Um dos maiores engenheiros portugueses nascidos no século XX foi, há poucos anos (2007), agraciado com a Ordem do Mérito Científico pelo Presidente da República... do Brasil!
Trata-se de Carlos Portela, em tempos Catedrático do Instituto Superior Técnico e que deixou o país durante o PREC. Para quem quiser conhecer a sua história, pode encontrá-la nesta entrevista que deu em 2006.
Nunca conheci pessoalmente o Prof. Portela, mas estudei pelos apontamentos que deixou na sua escola e que me marcaram profundamente pelo seu rigor intocável. E partilho com ele a procura do equilíbrio entre a vida universitária e a actuação profissional fora dela, com a mesma opinião de que "se uma pessoa se restringe à Academia, perde a noção da realidade. Mas se apenas actua no mercado, perde a preocupação com o rigor".
Opinião que, nestes tempos de avanço do controlo político total sobre a Universidade, é cada vez mais uma contra-corrente.
Na entrevista que hyperlinkei e que vos recomendo, sobretudo aos que ainda são estudantes, Portela insurge-se contra o culto das normas mal-feitas, e acusa: "no Brasil, se o sujeito mata cem pessoas mas para isso calculou segundo as normas, não há problema nenhum. Ou seja, usam as normas para se absterem das responsabilidades".
Ora remar assim contra corrente de normas feitas por comités internacionais requer um tipo de espírito de rigor, de insubmissão de pensamento e de amor ao bem público que é raro. Mas Portela nunca foi uma pessoa fácil.
E isto traz-me a um problema existente em Portugal que é exactamente igual ao que Portela critica no Brasil. É uma questão que vou ter de abordar com algum tecnicismo, o que sempre tenho evitado neste blogue, mas não vejo alternativa a isso.
Nas redes eléctricas, é frequente terem de se fazer trabalhos de manutenção em linhas aéreas e outros equipamentos de alta tensão. Para o efeito existem normas de segurança que são quase uma trancrição de normas europeias e que estão minuciosamente detalhadas em diversos regulamentos e manuais das nossas empresas de electricidade. E, no entanto, praticamente todos os anos há algumas mortes em acidentes em trabalho destes.
Em regra, as nossas empresas de electricidade atribuem tais funestos eventos ao incumprimento das normas, e em alguns casos isso sucede. Mas o facto é que mesmo cumprindo essas normas os acidentes são frequentemente fatais, porque o que acontece é que as normas estão erradas. As portuguesas e as europeias em que elas se baseiam.
Basicamente, o problema técnico é o seguinte: as normas mandam ligar à terra os equipamentos susceptíveis de ficarem em tensão durante os referidos trabalhos, de um lado e do outro do equipamento onde o trabalho de manutenção decorra. E isso está errado, porque as tais ligações à terra têm sempre uma resistência eléctrica tal que são praticamente inúteis.
O que se deve fazer é precisamente o contrário: é ligar o ponto onde o trabalhador se mova aos equipamentos susceptíveis de ficarem em tensão, de modo a criar o que os anglo-saxónicos denominam de "zona equipotencial de trabalho".
Isto foi estudado nos EUA há já uns 40 anos e é praticado lá, na Nova Zelândia, na Austrália, etc. Mas claro que afirmar que os comités normalizadores nacionais e europeus estão errados é, mais uma vez, ir contra a corrente...
terça-feira, agosto 17, 2010
sexta-feira, agosto 06, 2010
O outro grande líder
Há 40 anos, durante a Primavera marcelista, quem chegava das províncias do Império à Universidade em Lisboa encontrava uma efervescência de ideias, discussões e preocupações no movimento estudantil que eram mais instrutivas que as escolas propriamente ditas. Começava pelo próprio vocabulário, e estendia-se à largueza de horizontes.
As Associações de Estudantes do Técnico (IST) e de Económicas (ISEG) eram um viveiro de activistas e pensadores que produziam textos como o "Contra a Fábrica", onde se aprendia o que eram o taylorismo e o fordismo, onde o modelo de uma sociedade livre dos valores consumistas em que tínhamos sido educados, e que rejeitávamos, era a China da Revolução Cultural - um lugar onde só havia dois tipos de fatos, o cinzento e o azul, onde a diferença máxima de salários era de 2 para 1, onde as pessoas se moviam por ideais e não pela busca mesquinha de mais um carro ou electrodoméstico, e onde quem mandava eram os jovens idealistas como nós - os guardas vermelhos!
China maoísta onde havia debates acesos, mas não se levava os opositores à cave para levarem um tiro na nuca como na Rússia revisionista - apenas se passeava a vítima pela cidade com um cartaz no peito e a malta à volta a gritar-lhe aos ouvidos a linha justa até ele se convencer. Um mundo fascinante!...
Claro que tudo isso foi uma ilusão, mas ainda hoje gosto de lembrar que a diferença entre a Revolução russa e a chinesa se podia resumir na forma como ambas trataram os respectivos monarcas depostos: na Rússia, o Czar, a família e até a respectiva criadagem foram todos mortos numa cave, a tiro e à baioneta, mas na China o Imperador foi reeducado e convertido em guia do palácio imperial de que outrora fora o dono, e que agora pertencia ao povo.
Vem tudo isto a propósito de que esse movimento estudantil de há 40 anos em Lisboa tinha dois fantásticos pensadores e líderes, que aliás em regra estavam de acordo e que eram ouvidos em completo embevecimento pelos caloiros como eu: os dirigentes das Associações de Estudantes do Técnico e sobretudo de Económicas, respectivamente o Zé Mariano e o Félix Ribeiro.
Do Zé Mariano todos sabemos o percurso que seguiu.
Mas do Félix Ribeiro sabemos em geral menos, porque ele se apagou. Apagou-se como político mas não como pensador, como o atesta esta extraordinária entrevista que vivamente vos recomendo:
Público - A Europa vai ser comprada pela China e pelos príncipes árabes
As Associações de Estudantes do Técnico (IST) e de Económicas (ISEG) eram um viveiro de activistas e pensadores que produziam textos como o "Contra a Fábrica", onde se aprendia o que eram o taylorismo e o fordismo, onde o modelo de uma sociedade livre dos valores consumistas em que tínhamos sido educados, e que rejeitávamos, era a China da Revolução Cultural - um lugar onde só havia dois tipos de fatos, o cinzento e o azul, onde a diferença máxima de salários era de 2 para 1, onde as pessoas se moviam por ideais e não pela busca mesquinha de mais um carro ou electrodoméstico, e onde quem mandava eram os jovens idealistas como nós - os guardas vermelhos!
China maoísta onde havia debates acesos, mas não se levava os opositores à cave para levarem um tiro na nuca como na Rússia revisionista - apenas se passeava a vítima pela cidade com um cartaz no peito e a malta à volta a gritar-lhe aos ouvidos a linha justa até ele se convencer. Um mundo fascinante!...
Claro que tudo isso foi uma ilusão, mas ainda hoje gosto de lembrar que a diferença entre a Revolução russa e a chinesa se podia resumir na forma como ambas trataram os respectivos monarcas depostos: na Rússia, o Czar, a família e até a respectiva criadagem foram todos mortos numa cave, a tiro e à baioneta, mas na China o Imperador foi reeducado e convertido em guia do palácio imperial de que outrora fora o dono, e que agora pertencia ao povo.
Vem tudo isto a propósito de que esse movimento estudantil de há 40 anos em Lisboa tinha dois fantásticos pensadores e líderes, que aliás em regra estavam de acordo e que eram ouvidos em completo embevecimento pelos caloiros como eu: os dirigentes das Associações de Estudantes do Técnico e sobretudo de Económicas, respectivamente o Zé Mariano e o Félix Ribeiro.
Do Zé Mariano todos sabemos o percurso que seguiu.
Mas do Félix Ribeiro sabemos em geral menos, porque ele se apagou. Apagou-se como político mas não como pensador, como o atesta esta extraordinária entrevista que vivamente vos recomendo:
Público - A Europa vai ser comprada pela China e pelos príncipes árabes
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sábado, julho 31, 2010
Uma nota sobre os carros eléctricos e outra sobre a vaga de calor
Depois de ontem ter aqui comentado a indignação do ingénuo (ou ignorante) público que esperava que os novos automóveis eléctricos viessem baratos e está a descobrir que custam o dobro dos seus concorrentes a gasolina (antes de impostos), vale a pena dar notícia de uma reunião nos últimos dias em Detroit de responsáveis da indústria automóvel com representantes do Governo americano.
Segundo a Scientific American, que publica a notícia, em Detroit, a "capital do mundo das baterias" (os americanos gostam destes exageros, especialmente tendo em conta que quem domina a tecnologia das novas baterias é o Japão), já foram investidos uns 6 biliões de dólares na indústria de baterias, somando os investimentos privados às ajudas do Estado. Mas, segundo a notícia, a indústria quer mais subsídios do Estado e avisa que se não houver mercado para os novos automóveis os investidores privados se "irão embora". E como ao preço e autonomia a que vêm não se vislumbra procura pelo mercado civil, que pede a indústria? Que o próprio Estado compre os carros - para os correios, o exército, etc...
Entretanto, o Nissan Leaf só deverá aparecer por cá já 2011 irá bem adiantado. Ou muito me engano ou ainda havemos de ver os "pontos de abastecimento" da EDP ganharem ferrugem antes de terem sido utilizados...
Entretanto, logo que chegam dias de calor como os actuais, imediatamente os ecotópicos de serviço nos media começam a gritar que a culpa é do efeito de estufa, que aí está a prova do aquecimento global, que os glaciares e o Ártico estão a derreter, etc. Claro que os gelos derretem todos os Verões, especialmente em dias de calor como este. E depois voltam a congelar quando voltar o frio, no Inverno, como acontece todos os anos. Mas disso já os ecotópicos não falam...
Ora especialmente nestas alturas, jogando com a memória curta das pessoas e acicatando alarmes a que as gentes, incomodadas com a vaga de calor, estão mais susceptíveis, aparecem as notícias a dizer que estamos no "ano mais quente do século", que "ontem foi o dia mais quente desde há não sei quantas décadas" e outros alarmes que, como diz Medina Carreira, fariam Goebells sentir-se um menino de coro quanto a técnicas de manipulação de massas.
Segundo a Scientific American, que publica a notícia, em Detroit, a "capital do mundo das baterias" (os americanos gostam destes exageros, especialmente tendo em conta que quem domina a tecnologia das novas baterias é o Japão), já foram investidos uns 6 biliões de dólares na indústria de baterias, somando os investimentos privados às ajudas do Estado. Mas, segundo a notícia, a indústria quer mais subsídios do Estado e avisa que se não houver mercado para os novos automóveis os investidores privados se "irão embora". E como ao preço e autonomia a que vêm não se vislumbra procura pelo mercado civil, que pede a indústria? Que o próprio Estado compre os carros - para os correios, o exército, etc...
Entretanto, o Nissan Leaf só deverá aparecer por cá já 2011 irá bem adiantado. Ou muito me engano ou ainda havemos de ver os "pontos de abastecimento" da EDP ganharem ferrugem antes de terem sido utilizados...
Entretanto, logo que chegam dias de calor como os actuais, imediatamente os ecotópicos de serviço nos media começam a gritar que a culpa é do efeito de estufa, que aí está a prova do aquecimento global, que os glaciares e o Ártico estão a derreter, etc. Claro que os gelos derretem todos os Verões, especialmente em dias de calor como este. E depois voltam a congelar quando voltar o frio, no Inverno, como acontece todos os anos. Mas disso já os ecotópicos não falam...
Ora especialmente nestas alturas, jogando com a memória curta das pessoas e acicatando alarmes a que as gentes, incomodadas com a vaga de calor, estão mais susceptíveis, aparecem as notícias a dizer que estamos no "ano mais quente do século", que "ontem foi o dia mais quente desde há não sei quantas décadas" e outros alarmes que, como diz Medina Carreira, fariam Goebells sentir-se um menino de coro quanto a técnicas de manipulação de massas.
Uma das atoardas que têm sido lançadas é que o Inverno passado, que toda a gente sentiu no Hemisfério norte como tendo sido excepcionalmente rigoroso, foi dos mais quentes de sempre. Tem, por isso, razão de ser mencionar aqui a discussão sobre o assunto surgida agora na Scientific American, específicamente sobre o facto do Inverno passado ter sido aquele em que mais nevou desde que há registos nos Estados norte-americanos de Leste. Não, não foi um arrefecimento global! Foi uma combinação normal de efeitos regionais e periódicos do clima - em particular uma combinação das oscilações do El Niño e da variação períódica do clima nórdico.
Claro que as variações do clima em pequenas escalas de tempo são normais! E por aí se vê como é manipuladora a publicidade feita por cá ao facto de a temperatura dos dias mais quentes do ano ter subido ligeiramente em Lisboa nos últimos anos, depois de entretanto ter descido nos anos anteriores (coisa que esses propagandistas se esquecem sempre de referir)...!
Uma interessante investigação sobre a evolução da temperatura em Lisboa pode ser lida aqui. Em Lisboa, como em todas as grandes cidades, a construção reduz a velocidade do vento o que, por sua vez, tende a conservar o calor gerado pelas próprias actividades da cidade. Por isso a temperatura média na cidade é mais de 2ºC superior à dos seus arredores, como é normal.
Nota: não nego que esteja em curso um aquecimento global, e até que a actividade humana tenha nisso alguma responsabilidade. Mas não exageremos!...
Nota: não nego que esteja em curso um aquecimento global, e até que a actividade humana tenha nisso alguma responsabilidade. Mas não exageremos!...
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sexta-feira, julho 30, 2010
Os novos automóveis eléctricos - a realidade que se vai desvendando
Nos EUA, a General Motors (ainda há 20 anos o maior construtor mundial de automóveis, lugar hoje ocupado pela Toyota), acaba de desvendar as características do seu Chevrolet Volt, um dos vários automóveis eléctricos anunciados para breve por alguns fabricantes preocupados em estar nas boas graças da política correcta.
O Volt vem ao preço de 41ooo USD (cerca de 30 mil €), antes de impostos e, como nota o New York Times, tem menos espaço interior que o seu equivalente não-eléctrico, o Chevrolet Cruze, que custa... 12,7 mil €!
Mas o que mais escandaliza o New York Times é que a General Motors recebeu biliões de USD de subsídios governamentais para o desenvolvimento deste carro, e que mesmo assim o vende a este preço, em vez de fazer como a Toyota, que internalizou os custos de promoção do seu Prius, o primeiro automóvel híbrido do mundo, lançado já já 13 anos, e que começou por ser vendido a 17 mil USD apesar do seu custo de produção para a Toyota ser de 32 mil USD!...
A Toyota já vai na 3ª versão do Prius, cada vez mais perfeito e já a ser vendido sem prejuízo, mas a General Motors, como explica o New York Times, não tem efectivamente intenção de fazer negócio com o seu automóvel eléctrico: limitou-se a fazer o frete ao Governo americano e a sacar os subsídios (o que não a impediu de entretanto falir), que é o que escandaliza o jornal, dada a inviabilidade do carro a este preço.
Mas, na realidade, o Volt da GM não é puramente eléctrico, mas sim híbrido como o Prius. Se fosse puramente eléctrico, como o Nissan Leaf de que já dei aqui notícia, custaria menos 6 mil € (ainda assim o dobro do seu equivalente a gasolina pura, o Cruze), mas só teria autonomia para 65 km, e enquanto a bateria fosse nova...!
Veremos como se desenrola este "filme" com os outros construtores da vanguarda eléctrica.
Entretanto e apesar de muito menos propagandeada, dado o seu muito menor impacto político, já existe uma opção de locomoção eléctrica individual razoavelmente competitiva. Trata-se de uma opção baseada num veículo de massa e velocidade reduzidas, e portanto de limitada energia cinética, vocacionado para distâncias urbanas relativamente curtas e suficientemente pequeno para se poder parquear facilmente perto de alguma tomada de electricidade: a lambreta, ou motorizada eléctrica. Embora, de energia verdadeiramente renovável, só a velha bicicleta desmotorizada...
O Volt vem ao preço de 41ooo USD (cerca de 30 mil €), antes de impostos e, como nota o New York Times, tem menos espaço interior que o seu equivalente não-eléctrico, o Chevrolet Cruze, que custa... 12,7 mil €!
Mas o que mais escandaliza o New York Times é que a General Motors recebeu biliões de USD de subsídios governamentais para o desenvolvimento deste carro, e que mesmo assim o vende a este preço, em vez de fazer como a Toyota, que internalizou os custos de promoção do seu Prius, o primeiro automóvel híbrido do mundo, lançado já já 13 anos, e que começou por ser vendido a 17 mil USD apesar do seu custo de produção para a Toyota ser de 32 mil USD!...
A Toyota já vai na 3ª versão do Prius, cada vez mais perfeito e já a ser vendido sem prejuízo, mas a General Motors, como explica o New York Times, não tem efectivamente intenção de fazer negócio com o seu automóvel eléctrico: limitou-se a fazer o frete ao Governo americano e a sacar os subsídios (o que não a impediu de entretanto falir), que é o que escandaliza o jornal, dada a inviabilidade do carro a este preço.
Mas, na realidade, o Volt da GM não é puramente eléctrico, mas sim híbrido como o Prius. Se fosse puramente eléctrico, como o Nissan Leaf de que já dei aqui notícia, custaria menos 6 mil € (ainda assim o dobro do seu equivalente a gasolina pura, o Cruze), mas só teria autonomia para 65 km, e enquanto a bateria fosse nova...!
Veremos como se desenrola este "filme" com os outros construtores da vanguarda eléctrica.
Entretanto e apesar de muito menos propagandeada, dado o seu muito menor impacto político, já existe uma opção de locomoção eléctrica individual razoavelmente competitiva. Trata-se de uma opção baseada num veículo de massa e velocidade reduzidas, e portanto de limitada energia cinética, vocacionado para distâncias urbanas relativamente curtas e suficientemente pequeno para se poder parquear facilmente perto de alguma tomada de electricidade: a lambreta, ou motorizada eléctrica. Embora, de energia verdadeiramente renovável, só a velha bicicleta desmotorizada...
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segunda-feira, julho 26, 2010
A Europa sozinha com a sua política energética
Esta semana o Senado norte-americano desistiu da proposta da Administração Obama para criar uma multa sobre as emissões de gases de efeito de estufa e promover o uso de energias renováveis.
A nossa imprensa mal falou nisso, e quando falou foi para desvalorizar o facto dizendo que se tratou de um mero "adiamento para o Outono".
Mas, na verdade, a notícia tem um significado brutal que os nossos ecotópicos não estão interessados que se alcance: a Administração Obama não se limitou a "adiar para o Outono" a sua proposta climática: pura e simplesmente desistiu dela!
E desistiu dela por que a prioridade americana é o relançamento económico e porque nos EUA não há apoio popular para estas medidas (a propaganda "green" que impera por cá, lá tem contraditório)!
E, com isto, como notam do outro lado do Atlântico mais a Sul, "é zero a chance de um acordo internacional contra emissões no México". O que isto quer simplesmente dizer, e que é o que os nossos ecotópicos se esforçam para que não percebamos, é que as propostas europeias para Copenhaga estão mortas!
A Europa está sozinha!
Coisa que, afinal, tenho vindo a notar desde antes ainda da cimeira de Copenhaga...
Um dos evidentes sinais da falta de vontade americana para mudar radical e rapidamente o seu modo de vida é a insistência que tanto os relatórios do EPRI, como os da Academia de Ciências dos EUA, fazem quanto à necessidade de desenvolvimento das tecnologias do "carvão limpo" (captura e enterramento do CO2 emitido pelas centrais eléctricas a carvão).
Nos EUA o carvão é responsável por quase metade da electricidade produzida (mundialmente é-o por 40%, e na China é por mais de 2/3), mas as centrais eléctricas a carvão são consideradas responsáveis por 1/4 de todo o CO2 emitido pela queima de combustíveis fósseis, embora esta queima em si mesma só seja responsável por metade de toda a actividade humana geradora de Gases de Efeito de Estuda, como já tenho notado aqui e aqui.
O problema é que, como explica o referido relatório da Academia das Ciências dos EUA, o carvão americano é barato e as suas reservas dão pelo menos para mais um século! Compreende-se, por isso, as renitências americanas relativamente ao abandono do carvão e a insistência na sua manutenção, embora "limpo".
Só que há um problema grave: é que, no estado actual da tecnologia, não há nenhuma solução comprovada com viabilidade técnica, e menos ainda económica, para a "captura e enterramento do CO2" em grande escala! E, portanto, ainda que os EUA e também a China, e a Índia, vão falando no "carvão limpo" para de daqui a 10 a 20 anos, entretanto o que é certo e garantido é que vão continuar a usar o carvão sujo, e que a única forma de produção de energia que com ele pode competir é a nuclear - se conseguir demonstrar, com a nova 3ª geração das próximas centrais em construção, que mantém a competitividade económica ao mesmo tempo que garante a segurança!
Entretanto a Europa oficial, a do longínquo Governo de Bruxelas, persiste no seu devaneio de "liderança mundial" de um sonho de desindustrialização e bem estar ecológico que é, de facto, uma utopia - sobretudo quando extrapolada para a restante Humanidade que quer ascender ao bem-estar da sociedade industrial. Uma ecotopia, de facto.
A nossa imprensa mal falou nisso, e quando falou foi para desvalorizar o facto dizendo que se tratou de um mero "adiamento para o Outono".
Mas, na verdade, a notícia tem um significado brutal que os nossos ecotópicos não estão interessados que se alcance: a Administração Obama não se limitou a "adiar para o Outono" a sua proposta climática: pura e simplesmente desistiu dela!
E desistiu dela por que a prioridade americana é o relançamento económico e porque nos EUA não há apoio popular para estas medidas (a propaganda "green" que impera por cá, lá tem contraditório)!
E, com isto, como notam do outro lado do Atlântico mais a Sul, "é zero a chance de um acordo internacional contra emissões no México". O que isto quer simplesmente dizer, e que é o que os nossos ecotópicos se esforçam para que não percebamos, é que as propostas europeias para Copenhaga estão mortas!
A Europa está sozinha!
Coisa que, afinal, tenho vindo a notar desde antes ainda da cimeira de Copenhaga...
Um dos evidentes sinais da falta de vontade americana para mudar radical e rapidamente o seu modo de vida é a insistência que tanto os relatórios do EPRI, como os da Academia de Ciências dos EUA, fazem quanto à necessidade de desenvolvimento das tecnologias do "carvão limpo" (captura e enterramento do CO2 emitido pelas centrais eléctricas a carvão).
Nos EUA o carvão é responsável por quase metade da electricidade produzida (mundialmente é-o por 40%, e na China é por mais de 2/3), mas as centrais eléctricas a carvão são consideradas responsáveis por 1/4 de todo o CO2 emitido pela queima de combustíveis fósseis, embora esta queima em si mesma só seja responsável por metade de toda a actividade humana geradora de Gases de Efeito de Estuda, como já tenho notado aqui e aqui.
O problema é que, como explica o referido relatório da Academia das Ciências dos EUA, o carvão americano é barato e as suas reservas dão pelo menos para mais um século! Compreende-se, por isso, as renitências americanas relativamente ao abandono do carvão e a insistência na sua manutenção, embora "limpo".
Só que há um problema grave: é que, no estado actual da tecnologia, não há nenhuma solução comprovada com viabilidade técnica, e menos ainda económica, para a "captura e enterramento do CO2" em grande escala! E, portanto, ainda que os EUA e também a China, e a Índia, vão falando no "carvão limpo" para de daqui a 10 a 20 anos, entretanto o que é certo e garantido é que vão continuar a usar o carvão sujo, e que a única forma de produção de energia que com ele pode competir é a nuclear - se conseguir demonstrar, com a nova 3ª geração das próximas centrais em construção, que mantém a competitividade económica ao mesmo tempo que garante a segurança!
Entretanto a Europa oficial, a do longínquo Governo de Bruxelas, persiste no seu devaneio de "liderança mundial" de um sonho de desindustrialização e bem estar ecológico que é, de facto, uma utopia - sobretudo quando extrapolada para a restante Humanidade que quer ascender ao bem-estar da sociedade industrial. Uma ecotopia, de facto.
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terça-feira, julho 20, 2010
A política europeia para o clima e a prevista perda de riqueza de Portugal.
O Expresso on-line deu hoje conta de um artigo de Bjorn Lomborg escrito ontem no Daily Telegraph que, por sua vez, invoca o estudo do economista Richard Tol sobre os custos e os benefícios da política climática europeia - a referência ao artigo desapareceu rapidamente do Expresso (era politicamente incorrecta) , mas quem foi ao link descobre diversos outros artigos interessantes sobre o tema, nomeadamente o próprio artigo original de Richard Tol.
O estudo em questão estima em 1.3% a fatia anual do Produto Europeu Bruto que custará a realização da Directiva europeia "20/20/20", que pretende para 2020 reduzir em 20% o consumo de energia primária europeia relativamente aos valores de 1990 (praticamente os mesmos que em 2010, graças à transferência para a Ásia de muita da actividade produtiva europeia), a emissão de gases de efeito de estufa (GEE), e atingir uma quota de 20% de energia proveniente de fontes renováveis. Este valor de 1.3%, cerca de 210 biliões de € , se não for acompanhado pelo resto do Mundo só permitirá reduzir a temperatura média do planeta em 0,05ºC, um valor tão pequeno que é inferior à própria precisão possível das estimativas da temperatura. O benefício deste resultado é também estimável economicamente, através do custo atribuído à tonelada de CO2 e que mede o custo dos prejuízos ambientais causados por esse CO2.
Para Richard Tol, que pretende neste seu artigo fazer pela primeira vez uma avaliação da relação de custo/benefício da referida política europeia, o referido ganho é estimável em 1/3 do custo necessário para o atingir se o preço da tonelada de CO2 for de 50€ (mas tem estado a 13€ e mesmo as projecções futuristas lhe atribuem geralmente o valor de apenas 20€).
Entretanto, Tol cita um estudo encomendado por Bruxelas sobre o impacto que a Directiva "20/20/20" terá na redução da riqueza dos Estados-membros da União, analisa vários outros, e conclui pelos dados do gráfico que aqui mostro: Portugal, como se pode ver, perderá entre 4.4% e 0.1% do seu rendimento, com o valor mais provável de 1.4%, mas em Espanha, o país mais prejudicado, será pior!
Conclui Bjorn Lomborg: "European leaders should not abandon their commitment to taking action on climate change. But instead of wasting hundreds of billions of Euros on a pointless emissions policy, they should be investing in research and development of green energy alternatives. The reason it costs so much to reduce carbon emissions is that the green alternatives aren’t close to being ready to replace oil and other fossil fuels.”
O estudo em questão estima em 1.3% a fatia anual do Produto Europeu Bruto que custará a realização da Directiva europeia "20/20/20", que pretende para 2020 reduzir em 20% o consumo de energia primária europeia relativamente aos valores de 1990 (praticamente os mesmos que em 2010, graças à transferência para a Ásia de muita da actividade produtiva europeia), a emissão de gases de efeito de estufa (GEE), e atingir uma quota de 20% de energia proveniente de fontes renováveis. Este valor de 1.3%, cerca de 210 biliões de € , se não for acompanhado pelo resto do Mundo só permitirá reduzir a temperatura média do planeta em 0,05ºC, um valor tão pequeno que é inferior à própria precisão possível das estimativas da temperatura. O benefício deste resultado é também estimável economicamente, através do custo atribuído à tonelada de CO2 e que mede o custo dos prejuízos ambientais causados por esse CO2.
Para Richard Tol, que pretende neste seu artigo fazer pela primeira vez uma avaliação da relação de custo/benefício da referida política europeia, o referido ganho é estimável em 1/3 do custo necessário para o atingir se o preço da tonelada de CO2 for de 50€ (mas tem estado a 13€ e mesmo as projecções futuristas lhe atribuem geralmente o valor de apenas 20€).
Entretanto, Tol cita um estudo encomendado por Bruxelas sobre o impacto que a Directiva "20/20/20" terá na redução da riqueza dos Estados-membros da União, analisa vários outros, e conclui pelos dados do gráfico que aqui mostro: Portugal, como se pode ver, perderá entre 4.4% e 0.1% do seu rendimento, com o valor mais provável de 1.4%, mas em Espanha, o país mais prejudicado, será pior!
Conclui Bjorn Lomborg: "European leaders should not abandon their commitment to taking action on climate change. But instead of wasting hundreds of billions of Euros on a pointless emissions policy, they should be investing in research and development of green energy alternatives. The reason it costs so much to reduce carbon emissions is that the green alternatives aren’t close to being ready to replace oil and other fossil fuels.”
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segunda-feira, julho 19, 2010
Ainda sobre o cluster da ENERCON
Há perto de 3 meses comentei aqui o facto de a EDP ter feito a maior encomenda da História de aerogeradores, cerca de 2100 MW deles por cerca de 2,1 mil milhões de euros, à... Vestas dinamarquesa, e não ao cluster "nacional" da ENERCON de Viana do Castelo.
Hoje, o Público, pelo teclado da jornalista Lurdes Ferreira, vem dar conta que essa operação terá zangado imenso o Primeiro-Ministro de Portugal, que terá mesmo ralhado ao CEO da EDP, e o jornal adianta-se depois em divagações sobre porque terá a EDP feito aquela opção.
Entre essas divagações, o jornal aponta, como razões possíveis da opção da EDP:
De facto, e como já notara aqui, sendo a longevidade média das turbinas eólicas de apenas 15 anos, a sua tecnologia nunca chega a amadurecer porque antes disso surge uma nova geração, mais evoluída, que torna a anterior obsoleta. E, presentemente, o estado da arte são as gigantescas turbinas de 3 MW, e até já as há de 6 MW, e já não as de 2 MW que se fabricam em Viana do Castelo!
E por tudo isto, é com pena que vejo a vida ir confirmando o que escrevi há um ano; que "não se vislumbram razões para acreditar que estas fábricas sobrevivam ao esgotamento do mercado nacional das eólicas. Não têm condições de sobrevivência".
Entretanto, a EDP empenhou o país em mais 2 mil milhões de € devidos ao estrangeiro, para um investimento financeiro no estrangeiro com turbinas estrangeiras. E é assim que Portugal é o líder das energias renováveis!...
Hoje, o Público, pelo teclado da jornalista Lurdes Ferreira, vem dar conta que essa operação terá zangado imenso o Primeiro-Ministro de Portugal, que terá mesmo ralhado ao CEO da EDP, e o jornal adianta-se depois em divagações sobre porque terá a EDP feito aquela opção.
Entre essas divagações, o jornal aponta, como razões possíveis da opção da EDP:
- O preço. De facto a EDP conseguiu um desconto de quantidade que lhe conseguiu um preço de cerca de apenas 85% do preço corrente das turbinas. A Vestas, que é de longe o maior fabricante europeu de aerogeradores, só com esta encomenda viu a cotação das suas acções subir 11%!...
- A incapacidade de resposta da ENERCON "nacional". Isto mesmo foi explicado a este blog por um funcionário do referido cluster, que clarificou que o mesmo está dimensionado para fabricar apenas cerca de 200 aerogeradores por ano, o que corresponde às encomendas para o mercado nacional da ENERCON dos anos de 2010, 2011 e 2012. Obviamente! Pois se este "cluster" foi apenas uma pequena e tardia contrapartida pela entrega preferencial do mercado nacional de energia eólica aos alemães, como notei aqui...
- "Dificuldades da ENERCON em garantir entregas nos EUA". Como eu já narrara aqui há um ano, e voltei a falar disso depois, a ENERCON tem um litígio de patentes com os EUA em virtude do que foi proibida de exportar para lá até precisamente 2010! Por causa disso fui vilipendiado pelo dirigente da ENERCON e pela jornalista Lurdes Ferreira, mas factos são factos! Toda a gente pode consultar aqui a decisão judicial americana.
- Inadequação do tipo de turbinas fabricadas em Viana do Castelo à encomenda da EDP. As turbinas de Viana do Castelo são de 2 a 2,3 MW, e a EDP procuraria turbinas de 3 MW...
De facto, e como já notara aqui, sendo a longevidade média das turbinas eólicas de apenas 15 anos, a sua tecnologia nunca chega a amadurecer porque antes disso surge uma nova geração, mais evoluída, que torna a anterior obsoleta. E, presentemente, o estado da arte são as gigantescas turbinas de 3 MW, e até já as há de 6 MW, e já não as de 2 MW que se fabricam em Viana do Castelo!
E por tudo isto, é com pena que vejo a vida ir confirmando o que escrevi há um ano; que "não se vislumbram razões para acreditar que estas fábricas sobrevivam ao esgotamento do mercado nacional das eólicas. Não têm condições de sobrevivência".
Entretanto, a EDP empenhou o país em mais 2 mil milhões de € devidos ao estrangeiro, para um investimento financeiro no estrangeiro com turbinas estrangeiras. E é assim que Portugal é o líder das energias renováveis!...
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quinta-feira, julho 15, 2010
A longevidade das turbinas eólicas
Recentemente, quando confrontado com o facto do período de vigência de 15 anos da tarifa priveligiada dos produtores eólicos em Portugal praticamente coincidir com o tempo de vida das suas turbinas, que seria em média de 20 anos, o Eng.º Carlos Pimenta indignou-se e contou umas das suas habituais histórias de vida, dizendo que havia visto as primeiras turbinas montadas em Portugal em 1988 ainda a funcionar e que o tempo de vida real das eólicas andava pelos 40 anos, como nas centrais tradicionais.
Ora 20 anos é o tempo de vida anunciado pelos próprios construtores, e como que a propósito recebi há pouco umas fotos que andam a circular na net e que certamente são de origem reaccionária, como poderão verificar.
Entretanto e por curiosidade resolvi fazer uma pesquisa sobre os dados de fiabilidade que já haverá sobre as eólicas em exploração por esse mundo fora, embora seja sabido que muitos dos proprietários dos parques escondem essa informação. E encontrei informação séria e de qualidade, por exemplo aqui e aqui.
Ora esta última referência, uma tese de mestrado sueca (a Suécia tem feito extensos estudos de fiabilidade dos parques eólicos) resume a realidade de forma simples: as turbinas são projectadas, de facto, para durarem 20 anos; mas o que a experiência de exploração mostra é que cada nova geração de turbinas sofre de problemas de concepção que lhes reduzem a vida média útil a menos de 20 anos mas que quando ficam resolvidos, com a experiência, aparece entretanto a geração seguinte, mais moderna mas com novos problemas!...
Na Dinamarca, por exemplo, a experiência mostra que o tempo de vida médio das turbinas eólicas é de 15.9 anos, o que dá razão ao argumento de que os 15 anos de vigência das nossas tarifas eólicas praticamente concincide com o seu tempo de vida, e portanto o Pimentinha lá inventou mais uma das dele... :-)
Entretanto, refazendo contas ao custo de investimento das turbinas eólicas para um tempo de vida de 16 anos em vez dos 20 que tenho considerado, verificamos que a energia eólica ainda é mais cara do que o que tenho suposto...
Ora 20 anos é o tempo de vida anunciado pelos próprios construtores, e como que a propósito recebi há pouco umas fotos que andam a circular na net e que certamente são de origem reaccionária, como poderão verificar.
Entretanto e por curiosidade resolvi fazer uma pesquisa sobre os dados de fiabilidade que já haverá sobre as eólicas em exploração por esse mundo fora, embora seja sabido que muitos dos proprietários dos parques escondem essa informação. E encontrei informação séria e de qualidade, por exemplo aqui e aqui.
Ora esta última referência, uma tese de mestrado sueca (a Suécia tem feito extensos estudos de fiabilidade dos parques eólicos) resume a realidade de forma simples: as turbinas são projectadas, de facto, para durarem 20 anos; mas o que a experiência de exploração mostra é que cada nova geração de turbinas sofre de problemas de concepção que lhes reduzem a vida média útil a menos de 20 anos mas que quando ficam resolvidos, com a experiência, aparece entretanto a geração seguinte, mais moderna mas com novos problemas!...
Na Dinamarca, por exemplo, a experiência mostra que o tempo de vida médio das turbinas eólicas é de 15.9 anos, o que dá razão ao argumento de que os 15 anos de vigência das nossas tarifas eólicas praticamente concincide com o seu tempo de vida, e portanto o Pimentinha lá inventou mais uma das dele... :-)
Entretanto, refazendo contas ao custo de investimento das turbinas eólicas para um tempo de vida de 16 anos em vez dos 20 que tenho considerado, verificamos que a energia eólica ainda é mais cara do que o que tenho suposto...
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A batalha pela próxima política energética nacional
A há muito descredibilizada agência nacional informativa LUSA, divulgou sexta-feira que "A utilização da energia nuclear dividiu esta sexta-feira os especialistas ouvidos pelo líder social-democrata Pedro Passos Coelho".
E, como que a confirmar a LUSA, à saída dessa reunião de esclarecimento, o Eng.º Carlos Pimenta terá afirmado aos jornalistas que "o nuclear não cabe em Portugal".
Ora se há coisa que nessa reunião nem sequer foi aflorada, foi o nuclear!
Mais perto da verdade mas em sentido contrário ao da LUSA, o Expresso anunciou a reunião de trabalho como visando discutir as "energias renováveis", e o Eng.º Moreira da Silva, o jovem vice-Presidente do PSD actualmente com o pelouro dessas questões naquele Partido, explicou quais as preocupações que realmente haviam motivado a reunião: a inovação, a regulação, a concorrência, a política de inovação e a fiscalidade.
O Público desta vez também foi exacto, na informação que deu - a jornalista Lurdes Ferreira deve ter ido de férias... :-) - e noticiou que Moreira da Silva considera a aposta na eficiência energética a melhor estratégia nacional, para já.
Na verdade, verificou-se um embate da batalha política pela estratégia energética nacional que opõe os ecotópicos e os seus lobbies de sustento aos portugueses honrados (reutilizando uma velha etiqueta que em tempos usavam os oposicionistas).
Todos concordam com a necessidade de reduzir a dependência do petróleo e as emissões de CO2. Nisso, há um consenso que abarca toda a gente no país.
Onde se situa a divisão é entre os que defendem a consideração de todas as opções tecnológicas (full portfolio) de modo a minimizar o custo das soluções para o povo e a Humanidade, e os que são movidos por preconceitos ideológicos fundamentalistas, só aceitam certas energias renováveis (limited portfolio) e não lhes interessam nem os custos, nem a verdade, nem as pessoas reais.
Nos EUA, onde o debate e a independência de opinião são muito mais ricos que na Europa, esta divisão foi detectada há muito, razão do estudo que o EPRI, a super-estrutura de I&D energética americana, fez em 2007 e actualizou em 2009, pondo em confronto as consequências económicas dessas duas vias e que eu já invoquei aqui e aqui.
Muito recentemente foi publicado um outro estudo, nos finais de 2009, por uma instituição com ainda mais gabarito que o EPRI, a Academia Nacional de Ciências dos EUA, e que aponta para as mesmas conclusões! Pode ser lido gratuitamente on-line aqui, e o seu sumário pode ser descarregado aqui.
O estudo da Academia das Ciências dos EUA (NSA) considera a melhoria da eficiência energética a aposta com resultados mais rápidos e garantidos nos EUA, nos transportes, indústria e sobretudo nos edifícios. Mas, a um horizonte de 10-25 anos, recomenda as apostas nas energias renováveis, no carvão limpo (captura e sequestro do CO2), na energia nuclear e em combustíveis alternativos para os transportes.
Em futuros posts hei-de discutir convosco detalhes do extenso relatório da NSA, mas hoje queria só dizer-vos que esta oposição de ideias em Portugal não parece ser conciliável, dado o fundamentalismo sectário e arrogante dos ecotópicos. Uma conversa que tive com um colega da FEUP num intervalo da referida reunião com Passos Coelho esclarece tudo.
Esse colega abordou-me, comiserado com o que ele e o seu grupo julgam ser o meu reaccionarismo e falta de visão de futuro, e disse-me: "imagina que há 20 anos também tinhas dito a alguém que as protecções digitais não teriam futuro; já viste o erro que terias cometido? Agora estás a fazer o mesmo!".
Acontece que esta história aconteceu realmente, mas ao contrário! Há 20 anos, precisamente, a antecessora da REN encomendou-me um estudo sobre "o estado da arte das tecnologias numéricas em Subestações", como apoio a um projecto que então iniciavam com a indústria nacional, indicando-me pretenderem que eu elucidasse o papel que a Inteligência Artificial iria ter na automatização de Subestações. Pois o resumo do meu estudo foi que a Inteligência Artificial não iria ter papel nenhum, mas que as protecções digitais é que sim! A antecessora da REN não gostou das minhas conclusões, mas foi isso mesmo que aconteceu e o projecto deles com a indústria nacional ficou em águas de bacalhau. Foi essa indústria que depois me envolveu no desenvolvimento das protecções digitais nacionais, projecto que lá realizei na década seguinte.
No caso das "micro-redes" e do fundamentalismo eólico-solar a minha recusa não é tecnológica, mas política, pelas razões que este blog tem vindo a testemunhar!
Tentando contemporizar, disse ao meu colega da FEUP que, embora não acreditasse no futuro das "micro-redes" e "smart grids" associadas em que ele anda envolvido, do ponto de vista de I&D considerava que havia no assunto tecnologias interessantes e que concordava em que se investisse no seu conhecimento, acautelando o futuro. Mas que, pelas mesmas razões de cautela com o futuro, achava que se devia investir também no conhecimento das tecnologias da energia nuclear...
Ora quando falei na energia nuclear o semblante do meu interlocutor crispou-se numa recusa completa. E notem, eu estava só a falar em investir em conhecimento!!!...
Penso que isto resume a natureza deste confronto.
E, como que a confirmar a LUSA, à saída dessa reunião de esclarecimento, o Eng.º Carlos Pimenta terá afirmado aos jornalistas que "o nuclear não cabe em Portugal".
Ora se há coisa que nessa reunião nem sequer foi aflorada, foi o nuclear!
Mais perto da verdade mas em sentido contrário ao da LUSA, o Expresso anunciou a reunião de trabalho como visando discutir as "energias renováveis", e o Eng.º Moreira da Silva, o jovem vice-Presidente do PSD actualmente com o pelouro dessas questões naquele Partido, explicou quais as preocupações que realmente haviam motivado a reunião: a inovação, a regulação, a concorrência, a política de inovação e a fiscalidade.
O Público desta vez também foi exacto, na informação que deu - a jornalista Lurdes Ferreira deve ter ido de férias... :-) - e noticiou que Moreira da Silva considera a aposta na eficiência energética a melhor estratégia nacional, para já.
Na verdade, verificou-se um embate da batalha política pela estratégia energética nacional que opõe os ecotópicos e os seus lobbies de sustento aos portugueses honrados (reutilizando uma velha etiqueta que em tempos usavam os oposicionistas).
Todos concordam com a necessidade de reduzir a dependência do petróleo e as emissões de CO2. Nisso, há um consenso que abarca toda a gente no país.
Onde se situa a divisão é entre os que defendem a consideração de todas as opções tecnológicas (full portfolio) de modo a minimizar o custo das soluções para o povo e a Humanidade, e os que são movidos por preconceitos ideológicos fundamentalistas, só aceitam certas energias renováveis (limited portfolio) e não lhes interessam nem os custos, nem a verdade, nem as pessoas reais.
Nos EUA, onde o debate e a independência de opinião são muito mais ricos que na Europa, esta divisão foi detectada há muito, razão do estudo que o EPRI, a super-estrutura de I&D energética americana, fez em 2007 e actualizou em 2009, pondo em confronto as consequências económicas dessas duas vias e que eu já invoquei aqui e aqui.
Muito recentemente foi publicado um outro estudo, nos finais de 2009, por uma instituição com ainda mais gabarito que o EPRI, a Academia Nacional de Ciências dos EUA, e que aponta para as mesmas conclusões! Pode ser lido gratuitamente on-line aqui, e o seu sumário pode ser descarregado aqui.
O estudo da Academia das Ciências dos EUA (NSA) considera a melhoria da eficiência energética a aposta com resultados mais rápidos e garantidos nos EUA, nos transportes, indústria e sobretudo nos edifícios. Mas, a um horizonte de 10-25 anos, recomenda as apostas nas energias renováveis, no carvão limpo (captura e sequestro do CO2), na energia nuclear e em combustíveis alternativos para os transportes.
Em futuros posts hei-de discutir convosco detalhes do extenso relatório da NSA, mas hoje queria só dizer-vos que esta oposição de ideias em Portugal não parece ser conciliável, dado o fundamentalismo sectário e arrogante dos ecotópicos. Uma conversa que tive com um colega da FEUP num intervalo da referida reunião com Passos Coelho esclarece tudo.
Esse colega abordou-me, comiserado com o que ele e o seu grupo julgam ser o meu reaccionarismo e falta de visão de futuro, e disse-me: "imagina que há 20 anos também tinhas dito a alguém que as protecções digitais não teriam futuro; já viste o erro que terias cometido? Agora estás a fazer o mesmo!".
Acontece que esta história aconteceu realmente, mas ao contrário! Há 20 anos, precisamente, a antecessora da REN encomendou-me um estudo sobre "o estado da arte das tecnologias numéricas em Subestações", como apoio a um projecto que então iniciavam com a indústria nacional, indicando-me pretenderem que eu elucidasse o papel que a Inteligência Artificial iria ter na automatização de Subestações. Pois o resumo do meu estudo foi que a Inteligência Artificial não iria ter papel nenhum, mas que as protecções digitais é que sim! A antecessora da REN não gostou das minhas conclusões, mas foi isso mesmo que aconteceu e o projecto deles com a indústria nacional ficou em águas de bacalhau. Foi essa indústria que depois me envolveu no desenvolvimento das protecções digitais nacionais, projecto que lá realizei na década seguinte.
No caso das "micro-redes" e do fundamentalismo eólico-solar a minha recusa não é tecnológica, mas política, pelas razões que este blog tem vindo a testemunhar!
Tentando contemporizar, disse ao meu colega da FEUP que, embora não acreditasse no futuro das "micro-redes" e "smart grids" associadas em que ele anda envolvido, do ponto de vista de I&D considerava que havia no assunto tecnologias interessantes e que concordava em que se investisse no seu conhecimento, acautelando o futuro. Mas que, pelas mesmas razões de cautela com o futuro, achava que se devia investir também no conhecimento das tecnologias da energia nuclear...
Ora quando falei na energia nuclear o semblante do meu interlocutor crispou-se numa recusa completa. E notem, eu estava só a falar em investir em conhecimento!!!...
Penso que isto resume a natureza deste confronto.
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quarta-feira, julho 14, 2010
E se o Nissan ficar sem bateria?
A Scientific American on-line nota num artigo recente que o primeiro automóvel eléctrico que estará disponível no mercado, em 2011, na verdade disponível em apenas 4 países-cobaias (Japão, EUA, Holanda e Portugal), vai colocar problemas novos aos seus utilizadores.
Como já referi aqui, esse automóvel, o Nissan Leaf, anuncia uma autonomia de 165 km em condições ideais, 140 km em condições reais, que se vai reduzindo anualmente em pelo menos 20%.
Nestas condições, não é improvável que de vez em quando os seus proprietários se vejam confrontados com uma situação que já aconteceu a toda a gente com os autmóveis actuais: ficar parado na estrada sem combustível...
O problema é que, com o automóvel eléctrico, não se poderá recorrer à tradicional solução de apanhar uma boleia até à estação de serviço mais próxima e vir de lá com uma lata de gasolina...
Como já referi aqui, esse automóvel, o Nissan Leaf, anuncia uma autonomia de 165 km em condições ideais, 140 km em condições reais, que se vai reduzindo anualmente em pelo menos 20%.
Nestas condições, não é improvável que de vez em quando os seus proprietários se vejam confrontados com uma situação que já aconteceu a toda a gente com os autmóveis actuais: ficar parado na estrada sem combustível...
O problema é que, com o automóvel eléctrico, não se poderá recorrer à tradicional solução de apanhar uma boleia até à estação de serviço mais próxima e vir de lá com uma lata de gasolina...
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carros eléctricos
domingo, julho 11, 2010
O Magalhães e o eduquês - II
Algumas décadas atrás, nos anos 80, quando estava em curso o Projecto Minerva para a introdução de ferramentas informáticas nos ensinos básico e secundário e as miragens então prometidas pela Inteligência Artificial animaram o grande projecto japonês da 3ª geração de computadores, foi desenvolvida uma linguagem de programação para ensinar o raciocínio lógico a crianças de 8 anos: o LOGOS.
Eu próprio me entusiasmei na altura com a ideia (além de ser grande entusiasta então - e ainda sou, confesso - da Inteligência Artificial), até que li na Spectrum, a revista generalista do IEEE (Institute of Electrical and Electronic Engineers), um primeiro estudo de avaliação do impacto dos computadores na performance educativa das crianças. E o que esse estudo revelava era que os que já eram bons alunos aproveitavam, de facto, estas ferramentas para melhorarem os seus conhecimentos, mas aos outros a informática nada adiantava. O próprio esforço mental que essas ferramentas exigiam os levava a não quererem sequer tirar partido delas!
Claro que viria a procurar instruir os meus filhos tão cedo quanto possível nestas tecnologias do mundo em que iriam viver, mas já na altura sabendo que elas não iriam mudar nada daquilo que realmente separa os instruídos dos que o não são. Não iriam nunca anular, nem sequer reduzir, bem pelo contrário, as diferenças da natureza humana.
É por isso que nunca acreditei nesta ideia bem intencionada de Guterres de que investindo em infra-estruturas de acesso rápido à Internet e em computadores para toda a gente se combateria o analfabetismo funcional dos portugueses. E, claro, nunca acreditei que o Magalhães pudesse ter qualquer outro efeito que o de reforçar a aversão ao trabalho em que a nossa política educativa cultiva os nossos miúdos e o de reforçar a ideia de que para ter coisas é do Estado que as devemos esperar, e não do nosso próprio esforço!
Mais: considero tão absurda a esperança de que dando computadores e Internet a todos os jovens há-de daí resultar uma geração proficiente na economia do conhecimento, como seria a ideia de que distribuindo automóveis a toda a gente daí resultaria uma grande indústria metalo-mecânica nacional!
Já há tempos comentei aqui um estudo americano recente que mostra de novo que o acesso precoce aos computadores pelos jovens não só não os enriquece em nada culturalmente, como os desvia do trabalho e do esforço escolares que são a única verdadeira base de qualquer aprendizagem. E hoje, ao ler o New York Times, encontro mais um estudo rigoroso feito pela Universidade de Chicago sobre os resultados de algo similar ao Magalhães feito na Roménia (com a diferença que lá não houve favores a uma empresa particular, aliás com sérios problemas fiscais): negativo! Os resultados revelam-se negativos, tal como os que haviam sido publicitados recentemente para os próprios EUA: "few children whose families obtained computers said they used the machines for homework. What they were used for — daily — was playing games." Isto é sobretudo verdade para as crianças dos meios mais desfavorecidos, aquelas que o eduquês diz querer promover.
O artigo do NYT para que "linkei" tem ligações para os outros estudos, pelo que deixo ao leitor interessado a respectiva pesquisa, se quiser.
O que mais me espanta é que tudo isto já se sabia há 25 anos, quando os PC ainda estavam nos primórdios! Porque foi tudo esquecido?
E, por falar em experiências antigas, que resultados, que avaliação teve o projecto Minerva?
Há gente que, como se vê, não aprende nada.
E não aprende nada porque o que os move é uma fé de que se há-de encontrar algum milagre, antigamente uma revolução cultural de guardas vermelhos, hoje uma tecnologia, quiçá uma revolução tecnológica, que traga consigo a Grande Igualdade. Fé essa que é imune aos factos.
E para terminar, não cedo à tentação de vos recomendar um excelente texto de Guilherme Valente, o criador da GRADIVA e cavaleiro de uma Távola a que também pertencem Nuno Crato, Paulo Guinot, Maria do Carmo, o blog Rerum Natura e alguns poucos outros, Távola que jurou por missão a luta contra o mal do eduquês: aqui.
Eu próprio me entusiasmei na altura com a ideia (além de ser grande entusiasta então - e ainda sou, confesso - da Inteligência Artificial), até que li na Spectrum, a revista generalista do IEEE (Institute of Electrical and Electronic Engineers), um primeiro estudo de avaliação do impacto dos computadores na performance educativa das crianças. E o que esse estudo revelava era que os que já eram bons alunos aproveitavam, de facto, estas ferramentas para melhorarem os seus conhecimentos, mas aos outros a informática nada adiantava. O próprio esforço mental que essas ferramentas exigiam os levava a não quererem sequer tirar partido delas!
Claro que viria a procurar instruir os meus filhos tão cedo quanto possível nestas tecnologias do mundo em que iriam viver, mas já na altura sabendo que elas não iriam mudar nada daquilo que realmente separa os instruídos dos que o não são. Não iriam nunca anular, nem sequer reduzir, bem pelo contrário, as diferenças da natureza humana.
É por isso que nunca acreditei nesta ideia bem intencionada de Guterres de que investindo em infra-estruturas de acesso rápido à Internet e em computadores para toda a gente se combateria o analfabetismo funcional dos portugueses. E, claro, nunca acreditei que o Magalhães pudesse ter qualquer outro efeito que o de reforçar a aversão ao trabalho em que a nossa política educativa cultiva os nossos miúdos e o de reforçar a ideia de que para ter coisas é do Estado que as devemos esperar, e não do nosso próprio esforço!
Mais: considero tão absurda a esperança de que dando computadores e Internet a todos os jovens há-de daí resultar uma geração proficiente na economia do conhecimento, como seria a ideia de que distribuindo automóveis a toda a gente daí resultaria uma grande indústria metalo-mecânica nacional!
Já há tempos comentei aqui um estudo americano recente que mostra de novo que o acesso precoce aos computadores pelos jovens não só não os enriquece em nada culturalmente, como os desvia do trabalho e do esforço escolares que são a única verdadeira base de qualquer aprendizagem. E hoje, ao ler o New York Times, encontro mais um estudo rigoroso feito pela Universidade de Chicago sobre os resultados de algo similar ao Magalhães feito na Roménia (com a diferença que lá não houve favores a uma empresa particular, aliás com sérios problemas fiscais): negativo! Os resultados revelam-se negativos, tal como os que haviam sido publicitados recentemente para os próprios EUA: "few children whose families obtained computers said they used the machines for homework. What they were used for — daily — was playing games." Isto é sobretudo verdade para as crianças dos meios mais desfavorecidos, aquelas que o eduquês diz querer promover.
O artigo do NYT para que "linkei" tem ligações para os outros estudos, pelo que deixo ao leitor interessado a respectiva pesquisa, se quiser.
O que mais me espanta é que tudo isto já se sabia há 25 anos, quando os PC ainda estavam nos primórdios! Porque foi tudo esquecido?
E, por falar em experiências antigas, que resultados, que avaliação teve o projecto Minerva?
Há gente que, como se vê, não aprende nada.
E não aprende nada porque o que os move é uma fé de que se há-de encontrar algum milagre, antigamente uma revolução cultural de guardas vermelhos, hoje uma tecnologia, quiçá uma revolução tecnológica, que traga consigo a Grande Igualdade. Fé essa que é imune aos factos.
E para terminar, não cedo à tentação de vos recomendar um excelente texto de Guilherme Valente, o criador da GRADIVA e cavaleiro de uma Távola a que também pertencem Nuno Crato, Paulo Guinot, Maria do Carmo, o blog Rerum Natura e alguns poucos outros, Távola que jurou por missão a luta contra o mal do eduquês: aqui.
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educação
sexta-feira, julho 02, 2010
A fusão nuclear fria portuguesa
Uma das histórias mais patéticas sobre devaneios tecnológicos é a do projecto Huemul argentino e da sua alegada descoberta de como controlar a fusão nuclear a frio.
Por alturas da II Guerra Mundial a Argentina era governada por um regime militar populista liderado pelo general Péron (cuja primeira mulher, a lendária Eva Péron, deu azo a uma conhecida ópera-rock protagonizada por Madonna). A Argentina, aliás como Portugal com as conservas, acumulara muito dinheiro com a sua neutralidade na guerra e as exportações de carne, e Péron tinha sonhos de vir a liderar uma grande potência, a "Nova Argentina".
Por outro lado, embora neutral durante a guerra, as simpatias do regime peronista iam assumidamente para a Alemanha, razão pela qual veio a acolher grande número de responsáveis nazis que conseguiram fugir depois da derrota e ocupação militar do seu país.
Um desses refugiados nazis foi o germânico Ronald Ritcher, que pretendia ser capaz de produzir a fusão nuclear de átomos de deutério com ondas de choque de relativa pequena potência - para quem não saiba, o (ainda) sonho do controlo da fusão nuclear é o motivo do gigantesco projecto internacional ITER, a tentar-se lá para 2020, se tudo correr bem - mas a quente!...
Á época em que Ritcher abordou Péron, 1948, a Humanidade trabalhava no controlo da cisão nuclear, que em breve (anos 50) viria a produzir reactores para a produção de energia eléctrica e para a locomoção de submarinos. Mas a fusão nuclear estava fora de hipótese para toda a gente!
Porém, Ritcher conseguiu convencer Péron a financiar uma megalómana instalação secreta numa ilha, prometendo que iria produzir fantásticas quantidades de energia obtidas por fusão nuclear a frio, empacotadas em dois tipos de recipientes, de meio litro e de um litro, até que um dia lhe anunciou ter conseguido os resultados pretendidos, e o Governo argentino anunciou solenemente ao Mundo que "on February 16, 1951, in the... Isla Huemul... thermonuclear reactions under controlled conditions were performed on a technical scale"!
Evidentemente, era uma burla, e o saldo do "projecto Huemul" foi, além de uma vergonha para a Argentina e de um enorme desperdício de meios, um agravamento do atraso científico do país, por todos os recursos terem sido desviados para aquele projecto.
Porque foi possível um mitómano como Ritcher ter convencido Péron a embarcar em tal aldrabice? Primeiro, porque Péron admirava profundamente a competência alemã e acreditava que qualquer coisa que um cientista alemão se propuzesse realizar teria sucesso, e segundo porque se recusou a ouvir os cientistas argentinos que o avisaram da inviabilidade do projecto por causa das divergências políticas que tinha com eles.
Vem esta história sobre a fusão nuclear fria argentina a propósito do vaticínio que o Primeiro-Ministro de Portugal fez recentemente sobre o papel do carro eléctrico na "estratégia europeia contra as alterações climáticas", e que Portugal lidera ao ter a rede mais "inteligente" e "integrada" de abastecimento de veículos eléctricos. E que esta ideia de grandeza até convence muita gente foi patente ontem no programa "Quadratura do Círculo", com o sensato António Costa a invocar esse projecto, feito por "empresas privadas", como exemplo das coisas positivas que estão a acontecer no país.
Ora porque é que é Portugal quem tem a rede de abastecimento de automóveis eléctricos mais "inteligente" e "integrada"? Porque os automóveis eléctricos... não existem!
Como a fusão nuclear fria, que também não existe.
O Primeiro-Ministro português acredita que os automóveis eléctricos vão existir muito em breve, dando então uso à tal rede de abastecimento, mas receio que a sua fé seja semelhante à de Péron.
O primeiro automóvel eléctrico em comercialização deverá estar no mercado lá para o fim do ano, o Nissan Leaf de que já aqui falei. Mas é muito duvidoso que se lhe siga uma inundação de automóveis eléctricos nas estradas portuguesas; não existem ainda baterias capazes de viabilizar automóveis eléctricos, nem é previsível que venham a existir nos próximos 10 anos, como tenho repetidamente chamado a atenção aqui e aqui.
Claro que se podem fabricar automóveis eléctricos, protótipos, pré-séries, e até tentativas experimentais de comercialização; ao que me refiro, quando digo que o automóvel eléctrico não existe, é a um automóvel eléctrico que seja viável em economia e sobretudo autonomia, a ponto de poder constituir uma opção de uso social corrente.
Mas, tal como Péron, em matéria de Ciência e de Tecnologia o nosso Primeiro-Ministro parece só ouvir quem concorda com ele...
Por alturas da II Guerra Mundial a Argentina era governada por um regime militar populista liderado pelo general Péron (cuja primeira mulher, a lendária Eva Péron, deu azo a uma conhecida ópera-rock protagonizada por Madonna). A Argentina, aliás como Portugal com as conservas, acumulara muito dinheiro com a sua neutralidade na guerra e as exportações de carne, e Péron tinha sonhos de vir a liderar uma grande potência, a "Nova Argentina".
Por outro lado, embora neutral durante a guerra, as simpatias do regime peronista iam assumidamente para a Alemanha, razão pela qual veio a acolher grande número de responsáveis nazis que conseguiram fugir depois da derrota e ocupação militar do seu país.
Um desses refugiados nazis foi o germânico Ronald Ritcher, que pretendia ser capaz de produzir a fusão nuclear de átomos de deutério com ondas de choque de relativa pequena potência - para quem não saiba, o (ainda) sonho do controlo da fusão nuclear é o motivo do gigantesco projecto internacional ITER, a tentar-se lá para 2020, se tudo correr bem - mas a quente!...
Á época em que Ritcher abordou Péron, 1948, a Humanidade trabalhava no controlo da cisão nuclear, que em breve (anos 50) viria a produzir reactores para a produção de energia eléctrica e para a locomoção de submarinos. Mas a fusão nuclear estava fora de hipótese para toda a gente!
Porém, Ritcher conseguiu convencer Péron a financiar uma megalómana instalação secreta numa ilha, prometendo que iria produzir fantásticas quantidades de energia obtidas por fusão nuclear a frio, empacotadas em dois tipos de recipientes, de meio litro e de um litro, até que um dia lhe anunciou ter conseguido os resultados pretendidos, e o Governo argentino anunciou solenemente ao Mundo que "on February 16, 1951, in the... Isla Huemul... thermonuclear reactions under controlled conditions were performed on a technical scale"!
Evidentemente, era uma burla, e o saldo do "projecto Huemul" foi, além de uma vergonha para a Argentina e de um enorme desperdício de meios, um agravamento do atraso científico do país, por todos os recursos terem sido desviados para aquele projecto.
Porque foi possível um mitómano como Ritcher ter convencido Péron a embarcar em tal aldrabice? Primeiro, porque Péron admirava profundamente a competência alemã e acreditava que qualquer coisa que um cientista alemão se propuzesse realizar teria sucesso, e segundo porque se recusou a ouvir os cientistas argentinos que o avisaram da inviabilidade do projecto por causa das divergências políticas que tinha com eles.
Vem esta história sobre a fusão nuclear fria argentina a propósito do vaticínio que o Primeiro-Ministro de Portugal fez recentemente sobre o papel do carro eléctrico na "estratégia europeia contra as alterações climáticas", e que Portugal lidera ao ter a rede mais "inteligente" e "integrada" de abastecimento de veículos eléctricos. E que esta ideia de grandeza até convence muita gente foi patente ontem no programa "Quadratura do Círculo", com o sensato António Costa a invocar esse projecto, feito por "empresas privadas", como exemplo das coisas positivas que estão a acontecer no país.
Ora porque é que é Portugal quem tem a rede de abastecimento de automóveis eléctricos mais "inteligente" e "integrada"? Porque os automóveis eléctricos... não existem!
Como a fusão nuclear fria, que também não existe.
O Primeiro-Ministro português acredita que os automóveis eléctricos vão existir muito em breve, dando então uso à tal rede de abastecimento, mas receio que a sua fé seja semelhante à de Péron.
O primeiro automóvel eléctrico em comercialização deverá estar no mercado lá para o fim do ano, o Nissan Leaf de que já aqui falei. Mas é muito duvidoso que se lhe siga uma inundação de automóveis eléctricos nas estradas portuguesas; não existem ainda baterias capazes de viabilizar automóveis eléctricos, nem é previsível que venham a existir nos próximos 10 anos, como tenho repetidamente chamado a atenção aqui e aqui.
Claro que se podem fabricar automóveis eléctricos, protótipos, pré-séries, e até tentativas experimentais de comercialização; ao que me refiro, quando digo que o automóvel eléctrico não existe, é a um automóvel eléctrico que seja viável em economia e sobretudo autonomia, a ponto de poder constituir uma opção de uso social corrente.
Mas, tal como Péron, em matéria de Ciência e de Tecnologia o nosso Primeiro-Ministro parece só ouvir quem concorda com ele...
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política científica
quarta-feira, junho 30, 2010
Um MBA em Energia no ISCTE
Pelo New York Times acabo de ter conhecimento do MBA que vai começar em breve, promovido pelo ISCTE e em colaboração com a Universidade de Columbia, sobre Energia.
Uau, é coisa com impacto! Portugal a dar cartas ao mundo, ensinando-o!...
Dei uma vista de olhos ao programa, e é tudo sobre financiamentos de renováveis, contando até com uns "laboratórios" de energias renováveis onde se ministrarão umas noções sobre vento, hídricas, etc.
O corpo docente anunciado parece de respeito! São quase tudo estrangeiros, o que dá à coisa uma garantia de qualidade, de certeza! E depois há o líder do curso, o notável especialista mundial Manuel Pinho, cujo currículo inovatório é conhecido, tendo ganho o seu lugar na História ao promover a primeira central comercial de energia de ondas no Mundo!
Ah, mas não se apressem que o período de inscrições terminou hoje! A não ser que vocês sejam internacionais!...
Tive alguma dificuldade, entretanto, foi em encontrar na lista do corpo docente alguém que saiba de sistemas de energia real.
Mas quem sou eu, um simples português...
Uau, é coisa com impacto! Portugal a dar cartas ao mundo, ensinando-o!...
Dei uma vista de olhos ao programa, e é tudo sobre financiamentos de renováveis, contando até com uns "laboratórios" de energias renováveis onde se ministrarão umas noções sobre vento, hídricas, etc.
O corpo docente anunciado parece de respeito! São quase tudo estrangeiros, o que dá à coisa uma garantia de qualidade, de certeza! E depois há o líder do curso, o notável especialista mundial Manuel Pinho, cujo currículo inovatório é conhecido, tendo ganho o seu lugar na História ao promover a primeira central comercial de energia de ondas no Mundo!
Ah, mas não se apressem que o período de inscrições terminou hoje! A não ser que vocês sejam internacionais!...
Tive alguma dificuldade, entretanto, foi em encontrar na lista do corpo docente alguém que saiba de sistemas de energia real.
Mas quem sou eu, um simples português...
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política científica
segunda-feira, junho 28, 2010
A desinteressada candura ecotópica e o seu "flavour" ibérico...
Quando se trata de "conservar o ambiente", é vulgar ouvirmos nos últimos tempos os ecologistas utópicos lamentarem-se de que "a economia esteja a invadir o raciocínio conservacionista da natureza". Queixam-se eles, que só querem salvar o planeta, de um escrutínio crescente em nome da economia às políticas de financiamento da sua sublime causa... E lamentam-se, frequentemente, que nesses cálculos económicos dos seus escrutinadores se não contabilizam as "externalidades", que são os custos que as práticas tradicionais de exploração da natureza terão para toda a gente - tais como as despesas de saúde das pessoas intoxicadas pelas cinzas e fumos das centrais a carvão, os estragos na flora provocados pela chuva ácida, etc.
Não vou discutir hoje a economia das "externalidades", mas apenas notar que a própria necessidade da sua invocação resulta da natureza subsídio-dependente da ideologia ecotópica e da necessidade que ela tem, por isso, de convencer os decisores políticos a decretarem a transferência dos rendimentos do povo para a sua causa. Causa que será, como é apresentada, de uma desinteressada candura ambientalista e visando apenas o bem da Humanidade...
É por isso que o que pretendo apreciar hoje convosco é o tarifário criado em Portugal para as energias renováveis, e assim admirarmos juntos a candura do desinteressado propósito de salvação do clima planetário que lhe subjaz.
Como escrevi recentemente, o custo médio de produção para um investimento actual da energia eólica em Portugal remunerado a 20 anos com uma taxa razoável de 7,5% anda pelos 7,0 ç/kWh, e a presente tarifa que a remunera desde 2005 aparentemente fá-lo a 7,4 ç/kWh, mas verifica-se que na verdade o valor médio que lhe foi pago nos últimos 4 anos foi de 9.2, 9.4, 9.5 e 9.3 ç/kWh (vd. gráfico anexo: o custo do kWh eólico deixou de facto de crescer em 2009).
O gráfico apresentado mostra que nos últimos dois anos, 2008 e 2009, o custo médio da geração PRE (que inclui as outras renováveis e térmicas "despoluentes") até excedeu o custo específico das eólicas; trata-se do efeito de um "sobressalto" tarifário na cogeração, que é depois da eólica o principal contribuinte para estes sobrecustos e também para a produção de electricidade, e de que falarei um dia destes.
O preço médio do kWh eólico tem andado, desde 2005, acima dos 9 ç/kWh apesar da tarifa média anunciada nunca ter sido superior a 7,4 ç/kWh . Vale a pena, por isso, analisar a legislação existente para perceber como permite ela esta situação (uma pedagógica explicação da fórmula de cálculo tarifária pode ser consultada aqui, e um exemplo de trabalho académico de síntese sobre o assunto é este).
O Decreto-Lei "fundador" do actual tarifário das renováveis foi o nº 168 de Maio de 1999, do Governo de Guterres, que previa desde logo uma actualização mensal com a inflação e um prazo de 12 anos (144 meses) de pagamento destas tarifas (com uma redução depois desse prazo). Porém, a referida actualização da inflação não era a referente à data de início de operação das centrais, mas sim à data fixa de Dezembro de 1998, e o Decreto-Lei do mesmo Governo que ano e meio depois o "aperfeiçoou", o nº 339-C de Dezembro de 2001, manteve a mesma data! E, por acréscimo, permitia que todas as centrais já em operação ou até mesmo apenas em construção pudessem optar por este novo regime tarifário...
Assim, só com essa "retroactividade" do cálculo da inflação, as tarifas indicadas no próprio Decreto de 2001 eram acrescidas em 10%, para as centrais que entrassem em operação naquela mesma data!
Merece entretanto a pena analisar os princípios invocados para as fórmulas tarifárias, já contidas no Decreto "fundador" de 1999 e que foram depois sucessivamente "aperfeiçoadas". A racionalidade invocada foi a dos "custos evitados" por as renováveis substituírem centrais poluentes: custos fixos de capital, custos variáveis de Operação e Manutenção (incluindo combustíveis), e custos ambientais.
Como as renováveis não substituem a construção de novas centrais, a parcela de custos fixos foi definida pequena, no caso de uma eólica típica apenas 0,24 ç/kWh.
A parcela de custos variáveis teve por referência o das termoeléctricas, e para a mesma eólica típica era de 2,49 ç/kWh em 1999. A soma destas duas parcelas dava uma quantia irrisória face aos custos de produção das renováveis, de modo que foi na parcela de custos ambientais evitados que se "ajeitou" a tarifa para dar o valor pretendido.
Desde o início que a parcela de custos ambientais tomou por referência o CO2 emitido por uma central de ciclo combinado a gás natural típica, mas o Decreto "fundador" de 1999, apesar de lhe atribuir o valor estrambólico de 74,8 €/ton. ( no mercado de "carbono" esse valor andava à época por 1/5 desse valor), não conseguiu adicionar mais que cerca de 2,77 ç/kWh às duas parcelas anteriores. A fórmula incluía ainda uma "compensação" pelas "perdas evitadas" nas redes, segundo o argumento de que a produção renovável é consumida na mesma zona onde é produzida e por isso evita as perdas no transporte pela rede e, conjugando a actualização da inflação, o valor resultante ficava (em 1999) pelos 5,65 ç/kWh, não excessivamente mais que o custo médio real de produção do kWh pelas centrais convencionais à época (perto de 5,0 ç/kWh). Porém, é claro que com tal valor nenhuma renovável era viável, e daí o "aperfeiçoamento" introduzido ano e meio depois pelo mesmo Governo (com a pontificação de dois novos Ministros: Braga da Cruz e José Sócrates).
O Decreto de 2001, com efeito, apenas adicionou à fórmula anterior um "coeficiente adimensional" arbitrário de reforço dos custos ambientais evitados, obviamente sem outra racionalidade que a pretensão de se obter um valor final "jeitoso". Assim, a parcela de 2,77 ç/kWh acima referida foi multiplicada por um "coeficiente" de 5/3, acrescentando 1,84 ç/kWh ao total já anteriormente somado e, com mais a "compensação pelas perdas evitadas" e a já mencionada "actualização" de 1,1 pela inflação desde 1998, no final de 2001 a tarifa para uma eólica típica estava em 8,19 ç/kWh - que, com a inflação verificada depois, atingiu em 2010 10,0 ç/kWh! E assim chegamos aos valores publicados pela ERSE para os últimos anos...
Este Decreto de 2001 diferenciou também, através do referido coeficiente arbitrário de multiplicação dos "custos ambientais evitados", as tarifas para as mini-hídricas e as fotovoltaicas, mas deixou de fora todas as outras (biomassa, biogás, etc) . E, para grande gáudio dos promotores de renováveis, eliminou o limite de 12 anos anteriormente previsto para a vigência da tarifa, que passou a eterna...!
Em Fevereiro de 2005 estava a tarifa da eólica típica em menção já com o valor de 9,0 ç/kWh, quando o Governo de Santana Lopes publicou nova legislação que a corrigiu, no Decreto-Lei nº 33/2005 de 16 de Fevereiro. Este Decreto foi detestado pelos promotores de renováveis por se justificar dizendo que "as medidas de promoção do aumento da produção de electricidade através de fontes renováveis não podem ser cegas à factura energética suportada pelos consumidores", e por ter introduzido as seguintes moderações na vaca leiteira que se criara:
Entretanto, e dados os prazos de construção, as centrais que já obtiveram o licenciamento depois da promulgação do Decreto de 2005 só começaram a operar a partir de 2007, e é por isso que a inflexão no preço médio pago aos produtores só nesse ano começaria a estabilizar - além de que as concessionadas nos grandes concursos posteriores aceitaram descontos de 5%. Presentemente, pois, as tarifas pagas às eólicas típicas situam-se entre 10,0 e 7,0 ç/kWh, conforme a respectiva data de licenciamento. Os mais recentes custam relativamente menos mas, entretanto e dado o volume total da produção eólica, os custos adicionais de sistema começaram a subir exponencialmente, como a dissipação já ocorrida no Inverno passado e os projectos de construção de centrais de bombagem manifestam, assim como o disparo ocorrido nos investimentos nas redes da REN e de Alta Tensão na EDP!
Entretanto, convém recordar que sendo o custo de produção médio para investimentos actuais da ordem dos 7,0 ç/kWh para um prazo de amortização de 20 anos, é-o de 8,0 ç/kWh para prazos de 15 anos, mas os grandes pacotes concessionados pelo Governo de 1200 MW a 400 MW gozaram certamente de descontos de quantidade na aquisição das turbinas, assim como de ganhos de maturação na sua instalação e ligação à rede (que deverão ter reduzido aqueles custos de produção para uns 6,5 ç/kWh, com uma remuneração do investimento a 7.5% por 15 anos). Os projectos mais antigos, no entanto, gozaram em média de 20% de co-financiamento comunitário e de preços nas turbinas mais baixos, o que lhes trará em média os custos de produção para 5 ç/kWh, metade do que estarão a facturar...
Tudo ponderado e como estimei num post anterior, dos 720 a 750 milhões de € que custará este ano a produção energética de origem eólica (sem contar os custos adicionais de sistema), uns 200 milhões serão sobrecustos resultantes de proveitos concedidos acima da taxa de remuneração dos activos da REN e EDP. Compreende-se assim melhor a agressividade da reacção organizada que acolheu o Manifesto para uma Nova Política Energética...
Entretanto, vale a pena notar que a filosofia do tarifário português para as energias renováveis é muito semelhante à espanhola, embora esta tenha uma pequena parcela negociável em mercado e não invoque nenhumas falaciosas teorias sobre "custos evitados" para se justificar. Em Espanha, a tarifa definida em 2007 para as eólicas era de 7,32 ç/kWh por 20 anos (7,36 por 15 anos cá desde 2005), embora tivesse uma variação admitida, em função de parâmetros de qualidade técnica e comercial, entre 8,49 e 7,13. Já neste ano (2010) e certamente devido ao encarecimento do dinheiro para investimentos, essa tarifa foi actualizada para 7,75 ç/kWh (podendo variar entre 8,99 e 7,54). Como cá, as tarifas são actualizadas com a inflação.
Na Alemanha, pelo contrário, sendo o país que inventou este sistema de remuneração das tarifas, a respectiva filosofia foi estabelecida em 2000 no "Acto para as Fontes de Energia Renovável" e baseia-se na determinação "científica" dos respectivos custos de produção, assumindo uma taxa de remuneração de investimentos explicitamente igual aos 7-8% usuais na indústria. A Alemanha não permite, entretanto, o investimento em renováveis assim subsidiadas às empresas de electricidade tradicionais.
O tarifário alemão tem diversas características interessantes, manifestando a habitual racionalidade e competência técnica germânicas, mas as mais importantes são:
a) o seu período de validade é, em princípio, de apenas 5 anos, sofrendo depois uma redução acentuada que vigora nos anos seguintes;
b) A duração deste período de validade depende da qualidade do local e da utilização que este permite às turbinas; quanto pior o local, mais longa a duração da remuneração inicial, por forma a manter os proveitos moderados mas garantidos - algo aproximado pela flexibilidade do prazo de 15 anos previsto cá pelo Decreto de 2005.
Em 2000, a tarifa de referência para locais de qualidade de referência (para os referidos primeiros 5 anos) era de 8,9 ç/kWh. Em 2004 era de 8,7 ç/kWh mas reduzindo-se para 5,5 ao fim de 5 anos; em 2007 era de 7,95 e, para 2009, foi elevada, como em Espanha, mas para 9,2 ç/kWh, provavelmente pelas mesmas razões (subida das taxas de juro), reduzindo-se para apenas 5.0 ç/kWh depois do referido prazo de 5 anos. Em condições de referência e ao longo dos 20 anos previstos de operação, a tarifa média é de 6,1 ç/kWh.
Um estudo de razoável qualidade do Instituto Fraunhofer (de 2004) compara os sistemas tarifários espanhol e alemão. A figura seguinte ilustra as consequências das diferenças que aquele estudo sublinha:
No sistema alemão, os lucros são as parcelas a laranja, enquanto no sistema ibérico, e sobretudo em Espanha desde o Decreto do Governo de Santana Lopes que limitou o prazo das nossas tarifas a 15 anos (20 anos em Espanha para tarifas semelhantes), os lucros são as parcelas a laranja + as a azul...
Como é evidente, o que o tarifário alemão garante é praticamente um lucro fixo para os produtores eólicos, independente do local de instalação; o benefício dos locais de melhores ventos vai para os consumidores.
E é nesta figura que melhor se exprime o "flavour" ibérico da ecotopia renovável...
Não vou discutir hoje a economia das "externalidades", mas apenas notar que a própria necessidade da sua invocação resulta da natureza subsídio-dependente da ideologia ecotópica e da necessidade que ela tem, por isso, de convencer os decisores políticos a decretarem a transferência dos rendimentos do povo para a sua causa. Causa que será, como é apresentada, de uma desinteressada candura ambientalista e visando apenas o bem da Humanidade...
É por isso que o que pretendo apreciar hoje convosco é o tarifário criado em Portugal para as energias renováveis, e assim admirarmos juntos a candura do desinteressado propósito de salvação do clima planetário que lhe subjaz.
Como escrevi recentemente, o custo médio de produção para um investimento actual da energia eólica em Portugal remunerado a 20 anos com uma taxa razoável de 7,5% anda pelos 7,0 ç/kWh, e a presente tarifa que a remunera desde 2005 aparentemente fá-lo a 7,4 ç/kWh, mas verifica-se que na verdade o valor médio que lhe foi pago nos últimos 4 anos foi de 9.2, 9.4, 9.5 e 9.3 ç/kWh (vd. gráfico anexo: o custo do kWh eólico deixou de facto de crescer em 2009).
O gráfico apresentado mostra que nos últimos dois anos, 2008 e 2009, o custo médio da geração PRE (que inclui as outras renováveis e térmicas "despoluentes") até excedeu o custo específico das eólicas; trata-se do efeito de um "sobressalto" tarifário na cogeração, que é depois da eólica o principal contribuinte para estes sobrecustos e também para a produção de electricidade, e de que falarei um dia destes.
O preço médio do kWh eólico tem andado, desde 2005, acima dos 9 ç/kWh apesar da tarifa média anunciada nunca ter sido superior a 7,4 ç/kWh . Vale a pena, por isso, analisar a legislação existente para perceber como permite ela esta situação (uma pedagógica explicação da fórmula de cálculo tarifária pode ser consultada aqui, e um exemplo de trabalho académico de síntese sobre o assunto é este).
O Decreto-Lei "fundador" do actual tarifário das renováveis foi o nº 168 de Maio de 1999, do Governo de Guterres, que previa desde logo uma actualização mensal com a inflação e um prazo de 12 anos (144 meses) de pagamento destas tarifas (com uma redução depois desse prazo). Porém, a referida actualização da inflação não era a referente à data de início de operação das centrais, mas sim à data fixa de Dezembro de 1998, e o Decreto-Lei do mesmo Governo que ano e meio depois o "aperfeiçoou", o nº 339-C de Dezembro de 2001, manteve a mesma data! E, por acréscimo, permitia que todas as centrais já em operação ou até mesmo apenas em construção pudessem optar por este novo regime tarifário...
Assim, só com essa "retroactividade" do cálculo da inflação, as tarifas indicadas no próprio Decreto de 2001 eram acrescidas em 10%, para as centrais que entrassem em operação naquela mesma data!
Merece entretanto a pena analisar os princípios invocados para as fórmulas tarifárias, já contidas no Decreto "fundador" de 1999 e que foram depois sucessivamente "aperfeiçoadas". A racionalidade invocada foi a dos "custos evitados" por as renováveis substituírem centrais poluentes: custos fixos de capital, custos variáveis de Operação e Manutenção (incluindo combustíveis), e custos ambientais.
Como as renováveis não substituem a construção de novas centrais, a parcela de custos fixos foi definida pequena, no caso de uma eólica típica apenas 0,24 ç/kWh.
A parcela de custos variáveis teve por referência o das termoeléctricas, e para a mesma eólica típica era de 2,49 ç/kWh em 1999. A soma destas duas parcelas dava uma quantia irrisória face aos custos de produção das renováveis, de modo que foi na parcela de custos ambientais evitados que se "ajeitou" a tarifa para dar o valor pretendido.
Desde o início que a parcela de custos ambientais tomou por referência o CO2 emitido por uma central de ciclo combinado a gás natural típica, mas o Decreto "fundador" de 1999, apesar de lhe atribuir o valor estrambólico de 74,8 €/ton. ( no mercado de "carbono" esse valor andava à época por 1/5 desse valor), não conseguiu adicionar mais que cerca de 2,77 ç/kWh às duas parcelas anteriores. A fórmula incluía ainda uma "compensação" pelas "perdas evitadas" nas redes, segundo o argumento de que a produção renovável é consumida na mesma zona onde é produzida e por isso evita as perdas no transporte pela rede e, conjugando a actualização da inflação, o valor resultante ficava (em 1999) pelos 5,65 ç/kWh, não excessivamente mais que o custo médio real de produção do kWh pelas centrais convencionais à época (perto de 5,0 ç/kWh). Porém, é claro que com tal valor nenhuma renovável era viável, e daí o "aperfeiçoamento" introduzido ano e meio depois pelo mesmo Governo (com a pontificação de dois novos Ministros: Braga da Cruz e José Sócrates).
O Decreto de 2001, com efeito, apenas adicionou à fórmula anterior um "coeficiente adimensional" arbitrário de reforço dos custos ambientais evitados, obviamente sem outra racionalidade que a pretensão de se obter um valor final "jeitoso". Assim, a parcela de 2,77 ç/kWh acima referida foi multiplicada por um "coeficiente" de 5/3, acrescentando 1,84 ç/kWh ao total já anteriormente somado e, com mais a "compensação pelas perdas evitadas" e a já mencionada "actualização" de 1,1 pela inflação desde 1998, no final de 2001 a tarifa para uma eólica típica estava em 8,19 ç/kWh - que, com a inflação verificada depois, atingiu em 2010 10,0 ç/kWh! E assim chegamos aos valores publicados pela ERSE para os últimos anos...
Este Decreto de 2001 diferenciou também, através do referido coeficiente arbitrário de multiplicação dos "custos ambientais evitados", as tarifas para as mini-hídricas e as fotovoltaicas, mas deixou de fora todas as outras (biomassa, biogás, etc) . E, para grande gáudio dos promotores de renováveis, eliminou o limite de 12 anos anteriormente previsto para a vigência da tarifa, que passou a eterna...!
Em Fevereiro de 2005 estava a tarifa da eólica típica em menção já com o valor de 9,0 ç/kWh, quando o Governo de Santana Lopes publicou nova legislação que a corrigiu, no Decreto-Lei nº 33/2005 de 16 de Fevereiro. Este Decreto foi detestado pelos promotores de renováveis por se justificar dizendo que "as medidas de promoção do aumento da produção de electricidade através de fontes renováveis não podem ser cegas à factura energética suportada pelos consumidores", e por ter introduzido as seguintes moderações na vaca leiteira que se criara:
- A data de início de contagem do tempo para efeitos de actualização por inflação deixou de ser Dezembro de 1998 para passar a ser a do início de operação de cada nova central;
- A parcela de "custos variáveis" evitados na tarifa subiu de 2,494 ç/kWh (na verdade, considerando a inflação na fórmula até aí praticada, 2,95 ç/kWh) para 3,60 ç/kWh, mas...
- ... a parcela de "custos ambientais" evitados passou a considerar o verdadeiro preço de mercado da tonelada de CO2, 20 €/ton., e modificou os "coeficientes adimensionais" legislados em 2001, por um lado reduzindo para 7,36 ç/kWh a tarifa eólica total que já ia em 9,0 ç/kWh, como vimos, e por outro lado e pela primeira vez criando variantes que tornavam minimamente atractivas as renováveis das mini-hídricas, biomassa e biogás.
- Foi proibida a acumulação de "incentivos" com os deste tarifário, nomeadamente o comércio de "certificados verdes", mas não ficando claro se isso também abrangia o recurso a fundos comunitários que tinham financiado até aí 20% das renováveis, e em muitos casos 40%.
- Finalmente, este Decreto voltou a introduzir um limite de validade às tarifas oferecidas, 15 anos para uma eólica típica (com 25% de utilização anual) mas menos se ela tivesse uma utilização maior, o mesmo prazo para a maioria das outras renováveis e 12 anos para as fotovoltaicas típicas com utilização de 21%.
Entretanto, e dados os prazos de construção, as centrais que já obtiveram o licenciamento depois da promulgação do Decreto de 2005 só começaram a operar a partir de 2007, e é por isso que a inflexão no preço médio pago aos produtores só nesse ano começaria a estabilizar - além de que as concessionadas nos grandes concursos posteriores aceitaram descontos de 5%. Presentemente, pois, as tarifas pagas às eólicas típicas situam-se entre 10,0 e 7,0 ç/kWh, conforme a respectiva data de licenciamento. Os mais recentes custam relativamente menos mas, entretanto e dado o volume total da produção eólica, os custos adicionais de sistema começaram a subir exponencialmente, como a dissipação já ocorrida no Inverno passado e os projectos de construção de centrais de bombagem manifestam, assim como o disparo ocorrido nos investimentos nas redes da REN e de Alta Tensão na EDP!
Entretanto, convém recordar que sendo o custo de produção médio para investimentos actuais da ordem dos 7,0 ç/kWh para um prazo de amortização de 20 anos, é-o de 8,0 ç/kWh para prazos de 15 anos, mas os grandes pacotes concessionados pelo Governo de 1200 MW a 400 MW gozaram certamente de descontos de quantidade na aquisição das turbinas, assim como de ganhos de maturação na sua instalação e ligação à rede (que deverão ter reduzido aqueles custos de produção para uns 6,5 ç/kWh, com uma remuneração do investimento a 7.5% por 15 anos). Os projectos mais antigos, no entanto, gozaram em média de 20% de co-financiamento comunitário e de preços nas turbinas mais baixos, o que lhes trará em média os custos de produção para 5 ç/kWh, metade do que estarão a facturar...
Tudo ponderado e como estimei num post anterior, dos 720 a 750 milhões de € que custará este ano a produção energética de origem eólica (sem contar os custos adicionais de sistema), uns 200 milhões serão sobrecustos resultantes de proveitos concedidos acima da taxa de remuneração dos activos da REN e EDP. Compreende-se assim melhor a agressividade da reacção organizada que acolheu o Manifesto para uma Nova Política Energética...
Entretanto, vale a pena notar que a filosofia do tarifário português para as energias renováveis é muito semelhante à espanhola, embora esta tenha uma pequena parcela negociável em mercado e não invoque nenhumas falaciosas teorias sobre "custos evitados" para se justificar. Em Espanha, a tarifa definida em 2007 para as eólicas era de 7,32 ç/kWh por 20 anos (7,36 por 15 anos cá desde 2005), embora tivesse uma variação admitida, em função de parâmetros de qualidade técnica e comercial, entre 8,49 e 7,13. Já neste ano (2010) e certamente devido ao encarecimento do dinheiro para investimentos, essa tarifa foi actualizada para 7,75 ç/kWh (podendo variar entre 8,99 e 7,54). Como cá, as tarifas são actualizadas com a inflação.
Na Alemanha, pelo contrário, sendo o país que inventou este sistema de remuneração das tarifas, a respectiva filosofia foi estabelecida em 2000 no "Acto para as Fontes de Energia Renovável" e baseia-se na determinação "científica" dos respectivos custos de produção, assumindo uma taxa de remuneração de investimentos explicitamente igual aos 7-8% usuais na indústria. A Alemanha não permite, entretanto, o investimento em renováveis assim subsidiadas às empresas de electricidade tradicionais.
O tarifário alemão tem diversas características interessantes, manifestando a habitual racionalidade e competência técnica germânicas, mas as mais importantes são:
a) o seu período de validade é, em princípio, de apenas 5 anos, sofrendo depois uma redução acentuada que vigora nos anos seguintes;
b) A duração deste período de validade depende da qualidade do local e da utilização que este permite às turbinas; quanto pior o local, mais longa a duração da remuneração inicial, por forma a manter os proveitos moderados mas garantidos - algo aproximado pela flexibilidade do prazo de 15 anos previsto cá pelo Decreto de 2005.
Em 2000, a tarifa de referência para locais de qualidade de referência (para os referidos primeiros 5 anos) era de 8,9 ç/kWh. Em 2004 era de 8,7 ç/kWh mas reduzindo-se para 5,5 ao fim de 5 anos; em 2007 era de 7,95 e, para 2009, foi elevada, como em Espanha, mas para 9,2 ç/kWh, provavelmente pelas mesmas razões (subida das taxas de juro), reduzindo-se para apenas 5.0 ç/kWh depois do referido prazo de 5 anos. Em condições de referência e ao longo dos 20 anos previstos de operação, a tarifa média é de 6,1 ç/kWh.
Um estudo de razoável qualidade do Instituto Fraunhofer (de 2004) compara os sistemas tarifários espanhol e alemão. A figura seguinte ilustra as consequências das diferenças que aquele estudo sublinha:
No sistema alemão, os lucros são as parcelas a laranja, enquanto no sistema ibérico, e sobretudo em Espanha desde o Decreto do Governo de Santana Lopes que limitou o prazo das nossas tarifas a 15 anos (20 anos em Espanha para tarifas semelhantes), os lucros são as parcelas a laranja + as a azul...
Como é evidente, o que o tarifário alemão garante é praticamente um lucro fixo para os produtores eólicos, independente do local de instalação; o benefício dos locais de melhores ventos vai para os consumidores.
E é nesta figura que melhor se exprime o "flavour" ibérico da ecotopia renovável...
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sexta-feira, junho 25, 2010
Os CAE e os CMEC são ainda parcialmente sobrecustos das eólicas
No post que escrevi há dias sobre Custos e preços da electricidade, renováveis, e os interesses instalados, notei que os CMEC, os "Custos de Manutenção dos Equilíbrios Contratuais", assim como os CAE, os "Contratos de Aquisição de Energia", constituíam "prémios" generosos para os respectivos produtores de energia, exemplificando com o caso dos CAE cuja produção é remunerada a 7,24 ç/kWh quando o respectivo custo de produção andaria pelos 5.6-6.0 ç/kWh, já incorporando este valor uma remuneração do capital fixo de 7.5%.
Porém, estes custos de produção, que eu calculara no mesmo post, pressupunham que os factores de utilização das centrais fossem respectivamente de 83% para as a carvão, e de 50% para as de ciclo combinado a gás natural, e que são valores típicos.
Estes factores de utilização são típicos internacionalmente, mas não são os que se observam agora em Portugal, devido à prioridade que os PRE ("Produtores em Regime Especial") têm no fornecimento da sua energia. De facto, os PRE têm reduzido a produção daquelas centrais tradicionais mas não a necessidade da sua disponibilidade, resultante do socorro que têm de prestar às quebras de vento na produção eólica. Por conseguinte, o custo de capital do kWh dessas centrais térmicas aumenta, e esse sobrecusto é inteiramente causado pela prioridade dada à produção eólica.
Veja-se, por exemplo, o caso das centrais a carvão: eu calculara que o seu custo de capital é de 2,1 ç/kWh, enquanto o custo final de produção será de uns 5,6 ç/kWh, para uma utilização anual de 83%. Se a utilização real da central se reduzir dos 83% para metade, como está aproximadamente a acontecer, os custos de capital e também dos encargos fixos de Operação e Manutenção (uns 0,5 ç) duplicam para os kWh, o que modifica o custo total destes de 2,1+0,5+3=5,6 para (2.1+0,5)*2+3=8.2 ç/kWh.
Poder-se-ia argumentar que este custo se poderia evitar se se pudesse simplesmente desmantelar metade das centrais a carvão e dizer que tinham deixado de ser necessárias, mas a intermitência eólica não o permite.
Para as centrais de ciclo combinado o impacto não será tão grande, dado o maior peso nelas do custo variável do combustível mas, em média, chegamos muito aproximadamente ao referido custo de 7,24 ç/kWh que os CAE e os CMEC asseguram - ainda que não seja certo que a divisão de compensações seja justa entre os dois tipos de centrais.
Pelo que, na verdade, os CAE e os CMEC das termoeléctricas, a maioria (ficam de fora as hidroeléctricas), podem ser considerados ainda sobrecustos das fontes renováveis intermitentes.
Porém, estes custos de produção, que eu calculara no mesmo post, pressupunham que os factores de utilização das centrais fossem respectivamente de 83% para as a carvão, e de 50% para as de ciclo combinado a gás natural, e que são valores típicos.
Estes factores de utilização são típicos internacionalmente, mas não são os que se observam agora em Portugal, devido à prioridade que os PRE ("Produtores em Regime Especial") têm no fornecimento da sua energia. De facto, os PRE têm reduzido a produção daquelas centrais tradicionais mas não a necessidade da sua disponibilidade, resultante do socorro que têm de prestar às quebras de vento na produção eólica. Por conseguinte, o custo de capital do kWh dessas centrais térmicas aumenta, e esse sobrecusto é inteiramente causado pela prioridade dada à produção eólica.
Veja-se, por exemplo, o caso das centrais a carvão: eu calculara que o seu custo de capital é de 2,1 ç/kWh, enquanto o custo final de produção será de uns 5,6 ç/kWh, para uma utilização anual de 83%. Se a utilização real da central se reduzir dos 83% para metade, como está aproximadamente a acontecer, os custos de capital e também dos encargos fixos de Operação e Manutenção (uns 0,5 ç) duplicam para os kWh, o que modifica o custo total destes de 2,1+0,5+3=5,6 para (2.1+0,5)*2+3=8.2 ç/kWh.
Poder-se-ia argumentar que este custo se poderia evitar se se pudesse simplesmente desmantelar metade das centrais a carvão e dizer que tinham deixado de ser necessárias, mas a intermitência eólica não o permite.
Para as centrais de ciclo combinado o impacto não será tão grande, dado o maior peso nelas do custo variável do combustível mas, em média, chegamos muito aproximadamente ao referido custo de 7,24 ç/kWh que os CAE e os CMEC asseguram - ainda que não seja certo que a divisão de compensações seja justa entre os dois tipos de centrais.
Pelo que, na verdade, os CAE e os CMEC das termoeléctricas, a maioria (ficam de fora as hidroeléctricas), podem ser considerados ainda sobrecustos das fontes renováveis intermitentes.
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Os 1900 empregos criados pela energia solar em Abrantes
A empresa RPP Solar, de Abrantes, está a recrutar trabalhadores e, segundo o anunciado, para empregos muito qualificados de Directores e Engenheiros. O seu propósito é o fabrico de painéis solares e a oferta de "soluções integradas".
Trata-se de um projecto de grande ambição e acarinhado pelo Governo como um PIN ("Projecto de Interesse Nacional"), o que lhe garantiu o enquadramento no QREN e o acessos aos correspondentes fundos públicos e comunitários: para já, 128 milhões de €, dos quais 58 M€ em "incentivos financeiros", ou seja, subsídios directos.
A RPP Solar teve também o generoso contributo da Câmara de Abrantes, que lhe terá vendido por apenas 100 mil € o terreno para a fábrica, terreno que custara à Câmara 10 vezes mais. O Presidente da Câmara que promoveu essa generosa contribuição foi, após o termo do seu mandato, recrutado pela RPP Solar "ainda sem saber para fazer o quê", mas compreende-se que com tantos empregos a criar e com os 58 M€ garantidos pelo nosso Governo para os sustentar, haja sempre lugar para mais um (só essa verba dá para sustentar os 1900 trabalhadores por ano e meio, pelo menos!).
O projecto, que se diz implicar um investimento total à volta de 1000 M€, é protagonizado pelo empresário Alexandre Alves, o famoso "Barão Vermelho" que foi presidente do Benfica e da há muito desaparecida por falência Fábrica Nacional de Ar Condicionado (FNAC) e se queixa amargamente da pequenez dos subsídios públicos conseguidos, invocando o facto da fábrica de Moura que foi construída nessa vila como "contrapartida" da mega-central solar de Moura ter sido co-financiada pelos contribuintes portugueses a 50%! E diz que só lhe deram esse dinheiro "porque não tem maricas na empresa"...
Segundo parece, os 1000 milhões de € que diz que vai investir na RPP Solar são assegurados, segundo o "Barão Vermelho", por financiamento bancário "além de capitais próprios gerados, sobretudo na actividade imobiliária onde apostou forte nos últimos dez anos, quer em Portugal quer em Espanha".
Esta iniciativa do "Barão Vermelho" revela um notável espírito inovador mas, quanto aos tais capitais gerados pela actividade imobiliária ele terá, ao que parece, alguns problemas com a justiça, segundo revela o Correio da Manhã de hoje. Isso e a falência recente de uma firma sua será o que suscita as atenções da PJ...
Ora os mais jovens nunca terão, talvez, ouvido falar do "Barão Vermelho", que adquiriu este cognome não só por ter sido Presidente do Benfica no início dos anos 90 mas sobretudo por conciliar, ao que constava, o ser capitalista com ser membro do PCP, o que lhe dava acesso nos anos 80, como a outros capitalistas comunistas de que conheci alguns, a negócios privilegiados com as então marxistas-leninistas ex-colónias portuguesas. Os mais jovens não o conhecerão, mas há quem se lembre, como evoca aqui o Ecotretas!
A FNAC faliu num processo que muita gente na altura (há 20 anos) considerou fraudulento, mas o "Barão Vermelho" não foi condenado, pelo que me preocupa mais a razão de fundo da falência da FNAC que os pormenores jurídicos do caso.
Ora eu lembro-me bem dos aparelhos de ar condicionado da FNAC que tinha, na altura, o prático monopólio do mercado nacional, numa época em que ainda não estávamos na União Europeia e este mercado era fechado. Depois apareceram no mercado os aparelhos de ar condicionado japoneses, muito mais silenciosos, económicos, eficientes e com controlo electrónico, e evidentemente a FNAC nunca mais vendeu nada! Lembro-me também de um colega que projectava instalações eléctricas me contar que os japoneses, quando decidiram atacar o mercado português, terem convidado os projectistas como ele para uma semana no Brasil onde lhes explicaram as suas condições, que incluíam prazos de pagamento a 6 meses - o que os deixava deliciados, habituados como estavam às condições severas da FNAC...
Mas pode ser que o "Barão Vermelho" tenha aprendido com isto tudo e agora o projecto corra bem, quem sabe!...
A minha curiosidade preocupada, de facto, é sobre outra coisa:
- Dados estes subsídios chorudos do nosso Governo ao fabrico de painéis solares em Portugal, não vai haver contrapartida nos respectivos preços de venda? E admitindo que sim, não vai haver descida nas tarifas pagas aos produtores de energia solar? Ou vamos ter de pagar, nós os contribuintes, o fabrico dos painéis e depois também a energia solar aos preços exorbitantes tarifados, confirmando a constituição da 2ª vaca leiteira que anunciei aqui?
Trata-se de um projecto de grande ambição e acarinhado pelo Governo como um PIN ("Projecto de Interesse Nacional"), o que lhe garantiu o enquadramento no QREN e o acessos aos correspondentes fundos públicos e comunitários: para já, 128 milhões de €, dos quais 58 M€ em "incentivos financeiros", ou seja, subsídios directos.
A RPP Solar teve também o generoso contributo da Câmara de Abrantes, que lhe terá vendido por apenas 100 mil € o terreno para a fábrica, terreno que custara à Câmara 10 vezes mais. O Presidente da Câmara que promoveu essa generosa contribuição foi, após o termo do seu mandato, recrutado pela RPP Solar "ainda sem saber para fazer o quê", mas compreende-se que com tantos empregos a criar e com os 58 M€ garantidos pelo nosso Governo para os sustentar, haja sempre lugar para mais um (só essa verba dá para sustentar os 1900 trabalhadores por ano e meio, pelo menos!).
O projecto, que se diz implicar um investimento total à volta de 1000 M€, é protagonizado pelo empresário Alexandre Alves, o famoso "Barão Vermelho" que foi presidente do Benfica e da há muito desaparecida por falência Fábrica Nacional de Ar Condicionado (FNAC) e se queixa amargamente da pequenez dos subsídios públicos conseguidos, invocando o facto da fábrica de Moura que foi construída nessa vila como "contrapartida" da mega-central solar de Moura ter sido co-financiada pelos contribuintes portugueses a 50%! E diz que só lhe deram esse dinheiro "porque não tem maricas na empresa"...
Segundo parece, os 1000 milhões de € que diz que vai investir na RPP Solar são assegurados, segundo o "Barão Vermelho", por financiamento bancário "além de capitais próprios gerados, sobretudo na actividade imobiliária onde apostou forte nos últimos dez anos, quer em Portugal quer em Espanha".
Esta iniciativa do "Barão Vermelho" revela um notável espírito inovador mas, quanto aos tais capitais gerados pela actividade imobiliária ele terá, ao que parece, alguns problemas com a justiça, segundo revela o Correio da Manhã de hoje. Isso e a falência recente de uma firma sua será o que suscita as atenções da PJ...
Ora os mais jovens nunca terão, talvez, ouvido falar do "Barão Vermelho", que adquiriu este cognome não só por ter sido Presidente do Benfica no início dos anos 90 mas sobretudo por conciliar, ao que constava, o ser capitalista com ser membro do PCP, o que lhe dava acesso nos anos 80, como a outros capitalistas comunistas de que conheci alguns, a negócios privilegiados com as então marxistas-leninistas ex-colónias portuguesas. Os mais jovens não o conhecerão, mas há quem se lembre, como evoca aqui o Ecotretas!
A FNAC faliu num processo que muita gente na altura (há 20 anos) considerou fraudulento, mas o "Barão Vermelho" não foi condenado, pelo que me preocupa mais a razão de fundo da falência da FNAC que os pormenores jurídicos do caso.
Ora eu lembro-me bem dos aparelhos de ar condicionado da FNAC que tinha, na altura, o prático monopólio do mercado nacional, numa época em que ainda não estávamos na União Europeia e este mercado era fechado. Depois apareceram no mercado os aparelhos de ar condicionado japoneses, muito mais silenciosos, económicos, eficientes e com controlo electrónico, e evidentemente a FNAC nunca mais vendeu nada! Lembro-me também de um colega que projectava instalações eléctricas me contar que os japoneses, quando decidiram atacar o mercado português, terem convidado os projectistas como ele para uma semana no Brasil onde lhes explicaram as suas condições, que incluíam prazos de pagamento a 6 meses - o que os deixava deliciados, habituados como estavam às condições severas da FNAC...
Mas pode ser que o "Barão Vermelho" tenha aprendido com isto tudo e agora o projecto corra bem, quem sabe!...
A minha curiosidade preocupada, de facto, é sobre outra coisa:
- Dados estes subsídios chorudos do nosso Governo ao fabrico de painéis solares em Portugal, não vai haver contrapartida nos respectivos preços de venda? E admitindo que sim, não vai haver descida nas tarifas pagas aos produtores de energia solar? Ou vamos ter de pagar, nós os contribuintes, o fabrico dos painéis e depois também a energia solar aos preços exorbitantes tarifados, confirmando a constituição da 2ª vaca leiteira que anunciei aqui?
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terça-feira, junho 22, 2010
Minority Report e os chips nos carros
No filme de ficção científica Minority Report, à medida que as personagens se deslocam pelos centros comerciais, os plasmas de publicidade personalizam as suas propostas de acordo com quem vai a passar. "Eles" sabem quem vai a passar porque toda a gente anda com um chip que o identifica, no filme.
A ideia não tem nada de inexequível. O Google "aprende" os nossos hábitos e gostos e antecipa-se a escrever por completo o nome do que queremos procurar na net. E todos sabem como é fácil hoje em dia cruzar toda a informação do que compramos por meios electrónicos para nos fazer os "profiles" comerciais. O Fisco também já o faz.
No filme, um dia a polícia aparece de surpresa em casa do "herói" para o prender porque sabe, pelo seu perfil, que ele vai cometer um crime. E assim, antecipa-se, evitando esse crime.
Vem isto a propósito da ideia deste Governo de montar chips em todos os automóveis. Para quê, ainda não acharam sequer precisarem de o explicar. As SCUT deram-lhes agora um pretexto para tentar justificá-los.
É claro, tenho quase a certeza, que por detrás da ideia está essencialmente mais um negócio "decretino". Alguém fez as contas de como ficaria rico se vendesse uns milhões de chips em Portugal, provavelmente feitos na China, e nada melhor que um Decreto governamental para obrigar os cidadãos a comprá-lo!
Mas a ideia de um dia a polícia me aparecer em casa ou onde eu estiver, sabe-se lá se por bons motivos ou se apenas porque me querem tramar (como no filme), não me agrada.
Por isso, eu jamais usarei esse chip! E se vier a ser incorporado nos carros novos, quando comprar o próximo hei-de arrancá-lo!
E se vier a ser obrigatório, o máximo que me imagino a fazer é levá-lo comigo só nas viagens em que tenha de passar pelas tais portagens electrónicas, se não houver outras, e depois voltar a pô-lo numa gaveta de uma cave funda!
Mas para não ter mais uma coisa que me aborreça, espero bem que o Parlamento chumbe liminarmente essa ideia na quinta-feira - e de modo a que ela não renasça tão cedo!
A ideia não tem nada de inexequível. O Google "aprende" os nossos hábitos e gostos e antecipa-se a escrever por completo o nome do que queremos procurar na net. E todos sabem como é fácil hoje em dia cruzar toda a informação do que compramos por meios electrónicos para nos fazer os "profiles" comerciais. O Fisco também já o faz.
No filme, um dia a polícia aparece de surpresa em casa do "herói" para o prender porque sabe, pelo seu perfil, que ele vai cometer um crime. E assim, antecipa-se, evitando esse crime.
Vem isto a propósito da ideia deste Governo de montar chips em todos os automóveis. Para quê, ainda não acharam sequer precisarem de o explicar. As SCUT deram-lhes agora um pretexto para tentar justificá-los.
É claro, tenho quase a certeza, que por detrás da ideia está essencialmente mais um negócio "decretino". Alguém fez as contas de como ficaria rico se vendesse uns milhões de chips em Portugal, provavelmente feitos na China, e nada melhor que um Decreto governamental para obrigar os cidadãos a comprá-lo!
Mas a ideia de um dia a polícia me aparecer em casa ou onde eu estiver, sabe-se lá se por bons motivos ou se apenas porque me querem tramar (como no filme), não me agrada.
Por isso, eu jamais usarei esse chip! E se vier a ser incorporado nos carros novos, quando comprar o próximo hei-de arrancá-lo!
E se vier a ser obrigatório, o máximo que me imagino a fazer é levá-lo comigo só nas viagens em que tenha de passar pelas tais portagens electrónicas, se não houver outras, e depois voltar a pô-lo numa gaveta de uma cave funda!
Mas para não ter mais uma coisa que me aborreça, espero bem que o Parlamento chumbe liminarmente essa ideia na quinta-feira - e de modo a que ela não renasça tão cedo!
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27% dos alunos do Técnico não sabe calcular 1/2+1/2...
Diz hoje o Público que 27% dos alunos do Técnico não sabem calcular 1/2+1/2...
"Em algum lado têm de começar a ser responsáveis. Têm uma preparação de uma pessoa de início de secundário ou pior. São ensinados a não pensar e isso em Matemática é desastroso. Foram treinados como um cãozinho para um exame”, diz a minha colega Luísa Ribeiro.
Subscrevo.
Também não tenho nenhuma dúvida que a actual geração juvenil não fará parte da solução do problema do atraso de Portugal. Pelo contrário, faz parte do problema.
E eles sabem.
Por isso ou não querem pensar na vida, preferindo festas e cerveja, ou vão-se embora, os bem orientados, ou se agarram ansiosos uns à propaganda segundo a qual tudo se consegue com "espírito positivo", "inovação" e "gestão", ou seja, com truques de xico-esperto, outros à esperança de que alguma coisa mude e que o seu trabalho os recompense.
Todos merecem o nosso esforço, mas os últimos são quem nos encoraja...
"Em algum lado têm de começar a ser responsáveis. Têm uma preparação de uma pessoa de início de secundário ou pior. São ensinados a não pensar e isso em Matemática é desastroso. Foram treinados como um cãozinho para um exame”, diz a minha colega Luísa Ribeiro.
Subscrevo.
Também não tenho nenhuma dúvida que a actual geração juvenil não fará parte da solução do problema do atraso de Portugal. Pelo contrário, faz parte do problema.
E eles sabem.
Por isso ou não querem pensar na vida, preferindo festas e cerveja, ou vão-se embora, os bem orientados, ou se agarram ansiosos uns à propaganda segundo a qual tudo se consegue com "espírito positivo", "inovação" e "gestão", ou seja, com truques de xico-esperto, outros à esperança de que alguma coisa mude e que o seu trabalho os recompense.
Todos merecem o nosso esforço, mas os últimos são quem nos encoraja...
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Custos e preços da electricidade, mercado, renováveis, e os interesses instalados
Alguns colegas do Técnico observaram-me que ando a escrever demasiado sobre economia da energia e de menos sobre as suas tecnologias, no que têm uma certa razão. Porém, sem consideração pela economia das tecnologias, e dado que não tenho andado a tratar daquelas cujo custo não importa desde que funcionem (as militares e as da saúde), não podemos ter a noção do interesse para a sociedade (os outros) das tecnologias que estudamos. Ou seja: a ciência não é neutra! Ainda por cima, o país tem em discussão o seu plano energético para os próximos 10 anos, o ENE 2020. Por isso, neste post e em mais um ou dois que agendei escrever, vou ainda abordar a economia da energia, obviamente em relação com as respectivas tecnologias, de modo a clarificar os poderosos interesses instalados neste negócio.
Conforme escrevi há dias sobre "A relação entre os preços da electricidade, mercado e renováveis", os relatórios da ERSE contêm a informação necessária para compreender que a produção renovável não faz descer os preços da energia paga pelos consumidores - faz apenas descer os preços da que ainda falta, depois de absorvida a produção renovável, e fá-los descer tanto mais quanto menos ela for necessária. Acrescentei também que a maior parte dessa energia comprada em mercado tem depois remunerações adicionais transferidas da rúbrica contabilística "Custos de Energia" para a dos "Custos de Interesse Económico Geral".
Vale a pena, entretanto, analisar um pouco melhor esta questão, tentando precisar o sobrecusto que pagamos pela energia e em particular pela renovável, de modo a compreendermos bem os interesses que se instalaram na matéria!
Conforme recordei no post referido, até 2004 o comércio de energia em Portugal era regulado por "Contratos de Aquisição de Energia" (CAE) que garantiam preços aos produtores e, assim, o retorno dos respectivos investimentos.
Com o advento do mercado ibérico (MIBEL) e cumprindo directivas de Bruxelas, este tipo de Contrato foi extinto em 2007, mantendo-se embora duas excepções para entidades exteriores à EDP que tinham restrições bancárias, a "Tejo Energia" e a "Turbogás"- e a que voltarei.
Os CAE foram extintos mas em sua substituição foram criados os "Custos de Manutenção do Equilíbrio Contratual" (CMEC) que, como o próprio texto que os criou explica, "... são determinados, para cada centro electroprodutor, pela diferença entre o valor residual do respectivo CAE, calculado à data da sua extinção, e as receitas expectáveis em regime de mercado". Não se podia clarificar melhor que se tratou de uma simples mudança de nome!
No final de 2004 foi decretada a forma de cálculo dos CMEC que inclui a remuneração da "garantia de potência e serviços do sistema" e que estipula que esses Custos são tarifariamente contabilizados na rubrica "Uso Geral do Sistema" (UGS), assumindo então como referência que o valor de mercado da energia seria de 3,6 ç/kWh, o qual em 2007 o Governo actualizou para 5 ç/kWh. No entanto, é curial notar que o prazo de validade para os CMEC não é eterno: é 2012 para a termoeléctrica a fuelóleo de Setúbal, 2017 para a de Sines a carvão, e entre 2013 e 2024 para as hidroeléctricas - basicamente até ao termos de amortização dos respectivos investimentos.
As centrais do Pego (carvão) e da Tapada do Outeiro (ciclo combinado a gás natural), que não pertencem à EDP, foram as que mantiveram os CAE, a vigorar até 2021 e 2024, respectivamente.
Entretanto, em 2007 o Governo concessionou à EDP o prolongamento da exploração das hidroeléctricas dos referidos anos de 2013-2024 por mais uma geração, o que foi asperamente criticado pelo Dr. Ing. Jorge Vasconcelos mas de que hoje se compreende o motivo: o plano de "complementaridade hídrico-eólico" de dissipação e armazenamento por bombagem do excesso de energia eólica, tão almejado por este Governo e pelo lobby eólico, e que garante a essas hidroeléctricas a protecção de mercado da subsidiação às eólicas que as abastecerão a baixo preço (às hidroeléctricas, mas não aos consumidores)!
No cálculo dos CMEC, são as termoeléctricas as mais beneficiadas. Mas, em conjunto com os CAE subsistentes, verifica-se pelos documentos da ERSE que em média há cerca de 2,36 ç/kWh da tarifa que pagamos que foram contabilisticamente transferidos dos custos de energia para os CIEG, a adicionar à transferência do sobrecusto das renováveis.
Claro que esta "compensação pelas perdas em mercado" é criticada pelos comercializadores de energia não protegidos por CAE nem CMEC, mas são os clientes da Baixa Tensão Normal (BTN) quem paga, de facto, esse custo escondido e o das renováveis: as famílias, as micro-empresas do pequeno comércio, restauração e oficinas, e a Iluminação Pública - uns 45% do consumo. A figura seguinte ilustra-o (a azul escuro a parte dos CIEG na tarifa).
Como é aí patente, o custo real da parcela de energia da tarifa doméstica de electricidade é perto de 55% do total (8,6 ç/kWh), e não os 32% que se encena! E a tarifa total seria ainda 11% superior se os sobrecustos dos CMEC e das renováveis não tivessem sido na sua maioria remetidos para um défice a pagar até 2027, o que eleva para mais de 9,0 ç/kWh o custo real da parcela de energia na tarifa de BT!...
A título de exemplo do que estou a falar, faço notar que a ERSE revela que a remuneração das duas centrais com CAE em 2010 foi definida como de 7,24 ç/kWh, embora a própria ERSE estime em 5,26 ç/kWh os respectivos valores de venda no mercado; o resto é "compensado" posteriormente. Estas remunerações serão semelhantes aos das centrais da EDP abrangidas pelos CMEC, pelo que é altura de rever os custos de produção das diversas fontes de energia eléctrica em Portugal, para se ter uma ideia do que se está a passar.
Há cerca de um ano fiz uma estimativa desses custos de produção que visava proporcionar uma ideia da sua ordem de grandeza relativa, mas esse cálculo merece ser agora afinado, considerando:
- os custos adicionais do tempo de construção das centrais, e que na altura negligenciara, a somar aos custos "overnignt" que ali considerara a partir de informações oficiais norte-americanas;
- as taxas reais de remuneração dos activos eléctricos consideradas pela ERSE como vigorando presentemente em Portugal (7.55% em 2009, 8,39% em 2010...);
- afinação de alguns custos "overnight" e dos factores de utilização das diversas formas de produção energética com dados específicos portugueses.
Vem, assim, a lista seguinte, constando na primeira coluna os custos de capital overnight por kW; esta estimativa de custos tem uma variedade de fontes, desde os actuais do Departamento de Energia dos EUA, a estudos canadianos, finlandeses e à wikipedia, passando por informação nacional. Na segunda coluna apresento os mesmos custos já incluindo o tempo de construção (durante o qual o investimento acumula juros sem rendimento) e o factor de contingência usual:
Solar fotovoltaico: 4000 € >> 4515€;
Solar térmico: 5340 € >> 6200€; (modelo espanhol de Andasol)
Biomassa: 2320 € >> 2690€;
biogás: 1700 € >> 1910€;
Eólica (off-shore): 2380 € >> 2880€;
Eólica (em terra): 1300 € >> 1465€;
Hidroeléctrica (média): 1420 €>> 1750€;
Carvão dessulfurizado: 1415 € >> 1730€;
Ciclo combinado a gás: 475 €>> 550€;.
nuclear: 2250 € >> 2990€;
Coloquei a castanho as centrais tradicionais portuguesas, e a azul o nuclear, este só para referência.
Algumas destas formas de produção têm custos de investimento muito variáveis de caso para caso, como nas hidroeléctricas, e uma primeira diferença entre as diferentes centrais é quanto tempo é necessário para amortizar o seu pagamento. Este tempo varia entre 20 anos para as eólicas e as solares, 30 para as a gás e carvão, e 40 para as hidroeléctricas e as nucleares, o que não quer dizer que estas últimas não operem bastante para além desses anos, já amortizadas...
Entretanto e quanto ao custo do dinheiro assumo o valor considerado pela ERSE para remuneração dos activos de produção da EDP para 2009: 7,55%, o que é muito razoável para a remuneração de capitais próprios!
Umas contas simples mostram que com esta taxa, a anuidade a recuperar nas vendas de energia terá de ser de 8,00%, 8,51% e 9,85% conforme os prazos considerados forem de 40, 30 ou 20 anos. Isto é independente do tipo de central. O que depende do tipo de central é a relação entre a sua potência média de funcionamento (a que é proporcional a energia vendida), e a sua potência nominal, a que é proporcional o investimento a recuperar, ou seja, o respectivo factor de utilização.
Com os factores de utilização colocados entre parêntesis e os custos de capital finais acima indicados, vem como custo de capital para o kWh de cada uma destas formas de energia:
Solar fotovoltaico: 22,8 ç/kWh (21.5%);
nos painéis fixos será 32,7 ç/kWh
Solar térmico: 17,06 ç/kWh (40.8%);
Biomassa: 3,42 ç/kWh (63%);
biogás: 3,4 ç/kWh (63%);
Eólica (off-shore): 9,80 ç/kWh (33%);
Eólica (em terra): 6,45 ç/kWh (25.5%);
Hidroeléctrica (média): 5,32 ç/kWh (30%);
Carvão dessulfurizado: 2,1 ç/kWh (83%);
Ciclo combinado a gás: 1,07 ç/kWh (50%);
Nuclear: 2,96 ç/kWh (92%).
Adicionando agora os custos típicos de Operação e Manutenção, combustível (onde é caso disso), e os custos especiais de remoção e tratamento de resíduos no caso do nuclear, vêm finalmente os custos totais de referência seguintes:
Solar fotovoltaico: 23,5 ç/kWh (22.8);
Solar fotovoltaico nos telhados: 33,5 ç/kWh (32.7);
Solar térmico: 19,0 ç/kWh (17.06);
Biomassa: 9,7 ç/kWh (3.42);
Eólica (off-shore): 11,0 ç/kWh (9.80);
Eólica (em terra): 7,0 ç/kWh (6.58);
Biogás: 5,5 ç/kWh (3.4);
Ciclo combinado a gás: 6,0 ç/kWh (1.07);
Hidroeléctrica (média): 5,7 ç/kWh (5.32);
Carvão dessulfurizado: 5,6 ç/kWh (2.1);
Nuclear: 4,9 ç/kWh (2.96).
Como disse, estes são custos de referência, mas precisam de alguns esclarecimentos importantes:
a) Existem muito poucas instalações no mundo de "solar térmico" que possam servir de referência. As que existem dividem-se em sem e com capacidade de armazenamento de calor, sendo as primeiras mais baratas de construção mas tendo um factor de utilização também muito inferior. Neste caso usei como referência a espanhola de Andasol. Além de uma manutenção mais onerosa que as fotovoltaicas, estas centrais consomem imensa água de refrigeração, o que tem levado a serem muito criticadas quando usadas em zonas solarengas mas secas.
b) O custo de produção das centrais de biomassa depende largamente do custo de abastecimento da biomassa, que sendo dispendioso é, no entanto, uma actividade que cria muito emprego. Infelizmente para nós, a recolha de resíduos agrícolas (particularmente de árvores de pomar) é muito mais barata do que a de florestais, mas a limpeza das florestas é uma actividade que de qualquer modo tem de ser paga por alguém, a menos que nos resignemos aos nossos regulares incêndios estivais. Tecnologicamente, existe um potencial de inovação na procura de soluções para o seguinte problema: quanto maior a potência da central, menor o seu custo de produção por kWh, mas maior também a área de recolha e transporte da biomassa e o respectivo custo. A biomassa florestal pode ser queimada em centrais clássicas a carvão (misturada com este), depois de devidamente tratada, e efectivamente esse é um (meritório) projecto em curso na "Tejo Energia" (Pego), e naturalmente tem o seu melhor potencial de exploração económica nas indústrias de papel, cogerando também calor.
c) O custo de produção do biogás depende consideravelmente da infra-estrutura de recolha desse gás, sendo de distinguir entre o metano dos Resíduos Sólidos Urbanos e o das estruturas agro-pecuárias (o metano queimado nestas centrais é 14 vezes pior que o CO2 que elas libertam para o efeito de estufa). Em geral são pequenas centrais de 0,75 a 3 MW, mas de que pode haver grande quantidade num país ou região, não requerendo os onerosos custos de recolha e transporte da biomassa. No valor calculado assumi um factor de utilização de 63%, mas se a central puder trabalhar ininterruptamente (90% do ano), o custo de produção reduz-se de 5,5 para uns excelentes 4,9 ç/kWh...
d) Nas eólicas o factor-chave para o custo do kWh produzido é a qualidade do vento, ou seja, o factor de utilização das turbinas. Em Portugal 25.5% tem sido o seu valor médio, mas na região Oeste esse factor é 10% superior (28%), o que reduz o custo de produção aí para uns competitivos 6,34 ç/kWh. Além disso, em 2005 o preço das turbinas atingira os 1200 €/kWe (voltou a subir depois, antes da recessão), o que trouxe o custo de produção das instaladas até finais de 2007 para cerca de 6,5 ç/kWh em média, e 5,9 ç/kWh na região Oeste...
d) No custo do carvão tive em conta não só a multa pela emissão de CO2, mas também o facto de o nosso carvão ser importado, e o de melhor qualidade ser mais caro.
e) Quanto ao custo do kWh nuclear, o valor indicado é o estimável para as novas centrais de 3ª geração de concepção europeia, bastante mais caras que a maioria das centrais existentes. Com efeito, num post anterior escrevera que o custo de produção atribuído pelo regulador francês à energia nuclear da EDF era de 4,1 ç/kWh enquanto esta dizia que era de 4,4 ç/kWh, mas os meus números eram já algo antigos. Os números actuais dos custos de produção do nuclear francês, como se pode ver aqui (com centrais ainda de 2ª geração), são de 3,4 ç/kWh, e o regulador francês apenas aceita um preço de venda de 4,0 ç/kWh...
Como fica evidente, excluindo os custos adicionais de sistema que a intermitência eólica acarreta quando a sua proporção no mix energético atinge valores que já ultrapassámos (custos de backup para as quedas do vento e de armazenamento para os excessos, mais os da rede necessária para transmitir as pontas de potência eólica), o custo de produção da energia eólica pode não exceder demasiado os custos médios das produções convencionais (uns 5,6 ç/kWh incluindo uma parcela de importação de origem nuclear espanhola).
Com 7,0 ç/kWh como custo médio das eólicas pós-2007, 6,5 para as instaladas até aí, que cai para 5,9 nas melhores zonas e considerando que muitos projectos ainda gozaram do recurso a fundos europeus que comparticiparam em média 18% dos projectos até 2006 e frequentemente 40% do investimento inicial (reduzindo os custos de produção médios dos beneficiados até 2007 para 5.0 ç/kWh e, para os que lograram 40% de subsídio, para apenas 4,0 ç/kWh), estes custos permitiriam uma subsidiação modesta, desde que a compra de toda a produção fosse garantida a preço fixo, conforme a lógica europeia dominante.
Porém, o grande problema que torna a energia eólica tão desmesuradamente cara é precisamente o mecanismo tarifário que o lobby eólico conseguiu pôr na legislação! Sendo definido por legislação complexa e obscura, esse tarifário tem com efeito premiado os produtores eólicos com uma remuneração média de 9.3 ç/kWh, cerca de 33% acima do custo de produção médio actual (suposto financiada com crédito bancário) mas que, nos casos em que as instalações beneficiaram de fundos comunitários para o investimento inicial - único investimento que há de facto a fazer nas eólicas - se aproxima dos 100%!!! Umas contas simples mostram que dos cerca de 720 milhões de € anuais pagos actualmente aos produtores eólicos, uns 230 milhões de € são para o tal "prémio", e que este negócio é uma verdadeira vaca leiteira!
Já de si os CMEC e os CAE proporcionam prémios de montante muito generoso - 20 a 25% - aos produtores tradicionais (7,24 ç/kWh nos CAE, recordo, para custos médios de produção que andarão pelos 5,6-6,0 ç/kWh) mas, no caso da energia eólica, como se vê, os valores são exorbitantes e sem sequer contrapartida em empregos nacionais em Operação e Manutenção! E vale a pena notar que estes valores, definidos no tempo de Guterres, tinham originalmente um prazo garantido de 35 anos que foi reduzido por Manuel Lancastre no Governo de 2004-2005 para 15 anos+5, ao mesmo tempo que a tarifa era reduzida em 14%, para grande descontentamento do lobby eólico!
Para termos de comparação, vale a pena atentar no tarifário alemão, por exemplo: é de uma clareza cristalina, com tabelas de remuneração por tecnologia, e aprovado pelo Parlamento (Bundestag)!
Analisando os valores desse tarifário alemão, uma boa referência porque foram os alemães que inventaram este tipo de tarifa, pode ver-se para começar que as tarifas praticadas são degressivas; prevêm um período de amortização de 20 anos com uma redução anual de 2%, de modo que, por exemplo, em 2004 a tarifa para a energia eólica começava com 8,7 ç/kWh, mas ao fim de 20 anos estará em apenas 5,5 ç/kWh, tendo por valor médio 7,3 ç/kWh - o mesmo valor para o qual Manuel Lancastre reduziu o valor da tarifa portuguesa, em 2005, mas que é actualizado com a inflacção, conduzindo aos preços actuais indicados pela ERSE de mais de 9.1 ç/kWh (9,11 em 2010)!
Em Portugal, nessa data (2004) a tarifa era exactamente igual à alemã inicial, só que sem degressão e, como notei, prevendo-se que o fosse por 35 anos!!! Por outro lado, os 8,7 ç/kWh iniciais eram os mesmos, mas os custos de produção dos kWh eólicos é que não! Em 1º lugar, e segundo a EWEA, os custos de investimento por MWe eram na Alemanha 11% superiores aos portugueses, e por outro lado o factor de utilização médio é lá 11% inferior; quer isto dizer que os mesmos cálculos que conduzem ao custo de produção médio actual de 7.0 ç/kWh em Portugal, conduzem a 8.7 ç/kWh na Alemanha - e, portanto, lá a tarifa não dá "prémios"; remunera o investimento com uma taxa até inferior aos 7.5% que aqui assumi para Portugal, o que até não seria mau se o mesmo fosse feito com capitais próprios (na Alemanha era-o tipicamente a 30%).
Em contrapartida, o biogás dos Resíduos Sólidos Urbanos é remunerado por cá com "apenas" 8,0 ç/kWh, e o dos resíduos agro-pecuários, que tem o potencial do melhor custo de produção, tem uma remuneração que depende da origem do biogás, mas apenas desde 2005 com Manuel Lancastre e ainda com uma potência total permitida insignificante, sem falar dos entraves burocráticos! Ao que parece, no biogás agro-pecuário o esforço de instalação de infra-estruturas que ele requer não tem atraído investidores, e a baixa tarifa de 5.48 ç/kWh associada reforça a sua "má imagem", segundo alguns...
Entretanto, a 2ª vaca leiteira que os lobbies que nos governam preparam é na energia solar. Com remunerações de 34,5 ç/kWh para uma fotovoltaica com custos de produção de 23,5 (já admitindo uma remuneração de capital a 7,5%...), temos sobrelucros (por decreto) semelhantes ao das eólicas para uma incorporação de valor nacional também semelhante (ou seja, ridículo), sobrelucro "decretino" ainda maior no caso dos painéis fixos caseiros ( 58,7 ç/kWh para um custo de 33.5...)! E assim se compreende, por exemplo, que o Dr. Miguel Barreto, Director-Geral da Energia até 2008 e o pai da actual legislação sobre a microgeração fotovoltaica, depois de abandonar o cargo público onde criou essa legislação tenha ido administrar o mesmo negócio para a Martifer "Home Energy"...
Entretanto, em entrevista à Vida Económica do passado dia 4, a Ministra da Energia da Polónia explicava a aposta do seu país para o cumprimento dos compromissos europeus no domínio da redução de emissões e de energias renováveis: a decisão de substituir o carvão pelo nuclear, e a aposta, além de na eólica, na biomassa e no biogás, que irão ter lá maior peso que a eólica.
E a Ministra justificou: "... prevê-se a criação de cerca de 2 mil centrais a biogás na Polónia. São centrais relativamente pequenas a instalar em todo o país para complementar e criar uma nova fonte de rendimento para o sector agrícola".
Sem dúvida que a Polónia é um país com futuro!
Conforme escrevi há dias sobre "A relação entre os preços da electricidade, mercado e renováveis", os relatórios da ERSE contêm a informação necessária para compreender que a produção renovável não faz descer os preços da energia paga pelos consumidores - faz apenas descer os preços da que ainda falta, depois de absorvida a produção renovável, e fá-los descer tanto mais quanto menos ela for necessária. Acrescentei também que a maior parte dessa energia comprada em mercado tem depois remunerações adicionais transferidas da rúbrica contabilística "Custos de Energia" para a dos "Custos de Interesse Económico Geral".
Vale a pena, entretanto, analisar um pouco melhor esta questão, tentando precisar o sobrecusto que pagamos pela energia e em particular pela renovável, de modo a compreendermos bem os interesses que se instalaram na matéria!
Conforme recordei no post referido, até 2004 o comércio de energia em Portugal era regulado por "Contratos de Aquisição de Energia" (CAE) que garantiam preços aos produtores e, assim, o retorno dos respectivos investimentos.
Com o advento do mercado ibérico (MIBEL) e cumprindo directivas de Bruxelas, este tipo de Contrato foi extinto em 2007, mantendo-se embora duas excepções para entidades exteriores à EDP que tinham restrições bancárias, a "Tejo Energia" e a "Turbogás"- e a que voltarei.
Os CAE foram extintos mas em sua substituição foram criados os "Custos de Manutenção do Equilíbrio Contratual" (CMEC) que, como o próprio texto que os criou explica, "... são determinados, para cada centro electroprodutor, pela diferença entre o valor residual do respectivo CAE, calculado à data da sua extinção, e as receitas expectáveis em regime de mercado". Não se podia clarificar melhor que se tratou de uma simples mudança de nome!
No final de 2004 foi decretada a forma de cálculo dos CMEC que inclui a remuneração da "garantia de potência e serviços do sistema" e que estipula que esses Custos são tarifariamente contabilizados na rubrica "Uso Geral do Sistema" (UGS), assumindo então como referência que o valor de mercado da energia seria de 3,6 ç/kWh, o qual em 2007 o Governo actualizou para 5 ç/kWh. No entanto, é curial notar que o prazo de validade para os CMEC não é eterno: é 2012 para a termoeléctrica a fuelóleo de Setúbal, 2017 para a de Sines a carvão, e entre 2013 e 2024 para as hidroeléctricas - basicamente até ao termos de amortização dos respectivos investimentos.
As centrais do Pego (carvão) e da Tapada do Outeiro (ciclo combinado a gás natural), que não pertencem à EDP, foram as que mantiveram os CAE, a vigorar até 2021 e 2024, respectivamente.
Entretanto, em 2007 o Governo concessionou à EDP o prolongamento da exploração das hidroeléctricas dos referidos anos de 2013-2024 por mais uma geração, o que foi asperamente criticado pelo Dr. Ing. Jorge Vasconcelos mas de que hoje se compreende o motivo: o plano de "complementaridade hídrico-eólico" de dissipação e armazenamento por bombagem do excesso de energia eólica, tão almejado por este Governo e pelo lobby eólico, e que garante a essas hidroeléctricas a protecção de mercado da subsidiação às eólicas que as abastecerão a baixo preço (às hidroeléctricas, mas não aos consumidores)!
No cálculo dos CMEC, são as termoeléctricas as mais beneficiadas. Mas, em conjunto com os CAE subsistentes, verifica-se pelos documentos da ERSE que em média há cerca de 2,36 ç/kWh da tarifa que pagamos que foram contabilisticamente transferidos dos custos de energia para os CIEG, a adicionar à transferência do sobrecusto das renováveis.
Claro que esta "compensação pelas perdas em mercado" é criticada pelos comercializadores de energia não protegidos por CAE nem CMEC, mas são os clientes da Baixa Tensão Normal (BTN) quem paga, de facto, esse custo escondido e o das renováveis: as famílias, as micro-empresas do pequeno comércio, restauração e oficinas, e a Iluminação Pública - uns 45% do consumo. A figura seguinte ilustra-o (a azul escuro a parte dos CIEG na tarifa).
Como é aí patente, o custo real da parcela de energia da tarifa doméstica de electricidade é perto de 55% do total (8,6 ç/kWh), e não os 32% que se encena! E a tarifa total seria ainda 11% superior se os sobrecustos dos CMEC e das renováveis não tivessem sido na sua maioria remetidos para um défice a pagar até 2027, o que eleva para mais de 9,0 ç/kWh o custo real da parcela de energia na tarifa de BT!...
A título de exemplo do que estou a falar, faço notar que a ERSE revela que a remuneração das duas centrais com CAE em 2010 foi definida como de 7,24 ç/kWh, embora a própria ERSE estime em 5,26 ç/kWh os respectivos valores de venda no mercado; o resto é "compensado" posteriormente. Estas remunerações serão semelhantes aos das centrais da EDP abrangidas pelos CMEC, pelo que é altura de rever os custos de produção das diversas fontes de energia eléctrica em Portugal, para se ter uma ideia do que se está a passar.
Há cerca de um ano fiz uma estimativa desses custos de produção que visava proporcionar uma ideia da sua ordem de grandeza relativa, mas esse cálculo merece ser agora afinado, considerando:
- os custos adicionais do tempo de construção das centrais, e que na altura negligenciara, a somar aos custos "overnignt" que ali considerara a partir de informações oficiais norte-americanas;
- as taxas reais de remuneração dos activos eléctricos consideradas pela ERSE como vigorando presentemente em Portugal (7.55% em 2009, 8,39% em 2010...);
- afinação de alguns custos "overnight" e dos factores de utilização das diversas formas de produção energética com dados específicos portugueses.
Vem, assim, a lista seguinte, constando na primeira coluna os custos de capital overnight por kW; esta estimativa de custos tem uma variedade de fontes, desde os actuais do Departamento de Energia dos EUA, a estudos canadianos, finlandeses e à wikipedia, passando por informação nacional. Na segunda coluna apresento os mesmos custos já incluindo o tempo de construção (durante o qual o investimento acumula juros sem rendimento) e o factor de contingência usual:
Solar fotovoltaico: 4000 € >> 4515€;
Solar térmico: 5340 € >> 6200€; (modelo espanhol de Andasol)
Biomassa: 2320 € >> 2690€;
biogás: 1700 € >> 1910€;
Eólica (off-shore): 2380 € >> 2880€;
Eólica (em terra): 1300 € >> 1465€;
Hidroeléctrica (média): 1420 €>> 1750€;
Carvão dessulfurizado: 1415 € >> 1730€;
Ciclo combinado a gás: 475 €>> 550€;.
nuclear: 2250 € >> 2990€;
Coloquei a castanho as centrais tradicionais portuguesas, e a azul o nuclear, este só para referência.
Algumas destas formas de produção têm custos de investimento muito variáveis de caso para caso, como nas hidroeléctricas, e uma primeira diferença entre as diferentes centrais é quanto tempo é necessário para amortizar o seu pagamento. Este tempo varia entre 20 anos para as eólicas e as solares, 30 para as a gás e carvão, e 40 para as hidroeléctricas e as nucleares, o que não quer dizer que estas últimas não operem bastante para além desses anos, já amortizadas...
Entretanto e quanto ao custo do dinheiro assumo o valor considerado pela ERSE para remuneração dos activos de produção da EDP para 2009: 7,55%, o que é muito razoável para a remuneração de capitais próprios!
Umas contas simples mostram que com esta taxa, a anuidade a recuperar nas vendas de energia terá de ser de 8,00%, 8,51% e 9,85% conforme os prazos considerados forem de 40, 30 ou 20 anos. Isto é independente do tipo de central. O que depende do tipo de central é a relação entre a sua potência média de funcionamento (a que é proporcional a energia vendida), e a sua potência nominal, a que é proporcional o investimento a recuperar, ou seja, o respectivo factor de utilização.
Com os factores de utilização colocados entre parêntesis e os custos de capital finais acima indicados, vem como custo de capital para o kWh de cada uma destas formas de energia:
Solar fotovoltaico: 22,8 ç/kWh (21.5%);
nos painéis fixos será 32,7 ç/kWh
Solar térmico: 17,06 ç/kWh (40.8%);
Biomassa: 3,42 ç/kWh (63%);
biogás: 3,4 ç/kWh (63%);
Eólica (off-shore): 9,80 ç/kWh (33%);
Eólica (em terra): 6,45 ç/kWh (25.5%);
Hidroeléctrica (média): 5,32 ç/kWh (30%);
Carvão dessulfurizado: 2,1 ç/kWh (83%);
Ciclo combinado a gás: 1,07 ç/kWh (50%);
Nuclear: 2,96 ç/kWh (92%).
Adicionando agora os custos típicos de Operação e Manutenção, combustível (onde é caso disso), e os custos especiais de remoção e tratamento de resíduos no caso do nuclear, vêm finalmente os custos totais de referência seguintes:
Solar fotovoltaico: 23,5 ç/kWh (22.8);
Solar fotovoltaico nos telhados: 33,5 ç/kWh (32.7);
Solar térmico: 19,0 ç/kWh (17.06);
Biomassa: 9,7 ç/kWh (3.42);
Eólica (off-shore): 11,0 ç/kWh (9.80);
Eólica (em terra): 7,0 ç/kWh (6.58);
Biogás: 5,5 ç/kWh (3.4);
Ciclo combinado a gás: 6,0 ç/kWh (1.07);
Hidroeléctrica (média): 5,7 ç/kWh (5.32);
Carvão dessulfurizado: 5,6 ç/kWh (2.1);
Nuclear: 4,9 ç/kWh (2.96).
Como disse, estes são custos de referência, mas precisam de alguns esclarecimentos importantes:
a) Existem muito poucas instalações no mundo de "solar térmico" que possam servir de referência. As que existem dividem-se em sem e com capacidade de armazenamento de calor, sendo as primeiras mais baratas de construção mas tendo um factor de utilização também muito inferior. Neste caso usei como referência a espanhola de Andasol. Além de uma manutenção mais onerosa que as fotovoltaicas, estas centrais consomem imensa água de refrigeração, o que tem levado a serem muito criticadas quando usadas em zonas solarengas mas secas.
b) O custo de produção das centrais de biomassa depende largamente do custo de abastecimento da biomassa, que sendo dispendioso é, no entanto, uma actividade que cria muito emprego. Infelizmente para nós, a recolha de resíduos agrícolas (particularmente de árvores de pomar) é muito mais barata do que a de florestais, mas a limpeza das florestas é uma actividade que de qualquer modo tem de ser paga por alguém, a menos que nos resignemos aos nossos regulares incêndios estivais. Tecnologicamente, existe um potencial de inovação na procura de soluções para o seguinte problema: quanto maior a potência da central, menor o seu custo de produção por kWh, mas maior também a área de recolha e transporte da biomassa e o respectivo custo. A biomassa florestal pode ser queimada em centrais clássicas a carvão (misturada com este), depois de devidamente tratada, e efectivamente esse é um (meritório) projecto em curso na "Tejo Energia" (Pego), e naturalmente tem o seu melhor potencial de exploração económica nas indústrias de papel, cogerando também calor.
c) O custo de produção do biogás depende consideravelmente da infra-estrutura de recolha desse gás, sendo de distinguir entre o metano dos Resíduos Sólidos Urbanos e o das estruturas agro-pecuárias (o metano queimado nestas centrais é 14 vezes pior que o CO2 que elas libertam para o efeito de estufa). Em geral são pequenas centrais de 0,75 a 3 MW, mas de que pode haver grande quantidade num país ou região, não requerendo os onerosos custos de recolha e transporte da biomassa. No valor calculado assumi um factor de utilização de 63%, mas se a central puder trabalhar ininterruptamente (90% do ano), o custo de produção reduz-se de 5,5 para uns excelentes 4,9 ç/kWh...
d) Nas eólicas o factor-chave para o custo do kWh produzido é a qualidade do vento, ou seja, o factor de utilização das turbinas. Em Portugal 25.5% tem sido o seu valor médio, mas na região Oeste esse factor é 10% superior (28%), o que reduz o custo de produção aí para uns competitivos 6,34 ç/kWh. Além disso, em 2005 o preço das turbinas atingira os 1200 €/kWe (voltou a subir depois, antes da recessão), o que trouxe o custo de produção das instaladas até finais de 2007 para cerca de 6,5 ç/kWh em média, e 5,9 ç/kWh na região Oeste...
d) No custo do carvão tive em conta não só a multa pela emissão de CO2, mas também o facto de o nosso carvão ser importado, e o de melhor qualidade ser mais caro.
e) Quanto ao custo do kWh nuclear, o valor indicado é o estimável para as novas centrais de 3ª geração de concepção europeia, bastante mais caras que a maioria das centrais existentes. Com efeito, num post anterior escrevera que o custo de produção atribuído pelo regulador francês à energia nuclear da EDF era de 4,1 ç/kWh enquanto esta dizia que era de 4,4 ç/kWh, mas os meus números eram já algo antigos. Os números actuais dos custos de produção do nuclear francês, como se pode ver aqui (com centrais ainda de 2ª geração), são de 3,4 ç/kWh, e o regulador francês apenas aceita um preço de venda de 4,0 ç/kWh...
Como fica evidente, excluindo os custos adicionais de sistema que a intermitência eólica acarreta quando a sua proporção no mix energético atinge valores que já ultrapassámos (custos de backup para as quedas do vento e de armazenamento para os excessos, mais os da rede necessária para transmitir as pontas de potência eólica), o custo de produção da energia eólica pode não exceder demasiado os custos médios das produções convencionais (uns 5,6 ç/kWh incluindo uma parcela de importação de origem nuclear espanhola).
Com 7,0 ç/kWh como custo médio das eólicas pós-2007, 6,5 para as instaladas até aí, que cai para 5,9 nas melhores zonas e considerando que muitos projectos ainda gozaram do recurso a fundos europeus que comparticiparam em média 18% dos projectos até 2006 e frequentemente 40% do investimento inicial (reduzindo os custos de produção médios dos beneficiados até 2007 para 5.0 ç/kWh e, para os que lograram 40% de subsídio, para apenas 4,0 ç/kWh), estes custos permitiriam uma subsidiação modesta, desde que a compra de toda a produção fosse garantida a preço fixo, conforme a lógica europeia dominante.
Porém, o grande problema que torna a energia eólica tão desmesuradamente cara é precisamente o mecanismo tarifário que o lobby eólico conseguiu pôr na legislação! Sendo definido por legislação complexa e obscura, esse tarifário tem com efeito premiado os produtores eólicos com uma remuneração média de 9.3 ç/kWh, cerca de 33% acima do custo de produção médio actual (suposto financiada com crédito bancário) mas que, nos casos em que as instalações beneficiaram de fundos comunitários para o investimento inicial - único investimento que há de facto a fazer nas eólicas - se aproxima dos 100%!!! Umas contas simples mostram que dos cerca de 720 milhões de € anuais pagos actualmente aos produtores eólicos, uns 230 milhões de € são para o tal "prémio", e que este negócio é uma verdadeira vaca leiteira!
Já de si os CMEC e os CAE proporcionam prémios de montante muito generoso - 20 a 25% - aos produtores tradicionais (7,24 ç/kWh nos CAE, recordo, para custos médios de produção que andarão pelos 5,6-6,0 ç/kWh) mas, no caso da energia eólica, como se vê, os valores são exorbitantes e sem sequer contrapartida em empregos nacionais em Operação e Manutenção! E vale a pena notar que estes valores, definidos no tempo de Guterres, tinham originalmente um prazo garantido de 35 anos que foi reduzido por Manuel Lancastre no Governo de 2004-2005 para 15 anos+5, ao mesmo tempo que a tarifa era reduzida em 14%, para grande descontentamento do lobby eólico!
Para termos de comparação, vale a pena atentar no tarifário alemão, por exemplo: é de uma clareza cristalina, com tabelas de remuneração por tecnologia, e aprovado pelo Parlamento (Bundestag)!
Analisando os valores desse tarifário alemão, uma boa referência porque foram os alemães que inventaram este tipo de tarifa, pode ver-se para começar que as tarifas praticadas são degressivas; prevêm um período de amortização de 20 anos com uma redução anual de 2%, de modo que, por exemplo, em 2004 a tarifa para a energia eólica começava com 8,7 ç/kWh, mas ao fim de 20 anos estará em apenas 5,5 ç/kWh, tendo por valor médio 7,3 ç/kWh - o mesmo valor para o qual Manuel Lancastre reduziu o valor da tarifa portuguesa, em 2005, mas que é actualizado com a inflacção, conduzindo aos preços actuais indicados pela ERSE de mais de 9.1 ç/kWh (9,11 em 2010)!
Em Portugal, nessa data (2004) a tarifa era exactamente igual à alemã inicial, só que sem degressão e, como notei, prevendo-se que o fosse por 35 anos!!! Por outro lado, os 8,7 ç/kWh iniciais eram os mesmos, mas os custos de produção dos kWh eólicos é que não! Em 1º lugar, e segundo a EWEA, os custos de investimento por MWe eram na Alemanha 11% superiores aos portugueses, e por outro lado o factor de utilização médio é lá 11% inferior; quer isto dizer que os mesmos cálculos que conduzem ao custo de produção médio actual de 7.0 ç/kWh em Portugal, conduzem a 8.7 ç/kWh na Alemanha - e, portanto, lá a tarifa não dá "prémios"; remunera o investimento com uma taxa até inferior aos 7.5% que aqui assumi para Portugal, o que até não seria mau se o mesmo fosse feito com capitais próprios (na Alemanha era-o tipicamente a 30%).
Em contrapartida, o biogás dos Resíduos Sólidos Urbanos é remunerado por cá com "apenas" 8,0 ç/kWh, e o dos resíduos agro-pecuários, que tem o potencial do melhor custo de produção, tem uma remuneração que depende da origem do biogás, mas apenas desde 2005 com Manuel Lancastre e ainda com uma potência total permitida insignificante, sem falar dos entraves burocráticos! Ao que parece, no biogás agro-pecuário o esforço de instalação de infra-estruturas que ele requer não tem atraído investidores, e a baixa tarifa de 5.48 ç/kWh associada reforça a sua "má imagem", segundo alguns...
Entretanto, a 2ª vaca leiteira que os lobbies que nos governam preparam é na energia solar. Com remunerações de 34,5 ç/kWh para uma fotovoltaica com custos de produção de 23,5 (já admitindo uma remuneração de capital a 7,5%...), temos sobrelucros (por decreto) semelhantes ao das eólicas para uma incorporação de valor nacional também semelhante (ou seja, ridículo), sobrelucro "decretino" ainda maior no caso dos painéis fixos caseiros ( 58,7 ç/kWh para um custo de 33.5...)! E assim se compreende, por exemplo, que o Dr. Miguel Barreto, Director-Geral da Energia até 2008 e o pai da actual legislação sobre a microgeração fotovoltaica, depois de abandonar o cargo público onde criou essa legislação tenha ido administrar o mesmo negócio para a Martifer "Home Energy"...
Entretanto, em entrevista à Vida Económica do passado dia 4, a Ministra da Energia da Polónia explicava a aposta do seu país para o cumprimento dos compromissos europeus no domínio da redução de emissões e de energias renováveis: a decisão de substituir o carvão pelo nuclear, e a aposta, além de na eólica, na biomassa e no biogás, que irão ter lá maior peso que a eólica.
E a Ministra justificou: "... prevê-se a criação de cerca de 2 mil centrais a biogás na Polónia. São centrais relativamente pequenas a instalar em todo o país para complementar e criar uma nova fonte de rendimento para o sector agrícola".
Sem dúvida que a Polónia é um país com futuro!
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