O Rerum Natura prestou o relevante serviço público de postar a versão integral da entrevista do Professor Delgado Domingos ao jornal Público, no passado domingo.
Com a devida vénia ao Rerum Natura, e o meu respeito pelo Prof. Delgado Domingos, transcrevo aqui por inteiro a referida entrevista, dada a importância político-científica que lhe atribuo.
O fracasso e a humilhação da União Europeia em Copenhaga
O Público de 24.12.2009 publicou nas páginas centrais do suplemento P2 um esclarecedor artigo de Viriato Soromenho Marques (VSM) intitulado “De Copenhaga rumo ao México a União Europeia pode fazer a diferença”. O desfecho da conferência de Copenhaga era previsível pelos motivos que indiquei (J.Negócios 3.11.2009, Expresso Online 30.11.2009). Os que sempre vangloriaram a liderança da UE na questão das alterações climáticas confrontam-se agora com o facto de o acordo de que a COP15 tomou conhecimento em Copenhaga ter sido sobretudo uma humilhação para a UE, pois a realidade virtual que criou e liderou não lhe deu sequer acesso à mesa onde o acordo foi negociado.
Rumo ao México, a UE pode fazer efectivamente a diferença se capitalizar no que de pioneiro e muito relevante trouxe para a sustentabilidade ambiental e sobretudo energética, e na ajuda aos países mais pobres. Para isso, tem de reconhecer que a sensibilização/mobilização pública conseguida com o alarmismo climático está esgotada e é contraproducente. Esse alarmismo, baseado num pseudo-consenso científico, levou à defesa de cortes nas emissões de CO2, impossíveis de realizar sem devastadoras consequências económicas e sociais. Efectivamente, e segundo VSM, “num impressionante estudo que procura aliar ciência dura e diplomacia, o Conselho Federal Alemão para a Mudança Global (WBGU), dirigido pelo eminente físico Hans Joachim Schellnhuber“ (que se propunha ser o guião para as negociações em Copenhaga), concluía-se que, até 2015-2020, o consumo de combustíveis fósseis teria de estabilizar para vir a desaparecer dentro de 40 anos. Portugal, p. ex., teria de reduzir cerca de 7 vezes o seu consumo actual de combustíveis fósseis até 2050 e para a maioria dos países desenvolvidos esse consumo per capita teria de regredir para valores próximos do primeiro quartel do século XX. Tendo em conta que as energias fósseis constituem o maior sector da economia mundial (de que representam cerca de 8%), o seu desaparecimento em 3 ou 4 décadas, para ser substituído por energias renováveis, mesmo admitindo que era financeiramente viável, seria fisicamente impossível, tendo meramente em conta o tempo necessário para a concretização de soluções tecnológicas já conhecidas. Por este, entre outros motivos, o acordo legalmente vinculativo defendido pela UE/ONU e a maioria das ONGs não poderia ser cumprido. E quem o quisesse honestamente cumprir, não o poderia assinar. Não admira, por isso, que a UE nem sequer tenha sido convidada a participar na negociação do documento que posteriormente subscreveu.
Mas será que tal acordo significou mesmo a “incapacidade da comunidade internacional (...) prevenir a primeira mudança da estrutura ecológica e ontológica do Planeta causada pela acção humana” como afirma VSM? Não me parece, porque o pilar fundamental deste tipo de argumentação é uma grosseira adulteração das implicações do conhecimento científico fundamental e básico (*), em torno do qual o consenso é inequívoco.
“Fazer batota com as leis da física ...”
Alterações Climáticas e Aquecimento Global foram vulgarizados como sinónimos, e o passo seguinte foi atribuir erradamente o aquecimento global (quase exclusivamente) às emissões de CO2eq. Invocou-se, para isso, um difuso consenso científico, no qual nunca ficou claro a que fenómenos ou leis físicas se referia. Existe, efectivamente, há décadas, indiscutível consenso científico quanto ao facto de o CO2 ter um efeito de estufa e de o vapor de água ter um efeito de estufa muito maior. Mas tal consenso não existe quanto à relação quantitativa entre o aumento da concentração CO2eq na atmosfera e a elevação da temperatura média global do ar junto à superfície (ETMGAJS). Segundo o próprio relatório cientifico do IPCC, considerado como referência fundamental, (ARA4WG1,p. 114), a ETMGAJS devida a uma duplicação da concentração em CO2 na atmosfera tanto poderia ser de 1,9ºC como de 5.9ºC (dependendo do modo como se considera o efeito das nuvens). Na relação habitualmente considerada (*) a ETMGAJS é proporcional ao logaritmo da concentração da atmosfera em CO2. A constante de proporcionalidade, a chamada sensibilidade climática, varia entre ~2 e 4,5 e em relação a ela o IPCC afirma(ARA4WG1, p. 640) que:
“a set of model metrics that might be used to narrow the range of plausible climate change feedbacks and climate sensitivity has yet to be developed”
Ou seja, o próprio IPCC reconhece que não se sabe qual o valor a escolher para a sensibilidade climática. O IPCC não sabe mas os proponentes de cortes radicais, como os referidos, actuam como se soubessem. Para isso, partem das conclusões que querem obter e escolhem o valor da sensibilidade climática que mais lhes convêm, não se coibindo sequer de invocar um suposto consenso, ou mesmo de citar o IPCC, se for conveniente. A verdade é que, por exemplo, o IPCC nunca recomendou 2ºC como aumento de temperatura a não exceder, tal como nunca recomendou um limite de emissões para o conseguir. Um e outros valores são decisões políticas (não científicas!) da UE.
Em resumo: a argumentação da UE tem por base uma batota com as leis da Física. Uma batota que consiste em apresentar (como consequência de leis físicas fundamentais) uma relação quantificada entre emissões de CO2eq e aumento de temperatura média, que só pode ser obtida com grosseiras simplificações e factores numéricos politicamente escolhidos (*)!
O limite dos 2ºC e os modelos climáticos
O acordo em Copenhaga fixou em 2ºC o aumento de temperatura média a não ultrapassar. Esse valor justifica-se, nomeadamente, porque um aumento de 2ºC se teria verificado durante o chamado período quente medieval sem que tivesse ocorrido qualquer desastre climático. Aliás, muitos dos indícios indirectos que hoje se invocam para defender que existe aquecimento (antecipação das florações na Primavera, migrações de fauna e flora, etc) são a réplica do que a História nos diz ter existido naquele período. Foi também durante este período que os vikings colonizaram a Groenlândia (“Greenland” =Terra Verde).
Não associar um aumento da temperatura de 2ºC a um aumento quantificado de emissões de CO2eq, é uma decisão aceitável, tendo em conta os dados das observações existentes. De facto, aceitando como válidos os valores de referência utilizados pelo IPCC, houve um aquecimento médio global nos últimos 150 anos que não ultrapassou os 0.8ºC. Houve um aquecimento entre ~1900 e ~1945, seguido de arrefecimento entre ~1945 e ~1975. E voltou a aquecer entre ~1975 e ~1988. Desde 1998 não há aquecimento. As taxas de aumento de temperatura por década foram maiores nos períodos antes de 1945 do que depois de 1975. Durante todo este período, a concentração de CO2eq na atmosfera nunca parou de aumentar. A relação directa e quantificada entre CO2eq e aumento de temperatura (utilizada pelos alarmistas) não é validada pelas observações. Para o ser, deveria ser capaz (e não é) de reproduzir a evolução das temperaturas, em cada uma de 2 ou 3 décadas, adoptando a mesma sensibilidade climática. Se os modelos climáticos actuais não conseguem sequer reproduzir, de modo aceitável, a evolução verificada nos últimos 50 anos, a única conclusão a extrair é a de que tais modelos são inadequados para prever alterações climáticas com décadas de antecedência, mesmo em termos de probabilidades fiáveis. Utilizá-los como único fundamento de políticas ou acordos internacionais legalmente vinculativos é, no mínimo, um contra-senso.
Conclusão
Ninguém pode seriamente negar a existência de um aquecimento global nos últimos 150 anos. Mas esse aquecimento não ultrapassou 0.8ºC e não se pode garantir, com fundamento sólido, qual a evolução futura. Embora haja fenómenos climáticos que se podem associar ao aquecimento, atribuir tudo ao aumento da concertação de CO2eq na atmosfera é um absurdo. É muito mais honesto reconhecer que se não conhecem todas as causas do que inventar as fantasias catastróficas de que a comunicação social e algumas ONGs tanto gostam, mas que só levam ao descrédito.
Se a UE quer, de facto, liderar, tem de dar o exemplo de uma fundamentação científica das suas propostas sem contaminações políticas (que deram o climagate), e de medidas exigentes, exequíveis e verificáveis. Se está de facto preocupada com as alterações climáticas de origem humana (e deve estar) não precisa de invocar os resultados pouco fiáveis dos modelos climáticos actuais para actuar em profundidade na reforma do seu sistema energético, porque tal reforma é exigida pela competitividade económica e pela sua dependência de fontes de energia inseguras e insustentáveis. Se está de facto preocupada, deve acabar com a hipocrisia do mercado do carbono e da contabilidade de Quioto e substituí-la pelos instrumentos regulatórios e fiscais de que tem grande experiência. Grande parte da lista do que pode e deve fazer já foi enunciado/iniciado a pretexto de aquecimento global. Manter o que se justifica por si próprio, sem ter de recorrer à ameaça de catástrofes climáticas é o pequeno grande passo que a UE tem de dar para recuperar a credibilidade perdida e uma liderança real.
(*) http://jddomingos.ist.utl.pt
(**) Referimo-nos à Elevação da Temperatura Média Global do Ar Junto à Superfície( ETMAJS) quando se diz, por simplicidade, “aquecimento global” , “elevação da temperatura média” “ou aumento da temperatura”
quinta-feira, fevereiro 11, 2010
quarta-feira, fevereiro 10, 2010
Portugal e Espanha, unidos na mesma fantasia (e na mesma recessão)!
Dizem-me que o actual Secretário de Estado da Energia, Carlos Zorrinho, é boa pessoa. E isso ainda mais triste me deixa quanto à existência de uma mente delirante que o que ele diz manifesta.
Ao que parece, Zorrinho acha que não é precisa mais energia na rede eléctrica para abastecer os (inexistentes) carros eléctricos, e parece que partilha essa ideia com o seu congénere espanhol. Mas como não é precisa mais energia, se a energia não se cria nem se gasta, apenas se transforma? Para a meter nos (inexistentes) automóveis eléctricos, é preciso ir buscá-la a algum lado, quando eles existirem!
Se viermos a ter todos automóveis eléctricos, uns 4 milhões em circulação a uma média de 12 mil km /ano, com um consumo de 15 kWh /100 km, mais os transportes comerciais, será preciso gerar como ordem de grandeza, em média, uns 900 MW de electricidade, pelo menos mais 1/6 do que o consumo anual actual de energia eléctrica.
É verdade que isso não acontecerá antes de daqui a 25 anos, já supondo muito optimisticamente que se inventam novas baterias que resolvam o problema das de iões de lítio nos próximos 10 anos, que os veículos eléctricos começam a substituir no mercado os com motores de combustão daqui a 5 a 10 anos e que depois serão precisos mais 15 a 20 para a substituição de toda a frota automóvel existente, ao ritmo anual normal com que compram automóveis novos em Portugal...
O que Zorrinho quer dizer, porém, só pode ser outra coisa que a sua manifesta incompetência no assunto não lhe permite explicar com clareza (acreditando na sua boa fé). O que ele quer dizer é que não serão precisas outras fontes de energia a não ser as renováveis que o Governo planeia instalar. Ou mais exactamente, as eólicas, já que as outras são pura ficção (caso do solar em grande escala) ou requerem um planeamento que este Governo é incapaz de fazer (casos da biomassa, biogás, biocombustíveis, etc) e de qualquer modo de custo exorbitante.
E como a energia eólica é altamente intermitente e aleatória, é aí que entram as "redes inteligentes" desta visão eco-utópica, que terão por papel adaptar o consumo à produção, que é pôr as pessoas ao serviço de uma forma de energia. Coisa que, nos automóveis eléctricos, exige além do mais que toda a gente tenha garagem onde possa deixar o carro ligado à tomada durante a madrugada, quando o vento sopra mais, garagem que a maior parte dos portugueses não tem...
Tudo isto manifesta é a aflição do Governo e outros responsáveis pela nossa política energética perante a incontrolável intermitência do vento, e o seu desespero por ainda não existirem os tais carros eléctricos que Zorrinho e o 1º Ministro querem para logo à noite (wishful thinking)!
Entretanto, o que a notícia que menciono testemunha de realmente importante é a tomada de corpo da proposta de um verdadeiro mercado europeu de energia, com vocação inter-continental, e de construção da sofisticada Super-Rede (smart Super-grid) que o infra-estruture e para que tenho vindo a chamar a atenção!...
Ao que parece, Zorrinho acha que não é precisa mais energia na rede eléctrica para abastecer os (inexistentes) carros eléctricos, e parece que partilha essa ideia com o seu congénere espanhol. Mas como não é precisa mais energia, se a energia não se cria nem se gasta, apenas se transforma? Para a meter nos (inexistentes) automóveis eléctricos, é preciso ir buscá-la a algum lado, quando eles existirem!
Se viermos a ter todos automóveis eléctricos, uns 4 milhões em circulação a uma média de 12 mil km /ano, com um consumo de 15 kWh /100 km, mais os transportes comerciais, será preciso gerar como ordem de grandeza, em média, uns 900 MW de electricidade, pelo menos mais 1/6 do que o consumo anual actual de energia eléctrica.
É verdade que isso não acontecerá antes de daqui a 25 anos, já supondo muito optimisticamente que se inventam novas baterias que resolvam o problema das de iões de lítio nos próximos 10 anos, que os veículos eléctricos começam a substituir no mercado os com motores de combustão daqui a 5 a 10 anos e que depois serão precisos mais 15 a 20 para a substituição de toda a frota automóvel existente, ao ritmo anual normal com que compram automóveis novos em Portugal...
O que Zorrinho quer dizer, porém, só pode ser outra coisa que a sua manifesta incompetência no assunto não lhe permite explicar com clareza (acreditando na sua boa fé). O que ele quer dizer é que não serão precisas outras fontes de energia a não ser as renováveis que o Governo planeia instalar. Ou mais exactamente, as eólicas, já que as outras são pura ficção (caso do solar em grande escala) ou requerem um planeamento que este Governo é incapaz de fazer (casos da biomassa, biogás, biocombustíveis, etc) e de qualquer modo de custo exorbitante.
E como a energia eólica é altamente intermitente e aleatória, é aí que entram as "redes inteligentes" desta visão eco-utópica, que terão por papel adaptar o consumo à produção, que é pôr as pessoas ao serviço de uma forma de energia. Coisa que, nos automóveis eléctricos, exige além do mais que toda a gente tenha garagem onde possa deixar o carro ligado à tomada durante a madrugada, quando o vento sopra mais, garagem que a maior parte dos portugueses não tem...
Tudo isto manifesta é a aflição do Governo e outros responsáveis pela nossa política energética perante a incontrolável intermitência do vento, e o seu desespero por ainda não existirem os tais carros eléctricos que Zorrinho e o 1º Ministro querem para logo à noite (wishful thinking)!
Entretanto, o que a notícia que menciono testemunha de realmente importante é a tomada de corpo da proposta de um verdadeiro mercado europeu de energia, com vocação inter-continental, e de construção da sofisticada Super-Rede (smart Super-grid) que o infra-estruture e para que tenho vindo a chamar a atenção!...
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terça-feira, fevereiro 09, 2010
A política europeia das batatas de energia.
Suponhamos, caros amigos, que sendo 27 de nós proprietários de terrenos, nos reuníamos e que eu, que jamais fora agricultor e que de batatas só sabia que se vendiam em sacos no hipermercado, mas a quem um vendedor de sementes tinha prometido uma "atenção" e a quem uma amiga devota das folhas de batata me prometera mimos, vos arengava: temos que produzir batatas, para garantir a nossa independência alimentar! Temos que atingir a produção de 1000 toneladas de batatas em dez anos, e para isso proponho que cada um de vós incremente a produção de batatas em 10 toneladas cada um, mais um tanto proporcional à vossa riqueza, que será de x, segundo as contas que fiz.
E vocês, que de batatas também só sabiam que as há nos hipermercados, aprovavam esta proposta por unanimidade e aclamação!
Voltavámos para as nossas propriedades e constatávamos que alguns de nós tínhamos uns excelentes terrenos agrícolas, planos e férteis, outros tinham uns terrenos pedregosos em montanhas, outros tinham pântanos bons para arrozais e alguns ainda apenas tinham um bocado de deserto. E punhamo-nos com entusiasmo, cada um isoladamente, a atentar atingir a quota de produção de batatas a que nos tínhamos comprometido!...
Ao fim de uns anos os que tinham bons terrenos tinham conseguido atingir a meta sem esforço e ainda lhes sobrava espaço para semear milho e alguns, até, tinham tido que deitar fora batatas por as terem em excesso, outros estavam assim-assim, alguns tinham atingido a meta mas à custa de abandonarem a agricultura de arroz para que tinham excelentes condições, e os que só tinham deserto tinham tido de construir umas estufas especiais, caríssimas, para plantar as batatas e estavam amargamente falidos.
Que vos parece a inteligência desta medida colectiva?
Pois foi isto que a União Europeia decidiu para si própria quanto às metas de energia renovável para 2020, na sua Directiva 2009/28/EC, e que levou na carteira como exemplo para o mundo em Copenhaga...
Não admira, pois, que haja algumas vozes em crescendo que vêm a criticar esta maneira de organizar a plantação de batatas e que defendem que se plantem batatas onde os terrenos são melhores para isso, em vez de se imporem quotas para todos que têm em conta tudo menos a adequação dos terrenos para o efeito. E mostram, estas vozes, que se os agricultores dali e dacolá, que têm óptimo terreno e gosto por batatas, plantassem batatas para todos, o custo de produzir as 1000 toneladas de batatas seria menor, no conjunto. Claro que esses amigos iriam ficar com batatas em excesso, e por isso seria necessário criar um sistema de trocas e de transportes que disseminassem as batatas dos agricultores favorecidos pela sorte pelos outros amigos. No conjunto todos pagariam menos e o esforço seria equilibrado e verdadeiramente proporcional às posses de cada um.
Os que defendem esta abordagem são os que defendem o desenvolvimento da Super-Rede eléctrica europeia, assim como Sarkozy e Madame Merkel que acordaram arrancar com isso na sua cimeira recente.
Agora imaginem que esta ideia acaba por ir para a frente, mas que alguns dos 27 com terrenos muito maus já plantaram a sua quota de batatas quando isso acontecer, enquanto outros estiveram a arrastar os pés e a ver em que davam as coisas; quando o tal sistema de transporte de batatas estiver pronto e se generalizarem as trocas, os que já se arruinaram a plantá-las em maus terrenos descobrirão que afinal poderão comprar batatas mais baratas que as suas aos vizinhos, e os que tiverem ficado à espera farão um bom negócio...
Que cenário acham que vos vai calhar?
E vocês, que de batatas também só sabiam que as há nos hipermercados, aprovavam esta proposta por unanimidade e aclamação!
Voltavámos para as nossas propriedades e constatávamos que alguns de nós tínhamos uns excelentes terrenos agrícolas, planos e férteis, outros tinham uns terrenos pedregosos em montanhas, outros tinham pântanos bons para arrozais e alguns ainda apenas tinham um bocado de deserto. E punhamo-nos com entusiasmo, cada um isoladamente, a atentar atingir a quota de produção de batatas a que nos tínhamos comprometido!...
Ao fim de uns anos os que tinham bons terrenos tinham conseguido atingir a meta sem esforço e ainda lhes sobrava espaço para semear milho e alguns, até, tinham tido que deitar fora batatas por as terem em excesso, outros estavam assim-assim, alguns tinham atingido a meta mas à custa de abandonarem a agricultura de arroz para que tinham excelentes condições, e os que só tinham deserto tinham tido de construir umas estufas especiais, caríssimas, para plantar as batatas e estavam amargamente falidos.
Que vos parece a inteligência desta medida colectiva?
Pois foi isto que a União Europeia decidiu para si própria quanto às metas de energia renovável para 2020, na sua Directiva 2009/28/EC, e que levou na carteira como exemplo para o mundo em Copenhaga...
Não admira, pois, que haja algumas vozes em crescendo que vêm a criticar esta maneira de organizar a plantação de batatas e que defendem que se plantem batatas onde os terrenos são melhores para isso, em vez de se imporem quotas para todos que têm em conta tudo menos a adequação dos terrenos para o efeito. E mostram, estas vozes, que se os agricultores dali e dacolá, que têm óptimo terreno e gosto por batatas, plantassem batatas para todos, o custo de produzir as 1000 toneladas de batatas seria menor, no conjunto. Claro que esses amigos iriam ficar com batatas em excesso, e por isso seria necessário criar um sistema de trocas e de transportes que disseminassem as batatas dos agricultores favorecidos pela sorte pelos outros amigos. No conjunto todos pagariam menos e o esforço seria equilibrado e verdadeiramente proporcional às posses de cada um.
Os que defendem esta abordagem são os que defendem o desenvolvimento da Super-Rede eléctrica europeia, assim como Sarkozy e Madame Merkel que acordaram arrancar com isso na sua cimeira recente.
Agora imaginem que esta ideia acaba por ir para a frente, mas que alguns dos 27 com terrenos muito maus já plantaram a sua quota de batatas quando isso acontecer, enquanto outros estiveram a arrastar os pés e a ver em que davam as coisas; quando o tal sistema de transporte de batatas estiver pronto e se generalizarem as trocas, os que já se arruinaram a plantá-las em maus terrenos descobrirão que afinal poderão comprar batatas mais baratas que as suas aos vizinhos, e os que tiverem ficado à espera farão um bom negócio...
Que cenário acham que vos vai calhar?
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segunda-feira, fevereiro 08, 2010
Economia das energias eólica e hidroeléctrica:que potencial de emprego?.
Qual o potencial de criação de emprego da nova economia das energias renováveis eólica e hidroeléctrica?
Há semanas, no programa da RPT1 "Prós++ e Contras", o impagável Sr. Aníbal Fernandes, líder do cluster eólico "nacional", prometia 36.000 empregos para breve, perante o olhar circunspecto dos restantes convidados e em particular do Eng.º Luís Filipe Pereira da EFACEC, por cujo olhar perpassou um lampejo de incredulidade. Similar entusiasmo mostrou o jornalista Victor Andrade, numa entrevista recente à SIC (a partir do 5º minuto).
No entanto, já aqui mostrei que os dados disponíveis da própria Associação Europeia de Energia Eólica, a EWEA, atestavam a existência, há 2 anos, de 800 empregos directos confirmados a que se somavam mais 500 em actividades acessórias de projecto, instalação, etc, embora se anunciasse a intenção (comunicada pelo Governo português) de criação no referido cluster, em 2009, de mais 3.000 empregos no fabrico de componentes. Porém, de facto, até agora a Enercon terá criado apenas mais 1000 empregos...
É possível no entanto que, somando outros empregos criados por outras entidades como a Martifer, se possam contabilizar presentemente uns 3.000 empregos directos e quiçá uns 1000 indirectos mas, dada a exigência pela maioria dos países que constituem potenciais mercados de exportação de que as turbinas sejam montadas lá, não se vê como a exportação poderá vir a substituir o esgotamento em breve do nosso próprio mercado. Nem, portanto, como poderão estes empregos manter-se.
Para comparação, Espanha, com uma forte indústria própria e o 3º fabricante mundial de aerogeradores (Gamesa), com 5,5 vezes a nossa potência eólica instalada, tem 37.700 empregos (20.500 directos e 17.200indirectos).
Tem-se também propalado o número de dezenas de milhar de empregos para a construção de barragens, escamoteando que se tratam na grande maioria de empregos de construção civil a prazo de 3 anos (cada barragem leva uns 4 anos a construir e atinge um pico de emprego típico de 2 mil), mal pagos e em locais inóspitos, que atrairão apenas uma maioria de imigrantes. Fala-se na "criação" de empregos e deixa-se a falsa ideia de que são empregos duradouros...
Porém, a ideia de que a economia das energias renováveis tem um grande potencial de criação de emprego é propalada por Bruxelas, onde o lobby alemão dos verdes tem uma força determinante, e tem sido tão exaltada pelo Presidente da UE, Durão Barroso, e pelo 1º Ministro de Espanha, Zapatero, como pelo nosso, tendo sido recentemente também defendida pela Administração Obama nos EUA. Tem, por isso, muito interesse saber o que mostram os estudos económicos sérios na matéria, caso existam. E existem alguns.
A Universidade Juan Carlos de Madrid editou em 2009 um trabalho em que faz o balanço de criação de empregos (no hyperlink) da política espanhola de apoio à renováveis, e chega à seguinte conclusão: em média, por cada 4 novos empregos criados pela economia das energias renováveis, são destruídos 9, e isto sem contar com os empregos que poderiam ter sido criados com os subsídios concedidos aos produtores eólicos. Ou seja, globalmente esta nova economia não cria empregos: destrói-os!
A principal originalidade deste trabalho é a avaliação da destruição de emprego causada pela subida dos custos da energia. São particularmente afectadas as indústrias metalúrgicas, a mineração, as indústrias alimentares, de bebidas e de tabaco.
O estudo parte da consideração do aumento do preço da electricidade espanhola que será necessário para os consumidores pagarem o défice tarifário acumulado resultante da subsidiação às energias renováveis, 31% segundo a entidade reguladora espanhola. Na verdade, este sobre-custo das renováveis ainda não foi sentido pela economia de Espanha porque lá, como cá, ele tem sido remetido para um défice tarifário e o estudo espanhol parte do princípio que esse aumento de 31% será repartido por todos os consumidores equitativamente. Mas pode ser que Espanha opte pela subsidiação cruzada que Portugal está a começar a praticar, pondo apenas os consumidores domésticos a pagá-lo. Neste caso o cálculo do efeito é mais complexo, porque então se terá um aumento da tarifa muito superior aos 31% para estes consumidores, e será pela respectiva perda de poder de compra que o retraímento económico se fará sentir - mas neste caso o desemprego afectará sectores diferentes da economia.
Porém, e como o estudo espanhol mostra, quer seja usado este método (subsidiação cruzada), quer o de impostos directos ou indirectos, o pagamento do défice e a redução de poder de compra e/ou de crédito dos atingidos levará sempre ao mesmo resultado: a destruição de empregos.
O referido estudo considera a criação em Espanha de 15 mil empregos pelas energias renováveis, mas baseia-se para isso num trabalho prospectivo europeu de 2003. Os dados mais recentes da EWEA mostram que esse número está subestimado e que, se for considerado o emprego efectivamente criado, se pode afirmar o seguinte: por cada emprego temporário criado pelas energias renováveis, será destruído duradouramente outro quando os respectivos sobre-custos se repercutirem nas tarifas e na correspondente retracção do poder de compra da população.
Há semanas, no programa da RPT1 "Prós++ e Contras", o impagável Sr. Aníbal Fernandes, líder do cluster eólico "nacional", prometia 36.000 empregos para breve, perante o olhar circunspecto dos restantes convidados e em particular do Eng.º Luís Filipe Pereira da EFACEC, por cujo olhar perpassou um lampejo de incredulidade. Similar entusiasmo mostrou o jornalista Victor Andrade, numa entrevista recente à SIC (a partir do 5º minuto).
No entanto, já aqui mostrei que os dados disponíveis da própria Associação Europeia de Energia Eólica, a EWEA, atestavam a existência, há 2 anos, de 800 empregos directos confirmados a que se somavam mais 500 em actividades acessórias de projecto, instalação, etc, embora se anunciasse a intenção (comunicada pelo Governo português) de criação no referido cluster, em 2009, de mais 3.000 empregos no fabrico de componentes. Porém, de facto, até agora a Enercon terá criado apenas mais 1000 empregos...
É possível no entanto que, somando outros empregos criados por outras entidades como a Martifer, se possam contabilizar presentemente uns 3.000 empregos directos e quiçá uns 1000 indirectos mas, dada a exigência pela maioria dos países que constituem potenciais mercados de exportação de que as turbinas sejam montadas lá, não se vê como a exportação poderá vir a substituir o esgotamento em breve do nosso próprio mercado. Nem, portanto, como poderão estes empregos manter-se.
Para comparação, Espanha, com uma forte indústria própria e o 3º fabricante mundial de aerogeradores (Gamesa), com 5,5 vezes a nossa potência eólica instalada, tem 37.700 empregos (20.500 directos e 17.200indirectos).
Tem-se também propalado o número de dezenas de milhar de empregos para a construção de barragens, escamoteando que se tratam na grande maioria de empregos de construção civil a prazo de 3 anos (cada barragem leva uns 4 anos a construir e atinge um pico de emprego típico de 2 mil), mal pagos e em locais inóspitos, que atrairão apenas uma maioria de imigrantes. Fala-se na "criação" de empregos e deixa-se a falsa ideia de que são empregos duradouros...
Porém, a ideia de que a economia das energias renováveis tem um grande potencial de criação de emprego é propalada por Bruxelas, onde o lobby alemão dos verdes tem uma força determinante, e tem sido tão exaltada pelo Presidente da UE, Durão Barroso, e pelo 1º Ministro de Espanha, Zapatero, como pelo nosso, tendo sido recentemente também defendida pela Administração Obama nos EUA. Tem, por isso, muito interesse saber o que mostram os estudos económicos sérios na matéria, caso existam. E existem alguns.
A Universidade Juan Carlos de Madrid editou em 2009 um trabalho em que faz o balanço de criação de empregos (no hyperlink) da política espanhola de apoio à renováveis, e chega à seguinte conclusão: em média, por cada 4 novos empregos criados pela economia das energias renováveis, são destruídos 9, e isto sem contar com os empregos que poderiam ter sido criados com os subsídios concedidos aos produtores eólicos. Ou seja, globalmente esta nova economia não cria empregos: destrói-os!
A principal originalidade deste trabalho é a avaliação da destruição de emprego causada pela subida dos custos da energia. São particularmente afectadas as indústrias metalúrgicas, a mineração, as indústrias alimentares, de bebidas e de tabaco.
O estudo parte da consideração do aumento do preço da electricidade espanhola que será necessário para os consumidores pagarem o défice tarifário acumulado resultante da subsidiação às energias renováveis, 31% segundo a entidade reguladora espanhola. Na verdade, este sobre-custo das renováveis ainda não foi sentido pela economia de Espanha porque lá, como cá, ele tem sido remetido para um défice tarifário e o estudo espanhol parte do princípio que esse aumento de 31% será repartido por todos os consumidores equitativamente. Mas pode ser que Espanha opte pela subsidiação cruzada que Portugal está a começar a praticar, pondo apenas os consumidores domésticos a pagá-lo. Neste caso o cálculo do efeito é mais complexo, porque então se terá um aumento da tarifa muito superior aos 31% para estes consumidores, e será pela respectiva perda de poder de compra que o retraímento económico se fará sentir - mas neste caso o desemprego afectará sectores diferentes da economia.
Porém, e como o estudo espanhol mostra, quer seja usado este método (subsidiação cruzada), quer o de impostos directos ou indirectos, o pagamento do défice e a redução de poder de compra e/ou de crédito dos atingidos levará sempre ao mesmo resultado: a destruição de empregos.
O referido estudo considera a criação em Espanha de 15 mil empregos pelas energias renováveis, mas baseia-se para isso num trabalho prospectivo europeu de 2003. Os dados mais recentes da EWEA mostram que esse número está subestimado e que, se for considerado o emprego efectivamente criado, se pode afirmar o seguinte: por cada emprego temporário criado pelas energias renováveis, será destruído duradouramente outro quando os respectivos sobre-custos se repercutirem nas tarifas e na correspondente retracção do poder de compra da população.
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sexta-feira, fevereiro 05, 2010
Mais uma Ministra da Propaganda?
A nova Ministra do Ambiente acaba de declarar que as 10 novas barragens do Plano Nacional do Governo irão poupar a Portugal a importação de 3,3 milhões de barris de petróleo para as centrais termoeléctricas.
Será que temos, pois, uma nova Ministra da Propaganda no Governo?
É que:
1º) - As centrais termoeléctricas em Portugal não funcionam a petróleo. Funcionam a carvão (Sines e Abrantes) e a gás natural (Tapada do Outeiro, Lares, etc).
2º) - A energia que as novas barragens vão produzir é zero, como já mostrei aqui. De facto, a pouca energia de origem hídrica que produzirão só chega, se chegar, para cobrir as perdas na bombagem necessária à armazenagem de energia de origem eólica que é o seu verdadeiro propósito.
E a propósito, a adicionar aos 3 mil milhões de € de custo de 8 destas novas barragens, a que se adicionam mais 1,85 mil milhões pelas outras 2 em construção e pelo reforço de potência de mais 6, para todas juntas produzirem nenhuma energia, o Governo prepara-se para concessionar mais duas: Pinhosão e Almourol! Diz o Governo que reduzirão o défice público, visto que os concessionados terão de pagar por elas, como pagaram 640 milhões pelas 8 já concessionada. Mas e quem vai pagar depois isso tudo na tarifa da electricidade?
______________________________
Sei que há quem fique incrédulo com os valores de energia de origem hídrica que tenho indicado como sendo a verdadeira produção destas novas barragens. No entanto, os dados estão todos na Memória Descritiva do Plano, acessível na net. Estão é em energia anual prevista, e não em potência, e por isso é preciso dividir essa energia pelo número de horas do ano, 8760, para pôr as duas coisas (potência instalada e energia produzível) na mesma base - em potências. Potência instalada e potência média. Uma conta que parece ninguém ter feito, com excepção do Prof. Joanaz de Melo da Universidade Nova.
Para que as minhas contas fiquem claras, aqui vão as potências médias anuais de origem hídrica obtidas assim para cada aproveitamento:
Girabolhos (Endesa): 11,3 MW;
Vigado (Iberdrola): 13,01 MW;
Daivões (Iberdrola): 16,89 MW;
Padroselo (Iberdrola): 11,64 MW;
Gouvães (Iberdrola): 17,47 MW;
Foz Tua (EDP): 31,39 MW;
Fridão (EDP): 34,1 MW;
Alvito (EDP): 7,1 MW;
E ainda:
Baixo Sabor (EDP): 26,23 MW;
Ribeiradio (EDP): 15,3 MW;
Quanto aos "reforços de potência" de Picote II, Bemposta II, Alqueva II, Venda Nova III, Salamonde I e Paradela II, pouco adicionam em energia: 3,54 MW médios no Alqueva, e mais uns 9 MW médios no resto. A recentemente inaugurada com grande pompa Venda Nova III, de origem hídrica propriamente só produzirá 2 MW; o resto é para bombagem!...
Total: 197 MW.
Como a potência média do consumo nacional é de 5930 MW (52 Thw / 8760 horas), esta produção só cobre 3,3% desse consumo, o aumento previsível de consumo nacional de apenas 1 ou 2 anos.
No entanto, a energia "bruta" prevista para fornecimento corresponde a mais 525 MW, mas de origem eólica. Como para fornecer estes 525 MW é preciso que as eólicas forneçam 700, temos que as perdas por bombagem serão 175 MW médios, ou 25%, nos quais, para que não me acusem de má vontade, já incluo os 2% de perdas na rede eléctrica que transportará a energia das eólicas até às barragens. Praticamente a produção de origem propriamente hídrica.
Balanço final do contributo energético destas barragens para Portugal e dos €4,85 mil milhões de € que teremos de pagar, mais os juros do seu financiamento e mais os custos de expansão da rede da REN: quase zero!
Será que temos, pois, uma nova Ministra da Propaganda no Governo?
É que:
1º) - As centrais termoeléctricas em Portugal não funcionam a petróleo. Funcionam a carvão (Sines e Abrantes) e a gás natural (Tapada do Outeiro, Lares, etc).
2º) - A energia que as novas barragens vão produzir é zero, como já mostrei aqui. De facto, a pouca energia de origem hídrica que produzirão só chega, se chegar, para cobrir as perdas na bombagem necessária à armazenagem de energia de origem eólica que é o seu verdadeiro propósito.
E a propósito, a adicionar aos 3 mil milhões de € de custo de 8 destas novas barragens, a que se adicionam mais 1,85 mil milhões pelas outras 2 em construção e pelo reforço de potência de mais 6, para todas juntas produzirem nenhuma energia, o Governo prepara-se para concessionar mais duas: Pinhosão e Almourol! Diz o Governo que reduzirão o défice público, visto que os concessionados terão de pagar por elas, como pagaram 640 milhões pelas 8 já concessionada. Mas e quem vai pagar depois isso tudo na tarifa da electricidade?
______________________________
Sei que há quem fique incrédulo com os valores de energia de origem hídrica que tenho indicado como sendo a verdadeira produção destas novas barragens. No entanto, os dados estão todos na Memória Descritiva do Plano, acessível na net. Estão é em energia anual prevista, e não em potência, e por isso é preciso dividir essa energia pelo número de horas do ano, 8760, para pôr as duas coisas (potência instalada e energia produzível) na mesma base - em potências. Potência instalada e potência média. Uma conta que parece ninguém ter feito, com excepção do Prof. Joanaz de Melo da Universidade Nova.
Para que as minhas contas fiquem claras, aqui vão as potências médias anuais de origem hídrica obtidas assim para cada aproveitamento:
Girabolhos (Endesa): 11,3 MW;
Vigado (Iberdrola): 13,01 MW;
Daivões (Iberdrola): 16,89 MW;
Padroselo (Iberdrola): 11,64 MW;
Gouvães (Iberdrola): 17,47 MW;
Foz Tua (EDP): 31,39 MW;
Fridão (EDP): 34,1 MW;
Alvito (EDP): 7,1 MW;
E ainda:
Baixo Sabor (EDP): 26,23 MW;
Ribeiradio (EDP): 15,3 MW;
Quanto aos "reforços de potência" de Picote II, Bemposta II, Alqueva II, Venda Nova III, Salamonde I e Paradela II, pouco adicionam em energia: 3,54 MW médios no Alqueva, e mais uns 9 MW médios no resto. A recentemente inaugurada com grande pompa Venda Nova III, de origem hídrica propriamente só produzirá 2 MW; o resto é para bombagem!...
Total: 197 MW.
Como a potência média do consumo nacional é de 5930 MW (52 Thw / 8760 horas), esta produção só cobre 3,3% desse consumo, o aumento previsível de consumo nacional de apenas 1 ou 2 anos.
No entanto, a energia "bruta" prevista para fornecimento corresponde a mais 525 MW, mas de origem eólica. Como para fornecer estes 525 MW é preciso que as eólicas forneçam 700, temos que as perdas por bombagem serão 175 MW médios, ou 25%, nos quais, para que não me acusem de má vontade, já incluo os 2% de perdas na rede eléctrica que transportará a energia das eólicas até às barragens. Praticamente a produção de origem propriamente hídrica.
Balanço final do contributo energético destas barragens para Portugal e dos €4,85 mil milhões de € que teremos de pagar, mais os juros do seu financiamento e mais os custos de expansão da rede da REN: quase zero!
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domingo, janeiro 31, 2010
Uma reflexão masculina heterodoxa da história da monogamia :-)
Hoje vou mudar de assunto e partilhar convosco uma conjectura que sei ser discutível e de que eu próprio me rio, mas contra a qual na verdade ainda não encontrei argumentos científicos. Quem quiser divertir-se, que se adiante. De qualquer modo e antes de prosseguirem a leitura, repito que o que se segue não pretende ser inteiramente ciência, mas apenas ilustrar galhofeiramente como a Ciência não é neutra.
Como muitos saberão, há muitos investigadores que se têm interessado pelo estudo evolutivo de alguns marcadores genéticos, em particular dos haplótipos, umas combinações de alelos ou genes com variantes que determinam, por exemplo, as diferentes cores de olhos ou de cabelo entre indivíduos. É a partir dessas investigações que, por exemplo, se chega à conclusão de uma origem única para a nossa espécie no corno de África, de onde aliás partiram várias vagas de humanos, a última das quais, a nossa (Homo Sapiens), há cerca de 40-50 mil anos. Estudos similares na linguística chegam às mesmas conclusões, o que não é de surpreender visto os dialectos se desenvolverem em comunidades mais ou menos fechadas que tendem naturalmente também para a afinidade genética.
Basicamente esta linha de pensamento considera que numa dada comunidade de onde se separe um sub-conjunto de indivíduos, este sub-conjunto é portador de apenas parte da diversidade genética do grupo original, de modo que à medida que vai ocorrendo a "sub-especiação" a homogeneidade genética dos novos sub-grupos aumenta. Por conseguinte, os grupos com maior diversidade genética serão os mais antigos, e os com menor os mais recentes.
Como noutras áreas da Ciência, porém, esta teoria (ou da origem única) é controversa e tem a oposição dos que defendem uma origem multi-regional da espécie, com múltiplos cruzamentos ao longo do tempo. Porém, à medida que a informática e o estudo do genoma permite o tratamento de volumes cada vez maiores de dados genéticos de diferentes populações, a teoria da origem única tem vindo a ganhar terreno enfraquecendo os argumentos da teoria da origem múltipla. As consequências ideológicas destas duas teorias permitem compreender porque é tão acesa a luta entre elas: a teoria da origem múltipla aponta para uma natureza humana originalmente boa e tolerante às diferenças, mais tarde pervertida pelas estruturas sociais da civilização, enquanto a teoria da origem única aponta para a supremacia de uma única linhagem original, sem cruzamentos entre sub-espécies substancialmente diferentes e com a eliminação das menos aptas (não forçosamente pela guerra, entenda-se).
Um exemplo típico desta polémica é a que foi despoletada pela descoberta em 1998 do nosso célebre "menino de Lapedo", que o arqueólogo João Zilhão e outros defendem constituir uma prova do cruzamento de Neanderthais com Homo Sapiens, há uns 25 mil anos (a península ibérica foi o último lugar onde viveram Neanderthais, até há 25-30 mil anos), mas outros argumentam ser impossível ainda haver traços morfológicos de Neanderthal muitas gerações depois desta sub-espécie humana ter desaparecido. Um projecto de sequenciação do Genoma do Neanderthal, entretanto, tem vindo a reforçar a hipótese de que não haverá, de facto, traços genéticos dessa sub-espécie na nossa. Note-se que, segundo a teoria da origem única, terão havido várias vagas migratórias originais de África de espécies humanas, mas só a última vingou. A nossa, obviamente.
Muitos destes estudos centram-se no ADN mitocondrial, que quase só se propaga por via materna, ou no do cromossa Y, que só se propaga por via paterna, embora em ambos se usem modelos de "relógios moleculares" para temporizar (estatisticamente) as mutações e, retrospectivamente, origens ancestrais das populações.
Entretanto, um dado assente é que o advento da agricultura e, com ela, a "1ª vaga" de explosão demográfica humana (a 2ª ocorreu com a industrialização e a 3ª estará em curso com a revolução do conhecimento), deu-se no Próximo Oriente e propagou-se daí pela Europa. A "1ª vaga" correspondeu à chegada do Neolítico e com ela à superação do Paleolítico, dominado pela caça e pela apanha do que a Natureza proporcionasse, e ocorreu há cerca de 10 mil anos, chegando à ponta da Europa mais afastada do Médio Oriente, a Irlanda, há uns 6 mil anos (e cá há uns 8 mil). Muito antes disto e praticamente logo que aparecera, a nossa espécie dedicara-se a realizar "crimes contra a biodiversidade" do planeta, depradando até à extinção muitas das grandes espécies que encontrou, dos mamutes norte-americanos aos cangurus gigantes da Austrália.
Se a propagação da 1ª vaga foi por via cultural (conversa e aprendizagem) ou por migrações (deslocação pessoal) tem sido uma questão em aberto entre os investigadores.
Ora acaba de ser publicado um estudo envolvendo um largo conjunto de investigadores europeus de diferentes países que demonstra que há uma extrema coincidência entre a conhecida propagação da agricultura na Europa, de Sudeste para Noroeste, e a presença de um marcador específico no cromossa Y dos homens - e essa coincidência é no sentido de a maioria dos homens europeus, cerca de 80%, descenderem dos mesmos "avôs", ou antepassados masculinos. O que não se verifica quanto aos marcadores genéticos de origem feminina. Estes novos resultados parecem corrigir as conclusões obtidas há uma década e que apontavam para uma maior diversidade de origens masculinas, embora já então fosse evidente elas não coincidirem com as femininas.
Quer isto dizer que com o advento da agricultura, foram os homens agrícolas que predominantemente se reproduziram, com mulheres locais (paleolíticas). O que aponta para a regra da poligamia ter acompanhado a 1ª vaga.
Aliás, outros estudos genéticos recentes do mesmo género também já apontavam para o facto de sermos todos descendentes de um número reduzido de homens, muito menor que do número de mulheres.
Estas conclusões parecem dar razão à opinião de um amigo meu, segundo a qual há uma alienação na busca masculina de sucesso social e riqueza como fim último da existência, visto o verdadeiro fim natural desta ser o da posse do maior número possível de mulheres, com vista à maximização da reprodução dos genes masculinos. E, invocando o exemplo de muitas espécies animais, nota ele que verificando-se aí a existência de machos dominantes que após acesa competição logram o "the winner takes it all", isso é a forma como a Natureza procede ao apuramento dos genes que garantem a adaptação evolutiva permanente ao ambiente - por via da competição entre os machos e pela reprodução apenas dos dominantes. Aliás, do ponto da vista da Natureza os machos não teriam mesmo mais nenhum papel.
Embora admita que o cromossoma Y é o que mais mutações tem sofrido e que será predominantemente através dele que a evolução genética se processa nos mamíferos, a mim sempre me pareceu que esta teoria dos machos dominantes e polígamos era uma generalização abusiva das práticas dos herbívoros, que vivem, de facto, em grandes grupos (de fêmas, crias, e um macho dominante). Nos carnívoros, porém, que são muito mais inteligentes que os herbívoros, as práticas "familiares" são diferentes. Há só uma regra comum: os machos não toleram crias alheias, o que cria um curioso fundamento para o regime "familiar" dos leões, por exemplo: as leoas acarinham o seu leão macho porque é ele que lhes protege as crias contra os outros machos de fora da "família" - mesmo que esse macho tenha ganho o seu estatuto matando as crias anteriores da leoa! Mas, nos carnívoros, as coisas são de facto diferentes, e mesmo nas poucas espécies que constituem grandes grupos, como as dos eficazes canídeos, ou há também uma fêmea dominante que também mata as crias das outras fêmeas e forma um casal real, como nos lobos, ou são mesmo as fêmas que são dominantes, como nas temíveis hienas.
Seja como for, a revelação de que o número dos nossos antepassados masculinos é muito menor que que o dos femininos parece apontar para a predominância do paradigma sexual dos chimpanzés sobre o dos bonoboos na nossa ancestralidade, o que para quem se imagina um macho dominante nesses tempos antigos pode parecer interessante, mas a quem eu notaria que, probabilisticamente, se fossem machos transportados no tempo para essa antiguidade seria bastante mais provável, pela simples lógica dos números, que pertencessem ao maioritário conjunto dos excluídos, e não ao da minoria dominante. Uma lógica similar à que se pode aplicar às bonitas histórias sobre príncipes e cavaleiros antigos e em que gostamos de nos imaginar a viver como eles, mas em que a simples lógica dos números nos indica ser muito mais provável sermos os seus miseráveis criados ou servos da gleba, se fossemos transportados para tais cenários.
E vem isto tudo a propósito do advento da monogamia, ocorrida há uns 5 mil anos, depois de bem assente a revolução neolítica e quando as cidades se erigiram em civilizações, com Estado, leis e escrita. Monogamia tratada legislativamente em detalhe no Código de Hamurabi, regulada nos 10 Mandamentos judaicos e imposta, claro, pelo cristianismo.
E a conjectura que me traz aqui é esta: hoje, que graças à invenção da pílula e ao facto da 3ª vaga ser partilhada pelas mulheres, temos vindo a viver uma nova revolução sexual, a das mulheres, há muito quem olhe para a monogamia tradicional como um ferrolho da liberdade. Porém, a monogamia veio trazer a cada homem o direito de ter uma mulher, quando antes essa propriedade seria exclusiva de chefes e reis, que as tinham a todas, a julgar pela descendência que deixaram (incluindo nós).
Ou seja: a monogamia, longe de ter sido um ferrolho à liberdade pessoal masculina, foi de facto uma grande evolução democrática e uma importante limitação do poder dos chefes e reis.
Para os homens, claro.
Para as mulheres, a democratização sexual teria que esperar mais 5 mil anos e ainda não foi aceite pelos muçulmanos, razão maior da guerra mundial em curso e apesar de uma amiga minha defender, talvez com algum exagero, que "no fundo de cada homem há sempre um muçulmano recalcado"... :-)
Como muitos saberão, há muitos investigadores que se têm interessado pelo estudo evolutivo de alguns marcadores genéticos, em particular dos haplótipos, umas combinações de alelos ou genes com variantes que determinam, por exemplo, as diferentes cores de olhos ou de cabelo entre indivíduos. É a partir dessas investigações que, por exemplo, se chega à conclusão de uma origem única para a nossa espécie no corno de África, de onde aliás partiram várias vagas de humanos, a última das quais, a nossa (Homo Sapiens), há cerca de 40-50 mil anos. Estudos similares na linguística chegam às mesmas conclusões, o que não é de surpreender visto os dialectos se desenvolverem em comunidades mais ou menos fechadas que tendem naturalmente também para a afinidade genética.
Basicamente esta linha de pensamento considera que numa dada comunidade de onde se separe um sub-conjunto de indivíduos, este sub-conjunto é portador de apenas parte da diversidade genética do grupo original, de modo que à medida que vai ocorrendo a "sub-especiação" a homogeneidade genética dos novos sub-grupos aumenta. Por conseguinte, os grupos com maior diversidade genética serão os mais antigos, e os com menor os mais recentes.
Como noutras áreas da Ciência, porém, esta teoria (ou da origem única) é controversa e tem a oposição dos que defendem uma origem multi-regional da espécie, com múltiplos cruzamentos ao longo do tempo. Porém, à medida que a informática e o estudo do genoma permite o tratamento de volumes cada vez maiores de dados genéticos de diferentes populações, a teoria da origem única tem vindo a ganhar terreno enfraquecendo os argumentos da teoria da origem múltipla. As consequências ideológicas destas duas teorias permitem compreender porque é tão acesa a luta entre elas: a teoria da origem múltipla aponta para uma natureza humana originalmente boa e tolerante às diferenças, mais tarde pervertida pelas estruturas sociais da civilização, enquanto a teoria da origem única aponta para a supremacia de uma única linhagem original, sem cruzamentos entre sub-espécies substancialmente diferentes e com a eliminação das menos aptas (não forçosamente pela guerra, entenda-se).
Um exemplo típico desta polémica é a que foi despoletada pela descoberta em 1998 do nosso célebre "menino de Lapedo", que o arqueólogo João Zilhão e outros defendem constituir uma prova do cruzamento de Neanderthais com Homo Sapiens, há uns 25 mil anos (a península ibérica foi o último lugar onde viveram Neanderthais, até há 25-30 mil anos), mas outros argumentam ser impossível ainda haver traços morfológicos de Neanderthal muitas gerações depois desta sub-espécie humana ter desaparecido. Um projecto de sequenciação do Genoma do Neanderthal, entretanto, tem vindo a reforçar a hipótese de que não haverá, de facto, traços genéticos dessa sub-espécie na nossa. Note-se que, segundo a teoria da origem única, terão havido várias vagas migratórias originais de África de espécies humanas, mas só a última vingou. A nossa, obviamente.
Muitos destes estudos centram-se no ADN mitocondrial, que quase só se propaga por via materna, ou no do cromossa Y, que só se propaga por via paterna, embora em ambos se usem modelos de "relógios moleculares" para temporizar (estatisticamente) as mutações e, retrospectivamente, origens ancestrais das populações.
Entretanto, um dado assente é que o advento da agricultura e, com ela, a "1ª vaga" de explosão demográfica humana (a 2ª ocorreu com a industrialização e a 3ª estará em curso com a revolução do conhecimento), deu-se no Próximo Oriente e propagou-se daí pela Europa. A "1ª vaga" correspondeu à chegada do Neolítico e com ela à superação do Paleolítico, dominado pela caça e pela apanha do que a Natureza proporcionasse, e ocorreu há cerca de 10 mil anos, chegando à ponta da Europa mais afastada do Médio Oriente, a Irlanda, há uns 6 mil anos (e cá há uns 8 mil). Muito antes disto e praticamente logo que aparecera, a nossa espécie dedicara-se a realizar "crimes contra a biodiversidade" do planeta, depradando até à extinção muitas das grandes espécies que encontrou, dos mamutes norte-americanos aos cangurus gigantes da Austrália.
Se a propagação da 1ª vaga foi por via cultural (conversa e aprendizagem) ou por migrações (deslocação pessoal) tem sido uma questão em aberto entre os investigadores.
Ora acaba de ser publicado um estudo envolvendo um largo conjunto de investigadores europeus de diferentes países que demonstra que há uma extrema coincidência entre a conhecida propagação da agricultura na Europa, de Sudeste para Noroeste, e a presença de um marcador específico no cromossa Y dos homens - e essa coincidência é no sentido de a maioria dos homens europeus, cerca de 80%, descenderem dos mesmos "avôs", ou antepassados masculinos. O que não se verifica quanto aos marcadores genéticos de origem feminina. Estes novos resultados parecem corrigir as conclusões obtidas há uma década e que apontavam para uma maior diversidade de origens masculinas, embora já então fosse evidente elas não coincidirem com as femininas.
Quer isto dizer que com o advento da agricultura, foram os homens agrícolas que predominantemente se reproduziram, com mulheres locais (paleolíticas). O que aponta para a regra da poligamia ter acompanhado a 1ª vaga.
Aliás, outros estudos genéticos recentes do mesmo género também já apontavam para o facto de sermos todos descendentes de um número reduzido de homens, muito menor que do número de mulheres.
Estas conclusões parecem dar razão à opinião de um amigo meu, segundo a qual há uma alienação na busca masculina de sucesso social e riqueza como fim último da existência, visto o verdadeiro fim natural desta ser o da posse do maior número possível de mulheres, com vista à maximização da reprodução dos genes masculinos. E, invocando o exemplo de muitas espécies animais, nota ele que verificando-se aí a existência de machos dominantes que após acesa competição logram o "the winner takes it all", isso é a forma como a Natureza procede ao apuramento dos genes que garantem a adaptação evolutiva permanente ao ambiente - por via da competição entre os machos e pela reprodução apenas dos dominantes. Aliás, do ponto da vista da Natureza os machos não teriam mesmo mais nenhum papel.
Embora admita que o cromossoma Y é o que mais mutações tem sofrido e que será predominantemente através dele que a evolução genética se processa nos mamíferos, a mim sempre me pareceu que esta teoria dos machos dominantes e polígamos era uma generalização abusiva das práticas dos herbívoros, que vivem, de facto, em grandes grupos (de fêmas, crias, e um macho dominante). Nos carnívoros, porém, que são muito mais inteligentes que os herbívoros, as práticas "familiares" são diferentes. Há só uma regra comum: os machos não toleram crias alheias, o que cria um curioso fundamento para o regime "familiar" dos leões, por exemplo: as leoas acarinham o seu leão macho porque é ele que lhes protege as crias contra os outros machos de fora da "família" - mesmo que esse macho tenha ganho o seu estatuto matando as crias anteriores da leoa! Mas, nos carnívoros, as coisas são de facto diferentes, e mesmo nas poucas espécies que constituem grandes grupos, como as dos eficazes canídeos, ou há também uma fêmea dominante que também mata as crias das outras fêmeas e forma um casal real, como nos lobos, ou são mesmo as fêmas que são dominantes, como nas temíveis hienas.
Seja como for, a revelação de que o número dos nossos antepassados masculinos é muito menor que que o dos femininos parece apontar para a predominância do paradigma sexual dos chimpanzés sobre o dos bonoboos na nossa ancestralidade, o que para quem se imagina um macho dominante nesses tempos antigos pode parecer interessante, mas a quem eu notaria que, probabilisticamente, se fossem machos transportados no tempo para essa antiguidade seria bastante mais provável, pela simples lógica dos números, que pertencessem ao maioritário conjunto dos excluídos, e não ao da minoria dominante. Uma lógica similar à que se pode aplicar às bonitas histórias sobre príncipes e cavaleiros antigos e em que gostamos de nos imaginar a viver como eles, mas em que a simples lógica dos números nos indica ser muito mais provável sermos os seus miseráveis criados ou servos da gleba, se fossemos transportados para tais cenários.
E vem isto tudo a propósito do advento da monogamia, ocorrida há uns 5 mil anos, depois de bem assente a revolução neolítica e quando as cidades se erigiram em civilizações, com Estado, leis e escrita. Monogamia tratada legislativamente em detalhe no Código de Hamurabi, regulada nos 10 Mandamentos judaicos e imposta, claro, pelo cristianismo.
E a conjectura que me traz aqui é esta: hoje, que graças à invenção da pílula e ao facto da 3ª vaga ser partilhada pelas mulheres, temos vindo a viver uma nova revolução sexual, a das mulheres, há muito quem olhe para a monogamia tradicional como um ferrolho da liberdade. Porém, a monogamia veio trazer a cada homem o direito de ter uma mulher, quando antes essa propriedade seria exclusiva de chefes e reis, que as tinham a todas, a julgar pela descendência que deixaram (incluindo nós).
Ou seja: a monogamia, longe de ter sido um ferrolho à liberdade pessoal masculina, foi de facto uma grande evolução democrática e uma importante limitação do poder dos chefes e reis.
Para os homens, claro.
Para as mulheres, a democratização sexual teria que esperar mais 5 mil anos e ainda não foi aceite pelos muçulmanos, razão maior da guerra mundial em curso e apesar de uma amiga minha defender, talvez com algum exagero, que "no fundo de cada homem há sempre um muçulmano recalcado"... :-)
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sexta-feira, janeiro 29, 2010
Preços da electricidade - com e sem impostos
No meu post anterior, afirmei que o preço da electricidade ao consumidor doméstico era, na Holanda, 2/3 do da Dinamarca e 30 % superior ao preço em Portugal.
Porém, devia ter comparado o preço dessa electricidade antes de impostos. Por isso trouxe aqui um gráfico dos preços ao consumidor da electricidade (há 4 anos), na Europa - com impostos (o total) e sem (as barras azuis escuras).
Como é evidente, antes de impostos o preço da electricidade na Holanda é inferior ao português. Aliás, antes de impostos só a Irlanda (com os seus custos de insularidade) e a Itália têm preços superiores aos nossos.
O custo da electridade em Portugal tem um preço para o consumidor que é médio, em termos europeus, porque cá o Estado financia a energia (com subsídios às renováveis), enquanto nos países mais ricos da Europa os Estados financiam-se com a Energia.
E isto é assim porque o nosso Governo não tem a coragem de permitir que os preços reflictam inteiramento o custo da sua política de subsidiação às renováveis.
Quando esses subsídios forem inteiramente reflectidos nos preços, provavelmente então "sem tarifas" para que o Governo possa dizer nada ter a ver com esses preços e reclamar que eles apenas reflectem "o mercado", vamos garantidamente estar na gloriosa posição de ter a energia eléctrica mais cara da Europa, sobretudo considerando a necessidade de amortizar as inúteis hidroeléctricas em construção. Antes de impostos. Que se calhar também vão ter de subir, para pagar a dívida pública. E nessa altura talvez a EDP entre em falência, por incapacidade de competir com os preços da energia espanhola, e talvez as "eléctricas" espanholas a comprem. Fará isto tudo parte de um plano precisamente com esse objectivo?
Porém, devia ter comparado o preço dessa electricidade antes de impostos. Por isso trouxe aqui um gráfico dos preços ao consumidor da electricidade (há 4 anos), na Europa - com impostos (o total) e sem (as barras azuis escuras).
Como é evidente, antes de impostos o preço da electricidade na Holanda é inferior ao português. Aliás, antes de impostos só a Irlanda (com os seus custos de insularidade) e a Itália têm preços superiores aos nossos.
O custo da electridade em Portugal tem um preço para o consumidor que é médio, em termos europeus, porque cá o Estado financia a energia (com subsídios às renováveis), enquanto nos países mais ricos da Europa os Estados financiam-se com a Energia.
E isto é assim porque o nosso Governo não tem a coragem de permitir que os preços reflictam inteiramento o custo da sua política de subsidiação às renováveis.
Quando esses subsídios forem inteiramente reflectidos nos preços, provavelmente então "sem tarifas" para que o Governo possa dizer nada ter a ver com esses preços e reclamar que eles apenas reflectem "o mercado", vamos garantidamente estar na gloriosa posição de ter a energia eléctrica mais cara da Europa, sobretudo considerando a necessidade de amortizar as inúteis hidroeléctricas em construção. Antes de impostos. Que se calhar também vão ter de subir, para pagar a dívida pública. E nessa altura talvez a EDP entre em falência, por incapacidade de competir com os preços da energia espanhola, e talvez as "eléctricas" espanholas a comprem. Fará isto tudo parte de um plano precisamente com esse objectivo?
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quinta-feira, janeiro 28, 2010
O discurso do Estado da Nação e o que fez a Holanda
A previsão futurística que postei há 3 semanas de que os EUA irão apostar no nuclear como estratégia de posicionamento no movimento global para a "descarbonização" da economia, e que se baseia em somar 2 e 2 em geopolítica, tem mais um reforço: essa é a posição com que o Presidente Obama está a tentar obter o apoio dos senadores republicanos para a sua proposta de "descarbonização" e, de um modo geral, conseguir algum consenso na matéria, tanto nos EUA como na Europa. Acaba de o dizer no seu Discurso do Estado da União, embora a nossa imprensa "do regime" tenha "ignorado" esse detalhe...
Se, na verdade, olharmos para o mapa da Europa e agruparmos os seus países nos entusiastas das renováveis (Alemanha, Dinamarca, Espanha, Portugal e agora também a Inglaterra), e nos que tentam passar desapercebidos nessa matéria (Suécia, Finlândia, França, Bélgica, Itália, Polónia, República Checa, Eslováquia, Roménia, Lituânia, etc), vemos que há uma característica comum aos últimos: forte peso da energia nuclear na sua produção de energia! A Itália é um caso especial, porque fechou as 4 centrais que tinha nos anos 80 e com isso tornou-se o maior importador europeu de energia, mas recentemente acordou com a França o regresso a essa opção. E tanto a Alemanha como a Inglaterra e Espanha têm energia nuclear e correntes que o defendem, dependendo o futuro da evolução política dominante nesses países. Ou seja: quando o Governo nos tenta entusiasmar com a suposta posição de vanguarda de Portugal na corrida às renováveis, é conveniente notar que, na verdade, é uma minoria o leque de países que está nessa corrida, mau-grado toda a propaganda verde de Bruxelas nesse sentido.
Ora se os EUA vierem a afirmar, neste ano de 2010, o renascimento do nuclear conforme vaticino, a questão passará para a ordem do dia também por cá.
E, neste quadro, penso que a pior coisa que poderá acontecer a Portugal é o Governo começar a virar nessa direcção com a mesma incompetência, irresponsabilidade e sei lá que mais, com que isso foi feito na adesão à energia eólica. É de estar atento à cimeira de Abril próximo entre o nosso 1º Ministro e Sarkozy, porque penso não ser impossível vir de lá um pré-acordo de compra de uma EPR da AREVA, coisa para que o país não está minimamente preparado...
A Holanda é ainda um exemplo interessante para nós pelo seguinte:
a) tem 1,4 vezes a nossa população e 2,4 vezes o nosso consumo de electricidade, nomeadamente uma ponta de consumo de 21 GW;
b) é um país com completa liberalização do mercado de electricidade: não há subsidiações e, como consequência, o carvão produz lá 35% da energia eléctrica, o gás natural 25% em centrais de ciclo combinado, a cogeração 20%, o nuclear 3% (num "pequeno" reactor de 482 MW), e o eólico aproximadamente o mesmo, mas a electricidade para o consumidor doméstico é cara: apenas 2/3 da campeã da careza que é a Dinamarca, mas mais 30% que em Portugal, onde por sua vez a electricidade custa mais 30% que em França e mais 40% que na Finlândia [estes preços são com impostos. Antes de impostos, os preços holandeses são ligeiramente inferiores aos nossos]...
c) tem dois vizinhos: a Bélgica e a Alemanha;
d) não tem nenhuma indústria forte de equipamentos eléctricos a proteger;
e) tem bons recursos eólicos, na sua costa.
Vale ainda a pena notar que, nas negociações com Bruxelas, a Holanda conseguiu que só lhe fosse atribuída a responsabilidade de vir a ter 14% de energia de origens renováveis, mas nos estudos encomendados pediu a avaliação da possibilidade de vir a ter mesmo os 20% da regra, o que requereria a instalação de 12000 MW (12 GW) de eólicas até 2020 - 4 GW em terra com uma utilização média de 25%, e 8 GW off-shore com uma utilização de 44%. Proporcionalmente aos consumos, isso equivaleria a 6400 MW em Portugal, mais que o valor planeado pelo nosso Governo, e que é de 5700 MW (o nosso Governo ofereceu-se estoicamente para exceder a quota definida pela verdura de Bruxelas, visto que Portugal já tinha hidroeléctricas, ao contrário da Holanda, e portanto não precisava de eólicas para cumprir os referidos 20%).
O consórcio da Universidade de Delft e a SIEMENS investigaram tudo como deve ser: séries temporais do vento baseadas em dados reais, previsões a longo prazo dos consumos, correlações com os trânsitos de energia nos países vizinhos e em particular com a Alemanha, e chegaram às seguintes conclusões:
- A partir de um valor de potência eólica de 7 GW (correspondentes a 3,3 GW em Portugal, um valor que já ultrapassámos este ano), haverá energia eólica em excesso - e o que nos aconteceu em Dezembro foi a confirmação empírica disto;
- A % de energia eólica em excesso irá aumentando até aos 12 MW. O gráfico anexo, retirado de um outro paper elaborado no mesmo estudo, mostra que ao se atingirem 10.9 GW, equivalentes à nossa meta nacional de 5.7 GW, 1/6 dessa energia estará em excesso e não pode ser utilizada no país!
Evidentemente, este excesso não resulta de 20% de energia eólica ultrapassarem os 100% de consumo, mas sim da natureza intermitente do vento, que ora produz pouco, ora produz em excesso.
O estudo averiguou diversas formas de resolver o problema da energia em excesso, mas defrontou-se com o facto de existir uma correlação de 0.71 entre os ventos na Holanda e os da Alemanha, o que impede a solução dinamarquesa de vender o excesso a esse país vizinho ou através dele (situação similar à nossa com Espanha). Entre outras soluções, uma das mais acarinhadas pelos académicos é a da "gestão de cargas" - isto é, obrigar os consumidores a transferir consumos das horas a que precisam de o fazer para as horas em que a rede tem energia em excesso.
Ideia que, como já expliquei, é o verdadeiro objectivo do grandioso projecto das "smart grids" de que o nosso MIT-Portugal tanto gosta e que o nosso Governo inscreveu no Orçamento de Estado deste ano como um dos seus grandes objectivos. Mas cá para mim, penso que para implementar tal propósito será precisa uma ditadura, ainda que vendida como um Admirável Mundo Novo!...
Quanto à Holanda, e graças a ter feito atempadamente este estudo, aposto que se vai ficar pelos 14% de renováveis comprometidos com Bruxelas, ou seja, pelos seus 8 GW de eólicas (que equivale, se tivéssemos o juízo deles, a parar imediatamente a instalação de eólicas no valor já atingido).
Tanto mais que estudos complementares encomendados a outras Universidades holandesas mostram que para atingir o referido objectivo o Governo terá de gastar uma média de €1500 milhões de € por ano (lá não escondem esses custos em obscuros défices tarifários; a subsidiação na Holanda não é à tarifa, mas sim com um valor fixo para a construção das eólicas, que depois têm de competir no mercado para vender a sua energia, como todos os outros produtores)...
Se, na verdade, olharmos para o mapa da Europa e agruparmos os seus países nos entusiastas das renováveis (Alemanha, Dinamarca, Espanha, Portugal e agora também a Inglaterra), e nos que tentam passar desapercebidos nessa matéria (Suécia, Finlândia, França, Bélgica, Itália, Polónia, República Checa, Eslováquia, Roménia, Lituânia, etc), vemos que há uma característica comum aos últimos: forte peso da energia nuclear na sua produção de energia! A Itália é um caso especial, porque fechou as 4 centrais que tinha nos anos 80 e com isso tornou-se o maior importador europeu de energia, mas recentemente acordou com a França o regresso a essa opção. E tanto a Alemanha como a Inglaterra e Espanha têm energia nuclear e correntes que o defendem, dependendo o futuro da evolução política dominante nesses países. Ou seja: quando o Governo nos tenta entusiasmar com a suposta posição de vanguarda de Portugal na corrida às renováveis, é conveniente notar que, na verdade, é uma minoria o leque de países que está nessa corrida, mau-grado toda a propaganda verde de Bruxelas nesse sentido.
Ora se os EUA vierem a afirmar, neste ano de 2010, o renascimento do nuclear conforme vaticino, a questão passará para a ordem do dia também por cá.
E, neste quadro, penso que a pior coisa que poderá acontecer a Portugal é o Governo começar a virar nessa direcção com a mesma incompetência, irresponsabilidade e sei lá que mais, com que isso foi feito na adesão à energia eólica. É de estar atento à cimeira de Abril próximo entre o nosso 1º Ministro e Sarkozy, porque penso não ser impossível vir de lá um pré-acordo de compra de uma EPR da AREVA, coisa para que o país não está minimamente preparado...
A segunda nota de hoje é que, embora continue a não encontrar nada que tenha em conta a correlação do vento com a chuva no planeamento do binómio eólico-hídrico, descobri uns papers muito recentes que ilustram o tipo de estudos que devem ser feitos no planeamento de uma opção nacional pela energia eólica, num país civilizado e com dimensões do género da do nosso.
Esse estudo foi encomendado pelo Ministério da Economia da Holanda, no contexto da Directiva Europeia para a produção de 20% da energia eléctrica com fontes renováveis até 2020 (embora estudos preliminares já viessem de 2003), e foi contratado com dois tipos de entidades: várias Universidades holandesas, e uma empresa estrangeira com as melhores ferramentas de cálculo e sólida experiência, a SIEMENS, e isto apesar da KEMA ser holandesa! Uma combinação avisada. A Holanda é ainda um exemplo interessante para nós pelo seguinte:
a) tem 1,4 vezes a nossa população e 2,4 vezes o nosso consumo de electricidade, nomeadamente uma ponta de consumo de 21 GW;
b) é um país com completa liberalização do mercado de electricidade: não há subsidiações e, como consequência, o carvão produz lá 35% da energia eléctrica, o gás natural 25% em centrais de ciclo combinado, a cogeração 20%, o nuclear 3% (num "pequeno" reactor de 482 MW), e o eólico aproximadamente o mesmo, mas a electricidade para o consumidor doméstico é cara: apenas 2/3 da campeã da careza que é a Dinamarca, mas mais 30% que em Portugal, onde por sua vez a electricidade custa mais 30% que em França e mais 40% que na Finlândia [estes preços são com impostos. Antes de impostos, os preços holandeses são ligeiramente inferiores aos nossos]...
c) tem dois vizinhos: a Bélgica e a Alemanha;
d) não tem nenhuma indústria forte de equipamentos eléctricos a proteger;
e) tem bons recursos eólicos, na sua costa.
Vale ainda a pena notar que, nas negociações com Bruxelas, a Holanda conseguiu que só lhe fosse atribuída a responsabilidade de vir a ter 14% de energia de origens renováveis, mas nos estudos encomendados pediu a avaliação da possibilidade de vir a ter mesmo os 20% da regra, o que requereria a instalação de 12000 MW (12 GW) de eólicas até 2020 - 4 GW em terra com uma utilização média de 25%, e 8 GW off-shore com uma utilização de 44%. Proporcionalmente aos consumos, isso equivaleria a 6400 MW em Portugal, mais que o valor planeado pelo nosso Governo, e que é de 5700 MW (o nosso Governo ofereceu-se estoicamente para exceder a quota definida pela verdura de Bruxelas, visto que Portugal já tinha hidroeléctricas, ao contrário da Holanda, e portanto não precisava de eólicas para cumprir os referidos 20%).
O consórcio da Universidade de Delft e a SIEMENS investigaram tudo como deve ser: séries temporais do vento baseadas em dados reais, previsões a longo prazo dos consumos, correlações com os trânsitos de energia nos países vizinhos e em particular com a Alemanha, e chegaram às seguintes conclusões:
- A partir de um valor de potência eólica de 7 GW (correspondentes a 3,3 GW em Portugal, um valor que já ultrapassámos este ano), haverá energia eólica em excesso - e o que nos aconteceu em Dezembro foi a confirmação empírica disto;
- A % de energia eólica em excesso irá aumentando até aos 12 MW. O gráfico anexo, retirado de um outro paper elaborado no mesmo estudo, mostra que ao se atingirem 10.9 GW, equivalentes à nossa meta nacional de 5.7 GW, 1/6 dessa energia estará em excesso e não pode ser utilizada no país!
Evidentemente, este excesso não resulta de 20% de energia eólica ultrapassarem os 100% de consumo, mas sim da natureza intermitente do vento, que ora produz pouco, ora produz em excesso.
O estudo averiguou diversas formas de resolver o problema da energia em excesso, mas defrontou-se com o facto de existir uma correlação de 0.71 entre os ventos na Holanda e os da Alemanha, o que impede a solução dinamarquesa de vender o excesso a esse país vizinho ou através dele (situação similar à nossa com Espanha). Entre outras soluções, uma das mais acarinhadas pelos académicos é a da "gestão de cargas" - isto é, obrigar os consumidores a transferir consumos das horas a que precisam de o fazer para as horas em que a rede tem energia em excesso.
Ideia que, como já expliquei, é o verdadeiro objectivo do grandioso projecto das "smart grids" de que o nosso MIT-Portugal tanto gosta e que o nosso Governo inscreveu no Orçamento de Estado deste ano como um dos seus grandes objectivos. Mas cá para mim, penso que para implementar tal propósito será precisa uma ditadura, ainda que vendida como um Admirável Mundo Novo!...
Quanto à Holanda, e graças a ter feito atempadamente este estudo, aposto que se vai ficar pelos 14% de renováveis comprometidos com Bruxelas, ou seja, pelos seus 8 GW de eólicas (que equivale, se tivéssemos o juízo deles, a parar imediatamente a instalação de eólicas no valor já atingido).
Tanto mais que estudos complementares encomendados a outras Universidades holandesas mostram que para atingir o referido objectivo o Governo terá de gastar uma média de €1500 milhões de € por ano (lá não escondem esses custos em obscuros défices tarifários; a subsidiação na Holanda não é à tarifa, mas sim com um valor fixo para a construção das eólicas, que depois têm de competir no mercado para vender a sua energia, como todos os outros produtores)...
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terça-feira, janeiro 26, 2010
Quanta energia vão produzir todos os aproveitamentos hidroeléctricos planeados?
Notei, nos recentes debates sobre o Orçamento de Estado para 2010 e em diversas intervenções de responsáveis do Governo, que a planeada construção de um largo número de aproveitamentos hidroeléctricos passou a ser o eixo da política económica nacional.
Diz o 1º Ministro que a Energia é o eixo da sua aposta para o desenvolvimento económico, e na Energia a referida construção das hidroeléctricas é agora alegadamente o centro dessa estratégia.
Parece uma ideia consensual. Toda a gente acha bem que se aproveite a àgua da chuva, que é uma coisa limpa e renovável, e a construção das barragens parece algo capaz de criar muito emprego. Aliás, são anunciados muitos milhares de empregos, com essas barragens. E são também anunciados muitos MW de energia.
Infelizmente, tenho que vos dizer que vim aqui hoje fazer um bocadinho de "bota-abaixo". Se me quiserem seguir nos números, ficarão em condições de perceber porquê.
Tenho que começar por recordar que MW e energia não são a mesma coisa. Os MW são a capacidade de produzir energia de uma instalação, não a energia que ela efectivamente produz. Se eu fizer uma barragem de 1000 MW no deserto, terei "instalado" 1000 MW mas, obviamente, a energia que ela vai produzir será nula. Percebido? Então continuemos.
Se dermos uma vista de olhos nos números que acompanham a descrição dos 16 aproveitamentos hidroeléctricos em construção ou para construção próxima, constatamos o seguinte:
- Custo previsto: $4,85 mil milhões de €$;
- Potência média de origem hídrica: +175 MW;
- Potência média de origem eólica (armazenada): 525 MW;
- Perdas estimáveis no processo de armazenagem da energia eólica: - 175 MW (em média);
- Saldo energético médio produzido (origem hídrica menos as perdas na armazenagem da energia eólica): ~0 MW.
Pois é, a resposta à pergunta do título é: zero! Não acreditam? Os dados estão todos no site da EDP, e se não sabem fazer contas de somar e subtrair peçam a alguém que saiba. Acho que o Governo conta com a vossa inumeracia...
Como é que eles vos enganam? Primeiro, falam em energia "bruta", que é a soma de toda a energia que sai das centrais independentemente da origem. E essa irá ser 175+525= 700 MW, em média. Vocês nem reparam na palavra "bruta" e, ao mesmo tempo, eles "esquecem-se" de explicar que para produzir os 525 MW de origem eólica as centrais terão de dispender primeiro, a bombar àgua para cima, 700 MW adquiridos à rede eléctrica, vindos... das eólicas. A diferença entre estes 700 e os 525 devolvidos depois são as perdas do processo. Claro que se vocês subtrairem à tal energia eléctrica "bruta" produzida, a 700 MW em média, a consumida de que eles que se esquecem de falar, 700 MW em média, obtêm o saldo real das centrais, e é como vos digo: zero - se até não for menos...
Quanto aos milhares de empregos anunciados, como já notei aqui, são apenas durante o pico das obras durante os 4 anos de construção. Com uma diferença relativamente às barragens feitas até 1985: nesse tempo não havia imigrantes e a mão de obra da construção civil era portuguesa!...
Falta só acrescentar que ninguém teve em conta que quando fizer muito vento dias seguidos, no Inverno, também geralmente choverá muito dias seguidos, e não haverá espaço nas albufeiras para armazenar a energia eólica - como já se verificou este Inverno e ainda vamos só em 60% da quantidade de eólicas planeada pelo Governo...
Diz o 1º Ministro que a Energia é o eixo da sua aposta para o desenvolvimento económico, e na Energia a referida construção das hidroeléctricas é agora alegadamente o centro dessa estratégia.
Parece uma ideia consensual. Toda a gente acha bem que se aproveite a àgua da chuva, que é uma coisa limpa e renovável, e a construção das barragens parece algo capaz de criar muito emprego. Aliás, são anunciados muitos milhares de empregos, com essas barragens. E são também anunciados muitos MW de energia.
Infelizmente, tenho que vos dizer que vim aqui hoje fazer um bocadinho de "bota-abaixo". Se me quiserem seguir nos números, ficarão em condições de perceber porquê.
Tenho que começar por recordar que MW e energia não são a mesma coisa. Os MW são a capacidade de produzir energia de uma instalação, não a energia que ela efectivamente produz. Se eu fizer uma barragem de 1000 MW no deserto, terei "instalado" 1000 MW mas, obviamente, a energia que ela vai produzir será nula. Percebido? Então continuemos.
Se dermos uma vista de olhos nos números que acompanham a descrição dos 16 aproveitamentos hidroeléctricos em construção ou para construção próxima, constatamos o seguinte:
- Custo previsto: $4,85 mil milhões de €$;
- Potência média de origem hídrica: +175 MW;
- Potência média de origem eólica (armazenada): 525 MW;
- Perdas estimáveis no processo de armazenagem da energia eólica: - 175 MW (em média);
- Saldo energético médio produzido (origem hídrica menos as perdas na armazenagem da energia eólica): ~0 MW.
Pois é, a resposta à pergunta do título é: zero! Não acreditam? Os dados estão todos no site da EDP, e se não sabem fazer contas de somar e subtrair peçam a alguém que saiba. Acho que o Governo conta com a vossa inumeracia...
Como é que eles vos enganam? Primeiro, falam em energia "bruta", que é a soma de toda a energia que sai das centrais independentemente da origem. E essa irá ser 175+525= 700 MW, em média. Vocês nem reparam na palavra "bruta" e, ao mesmo tempo, eles "esquecem-se" de explicar que para produzir os 525 MW de origem eólica as centrais terão de dispender primeiro, a bombar àgua para cima, 700 MW adquiridos à rede eléctrica, vindos... das eólicas. A diferença entre estes 700 e os 525 devolvidos depois são as perdas do processo. Claro que se vocês subtrairem à tal energia eléctrica "bruta" produzida, a 700 MW em média, a consumida de que eles que se esquecem de falar, 700 MW em média, obtêm o saldo real das centrais, e é como vos digo: zero - se até não for menos...
Quanto aos milhares de empregos anunciados, como já notei aqui, são apenas durante o pico das obras durante os 4 anos de construção. Com uma diferença relativamente às barragens feitas até 1985: nesse tempo não havia imigrantes e a mão de obra da construção civil era portuguesa!...
Falta só acrescentar que ninguém teve em conta que quando fizer muito vento dias seguidos, no Inverno, também geralmente choverá muito dias seguidos, e não haverá espaço nas albufeiras para armazenar a energia eólica - como já se verificou este Inverno e ainda vamos só em 60% da quantidade de eólicas planeada pelo Governo...
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sábado, janeiro 23, 2010
O pensamento único abre brechas!
Como sabem, há umas duas semanas dei aqui conta de como a convergência normal entre intenso vento e chuva copiosa em todo o território nacional levou à situação de termos as eólicas a produzir a plena potência e as hídricas também - e não termos onde meter essa energia. E daí a sua "oferta" a Espanha, que por sua vez a passou a França e por aí fora.
Este absurdo, resultante da política energética existente, tem passado ao largo do Pensamento Único, que continua na generalidade extasiado com a estratégia de quem nos governa nestas matérias. Mas não há machado que corte a raíz ao pensamento e hoje, finalmente, um dos baluartes da liberdade de Imprensa em Portugal dá notícia impressa do facto. Preza-me que seja o Expresso que o faça, porque já em 1973 este jornal era um dos dois cuja leitura era proibida em Caxias (o outro desapareceu há muito).
Claro que a notícia está correcta quanto aos factos mas errada quanto às causas que lhes aponta. A culpa do que tem acontecido não é do mau tempo. Do ponto de vista das energias eólica e hídrica, de facto, o mau tempo é o melhor tempo! Como se pode ver nos gráficos europeus que mostrei aqui, nos 3 meses de Inverno (25% do ano) as eólicas geram em média 35% da sua produção anual, mas nas horas de produção máxima geram o dobro no Inverno do que geram nas melhores horas de Verão!
Dizer que a culpa disto é do mau tempo é equivalente à culpabilização da cegonha pelo apagão nacional que ocorreu em 2000!
Um outro escrito impresso que o Expresso publica hoje e que é também uma brecha no Pensamento Único é o artigo de Todo Bom sobre as PME.
Cito dele as seguintes afirmações que contêm verdades lapidares (carregados meus):
"As economias sólidas apoiam-se em grandes empresas (GE) e não em PME. As PME são organizações complementares no preenchimento da malha industrial, ou transitórias no seu processo de crescimento para GE, onde ganham capacidades e recursos para poderem ser competitivas no mercado global.
...Este deslumbramento e obsessão nacional pelas PME é pouco saudável, assim como as declarações superficiais de que é necessário apoiar genericamente as PME.
Infelizmente, os estudos que têm sido produzidos e divulgados, incluindo os oriundos das associações empresarias, são de uma pobreza intelectual confrangedora em termos do seu suporte teórico.
Uma das suas fragilidades reside na ausência de análise matricial destas organizações em termos de tecnologias/mercados, de que resultariam recomendações de acções estruturantes diferenciadas.
...Acreditar que, na fase actual dos mercados, as PME portuguesas têm recursos suficientes, mesmo com apoios públicos, para desenvolverem com sucesso processos de investimento internacionais é pura ficção. Quando muito, poderão incrementar, marginalmente, as suas exportações.
... não se conhece nenhum programa, com a intervenção obrigatória das sociedades de capital de risco com fundos públicos, desenhado para o apoio às acções de fusão, concentração e reorganização sectorial de PME no sentido do seu crescimento e incremento de competitividade".
As PME são uma bandeira tanto da Oposição como do Governo, e tudo o que Todo Bom escreve sobre elas se aplica à grande ideia que agora assola as nossas Universidades segundo a qual a "Transferência de Conhecimento" recentemente arvorada como um objectivo a perseguir se mede pelo número de "start-ups" engendradas.
Na verdade, as "start-ups" tecnológicas só terão algum impacto sócio-económico se a sua actividade se articular com a das grandes empresas, como o há muito esquecido "relatório Porter" preconizava nos anos 90 com a sua ideia dos "clusters" e das ligações em "diamante".
Quando, por exemplo, em 1993 acordei com a nossa maior empresa nacional fabricante de material eléctrico o projecto de desenvolvimento de uma nova linha de produtos (protecções digitais), na verdade não era nessa linha de produtos que essa empresa estava interessada. No que estava interessada era na manutenção da competitividade de uma outra linha de produtos muito mais importante para ela (SCADA), que por sua vez era a peça essencial de uma estratégia lançada dez anos antes para a manutenção da competitividade dos produtos tradicionais da empresa. A tal referida nova linha de produtos que desenvolvi poderá não ter criado mais que uma dezena de empregos, mas ajudou a manter outras largas centenas!
Isto são factos mais que sabidos de quem, por exemplo, leia a IEEE Transactions on Management!
É por isso que o ardente entusiasmo da política tecnológica que guia as nossas Universidades e que agora descobriu as "start-up" tecnológicas é o contrário do que parece. É, de facto, a desistência da procura de laços com a sociedade e a economia reais, a desistência da procura dos problemas reais das empresas existentes e da humilde adaptação da I&D às suas necessidades. É a resoluta adopção da velha átitude da torre de marfim, agora travestida de "transferência de conhecimentos" para empresas que na verdade não existem: são meros arranjos de oportunidade copiosamente subsidiados por fundos públicos que nunca irão a parte nenhuma!
Exactamente como os grupos de estudantes maoístas que, há 40 anos, achavam ter descoberto a verdade revolucionária e decidiam promover a revolução proletária sem nunca sair da Universidade!
Este absurdo, resultante da política energética existente, tem passado ao largo do Pensamento Único, que continua na generalidade extasiado com a estratégia de quem nos governa nestas matérias. Mas não há machado que corte a raíz ao pensamento e hoje, finalmente, um dos baluartes da liberdade de Imprensa em Portugal dá notícia impressa do facto. Preza-me que seja o Expresso que o faça, porque já em 1973 este jornal era um dos dois cuja leitura era proibida em Caxias (o outro desapareceu há muito).
Claro que a notícia está correcta quanto aos factos mas errada quanto às causas que lhes aponta. A culpa do que tem acontecido não é do mau tempo. Do ponto de vista das energias eólica e hídrica, de facto, o mau tempo é o melhor tempo! Como se pode ver nos gráficos europeus que mostrei aqui, nos 3 meses de Inverno (25% do ano) as eólicas geram em média 35% da sua produção anual, mas nas horas de produção máxima geram o dobro no Inverno do que geram nas melhores horas de Verão!
Dizer que a culpa disto é do mau tempo é equivalente à culpabilização da cegonha pelo apagão nacional que ocorreu em 2000!
Um outro escrito impresso que o Expresso publica hoje e que é também uma brecha no Pensamento Único é o artigo de Todo Bom sobre as PME.
Cito dele as seguintes afirmações que contêm verdades lapidares (carregados meus):
"As economias sólidas apoiam-se em grandes empresas (GE) e não em PME. As PME são organizações complementares no preenchimento da malha industrial, ou transitórias no seu processo de crescimento para GE, onde ganham capacidades e recursos para poderem ser competitivas no mercado global.
...Este deslumbramento e obsessão nacional pelas PME é pouco saudável, assim como as declarações superficiais de que é necessário apoiar genericamente as PME.
Infelizmente, os estudos que têm sido produzidos e divulgados, incluindo os oriundos das associações empresarias, são de uma pobreza intelectual confrangedora em termos do seu suporte teórico.
Uma das suas fragilidades reside na ausência de análise matricial destas organizações em termos de tecnologias/mercados, de que resultariam recomendações de acções estruturantes diferenciadas.
...Acreditar que, na fase actual dos mercados, as PME portuguesas têm recursos suficientes, mesmo com apoios públicos, para desenvolverem com sucesso processos de investimento internacionais é pura ficção. Quando muito, poderão incrementar, marginalmente, as suas exportações.
... não se conhece nenhum programa, com a intervenção obrigatória das sociedades de capital de risco com fundos públicos, desenhado para o apoio às acções de fusão, concentração e reorganização sectorial de PME no sentido do seu crescimento e incremento de competitividade".
As PME são uma bandeira tanto da Oposição como do Governo, e tudo o que Todo Bom escreve sobre elas se aplica à grande ideia que agora assola as nossas Universidades segundo a qual a "Transferência de Conhecimento" recentemente arvorada como um objectivo a perseguir se mede pelo número de "start-ups" engendradas.
Na verdade, as "start-ups" tecnológicas só terão algum impacto sócio-económico se a sua actividade se articular com a das grandes empresas, como o há muito esquecido "relatório Porter" preconizava nos anos 90 com a sua ideia dos "clusters" e das ligações em "diamante".
Quando, por exemplo, em 1993 acordei com a nossa maior empresa nacional fabricante de material eléctrico o projecto de desenvolvimento de uma nova linha de produtos (protecções digitais), na verdade não era nessa linha de produtos que essa empresa estava interessada. No que estava interessada era na manutenção da competitividade de uma outra linha de produtos muito mais importante para ela (SCADA), que por sua vez era a peça essencial de uma estratégia lançada dez anos antes para a manutenção da competitividade dos produtos tradicionais da empresa. A tal referida nova linha de produtos que desenvolvi poderá não ter criado mais que uma dezena de empregos, mas ajudou a manter outras largas centenas!
Isto são factos mais que sabidos de quem, por exemplo, leia a IEEE Transactions on Management!
É por isso que o ardente entusiasmo da política tecnológica que guia as nossas Universidades e que agora descobriu as "start-up" tecnológicas é o contrário do que parece. É, de facto, a desistência da procura de laços com a sociedade e a economia reais, a desistência da procura dos problemas reais das empresas existentes e da humilde adaptação da I&D às suas necessidades. É a resoluta adopção da velha átitude da torre de marfim, agora travestida de "transferência de conhecimentos" para empresas que na verdade não existem: são meros arranjos de oportunidade copiosamente subsidiados por fundos públicos que nunca irão a parte nenhuma!
Exactamente como os grupos de estudantes maoístas que, há 40 anos, achavam ter descoberto a verdade revolucionária e decidiam promover a revolução proletária sem nunca sair da Universidade!
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quarta-feira, janeiro 20, 2010
Soluções à procura de problemas
Hoje e com o patrocínio do Professor Carlos Fiolhais de Coimbra, tive um post publicado no Rerum Natura. Sobre a mentalidade típica do nosso Investigador e a culpa do Estado nisso.
Numa crónica de Julho passado num jornal diário, Pacheco Pereira recordava como, nos seus tempos de estudante universitário de Filosofia há 40 anos, era regra os Professores ensinarem o que lhes interessava pessoalmente e até, em particular, o que tinham investigado longamente nos seus doutoramentos, com pouca ligação com o que faria sentido do ponto de vista de uma licenciatura coerente.
Não pude deixar de sorrir ao ler isso porque essa situação é também uma tendência nas tecnologias. Não é assim em todas as escolas, não era assim no tempo de estudante de Pacheco Pereira, e mesmo ultimamente a coisa melhorou com a maturação do corpo docente, mas há uns anos nas engenharias também era vulgar um recém-doutorado criar pelo menos uma disciplina de opção sobre o tema que investigara e, em alguns casos, criar até especialidades inteiras de Mestrado e mesmo licenciaturas. A multiplicação de cursos basicamente similares resultou dessa proliferação de doutorados, todos à procura do seu "espaço" próprio, assumida pelas estratégias de algumas escolas.
Como disse, nos últimos anos a coisa melhorou, mas há um domínio em que esse subjectivismo persiste e tem cura difícil: o dos temas de investigação.
É frequente o recém-doutorado, sobretudo se o seu doutoramento foi um desses tradicionais "à francesa" que o ocupou 6 anos a investigar um assunto muito especializado, quase tudo sobre quase nada, como ironizam alguns, enquanto ia esquecendo o resto que aprendera, é frequente, dizia, continuar a investigar o mesmo tema depois do doutoramento, concorrendo a subsídios e fundos públicos ou europeus por muitos anos.
E, quando confrontado com o reparo de que deve procurar ligações à sociedade, aí vai ele à procura de problemas a que possa aplicar os temas que conhece e em que deseja continuar a publicar, dada a importação do lema americano do publish or perish. E muitas vezes conclui que a tal sociedade é atrasada e não o merece, visto não apresentar nenhum problema para a solução que ele domina e que lhe parece evidente ser o centro do mundo. E, se quando fez o doutoramento não era já docente universitário, vira-se para o Estado e exige-lhe emprego.
Claro que é possível inverter os termos deste binómio solução-problemas. Mas para isso é preciso que o Estado que financia os doutoramentos incorpore as entidades empregadoras na própria definição dos seus temas.
Há muitos países avançados onde o Estado só financia investigações universitárias em tecnologia se houver comparticipação empresarial nesses financiamentos. Claro que para tal é preciso que as empresas (privadas e públicas) tenham estratégias tecnológicas, e para ter estratégia tecnológica é precisa segurança financeira, sem o que uma empresa vive obcecada pelas vendas e compromissos de pagamentos, a prazo não superior a um ou dois anos; e é preciso que, se for pública, não viva apenas para fazer boa figura perante a tutela governativa, que tem um ciclo de vida não superior ao ciclo eleitoral.
Ora nenhum desenvolvimento tecnológico leva tão pouco tempo a criar e a chegar a frutos, a não ser que consista na simples compra "chaves na mão" de algo feito lá fora, para eleitor ver...
Mas, também nas áreas não-tecnológicas o Estado pode promover uma maior ligação entre os temas de Investigação e as necessidades sociais.
Porque há-de o Estado português financiar bolsas de doutoramento em História sobre a representação material da realeza assíria, por exemplo, quando não temos nenhuma base de conhecimento particular nem interesses estratégicos no Iraque, e deixar a outros a investigação histórica sobre a formação das cidades angolanas, coisa que devia interessar ao nosso Ministério de Negócios Estrangeiros (nos EUA é a CIA quem muitas vezes apoia essas investigações)? Ou porque não se relacionam os doutoramentos em Sociologia às necessidades de integração das minorias étnicas imigrantes, com o apoio das Câmaras Municipais, como nos EUA? Ou ainda, voltando de novo à tecnologia, porque não disponibiliza o Ministério da Defesa uma pequena percentagem do seu orçamento para, em conjunto com as empresas nacionais, os nossos brilhantes académicos de Automação e Robótica que vivem nuns EUA virtuais terem algo de útil com que se ocupar, como por exemplo o desenvolvimento de um drone português?
Tenho um colega mais novo que se doutorou nos EUA há uns anos sobre a aplicação da teoria dos jogos e em particular dos conceitos de Nash à formação de preços em mercados competitivos de energia. O projecto era financiado por uma entidade interessada, e provavelmente a primeira em que pensarão será numa qualquer petrolífera. Mas não. Quem financiava esse projecto era o equivalente ao nosso Ministério Público, que queria ter meios para a detecção de fenómenos de cartelização na referida formação de preços. Imaginem termos também um Ministério Público assim...
Numa crónica de Julho passado num jornal diário, Pacheco Pereira recordava como, nos seus tempos de estudante universitário de Filosofia há 40 anos, era regra os Professores ensinarem o que lhes interessava pessoalmente e até, em particular, o que tinham investigado longamente nos seus doutoramentos, com pouca ligação com o que faria sentido do ponto de vista de uma licenciatura coerente.
Não pude deixar de sorrir ao ler isso porque essa situação é também uma tendência nas tecnologias. Não é assim em todas as escolas, não era assim no tempo de estudante de Pacheco Pereira, e mesmo ultimamente a coisa melhorou com a maturação do corpo docente, mas há uns anos nas engenharias também era vulgar um recém-doutorado criar pelo menos uma disciplina de opção sobre o tema que investigara e, em alguns casos, criar até especialidades inteiras de Mestrado e mesmo licenciaturas. A multiplicação de cursos basicamente similares resultou dessa proliferação de doutorados, todos à procura do seu "espaço" próprio, assumida pelas estratégias de algumas escolas.
Como disse, nos últimos anos a coisa melhorou, mas há um domínio em que esse subjectivismo persiste e tem cura difícil: o dos temas de investigação.
É frequente o recém-doutorado, sobretudo se o seu doutoramento foi um desses tradicionais "à francesa" que o ocupou 6 anos a investigar um assunto muito especializado, quase tudo sobre quase nada, como ironizam alguns, enquanto ia esquecendo o resto que aprendera, é frequente, dizia, continuar a investigar o mesmo tema depois do doutoramento, concorrendo a subsídios e fundos públicos ou europeus por muitos anos.
E, quando confrontado com o reparo de que deve procurar ligações à sociedade, aí vai ele à procura de problemas a que possa aplicar os temas que conhece e em que deseja continuar a publicar, dada a importação do lema americano do publish or perish. E muitas vezes conclui que a tal sociedade é atrasada e não o merece, visto não apresentar nenhum problema para a solução que ele domina e que lhe parece evidente ser o centro do mundo. E, se quando fez o doutoramento não era já docente universitário, vira-se para o Estado e exige-lhe emprego.
Claro que é possível inverter os termos deste binómio solução-problemas. Mas para isso é preciso que o Estado que financia os doutoramentos incorpore as entidades empregadoras na própria definição dos seus temas.
Há muitos países avançados onde o Estado só financia investigações universitárias em tecnologia se houver comparticipação empresarial nesses financiamentos. Claro que para tal é preciso que as empresas (privadas e públicas) tenham estratégias tecnológicas, e para ter estratégia tecnológica é precisa segurança financeira, sem o que uma empresa vive obcecada pelas vendas e compromissos de pagamentos, a prazo não superior a um ou dois anos; e é preciso que, se for pública, não viva apenas para fazer boa figura perante a tutela governativa, que tem um ciclo de vida não superior ao ciclo eleitoral.
Ora nenhum desenvolvimento tecnológico leva tão pouco tempo a criar e a chegar a frutos, a não ser que consista na simples compra "chaves na mão" de algo feito lá fora, para eleitor ver...
Mas, também nas áreas não-tecnológicas o Estado pode promover uma maior ligação entre os temas de Investigação e as necessidades sociais.
Porque há-de o Estado português financiar bolsas de doutoramento em História sobre a representação material da realeza assíria, por exemplo, quando não temos nenhuma base de conhecimento particular nem interesses estratégicos no Iraque, e deixar a outros a investigação histórica sobre a formação das cidades angolanas, coisa que devia interessar ao nosso Ministério de Negócios Estrangeiros (nos EUA é a CIA quem muitas vezes apoia essas investigações)? Ou porque não se relacionam os doutoramentos em Sociologia às necessidades de integração das minorias étnicas imigrantes, com o apoio das Câmaras Municipais, como nos EUA? Ou ainda, voltando de novo à tecnologia, porque não disponibiliza o Ministério da Defesa uma pequena percentagem do seu orçamento para, em conjunto com as empresas nacionais, os nossos brilhantes académicos de Automação e Robótica que vivem nuns EUA virtuais terem algo de útil com que se ocupar, como por exemplo o desenvolvimento de um drone português?
Tenho um colega mais novo que se doutorou nos EUA há uns anos sobre a aplicação da teoria dos jogos e em particular dos conceitos de Nash à formação de preços em mercados competitivos de energia. O projecto era financiado por uma entidade interessada, e provavelmente a primeira em que pensarão será numa qualquer petrolífera. Mas não. Quem financiava esse projecto era o equivalente ao nosso Ministério Público, que queria ter meios para a detecção de fenómenos de cartelização na referida formação de preços. Imaginem termos também um Ministério Público assim...
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terça-feira, janeiro 19, 2010
Correlação entre vento e chuva e soluções à procura de problemas
Já houve quem tivesse notado que há uma estreita correlação entre o vento e o "inflow" de água da chuva nas albufeiras com bombagem, e que isso "limita a possibilidade do uso destas para armazenamento". Não foi foi nenhum académico!
De facto quase sempre os trabalhos académicos estão centrados na investigação de um qualquer novo método teórico e não na caracterização fidedigna do problema a tratar. Ou, como já notei em tempos, em regra os académicos têm uma solução que anda à procura de problemas, enquanto na vida real as coisas requerem o contrário.
Sintoma do nosso sub-desenvolvimento terceiro-mundista é os nossos políticos desconhecerem isto e deixarem-se entusiasmar com as fantasias dos académicos, que por sua vez se entusiasmam frquentemente com políticas totalmente irrealistas.
De facto quase sempre os trabalhos académicos estão centrados na investigação de um qualquer novo método teórico e não na caracterização fidedigna do problema a tratar. Ou, como já notei em tempos, em regra os académicos têm uma solução que anda à procura de problemas, enquanto na vida real as coisas requerem o contrário.
Sintoma do nosso sub-desenvolvimento terceiro-mundista é os nossos políticos desconhecerem isto e deixarem-se entusiasmar com as fantasias dos académicos, que por sua vez se entusiasmam frquentemente com políticas totalmente irrealistas.
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segunda-feira, janeiro 18, 2010
O futuro nuclear - um devaneio em jeito de nota
Um colega por quem tenho grande estima manifestou-me recentemente algum cepticismo quanto ao futuro do nuclear, evocando a suposta miragem da fusão nuclear como exemplo.
Gostaria, por isso, de notar que há diferentes estádios de experiência demonstrada nestas tecnologias, e portanto nas janelas temporais em causa.
A cisão dos átomos de Urânio 235 é usada em reactores industriais há 54 anos!...
Presentemente (desde 1996) está-se na 3ª geração de centrais deste tipo, que se distinguem das anteriores basicamente pelo aperfeiçoamento construtivo - especialmente quanto a segurança.
A transmutação do 138 vezes mais abundante Urânio 238 em Plutónio, e a cisão dos átomos deste, é a base das centrais de 4ª geração. A sua disponibilidade comercial é prevista para dentro de 20 anos, mas este atraso não decorre de haver algum problema técnico por resolver, dado que já houve várias grandes centrais prototípicas em funcionamento, nomeadamente no Japão e em França, e há ainda uma na Rússia. Os problemas que existem respeitam à fiabilidade a longo prazo das centrais e à questão da possível proliferação do Plutónio que geram e que consomem. E é isto que se espera que leve 20 anos a resolver, mas é um prazo que depende muito do empenho que a comunidade internacional colocar no projecto.
A fusão nuclear controlada, pelo contrário, é algo que ainda tem problemas sem solução técnica provada. Há um grande projecto internacional que já escolheu a França para recipiente da primeira instalação prototípica de grande potência (e de que a figura mostra o aspecto geral), mas a construção dessa central está demorada. Talvez lá para 2020 esteja pronta, mas daí até ser possível industrializar esse tipo de centrais para a produção de energia várias décadas deverão passar.
No entanto, gostaria de partilhar convosco um devaneio meu: supondo que o ITER começa a funcionar em 2020, que em 2040 o confinamento dos plasmas quentes está dominado para aplicação industrial e que portanto se começam a construir centrais de fusão, gostaria de devanear com a possibilidade de, uns 50 anos depois, lá para o fim do século, a fusão nuclear de outros materiais além do Hidrogénio já ser possivel de forma controlada.
E então, por volta de 2100, poder-se-ão construir as primeiras grandes naves interestelares que nos poderão levar aos exoplanetas de que na altura já se conhecerão muitos de tipo terrestre, e em que cada viagem levará (para os que nela forem) basicamente sempre 2 anos: 1 para acelerar até perto da velocidade da luz, e outro para a desaceleração subsequente.
Obviamente, isso requer uma energia que só reactores de fusão nuclear, eventualmente alimentados pela própria poeira do espaço, poderão produzir.
Isto, naturalmente, se não nos aniquilarmos mutuamente nem regredirmos a uma nova Idade Média, entretanto.
Gostaria, por isso, de notar que há diferentes estádios de experiência demonstrada nestas tecnologias, e portanto nas janelas temporais em causa.
A cisão dos átomos de Urânio 235 é usada em reactores industriais há 54 anos!...
Presentemente (desde 1996) está-se na 3ª geração de centrais deste tipo, que se distinguem das anteriores basicamente pelo aperfeiçoamento construtivo - especialmente quanto a segurança.
A transmutação do 138 vezes mais abundante Urânio 238 em Plutónio, e a cisão dos átomos deste, é a base das centrais de 4ª geração. A sua disponibilidade comercial é prevista para dentro de 20 anos, mas este atraso não decorre de haver algum problema técnico por resolver, dado que já houve várias grandes centrais prototípicas em funcionamento, nomeadamente no Japão e em França, e há ainda uma na Rússia. Os problemas que existem respeitam à fiabilidade a longo prazo das centrais e à questão da possível proliferação do Plutónio que geram e que consomem. E é isto que se espera que leve 20 anos a resolver, mas é um prazo que depende muito do empenho que a comunidade internacional colocar no projecto.
A fusão nuclear controlada, pelo contrário, é algo que ainda tem problemas sem solução técnica provada. Há um grande projecto internacional que já escolheu a França para recipiente da primeira instalação prototípica de grande potência (e de que a figura mostra o aspecto geral), mas a construção dessa central está demorada. Talvez lá para 2020 esteja pronta, mas daí até ser possível industrializar esse tipo de centrais para a produção de energia várias décadas deverão passar.
No entanto, gostaria de partilhar convosco um devaneio meu: supondo que o ITER começa a funcionar em 2020, que em 2040 o confinamento dos plasmas quentes está dominado para aplicação industrial e que portanto se começam a construir centrais de fusão, gostaria de devanear com a possibilidade de, uns 50 anos depois, lá para o fim do século, a fusão nuclear de outros materiais além do Hidrogénio já ser possivel de forma controlada.
E então, por volta de 2100, poder-se-ão construir as primeiras grandes naves interestelares que nos poderão levar aos exoplanetas de que na altura já se conhecerão muitos de tipo terrestre, e em que cada viagem levará (para os que nela forem) basicamente sempre 2 anos: 1 para acelerar até perto da velocidade da luz, e outro para a desaceleração subsequente.
Obviamente, isso requer uma energia que só reactores de fusão nuclear, eventualmente alimentados pela própria poeira do espaço, poderão produzir.
Isto, naturalmente, se não nos aniquilarmos mutuamente nem regredirmos a uma nova Idade Média, entretanto.
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sábado, janeiro 16, 2010
Ainda uma nota sobre o absurdo eólico
Um comentador irado com o que tenho revelado sobre o facto do excesso de vento ser concomitante com a chuva intensa, o que inviabiliza a ideia da armazenagem hidroeléctrica, escreveu-me a dizer que só chove assim poucas semanas por ano.
Ora isso é verdade. Mas também o é que só faz vento de jeito poucas semanas por ano, e que isso coincide com as semanas de chuva intensa. Com uma correlação metereológica de 98%!
Os gráficos que junto são tirados de uma Agência europeia financiada pela própria UE.
O primeiro gráfico mostra a quantidade de horas que as eólicas funcionam a uma dada % da sua capacidade ao longo do ano, para uma utilização média da sua capacidade de 1/4 (25%), que é o que se verifica na Dinamarca e também em Portugal.
O segundo gráfico mostra como essa produção se distribui ao longo do ano (valores escandinavos). É evidente que a produção eólica é muito maior no Inverno que no Verão, e isso é um facto tão bem conhecido que os EUA, por exemplo, o têm estado a considerar nos estudos lá feitos, dado que a ponta de consumo deles (como a nossa) é no Verão, mas o da produção eólica é no Inverno - e eles não têm a alta % de produção hidroeléctica que nós temos, a qual tem um padrão sazonal de produção ainda mais acentuadamente invernal.
Em Portugal, por exemplo e segundo dados da REN, em 2008 o mês de menor produção eólica foi Setembro, e o da maior foi Dezembro (2,5 vezes a de Setembro), o que confirma a distribuição sazonal normal em todo o Mundo.
Vi há pouco um interessante debate na SIC, no programa "Expresso da Meia Noite". E nele, um Prof. da Universidade Católica que até desconheço, João Confraria, disse o que me parece óbvio: o Estado precisa de estruturas de apoio técnico para o estudo e planeamento destas coisas, que não existem. Aliás, também disse outra coisa antes que subscrevo: a própria menção ao "interesse nacional" parece que passou a ser pecado!...
Ora isso é verdade. Mas também o é que só faz vento de jeito poucas semanas por ano, e que isso coincide com as semanas de chuva intensa. Com uma correlação metereológica de 98%!
Os gráficos que junto são tirados de uma Agência europeia financiada pela própria UE.
O primeiro gráfico mostra a quantidade de horas que as eólicas funcionam a uma dada % da sua capacidade ao longo do ano, para uma utilização média da sua capacidade de 1/4 (25%), que é o que se verifica na Dinamarca e também em Portugal.
O segundo gráfico mostra como essa produção se distribui ao longo do ano (valores escandinavos). É evidente que a produção eólica é muito maior no Inverno que no Verão, e isso é um facto tão bem conhecido que os EUA, por exemplo, o têm estado a considerar nos estudos lá feitos, dado que a ponta de consumo deles (como a nossa) é no Verão, mas o da produção eólica é no Inverno - e eles não têm a alta % de produção hidroeléctica que nós temos, a qual tem um padrão sazonal de produção ainda mais acentuadamente invernal.
Em Portugal, por exemplo e segundo dados da REN, em 2008 o mês de menor produção eólica foi Setembro, e o da maior foi Dezembro (2,5 vezes a de Setembro), o que confirma a distribuição sazonal normal em todo o Mundo.
Vi há pouco um interessante debate na SIC, no programa "Expresso da Meia Noite". E nele, um Prof. da Universidade Católica que até desconheço, João Confraria, disse o que me parece óbvio: o Estado precisa de estruturas de apoio técnico para o estudo e planeamento destas coisas, que não existem. Aliás, também disse outra coisa antes que subscrevo: a própria menção ao "interesse nacional" parece que passou a ser pecado!...
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sexta-feira, janeiro 15, 2010
A carteira completa de opções tecnológicas para a redução das emissões de CO2
Já aqui há meses referi que o EPRI (Electric Power Research Institute), a super-estrutura norte-americana das empresas de electricidade para a Investigação & Desenvolvimento, tinha feito um estudo sobre as consequências de se limitarem as opções tecnológicas para a produção de energia às renováveis, ou não.
Na altura, o EPRI só permitia o acesso público ao resumo do estudo. Porém, e provavelmente devido á enorme importância política do assunto, o EPRI disponibilizou agora a toda a gente o relatório completo.
É importante perceber o que diz o EPRI, numa altura em que está em curso no país - e um pouco por todo o lado lá fora - uma enorme corrida às licenças de construção de novas centrais de ciclo combinado a gás natural. Com a depressão económica em curso e o aperto dos Governos para reduzirem os défices gerados pela crise, por todo o lado a subsidiação das renováveis esmorece, e com ela voltam as regras do mercado.
Ora considerando que as reservas mundiais de gás natural já davam para 63 anos, ao ritmo de exploração do início de 2009, e que durante este ano se comprovou a eficácia das novas técnicas de extracção do gás natural dos xistos subterrâneos, o que de repente aumentou em de 20 a 40% as reservas mundiais de gás com exploração rentável (uma das grandes inovações do ano em matéria energética, segundo o MIT), a tentação de assentar todo o crescimento da produção futura de electricidade nesta fonte energética é muito grande. Vamos lá a ver se há alguém que na UE cumpre o objectivo de redução das emissões em 20%, com esta tentação - ou se o que haverá mesmo é nenhuma redução, como até aqui!
De facto, uma central de ciclo combinado emite cerca de 1/3 do CO2 da de uma a carvão, para o mesmo kWh. Mas, sobretudo, requer um investimento mínimo e tem uma construção rápida, o que é muito tentador para o investidor privado que não tem uma lógica de longo prazo.
E é mesmo sobre isso que o EPRI nos avisa.
Se assentarmos a produção de energia no gás e desistirmos da aposta no desenvolvimento das tecnologias que requerem mais tempo e investimento, como o nuclear e o carvão com aprisionamento do carbono, lá para 2050 teremos a energia a um preço tremendo!
Na altura, o EPRI só permitia o acesso público ao resumo do estudo. Porém, e provavelmente devido á enorme importância política do assunto, o EPRI disponibilizou agora a toda a gente o relatório completo.
É importante perceber o que diz o EPRI, numa altura em que está em curso no país - e um pouco por todo o lado lá fora - uma enorme corrida às licenças de construção de novas centrais de ciclo combinado a gás natural. Com a depressão económica em curso e o aperto dos Governos para reduzirem os défices gerados pela crise, por todo o lado a subsidiação das renováveis esmorece, e com ela voltam as regras do mercado.
Ora considerando que as reservas mundiais de gás natural já davam para 63 anos, ao ritmo de exploração do início de 2009, e que durante este ano se comprovou a eficácia das novas técnicas de extracção do gás natural dos xistos subterrâneos, o que de repente aumentou em de 20 a 40% as reservas mundiais de gás com exploração rentável (uma das grandes inovações do ano em matéria energética, segundo o MIT), a tentação de assentar todo o crescimento da produção futura de electricidade nesta fonte energética é muito grande. Vamos lá a ver se há alguém que na UE cumpre o objectivo de redução das emissões em 20%, com esta tentação - ou se o que haverá mesmo é nenhuma redução, como até aqui!
De facto, uma central de ciclo combinado emite cerca de 1/3 do CO2 da de uma a carvão, para o mesmo kWh. Mas, sobretudo, requer um investimento mínimo e tem uma construção rápida, o que é muito tentador para o investidor privado que não tem uma lógica de longo prazo.
E é mesmo sobre isso que o EPRI nos avisa.
Se assentarmos a produção de energia no gás e desistirmos da aposta no desenvolvimento das tecnologias que requerem mais tempo e investimento, como o nuclear e o carvão com aprisionamento do carbono, lá para 2050 teremos a energia a um preço tremendo!
No cenário de deixar as coisas correrem, teremos a redução rápida do uso do carvão e a gradual do do nuclear, e não serão as renováveis que os substituirão (aparte as eólicas, que têm um "share" garantido), mas sim o gás natural - que é o que já está a acontecer por cá. Até que a necessidade de redução das emissões de CO2 e o aumento dos preoços do gás levarão ao crescimento da "gestão da procura", que será o principal meio, a longo prazo, da resolução do problema. Gestão da procura que significa, é bom de ver, o quase-regresso à Idade Média energética...
E o gráfico seguinte, com a previsão da evolução do preço para as duas opções, mostra porquê. Mas, além desta subida de preços, a opção limitada (excluinte do nuclear e do carvão limpo) levará forçosamente também a uma situação final com muito maiores emissões de CO2...!
Por cá, as duas centrais de ciclo combinado a gás natural a quem foram concedidas licenças (Galp em Sines e Iberdrola), a adicionar às outras duas que já entraram em funcionamento em 2009 (EDP em Lares) e vão entrar em 2010 (Siemens/Endesa no Pego), aponta para a aposta habitual de sacrificar o futuro. Além de que, sinceramente, tenho pena que sejam estrangeiros metade dos investidores que vêm mamar esta vaca-leiteira...
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quinta-feira, janeiro 14, 2010
A culpa é da liberalização. Ou não?
A propósito do "absurdo eólico" para que tenho vindo a chamar a atenção, em que temos produção a mais sem ter onde a meter e a temos que deitar fora, fiz uma pesquisa aos papers mais recentes que pudessem ter sido publicados sobre o assunto internacionalmente, e falei com um colega muito sabedor.
Encontrei um único paper, já publicado este ano, que se lembra do problema do dimensionamento do reservatório da barragem, ou seja, da sua capacidade em energia armazenável, e não apenas em potência bombável ou turbinável. Mas mesmo este paper, publicado na melhor revista mundial do assunto e que por sinal é português (de alguém que tem estado envolvido no nosso grandioso pioneirismo eólico), mesmo este paper se esquece de considerar o efeito acumulado ao longo de vários dias da chuva e do vento e simplifica o problema evitando tratar a sua aleatoriedade - aliás e de facto, não trata do efeito cumulativo da chuva e da bombagem no enchimento das albufeiras. Aliás, não trata da chuva, sequer. É, portanto, um típico paper académico, mas já é um começo...
Entretanto, lembrei-me que em tempos, antes de aparecerem as eólicas, houve na antecessora da REN alguns engenheiros de grande qualidade que sabiam muito do assunto e, em particular, conheciam bem os nossos regimes hidrológicos. E tentei saber que era feito deles. Pois estão em funções meritórias, mas grupos de estudos com engenheiros desses é que já não há!
E porquê? Porque se raciocinou que, com a liberalização do mercado de energia, deixava de fazer sentido planificar o sistema energético e que os equilíbrios seriam conseguidos pelo simples jogo do mercado. O quer seria bom, porque o planeamento tolhia a inovação e a concorrência, pelo contrário, levaria sempre às melhores soluções.
Temos então que a presente situação resulta dessa liberalização dos mercados?
Bem, se os mercados energéticos fossem realmente livres e, portanto, geridos pelos interesses privados em competição, o que provavelmente teríamos era toda a nova produção energética a ser feita por centrais de ciclo combinado a gás natural! Não seria uma solução de longo prazo, mas ao menos a electricidade seria relativamente barata e sem défice tarifário.
Mas não é isso que temos.
O que temos é um sistema energético regido pelos ditames políticos de Bruxelas relativamente à redução das emissões de CO2, o que leva a subsidiar e a priveligiar as caríssimas energias renováveis e à presente situação!
O que de facto temos, não é um fruto da liberalização energética. É o fruto de um sistema definido por critérios estritamente políticos, mas sem o antigo planeamento nacional...
Ou seja, temos o pior dos dois mundos!
Ah, mas o tal paper de que falei atrás considera uma ideia interessante para quando tivermos as hídricas com capacidade reversível (mas sem capacidade de armazenamento) e que evita a vergonha de termos de doar a Espanha o excesso de energia eólica: as futuras hídricas poderão bombar a água para dar consumo eléctrico às eólicas e manter a rede estável, e ao mesmo tempo abrir as comportas de segurança ao lado para deixar a água sair (sem ser turbinada) antes que as albufeiras transbordem.
Lindo! A capacidade de inovação portuguesa tem realmente progredido muito, nos últimos anos...!
Encontrei um único paper, já publicado este ano, que se lembra do problema do dimensionamento do reservatório da barragem, ou seja, da sua capacidade em energia armazenável, e não apenas em potência bombável ou turbinável. Mas mesmo este paper, publicado na melhor revista mundial do assunto e que por sinal é português (de alguém que tem estado envolvido no nosso grandioso pioneirismo eólico), mesmo este paper se esquece de considerar o efeito acumulado ao longo de vários dias da chuva e do vento e simplifica o problema evitando tratar a sua aleatoriedade - aliás e de facto, não trata do efeito cumulativo da chuva e da bombagem no enchimento das albufeiras. Aliás, não trata da chuva, sequer. É, portanto, um típico paper académico, mas já é um começo...
Entretanto, lembrei-me que em tempos, antes de aparecerem as eólicas, houve na antecessora da REN alguns engenheiros de grande qualidade que sabiam muito do assunto e, em particular, conheciam bem os nossos regimes hidrológicos. E tentei saber que era feito deles. Pois estão em funções meritórias, mas grupos de estudos com engenheiros desses é que já não há!
E porquê? Porque se raciocinou que, com a liberalização do mercado de energia, deixava de fazer sentido planificar o sistema energético e que os equilíbrios seriam conseguidos pelo simples jogo do mercado. O quer seria bom, porque o planeamento tolhia a inovação e a concorrência, pelo contrário, levaria sempre às melhores soluções.
Temos então que a presente situação resulta dessa liberalização dos mercados?
Bem, se os mercados energéticos fossem realmente livres e, portanto, geridos pelos interesses privados em competição, o que provavelmente teríamos era toda a nova produção energética a ser feita por centrais de ciclo combinado a gás natural! Não seria uma solução de longo prazo, mas ao menos a electricidade seria relativamente barata e sem défice tarifário.
Mas não é isso que temos.
O que temos é um sistema energético regido pelos ditames políticos de Bruxelas relativamente à redução das emissões de CO2, o que leva a subsidiar e a priveligiar as caríssimas energias renováveis e à presente situação!
O que de facto temos, não é um fruto da liberalização energética. É o fruto de um sistema definido por critérios estritamente políticos, mas sem o antigo planeamento nacional...
Ou seja, temos o pior dos dois mundos!
Ah, mas o tal paper de que falei atrás considera uma ideia interessante para quando tivermos as hídricas com capacidade reversível (mas sem capacidade de armazenamento) e que evita a vergonha de termos de doar a Espanha o excesso de energia eólica: as futuras hídricas poderão bombar a água para dar consumo eléctrico às eólicas e manter a rede estável, e ao mesmo tempo abrir as comportas de segurança ao lado para deixar a água sair (sem ser turbinada) antes que as albufeiras transbordem.
Lindo! A capacidade de inovação portuguesa tem realmente progredido muito, nos últimos anos...!
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quarta-feira, janeiro 13, 2010
Demonstração gráfica do absurdo eólico - Actualizado
Há dias, fiz aqui a demonstração gráfica do absurdo eólico, mostrando como temos "exportado" (por não termos onde a meter, dado as barragens estarem cheias de água da chuva) energia eólica em quantidades de muitos GWh diários, a preço... ZERO!
Isto, claro, enquanto ao mesmo tempo pagamos essa energia aos produtores eólicos a 9 ç/kWh, e não foram previstos nem regulamentos nem meios técnicos que permitam desligar essas "ventoinhas".
Pois não é que o nosso 1º Ministro, 2 dias depois, manifestou uma exfusiante alegria com esta situação?
Tirem-me daqui!!!
___________________________________________________
Tenho vindo a referir, recentemente, o absurdo que constitui este excesso de produção eólica que já temos hoje em dia, e como o investimento em "reforços de potência" (de bombagem) hidroeléctrica poderá não resolver nada, quando faz vento, chove muito, e a temperatura é amena. Os gráficos seguintes de exploração da nossa rede do passado dia 3 demonstra-o.
O primeiro diagrama mostra como o consumo (linha a preto grosso) é inferior à soma da produção hidroeléctrica (azul) e da produção independente e não desligável (a verde), pela madrugada.
Pode-se também ver que não foi possível fazer bombagem de água porque as albufeiras já estavam cheias e tinham que despejar a água da chuva.
O segundo diagrama mostra como se decompõe a produção independente, sendo evidente a extrema irregularidade da eólica; ela atinge 2500 MW entre as 8 e as 12 horas, para às 18 horas já ter caído para cerca de apenas 1000 MW.
Isto, claro, enquanto ao mesmo tempo pagamos essa energia aos produtores eólicos a 9 ç/kWh, e não foram previstos nem regulamentos nem meios técnicos que permitam desligar essas "ventoinhas".
Pois não é que o nosso 1º Ministro, 2 dias depois, manifestou uma exfusiante alegria com esta situação?
Tirem-me daqui!!!
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Tenho vindo a referir, recentemente, o absurdo que constitui este excesso de produção eólica que já temos hoje em dia, e como o investimento em "reforços de potência" (de bombagem) hidroeléctrica poderá não resolver nada, quando faz vento, chove muito, e a temperatura é amena. Os gráficos seguintes de exploração da nossa rede do passado dia 3 demonstra-o.
O primeiro diagrama mostra como o consumo (linha a preto grosso) é inferior à soma da produção hidroeléctrica (azul) e da produção independente e não desligável (a verde), pela madrugada.
Pode-se também ver que não foi possível fazer bombagem de água porque as albufeiras já estavam cheias e tinham que despejar a água da chuva.
O segundo diagrama mostra como se decompõe a produção independente, sendo evidente a extrema irregularidade da eólica; ela atinge 2500 MW entre as 8 e as 12 horas, para às 18 horas já ter caído para cerca de apenas 1000 MW.Ao mesmo tempo, vê-se no diagrama de produção hidroeléctrica que, apesar daquele excesso de vento, não foi possível reduzir o trabalho das hídricas, sinal de que as respectivas albufeiras já estavam cheias e, portanto, incapazes de reter ou armazenar mais água.
O quarto diagrama mostra que de madrugada se reduziu a produção térmica ao mínimo, com um só dos 4 grupos de Sines a trabalhar e nenhuma central de ciclo combinado, mas mesmo assim se teve de exportar o excesso de produção eólica, por não haver onde a meter.
Pelas 4 da madrugada, a hora de menor consumo, chegaram a exportar-se mais de 1500 MW, eda meia-noite ao meio dia sempre à volta de 1000 MW, todos de origem eólica.
Finalmente, o último diagrama mostra o preço conseguido nesta exportação entre as 3 e as 11 da manhã: ZERO! E o máximo preço, 8 ç/kWh, foi atingido pelas 22 horas, quando por azar o vento decaiu e tivemos de importar!...
Isto resulta, evidentemente, de já termos potência eólica instalada em excesso e de nada ter sido previsto técnica e regulamentarmente para a poder reduzir, sendo o país obrigado a pagá-la ao produtor à volta de 9 ç/kwh para a ter de deitar literalmente fora!
E, como se pode ver pelo diagrama de produção hidroeléctrica, não é o "reforço de potência" que vai resolver as coisas: para as resolver precisávamos de albufeiras muito maiores, o que é obviamente inviável!
E só vamos ainda em cerca de 3800 MW de potência eólica instalada! Imagine-se o que será quando tivermos os 5600 MW previstos pelo Governo para 2012...! E mais o solar, e mais o eólico off-shore...!
Não é por serem pouco arrojados e nós sermos a "vanguarda" que nenhum país tem mais que 20% de produção eólica, e esse país é a Dinamarca, que praticamente não tem conflitos com a energia hídrica. É porque os outros países fazem estudos de planeamento, antes de avançarem com ideias destas. E nós, é como se vê.
Não é por serem pouco arrojados e nós sermos a "vanguarda" que nenhum país tem mais que 20% de produção eólica, e esse país é a Dinamarca, que praticamente não tem conflitos com a energia hídrica. É porque os outros países fazem estudos de planeamento, antes de avançarem com ideias destas. E nós, é como se vê.
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Energias renováveis,
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política energética
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