Há cerca de ano e meio publiquei aqui umas contas comparativas dos custos de combustível do automóvel eléctrico versus os híbridos. Agora actualizei esse post mas, como estamos a presenciar uma grande campanha publicitária do Nissan Leaf, carro de que já falei aqui, será interessante actualizar aqui rapidamente essa comparação, por exemplo entre o Nissan Leaf e os melhores híbridos do mercado, os Toyota Prius e Auris. Temos, portanto:
para os Toyotas híbridos:
- Consumos médios: 4,5 l/100 km (3,9 anunciados, mas os 4,5 são os valores reais verificados por ensaios independentes);
- custo actual da gasolina sem impostos: 0,568 €/l (40% do actual preço para o público de 1,42€);
Total: 2,55 €/100 km.
para o Nissan Leaf:
- Consumos médios: 16 kWh/100 km (a Nissan indica a autonomia de 165 km para os 24 kWh de capacidade da bateria, mas ensaios independentes mostram que ela varia entre 200 km em condições perfeitas de estrada, a menos de 100 km em circuitos urbanos);
- custo médio actual do kWh para as famílias, sem impostos nem défices tarifários: 0,166€/kWh (incluindo o aumento de 10% calculado pela DECO para compensar o défice);
Total: 2,65 €/100 km.
Uma comparação complementar se poderia fazer entre o consumo dos híbridos e o dos Diesel. Em geral, as revistas da especialidade mostram que, entre nós, apenas nos híbridos da Toyota os híbridos gastam menos que os Diesel, mas essas análises não descontam o peso dos impostos no preço dos combustíveis. Ora, sem impostos o gasóleo é mais caro em cerca de 10% que a gasolina, cá como em todo o Mundo, porque o gasóleo é também mais rico energeticamente que a gasolina em cerca de 10%.
A Europa há muito que adoptou uma política de subsidiação fiscal ao gasóleo que tem promovido o desenvolvimento e a opção generalizada pelo Diesel, mas convém entender que isso não é universal - nem, em particular, é a política americana.
terça-feira, novembro 30, 2010
quarta-feira, novembro 17, 2010
SmartGrids: fantasia e realidade. Parte III: a visão chinesa e os standards
Por isto ser um tema de grande relevância na nossa I&D tecnológica e, por acaso, ser também o tema central da minha I&D académica e industrial há já 30 anos (embora sem estas novas buzzwords), e sendo uma das bandeiras da imagem de inovação apregoada pelo poder estabelecido, é oportuno discutir as SmartGrids e respectivos desafios tecnológicos.
Na parte I revi a visão europeia do assunto, assente na ideia de condicionar as pessoas a adaptarem os seus padrões de consumo à intermitência das fontes de energia renovável intermitentes, ou seja, à energia eólica e à fotovoltaica, e adoptada por cá com espírito "revolucionário" e grandes parangonas.
Na parte II expus a visão americana do assunto, um mix da utopia europeia com a resposta a necessidades americanas particulares, concretamente a modernização do controlo informático da sua rede eléctrica tradicional e a redução do esbanjamento energético inegável nos seus padrões de consumo.
Para terminar este périplo, e antes de falar de nós, proponho-vos conhecer a visão da China das SmartGrids e o que é tecnologicamente consensual por esse mundo fora.
É evidente que, sendo a China já o maior produtor de CO2 originado na queima do carvão para a produção de electricidade (carvão de que a China possui as maiores reservas mundiais), com uma população que é 1/5 da Humanidade e a duplicar o seu PIB a cada 6-7 anos, não há acordo mundial para a redução das emissões de CO2 e sobretudo para a redução da dependência do petróleo que a possa excluir.
Acresce a este contexto a emergência da China como o maior financiador do consumo ocidental e também o de maior produtor industrial, como a crise mundial em curso veio revelar a toda a gente.
Ora a China, que surpreendeu muitos com a firme mas colaborante posição que adoptou na Conferência de Copenhaga (e de que eu já avisara aqui), tem vindo a procurar um lugar no pelotão da frente também nas SmartGrids, e isso é expresso no documento que acaba de publicar e onde afirma a sua visão do assunto.
Logo no prefácio deste documento, diz a China que a sua estratégia oficial nesta matéria é construir "a world-leading strong and smart grid with ultra high voltage grid as its backbone and subordinate grids coordinated at various voltage levels, featured as being IT-based, automated, interactive, based on independent innovation."
Leram bem? Repito: "rede de ultra-alta tensão", e não de Baixa Tensão e muito menos micro-redes!!!
Como se vê, portanto, a China coincide inteiramente na minha visão do assunto, como tenho vindo a expor (nomeadamente aqui, há quase um ano)!
Na continuição do Prefácio, o documento chinês começa por fazer um balanço da História, afirmando de entrada: "Nos últimos 200 anos o mundo passou por 3 revoluções industriais, marcadas respectivamente pela máquina a vapor, a electricidade, e as tecnologias de computadores e de energia nuclear". Sim, energia nuclear, leram bem...
E depois de explicar que é necessário evoluir para fontes não-fósseis de energia, por causa do seu esgotamento a prazo (as alterações climáticas são mencionadas apenas em segundo plano...), o documento clarifica a sua visão: "Devido à intermitência e à aleatoriedade de fontes de energia renovável como a do vento e a solar, o desenvolvimento rápido e em grande escala das fontes de energia renovável coloca um grande desafio à segurança da rede eléctrica. ... A construção de uma rede eléctrica forte e "smart" fornecerá um maior suporte à utilização em grande escala de fontes de energia renovável, reduzindo a dependência de combustíveis fósseis e alargando o âmbito e a dimensão dos recursos energéticos".
E, mais adiante, a visão chinesa é clarificada como sendo a de vir a haver alterações do lado da geração e também do consumo: mas, neste, o que há a gerir é uma maior eficiência (como para os americanos) e também o facto da "descarbonização" da economia ir implicar a substituição das fontes de energia fósseis usadas em consumos não-eléctricos - como na indústria, aquecimento e transportes - por consumos eléctricos...! Não se fala em "educar" o povo, ao contrário de na "Europa".
A prazo, a visão chinesa também menciona automóveis eléctricos e painéis solares caseiros a permitirem vender electricidade à rede, a par e passo de uma prevista generalização futura da internet de baixo custo e do desenvolvimento de standards de comunicação para todos os gadgets que permitirão essa gestão mais inteligente do consumo.
Porém, a ênfase imediata vai para a construção da infra-estrutura de transporte flexível em ultra-alta tensão que permita ligar os gigantescos recursos renováveis localizados em regiões específicas, com os centros de consumo - os rios para hidroeléctricas do Sudoeste, o carvão do norte e ocidente, o vento nas estepes mongóis e a norte, o Sol nos planaltos tibetanos, e os consumos que estão no litoral e no centro. Ou seja: exactamente a mesma lógica que, como já notei, justifica uma Super-rede na Europa - a qual, porém, não é um único gigantesco país, ao contrário da China e dos EUA.
Para a realização desta visão a China propõe-se cumprir as seguintes etapas: 1ª - planeamento geral; 2ª - standards unificados de comunicações; 3ª - projectos-piloto; 4ª - aplicação generalizada. As primeiras 3 etapas, já em curso, têm por horizonte de termo 2015, e 2020 para a última etapa. Tecnicamente, a maior prioridade para os próximos anos é a consolidação de standards, de que são à priori escolhidos 5 que garantem a posterior internacionalização dos produtos a desenvolver.
É difícil não reconhecer na visão chinesa um perfeito realismo quer sobre as possibilidades da tecnologia, quer na estratégia escolhida para o seu desenvolvimento. Tanto mais que, embora isso não seja mencionado no documento em causa porque essas centrais estão planeadas para próximo dos centros de consumo do litoral, a China tem também uma aposta decisiva na energia nuclear, tendo de momento 23 novos reactores em construção e planeando vir a ter 200 GW instalados dentro de 20 anos - todos de III geração e máxima incorporação chinesa (embora predominantemente baseados na tecnologia americana das AP1000), e apontando para os de IV geração (regeneradores) lá para 2050... números que ampliam o que eu já informara aqui no início deste ano.
Tem entretanto especial interesse analisar um pouco melhor a ênfase colocada a curto prazo pela China na questão dos standards, porque essa ênfase é partilhada por outros países asiáticos industrializados exportadores como a Coreia do Sul e o Japão, e é uma questão económica essencial.
Do ponto de vista técnico, as SmartGrids basear-se-ão em sistemas de dispositivos electrónicos digitais ("smart") ligados em rede (de comunicações). Dada a multiplicidade de dispositivos que se poderão fabricar e utilizar, só se poderá garantir que as referidas redes de comunicações serão abertas a novos e variados produtos se elas "falarem" uma linguagem comum. Ou seja, se tiverem um "protocolo" de comunicações normalizado ("standard").
Para o utilizador, seja ele uma grande empresa de electricidade ou um consumidor de electrodomésticos "smart" (isto é, com controlo digital e ligável em rede a "smart meters" = contadores de energia digitais), a sua escolha no mercado só será livre se tiver a garantia que cada dispositivo que compre poderá "falar" em rede com os restantes sem dificuldade. Tal como os PC com as impressoras ou os routers de ligação à net, ou os auriculares sem fios com os telemóveis.
Para o industrial que desenvolva um novo produto, seja ele um frigorífico "smart" ou um equipamento digital de protecção para Subestações da rede eléctrica, também só se esse produto "falar" uma linguagem que os outros dispositivos entendam lhe garantirá que os clientes o comprarão.
Por conseguinte, o acordo internacional prévio sobre as "linguagens" (ou protocolos de comunicação) que "falarão" todos os dispositivos "smart" é um pré-requisito absolutamente essencial à viabilidade de qualquer desenvolvimento industrial de SmartGrids.
Para a Baixa Tensão não há ainda nenhum acordo à vista. E, não havendo tal acordo, nenhum projecto nesta área pode ser mais que um projecto-piloto investigatório sem perspectivas de comercialização em larga escala.
Para a Média e a Alta Tensão, porém, a China, no documento em causa, recomenda a adopção de 5 standards de comunicação já definidos internacionalmente pela Comissão Electrotécnica Internacional (CEI). Os EUA, por sua vez, já tinham muito recentemente adoptado também 5 standards, dos quais 4 vieram a ser adoptados pela China. São eles as normas CEI 62351 (para a cyber-segurança), 61970 e 61968 (Modelos de Informação Comum respectivamente para as redes de Muito Alta e de Alta e Média tensão), e 61850 (para as redes e Subestações de Distribuição de Alta e Média tensão).
Nenhum trabalho de I&D visando a aplicação industrial e, portanto, a criação de riqueza, seja como fabricante (de produtos para as SmartGrids), seja como comprador, terá qualquer sustentabilidade se ignorar estes standards.
Na próxima IV e última parte deste post debruçar-me-ei sobre a situação portuguesa.
Na parte I revi a visão europeia do assunto, assente na ideia de condicionar as pessoas a adaptarem os seus padrões de consumo à intermitência das fontes de energia renovável intermitentes, ou seja, à energia eólica e à fotovoltaica, e adoptada por cá com espírito "revolucionário" e grandes parangonas.
Na parte II expus a visão americana do assunto, um mix da utopia europeia com a resposta a necessidades americanas particulares, concretamente a modernização do controlo informático da sua rede eléctrica tradicional e a redução do esbanjamento energético inegável nos seus padrões de consumo.
Para terminar este périplo, e antes de falar de nós, proponho-vos conhecer a visão da China das SmartGrids e o que é tecnologicamente consensual por esse mundo fora.
É evidente que, sendo a China já o maior produtor de CO2 originado na queima do carvão para a produção de electricidade (carvão de que a China possui as maiores reservas mundiais), com uma população que é 1/5 da Humanidade e a duplicar o seu PIB a cada 6-7 anos, não há acordo mundial para a redução das emissões de CO2 e sobretudo para a redução da dependência do petróleo que a possa excluir.
Acresce a este contexto a emergência da China como o maior financiador do consumo ocidental e também o de maior produtor industrial, como a crise mundial em curso veio revelar a toda a gente.
Ora a China, que surpreendeu muitos com a firme mas colaborante posição que adoptou na Conferência de Copenhaga (e de que eu já avisara aqui), tem vindo a procurar um lugar no pelotão da frente também nas SmartGrids, e isso é expresso no documento que acaba de publicar e onde afirma a sua visão do assunto.
Logo no prefácio deste documento, diz a China que a sua estratégia oficial nesta matéria é construir "a world-leading strong and smart grid with ultra high voltage grid as its backbone and subordinate grids coordinated at various voltage levels, featured as being IT-based, automated, interactive, based on independent innovation."
Leram bem? Repito: "rede de ultra-alta tensão", e não de Baixa Tensão e muito menos micro-redes!!!
Como se vê, portanto, a China coincide inteiramente na minha visão do assunto, como tenho vindo a expor (nomeadamente aqui, há quase um ano)!
Na continuição do Prefácio, o documento chinês começa por fazer um balanço da História, afirmando de entrada: "Nos últimos 200 anos o mundo passou por 3 revoluções industriais, marcadas respectivamente pela máquina a vapor, a electricidade, e as tecnologias de computadores e de energia nuclear". Sim, energia nuclear, leram bem...
E depois de explicar que é necessário evoluir para fontes não-fósseis de energia, por causa do seu esgotamento a prazo (as alterações climáticas são mencionadas apenas em segundo plano...), o documento clarifica a sua visão: "Devido à intermitência e à aleatoriedade de fontes de energia renovável como a do vento e a solar, o desenvolvimento rápido e em grande escala das fontes de energia renovável coloca um grande desafio à segurança da rede eléctrica. ... A construção de uma rede eléctrica forte e "smart" fornecerá um maior suporte à utilização em grande escala de fontes de energia renovável, reduzindo a dependência de combustíveis fósseis e alargando o âmbito e a dimensão dos recursos energéticos".
E, mais adiante, a visão chinesa é clarificada como sendo a de vir a haver alterações do lado da geração e também do consumo: mas, neste, o que há a gerir é uma maior eficiência (como para os americanos) e também o facto da "descarbonização" da economia ir implicar a substituição das fontes de energia fósseis usadas em consumos não-eléctricos - como na indústria, aquecimento e transportes - por consumos eléctricos...! Não se fala em "educar" o povo, ao contrário de na "Europa".
A prazo, a visão chinesa também menciona automóveis eléctricos e painéis solares caseiros a permitirem vender electricidade à rede, a par e passo de uma prevista generalização futura da internet de baixo custo e do desenvolvimento de standards de comunicação para todos os gadgets que permitirão essa gestão mais inteligente do consumo.
Porém, a ênfase imediata vai para a construção da infra-estrutura de transporte flexível em ultra-alta tensão que permita ligar os gigantescos recursos renováveis localizados em regiões específicas, com os centros de consumo - os rios para hidroeléctricas do Sudoeste, o carvão do norte e ocidente, o vento nas estepes mongóis e a norte, o Sol nos planaltos tibetanos, e os consumos que estão no litoral e no centro. Ou seja: exactamente a mesma lógica que, como já notei, justifica uma Super-rede na Europa - a qual, porém, não é um único gigantesco país, ao contrário da China e dos EUA.
Para a realização desta visão a China propõe-se cumprir as seguintes etapas: 1ª - planeamento geral; 2ª - standards unificados de comunicações; 3ª - projectos-piloto; 4ª - aplicação generalizada. As primeiras 3 etapas, já em curso, têm por horizonte de termo 2015, e 2020 para a última etapa. Tecnicamente, a maior prioridade para os próximos anos é a consolidação de standards, de que são à priori escolhidos 5 que garantem a posterior internacionalização dos produtos a desenvolver.
É difícil não reconhecer na visão chinesa um perfeito realismo quer sobre as possibilidades da tecnologia, quer na estratégia escolhida para o seu desenvolvimento. Tanto mais que, embora isso não seja mencionado no documento em causa porque essas centrais estão planeadas para próximo dos centros de consumo do litoral, a China tem também uma aposta decisiva na energia nuclear, tendo de momento 23 novos reactores em construção e planeando vir a ter 200 GW instalados dentro de 20 anos - todos de III geração e máxima incorporação chinesa (embora predominantemente baseados na tecnologia americana das AP1000), e apontando para os de IV geração (regeneradores) lá para 2050... números que ampliam o que eu já informara aqui no início deste ano.
Tem entretanto especial interesse analisar um pouco melhor a ênfase colocada a curto prazo pela China na questão dos standards, porque essa ênfase é partilhada por outros países asiáticos industrializados exportadores como a Coreia do Sul e o Japão, e é uma questão económica essencial.
Do ponto de vista técnico, as SmartGrids basear-se-ão em sistemas de dispositivos electrónicos digitais ("smart") ligados em rede (de comunicações). Dada a multiplicidade de dispositivos que se poderão fabricar e utilizar, só se poderá garantir que as referidas redes de comunicações serão abertas a novos e variados produtos se elas "falarem" uma linguagem comum. Ou seja, se tiverem um "protocolo" de comunicações normalizado ("standard").
Para o utilizador, seja ele uma grande empresa de electricidade ou um consumidor de electrodomésticos "smart" (isto é, com controlo digital e ligável em rede a "smart meters" = contadores de energia digitais), a sua escolha no mercado só será livre se tiver a garantia que cada dispositivo que compre poderá "falar" em rede com os restantes sem dificuldade. Tal como os PC com as impressoras ou os routers de ligação à net, ou os auriculares sem fios com os telemóveis.
Para o industrial que desenvolva um novo produto, seja ele um frigorífico "smart" ou um equipamento digital de protecção para Subestações da rede eléctrica, também só se esse produto "falar" uma linguagem que os outros dispositivos entendam lhe garantirá que os clientes o comprarão.
Por conseguinte, o acordo internacional prévio sobre as "linguagens" (ou protocolos de comunicação) que "falarão" todos os dispositivos "smart" é um pré-requisito absolutamente essencial à viabilidade de qualquer desenvolvimento industrial de SmartGrids.
Para a Baixa Tensão não há ainda nenhum acordo à vista. E, não havendo tal acordo, nenhum projecto nesta área pode ser mais que um projecto-piloto investigatório sem perspectivas de comercialização em larga escala.
Para a Média e a Alta Tensão, porém, a China, no documento em causa, recomenda a adopção de 5 standards de comunicação já definidos internacionalmente pela Comissão Electrotécnica Internacional (CEI). Os EUA, por sua vez, já tinham muito recentemente adoptado também 5 standards, dos quais 4 vieram a ser adoptados pela China. São eles as normas CEI 62351 (para a cyber-segurança), 61970 e 61968 (Modelos de Informação Comum respectivamente para as redes de Muito Alta e de Alta e Média tensão), e 61850 (para as redes e Subestações de Distribuição de Alta e Média tensão).
Nenhum trabalho de I&D visando a aplicação industrial e, portanto, a criação de riqueza, seja como fabricante (de produtos para as SmartGrids), seja como comprador, terá qualquer sustentabilidade se ignorar estes standards.
Na próxima IV e última parte deste post debruçar-me-ei sobre a situação portuguesa.
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segunda-feira, novembro 15, 2010
SmartGrids: fantasia e realidade. Parte II: a visão americana.
Há poucos dias iniciei um post sobre a questão das SmartGrids, ou redes eléctricas "espertinhas", tendo então publicado a respectiva parte I, revendo a "visão" da "Europa" sobre o tema e a respectiva falta de perspectiva económica numa ideologia abarrotada de "wishful thinking" de futuros produtores-consumidores a micro-gerarem energia e a armazenarem-na em imaginários automóveis eléctricos...
Vou agora, nesta parte II, estender essa revisão a outro dos outros dois pólos que importam: os EUA e a China.
A "visão" americana para as SmartGrids oficializou-se no "Energy Independence and Security Act", também conhecido por "Clean Energy act", proposto pelos Democratas e aprovado pelo Congresso nos finais de 2007 ainda sob a Admnistração Bush, e que as define pela combinação das seguintes características:
" (1) Increased use of digital information and controls technology to improve reliability, security, and efficiency of the electric grid. (2) Dynamic optimization of grid operations and resources, with full cyber-security. (3) Deployment and integration of distributed resources and generation, including renewable resources. (4) Development and incorporation of demand response, demand-side resources, and energy-efficiency resources. (5) Deployment of ‘‘smart’’ technologies (real-time, automated, interactive technologies that optimize the physical operation of appliances and consumer devices) for metering, communications concerning grid operations and status, and distribution automation. (6) Integration of ‘‘smart’’ appliances and consumer devices. (7) Deployment and integration of advanced electricity storage and peak-shaving technologies, including plug-in electric and hybrid electric vehicles, and thermal-storage air conditioning. (8) Provision to consumers of timely information and control options. (9) Development of standards for communication and interoperability of appliances and equipment connected to the electric grid, including the infrastructure serving the grid. (10) Identification and lowering of unreasonable or unnecessary barriers to adoption of smart grid technologies, practices, and services."
Esta mesma lei atribuiu ao IEEE a quantia de 5 milhões de dólares para suporte ao respectivo programa, o que ajuda a entender o entusiasmo desta prestigiada instituição nos temas propostos, embora eles sejam, de facto, uma mistura de diferentes coisas.
Por um lado, encontramos nesta Lei algumas das mesmas fantasias ecotópicas em moda na Europa, como a do armazenamento de energia pelos consumidores em baterias de automóveis eléctricos ou a do condicionamento do consumo, embora inclinando-se mais para o uso de electrodómésticos "espertos" do que para a "educação" do consumidor - mas, tal como na Europa, a respectiva necessidade advém do desejo de adaptar o consumo à intermitência da energia eólica (e, mais remotamente, da solar fotovoltaica). Embora, nos EUA, outra determinante desta preocupação com o condicionamento do consumo seja o aumento da mera eficiência, dado o inegável enorme esbanjamento que por lá se verifica no consumo energético (com preços da energia a menos de metade dos europeus).
Os electrodomésticos controláveis que mais têm sido considerados são as máquinas de lavar roupa e loiça, e também os frigoríficos. Isso requer duas coisas: que tais aparelhos comuniquem digitalmente com os contadores "espertinhos" (smart meters), cuja tarifa por sua vez reflectirá em cada momento a oferta de energia (e portanto a intermitência das fontes renováveis eólicas e solares), de modo a funcionarem automaticamente nas horas de melhor preço; e que as pessoas adaptem os seus horários de vida, nomeadamente que sujeitem a altura em que tiram a loiça ou a roupa das máquinas ao horário aleatório de funcionamento das mesmas.
A primeira destas coisas requer, entre outras, a existência de standards de comunicação informática para os electrodomésticos "espertos"; a segunda requer a "educação" das pessoas. Os standards e as tecnologias têm aparecido, como o ZigBee, assim como "chips" que os implementem, mas as pessoas é que não parecem fáceis de "educar", e isso torna de alto risco qualquer aposta dos fabricantes de electrodomésticos no desenvolvimento desses aparelhos, tudo forçosamente mais caro, claro... razão porque ainda não há à venda um único electrodoméstico desses que seja! Os optimistas prevêm-nos lá para 2015, mas é desconhecido qualquer estudo de mercado que mostre as suas vantagens para os consumidores - talvez por ainda não se lhes ter querido revelar o preço a que ficará a electricidade de origem eólica e solar, quando considerados os respectivos sobrecustos sistémicos...
A "visão" americana das SmartGrids, porém, contém componentes que não são mais que a modernização das redes eléctricas lá existentes as quais, em certos aspectos, se atrasaram tecnologicamente em relação às redes europeias. E, para o explicar melhor, é necessário saber que há já muitas décadas que as redes eléctricas são controladas informaticamente e que possuem redes de comunicações sobrepostas; de facto, há muito que nos EUA a indústria de energia eléctrica é o maior consumidor de tecnologias informáticas, depois da Defesa e da Banca.
Ainda antes de existir informática, as redes eléctricas americanas já dispunham de muitos automatismos dispersos na Distribuição e controlos sofisticados na Geração, em geral mais avançados que as suas congéneres europeias. Depois, nos anos 60 e 70 os EUA foram rápidos a instalar em todas as redes eléctricas Sistemas de Supervisão e de Aquisição de Dados (SCADA), os quais recolhiam informação remota das Centrais e Subestações, e as concentravam em Centros de Controlo. Portugal, por exemplo, só dispôs de um Centro de Controlo nacional moderno da sua rede eléctrica de Geração e Transporte de electricidade no final dos anos 80, e nas redes de Distribuição (Alta e parte da Média Tensão) ainda mais tarde...
Acontece que nos anos 80 se assistiu ao aparecimento das tecnologias baseadas em microprocessadores na automatização, e depois na protecção (um tipo especial de automatização) das redes eléctricas, e foi nessa época que os EUA se atrasaram, pela relutância dos seus grandes fabricantes em fazerem investimentos tecnológicos inovadores em electricidade, depois do movimento político que congelou os grandes investimentos na energia nuclear das décadas anteriores. A desregulamentação que Reagan trouxe à indústria da electricidade nesses anos 80 também contribuiu para essa paragem de investimentos, de modo que ao fim de vinte anos os EUA passaram a ter redes eléctricas relativamente obsoletas. Até que o 11 de Setembro de 2001 veio revelar a vulnerabilidade militar das infra-estruturas americanas, e essa foi uma das razões da Administração Bush para a preocupação com a modernização informática da sua rede eléctrica, nomeadamente na ênfase especificamente americana dada à cyber-segurança.
E é por isso que as 3 primeiras das 10 prioridades da visão americana das SmartGrids são, simplesmente, o "incremento da tecnologia e do controlo digitais" na rede eléctrica. Ao contrário da Europa e do Japão, a América atrasou-se na aplicação da revolução dos microprocessadores (vulgarizados a partir dos anos 80 e sobretudo 90) às redes eléctricas!
E é assim que, por exemplo num documento publicado já no ano corrente de 2010, o Governo americano se centra na promoção de standards de comunicação digital entre dispositivos e sistemas a usar nas SmartGrids, mas dos 8 temas considerados prioritários o 1º é meramente a extensão e modernização dos sistemas de SCADA já existentes na Produção e transporte de electridade, e o 8º o mesmo para as redes de Distribuição; os outros 6 temas incluem questões essencialmente tecnológicas, como os sistemas de comunicações a modernizar e a sua cyber-segurança e, em apenas cerca de 50%, as ideias mais futuristas associadas à intermitência da geração eólica e solar, do condicionamento do consumo à preparação para os automóveis híbridos carregáveis electricamente (os automóveis puramente eléctricos nem sequer são considerados nos estudos americanos, como já tinha notado aqui).
Claro que nos EUA há muito quem não acredite na viabilidade comercial (ou orçamental) dos conceitos mais "green" importados da Europa. Mas, mais sabiamente que os europeus, os americanos só apostam metade dos seus recursos nesta via, deixando espaço para o desenvolvimento de inovações com os pés mais na terra, nomeadamente a modernização de um sistema que se atrasara tecnologicamente e a redução da ineficiência energética, um grave problema lá resultante dos seus baixos preços na energia.
Pés na terra até porque a isso a China oblige, como mostrarei na parte III deste post.
Vou agora, nesta parte II, estender essa revisão a outro dos outros dois pólos que importam: os EUA e a China.
A "visão" americana para as SmartGrids oficializou-se no "Energy Independence and Security Act", também conhecido por "Clean Energy act", proposto pelos Democratas e aprovado pelo Congresso nos finais de 2007 ainda sob a Admnistração Bush, e que as define pela combinação das seguintes características:
" (1) Increased use of digital information and controls technology to improve reliability, security, and efficiency of the electric grid. (2) Dynamic optimization of grid operations and resources, with full cyber-security. (3) Deployment and integration of distributed resources and generation, including renewable resources. (4) Development and incorporation of demand response, demand-side resources, and energy-efficiency resources. (5) Deployment of ‘‘smart’’ technologies (real-time, automated, interactive technologies that optimize the physical operation of appliances and consumer devices) for metering, communications concerning grid operations and status, and distribution automation. (6) Integration of ‘‘smart’’ appliances and consumer devices. (7) Deployment and integration of advanced electricity storage and peak-shaving technologies, including plug-in electric and hybrid electric vehicles, and thermal-storage air conditioning. (8) Provision to consumers of timely information and control options. (9) Development of standards for communication and interoperability of appliances and equipment connected to the electric grid, including the infrastructure serving the grid. (10) Identification and lowering of unreasonable or unnecessary barriers to adoption of smart grid technologies, practices, and services."
Esta mesma lei atribuiu ao IEEE a quantia de 5 milhões de dólares para suporte ao respectivo programa, o que ajuda a entender o entusiasmo desta prestigiada instituição nos temas propostos, embora eles sejam, de facto, uma mistura de diferentes coisas.
Por um lado, encontramos nesta Lei algumas das mesmas fantasias ecotópicas em moda na Europa, como a do armazenamento de energia pelos consumidores em baterias de automóveis eléctricos ou a do condicionamento do consumo, embora inclinando-se mais para o uso de electrodómésticos "espertos" do que para a "educação" do consumidor - mas, tal como na Europa, a respectiva necessidade advém do desejo de adaptar o consumo à intermitência da energia eólica (e, mais remotamente, da solar fotovoltaica). Embora, nos EUA, outra determinante desta preocupação com o condicionamento do consumo seja o aumento da mera eficiência, dado o inegável enorme esbanjamento que por lá se verifica no consumo energético (com preços da energia a menos de metade dos europeus).
Os electrodomésticos controláveis que mais têm sido considerados são as máquinas de lavar roupa e loiça, e também os frigoríficos. Isso requer duas coisas: que tais aparelhos comuniquem digitalmente com os contadores "espertinhos" (smart meters), cuja tarifa por sua vez reflectirá em cada momento a oferta de energia (e portanto a intermitência das fontes renováveis eólicas e solares), de modo a funcionarem automaticamente nas horas de melhor preço; e que as pessoas adaptem os seus horários de vida, nomeadamente que sujeitem a altura em que tiram a loiça ou a roupa das máquinas ao horário aleatório de funcionamento das mesmas.
A primeira destas coisas requer, entre outras, a existência de standards de comunicação informática para os electrodomésticos "espertos"; a segunda requer a "educação" das pessoas. Os standards e as tecnologias têm aparecido, como o ZigBee, assim como "chips" que os implementem, mas as pessoas é que não parecem fáceis de "educar", e isso torna de alto risco qualquer aposta dos fabricantes de electrodomésticos no desenvolvimento desses aparelhos, tudo forçosamente mais caro, claro... razão porque ainda não há à venda um único electrodoméstico desses que seja! Os optimistas prevêm-nos lá para 2015, mas é desconhecido qualquer estudo de mercado que mostre as suas vantagens para os consumidores - talvez por ainda não se lhes ter querido revelar o preço a que ficará a electricidade de origem eólica e solar, quando considerados os respectivos sobrecustos sistémicos...
A "visão" americana das SmartGrids, porém, contém componentes que não são mais que a modernização das redes eléctricas lá existentes as quais, em certos aspectos, se atrasaram tecnologicamente em relação às redes europeias. E, para o explicar melhor, é necessário saber que há já muitas décadas que as redes eléctricas são controladas informaticamente e que possuem redes de comunicações sobrepostas; de facto, há muito que nos EUA a indústria de energia eléctrica é o maior consumidor de tecnologias informáticas, depois da Defesa e da Banca.
Ainda antes de existir informática, as redes eléctricas americanas já dispunham de muitos automatismos dispersos na Distribuição e controlos sofisticados na Geração, em geral mais avançados que as suas congéneres europeias. Depois, nos anos 60 e 70 os EUA foram rápidos a instalar em todas as redes eléctricas Sistemas de Supervisão e de Aquisição de Dados (SCADA), os quais recolhiam informação remota das Centrais e Subestações, e as concentravam em Centros de Controlo. Portugal, por exemplo, só dispôs de um Centro de Controlo nacional moderno da sua rede eléctrica de Geração e Transporte de electricidade no final dos anos 80, e nas redes de Distribuição (Alta e parte da Média Tensão) ainda mais tarde...
Acontece que nos anos 80 se assistiu ao aparecimento das tecnologias baseadas em microprocessadores na automatização, e depois na protecção (um tipo especial de automatização) das redes eléctricas, e foi nessa época que os EUA se atrasaram, pela relutância dos seus grandes fabricantes em fazerem investimentos tecnológicos inovadores em electricidade, depois do movimento político que congelou os grandes investimentos na energia nuclear das décadas anteriores. A desregulamentação que Reagan trouxe à indústria da electricidade nesses anos 80 também contribuiu para essa paragem de investimentos, de modo que ao fim de vinte anos os EUA passaram a ter redes eléctricas relativamente obsoletas. Até que o 11 de Setembro de 2001 veio revelar a vulnerabilidade militar das infra-estruturas americanas, e essa foi uma das razões da Administração Bush para a preocupação com a modernização informática da sua rede eléctrica, nomeadamente na ênfase especificamente americana dada à cyber-segurança.
E é por isso que as 3 primeiras das 10 prioridades da visão americana das SmartGrids são, simplesmente, o "incremento da tecnologia e do controlo digitais" na rede eléctrica. Ao contrário da Europa e do Japão, a América atrasou-se na aplicação da revolução dos microprocessadores (vulgarizados a partir dos anos 80 e sobretudo 90) às redes eléctricas!
E é assim que, por exemplo num documento publicado já no ano corrente de 2010, o Governo americano se centra na promoção de standards de comunicação digital entre dispositivos e sistemas a usar nas SmartGrids, mas dos 8 temas considerados prioritários o 1º é meramente a extensão e modernização dos sistemas de SCADA já existentes na Produção e transporte de electridade, e o 8º o mesmo para as redes de Distribuição; os outros 6 temas incluem questões essencialmente tecnológicas, como os sistemas de comunicações a modernizar e a sua cyber-segurança e, em apenas cerca de 50%, as ideias mais futuristas associadas à intermitência da geração eólica e solar, do condicionamento do consumo à preparação para os automóveis híbridos carregáveis electricamente (os automóveis puramente eléctricos nem sequer são considerados nos estudos americanos, como já tinha notado aqui).
Claro que nos EUA há muito quem não acredite na viabilidade comercial (ou orçamental) dos conceitos mais "green" importados da Europa. Mas, mais sabiamente que os europeus, os americanos só apostam metade dos seus recursos nesta via, deixando espaço para o desenvolvimento de inovações com os pés mais na terra, nomeadamente a modernização de um sistema que se atrasara tecnologicamente e a redução da ineficiência energética, um grave problema lá resultante dos seus baixos preços na energia.
Pés na terra até porque a isso a China oblige, como mostrarei na parte III deste post.
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smart grids
sábado, novembro 13, 2010
SmartGrids: fantasia e realidade. Parte I: a visão europeia.
Desde o Verão passado que tem vindo a tomar forma uma iniciativa político-académica nacional visando a participação num projecto europeu que dispõe de algumas centenas de milhões de € comunitários para distribuir, o que pôs imediatamente em campo aqueles a quem pouco importa se os projectos de I&D têm alguma utilidade para a Humanidade e menos ainda para Portugal.
Nestes casos, as atitudes dividem-se entre os que nem questionam a racionalidade dos projectos, desinteressados de pensar pela sua cabeça e eivados da crença de que tudo o que vem da "Europa" é luz, os cínicos que acham que isso pouco importa e que o que interessa é o dinheiro e, finalmente, os que, brincando com Lénine, pensam que "deve-se trabalhar obrigatoriamente onde estejam as massas", subtraindo-as "aos oportunistas", para se fazer com elas o trabalho realmente necessário. Massas no sentido de $massas$... :-))
Neste contexto, proponho-me reflectir convosco sobre a natureza do "movimento" pelas SmartGrids que desde 2008 e o início da recessão no Ocidente desenvolvido ganhou grande projecção internacional e também nacional, e que é o objectivo do muito dinheiro de que vos estou a falar.
As visões do que será uma smartgrid estão eivadas de ideologia, e por isso a própria definição do que são varia com quem a define. Em Portugal tem-se estabelecido a visão ideológica ecotópica, emergente da Alemanha "green" e merecendo por isso o eco pronto do nosso stablishment e dos interesses pró-eólicos associados, tendo no entanto por advogados alguns académicos que sabem, ou têm a obrigação de saber, a dimensão dos enganos em curso - como a aliança INESC-Norte / Ministério da Ciência e Tecnologia.
Para clarificar então as coisas, nada melhor que começar por citar (traduzindo-o), um paper holandês publicado em 2009 e que continua a ser um dos 10 mais consultados no MUNDO electrotécnico, que ousa o título de "Smart Grids: o futuro ou fantasia?":
"SmartGrids é um denominador comum para uma ampla gama de desenvolvimentos que tornam as redes de energia de média e baixa tensão mais inteligentes e flexíveis do que são hoje em dia. A motivação principal para as iniciativas de SmartGrids é que tais desenvolvimentos melhorariam a fiabilidade do fornecimento e/ou apoiariam a tendência para fontes de energia mais sustentáveis. Presentemente, as redes de média e baixa tensão não podem ser observadas nem controladas remotamente.
Diversas empresas estão a desenvolver tecnologias visando a criação de redes inteligentes. No entanto, estes desenvolvimentos tendem a radicar-se em possibilidades tecnológicas, em vez de numa sã análise dos problemas e numa abordagem estruturada para a sua solução.
No passado recente, uma grande variedade de sensores, protocolos, equipamentos de comunicação e similares tem sido concebida para apoiar a transição para as SmartGrids. No entanto, muitos deles não têm encontrado grande aplicação, o que pode ser atribuído, pelo menos parcialmente, ao facto de que não havia problemas para os quais fornecessem uma solução, pelo que não lhes foi possível elaborar um "business case" positivo. Em suma, houve demasiada pressão da tecnologia e solicitação a menos do mercado.
O facto de alguns dos fabricantes destas tecnologias sem sucesso até culparem os operadores das redes eléctricas de conservadorismo, em vez de melhorarem a relação qualidade / preço dos seus produtos, dificulta ainda mais um verdadeiro arranque das Smart Grids."
O paper, no seguimento, tenta propor uma abordagem mais útil e comercialmente orientada para este "movimento", mas é demasiado evidente que o faz para poder ter sido aceite na Conferência em que foi apresentado, e onde imperava o mesmo "pensamento único" ecotópico que o artigo critica.
Um dos dedos postos na ferida que o paper anterior ilumina (que o "movimento" das SmartGrids tem sido um conjunto de "soluções" à procura de problemas, em vez do contrário), é elucidado por outro paper acabado de apresentar internacionalmente e que é, também ele, um dos 10 mais lidos de momento no mundo electrotécnico. Citando-o:
"Uma rede de energia moderna precisa de se tornar mais inteligente, a fim de proporcionar uma oferta barata, fiável e sustentável de electricidade. Por esses motivos, tem estado a ser realizada uma considerável actividade nos Estados Unidos e na Europa para formular e promover uma visão para o desenvolvimento de futuras redes de energia inteligentes.
No entanto, a maior parte dessas actividades tem enfatizado apenas a rede de distribuição e o consumo, deixando no escuro o quadro maior da rede de transporte no contexto das smartgrids."
E, para finalizar esta introdução, um bom resumo das coisas pode ser encontrado neste outro recente artigo, onde se dá conta que "there are people questioning the need for Smart Grids while others are more than convinced that it is the only way to handle the future" e que reconhece a inexistência de critérios para aferir da bondade dos investimentos feitos nesta tecnologia.
Tem, por tudo isto, interesse descrever agora os roadmaps da Europa, da América e da China nesta matéria das SmartGrids, para se começar por perceber que a visão ecotópica que por cá passa por suposta evidência consensual está, de facto, longe de ser um consenso. De caminho, noto só que, como já escrevi na blogosfera, "ter soluções à procura de problemas" em vez do contrário é precisamente o paradigma dominante da nossa I&D académica, hoje instituída em política oficial.
A visão "europeia" das SmartGrids está panfletada, por exemplo, neste documento de 2005, em que se explicita claramente que os seus objectivos são "aumentar a eficiência, segurança e fiabilidade do sistema europeu da electricidade e do gás e das respectivas redes, por exemplo pela transformação das actuais redes de electricidade em interactivas (clientes / operadores), e pela remoção dos obstáculos técnicos à implantação em larga escala e à integração efectiva de fontes de energia distribuídas e renováveis".
E em que "interacção clientes/operadores" estavam eles a pensar, e em que fontes de energia distribuídas e renováveis? A figura anexa ilustra-o: energia fotovoltaica e micro-turbinas.
Como já mostrei abundantemente neste blog, por exemplo aqui e aqui, nenhuma das tecnologias de microgeração de electricidade, daquelas que poderiam ser produzidas em Baixa Tensão por consumidores dispersos, é economicamente viável - nem o vai ser nas próximas décadas! E quando digo que não é economicamente viável, não me refiro a serem um bocadinho mais caras que as fontes actualmente usadas, mas sim 10 a 20 vezes mais caras! E não há nenhuma evolução tecnológica no horizonte próximo que permita prever uma inversão da situação.
As tecnologias energéticas não evoluem como as informáticas, que vivem uma revolução, e muito menos obedecem à lei de Moore; as tecnologias energéticas evoluem a um ritmo muito mais semelhante à tecnologia dos automóveis!...
O irrealismo económico da ecotopia da microgeração é tão gritante que a "Europa" tem vindo a secundarizá-la, mas apenas para a substituir por outra fantasia, a do automóvel eléctrico (que também tenho comentado abundamente neste blog; só como exemplo, aqui e aqui), e isto apesar das instituições internacionais mais conceituadas em previsões energéticas, incluindo as próprias europeias, não preverem o advento próximo desse automóvel, como dei conta recentemente aqui!
Note-se que não se trata de ser "pró" ou "contra" o carro eléctrico ou o conceito de "produtor-consumidor" em termos de "gostar de", como já uma vez expliquei; trata-se de pensar com espírito científico, e não na base do que se gostaria que fosse, trata-se de opor a Ciência ao wishful thinking, de ter a lucidez de não embarcar na fusão nuclear fria, ainda que a desejássemos!
Ora, já neste ano de 2010 um documento de desenvolvimento estratégico para as SmartGrids reforça a visão que "a Europa" tem defendido desde 2006. A necessidade das Smartgrids é explicitamente justificada assim: "It is vital that Europe’s electricity networks are able to integrate all low carbon generation technologies as well as to encourage the demand side to play an active part in the supply chain. This must be done by upgrading and evolving the networks efficiently and economically. It will involve network development at all voltage levels. For example, substantial offshore and improved onshore transmission infrastructure will be required in the near term to facilitate the development of wind power across Europe. Distribution networks will need to embrace active network management technologies to efficiently integrate distributed generation (DG), including residential micro generation, on a large scale".
Dada a inexistência presente ou futura de microgeração residencial, trata-se, como tenho vindo a denunciar desde há ano e meio, apenas de adaptar o consumo de energia e as redes de Transporte e Distribuição à intermitência da geração eólica! O quadro idílico da visão da "Europa" que o documento contém sobre um imaginário "produmidor" (produtor-consumidor) e que reproduzo aqui, não passa disso: puro idílio!
O documento enuncia depois os principais desafios que se colocam a esta visão, de momento, e que vão todos no sentido de permitir o encaixe de mais produção eólica: reforço das redes para permitirem o trânsito de energia nas horas de (pouca) produção renovável máxima, instalação de produção eólica offshore em grande escala, integração da geração intermitente, "gestão activa da procura" de todos os consumidores, com ou sem geração própria, aproveitamento das tecnologias de armazenamento (storage) de energia e preparação para o automóvel eléctrico. A única verdadeira evolução nesta visão é a de agora permitir implicitamente que ela se concretize através da anunciada Super-rede, ao mesmo tempo que desaparece qualquer alusão às "micro-redes" tão queridas do Prof. Peças Lopes do INESC-Norte e que têm dominado a nossa estratégia nacional de I&D no assunto...
Mas, de todas as actividades propostas, a que suscita maiores preocupações à "Europa" é a da Gestão da procura, ou seja, a tentativa de forçar os consumidores a adaptarem os seus padrões de consumo á intermitência da produção eólica. O documento reconhece: "The majority of electricity end consumers today have a passive relationship with the electricity supply system. The complexities of the system, and the operation of the electricity markets, deter customers from taking a more active role. A simple example of this is the fact that after nine years of market opening in Europe the overall rate of customers switching supplier is less than 10%." E, para combater esta resistência popular, o documento recomenda que o povo seja "educado", e que lhe sejam explicados os benefícios de gerir o seu próprio consumo, nomeadamente ambientais.
Ora nos EUA, de que falarei na Parte II deste post (assim como da China), o processo de instalação de smart meters (contadores electrónicos de energia, comunicantes), está a suscitar um amplo movimento de resistência popular, como reconhece hoje mesmo um artigp do New York Times. Os consumidores dão-se conta que, depois de instalados os smart meters, quase sempre as facturas sobem, e por vezes muitíssimo! Sucedem-se os processos judiciais contra as empresas de electicidade, e tudo isto confirma o que venho escrevendo sobre o assunto e, mais importante, a natureza totalitária deste movimento. O qual se reclama de uma visão utópica de "salvação" da Humanidade mas com a particularidade de se sustentar em interesses económicos bem definidos e subsídio-dependentes, visto que, por tudo que expus, não há viabilidade para esta política que se baseie na sã procura de soluções para problemas reais, ou seja, na lógica de mercado. O que é uma característica que distingue os fascismos de outras ideologias totalitárias. Neste caso, o ecofascimo.
Por cá, temos em curso uma experiência destas em Évora. Vamos ver...
Nestes casos, as atitudes dividem-se entre os que nem questionam a racionalidade dos projectos, desinteressados de pensar pela sua cabeça e eivados da crença de que tudo o que vem da "Europa" é luz, os cínicos que acham que isso pouco importa e que o que interessa é o dinheiro e, finalmente, os que, brincando com Lénine, pensam que "deve-se trabalhar obrigatoriamente onde estejam as massas", subtraindo-as "aos oportunistas", para se fazer com elas o trabalho realmente necessário. Massas no sentido de $massas$... :-))
Neste contexto, proponho-me reflectir convosco sobre a natureza do "movimento" pelas SmartGrids que desde 2008 e o início da recessão no Ocidente desenvolvido ganhou grande projecção internacional e também nacional, e que é o objectivo do muito dinheiro de que vos estou a falar.
As visões do que será uma smartgrid estão eivadas de ideologia, e por isso a própria definição do que são varia com quem a define. Em Portugal tem-se estabelecido a visão ideológica ecotópica, emergente da Alemanha "green" e merecendo por isso o eco pronto do nosso stablishment e dos interesses pró-eólicos associados, tendo no entanto por advogados alguns académicos que sabem, ou têm a obrigação de saber, a dimensão dos enganos em curso - como a aliança INESC-Norte / Ministério da Ciência e Tecnologia.
Para clarificar então as coisas, nada melhor que começar por citar (traduzindo-o), um paper holandês publicado em 2009 e que continua a ser um dos 10 mais consultados no MUNDO electrotécnico, que ousa o título de "Smart Grids: o futuro ou fantasia?":
"SmartGrids é um denominador comum para uma ampla gama de desenvolvimentos que tornam as redes de energia de média e baixa tensão mais inteligentes e flexíveis do que são hoje em dia. A motivação principal para as iniciativas de SmartGrids é que tais desenvolvimentos melhorariam a fiabilidade do fornecimento e/ou apoiariam a tendência para fontes de energia mais sustentáveis. Presentemente, as redes de média e baixa tensão não podem ser observadas nem controladas remotamente.
Diversas empresas estão a desenvolver tecnologias visando a criação de redes inteligentes. No entanto, estes desenvolvimentos tendem a radicar-se em possibilidades tecnológicas, em vez de numa sã análise dos problemas e numa abordagem estruturada para a sua solução.
No passado recente, uma grande variedade de sensores, protocolos, equipamentos de comunicação e similares tem sido concebida para apoiar a transição para as SmartGrids. No entanto, muitos deles não têm encontrado grande aplicação, o que pode ser atribuído, pelo menos parcialmente, ao facto de que não havia problemas para os quais fornecessem uma solução, pelo que não lhes foi possível elaborar um "business case" positivo. Em suma, houve demasiada pressão da tecnologia e solicitação a menos do mercado.
O facto de alguns dos fabricantes destas tecnologias sem sucesso até culparem os operadores das redes eléctricas de conservadorismo, em vez de melhorarem a relação qualidade / preço dos seus produtos, dificulta ainda mais um verdadeiro arranque das Smart Grids."
O paper, no seguimento, tenta propor uma abordagem mais útil e comercialmente orientada para este "movimento", mas é demasiado evidente que o faz para poder ter sido aceite na Conferência em que foi apresentado, e onde imperava o mesmo "pensamento único" ecotópico que o artigo critica.
Um dos dedos postos na ferida que o paper anterior ilumina (que o "movimento" das SmartGrids tem sido um conjunto de "soluções" à procura de problemas, em vez do contrário), é elucidado por outro paper acabado de apresentar internacionalmente e que é, também ele, um dos 10 mais lidos de momento no mundo electrotécnico. Citando-o:
"Uma rede de energia moderna precisa de se tornar mais inteligente, a fim de proporcionar uma oferta barata, fiável e sustentável de electricidade. Por esses motivos, tem estado a ser realizada uma considerável actividade nos Estados Unidos e na Europa para formular e promover uma visão para o desenvolvimento de futuras redes de energia inteligentes.
No entanto, a maior parte dessas actividades tem enfatizado apenas a rede de distribuição e o consumo, deixando no escuro o quadro maior da rede de transporte no contexto das smartgrids."
E, para finalizar esta introdução, um bom resumo das coisas pode ser encontrado neste outro recente artigo, onde se dá conta que "there are people questioning the need for Smart Grids while others are more than convinced that it is the only way to handle the future" e que reconhece a inexistência de critérios para aferir da bondade dos investimentos feitos nesta tecnologia.
Tem, por tudo isto, interesse descrever agora os roadmaps da Europa, da América e da China nesta matéria das SmartGrids, para se começar por perceber que a visão ecotópica que por cá passa por suposta evidência consensual está, de facto, longe de ser um consenso. De caminho, noto só que, como já escrevi na blogosfera, "ter soluções à procura de problemas" em vez do contrário é precisamente o paradigma dominante da nossa I&D académica, hoje instituída em política oficial.
A visão "europeia" das SmartGrids está panfletada, por exemplo, neste documento de 2005, em que se explicita claramente que os seus objectivos são "aumentar a eficiência, segurança e fiabilidade do sistema europeu da electricidade e do gás e das respectivas redes, por exemplo pela transformação das actuais redes de electricidade em interactivas (clientes / operadores), e pela remoção dos obstáculos técnicos à implantação em larga escala e à integração efectiva de fontes de energia distribuídas e renováveis".
E em que "interacção clientes/operadores" estavam eles a pensar, e em que fontes de energia distribuídas e renováveis? A figura anexa ilustra-o: energia fotovoltaica e micro-turbinas.
Como já mostrei abundantemente neste blog, por exemplo aqui e aqui, nenhuma das tecnologias de microgeração de electricidade, daquelas que poderiam ser produzidas em Baixa Tensão por consumidores dispersos, é economicamente viável - nem o vai ser nas próximas décadas! E quando digo que não é economicamente viável, não me refiro a serem um bocadinho mais caras que as fontes actualmente usadas, mas sim 10 a 20 vezes mais caras! E não há nenhuma evolução tecnológica no horizonte próximo que permita prever uma inversão da situação.
As tecnologias energéticas não evoluem como as informáticas, que vivem uma revolução, e muito menos obedecem à lei de Moore; as tecnologias energéticas evoluem a um ritmo muito mais semelhante à tecnologia dos automóveis!...
O irrealismo económico da ecotopia da microgeração é tão gritante que a "Europa" tem vindo a secundarizá-la, mas apenas para a substituir por outra fantasia, a do automóvel eléctrico (que também tenho comentado abundamente neste blog; só como exemplo, aqui e aqui), e isto apesar das instituições internacionais mais conceituadas em previsões energéticas, incluindo as próprias europeias, não preverem o advento próximo desse automóvel, como dei conta recentemente aqui!
Note-se que não se trata de ser "pró" ou "contra" o carro eléctrico ou o conceito de "produtor-consumidor" em termos de "gostar de", como já uma vez expliquei; trata-se de pensar com espírito científico, e não na base do que se gostaria que fosse, trata-se de opor a Ciência ao wishful thinking, de ter a lucidez de não embarcar na fusão nuclear fria, ainda que a desejássemos!
Ora, já neste ano de 2010 um documento de desenvolvimento estratégico para as SmartGrids reforça a visão que "a Europa" tem defendido desde 2006. A necessidade das Smartgrids é explicitamente justificada assim: "It is vital that Europe’s electricity networks are able to integrate all low carbon generation technologies as well as to encourage the demand side to play an active part in the supply chain. This must be done by upgrading and evolving the networks efficiently and economically. It will involve network development at all voltage levels. For example, substantial offshore and improved onshore transmission infrastructure will be required in the near term to facilitate the development of wind power across Europe. Distribution networks will need to embrace active network management technologies to efficiently integrate distributed generation (DG), including residential micro generation, on a large scale".
Dada a inexistência presente ou futura de microgeração residencial, trata-se, como tenho vindo a denunciar desde há ano e meio, apenas de adaptar o consumo de energia e as redes de Transporte e Distribuição à intermitência da geração eólica! O quadro idílico da visão da "Europa" que o documento contém sobre um imaginário "produmidor" (produtor-consumidor) e que reproduzo aqui, não passa disso: puro idílio!
O documento enuncia depois os principais desafios que se colocam a esta visão, de momento, e que vão todos no sentido de permitir o encaixe de mais produção eólica: reforço das redes para permitirem o trânsito de energia nas horas de (pouca) produção renovável máxima, instalação de produção eólica offshore em grande escala, integração da geração intermitente, "gestão activa da procura" de todos os consumidores, com ou sem geração própria, aproveitamento das tecnologias de armazenamento (storage) de energia e preparação para o automóvel eléctrico. A única verdadeira evolução nesta visão é a de agora permitir implicitamente que ela se concretize através da anunciada Super-rede, ao mesmo tempo que desaparece qualquer alusão às "micro-redes" tão queridas do Prof. Peças Lopes do INESC-Norte e que têm dominado a nossa estratégia nacional de I&D no assunto...
Mas, de todas as actividades propostas, a que suscita maiores preocupações à "Europa" é a da Gestão da procura, ou seja, a tentativa de forçar os consumidores a adaptarem os seus padrões de consumo á intermitência da produção eólica. O documento reconhece: "The majority of electricity end consumers today have a passive relationship with the electricity supply system. The complexities of the system, and the operation of the electricity markets, deter customers from taking a more active role. A simple example of this is the fact that after nine years of market opening in Europe the overall rate of customers switching supplier is less than 10%." E, para combater esta resistência popular, o documento recomenda que o povo seja "educado", e que lhe sejam explicados os benefícios de gerir o seu próprio consumo, nomeadamente ambientais.
Ora nos EUA, de que falarei na Parte II deste post (assim como da China), o processo de instalação de smart meters (contadores electrónicos de energia, comunicantes), está a suscitar um amplo movimento de resistência popular, como reconhece hoje mesmo um artigp do New York Times. Os consumidores dão-se conta que, depois de instalados os smart meters, quase sempre as facturas sobem, e por vezes muitíssimo! Sucedem-se os processos judiciais contra as empresas de electicidade, e tudo isto confirma o que venho escrevendo sobre o assunto e, mais importante, a natureza totalitária deste movimento. O qual se reclama de uma visão utópica de "salvação" da Humanidade mas com a particularidade de se sustentar em interesses económicos bem definidos e subsídio-dependentes, visto que, por tudo que expus, não há viabilidade para esta política que se baseie na sã procura de soluções para problemas reais, ou seja, na lógica de mercado. O que é uma característica que distingue os fascismos de outras ideologias totalitárias. Neste caso, o ecofascimo.
Por cá, temos em curso uma experiência destas em Évora. Vamos ver...
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quinta-feira, novembro 11, 2010
Previsões insuspeitas sobre o automóvel eléctrico
A Direcção-Geral para a Energia da Comissão Europeia publicou recentemente, em Setembro passado, uma actualização das previsões energéticas europeias para 2030.
Relativamente às previsões de evolução dos diversos tipos de automóveis para os próximos 20 anos, a previsão da "Europa" está ilustrada na figura seguinte:
Estão a ver aí a quota de mercado prevista para o automóvel eléctrico daqui a 20 anos?
No entanto, a Agência Internacional de Energia, mais optimista, publicou também agora outros números, na sua World Energy Outlook de 2010.
A distribuição de tecnologias automóveis prevista para daqui até 2035 é, no cenário mais optimista, o ilustrado na figura seguinte:
A AIE prevê, pois, para daqui a 20 anos e para o automóvel eléctrico, uma penetração de... 1%!
Para o que prevê uma penetração muito maior é para o automóvel híbrido, dando-me inteira razão no que venho alertando há já quase ano e meio, por exemplo aqui e aqui.
A figura anterior é para a quota de penetração total. Para a taxa de crescimento dessa penetração, a AIE estima o seguinte, no cenário optimista:
Ou seja, daqui a 25 anos a AIE prevê que cerca de 20% dos carros vendidos sejam eléctricos. Mas, para 2020, prevê apenas uma quota de vendas de 3%, por sinal o mesmo valor previsto pela Bosh.
Por conseguinte, ficam a nu todas as fantasias que o poder instituído insiste em tentar impingir-nos, com o único fito de justificar os subsídios ruinosos doados ao lobby eólico mentindo-nos sobre a independência das importações do petróleo que a aposta nas renováveis nos irá conseguir!
Não são só os postos de carga da EDP que terão caído de ferrugem antes de haver automóveis eléctricos que os usem (não me estou a referir, claro, aos poucos protótipos que os subsídios do Governo hão-de por a circular).
As próprias eólicas, com o seu tempo médio de vida de 16 anos, já na sua maior parte terão morrido de velhice quando houver automóveis eléctricos com algum peso no consumo de electricidade!...
Relativamente às previsões de evolução dos diversos tipos de automóveis para os próximos 20 anos, a previsão da "Europa" está ilustrada na figura seguinte:
Estão a ver aí a quota de mercado prevista para o automóvel eléctrico daqui a 20 anos?
No entanto, a Agência Internacional de Energia, mais optimista, publicou também agora outros números, na sua World Energy Outlook de 2010.
A distribuição de tecnologias automóveis prevista para daqui até 2035 é, no cenário mais optimista, o ilustrado na figura seguinte:
A AIE prevê, pois, para daqui a 20 anos e para o automóvel eléctrico, uma penetração de... 1%!
Para o que prevê uma penetração muito maior é para o automóvel híbrido, dando-me inteira razão no que venho alertando há já quase ano e meio, por exemplo aqui e aqui.
A figura anterior é para a quota de penetração total. Para a taxa de crescimento dessa penetração, a AIE estima o seguinte, no cenário optimista:
Ou seja, daqui a 25 anos a AIE prevê que cerca de 20% dos carros vendidos sejam eléctricos. Mas, para 2020, prevê apenas uma quota de vendas de 3%, por sinal o mesmo valor previsto pela Bosh.
Por conseguinte, ficam a nu todas as fantasias que o poder instituído insiste em tentar impingir-nos, com o único fito de justificar os subsídios ruinosos doados ao lobby eólico mentindo-nos sobre a independência das importações do petróleo que a aposta nas renováveis nos irá conseguir!
Não são só os postos de carga da EDP que terão caído de ferrugem antes de haver automóveis eléctricos que os usem (não me estou a referir, claro, aos poucos protótipos que os subsídios do Governo hão-de por a circular).
As próprias eólicas, com o seu tempo médio de vida de 16 anos, já na sua maior parte terão morrido de velhice quando houver automóveis eléctricos com algum peso no consumo de electricidade!...
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segunda-feira, outubro 11, 2010
Ecofascismo?
Hoje trago-vos um filme, por sinal bem realizado, e que é muito demonstrativo das pulsões profundas dos ecotópicos.
Podem vê-lo aqui.
E a propósito: no Reino Unido, onde foi produzido, foi proibido!
Podem vê-lo aqui.
E a propósito: no Reino Unido, onde foi produzido, foi proibido!
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clima
quinta-feira, setembro 30, 2010
Uma Investigação no IST que obteve resultados "incorrectos"
Nuno Crato, um dos cavaleiros solitários que se devotou à defesa da educação do nosso povo contra o "eduquês", referiu no último Expresso um interessante paper publicado por estudantes do IST, em parceria com Carnegie-Mellon.
O que o paper relata são os resultados de um estudo "econométrico" que analisou matematicamente os efeitos, de 2005 para 2009, da introdução da Internet em 900 escolas portuguesas, concomitante à oferta dos Magalhães, em alunos do 9º ao 12º anos.
E que resultados são esses?
Pois, que os alunos pioraram substancialmente de aproveitamento, que pioraram tanto mais quanto mais fracos já eram, e sobretudo nos rapazes. Porque os computadores, naquela idade e sem uso controlado, são sobretudo uns brinquedos que servem para distraír e divertir, e não uma ferramenta de trabalho.
Estes resultados não são inesperados, todavia. Já aqui mencionei como, há já uns 20 anos, quando apareceram os Spectrum (uns microcomputadores ainda sem disco) e em Portugal havia grande entusiasmo com o projecto Minerva, que desenvolvia ferramentas didácticas para uso em computador, o IEEE publicou um estudo sobre o impacto dos computadores na educação precoce. E esse estudo já então concluía o mesmo: que os computadores só melhoravam os resultados dos que já eram bons alunos, e que pioravam os dos que o não eram.
Aliás, calculo que seja uma experiência que já todos terão feito: a oferta pelo Natal ou aniversário de um programa de computador didáctico a um miúdo cábula - não se lhes pode dar castigo mais cruel, como o desapontamento deles ao receber a prenda decerto vos terá mostrado...
Confesso que me surpreende que a FCT tenha financiado uma investigação com resultados tão politicamente incorrectos... mas ainda bem! Espero que continue!
Pena é que os nossos "eduquesadores" nunca tenham lido sobre este assunto a revista IEEE on Education...
O que o paper relata são os resultados de um estudo "econométrico" que analisou matematicamente os efeitos, de 2005 para 2009, da introdução da Internet em 900 escolas portuguesas, concomitante à oferta dos Magalhães, em alunos do 9º ao 12º anos.
E que resultados são esses?
Pois, que os alunos pioraram substancialmente de aproveitamento, que pioraram tanto mais quanto mais fracos já eram, e sobretudo nos rapazes. Porque os computadores, naquela idade e sem uso controlado, são sobretudo uns brinquedos que servem para distraír e divertir, e não uma ferramenta de trabalho.
Estes resultados não são inesperados, todavia. Já aqui mencionei como, há já uns 20 anos, quando apareceram os Spectrum (uns microcomputadores ainda sem disco) e em Portugal havia grande entusiasmo com o projecto Minerva, que desenvolvia ferramentas didácticas para uso em computador, o IEEE publicou um estudo sobre o impacto dos computadores na educação precoce. E esse estudo já então concluía o mesmo: que os computadores só melhoravam os resultados dos que já eram bons alunos, e que pioravam os dos que o não eram.
Aliás, calculo que seja uma experiência que já todos terão feito: a oferta pelo Natal ou aniversário de um programa de computador didáctico a um miúdo cábula - não se lhes pode dar castigo mais cruel, como o desapontamento deles ao receber a prenda decerto vos terá mostrado...
Confesso que me surpreende que a FCT tenha financiado uma investigação com resultados tão politicamente incorrectos... mas ainda bem! Espero que continue!
Pena é que os nossos "eduquesadores" nunca tenham lido sobre este assunto a revista IEEE on Education...
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educação
quarta-feira, setembro 29, 2010
Diesel híbrido e ...bicicletas eléctricas, o futuro próximo.
Como tenho discutido aqui amplamente, o automóvel eléctico não é economicamente viável nem o vai ser nos próximos dez anos, devido à incapacidade das baterias e às limitações da sua actual tecnologia. É um facto consensual entre toda a gente que sabe minimamente destas coisas e que é honesta (o que não se aplica ao "mainstream" actual).
Não vai haver, portanto, nem substituição do petróleo por energias renováveis (o que só aconteceria se os automóveis deixassem de andar a derivados do petróleo e passassem a gastar da energia produzida pelas eólicas), nem vai haver "storage" nenhum, por baterias de automóveis, que resolva o problema da intermitência eólica!
Isto não quer dizer que não haja desenvolvimentos tecnológicos capazes de gerarem reduções drásticas e economicamente viáveis do consumo de derivados de petróleo. Há! Os automóveis híbridos que, como também já expliquei há muito, são apenas um meio de recuperar a energia dissipada nas travagens pelos automóveis convencionais, e assim aumentar o rendimento global dos seus motores. Até porque a "travagem regenerativa" é coisa que já se faz há muito no transporte ferroviário, e o seu acoplamento a motores de combustão não requer nenhuma revolução tecnológica, embora contenha imensos desafios e oportunidades de aperfeiçoamento.
Infelizmente, e como também já aqui notei, enquanto andamos a gastar esterilmente o tempo e o dinheiro com as fantasias dos carros eléctricos, nas Universidades checas, por exemplo, investiga-se a tecnologia híbrida para os automóveis, em colaboração com a Skoda e, portanto, com o grupo Volkswagen. Enquanto aqui ao lado, na Auto-Europa, o contributo português para os componentes dos carros lá fabricados tem vindo regular mas inexoravelmente a cair, desde que a fábrica foi criada no tempo do Ministro Mira Amaral. Não é, por isso, apenas por razões de custos que essa fábrica ameaça mudar-se!
A tecnologia híbrida melhora muito o rendimento dos automóveis por, como disse, recuperar a energia cinética dissipada em calor nos travões tradicionais, ao travar com um gerador que passa essa energia cinética para uma bateria, de onde é depois de novo usada. Mas esse efeito só é realmente útil se o uso corrente do automóvel tiver muitos "pára-arranca", ou seja, se for essencialmente urbano. Em estrada e sobretudo em auto-estrada as travagen são poucas, e por isso aí o híbrido é inútil.
O que é útil nas estradas, como forma de economizar combustível, é um tipo de motor que, por detonar a mistura combustível com uma taxa de compressão muito maior, tem um rendimento termodinâmico muito superior: o motor Diesel. E é porque toda a gente sabe que os carros a Diesel gastam menos que, na Europa, eles já constituem cerca de 80% das vendas, apesar do referido motor ser mais caro que o a gasolina (tem de ser mais robusto e pesado, dadas as maiores compressões e temperaturas de funcionamento).
E porque não combinar o Diesel com um sistema de travagem regenerativa, ou seja, porque não o Diesel híbrido? Tal solução aproveitaria o maior rendimento do Diesel em estrada com a eficiência da solução híbrida em circuitos urbanos...
... e precisamente, aí vêm os Diesel híbridos, conforme anuncia o próprio MIT aqui!
O principal problema novo que os Diesel trazem aos híbridos é o do sistema de arranque, e o novo Peugeot 3008 tem algumas soluções brilhantes para o problema. Mas há muita inovação nessa matéria, a pesquisar.
Se em vez de a nossa I&D tecnológica ser politicamente dirigida por uns reinventores da fusão fria, fosse pragmaticamente orientada para a realidade técnico-económica, isto é, se fosse dirigida por engenheiros e não por cientistas da física das estrelas, sociólogos e alguns lunáticos, o que faríamos era, com muita humildade, ir falar com a Auto-Europa e perguntar como se poderiam colocar os nossos recursos de I&D ao serviço da manutenção e reforço dessa empresa crucial para Portugal!
Se ainda fossemos a tempo de fazer alguma coisa que os checos não estejam já a fazer...
A complementar o Diesel híbrido, e como também já mencionei aqui, a bicicleta eléctrica é a única solução de transporte que, devido à sua pequena massa e velocidade, percursos de deslocação curtos e facilidade de carregamento, pode ser compatível com a baixa capacidade das baterias existentes. E se se pensar numa bicicleta dessas que seja facimente transportável no porta-bagagem do Diesel híbrido parqueado à entrada da cidade, que seja depois usável nos poucos km até ao trabalho? Pois ela aí está, precisamente lançada pela Volkswagen...!
Mas não foi decerto e infelizmente na Auto-Europa que a multinacional VW obteve isto!...
Não vai haver, portanto, nem substituição do petróleo por energias renováveis (o que só aconteceria se os automóveis deixassem de andar a derivados do petróleo e passassem a gastar da energia produzida pelas eólicas), nem vai haver "storage" nenhum, por baterias de automóveis, que resolva o problema da intermitência eólica!
Isto não quer dizer que não haja desenvolvimentos tecnológicos capazes de gerarem reduções drásticas e economicamente viáveis do consumo de derivados de petróleo. Há! Os automóveis híbridos que, como também já expliquei há muito, são apenas um meio de recuperar a energia dissipada nas travagens pelos automóveis convencionais, e assim aumentar o rendimento global dos seus motores. Até porque a "travagem regenerativa" é coisa que já se faz há muito no transporte ferroviário, e o seu acoplamento a motores de combustão não requer nenhuma revolução tecnológica, embora contenha imensos desafios e oportunidades de aperfeiçoamento.
Infelizmente, e como também já aqui notei, enquanto andamos a gastar esterilmente o tempo e o dinheiro com as fantasias dos carros eléctricos, nas Universidades checas, por exemplo, investiga-se a tecnologia híbrida para os automóveis, em colaboração com a Skoda e, portanto, com o grupo Volkswagen. Enquanto aqui ao lado, na Auto-Europa, o contributo português para os componentes dos carros lá fabricados tem vindo regular mas inexoravelmente a cair, desde que a fábrica foi criada no tempo do Ministro Mira Amaral. Não é, por isso, apenas por razões de custos que essa fábrica ameaça mudar-se!
A tecnologia híbrida melhora muito o rendimento dos automóveis por, como disse, recuperar a energia cinética dissipada em calor nos travões tradicionais, ao travar com um gerador que passa essa energia cinética para uma bateria, de onde é depois de novo usada. Mas esse efeito só é realmente útil se o uso corrente do automóvel tiver muitos "pára-arranca", ou seja, se for essencialmente urbano. Em estrada e sobretudo em auto-estrada as travagen são poucas, e por isso aí o híbrido é inútil.
O que é útil nas estradas, como forma de economizar combustível, é um tipo de motor que, por detonar a mistura combustível com uma taxa de compressão muito maior, tem um rendimento termodinâmico muito superior: o motor Diesel. E é porque toda a gente sabe que os carros a Diesel gastam menos que, na Europa, eles já constituem cerca de 80% das vendas, apesar do referido motor ser mais caro que o a gasolina (tem de ser mais robusto e pesado, dadas as maiores compressões e temperaturas de funcionamento).
E porque não combinar o Diesel com um sistema de travagem regenerativa, ou seja, porque não o Diesel híbrido? Tal solução aproveitaria o maior rendimento do Diesel em estrada com a eficiência da solução híbrida em circuitos urbanos...
... e precisamente, aí vêm os Diesel híbridos, conforme anuncia o próprio MIT aqui!
O principal problema novo que os Diesel trazem aos híbridos é o do sistema de arranque, e o novo Peugeot 3008 tem algumas soluções brilhantes para o problema. Mas há muita inovação nessa matéria, a pesquisar.
Se em vez de a nossa I&D tecnológica ser politicamente dirigida por uns reinventores da fusão fria, fosse pragmaticamente orientada para a realidade técnico-económica, isto é, se fosse dirigida por engenheiros e não por cientistas da física das estrelas, sociólogos e alguns lunáticos, o que faríamos era, com muita humildade, ir falar com a Auto-Europa e perguntar como se poderiam colocar os nossos recursos de I&D ao serviço da manutenção e reforço dessa empresa crucial para Portugal!
Se ainda fossemos a tempo de fazer alguma coisa que os checos não estejam já a fazer...
A complementar o Diesel híbrido, e como também já mencionei aqui, a bicicleta eléctrica é a única solução de transporte que, devido à sua pequena massa e velocidade, percursos de deslocação curtos e facilidade de carregamento, pode ser compatível com a baixa capacidade das baterias existentes. E se se pensar numa bicicleta dessas que seja facimente transportável no porta-bagagem do Diesel híbrido parqueado à entrada da cidade, que seja depois usável nos poucos km até ao trabalho? Pois ela aí está, precisamente lançada pela Volkswagen...!Mas não foi decerto e infelizmente na Auto-Europa que a multinacional VW obteve isto!...
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quinta-feira, setembro 23, 2010
As forças das trevas mascaradas de cruzados ambientalistas
Um curioso artigo de opinião foi há dias publicado no NYT, descrevendo as tácticas das companhias promotoras de parques eólicos para conseguirem a anuência dos proprietários de terrenos à respectiva instalação, nos EUA. A história ali contada lembra as daqueles filmes que romanceiam conspirações de malévolas corporações para enganarem os cidadãos apenas por causa do lucro, e a que o autor do artigo chama de "forças das trevas mascaradas de cruzados ambientalistas" (parece que partilha o ponto de vista do meu manifesto anti-ecotópico)!...
E, no entanto, esta descrição de como os cidadãos do Midwest se vão dando conta com alguma impotência da instalação de torres nos seus quintais que lhes estragam a paisagem e que fazem um ruído insuportável para sempre, mostra que a opinião pública americana não é nada favorável à proliferação destas ventoinhas. Pelo menos no seu quintal...
Vale a pena e a propósito acrescentar que há outra tecnologia energética que está a fazer crescer as genuínas preocupações ambientais nos EUA: a da extracção do gás natural dos jazigos xistosos. Com efeito, essa tecnologia recente que mereceu a distinção pelo MIT, em 2009, da maior descoberta do ano em tecnologias energéticas, e que de repente multiplicou por uma ordem de grandeza as reservas mundiais de gás natural economicamente extraível, tem alguns senãos: baseia-se na injecção a alta pressão de uma mistura de água e de alguns produtos químicos que desfazem ("crackam") os xistos, libertando o gás. O problema, já detectado e que pode vir a tomar proporções alarmantes, é a contaminação dos veios de água subterrâneos por esses "químicos"...
Este estado de espírito popular soma-se à resistência do Congresso americano em fazer subir o custo da (barata) electricidade americana com subsídios às renováveis, a que se junta a escassez de crédito que, em conjunto, fizeram já cair a pique neste 2010 os investimentos americanos em eólicas, como noticiei aqui. Tanto mais que nos EUA a imposição governamental de tarifas para a produção de electricidade, tão praticada por cá, é proibida por lei...
E isto leva-me a deduzir que são precisamente estes sinais de uma possível catástrofe eminente para os biliões investidos pela EDP em eólicas nos EUA que explicam o extraordinário esforço de marketing português nos EUA nesta matéria - e que tem incluído desde a "encomenda" de artigos de opinião favoráveis à política energética portuguesa no NYT e ao próprio embaixador americano (no Público, em Agosto), ao curso de Manuel Pinho na Columbia University pago pela EDP, e finalmente à deslocação do próprio 1º Ministro de Portugal a Nova Iorque para uma sessão de marketing destes investimentos...
Oxalá me engane, mas suspeito que no próximo Verão não haverá vento!
E, no entanto, esta descrição de como os cidadãos do Midwest se vão dando conta com alguma impotência da instalação de torres nos seus quintais que lhes estragam a paisagem e que fazem um ruído insuportável para sempre, mostra que a opinião pública americana não é nada favorável à proliferação destas ventoinhas. Pelo menos no seu quintal...
Vale a pena e a propósito acrescentar que há outra tecnologia energética que está a fazer crescer as genuínas preocupações ambientais nos EUA: a da extracção do gás natural dos jazigos xistosos. Com efeito, essa tecnologia recente que mereceu a distinção pelo MIT, em 2009, da maior descoberta do ano em tecnologias energéticas, e que de repente multiplicou por uma ordem de grandeza as reservas mundiais de gás natural economicamente extraível, tem alguns senãos: baseia-se na injecção a alta pressão de uma mistura de água e de alguns produtos químicos que desfazem ("crackam") os xistos, libertando o gás. O problema, já detectado e que pode vir a tomar proporções alarmantes, é a contaminação dos veios de água subterrâneos por esses "químicos"...
Este estado de espírito popular soma-se à resistência do Congresso americano em fazer subir o custo da (barata) electricidade americana com subsídios às renováveis, a que se junta a escassez de crédito que, em conjunto, fizeram já cair a pique neste 2010 os investimentos americanos em eólicas, como noticiei aqui. Tanto mais que nos EUA a imposição governamental de tarifas para a produção de electricidade, tão praticada por cá, é proibida por lei...
E isto leva-me a deduzir que são precisamente estes sinais de uma possível catástrofe eminente para os biliões investidos pela EDP em eólicas nos EUA que explicam o extraordinário esforço de marketing português nos EUA nesta matéria - e que tem incluído desde a "encomenda" de artigos de opinião favoráveis à política energética portuguesa no NYT e ao próprio embaixador americano (no Público, em Agosto), ao curso de Manuel Pinho na Columbia University pago pela EDP, e finalmente à deslocação do próprio 1º Ministro de Portugal a Nova Iorque para uma sessão de marketing destes investimentos...
Oxalá me engane, mas suspeito que no próximo Verão não haverá vento!
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terça-feira, setembro 21, 2010
O melhor aluno de Portugal!
Talvez já tenham ouvido falar do melhor aluno deste ano, que terminou o secundário com 20 valores.
Um verdadeiro génio, que todos os docentes universitários ambicionamos ter nas nossas aulas! Ou não?
Podem ver a história dele noticiada aqui, e contada com mais pormenor aqui...
... e depois digam lá se o Medina Carreira não tem razão?
Um verdadeiro génio, que todos os docentes universitários ambicionamos ter nas nossas aulas! Ou não?
Podem ver a história dele noticiada aqui, e contada com mais pormenor aqui...
... e depois digam lá se o Medina Carreira não tem razão?
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educação
sábado, setembro 18, 2010
Renováveis intermitentes e mercado livre: uma relação impossível!
O Engº. Mira Amaral, o criador do PEDIP que, com a sua "Medida 3", financiou integralmente o bem-sucedido projecto das protecções digitais que desenvolvi a partir do zero na EFACEC, nos anos 90, escreveu no Expresso um artigo sucinto e certeiro como uma flecha e que aqui reproduzo por inteiro:
ENERGIA: O REGRESSO AO PASSADO
*Professor de Economia e Gestão do IST
Entretanto, as perspectivas de investimentos internacionais nas eólicas não vão nada bem, segundo os dados deste artigo do Financial Times. Nos EUA, por exemplo, a instalação de eólicas que vinha a subir em flecha desde há alguns anos, caiu a pique este ano! E o mesmo em Espanha!
Espero bem que os biliões de € investidos pela EDP nesses mercados não venham a engrossar a nossa dívida pública, mas infelizmente suspeito que as agências de rating internacionais já anteciparam isso mesmo...
ENERGIA: O REGRESSO AO PASSADO
Quando chegámos a ministro da Energia, era urgente o investimento nas redes de distribuição da EDP, mas, devido à sua difícil situação financeira, convinha minimizar-lhe o esforço de investimento na produção. Arranjámos então os Contratos de Aquisição de Energia (CAE) através dos quais consórcios privados investiriam nas novas centrais mediante uma concessão de venda da eletricidade à rede pública, sendo remunerados por uma tarifa binómia com dois termos: um fixo, que assegurava os custos de investimento na potência instalada, e um variável, que remunerava o fornecimento de energia.
Como então expliquei, tal não era ainda a liberalização do sistema, pois tais centrais eram financeiramente ativos da EDP fora do seu balanço (off-balance sheets), dado que a EDP, através do termo fixo, acabava por pagar ao longo dos anos o investimento na potência instalada. Ao contrário do que disse nestas colunas Álvaro Martins, um associado de Carlos Pimenta no CEETA sem dúvida mais sofisticado que Costa Silva (um reputado especialista em orangotangos...), criámos os CAE não para introduzir o gás natural mas pelas razões financeiras referidas.
Com a liberalização do sistema, as novas centrais correriam os riscos de mercado e acabariam os CAE.
O problema é que a elevada capacidade instalada em eólicas começou a tirar o espaço às térmicas, que passaram a funcionar em regime altamente ineficiente apenas para back-up das eólicas quando não há vento, em vez de fazerem a base do diagrama de cargas.
Gerou-se pois um dilema: não se podem dispensar as térmicas (neste Agosto, no pino do verão, quase não houve vento, felizmente havia carvão e gás...), mas as poucas horas que vão trabalhar não lhes permite, ao vender a energia, cobrir os custos do investimento na potência instalada.
O preço spot não recupera a totalidade do custo da central marginal. Daí o apelo à remuneração da potência, com base no back-up que proporcionam à eólica.
Assim, um secretário de Estado vem agora pela calada da noite (perdão, de agosto, quando estávamos de férias...), através de uma Portaria, atribuir esse subsídio de remuneração do termo de potência para todas as centrais, hídricas inclusive, e com efeitos retroativos.
Tal significa sacar ao consumidor 61 milhões de euros anuais para as centrais existentes até ao fim deste ano (acréscimo de 1.5% nas tarifas se for abrangida só a baixa tensão) e mais 130 milhões de euros por ano para as novas térmicas e de bombagem, tudo em apoio às eólicas (mais 3.0% nas tarifas, no total mais 4.5% nos próximos anos)!!! Ficam pois claros os sobrecustos sistémicos desta renovável devido à triplicação do investimento - eólica + bombagem + térmica de back-up.
No fundo, voltamos aos CAE e acaba a liberalização, passando todas as centrais a serem subsidiadas. É esta a viragem energética...
Como é habitual, a oposição não tugiu nem mugiu, ao contrário do que faria com aumentos de impostos...
*Professor de Economia e Gestão do IST
Entretanto, as perspectivas de investimentos internacionais nas eólicas não vão nada bem, segundo os dados deste artigo do Financial Times. Nos EUA, por exemplo, a instalação de eólicas que vinha a subir em flecha desde há alguns anos, caiu a pique este ano! E o mesmo em Espanha!
Espero bem que os biliões de € investidos pela EDP nesses mercados não venham a engrossar a nossa dívida pública, mas infelizmente suspeito que as agências de rating internacionais já anteciparam isso mesmo...
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terça-feira, agosto 31, 2010
Energia geotérmica e terramotos
Volta e meia alguém me pergunta o que penso da energia geotérmica como fonte renovável de geração de electricidade e calor.
Pois, penso bem.
Em Portugal a energia geotérmica tem um papel não desprezável na carteira de fontes renováveis, mas concentrada nos Açores, nomeadamente nas ilhas de S. Miguel (na figura) e, mais recentemente, da Terceira.
Há alguns anos a central geotérmica de S. Miguel assegurava metade do consumo nas horas de vazio da ilha, mas o seu potencial permitiria teoricamente satisfazer todo o consumo. Ultimamente tem-se pensado em reforçar esse uso.
Porém, há alguns óbices com esta forma de energia:
Pois, penso bem.
Em Portugal a energia geotérmica tem um papel não desprezável na carteira de fontes renováveis, mas concentrada nos Açores, nomeadamente nas ilhas de S. Miguel (na figura) e, mais recentemente, da Terceira.
Há alguns anos a central geotérmica de S. Miguel assegurava metade do consumo nas horas de vazio da ilha, mas o seu potencial permitiria teoricamente satisfazer todo o consumo. Ultimamente tem-se pensado em reforçar esse uso.
Porém, há alguns óbices com esta forma de energia:
- Funciona a potência constante. Ou seja, tem um problema que, sendo o oposto do das fontes intermitentes, acaba por ter as mesmas consequências de incapacidade de seguir os consumos, mas de forma muito mais previsível. No entanto, é por isso que a geotérmica de S. Miguel só assegurava (parte da) base do diagrama de consumos. Isto é assim porque as longas tubagens que trazem o vapor até às turbinas não se dão nada bem com variações rápidas de pressão e temperatura.
- As suas centrais avariam com frequência. Principalmente nas caixas de velocidades que adaptam a baixa velocidade das turbinas à frequência necessária para a ligação à rede eléctrica. Estas caixas são particularmente vulneráveis a perturbações na rede e, como não se fabricam grandes quantidades delas, carecem de maturidade tecnológica.
- A extracção do vapor do sub-solo altera os equilíbrios de pressão no interior desse sub-solo, o que provoca tremores de terra e risco de terramotos. E este é o principal óbice ao uso generalizado da geotermia, que levou, nomeadamente, ao cancelamento do projecto de Basel, na Suiça, como se pode ler aqui....
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sexta-feira, agosto 27, 2010
Ainda sobre as normas de segurança nos trabalhos em Alta Tensão
Recentemente sairam estatísticas do Ministério da Segurança Social sobre os acidentes de trabalho em Portugal.
Não é fácil encontrar os números, mas noutras publicações desse Ministério é possível verificar que o número de mortos anuais por acidentes nas empresas de energia tem sido, em média anual, de 2. O número de incapacitados é bem maior.
Como referi aqui, as normas de segurança existentes, copiadas caninamente das normas europeias pelo nosso Estado, estão erradas. Mandam ligar à terra as linhas susceptíveis de ficarem em tensão, durante os trabalhos de manutenção, o que é inútil.
O que se deve fazer está explicado na figura que aqui insiro, retirada de uma publicação americana que mostra também como por lá os textos são escritos para serem realmente entendidos pelos principais interessados, ou seja, as potenciais vítimas, os trabalhadores!
A "grounding bar around pole" justifica-se lá por os postes serem de madeira. Aqui bastaria ligar à armação férrea dos postes de cimento, que aliás têm pinos acessíveis para isso.
* Indo um pouco mais fundo na explicação técnica (hoje os leitores não técnicos poderão neste momento fechar a window), a questão é que a resistência eléctrica de uma vara enterrada no solo é muito aproximadamente ró/L, sendo "ró" a resistividade do solo e L o comprimento da vara. Como "ró" anda em média à volta de 150 ohm (mas pode ser muito mais) e L é de 2 metros no máximo, resulta que a tal resistência anda em torno de 75 ohm., pelo menos. A "impedância homopolar da rede" é em geral muito menor, pelo que em caso de colocação acidental em tensão a maior parte dessa tensão aparece aos terminais da vara e, portanto, da linha a que ela e o trabalhador estão ligados. O que significa que é como se a vara e sua ligação não estivessem lá, para efeitos práticos e de segurança do trabalhador.
Outro ponto que a figura acima ilustra é que dos 3 condutores de fase só deve descer um cabo. Os equipamentos franceses que cá se usam fazem descer 3, um por fase, e só se ligam no ponto comum que liga à vara (vd. figura ao lado). Assim, se as 3 fases forem acidentalmente postas em tensão, como será mais provável, existirá um curto-circuito trifásico que cria tremendas forças entre os cabos e os tendem a arrancar do ponto comum de ligação à vara.
Isto faz-se assim em toda a Europa ocidental há muitas décadas, mas nos EUA o assunto foi re-estudado e chegaram às conclusões óbvias que aqui mostro.
Óbvias depois de explicadas, claro...:-)
Não deixa de ser espantoso, entretanto, que em toda a Europa não seja conhecida uma única voz que tenha, até agora, questionado esta prática e a norma que a institucionaliza (norma CENELEC 50110-1, revista em 2004)!
Não é fácil encontrar os números, mas noutras publicações desse Ministério é possível verificar que o número de mortos anuais por acidentes nas empresas de energia tem sido, em média anual, de 2. O número de incapacitados é bem maior.
Como referi aqui, as normas de segurança existentes, copiadas caninamente das normas europeias pelo nosso Estado, estão erradas. Mandam ligar à terra as linhas susceptíveis de ficarem em tensão, durante os trabalhos de manutenção, o que é inútil.
O que se deve fazer está explicado na figura que aqui insiro, retirada de uma publicação americana que mostra também como por lá os textos são escritos para serem realmente entendidos pelos principais interessados, ou seja, as potenciais vítimas, os trabalhadores!
A "grounding bar around pole" justifica-se lá por os postes serem de madeira. Aqui bastaria ligar à armação férrea dos postes de cimento, que aliás têm pinos acessíveis para isso.
* Indo um pouco mais fundo na explicação técnica (hoje os leitores não técnicos poderão neste momento fechar a window), a questão é que a resistência eléctrica de uma vara enterrada no solo é muito aproximadamente ró/L, sendo "ró" a resistividade do solo e L o comprimento da vara. Como "ró" anda em média à volta de 150 ohm (mas pode ser muito mais) e L é de 2 metros no máximo, resulta que a tal resistência anda em torno de 75 ohm., pelo menos. A "impedância homopolar da rede" é em geral muito menor, pelo que em caso de colocação acidental em tensão a maior parte dessa tensão aparece aos terminais da vara e, portanto, da linha a que ela e o trabalhador estão ligados. O que significa que é como se a vara e sua ligação não estivessem lá, para efeitos práticos e de segurança do trabalhador.
Outro ponto que a figura acima ilustra é que dos 3 condutores de fase só deve descer um cabo. Os equipamentos franceses que cá se usam fazem descer 3, um por fase, e só se ligam no ponto comum que liga à vara (vd. figura ao lado). Assim, se as 3 fases forem acidentalmente postas em tensão, como será mais provável, existirá um curto-circuito trifásico que cria tremendas forças entre os cabos e os tendem a arrancar do ponto comum de ligação à vara.
Isto faz-se assim em toda a Europa ocidental há muitas décadas, mas nos EUA o assunto foi re-estudado e chegaram às conclusões óbvias que aqui mostro.
Óbvias depois de explicadas, claro...:-)
Não deixa de ser espantoso, entretanto, que em toda a Europa não seja conhecida uma única voz que tenha, até agora, questionado esta prática e a norma que a institucionaliza (norma CENELEC 50110-1, revista em 2004)!
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quinta-feira, agosto 26, 2010
Umas contitas sobre a nova factura do caridoso amparo às eólicas
Como é do conhecimento público e eu dei notícia aqui, o lobby eólico conseguiu obter do Governo uma nova extorsão aos consumidores que pagará o custo de capital dos investimentos em estações de bombagem e centrais a gás natural que permitirão amparar as eólicas na sua incontrolável e imprevisível intermitência. Tratam-se, tecnicamente, dos sobrecustos sistémicos das renováveis intermitentes.
Segundo a imprensa, o novo sobrecusto a pagar só pelas centrais já existentes e que entrem em funcionamento até ao fim deste ano totalizará 522 M€ até 2021 e agravará em 1% a factura energética média paga pelos consumidores (o que quer dizer que será cerca de 1,5% da factura do consumidor de Baixa Tensão: as famílias, os restaurantes, etc). Mas estarão essas contas bem feitas?
Os termos remuneratórios previstos na portaria assinada por Carlos Zorrinho (e, curiosamente, só por ele...) , atribuem anualmente 20 €/kW à potência instalada nas centrais já existentes não abrangidas por CAE nem CMEC, mas para as ainda a construir é estipulada uma fórmula e dito que a DGEG tem 60 dias para a aplicar e fazer as contas.
Trata-se, obviamente, de uma forma capciosa de esconder dos portugueses o que se prepara, dado que toda a gente sabe que a DGEG tem apenas dois engenheiros electrotécnicos encarregues de TUDO e que, portanto, falha de recursos humanos e demais meios técnicos, a DGEG se limita a consultar as empresas de electricidade sobre o que elas querem e a dar-lhe depois forma de lei. O que o legislador está farto de saber...
Ora a referida portaria estipula uma remuneração de 28 €/kW para "índices de cobertura" até 1,1. O que é um "índice de cobertura" não é definido na portaria (mais uma peça legislativa mal feita...), mas a REN explica-nos tudo aqui neste documento de 2007 publicado... em Espanha!
O "índice de cobertura" é "a relação entre a capacidade disponível e a ponta de consumo, em situações críticas para a operação do sistema" e, garantidamente, as contas já foram feitas pela EDP e/ou pela REN.
Admitindo, no entanto, que o valor a pagar venha a ser em regra o de 28 €/kW instalado, então convém notar que a potência já instalada ou em instalação, em centrais de ciclo combinado e hídricas, não é nada comparada com a "potência instalada" prevista para os "reforços de potência" e as novas realizações hidroeléctricas que, como notei aqui, totalizará cerca de 4,64 Gw!...
A admitir a referida remuneração, essas futuras hidroeléctricas irão então honorar em mais 130 milhões de € anuais os consumidores, sensivelmente 2.5 a 3% do respectivo custo de investimento e que, somado aos ganhos da revenda da energia eólica armazenada, já permitirá uma remuneração razoável desse investimento.
Naturalmente, esses 130 M€ serão a somar aos 61 M€ já atribuídos às centrais novas existentes ou em construção e abrangidas por esta portaria (45 M€ para a EDP, segundo um comunicado da própria empresa), e que, a recaírem como habitualmente sobre os consumidores de Baixa Tensão, significarão só por si um acréscimo tarifário para estes consumidores de mais 3%, totalizando 4.5%...!
Teremos assim 1.5% já em 2011, e os restantes 3% à medida que as novas hidroeléctricas forem entrando em serviço...
Segundo a imprensa, o novo sobrecusto a pagar só pelas centrais já existentes e que entrem em funcionamento até ao fim deste ano totalizará 522 M€ até 2021 e agravará em 1% a factura energética média paga pelos consumidores (o que quer dizer que será cerca de 1,5% da factura do consumidor de Baixa Tensão: as famílias, os restaurantes, etc). Mas estarão essas contas bem feitas?
Os termos remuneratórios previstos na portaria assinada por Carlos Zorrinho (e, curiosamente, só por ele...) , atribuem anualmente 20 €/kW à potência instalada nas centrais já existentes não abrangidas por CAE nem CMEC, mas para as ainda a construir é estipulada uma fórmula e dito que a DGEG tem 60 dias para a aplicar e fazer as contas.
Trata-se, obviamente, de uma forma capciosa de esconder dos portugueses o que se prepara, dado que toda a gente sabe que a DGEG tem apenas dois engenheiros electrotécnicos encarregues de TUDO e que, portanto, falha de recursos humanos e demais meios técnicos, a DGEG se limita a consultar as empresas de electricidade sobre o que elas querem e a dar-lhe depois forma de lei. O que o legislador está farto de saber...
Ora a referida portaria estipula uma remuneração de 28 €/kW para "índices de cobertura" até 1,1. O que é um "índice de cobertura" não é definido na portaria (mais uma peça legislativa mal feita...), mas a REN explica-nos tudo aqui neste documento de 2007 publicado... em Espanha!
O "índice de cobertura" é "a relação entre a capacidade disponível e a ponta de consumo, em situações críticas para a operação do sistema" e, garantidamente, as contas já foram feitas pela EDP e/ou pela REN.
Admitindo, no entanto, que o valor a pagar venha a ser em regra o de 28 €/kW instalado, então convém notar que a potência já instalada ou em instalação, em centrais de ciclo combinado e hídricas, não é nada comparada com a "potência instalada" prevista para os "reforços de potência" e as novas realizações hidroeléctricas que, como notei aqui, totalizará cerca de 4,64 Gw!...
A admitir a referida remuneração, essas futuras hidroeléctricas irão então honorar em mais 130 milhões de € anuais os consumidores, sensivelmente 2.5 a 3% do respectivo custo de investimento e que, somado aos ganhos da revenda da energia eólica armazenada, já permitirá uma remuneração razoável desse investimento.
Naturalmente, esses 130 M€ serão a somar aos 61 M€ já atribuídos às centrais novas existentes ou em construção e abrangidas por esta portaria (45 M€ para a EDP, segundo um comunicado da própria empresa), e que, a recaírem como habitualmente sobre os consumidores de Baixa Tensão, significarão só por si um acréscimo tarifário para estes consumidores de mais 3%, totalizando 4.5%...!
Teremos assim 1.5% já em 2011, e os restantes 3% à medida que as novas hidroeléctricas forem entrando em serviço...
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quarta-feira, agosto 25, 2010
A dificil vida dos smart griders e o custo das rampas de vento
Uma das grandes fés dos crentes na capacidade da "gestão da procura" alegadamente a realizar pelas "smart grids" é que, devidamente educadas, as pessoas se tornarão em Homens Novos e a fazerem o que é obviamente melhor para elas. Porque eles, os smart griders, sabem o que é melhor para as pessoas.
Ora não espanta, por isso, vê-los tão desanimados agora que uma sondagem aos "americanos médios" mostrou que, interrogadas sobre o que acham ser melhor para poupar energia, as pessoas tenham respondido "apagar a luz", "desligar o termostato (do aquecedor ou do ar condicionado)" e "guiar menos".
Desanimados porque as respostas que os smart griders pretendiam eram: "usar lâmpadas mais eficientes", "isolar as casas" e "guiar carros mais económicos". Que tudo isso custa dinheiro extra às pessoas, parece ser coisa que não ocorre a estes idealistas.
Entretanto, e a confirmar o que tenho mostrado, que as eólicas e em geral as fontes de energia renovável intermitentes (o que inclui o solar, em certos aspectos ainda mais intermitente que as eólicas) requerem um triplo financiamento, por um lado em centrais de reserva para quando a produção renovável cai rapidamente (rampas), e por outro lado em estações de bombagem para quando há excesso de produção, aí está a legislação que vai remunerar as novas centrais a gás natural e hídricas só por estarem lá a amparar as eólicas e mesmo que não produzam energia nenhuma: é uma portaria saida este mês que "remunera o serviço de disponibilidade".
Segundo o "i", serão 522 milhões de € para a EDP e a Tejo Energia, rectroactivos a contar desde 2007 mas a aplicar também quer às novas estações de bombagem a que chamam de hidroeléctricas, quer às centrais a gás cujo investimento estava parado por falta de perspectivas de amortização. E, como sempre, a verdadeira razão deste novo encargo é escondida dos portugueses pelas centrais de comunicação do lobby eólico, neste caso, imaginem, alegando uma suposta necessidade de concorrência com a Espanha...!
E adivinhem lá quem é que vai pagar para essa remuneração?
Ora não espanta, por isso, vê-los tão desanimados agora que uma sondagem aos "americanos médios" mostrou que, interrogadas sobre o que acham ser melhor para poupar energia, as pessoas tenham respondido "apagar a luz", "desligar o termostato (do aquecedor ou do ar condicionado)" e "guiar menos".
Desanimados porque as respostas que os smart griders pretendiam eram: "usar lâmpadas mais eficientes", "isolar as casas" e "guiar carros mais económicos". Que tudo isso custa dinheiro extra às pessoas, parece ser coisa que não ocorre a estes idealistas.
Entretanto, e a confirmar o que tenho mostrado, que as eólicas e em geral as fontes de energia renovável intermitentes (o que inclui o solar, em certos aspectos ainda mais intermitente que as eólicas) requerem um triplo financiamento, por um lado em centrais de reserva para quando a produção renovável cai rapidamente (rampas), e por outro lado em estações de bombagem para quando há excesso de produção, aí está a legislação que vai remunerar as novas centrais a gás natural e hídricas só por estarem lá a amparar as eólicas e mesmo que não produzam energia nenhuma: é uma portaria saida este mês que "remunera o serviço de disponibilidade".
Segundo o "i", serão 522 milhões de € para a EDP e a Tejo Energia, rectroactivos a contar desde 2007 mas a aplicar também quer às novas estações de bombagem a que chamam de hidroeléctricas, quer às centrais a gás cujo investimento estava parado por falta de perspectivas de amortização. E, como sempre, a verdadeira razão deste novo encargo é escondida dos portugueses pelas centrais de comunicação do lobby eólico, neste caso, imaginem, alegando uma suposta necessidade de concorrência com a Espanha...!
E adivinhem lá quem é que vai pagar para essa remuneração?
Etiquetas:
Energias renováveis,
política energética
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