segunda-feira, outubro 11, 2010

Ecofascismo?

Hoje trago-vos um filme, por sinal bem realizado, e que é muito demonstrativo das pulsões profundas dos ecotópicos.
Podem vê-lo aqui.
E a propósito: no Reino Unido, onde foi produzido, foi proibido!

quinta-feira, setembro 30, 2010

Uma Investigação no IST que obteve resultados "incorrectos"

Nuno Crato, um dos cavaleiros solitários que se devotou à defesa da educação do nosso povo contra o "eduquês", referiu no último Expresso um interessante paper publicado por estudantes do IST, em parceria com Carnegie-Mellon.
O que o paper relata são os resultados de um estudo "econométrico" que analisou matematicamente os efeitos, de 2005 para 2009, da introdução da Internet em 900 escolas portuguesas, concomitante à oferta dos Magalhães, em alunos do 9º ao 12º anos.
E que resultados são esses?
Pois, que os alunos pioraram substancialmente de aproveitamento, que pioraram tanto mais quanto mais fracos já eram, e sobretudo nos rapazes. Porque os computadores, naquela idade e sem uso controlado, são sobretudo uns brinquedos que servem para distraír e divertir, e não uma ferramenta de trabalho.
Estes resultados não são inesperados, todavia. Já aqui mencionei como, há já uns 20 anos, quando apareceram os Spectrum (uns microcomputadores ainda sem disco)  e em Portugal havia grande entusiasmo com o projecto Minerva, que desenvolvia ferramentas didácticas para uso em computador, o IEEE publicou um estudo sobre o impacto dos computadores na educação precoce. E esse estudo já então concluía o mesmo: que os computadores só melhoravam os resultados dos que já eram bons alunos, e que pioravam os dos que o não eram.
Aliás, calculo que seja uma experiência que já todos terão feito: a oferta pelo Natal ou aniversário de um programa de computador didáctico a um miúdo cábula - não se lhes pode dar castigo mais cruel, como o desapontamento deles ao receber a prenda decerto vos terá mostrado...

Confesso que me surpreende que a FCT tenha financiado uma investigação com resultados tão politicamente incorrectos... mas ainda bem! Espero que continue!
Pena é que os nossos "eduquesadores" nunca tenham lido sobre este assunto a revista IEEE on Education...

quarta-feira, setembro 29, 2010

Diesel híbrido e ...bicicletas eléctricas, o futuro próximo.

Como tenho discutido aqui amplamente, o automóvel eléctico não é economicamente viável nem o vai ser nos próximos dez anos, devido à incapacidade das baterias e às limitações da sua actual tecnologia. É um facto consensual entre toda a gente que sabe minimamente destas coisas e que é honesta (o que não se aplica ao "mainstream" actual).
Não vai haver, portanto, nem substituição do petróleo por energias renováveis (o que só aconteceria se os automóveis deixassem de andar a derivados do petróleo e passassem a gastar da energia produzida pelas eólicas), nem vai haver "storage" nenhum, por baterias de automóveis, que resolva o problema da intermitência eólica!

Isto não quer dizer que não haja desenvolvimentos tecnológicos capazes de gerarem reduções drásticas e economicamente viáveis do consumo de derivados de petróleo. Há! Os automóveis híbridos que, como também já expliquei há muito, são apenas um meio de recuperar a energia dissipada nas travagens pelos automóveis convencionais, e assim aumentar o rendimento global dos seus motores. Até porque a "travagem regenerativa" é coisa que já se faz há muito no transporte ferroviário, e o seu acoplamento a motores de combustão não requer nenhuma revolução tecnológica, embora contenha imensos desafios e oportunidades de aperfeiçoamento.
Infelizmente, e como também já aqui notei, enquanto andamos a gastar esterilmente o tempo e o dinheiro com as fantasias dos carros eléctricos, nas Universidades checas, por exemplo, investiga-se a tecnologia híbrida para os automóveis, em colaboração com a Skoda e, portanto, com o grupo Volkswagen. Enquanto aqui ao lado, na Auto-Europa, o contributo português para os componentes dos carros lá fabricados tem vindo regular mas inexoravelmente a cair, desde que a fábrica foi criada no tempo do Ministro Mira Amaral. Não é, por isso, apenas por razões de custos que essa fábrica ameaça mudar-se!

A tecnologia híbrida melhora muito o rendimento dos automóveis por, como disse, recuperar a energia cinética dissipada em calor nos travões tradicionais, ao travar com um gerador que passa essa energia cinética para uma bateria, de onde é depois de novo usada. Mas esse efeito só é realmente útil se o uso corrente do automóvel tiver muitos "pára-arranca", ou seja, se for essencialmente urbano. Em estrada e sobretudo em auto-estrada as travagen são poucas, e por isso aí o híbrido é inútil.
O que é útil nas estradas, como forma de economizar combustível, é um tipo de motor que, por detonar a mistura combustível com uma taxa de compressão muito maior, tem um rendimento termodinâmico muito superior: o motor Diesel. E é porque toda a gente sabe que os carros a Diesel gastam menos que, na Europa, eles já constituem cerca de 80% das vendas, apesar do referido motor ser mais caro que o a gasolina (tem de ser mais robusto e pesado, dadas as maiores compressões e temperaturas de funcionamento).
E porque não combinar o Diesel com um sistema de travagem regenerativa, ou seja, porque não o Diesel híbrido? Tal solução aproveitaria o maior rendimento do Diesel em estrada com a eficiência da solução híbrida em circuitos urbanos...
... e precisamente, aí vêm os Diesel híbridos, conforme anuncia o próprio MIT aqui!
O principal problema novo que os Diesel trazem aos híbridos é o do sistema de arranque, e o novo Peugeot 3008 tem algumas soluções brilhantes para o problema. Mas há muita inovação nessa matéria, a pesquisar.
Se em vez de a nossa I&D tecnológica ser politicamente dirigida por uns reinventores da fusão fria, fosse pragmaticamente orientada para a realidade técnico-económica, isto é, se fosse dirigida por engenheiros e não por cientistas da física das estrelas, sociólogos e alguns lunáticos, o que faríamos era, com muita humildade, ir falar com a Auto-Europa e perguntar como se poderiam colocar os nossos recursos de I&D ao serviço da manutenção e reforço dessa empresa crucial para Portugal!
Se ainda fossemos a tempo de fazer alguma coisa que os checos não estejam já a fazer...

A complementar o Diesel híbrido, e como também já mencionei aqui, a bicicleta eléctrica é a única solução de transporte que, devido à sua pequena massa e velocidade, percursos de deslocação curtos e facilidade de carregamento, pode ser compatível com a baixa capacidade das baterias existentes. E se se pensar numa bicicleta dessas que seja facimente transportável no porta-bagagem do Diesel híbrido parqueado à entrada da cidade, que seja depois usável nos poucos km até ao trabalho? Pois ela aí está, precisamente lançada pela Volkswagen...!
Mas não foi decerto e infelizmente na Auto-Europa que a multinacional VW obteve isto!...

quinta-feira, setembro 23, 2010

As forças das trevas mascaradas de cruzados ambientalistas

Um curioso artigo de opinião foi há dias publicado no NYT, descrevendo as tácticas das companhias promotoras de parques eólicos para conseguirem a anuência dos proprietários de terrenos à respectiva instalação, nos EUA. A história ali contada lembra as daqueles filmes que romanceiam conspirações de malévolas corporações para enganarem os cidadãos apenas por causa do lucro, e a que o autor do artigo chama de "forças das trevas mascaradas de cruzados ambientalistas" (parece que partilha o ponto de vista do meu manifesto anti-ecotópico)!...
E, no entanto, esta descrição de como os cidadãos do Midwest se vão dando conta com alguma impotência da instalação de torres nos seus quintais que lhes estragam a paisagem e que fazem um ruído insuportável para sempre, mostra que a opinião pública americana não é nada favorável à proliferação destas ventoinhas. Pelo menos no seu quintal...
Vale a pena e a propósito acrescentar que há outra tecnologia energética que está a fazer crescer as genuínas preocupações ambientais nos EUA: a da extracção do gás natural dos jazigos xistosos. Com efeito, essa tecnologia recente que mereceu a distinção pelo MIT, em 2009, da maior descoberta do ano em tecnologias energéticas, e que de repente multiplicou por uma ordem de grandeza as reservas mundiais de gás natural economicamente extraível, tem alguns senãos: baseia-se na injecção a alta pressão de uma mistura de água e de alguns produtos químicos que desfazem ("crackam") os xistos, libertando o gás. O problema, já detectado e que pode vir a tomar proporções alarmantes, é a contaminação dos veios de água subterrâneos por esses "químicos"...
Este estado de espírito popular soma-se à resistência do Congresso americano em fazer subir o custo da (barata) electricidade americana com subsídios às renováveis, a que se junta a escassez de crédito que, em conjunto, fizeram já cair a pique neste 2010 os investimentos americanos em eólicas, como noticiei aqui. Tanto mais que nos EUA a imposição governamental de tarifas para a produção de electricidade, tão praticada por cá, é proibida por lei...
E isto leva-me a deduzir que são precisamente estes sinais de uma possível catástrofe eminente para os biliões investidos pela EDP em eólicas nos EUA que explicam o extraordinário esforço de marketing português nos EUA nesta matéria - e que tem incluído desde a "encomenda" de artigos de opinião favoráveis à política energética portuguesa no NYT e ao próprio embaixador americano (no Público, em Agosto), ao curso de Manuel Pinho na Columbia University pago pela EDP, e finalmente à deslocação do próprio 1º Ministro de Portugal a Nova Iorque para uma sessão de marketing destes investimentos...
Oxalá me engane, mas suspeito que no próximo Verão não haverá vento!

terça-feira, setembro 21, 2010

O melhor aluno de Portugal!

Talvez já tenham ouvido falar do melhor aluno deste ano, que terminou o secundário com 20 valores.
Um verdadeiro génio, que todos os docentes universitários ambicionamos ter nas nossas aulas! Ou não?
Podem ver a história dele noticiada aqui, e contada com mais pormenor aqui...
... e depois digam lá se o Medina Carreira não tem razão?

sábado, setembro 18, 2010

Renováveis intermitentes e mercado livre: uma relação impossível!

O Engº. Mira Amaral, o criador do PEDIP que, com a sua "Medida 3", financiou integralmente o bem-sucedido projecto das protecções digitais que desenvolvi a partir do zero na EFACEC, nos anos 90, escreveu no Expresso um artigo sucinto e certeiro como uma flecha e que aqui reproduzo por inteiro:

ENERGIA: O REGRESSO AO PASSADO

Quando chegámos a ministro da Energia, era urgente o investimento nas redes de distribuição da EDP, mas, devido à sua difícil situação financeira, convinha minimizar-lhe o esforço de investimento na produção. Arranjámos então os Contratos de Aquisição de Energia (CAE) através dos quais consórcios privados investiriam nas novas centrais mediante uma concessão de venda da eletricidade à rede pública, sendo remunerados por uma tarifa binómia com dois termos: um fixo, que assegurava os custos de investimento na potência instalada, e um variável, que remunerava o fornecimento de energia.
Como então expliquei, tal não era ainda a liberalização do sistema, pois tais centrais eram financeiramente ativos da EDP fora do seu balanço (off-balance sheets), dado que a EDP, através do termo fixo, acabava por pagar ao longo dos anos o investimento na potência instalada. Ao contrário do que disse nestas colunas Álvaro Martins, um associado de Carlos Pimenta no CEETA sem dúvida mais sofisticado que Costa Silva (um reputado especialista em orangotangos...), criámos os CAE não para introduzir o gás natural mas pelas razões financeiras referidas.
Com a liberalização do sistema, as novas centrais correriam os riscos de mercado e acabariam os CAE.
O problema é que a elevada capacidade instalada em eólicas começou a tirar o espaço às térmicas, que passaram a funcionar em regime altamente ineficiente apenas para back-up das eólicas quando não há vento, em vez de fazerem a base do diagrama de cargas.
Gerou-se pois um dilema: não se podem dispensar as térmicas (neste Agosto, no pino do verão, quase não houve vento, felizmente havia carvão e gás...), mas as poucas horas que vão trabalhar não lhes permite, ao vender a energia, cobrir os custos do investimento na potência instalada.
O preço spot não recupera a totalidade do custo da central marginal. Daí o apelo à remuneração da potência, com base no back-up que proporcionam à eólica.
Assim, um secretário de Estado vem agora pela calada da noite (perdão, de agosto, quando estávamos de férias...), através de uma Portaria, atribuir esse subsídio de remuneração do termo de potência para todas as centrais, hídricas inclusive, e com efeitos retroativos.
Tal significa sacar ao consumidor 61 milhões de euros anuais para as centrais existentes até ao fim deste ano (acréscimo de 1.5% nas tarifas se for abrangida só a baixa tensão) e mais 130 milhões de euros por ano para as novas térmicas e de bombagem, tudo em apoio às eólicas (mais 3.0% nas tarifas, no total mais 4.5% nos próximos anos)!!! Ficam pois claros os sobrecustos sistémicos desta renovável devido à triplicação do investimento - eólica + bombagem + térmica de back-up.
No fundo, voltamos aos CAE e acaba a liberalização, passando todas as centrais a serem subsidiadas. É esta a viragem energética...
Como é habitual, a oposição não tugiu nem mugiu, ao contrário do que faria com aumentos de impostos...

*Professor de Economia e Gestão do IST

Entretanto, as perspectivas de investimentos internacionais nas eólicas não vão nada bem, segundo os dados deste artigo do Financial Times. Nos EUA, por exemplo, a instalação de eólicas que vinha a subir em flecha desde há alguns anos, caiu a pique este ano! E o mesmo em Espanha!
Espero bem que os biliões de € investidos pela EDP nesses mercados não venham a engrossar a nossa dívida pública, mas infelizmente suspeito que as agências de rating internacionais já anteciparam isso mesmo...

terça-feira, agosto 31, 2010

Energia geotérmica e terramotos

Volta e meia alguém me pergunta o que penso da energia geotérmica como fonte renovável de geração de electricidade e calor.
Pois, penso bem.
Em Portugal a energia geotérmica tem um papel não desprezável na carteira de fontes renováveis, mas concentrada nos Açores, nomeadamente nas ilhas de S. Miguel (na figura) e, mais recentemente, da Terceira.
Há alguns anos a central geotérmica de S. Miguel assegurava metade do consumo nas horas de vazio da ilha, mas o seu potencial permitiria teoricamente satisfazer todo o consumo. Ultimamente tem-se pensado em reforçar esse uso.
Porém, há alguns óbices com esta forma de energia:
  • Funciona a potência constante. Ou seja, tem um problema que, sendo o oposto do das fontes intermitentes, acaba por ter as mesmas consequências de incapacidade de seguir os consumos, mas de forma muito mais previsível. No entanto, é por isso que a geotérmica de S. Miguel só assegurava (parte da) base do diagrama de consumos. Isto é assim porque as longas tubagens que trazem o vapor até às turbinas não se dão nada bem com variações rápidas de pressão e temperatura.
  • As suas centrais avariam com frequência. Principalmente nas caixas de velocidades que adaptam a baixa velocidade das turbinas à frequência necessária para a ligação à rede eléctrica. Estas caixas são particularmente vulneráveis a perturbações na rede e, como não se fabricam grandes quantidades delas, carecem de maturidade tecnológica.
  • A extracção do vapor do sub-solo altera os equilíbrios de pressão no interior desse sub-solo, o que provoca tremores de terra e risco de terramotos. E este é o principal óbice ao uso generalizado da geotermia, que levou, nomeadamente, ao cancelamento do projecto de Basel, na Suiça, como se pode ler aqui....

sexta-feira, agosto 27, 2010

Ainda sobre as normas de segurança nos trabalhos em Alta Tensão

Recentemente sairam estatísticas do Ministério da Segurança Social sobre os acidentes de trabalho em Portugal.
Não é fácil encontrar os números, mas noutras publicações desse Ministério é possível verificar que o número de mortos anuais por acidentes nas empresas de energia tem sido, em média anual, de 2. O número de incapacitados é bem maior.
Como referi aqui, as normas de segurança existentes, copiadas caninamente das normas europeias pelo nosso Estado, estão erradas. Mandam ligar à terra as linhas susceptíveis de ficarem em tensão, durante os trabalhos de manutenção, o que é inútil.
O que se deve fazer está explicado na figura que aqui insiro, retirada de uma publicação americana que mostra também como por lá os textos são escritos para serem realmente entendidos pelos principais interessados, ou seja, as potenciais vítimas, os trabalhadores!
A "grounding bar around pole" justifica-se lá por os postes serem de madeira. Aqui bastaria ligar à armação férrea dos postes de cimento, que aliás têm pinos acessíveis para isso.
* Indo um pouco mais fundo na explicação técnica (hoje os leitores não técnicos poderão neste momento fechar a window), a questão é que a resistência eléctrica de uma vara enterrada no solo é muito aproximadamente ró/L, sendo "ró" a resistividade do solo e L o comprimento da vara. Como "ró" anda em média à volta de 150 ohm (mas pode ser muito mais) e L é de 2 metros no máximo, resulta que a tal resistência anda em torno de 75 ohm., pelo menos. A "impedância homopolar da rede" é em geral muito menor, pelo que em caso de colocação acidental em tensão a maior parte dessa tensão aparece aos terminais da vara e, portanto, da linha a que ela e o trabalhador estão ligados. O que significa que é como se a vara e sua ligação não estivessem lá, para efeitos práticos e de segurança do trabalhador.
Outro ponto que a figura acima ilustra é que dos 3 condutores de fase só deve descer um cabo. Os equipamentos franceses que cá se usam fazem descer 3, um por fase, e só se ligam no ponto comum que liga à vara (vd. figura ao lado). Assim, se as 3 fases forem acidentalmente postas em tensão, como será mais provável, existirá um curto-circuito trifásico que cria tremendas forças entre os cabos e os tendem a arrancar do ponto comum de ligação à vara.
Isto faz-se assim em toda a Europa ocidental há muitas décadas, mas nos EUA o assunto foi re-estudado e chegaram às conclusões óbvias que aqui mostro.
Óbvias depois de explicadas, claro...:-)
Não deixa de ser espantoso, entretanto, que em toda a Europa não seja conhecida uma única voz que tenha, até agora, questionado esta prática e a norma que a institucionaliza (norma CENELEC 50110-1, revista em 2004)!

quinta-feira, agosto 26, 2010

Umas contitas sobre a nova factura do caridoso amparo às eólicas

Como é do conhecimento público e eu dei notícia aqui, o lobby eólico conseguiu obter do Governo uma nova extorsão aos consumidores que pagará o custo de capital dos investimentos em estações de bombagem e centrais a gás natural que permitirão amparar as eólicas na sua incontrolável e imprevisível intermitência. Tratam-se, tecnicamente, dos sobrecustos sistémicos das renováveis intermitentes.
Segundo a imprensa, o novo sobrecusto a pagar só pelas centrais já existentes e que entrem em funcionamento até ao fim deste ano totalizará 522 M€ até 2021 e agravará em 1% a factura energética média paga pelos consumidores (o que quer dizer que será cerca de 1,5% da factura do consumidor de Baixa Tensão: as famílias, os restaurantes, etc). Mas estarão essas contas bem feitas?
Os termos remuneratórios previstos na portaria assinada por Carlos Zorrinho (e, curiosamente, só por ele...) , atribuem anualmente 20 €/kW à potência instalada nas centrais já existentes não abrangidas por CAE nem CMEC, mas para as ainda a construir é estipulada uma fórmula e dito que a DGEG tem 60 dias para a aplicar e fazer as contas.
Trata-se, obviamente, de uma forma capciosa de esconder dos portugueses o que se prepara, dado que toda a gente sabe que a DGEG tem apenas dois engenheiros electrotécnicos encarregues de TUDO e que, portanto, falha de recursos humanos e demais meios técnicos, a DGEG se limita a consultar as empresas de electricidade sobre o que elas querem e a dar-lhe depois forma de lei. O que o legislador está farto de saber...
Ora a referida portaria estipula uma remuneração de 28 €/kW para "índices de cobertura" até 1,1. O que é um "índice de cobertura" não é definido na portaria (mais uma peça legislativa mal feita...), mas a REN explica-nos tudo aqui neste documento de 2007 publicado... em Espanha!
O "índice de cobertura" é "a relação entre a capacidade disponível e a ponta de consumo, em situações críticas para a operação do sistema" e, garantidamente, as contas já foram feitas pela EDP e/ou pela REN.
Admitindo, no entanto, que o valor a pagar venha a ser em regra o de 28 €/kW instalado, então convém notar que a potência já instalada ou em instalação, em centrais de ciclo combinado e hídricas, não é nada comparada com a "potência instalada" prevista para os "reforços de potência" e as novas realizações hidroeléctricas que, como notei aqui, totalizará cerca de 4,64 Gw!...
A admitir a referida remuneração, essas futuras hidroeléctricas irão então honorar em mais 130 milhões de € anuais os consumidores, sensivelmente 2.5 a 3% do respectivo custo de investimento e que, somado aos ganhos da revenda da energia eólica armazenada, já permitirá uma remuneração razoável desse investimento.
Naturalmente, esses 130 M€ serão a somar aos 61 M€ já atribuídos às centrais novas existentes ou em construção e abrangidas por esta portaria (45 M€ para a EDP, segundo um comunicado da própria empresa), e que, a recaírem como habitualmente sobre os consumidores de Baixa Tensão, significarão só por si um acréscimo tarifário para estes consumidores de mais 3%, totalizando 4.5%...!
Teremos assim 1.5% já em 2011, e os restantes 3% à medida que as novas hidroeléctricas forem entrando em serviço...

quarta-feira, agosto 25, 2010

A dificil vida dos smart griders e o custo das rampas de vento

Uma das grandes fés dos crentes na capacidade da "gestão da procura" alegadamente a realizar pelas "smart grids" é que, devidamente educadas, as pessoas se tornarão em Homens Novos e a fazerem o que é obviamente melhor para elas. Porque eles, os smart griders, sabem o que é melhor para as pessoas.
Ora não espanta, por isso, vê-los tão desanimados agora que uma sondagem aos "americanos médios" mostrou que, interrogadas sobre o que acham ser melhor para poupar energia, as pessoas tenham respondido "apagar a luz", "desligar o termostato (do aquecedor ou do ar condicionado)" e "guiar menos".
Desanimados porque as respostas que os smart griders pretendiam eram: "usar lâmpadas mais eficientes", "isolar as casas" e "guiar carros mais económicos". Que tudo isso custa dinheiro extra às pessoas, parece ser coisa que não ocorre a estes idealistas.
Entretanto, e a confirmar o que tenho mostrado, que as eólicas e em geral as fontes de energia renovável intermitentes (o que inclui o solar, em certos aspectos ainda mais intermitente que as eólicas) requerem um triplo financiamento, por um lado em centrais de reserva para quando a produção renovável cai rapidamente (rampas), e por outro lado em estações de bombagem para quando há excesso de produção, aí está a legislação que vai remunerar as novas centrais a gás natural e hídricas só por estarem lá a amparar as eólicas e mesmo que não produzam energia nenhuma: é uma portaria saida este mês que "remunera o serviço de disponibilidade".
Segundo o "i", serão 522 milhões de € para a EDP e a Tejo Energia, rectroactivos a contar desde 2007 mas a aplicar também quer às novas estações de bombagem a que chamam de hidroeléctricas, quer às centrais a gás cujo investimento estava parado por falta de perspectivas de amortização. E, como sempre, a verdadeira razão deste novo encargo é escondida dos portugueses pelas centrais de comunicação do lobby eólico, neste caso, imaginem, alegando uma suposta necessidade de concorrência com a Espanha...!
E adivinhem lá quem é que vai pagar para essa remuneração?

terça-feira, agosto 17, 2010

Um engenheiro modelo e a contra-corrente

Um dos maiores engenheiros portugueses nascidos no século XX foi, há poucos anos (2007), agraciado com a Ordem do Mérito Científico pelo Presidente da República... do Brasil!
Trata-se de Carlos Portela, em tempos Catedrático do Instituto Superior Técnico e que deixou o país durante o PREC. Para quem quiser conhecer a sua história, pode encontrá-la nesta entrevista que deu em 2006.
Nunca conheci pessoalmente o Prof. Portela, mas estudei pelos apontamentos que deixou na sua escola e que me marcaram profundamente pelo seu rigor intocável. E partilho com ele a procura do equilíbrio entre a vida universitária e a actuação profissional fora dela, com a mesma opinião de que "se uma pessoa se restringe à Academia, perde a noção da realidade. Mas se apenas actua no mercado, perde a preocupação com o rigor".
Opinião que, nestes tempos de avanço do controlo político total sobre a Universidade, é cada vez mais uma contra-corrente.
Na entrevista que hyperlinkei e que vos recomendo, sobretudo aos que ainda são estudantes, Portela insurge-se contra o culto das normas mal-feitas, e acusa: "no Brasil, se o sujeito mata cem pessoas mas para isso calculou segundo as normas, não há problema nenhum. Ou seja, usam as normas para se absterem das responsabilidades".
Ora remar assim contra corrente de normas feitas por comités internacionais requer um tipo de espírito de rigor, de insubmissão de pensamento e de amor ao bem público que é raro. Mas Portela nunca foi uma pessoa fácil.
E isto traz-me a um problema existente em Portugal que é exactamente igual ao que Portela critica no Brasil. É uma questão que vou ter de abordar com algum tecnicismo, o que sempre tenho evitado neste blogue, mas não vejo alternativa a isso.

Nas redes eléctricas, é frequente terem de se fazer trabalhos de manutenção em linhas aéreas e outros equipamentos de alta tensão. Para o efeito existem normas de segurança que são quase uma trancrição de normas europeias e que estão minuciosamente detalhadas em diversos regulamentos e manuais das nossas empresas de electricidade. E, no entanto, praticamente todos os anos há algumas mortes em acidentes em trabalho destes.
Em regra, as nossas empresas de electricidade atribuem tais funestos eventos ao incumprimento das normas, e em alguns casos isso sucede. Mas o facto é que mesmo cumprindo essas normas os acidentes são frequentemente fatais, porque o que acontece é que as normas estão erradas. As portuguesas e as europeias em que elas se baseiam.
Basicamente, o problema técnico é o seguinte: as normas mandam ligar à terra os equipamentos susceptíveis de ficarem em tensão durante os referidos trabalhos, de um lado e do outro do equipamento onde o trabalho de manutenção decorra. E isso está errado, porque as tais ligações à terra têm sempre uma resistência eléctrica tal que são praticamente inúteis.
O que se deve fazer é precisamente o contrário: é ligar o ponto onde o trabalhador se mova aos equipamentos susceptíveis de ficarem em tensão, de modo a criar o que os anglo-saxónicos denominam de "zona equipotencial de trabalho".
Isto foi estudado nos EUA há já uns 40 anos e é praticado lá, na Nova Zelândia, na Austrália, etc. Mas claro que afirmar que os comités normalizadores nacionais e europeus estão errados é, mais uma vez, ir contra a corrente...

sexta-feira, agosto 06, 2010

O outro grande líder

Há 40 anos, durante a Primavera marcelista, quem chegava das províncias do Império à Universidade em Lisboa encontrava uma efervescência de ideias, discussões e preocupações no movimento estudantil que eram mais instrutivas que as escolas propriamente ditas. Começava pelo próprio vocabulário, e estendia-se à largueza de horizontes.
As Associações de Estudantes do Técnico (IST) e de Económicas (ISEG) eram um viveiro de activistas e pensadores que produziam textos como o "Contra a Fábrica", onde se aprendia o que eram o taylorismo e o fordismo, onde o modelo de uma sociedade livre dos valores consumistas em que tínhamos sido educados, e que rejeitávamos, era a China da Revolução Cultural - um lugar onde só havia dois tipos de fatos, o cinzento e o azul, onde a diferença máxima de salários era de 2 para 1, onde as pessoas se moviam por ideais e não pela busca mesquinha de mais um carro ou electrodoméstico, e onde quem mandava eram os jovens idealistas como nós - os guardas vermelhos!
China maoísta onde havia debates acesos, mas não se levava os opositores à cave para levarem um tiro na nuca como na Rússia revisionista - apenas se passeava a vítima pela cidade com um cartaz no peito e a malta à volta a gritar-lhe aos ouvidos a linha justa até ele se convencer. Um mundo fascinante!...
Claro que tudo isso foi uma ilusão, mas ainda hoje gosto de lembrar que a diferença entre a Revolução russa e a chinesa se podia resumir na forma como ambas trataram os respectivos monarcas depostos: na Rússia, o Czar, a família e até a respectiva criadagem foram todos mortos numa cave, a tiro e à baioneta, mas na China o Imperador foi reeducado e convertido em guia do palácio imperial de que outrora fora o dono, e que agora pertencia ao povo.

Vem tudo isto a propósito de que esse movimento estudantil de há 40 anos em Lisboa tinha dois fantásticos pensadores e líderes, que aliás em regra estavam de acordo e que eram ouvidos em completo embevecimento pelos caloiros como eu: os dirigentes das Associações de Estudantes do Técnico e sobretudo de Económicas, respectivamente o Zé Mariano e o Félix Ribeiro.
Do Zé Mariano todos sabemos o percurso que seguiu.
Mas do Félix Ribeiro sabemos em geral menos, porque ele se apagou. Apagou-se como político mas não como pensador, como o atesta esta extraordinária entrevista que vivamente vos recomendo:
Público - A Europa vai ser comprada pela China e pelos príncipes árabes

sábado, julho 31, 2010

Uma nota sobre os carros eléctricos e outra sobre a vaga de calor

Depois de ontem ter aqui comentado a indignação do ingénuo (ou ignorante) público que esperava que os novos automóveis eléctricos viessem baratos e está a descobrir que custam o dobro dos seus concorrentes a gasolina (antes de impostos), vale a pena dar notícia de uma reunião nos últimos dias em Detroit de responsáveis da indústria automóvel com representantes do Governo americano.
Segundo a Scientific American, que publica a notícia, em Detroit, a "capital do mundo das baterias" (os americanos gostam destes exageros, especialmente tendo em conta que quem domina a tecnologia das novas baterias é o Japão), já foram investidos uns 6 biliões de dólares na indústria de baterias, somando os investimentos privados às ajudas do Estado. Mas, segundo a notícia, a indústria quer mais subsídios do Estado e avisa que se não houver mercado para os novos automóveis os investidores privados se "irão embora". E como ao preço e autonomia a que vêm não se vislumbra procura pelo mercado civil, que pede a indústria? Que o próprio Estado compre os carros - para os correios, o exército, etc...
Entretanto, o Nissan Leaf só deverá aparecer por cá já 2011 irá bem adiantado. Ou muito me engano ou ainda havemos de ver os "pontos de abastecimento" da EDP ganharem ferrugem antes de terem sido utilizados...

Entretanto, logo que chegam dias de calor como os actuais, imediatamente os ecotópicos de serviço nos media começam a gritar que a culpa é do efeito de estufa, que aí está a prova do aquecimento global, que os glaciares e o Ártico estão a derreter, etc. Claro que os gelos derretem todos os Verões, especialmente em dias de calor como este. E depois voltam a congelar quando voltar o frio, no Inverno, como acontece todos os anos. Mas disso já os ecotópicos não falam...
Ora especialmente nestas alturas, jogando com a memória curta das pessoas e acicatando alarmes a que as gentes, incomodadas com a vaga de calor, estão mais susceptíveis, aparecem as notícias a dizer que estamos no "ano mais quente do século", que "ontem foi o dia mais quente desde há não sei quantas décadas" e outros alarmes que, como diz Medina Carreira, fariam Goebells sentir-se um menino de coro quanto a técnicas de manipulação de massas.
Uma das atoardas que têm sido lançadas é que o Inverno passado, que toda a gente sentiu no Hemisfério norte como tendo sido excepcionalmente rigoroso, foi dos mais quentes de sempre. Tem, por isso, razão de ser mencionar aqui a discussão sobre o assunto surgida agora na Scientific American, específicamente sobre o facto do Inverno passado ter sido aquele em que mais nevou desde que há registos nos Estados norte-americanos de Leste. Não, não foi um arrefecimento global! Foi uma combinação normal de efeitos regionais e periódicos do clima - em particular uma combinação das oscilações do El Niño e da variação períódica do clima nórdico.
Claro que as variações do clima em pequenas escalas de tempo são normais! E por aí se vê como é manipuladora a publicidade feita por cá ao facto de a temperatura dos dias mais quentes do ano ter subido ligeiramente em Lisboa nos últimos anos, depois de entretanto ter descido nos anos anteriores (coisa que esses propagandistas se esquecem sempre de referir)...!
Uma interessante investigação sobre a evolução da temperatura em Lisboa pode ser lida aqui. Em Lisboa, como em todas as grandes cidades, a construção reduz a velocidade do vento o que, por sua vez, tende a conservar o calor gerado pelas próprias actividades da cidade. Por isso a temperatura média na cidade é mais de 2ºC superior à dos seus arredores, como é normal.
Nota: não nego que esteja em curso um aquecimento global, e até que a actividade humana tenha nisso alguma responsabilidade. Mas não exageremos!...

sexta-feira, julho 30, 2010

Os novos automóveis eléctricos - a realidade que se vai desvendando

Nos EUA, a General Motors (ainda há 20 anos o maior construtor mundial de automóveis, lugar hoje ocupado pela Toyota), acaba de desvendar as características do seu Chevrolet Volt, um dos vários automóveis eléctricos anunciados para breve por alguns fabricantes preocupados em estar nas boas graças da política correcta.
O Volt vem ao preço de 41ooo USD (cerca de 30 mil €), antes de impostos e, como nota o New York Times, tem menos espaço interior que o seu equivalente não-eléctrico, o Chevrolet Cruze, que custa... 12,7 mil €!
Mas o que mais escandaliza o New York Times é que a General Motors recebeu biliões de USD de subsídios governamentais para o desenvolvimento deste carro, e que mesmo assim o vende a este preço, em vez de fazer como a Toyota, que internalizou os custos de promoção do seu Prius, o primeiro automóvel híbrido do mundo, lançado já já 13 anos, e que começou por ser vendido a 17 mil USD apesar do seu custo de produção para a Toyota ser de 32 mil USD!...
A Toyota já vai na 3ª versão do Prius, cada vez mais perfeito e já a ser vendido sem prejuízo, mas a General Motors, como explica o New York Times, não tem efectivamente intenção de fazer negócio com o seu automóvel eléctrico: limitou-se a fazer o frete ao Governo americano e a sacar os subsídios (o que não a impediu de entretanto falir), que é o que escandaliza o jornal, dada a inviabilidade do carro a este preço.
Mas, na realidade, o Volt da GM não é puramente eléctrico, mas sim híbrido como o Prius. Se fosse puramente eléctrico, como o Nissan Leaf de que já dei aqui notícia, custaria menos 6 mil € (ainda assim o dobro do seu equivalente a gasolina pura, o Cruze), mas só teria autonomia para 65 km, e enquanto a bateria fosse nova...!
Veremos como se desenrola este "filme" com os outros construtores da vanguarda eléctrica.

Entretanto e apesar de muito menos propagandeada, dado o seu muito menor impacto político, já existe uma opção de locomoção eléctrica individual razoavelmente competitiva. Trata-se de uma opção baseada num veículo de massa e velocidade reduzidas, e portanto de limitada energia cinética, vocacionado para distâncias urbanas relativamente curtas e suficientemente pequeno para se poder parquear facilmente perto de alguma tomada de electricidade: a lambreta, ou motorizada eléctrica. Embora, de energia verdadeiramente renovável, só a velha bicicleta desmotorizada...

segunda-feira, julho 26, 2010

A Europa sozinha com a sua política energética

Esta semana o Senado norte-americano desistiu da proposta da Administração Obama para criar uma multa sobre as emissões de gases de efeito de estufa e promover o uso de energias renováveis.
A nossa imprensa mal falou nisso, e quando falou foi para desvalorizar o facto dizendo que se tratou de um mero "adiamento para o Outono".
Mas, na verdade, a notícia tem um significado brutal que os nossos ecotópicos não estão interessados que se alcance: a Administração Obama não se limitou a "adiar para o Outono" a sua proposta climática: pura e simplesmente desistiu dela!
E desistiu dela por que a prioridade americana é o relançamento económico e porque nos EUA não há apoio popular para estas medidas (a propaganda "green" que impera por cá, lá tem contraditório)!
E, com isto, como notam do outro lado do Atlântico mais a Sul, "é zero a chance de um acordo internacional contra emissões no México". O que isto quer simplesmente dizer, e que é o que os nossos ecotópicos se esforçam para que não percebamos, é que as propostas europeias para Copenhaga estão mortas!
A Europa está sozinha!
Coisa que, afinal, tenho vindo a notar desde antes ainda da cimeira de Copenhaga...

Um dos evidentes sinais da falta de vontade americana para mudar radical e rapidamente o seu modo de vida é a insistência que tanto os relatórios do EPRI, como os da Academia de Ciências dos EUA, fazem quanto à necessidade de desenvolvimento das tecnologias do "carvão limpo" (captura e enterramento do CO2 emitido pelas centrais eléctricas a carvão).
Nos EUA o carvão é responsável por quase metade da electricidade produzida (mundialmente é-o por 40%, e na China é por mais de 2/3), mas as centrais eléctricas a carvão são consideradas responsáveis por 1/4 de todo o CO2 emitido pela queima de combustíveis fósseis, embora esta queima em si mesma só seja responsável por metade de toda a actividade humana geradora de Gases de Efeito de Estuda, como já tenho notado aqui e aqui.
O problema é que, como explica o referido relatório da Academia das Ciências dos EUA, o carvão americano é barato e as suas reservas dão pelo menos para mais um século! Compreende-se, por isso, as renitências americanas relativamente ao abandono do carvão e a insistência na sua manutenção, embora "limpo".
Só que há um problema grave: é que, no estado actual da tecnologia, não há nenhuma solução comprovada com viabilidade técnica, e menos ainda económica, para a "captura e enterramento do CO2" em grande escala! E, portanto, ainda que os EUA e também a China, e a Índia, vão falando no "carvão limpo" para de daqui a 10 a 20 anos, entretanto o que é certo e garantido é que vão continuar a usar o carvão sujo, e que a única forma de produção de energia que com ele pode competir é a nuclear - se conseguir demonstrar, com a nova 3ª geração das próximas centrais em construção, que mantém a competitividade económica ao mesmo tempo que garante a segurança!
Entretanto a Europa oficial, a do longínquo Governo de Bruxelas, persiste no seu devaneio de "liderança mundial" de um sonho de desindustrialização e bem estar ecológico que é, de facto, uma utopia - sobretudo quando extrapolada para a restante Humanidade que quer ascender ao bem-estar da sociedade industrial. Uma ecotopia, de facto.

terça-feira, julho 20, 2010

A política europeia para o clima e a prevista perda de riqueza de Portugal.

O Expresso on-line deu hoje conta de um artigo de Bjorn Lomborg escrito ontem no Daily Telegraph que, por sua vez, invoca o estudo do economista Richard Tol sobre os custos e os benefícios da política climática europeia - a referência ao artigo desapareceu rapidamente do Expresso (era politicamente incorrecta) , mas quem foi ao link descobre diversos outros artigos interessantes sobre o tema, nomeadamente o próprio artigo original de Richard Tol.

O estudo em questão estima em 1.3% a fatia anual do Produto Europeu Bruto que custará a realização da Directiva europeia "20/20/20", que pretende para 2020 reduzir em 20% o consumo de energia primária europeia relativamente aos valores de 1990 (praticamente os mesmos que em 2010, graças à transferência para a Ásia de muita da actividade produtiva europeia), a emissão de gases de efeito de estufa (GEE), e atingir uma quota de 20% de energia proveniente de fontes renováveis. Este valor de 1.3%, cerca de 210 biliões de € , se não for acompanhado pelo resto do Mundo só permitirá reduzir a temperatura média do planeta em 0,05ºC, um valor tão pequeno que é inferior à própria precisão possível das estimativas da temperatura. O benefício deste resultado é também estimável economicamente, através do custo atribuído à tonelada de CO2 e que mede o custo dos prejuízos ambientais causados por esse CO2.
Para Richard Tol, que pretende neste seu artigo fazer pela primeira vez uma avaliação da relação de custo/benefício da referida política europeia, o referido ganho é estimável em 1/3 do custo necessário para o atingir se o preço da tonelada de CO2 for de 50€ (mas tem estado a 13€ e mesmo as projecções futuristas lhe atribuem geralmente o valor de apenas 20€).
Entretanto, Tol cita um estudo encomendado por Bruxelas sobre o impacto que a Directiva "20/20/20" terá na redução da riqueza dos Estados-membros da União, analisa vários outros, e conclui pelos dados do gráfico que aqui mostro: Portugal, como se pode ver, perderá entre 4.4% e 0.1% do seu rendimento, com o valor mais provável de 1.4%, mas em Espanha, o país mais prejudicado, será pior!

Conclui Bjorn Lomborg: "European leaders should not abandon their commitment to taking action on climate change. But instead of wasting hundreds of billions of Euros on a pointless emissions policy, they should be investing in research and development of green energy alternatives. The reason it costs so much to reduce carbon emissions is that the green alternatives aren’t close to being ready to replace oil and other fossil fuels.”

segunda-feira, julho 19, 2010

Ainda sobre o cluster da ENERCON

Há perto de 3 meses comentei aqui o facto de a EDP ter feito a maior encomenda da História de aerogeradores, cerca de 2100 MW deles por cerca de 2,1 mil milhões de euros, à... Vestas dinamarquesa, e não ao cluster "nacional" da ENERCON de Viana do Castelo.

Hoje, o Público, pelo teclado da jornalista Lurdes Ferreira, vem dar conta que essa operação terá zangado imenso o Primeiro-Ministro de Portugal, que terá mesmo ralhado ao CEO da EDP, e o jornal adianta-se depois em divagações sobre porque terá a EDP feito aquela opção.
Entre essas divagações, o jornal aponta, como razões possíveis da opção da EDP:
  • O preço. De facto a EDP conseguiu um desconto de quantidade que lhe conseguiu um preço de cerca de apenas 85% do preço corrente das turbinas. A Vestas, que é de longe  o maior fabricante europeu de aerogeradores, só com esta encomenda viu a cotação das suas acções subir 11%!...
  • A incapacidade de resposta da ENERCON "nacional". Isto mesmo foi explicado a este blog por um funcionário do referido cluster, que clarificou que o mesmo está dimensionado para fabricar apenas cerca de 200 aerogeradores por ano, o que corresponde às encomendas para o mercado nacional da ENERCON dos anos de 2010, 2011 e 2012. Obviamente! Pois se este "cluster" foi apenas uma pequena e tardia contrapartida pela entrega preferencial do mercado nacional de energia eólica aos alemães, como notei aqui...
  • "Dificuldades da ENERCON em garantir entregas nos EUA". Como eu já narrara aqui há um ano, e voltei a falar disso depois, a ENERCON tem um litígio de patentes com os EUA em virtude do que foi proibida de exportar para lá até precisamente 2010! Por causa disso fui vilipendiado pelo dirigente da ENERCON e pela jornalista Lurdes Ferreira, mas factos são factos! Toda a gente pode consultar aqui a decisão judicial americana.
  • Inadequação do tipo de turbinas fabricadas em Viana do Castelo à encomenda da EDP. As turbinas de Viana do Castelo são de 2 a 2,3 MW, e a EDP procuraria turbinas de 3 MW...
Ora esta última razão é a que melhor ilustra o logro em que o lobby eólico, que entregou o mercado português de turbinas eólicas ao estrangeiro assim liquidando a possibilidade de Portugal alguma vez poder vir a desenvolver e testar tecnologia própria nesses equipamentos, nos tenta fazer cair com a história das fábricas de Viana do Castelo. É que as turbinas que lá se fabricam já estão obsoletas!
De facto, e como já notara aqui, sendo a longevidade média das turbinas eólicas de apenas 15 anos, a sua tecnologia nunca chega a amadurecer porque antes disso surge uma nova geração, mais evoluída, que torna a anterior obsoleta. E, presentemente, o estado da arte são as gigantescas turbinas de 3 MW, e até já as há de 6 MW, e já não as de 2 MW que se fabricam em Viana do Castelo!
E por tudo isto, é com pena que vejo a vida ir confirmando o que escrevi há um ano; que "não se vislumbram razões para acreditar que estas fábricas sobrevivam ao esgotamento do mercado nacional das eólicas. Não têm condições de sobrevivência".

Entretanto, a EDP empenhou o país em mais 2 mil milhões de € devidos ao estrangeiro, para um investimento financeiro no estrangeiro com turbinas estrangeiras. E é assim que Portugal é o líder das energias renováveis!...

quinta-feira, julho 15, 2010

A longevidade das turbinas eólicas

Recentemente, quando confrontado com o facto do período de vigência de 15 anos da tarifa priveligiada dos produtores eólicos em Portugal praticamente coincidir com o tempo de vida das suas turbinas, que seria em média de 20 anos, o Eng.º Carlos Pimenta indignou-se e contou umas das suas habituais histórias de vida, dizendo que havia visto as primeiras turbinas montadas em Portugal em 1988 ainda a funcionar e que o tempo de vida real das eólicas andava pelos 40 anos, como nas centrais tradicionais.
Ora 20 anos é o tempo de vida anunciado pelos próprios construtores, e como que a propósito recebi há pouco umas fotos que andam a circular na net e que certamente são de origem reaccionária, como poderão verificar.

Entretanto e por curiosidade resolvi fazer uma pesquisa sobre os dados de fiabilidade que já haverá sobre as eólicas em exploração por esse mundo fora, embora seja sabido que muitos dos proprietários dos parques escondem essa informação. E encontrei informação séria e de qualidade, por exemplo aqui e aqui.
Ora esta última referência, uma tese de mestrado sueca (a Suécia tem feito extensos estudos de fiabilidade dos parques eólicos) resume a realidade de forma simples: as turbinas são projectadas, de facto, para durarem 20 anos; mas o que a experiência de exploração mostra é que cada nova geração de turbinas sofre de problemas de concepção que lhes reduzem a vida média útil a menos de 20 anos mas que quando ficam resolvidos, com a experiência, aparece entretanto a geração seguinte, mais moderna mas com novos problemas!...
Na Dinamarca, por exemplo, a experiência mostra que o tempo de vida médio das turbinas eólicas é de 15.9 anos, o que dá razão ao argumento de que os 15 anos de vigência das nossas tarifas eólicas praticamente concincide com o seu tempo de vida, e portanto o Pimentinha lá inventou mais uma das dele... :-)
Entretanto, refazendo contas ao custo de investimento das turbinas eólicas para um tempo de vida de 16 anos em vez dos 20 que tenho considerado, verificamos que a energia eólica ainda é mais cara do que o que tenho suposto...

A batalha pela próxima política energética nacional

A há muito descredibilizada agência nacional informativa LUSA, divulgou sexta-feira que "A utilização da energia nuclear dividiu esta sexta-feira os especialistas ouvidos pelo líder social-democrata Pedro Passos Coelho".
E, como que a confirmar a LUSA, à saída dessa reunião de esclarecimento, o Eng.º Carlos Pimenta terá afirmado aos jornalistas que "o nuclear não cabe em Portugal".
Ora se há coisa que nessa reunião nem sequer foi aflorada, foi o nuclear!
Mais perto da verdade mas em sentido contrário ao da LUSA, o Expresso anunciou a reunião de trabalho como visando discutir as "energias renováveis", e o Eng.º Moreira da Silva, o jovem vice-Presidente do PSD actualmente com o pelouro dessas questões naquele Partido, explicou quais as preocupações que realmente haviam motivado a reunião: a inovação, a regulação, a concorrência, a política de inovação e a fiscalidade.
O Público desta vez também foi exacto, na informação que deu - a jornalista Lurdes Ferreira deve ter ido de férias... :-) - e noticiou que Moreira da Silva considera a aposta na eficiência energética a melhor estratégia nacional, para já.

Na verdade, verificou-se um embate da batalha política pela estratégia energética nacional que opõe os ecotópicos e os seus lobbies de sustento aos portugueses honrados (reutilizando uma velha etiqueta que em tempos usavam os oposicionistas).
Todos concordam com a necessidade de reduzir a dependência do petróleo e as emissões de CO2. Nisso, há um consenso que abarca toda a gente no país.
Onde se situa a divisão é entre os que defendem a consideração de todas as opções tecnológicas (full portfolio) de modo a minimizar o custo das soluções para o povo e a Humanidade, e os que são movidos por preconceitos ideológicos fundamentalistas, só aceitam certas energias renováveis (limited portfolio) e não lhes interessam nem os custos, nem a verdade, nem as pessoas reais.

Nos EUA, onde o debate e a independência de opinião são muito mais ricos que na Europa, esta divisão foi detectada há muito, razão do estudo que o EPRI, a super-estrutura de I&D energética americana, fez em 2007 e actualizou em 2009, pondo em confronto as consequências económicas dessas duas vias e que eu já invoquei aqui e aqui.
Muito recentemente foi publicado um outro estudo, nos finais de 2009, por uma instituição com ainda mais gabarito que o EPRI, a Academia Nacional de Ciências dos EUA, e que aponta para as mesmas conclusões! Pode ser lido gratuitamente on-line aqui, e o seu sumário pode ser descarregado aqui.
O estudo da Academia das Ciências dos EUA (NSA) considera a melhoria da eficiência energética a aposta com resultados mais rápidos e garantidos nos EUA, nos transportes, indústria e sobretudo nos edifícios. Mas, a um horizonte de 10-25 anos, recomenda as apostas nas energias renováveis, no carvão limpo (captura e sequestro do CO2), na energia nuclear e em combustíveis alternativos para os transportes.

Em futuros posts hei-de discutir convosco detalhes do extenso relatório da NSA, mas hoje queria só dizer-vos que esta oposição de ideias em Portugal não parece ser conciliável, dado o fundamentalismo sectário e arrogante dos ecotópicos. Uma conversa que tive com um colega da FEUP num intervalo da referida reunião com Passos Coelho esclarece tudo.
Esse colega abordou-me, comiserado com o que ele e o seu grupo julgam ser o meu reaccionarismo e falta de visão de futuro, e disse-me: "imagina que há 20 anos também tinhas dito a alguém que as protecções digitais não teriam futuro; já viste o erro que terias cometido? Agora estás a fazer o mesmo!".
Acontece que esta história aconteceu realmente, mas ao contrário! Há 20 anos, precisamente, a antecessora da REN encomendou-me um estudo sobre "o estado da arte das tecnologias numéricas em Subestações", como apoio a um projecto que então iniciavam com a indústria nacional, indicando-me pretenderem que eu elucidasse o papel que a Inteligência Artificial iria ter na automatização de Subestações. Pois o resumo do meu estudo foi que a Inteligência Artificial não iria ter papel nenhum, mas que as protecções digitais é que sim! A antecessora da REN não gostou das minhas conclusões, mas foi isso mesmo que aconteceu e o projecto deles com a indústria nacional ficou em águas de bacalhau. Foi essa indústria que depois me envolveu no desenvolvimento das protecções digitais nacionais, projecto que lá realizei na década seguinte.
No caso das "micro-redes" e do fundamentalismo eólico-solar a minha recusa não é tecnológica, mas política, pelas razões que este blog tem vindo a testemunhar!

Tentando contemporizar, disse ao meu colega da FEUP que, embora não acreditasse no futuro das "micro-redes" e "smart grids" associadas em que ele anda envolvido, do ponto de vista de I&D considerava que havia no assunto tecnologias interessantes e que concordava em que se investisse no seu conhecimento, acautelando o futuro. Mas que, pelas mesmas razões de cautela com o futuro, achava que se devia investir também no conhecimento das tecnologias da energia nuclear...
Ora quando falei na energia nuclear o semblante do meu interlocutor crispou-se numa recusa completa. E notem, eu estava só a falar em investir em conhecimento!!!...
Penso que isto resume a natureza deste confronto.

quarta-feira, julho 14, 2010

E se o Nissan ficar sem bateria?

A Scientific American on-line nota num artigo recente que o primeiro automóvel eléctrico que estará disponível no mercado, em 2011, na verdade disponível em apenas 4 países-cobaias (Japão, EUA, Holanda e Portugal), vai colocar problemas novos aos seus utilizadores.
Como já referi aqui, esse automóvel, o Nissan Leaf, anuncia uma autonomia de 165 km em condições ideais, 140 km em condições reais, que se vai reduzindo anualmente em pelo menos 20%.
Nestas condições, não é improvável que de vez em quando os seus proprietários se vejam confrontados com uma situação que já aconteceu a toda a gente com os autmóveis actuais: ficar parado na estrada sem combustível...
O problema é que, com o automóvel eléctrico, não se poderá recorrer à tradicional solução de apanhar uma boleia até à estação de serviço mais próxima e vir de lá com uma lata de gasolina...