assim é que o próprio parecer do NREL cita, a dada altura, o estudo alemão de 2006 que o Manifesto invoca: "Work focused on Germany, conducted in 2005, found that feed-in tariff (FIT) policies in their country would result in a surge in employment between 2004 and 2008 as deployment proceeded rapidly; but net employment would turn negative in 2010 as construction of new facilities declined and the higher costs of renewable energy impacted the broader economy (Hillebrand et al. 2006)".
O parecer do NREL invoca dois estudos mais recentes que contrariariam as conclusões do referido estudo alemão de 2006: um feito por encomenda do Comissariado de Bruxelas, sobre cuja independência do lobby eólico-fotovoltaico germano-dinamarquês-espanhol estamos conversados (já lá volto), e outro realizado por vários centros universitários alemães incluindo um de energia solar, de 2007, e que é claramente uma resposta ao estudo de 2006.
Ora neste último estudo, embora o NREL afirme dele que "finds that, in Germany, net employment remains positive for all renewables deployment scenarios across a variety of sensitivities, and growing export markets greatly increase the net employment impact", a verdade é que esta conclusão assenta em algumas hipóteses muito interessantes que importa enunciar.
Começo por reconhecer que este trabalho é de boa qualidade, não fugindo a nada do que o estudo crítico de 2006 que o Manifesto invoca teve em conta, nomeadamente a redução de emprego causada pela subida dos custos da energia e pela redução das formas tradicionais da sua produção, e distinguindo-se por conter um modelo de emprego de Input-Output baseado nas estatísticas oficiais alemãs e, sobretudo, por ter em conta o comércio externo, isto é, o impacto para o emprego na Alemanha das exportações das suas indústrias de equipamentos de energias renováveis (aerogeradores e painéis fotovoltaicos) e das importações de componentes.
De facto, e como este estudo mostra, a manutenção da liderança industrial no mercado mundial de equipamentos de energia renovável é a questão chave para o sucesso económico da política alemã, e é muito interessante que o estudo articule 4 aspectos: a existência de um consenso mundial sobre as alterações climáticas (que cria o mercado), a cópia pelos países estrangeiros da política de subsidiação tarifária alemã, a deslocalização para esses países das parcelas de baixa tecnologia das indústrias de equipamento (mantendo a Alemanha a produção dos componentes críticos em tecnologia), e o foco nas energias eólica e solar, dada a menor capacidade exportadora das de biomassa ou hídrica.
Quando da realização deste estudo, a Alemanha produzia 40% dos aerogeradores e 30% dos painéis solares mundiais, mas 2/3 do seu mercado era europeu, e o estudo sublinha a necessidade dos outros países da UE continuarem a manter a sua política de subsidiação às renováveis para se garantir o futuro da indústria alemã.
Relativamente ao emprego existente em 2004, o complexo modelo de Input/Output utilizado conduz à quantificação de 157 mil empregos, dos quais 64 mil na indústria eólica e, destes, 43% directos (o que nos fornece um 1º multiplicador fiável para os empregos indirectos na indústria eólica: 1.3, um valor plausível e até inferior ao de 2.0 que eu estimara por alto aqui). A biomassa empregaria 52 mil pessoas, pouco menos que a indústria eólica mas com apenas cerca de 1/3 do investimento, e seriam empregos centrados na Operação & Manutenção (O&M), portanto sustentáveis.
As projecções para o futuro deste estudo dependem, entretanto, de 2 hipóteses fundamentais:
- A redução tendencial dos sobre-custos das energias renováveis relativamente às fontes tradicionais, nomeadamente fósseis (carvão e gás natural) e nuclear, e que o estudo espera que aconteça por via da inibição do nuclear na Alemanha a partir de 2022 e do crescimento da "multa" do CO2 pago pelas centrais a carvão e a gás - ou seja e em qualquer destes casos, por determinações políticas - e também pelo aumento dos preços internacionais do gás e do carvão e pela redução esperada do consumo energético, que se irá repercutir exclusivamente nestas fontes tradicionais de energia e, por essa via, nas respectivas importações de carvão e gás natural;
- A contínuo crescimento das exportações alemãs de aerogeradores, painéis solares e, em menor grau, centrais de biomassa.
Fica assim claramente assumida a importância que tem para a economia alemã a continuação da política de subsidiação às energias renováveis eólica e solar de países como Portugal, embora no caso do solar se tenha entretanto tornado clara a incapacidade das exportações alemãs competirem com as chinesas.
Quanto ao estudo de 2009 encomendado pela Comissão Europeia é evidente que toma o que acabei de descrever como referência mas que o "retoca" convenientemente: basta notar que, onde o estudo alemão que descrevi afirma que havia na Alemanha em 2004 157 mil empregos (directos e indirectos) associados às renováveis, este diz que havia o dobro, 320 mil! E diz que em Portugal já havia então mais de 50 mil, o que até faz empalidecer os 30 mil recentemente alegados para o presente pelo nosso Governo...
Em todo o caso, estes trabalhos têm um dado muito útil: uma boa estimativa do "multiplicador de emprego" das renováveis, ou seja, o quociente do número de empregos directos + indirectos sobre o de directos, o qual se no estudo alemão de 2007 é de 2.3, no europeu é menor que 2 - o que vem, portanto, comprovar as colossais fantasias que nesta matéria têm sido propaladas pela APREN, pelo Governo e sobretudo pelo Sr. Aníbal Fernandes!...
Entretanto e voltando ao NREL, um Laboratório cujas publicações técnicas sobre renováveis consulto há muitos anos com agrado pelo seu rigor e qualidade, é evidente que as conclusões que retira das referências feitas aos estudos económicos europeus que acabei de descrever são polarizadas, por induzirem uma ideia sobre o que eles contêm que não é a que realmente lá está.
Não admira, por isso, que este relatório tenha suscitado fortes suspeitas de venalidade, algo que os americanos não toleram num organismo público sustentado pelos seus impostos, e isso conduziu à criação de uma Comissão de investigação sobre ligações do NREL ao lobby eólico que pediu, até, aos Tribunais, acesso aos emails trocados com empresas deste sector.
A acesa batalha que se trava nos EUA em torno desta questão pode ser seguida em vários blogs e jornais, como por exemplo neste blog aqui e neste jornal.
Entretanto e significativamente, ninguém menciona o demolidor estudo dinamarquês, do país campeão da energia eólica, onde esta nasceu há já quase um século e sede do maior fabricante mundial de aerogeradores...
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quarta-feira, abril 14, 2010
Urânio a preço de saldos - II
Há pouco mais de 2 semanas saudei o novo acordo de desarmamento nuclear entre os EUA e a Rússia com a observação, admito que um pouco cínica, que isto ia transferir mais urânio para re-empobrecimento e uso pacífico em produção de energia e pô-lo a preços de saldo.
Mas o meu cinismo não era descabido: os EUA e a Rússia assinaram hoje novo acordo sobre como vai ser processada essa utilização de 68 toneladas de Plutónio, e vai efectivamente ser para a produção de energia!
Entretanto, simultaneamente, a Cimeira de 47 países para o Nuclear acaba de concordar nos termos requeridos para evitar que "os terroristas tenham acesso ao plutónio e ao urânio enriquecido necessários para fazer armas". Trata-se de um acordo há muito encarado como pré-requisito para o renascimento mundial do nuclear. Ou seja, e retomando a veia cínica: chegaram a acordo sobre como controlar o comércio mundial das 68 toneladas de Plutónio que entretanto a Rússia e os EUA acordaram converter em energia barata.
Sinal inequívoquo do que há meses anunciei, no rescaldo da Cimeira de Copenhaga: os EUA e a Rússia vão apostar é na tecnologia da energia nuclear (com o Japão, a Coreia, o Brasil e a África do Sul se esta se não desconjuntar), e vão deixar a Alemanha (e os "verdes" europeus) a enfrentarem a sua Estalinegrado eólica/solar contra a China!
Querem apostar?
Mas o meu cinismo não era descabido: os EUA e a Rússia assinaram hoje novo acordo sobre como vai ser processada essa utilização de 68 toneladas de Plutónio, e vai efectivamente ser para a produção de energia!
Entretanto, simultaneamente, a Cimeira de 47 países para o Nuclear acaba de concordar nos termos requeridos para evitar que "os terroristas tenham acesso ao plutónio e ao urânio enriquecido necessários para fazer armas". Trata-se de um acordo há muito encarado como pré-requisito para o renascimento mundial do nuclear. Ou seja, e retomando a veia cínica: chegaram a acordo sobre como controlar o comércio mundial das 68 toneladas de Plutónio que entretanto a Rússia e os EUA acordaram converter em energia barata.
Sinal inequívoquo do que há meses anunciei, no rescaldo da Cimeira de Copenhaga: os EUA e a Rússia vão apostar é na tecnologia da energia nuclear (com o Japão, a Coreia, o Brasil e a África do Sul se esta se não desconjuntar), e vão deixar a Alemanha (e os "verdes" europeus) a enfrentarem a sua Estalinegrado eólica/solar contra a China!
Querem apostar?
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segunda-feira, abril 12, 2010
Em O Público de hoje
Manifestamente necessário
Jorge Vasconcelos, que foi Presidente da ERSE entre 1996 e 2006 e que preside hoje a uma empresa de consultoria para as energias renováveis, publicou no passado dia 5 um artigo de opinião em que critica o anunciado “Manifesto por uma nova política energética em Portugal“ (com o título "Manifestamente errado").
A primeira injusta acusação que Vasconcelos dirige é a de ser um debate partidário, no sentido de partido político ou no de partido desta ou daquela forma de energia. Ora a múltipla ou ausente coloração política dos signatários do referido documento não justifica a alusão a inscrições partidárias!
Porém, o desejo manifestado por Vasconcelos de um debate sem partido quanto às formas de energia é que se afigura deveras curioso: um tal debate teria sido perfeitamente justificado em 1996 e até 2001, antes do famoso “programa E4” e da decisão do Governo de Guterres de encher o país de instalações eólicas sem a mínima promoção de estudos sistémicos nem de planeamento estratégico, nem de precaução quanto à incorporação sustentável de valor nacional nessas instalações. Nessa altura, porém e infelizmente, não se ouviu ao então Presidente da ERSE a manifestação desse desejo de debate nacional do assunto! E agora, que são patentes as impossibilidades técnicas e as desastrosas consequências económicas que tal política causou, agora que, como o próprio Vasconcelos reconhece, o actual Governo apresentou a “Estratégia Nacional para a Energia 2020”, sem que sejam conhecidos quaisquer estudos que a fundamentem e em que as metas anunciadas se configuram como o multiplicado desvario do que tem vindo a ser praticado, agora não é justo pedir um “debate sem partido”!
Os signatários do Manifesto têm, de facto, partido, em política energética! Não um partido anti-eólico ou anti-fotovoltaico como afirma Vasconcelos, mas um “partido” contra a falta de planeamento e contra a ideologia como guia de uma política em que a consideração das consequências técnicas e dos custos económicos estão ausentes! Ou seja, por uma base energética capaz de na prática poder contribuir para assegurar a competitividade e sobrevivência da Economia de Portugal. Aparentemente, uma preocupação que Vasconcelos nunca teve enquanto presidiu à ERSE!
No seu artigo, Vasconcelos cita alguns excertos do “Manifesto” para explicar “os erros” que, segundo ele, atestam a “falta de rigor” do mesmo mas que, de facto, demonstram é uma surpreendente incompreensão do comportamento sistémico de uma rede eléctrica por parte de quem foi o Regulador. É o caso, em particular, das suas observações sobre as consequências técnicas da intermitência das energias eólicas e fotovoltaicas, que têm obrigado a dissipar ou a exportar a preço nulo a produção renovável em excesso, ao mesmo tempo que exigem o continuado recurso frequente a importações de Espanha (e à disponibilidade de fontes complementares de energia, em particular de centrais de ciclo combinado que operam com gás natural importado). Vasconcelos afirma que estas afirmações “constituem um completo curto-circuito cerebral” e que se as exportações ocorrem a preço nulo é por ser esse o preço marginal do mercado a essa hora. Ora isto é uma verdade de La Palisse, mas é Vasconcelos que curto-circuita cerebralmente a verdadeira questão: porque se exporta essa energia, então? Porque se exporta uma energia que é paga ao produtor ao elevado preço médio de 9 ç/kWh, se o preço que o mercado está disposto a pagar por ela é nulo? Porque se faz este ruinoso negócio? É esta questão que Vasconcelos curto-circuita, esamoteando que tal ocorre porque a produção dessa energia, a certas horas e certos dias, excede a capacidade de consumo nacional mas não pode ser pura e simplesmente desligada nem se pode reduzir a tarifa subsidiada que desde 2001 é paga aos respectivos produtores, que estão assim completamente imunes às vicissitudes do mercado!
Aliás, Vasconcelos também curto-circuita na sua argumentação o facto desse excesso de energia eólica nem sempre ser exportado a preço nulo e ser pura e simplesmente dissipado (mas pago sempre aos respectivos produtores ao preço fixo referido), como aconteceu por exemplo em Dezembro passado, onde esse excesso de produção alimentou bombagens na central do Alqueva para depois esta ter de abrir as comportas e deixar vazar sem préstimo essa água, e com ela a energia armazenada (e bem paga)!
Por outro lado, além de mostrar não compreender que relativamente às necessidades do diagrama de consumos as mesmas fontes de energia renovável que por vezes produzem em excesso, outras vezes não produzem quase nada e é preciso recorrer a importações ou ao uso de novas e subutilizadas centrais termoeléctricas, o que é um problema técnico de desadaptação da produção intermitente ao diagrama de consumo, Vasconcelos escamoteia que a parcela importada de energia eléctrica anualmente consumida no país tem vindo cronicamente a crescer, contrariando a apregoada independência energética que estas formas de energia proporcionariam. A importação crónica resulta efectivamente da insuficiência da produção renovável nacional, e não de “razões económicas”, como afirma Vasconcelos. Estas determinam é a que horas do dia é essa importação preferencialmente feita, e não o seu saldo global anual!
Finalmente merece resposta a acusação de que “os subscritores do Manifesto não digam uma palavra sobre a ineficiência do Mercado Ibérico de Energia”. Este Mercado poderá não ser eficiente, mas a semelhança das mesmas políticas de subsidiação ruinosa à eólica e à fotovoltaica em ambos os países ibéricos é clara!
Pelo que, à acusação de que o Manifesto é “manifestamente errado”, estes subscritores respondem: que ele era manifestamente necessário!
José Luís Pinto de Sá
Luís Mira Amaral
Jorge Vasconcelos, que foi Presidente da ERSE entre 1996 e 2006 e que preside hoje a uma empresa de consultoria para as energias renováveis, publicou no passado dia 5 um artigo de opinião em que critica o anunciado “Manifesto por uma nova política energética em Portugal“ (com o título "Manifestamente errado").
A primeira injusta acusação que Vasconcelos dirige é a de ser um debate partidário, no sentido de partido político ou no de partido desta ou daquela forma de energia. Ora a múltipla ou ausente coloração política dos signatários do referido documento não justifica a alusão a inscrições partidárias!
Porém, o desejo manifestado por Vasconcelos de um debate sem partido quanto às formas de energia é que se afigura deveras curioso: um tal debate teria sido perfeitamente justificado em 1996 e até 2001, antes do famoso “programa E4” e da decisão do Governo de Guterres de encher o país de instalações eólicas sem a mínima promoção de estudos sistémicos nem de planeamento estratégico, nem de precaução quanto à incorporação sustentável de valor nacional nessas instalações. Nessa altura, porém e infelizmente, não se ouviu ao então Presidente da ERSE a manifestação desse desejo de debate nacional do assunto! E agora, que são patentes as impossibilidades técnicas e as desastrosas consequências económicas que tal política causou, agora que, como o próprio Vasconcelos reconhece, o actual Governo apresentou a “Estratégia Nacional para a Energia 2020”, sem que sejam conhecidos quaisquer estudos que a fundamentem e em que as metas anunciadas se configuram como o multiplicado desvario do que tem vindo a ser praticado, agora não é justo pedir um “debate sem partido”!
Os signatários do Manifesto têm, de facto, partido, em política energética! Não um partido anti-eólico ou anti-fotovoltaico como afirma Vasconcelos, mas um “partido” contra a falta de planeamento e contra a ideologia como guia de uma política em que a consideração das consequências técnicas e dos custos económicos estão ausentes! Ou seja, por uma base energética capaz de na prática poder contribuir para assegurar a competitividade e sobrevivência da Economia de Portugal. Aparentemente, uma preocupação que Vasconcelos nunca teve enquanto presidiu à ERSE!
No seu artigo, Vasconcelos cita alguns excertos do “Manifesto” para explicar “os erros” que, segundo ele, atestam a “falta de rigor” do mesmo mas que, de facto, demonstram é uma surpreendente incompreensão do comportamento sistémico de uma rede eléctrica por parte de quem foi o Regulador. É o caso, em particular, das suas observações sobre as consequências técnicas da intermitência das energias eólicas e fotovoltaicas, que têm obrigado a dissipar ou a exportar a preço nulo a produção renovável em excesso, ao mesmo tempo que exigem o continuado recurso frequente a importações de Espanha (e à disponibilidade de fontes complementares de energia, em particular de centrais de ciclo combinado que operam com gás natural importado). Vasconcelos afirma que estas afirmações “constituem um completo curto-circuito cerebral” e que se as exportações ocorrem a preço nulo é por ser esse o preço marginal do mercado a essa hora. Ora isto é uma verdade de La Palisse, mas é Vasconcelos que curto-circuita cerebralmente a verdadeira questão: porque se exporta essa energia, então? Porque se exporta uma energia que é paga ao produtor ao elevado preço médio de 9 ç/kWh, se o preço que o mercado está disposto a pagar por ela é nulo? Porque se faz este ruinoso negócio? É esta questão que Vasconcelos curto-circuita, esamoteando que tal ocorre porque a produção dessa energia, a certas horas e certos dias, excede a capacidade de consumo nacional mas não pode ser pura e simplesmente desligada nem se pode reduzir a tarifa subsidiada que desde 2001 é paga aos respectivos produtores, que estão assim completamente imunes às vicissitudes do mercado!
Aliás, Vasconcelos também curto-circuita na sua argumentação o facto desse excesso de energia eólica nem sempre ser exportado a preço nulo e ser pura e simplesmente dissipado (mas pago sempre aos respectivos produtores ao preço fixo referido), como aconteceu por exemplo em Dezembro passado, onde esse excesso de produção alimentou bombagens na central do Alqueva para depois esta ter de abrir as comportas e deixar vazar sem préstimo essa água, e com ela a energia armazenada (e bem paga)!
Por outro lado, além de mostrar não compreender que relativamente às necessidades do diagrama de consumos as mesmas fontes de energia renovável que por vezes produzem em excesso, outras vezes não produzem quase nada e é preciso recorrer a importações ou ao uso de novas e subutilizadas centrais termoeléctricas, o que é um problema técnico de desadaptação da produção intermitente ao diagrama de consumo, Vasconcelos escamoteia que a parcela importada de energia eléctrica anualmente consumida no país tem vindo cronicamente a crescer, contrariando a apregoada independência energética que estas formas de energia proporcionariam. A importação crónica resulta efectivamente da insuficiência da produção renovável nacional, e não de “razões económicas”, como afirma Vasconcelos. Estas determinam é a que horas do dia é essa importação preferencialmente feita, e não o seu saldo global anual!
Finalmente merece resposta a acusação de que “os subscritores do Manifesto não digam uma palavra sobre a ineficiência do Mercado Ibérico de Energia”. Este Mercado poderá não ser eficiente, mas a semelhança das mesmas políticas de subsidiação ruinosa à eólica e à fotovoltaica em ambos os países ibéricos é clara!
Pelo que, à acusação de que o Manifesto é “manifestamente errado”, estes subscritores respondem: que ele era manifestamente necessário!
José Luís Pinto de Sá
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