Recentemente, o Ministro da Economia em acumulação de funções anunciou um plano de aposta nas energias renováveis que implicaria a criação de
23 mil empregos e 15,5 biliões de euros de investimento. O plano estará em execução há já 2 anos e é para continuar por mais
6.
A enormidade do investimento anunciado e as implicações que ele terá para o futuro nacional tornam irrecusável o imperativo ético de trazer à discussão pública a bondade desta decisão. Um contributo para essa discussão, até aqui ausente do palco mediático (salvo posições do antigo Ministro da Indústria dos Governos de Cavaco Silva, Mestre Eng.º Mira Amaral), é o que decidi escrever no que acabará por ser um texto longo. Decidi escrevê-lo por partes, para
postar à medida que o tempo mo permita.
Na
parte I, mostrei, historiando, como as
tecnologias da
energia eólica levam tempo a dominar, como é preciso ter estratégias nacionais para atingir esse domínio, que problemas técnicos e que valor acrescentado existe no fabrico de instalações eólicas e, finalmente, como o que Portugal tem feito na matéria peca por um terceiro-mundismo sem sustentabilidade, nomeadamente quanto aos
1800 empregos que estará a criar. Nas
eólicas, que em breve terão esgotado o potencial nacional, terão sido investidos directamente
6,5 a 7 biliões de €, importanto quase tudo e subsidiando fortemente essa importação, num exemplo único no mundo de fomento de indústrias estrangeiras. Àquele investimento haverá ainda que adicionar
1 bilião de €, pelo menos, na expansão de rede necessária para ligar as eólicas à rede eléctrica.
Nesta
parte II, agora, debruçar-me-ei sobre os
projectos hidroeléctricos em curso. Embora estes projectos sejam apresentados como visando o aproveitamento dos
Recursos Hídricos nacionais, objectivo que naturalmente recolhe o apoio consensual dos portugueses, na verdade
a energia de origem hídrica que estes investimentos acrescentam ao país é insignificante e, como demonstrarei,
não é esse o seu objectivo principal.
O objectivo principal dos projectos hidroeléctricos em curso é a criação de reservatórios de energia... eólica, e principalmente energia eólica de Espanha! Mas que, na sua maior parte, vão ficar sem qualquer utilização.
- Os factos dos investimentos hidroeléctricos em curso
Em
2008, começou a ser publicitado o
relançamento do aproveitamento dos recursos hidroeléctricos nacionais, prosseguindo a construção de centrais que tinha sido bloqueada quando em
1995 o f
ilósofo Prof. Doutor
Manuel Carrilho acusou, no Parlamento, o então Ministro da Indústria e ex-especialista da EDP Eng.º
Mira Amaral, de "
barbarismo tecnocrático" por ele defender a barragem de Foz Coa. A barragem, que já estava em plena construção, foi suspensa pelo sub-sequente Governo de Guterres (1995-2001), e as gravuras pré-históricas lá encontradas só podem hoje ser visitadas com marcação prévia e com muita antecedência, como descobrem os ingénuos visitantes a quem ocasionalmente ocorre ir até lá fazer um passeio turístico.
As
8 hidroeléctricas cujo licenciamento foi atribuído já neste ano de
2009 tinham prevista uma potência instalada total, inicialmente, de 941 MW, mas a
potência média esperada, considerando o caudal dos respectivos rios (que não se pode mudar), era de apenas
120,9 MW, menos de
1/8 do que produz
em média a central a carvão de Sines e uns míseros
2,1 % do actual consumo nacional, um valor que apenas dá para cobrir
o aumento de consumo de um único ano (sem recessão), como
bem notou o ambientalista Prof. Doutor Joanaz de Melo.
Recordo que, como
expliquei aqui, é
a potência média que nos dá uma ideia da
energia que uma central eléctrica efectivamente produz, e não a sua "potência instalada", que só é atingida muito ocasionalmente, ao longo do ano.
Dos referidos 941 MW inicialmente previstos para as 8 barragens, quase
metade (424 MW) foram concedidos à espanhola
Iberdrola, concretamente 4 das referidas 8 hidroeléctricas e que se situam na bacia do Tâmega e cuja exploração é inter-dependente.
A
potência média dessas centrais da bacia do Tâmega, porém, era de apenas
59 MW, e há quem diga que mesmo este valor está sobreavaliado em 20%. E, no entanto, a Iberdrola ofereceu no leilão de concessionamento 1 bilião de € por elas, e mais tarde anunciou que afinal vai investir
1,7 biliões de € ali.
Ao mesmo tempo, a
Iberdrola anunciou que vai ampliar a "potência instalada" das referidas centrais dos 424 MW inicialmente previstos para 1135 MW,
mais 711 MW que o valor inicial, sobretudo na barragem de Gouvães!
Por outro lado a
EDP, que ficou com 3 das 8 centrais e quase
metade da potência a instalar inicialmente prevista (444 MW), anunciou também a ampliação desta potência
em mais 263 MW, sobretudo na barragem do Alvito, e os investimentos atingirão, somando valores mencionados na imprensa, cerca de
1,1 biliões de €. Porém,
a potência média destes 3 aproveitamentos, cuja potência instalada atingirá assim os 707 MW, a potência a que realmente é proporcional a
energia de origem hídrica a gerar, será de apenas
50,6 MW.
A última das 8 barragens, Girabolhos, foi atribuída à espanhola
Endesa, para um investimento inicialmente anunciado de 110 milhões de €. Esta barragem tinha prevista uma potência a instalar de 72 MW e uma
potência média (proporcional à energia hídrica disponível) de apenas 11,3 MW, mas também a
Endesa decidiu, já depois de ganha a concessão e similarmente ao que aconteceu com as outras 7 centrais, multiplicar por cinco a potência instalada, para
355 MW! O investimento final é agora indicado como sendo de
360 milhões de €!
Temos assim que, no total das 8 barragens, se estima em apenas
121 MW a potência média de origem hídrica disponível, mas a potência a instalar prevista no Caderno de Encargos, que era de 941 MW, vai ser efectivamente de...
2200 MW! Isto, para um investimento total anunciado (na imprensa) de
3,0 biliões de € (2/3 dos quais espanhois).
Desde já chamo a atenção de um detalhe crucial para entender estes aumentos de potência instalada e que adiante explicarei para que servem: em quase todos os casos os aproveitamentos serão
reversíveis, isto é, as turbinas poderão trabalhar como
bombas hidráulicas, enchendo os reservatórios das albufeiras com água já turbinada, puxada de jusante. Como
comenta encantado o Eng.º Carlos Pimenta, "
põe-se o rio a andar ao contrário"...
Entretanto, a estratégia destes investimentos só se entenderá perfeitamente se se recordar que
a EDP tem em curso o
reforço de potência instalada de outras 8 barragens (Bemposta II, Picote II, Alqueva II, Venda Nova II e III, Salamonde II, Paradela II e Cabril II), aumentando essa potência num total de
2000 MW, e ainda mais duas novas em construção (Ribeiradio e Baixo Sabor, com 244 MW de potência instalada), que adicionarão ao todo apenas uma
potência média de 41,6 MW, para um investimento total de
1,85 biliões de €.
Somando todos estes investimentos, temos que no conjunto se está a falar de
4,85 biliões de € (2,85 da EDP e 2 espanhóis), + 0,55 biliões de € estimáveis de investimentos na rede eléctrica (pela REN), valor igual ao
custo do novo aeroporto ou
4/5 do do TGV (embora no TGV o Estado co-financie 2/5, enquanto das novas hidroeléctricas o Estado tenha recebido 666 milhões de €). A potência instalada total será de
4640 MW, dos quais
4070 reversíveis mas, como mostrarei mais adiante, a
energia de origem hídrica efectivamente produzida por tudo isto não ultrapassará o valor insignificante correspondente à
potência média de 175 MW, menos do que produz um só dos 4 geradores da central a carvão de Sines. Na verdade, não é para
esta energia que isto tudo está a ser feito, como ficará patente.
- Quantos empregos? Milhares, só durante a construção dos aproveitamentos...!
As centrais hidroeléctricas, quando em exploração normal, ocupam muito pouca mão-de-obra porque hoje em dia são automatizadas e tele-comandadas. Fora alguns guardas e pessoal de manutenção permanente, as centrais não precisam de operadores, e dos 18 empreendimentos em curso só 10, como vimos, são inteiramente novos. O número de empregos permanentes criados por estas novas centrais não irá ultrapassar sensivelmente
uma centena.
Já durante a construção dos aproveitamentos haverá uma utilização intensiva de mão-de-obra, mas o tempo de construção de cada um é, em média, cerca de
4 anos. Trata-se em grande parte de mão-de-obra temporária e deslocada para as empreitadas que, no auge da construção, atinge tipicamente o
milhar. Assim, e à média de mil homens por 3 anos e por cada aproveitamento, tem-se que todos os empreendimentos somados poderão ocupar
directamente, como ordem de grandeza,
6 mil trabalhadores durante 9 anos (2007-2016). Mas, dadas as condições de trabalho em causa (temporário, duro, e exigindo a deslocação para locais isolados), é muito provável que essas condições atraiam sobretudo
trabalhadores imigrantes, considerando ainda que o ordenado típico oferecido para o pessoal não-qualificado nesta construção civil é de 550 € mensais com contratos por 3 anos (a duração típica da fase mais intensiva de cada obra).
Além destes quiçá
seis mil empregos temporários, é frequente considerar que
por cada um são criados 3 outros indirectos - obviamente, também só durante a construção dos empreendimentos. Parte destes empregos poderão estar nos serviços de apoio aos próprios trabalhadores deslocados (restaurantes, hospedarias), mas a maioria estará nas indústrias fornecedoras dos materais para os empreendimentos - cimenteiras, fábricas de equipamento eléctrico e mecânico, etc. Se, como é provável, houver uma situação de quebra de encomendas nessas indústrias devida à recessão em curso, é conjecturável que essas indústrias se encontrem numa situação de sub-ocupação dos recursos produtivos e que, portanto, as encomendas provenientes das barragens se limitem a ajudar a
manter empregos já existentes - e em boa parte nas empresas estrangeiras donde se importem os equipamentos e materiais. Quanto tempo cada um destes empregos é ocupado pelas referidas encomendas é um dado desconhecido, mas certamente será, em média, bem inferior aos 4 anos de duração das obras.
Não deixa de ser verdade, no entanto, que a construção destes empreendimentos sempre incorpora uma maioria de valor acrescentado nacional, ao contrário dos parques eólicos.
- O "reforço de potência" das centrais hidroeléctricas e a energia de origem hídrica que elas produzem
Recentemente,
o Ministro do Ambiente clarificou no Parlamento alguns números actualizados destes projectos, mencionando os aumentos de potência instalada que acabaram por ser decididos pelas "eléctricas" depois da concessão, e associando-lhe um aumento de energia produzida. Esta associação entre a
potência instalada numa central e a
energia que ela produz é extremamente comum mas, como já
expliquei aqui, é uma tremenda confusão, habilmente explorada por alguns e propagada depois por muitos outros (que não sabem Física elementar)!
Numa hidroeléctrica, a
quantidade de energia produzível depende, antes de mais, do caudal do rio, ou seja, da quantidade de água por segundo que nele corre, e é evidente que no Verão há menos água que no Inverno, e que há anos secos e anos chuvosos - mas a
potência instalada da central é projectada para se poder tirar dela o máximo de energia possível, quando for desejável!
E isto leva-nos à seguinte pergunta: basta aumentar a
potência dos geradores de uma central hidroeléctrica, para tirar de um rio mais
energia? Infelizmente a resposta é:
não!
A
energia que se pode tirar de um rio depende do
caudal deste e da
altura da queda de água da barragem. A
energia que aí reside, a
energia primária das hidroeléctricas, é a energia mecânica potencial que, todos o sabemos do ensino secundário, é quantificada pela
massa de água multiplicada pela
altura da sua queda.
A
massa de água depende do caudal natural do rio, e não há nada que possamos fazer para o aumentar, pelo menos continuadamente.
A
altura da queda depende da
altura da barragem, mas esta depois de concessionada também não pode ser aumentada, porque isso iria
alargar muito a albufeira e inundar terras não previstas na concessão.
Por conseguinte, a
energia que a
Iberdrola, a Endesa e a
EDP vão poder tirar destas barragens, essa
energia, ou a
potência média, se preferirem, é praticamente a mesma - aumentem estas "eléctricas" a potência lá instalada ou não! As únicas excepções são algumas centrais que, já antes, não podiam aproveitar toda a água do rio no Inverno - centrais que tinham de "deixar passar" água sem a turbinar em alturas de cheia, quando o rio está muito caudaloso, por insuficiência de turbinas - como é o caso das velhas centrais do
Picote e
Bemposta, no Douro.
O que o "
reforço de potência" permite, na verdade, é turbinar mais água no mesmo tempo - mas isso não aumenta a água disponível no rio, e portanto a
energia!
Por exemplo, suponhamos que o rio tem um caudal de 10 metros cúbicos de água por segundo no Verão, mas de 100 metros cúbicos na época de chuvas; se se tiver potência instalada que chegue, consegue-se turbinar os 100 metros cúbicos por segundo no Inverno, mas no Verão as turbinas só funcionarão a 10% da sua capacidade - a menos que se tenha um reservatório, uma albufeira, onde se armazene a água de modo que se possa então, por exemplo,
fechar as turbinas durante 9 horas e depois, à hora de ponta, a 10ª hora, despejar tudo de uma vez. Que é precisamente para que servem essas albufeiras, ou reservatórios elevados de água, e portanto de
energia! Obviamente a
energia gerada é a mesma, e a diferença está só no ritmo a que isso é feito ao longo do tempo, aquilo a que se chama
potência.
Em regra, se a central não tiver albufeira, a diferença entre o
caudal médio e o caudal de Inverno de um rio é por cá de 1 para 3, e por isso tipicamente a
potência média que a central debita é à volta de
30% da
potência instalada (que é a máxima de que ela é capaz). Se a central tiver albufeira, pode armazenar a água para ser usada nas horas em que mais falte a energia eléctrica, as horas de ponta, e aí já a
potência média da central pode ser de apenas
1/6 da
potência instalada - ou seja, a central poderá ter uma
potência instalada dupla da do caso anterior, mas isso não significa que produza mais
energia, repito, e sim e apenas que pode concentrar essa produção em certas horas.
Espero ter conseguido explicar esta diferença essencial entre
potência instalada e
potência média (a que é proporcional a
energia) aos senhores jornalistas e politólogos!...
Ora, no caso dos investimentos em realização em Portugal, se a
energia de origem hídrica que todos estes investimentos vão produzir é tão pequena (
potência média de 175 MW), e se o
reforço da potência instalada pouco aumenta a
energia hídrica das centrais que já existiam, porque razão, então, se vão investir tantos
biliões adicionais nestas barragens? Porque razão se não constrói uma
potência instalada de até 6 vezes essa
potência média de 175 MW, que seria
1100 MW, e em vez disso se vão construir
4640 MW, 4 vezes mais?
A resposta está no facto das turbinas previstas serem
reversíveis, de poderem "
pôr o rio a funcionar ao contrário", e o interesse desse facto explico-o no seguimento - mas, como é óbvio, quaisquer que sejam as turbinas elas não podem aumentar
nem o caudal do rio nem a altura da sua queda, e portanto
não aumentam
a energia de origem hídrica extraível dos rios.
- As turbinas reversíveis e as albufeiras como reservatórios de energia... eólica!
Antes de prosseguir, e só para fixar conceitos, noto que
a energia é sempre a mesma entidade, mas que pode mudar de forma - pode ser
mecânica, na forma de água nas alturas de uma albufeira, mudar para a forma
eléctrica na central e nessa forma ser transportada até aos consumidores - mas, se a central funcionar ao contrário, se as turbinas puderem trabalhar como
bombas hidráulicas, então é possível fornecer
energia eléctrica à central e ela transformá-la de novo em energia mecânica de água nas alturas. Qual o interesse?
Armazenamento! A água contida numa albufeira é energia armazenada que pode ser turbinada de novo, convertendo-se em electricidade, quando convier!
Ora esta utilização da albufeira como reservatório de
energia, carregado pela central eléctrica a funcionar como uma estação de bombagem, é muito útil e de facto usada há muito pelo mundo fora quando existe, algures, uma outra fonte de energia que se queira aproveitar mas que se não possa controlar. É, precisamente, o caso das fontes de energia renovável, muitas vezes. O Sol não ilumina de noite e, portanto, se se quiser aproveitar a
energia solar à noite, é preciso armazenar essa
energia nalgum lado. Pode-se, pois, converter a energia
solar em
eléctrica, transportar essa electricidade até uma hidroeléctrica com turbinas reversíveis, bombar água para cima com essa electricidade, e á noite voltar a turbinar a
água da albufeira, produzindo de novo
electricidade. A albufeira funcionou como
reservatório de energia de origem... solar.
Evidentemente, desde já se pode ver que se quisermos usar energia solar à noite, e só solar, além da central fotovoltaica (já de si caríssima) vamos ter que construir uma estação de armazenamento par tal. Se for muita, justifica-se a dimensão de uma hidroeléctrica com albufeira para a armazenar até á noite... e é exactamente isso que acontece com os aproveitamentos hidroeléctricos em causa, só que não para armazenar
energia de origem solar (por enquanto...), e sim
energia de origem eólica!
Que a reversibilidade das turbinas das novas hidroeléctricas visa o uso destas como reservatórios de energia de origem eólica pode ser confirmado no próprio
Caderno de Encargos oficial dos aproveitamentos e
também aqui e em muitas declarações públicas de entusiastas das renováveis! A questão que interessará saber ao povo, entretanto, é que problema técnico justifica o uso das presentes hidroeléctricas como
reservatórios de energia de origem eólica, e isso é o que vou tentar explicar de seguida, não vos pedindo que saibam Engenharia ou Física mas apenas que consigam perceber uns gráficos simples, extraídos do próprio Caderno de Encargos dos empreendimentos.

Na figura ao lado mostra-se como evoluiu a produção da energia eólica produzida no nosso país num dia típico de
2006. No nosso país, a legislação criada no tempo de Guterres garante aos produtores eólicos a compra pela rede eléctrica de toda a
energia que sejam capazes de produzir, com uma tarifa altamente lucrativa, e por isso eles produzem tudo o que podem. Porém, e como é patente no gráfico, o vento sopra com uma extrema irregularidade, produzindo uma
energia eléctrica muito
intermitente e que não se adequa nada ao diagrama de consumos dos utentes da rede. Ainda por cima, e em média, sopra predominantemente à noite, quando há menos consumos.
Se não houver muita potência eólica instalada na rede, o problema poderá não ter grandes consequências, porque as outras centrais convencionais se encarregarão de filtrar estas irregularidades, especialmente as centrais fáceis de controlar, como as hidroeléctricas e as a gás.
Porém, se
a energia de origem eólica ultrapassar, digamos,
20% do total (o máximo dos máximos internacionalmente considerado como comportável e só atingido na Dinamarca), acontece o que se mostra no gráfico seguinte, previsto já para
2011 em Portugal, data em que a energia eólica atingirá os
25% da produção total nacional, com 5700 MW de potência instalada (e 1400 MW de potência média), o dobro do que se tinha no final de
2008.

Neste diagrama, a
linha vermelha superior assinala o consumo nacional num dia chuvoso. Como se pode ver, a produção de energia supera largamente o consumo, e isso devido sobretudo à produção eólica (
verde alface) que, pelos contratos feitos com os produtores e pela legislação existente, nunca pode ser parada ou reduzida, e que "sopra" predominantemente à noite! Que fazer para equilibrar a produção total com o consumo?
A produção de origem térmica (
verde escuro) pelas "cogerações" (outro negócio semelhante e ainda pior, porque até polui, e de que falarei qualquer dia) também não pode ser parada, nem a das hidroeléctricas sem albufeira (em baixo,
azul marinho), e sempre é precisa alguma térmica convencional para controlar o sistema (
cinzento). Poder-se-ia pensar em exportar para Espanha, mas a Espanha estará nessa altura com um problema semelhante, cheia de "vento" e um consumo de horas mortas!
É aí, já estão a ver, que entram as novas
hidroeléctricas com turbinas reversíveis: para
consumir a energia de origem eólica em excesso, armazenando-a na forma de água nas alturas, como é mostrado na linha azul grossa, em baixo.
Depois, nas horas de maior consumo e menos vento, durante o dia, essa água armazenada é turbinada, e a energia de novo devolvida à rede, juntamente com a que veio propriamente do rio (
zona azul superior a partir das 9 da manhã, por baixo da
linha vermelha do consumo).
Por conseguinte, a necessidade das hidroeléctricas reversíveis resulta de haver energia eólica em excesso, e é a solução para o problema que isso cria. Por um preço extraordinário, como se viu!
E falta acrescentar um detalhe: no ciclo de
bombagem de água para cima da albufeira e depois de novo a sua turbinagem, perde-se energia, por atrito nas condutas de água da central. Concretamente, por
cada 4 kwh que se gastam a bombar a água para cima, só se recuperam 3 kwh depois no retorno da água. A água é a mesma (áparte alguma evaporação da albufeira), mas é preciso aplicar mais "força" para a içar do que a que ela devolve ao descer de novo, por causa dos atritos.
- Serão precisos 2000 MW de potência hidroeléctrica reversível para dar consumo às eólicas, mas vão existir 4900!
A REN fez um estudo sobre quanta potência de bombagem, ou hidroeléctrica revertida, virá a ser precisa para conseguir consumir o
excesso de potência eólica na pior situação, e essa situação é a ilustrada na figura anterior, que mostra que por volta das 5 da manhã será preciso dar vazão a
2000 MW de potência eólica.
Com os novos aproveitamentos e
reforços de potência aprovados a capacidade hidroeléctrica reversível atinge os
4070 MW, mas Portugal já tinha, antes destas novas centrais, cinco hidroeléctricas antigas com capacidade de bombagem ou reversíveis: Aguieira, Alqueva I, Torrão, Vilarinho das Furnas e Alto Rabagão. Estas hidroeléctricas ofereciam já 820 MW de bombagem, pelo que com os novos investimentos o país ficará a dispôr de
4890 MW reversíveis. Ter-se-ão, portanto, quase
2900 MW de hidroeléctricas reversíveis, em grande parte aquelas que foram decididas já depois do concurso das famosas "10" de 2008, cujo propósito é desconhecido.
É possíve, no entanto, conjecturar duas hipóteses alternativas:
- O Governo planeia instalar mais de 3000 MW de energia solar ou de eólicas offshore, para que não se antevê consumo (a menos que se esteja a pensar fechar definitivamente a barata produção a carvão que, no cenário previsto pela REN e como se pode ver pela figura anterior, já se prevê que só funcione metade dos dias em 2011);
- Há um plano oculto de disponibilização das centrais reversíveis portuguesas a Espanha, para dar consumo ao excesso de potência eólica e solar daquele país.
Este último cenário merece algum desenvolvimento.
A Espanha tem, presentemente, 3272 MW de potência hidroeléctrica reversível, e planeia construir em breve mais 1600 MW, em duas centrais. Com estas, atingirá os
4872 MW, por coincidência quase exactamente o mesmo valor que Portugal!
Se se admitir que a potência eólica instalada em Espanha acompanhe a mesma proporção da portuguesa, e atendendo a que o seu consumo de energia eléctrica é 6 vezes o nosso, é conjecturável que ela
venha a precisar de uns 9.000 MW de potência hidroeléctrica reversível para encaixar o seu excesso de produção, para os quais só dispõe de
4900... a menos que os restantes
4100 sejam disponibilizados por Portugal. Isso explicaria os investimentos da Iberdrola e da Endesa nos
1370 MW em Portugal, e a EDP disponibilizaria os restantes
2900 MW que terá em excesso...
A questão final que se põe, entretanto, é de como será remunerada a função de armazenamento de energia pelas hidroeléctricas reversíveis.
Não é difícil fazer umas contas e verificar que a
função de bombagem chega para justificar o investimento destas hidroeléctricas, somando-a à pouca
energia de origem hídrica que poderão produzir, se o preço da energia eléctrica que consumirem para a bombagem for...
grátis! Isto é, se a água que for bombada custar o mesmo que a que vem do rio!
A
rede é que terá de arcar com o custo de pagar aos produtores eólicos a sua desnecessária energia à tarifa contratada, para a vender de borla às hidroeléctricas reversíveis, repercutindo o respectivo prejuízo no défice ou nos consumidores domésticos, claro.
Mas, quanto à energia proveniente de Espanha nestas condições, obtê-la grátis é capaz de ser difícil. E, se ela for paga ao preço de mercado corrente, isso significará que Espanha terá conseguido arranjar uma fórmula para se desfazer da sua energia renovável excedentária transferindo parte do prejuízo para Portugal.
Ora, se as hidroeléctricas reversíveis comprarem a energia eléctrica para bombar água, terão de revendê-la por 4/3 do preço de compra só para não terem prejuízo (devido às perdas por atrito), e nesse caso os respectivos investimentos nunca serão recuperados, aos preços actuais na praça ibérica de energia eléctrica
(3 ç/kwh nas horas mortas e 5 ç/kwh nas horas de ponta)!
Entretanto, em Maio do ano corrente de 2009 Espanha praticamente acabou com a subsidiação da energia renovável, e assim muito dificilmente se ultrapassarão os
20.000 MW de potência eólica instalada lá até ao fim de 2010. Essa potência corresponde à que tínhamos instalado em Portugal até ao Verão transacto (3334 MW), dada a proporção de consumos nos dois países, mas que ainda é só
60% da que o Governo português decidiu subsidiar. Com o fim da subsidiação em Espanha, esta não vai precisar das hidroeléctricas portuguesas para armazenar excessos de energia, porque os seus instaladores, já em grandes coros de protesto, vão parar os seus investimentos - mas Espanha terá parado a tempo de a energia eólica e solar não se tornar lá um encargo totalmente descontrolado!
De uma forma ou de outra, mesmo admitindo que boa parte destes investimentos se justificam pela (pouca) energia que estas hidroeléctricas vão produzir, haverá sempre
2,6 biliões de €, dos quais pelo menos 1,7 biliões de € portugueses (estando os espanhóis a "arder" com 0,95 bilião), que só se justificam por causa dos planos do Governo para a instalação de
energia eólica e que, em bom rigor, deveriam ser imputados a essa
opção eólica, e não às próprias hidroeléctricas!Somados os
2,6 biliões de € destes
investimentos hidroeléctricos aos
6,5-7 biliões que o
investimento das eólicas terá custado quando os 5700 MW estiverem todos no terreno, dentro de um ano ou dois, temos que o custo para o consumidor desta energia ficará pelo menos em 140% do custo ao produtor, ou
11 a 13 ç/kwh -
o quádruplo do que custa a do carvão ou o
triplo da de uma nuclear!...
Por enquanto o consumidor não o sente, porque o operador da rede vai remetendo para o défice, mas alguém terá de vir a pagar isto e é duvidoso que seja o Governo ou as "eléctricas"...
Além disso, se descontarmos aos 175 MW médios de origem hídrica as perdas na bombagem que vão correr nestas hidroeléctricas, poder-se-á afirmar que o seu contributo líquido para a produção de energia nacional deste colossal investimento será muito aproximadamente...
ZERO!