sábado, janeiro 15, 2011

2ªs notas de rodapé sobre "O papel da I&D no grupo EFACEC"

Há duas semanas postei um texto que escrevera para a Administração da EFACEC - Sistemas de Electrónica há 14 anos e, como o texto já era bastante longo, procurei não o aumentar com esclarecimentos adicionais. Há dias escrevi umas notas de rodapé sobre dois dos aspectos focados naquele texto, elaborado na perspectiva da indústria nacional, sobre o papel da componente curricular nos doutoramentos e sobre a alienação na produção de "papers" seguindo as modas americanas. Hoje vou discutir outras duas questões tratadas naquele texto, mas antes quero adicionar uns esclarecimentos às últimas notas de rodapé.

Tenho a consciência que as notas que escrevi não me tornam popular entre muitos dos meus colegas académicos, mas não é minha intenção menorizá-los ou de alguma forma feri-los; o sistema é como é e cada um joga o jogo conforme as suas regras. O que eu pretendo é reflectir sobre o país e em como a Ciência o pode servir, algo que não faço como académico de carreira mas como cidadão interventivo - porque a Ciência em si
e neutra, mas a forma como a usamos não é. Obviamente, se puder contribuir para que os meus colegas questionem o que andam cá a fazer pelos contribuintes que os sustentam, mesmo que suscite a sua discordância, já não será mau. Da parte deles, em particular neste momento de profunda crise nacional, é tudo o que desejo.

Relativamente à importância que atribuo a uma forte componente curricular nos programas de doutoramento americanos, a razão talvez precise de ser explicitada: é que se o doutoramento for visto, como deve ser visto, apenas como a formação escolar de uma posterior carreira de Investigação fora da própria Universidade, e que é a perspectiva em que há 14 anos escrevi o texto para a EFACEC, então é claro que o doutorado deve ser capaz de trabalhar em assuntos diferentes do tema específico em que se doutorou. Para isso precisa de ter aprendido a investigar (papel propriamente da tese), mas também de ter background para o fazer em temas diversos do dessa tese, e é esse o papel principal da formação curricular pós-graduada.
Um colega meu que se doutorou nos EUA há umas décadas e que depois trabalhou uns anos numa grande empresa americana, contava-me que era regra testarem ali a capacidade do doutorado recém-contratado pondo-o a investigar numa área muito diversa da da sua tese, a ver como ele se saía...

Relativamente à produção de papers pelos académicos, é também de esclarecer que embora existam técnicas alienadas de maximizar a sua produção, alienadas por sacrificarem tudo ao número desses papers, nem todos os académicos que produzem muitos papers o logram dessa forma. Alguns conseguem ir mudando de assunto e mesmo assim publicar inovações em todas as áreas. Um modelo exemplar de tal académico foi o Prof. Carlos Portela que já aqui homenageei. Claro que destes não há muitos e um sistema meramente quantitativo de ponderação de papers não os consegue distinguir, e claro que uma actividade de engenharia que permita defrontar problemas reais de natureza diferente estimula essa versatilidade (como acontecia com Carlos Portela). Só gente com essa competência multi-facetada corresponde à ideia popular que fora da Universidade se tem do "Professor", o sábio...!
Infelizmente a Universidade nos últimos tempos tem optado pela orientação de ponderar os papers não pela sua diversidade temática mas pelo número de citações de que são objecto, o que é mais uma aplicação mecânica das fórmulas americanas: nunca em tecnologia haverá muitas citações a um trabalho verdadeiramente inovador feito integralmente em Portugal num tema importante (como sucederá se tiver resultado de um projecto feito com empresas nacionais), pelo simples facto de ser feito em Portugal! É como nos produtos comerciais: a "marca Portugal" é um handicap...

   1. A importância da ligação dos projectos académicos de I&D às empresas e à sociedade em geral

No texto escrito para a EFACEC afirmava a importância da ligação da Universidade às empresas, e exemplificava com o bom resultado de anteriores projectos de I&D feitos no âmbito de contratos entre a Universidade e uma empresa, concretamente a EDP; bom resultado em termos da utilidade posterior das pessoas ali formadas para a indústria. Esta é uma questão chave para que a I&D realizada por académicos - professores e formandos - possa fertilizar o desenvolvimento económico nacional, sobretudo se, como acontece por cá, a pós-graduação for pobre em componente curricular e na versatilidade que esta proporciona.

Para começar, importa que essa ligação Universidade-empresas se materialize em projectos de I&D contratados entre a Universidade e empresas. Os projectos devem ser suscitados por problemas empresariais e traduzir-se em Investigação associada à produção de Teses de pós-graduação, que é como na Universidade de faz a I&D, ligando-a sempre à formação.
Porém, uma perversão comum deste conceito é a interacção entre a Universidade e as empresas ser gerida por cúpulas institucionais desde o início, o que fatalmente redunda em contratos feitos por conveniência política, quase sempre por empresas monopolistas de produtos não-transaccionáveis, a quem os custos incorridos são indiferentes ou dedutíveis nos impostos (portanto pagos pelo contribuinte) e onde as nomeações das Administrações dependem do poder político.
Os resultados de tais projectos, geralmente apenas umas folhas de papel impresso, vão fatalmente para umas gavetas onde ficam a ganhar pó. Podem ser bons para as estatísticas (de parte a parte), podem trazer dinheiro à Universidade e publicidade às empresas, mas o seu resultado para o que me traz aqui, o desenvolvimento do país, é zero! Ou negativo, dado que alguém terá sempre de pagar os custos incorridos, e nunca será nenhuma das partes envolvidas nestes arranjos!
Os projectos devem, por isso, ser definidos por operacionais - os directores técnicos que nas empresas têm a responsabilidade tecnológica, e os professores universitários que irão gerir a I&D correspondente.
Claro que é essencial apoio superior a essa interacção, de ambos os lados (já aqui voltarei), mas têm de ser os operacionais a definir os projectos, e essa definição tem de ser interactiva, ela própria feita por aproximações sucessivas.
Por um lado porque muitas vezes os técnicos das empresas não têm uma ideia clara das alternativas tecnológicas, ou pelo contrário presumem que a têm e querem apenas usar os recursos humanos da Universidade como extensão dos que lhes faltam na empresa ("mão de obra barata"), e por outro lado porque frequentemente os académicos querem impingir um resultado qualquer que já desenvolveram e que pouca relação tem com os problemas da empresa, ou pelo contrário não têm recursos para responder às solicitações da empresa, seja mão-de-obra (formandos), seja conhecimentos, e comprometem-se com o que não podem realizar (para "sacar dinheiro"), .
Chegar a uma boa definição do que se pode e deve fazer num projecto de I&D Universidade-empresas implica acertar nisto tudo, e por isso frequentemente uma das partes, senão ambas, sai frustrada com os resultados - geralmente a parte empresarial, razão por que muitas empresas vêm tais parcerias como uma "despesa" e não como um investimento.
Obviamente que tudo será mais fácil quanto mais o Académico e/ou os técnicos da empresa conhecerem e respeitarem o mundo da outra parte, forem tecnologicamente competentes e negociadores honestos. O ideal é mesmo o Académico estar "embebido" no universo empresarial, mas associado ao seu desenvolvimento tecnológico e não, como por vezes sucede, em Administrações distantes de tal desenvolvimento, sendo por isso que a relação de consultoria técnica é das mais adequadas a essa simbiose.
Naturalmente também se pode defender que a presença de técnicos das empresas na docência universitária é outra forma de promover a ligação da I&D empresarial com a académica, mas isso raramente sucede: infelizmente, tal como as mais das vezes os académicos estão nas empresas em funções de Administração distantes do desenvolvimento tecnológico, também os técnicos das empresas vão às Universidades apenas dar aulas (e buscar prestígio) e não têm qualquer participação na actividade de I&D que ali se desenvolve.
Os casos de maior fertilidade nesta participação de técnicos de empresa na docência universitária são aqueles em que um doutorado em Engenharia faz uma carreira de grande criatividade nas empresas e só depois acaba na Universidade. Carlos Portela foi um desses, especialmente na parte da sua vida decorrida no Brasil. O "Papa" de uma das minhas áreas de interesse também. E nem me estou a referir aos Professores que, como Ferreira Dias e quando ainda não se fazia I&D em Portugal, criaram os conteúdos e métodos das disciplinas que então se ensinavam em função do que eram as necessidades da indústria nacional onde trabalhavam. Mas isto hoje não existe em Portugal (com a excepção de Renato Morgado na Univ. do Minho)!

Finalmente, dadas todas as muitas razões para que um projecto de I&D entre a Universidade e empresas falhe, importa ainda notar que além do entrosamento competente e honesto dos operacionais de ambos os lados, é também preciso o apoio das Direcções das partes.
Nas empresas, é obviamente preciso que as Administrações comecem por considerar a inovação tecnológica como importante na estratégia da empresa, e depois que saibam gerir os seus operacionais com sabedoria - mantendo-os ligados à terra, apoiando-os na defesa dos interesses da empresa contra os desvios académicos mas vigiando o espírito de quintinha, sabendo graduar as expectativas de carreira e os estímulos materiais (perante a concorrência de procura desses Recursos Humanos) e, sobretudo, sabendo integrar organicamente os elementos formados na Universidade nesses projectos.
Em áreas que constituam novos negócios da empresa, a criação de novas estruturas organizativas correspondentes é uma boa solução, mas terá de defrontar o despeito das estruturas e ambições já existentes.
Uma variante mais elaborada da má tendência por vezes existente nas empresas de "irem à Universidade buscar mão-de-obra barata" para projectos cuja definição já foi feita na empresa (mal ou bem), é a de, embora reconhecendo inicialmente a sua incompetência em determinado assunto que lhes interesse e darem, por isso, espaço à iniciativa universitária na exploração das soluções tecnológicas, terminado o projecto contratado e levados os graduados liquidarem a continuidade da experiência, por vezes até "apagando" o papel da Universidade nos sucessos alcançados e fazendo crer que eles foram obtidos no seio da empresa. Embora empresarialmente isto possa fazer algum sentido em termos de imagem, é uma falta de visão de longo prazo que liquida a sustentabilidade destas relações.
Invariavelmente as exigências depois do dia-a-dia na empresa levam à incapacidade de acompanhamento da evolução tecnológica que vai ocorrendo e, a prazo de meia dúzia de anos, no máximo uma década, todos os frutos do projecto ficam obsoletos - com a agravante da "terra queimada" deixada na Universidade ser depois muito mais difícil de voltar a lavrar.
É certo que estas empresas pensam, por vezes, que se e quando o assunto precisar de novo projecto de I&D poderão ir bater a outra porta; mas infelizmente o nosso país quase nunca tem outra porta com a mesma competência da primeira, quando o projecto na primeira correu bem, porque só por acaso a empresa encontra "know-how" que lhe seja útil e já criado em algum Professor ou grupo de Professores, e porque é exactamente este tipo de projecto que permite orientar os Professores para o tipo de tecnologia efectivamente necessária às empresas.
Mesmo que a empresa incentive o desenvolvimento do know-how de que necessita noutra Universidade por si preferida, levará muitos anos, se chegar a suceder, para que essa Universidade possa igualar as qualidades da que com ela colaborou inicialmente.
E menciono este tipo de prática empresarial na relação com as Universidades porque ela existe e é típica da EFACEC, por exemplo. Só em desespero de causa recorre à colaboração de uma Universidades fora do "norte" e, por melhor que esses projectos lhe corram, "mata-os" uma vez acabados tentando sempre que da "próxima vez" o projecto seja feito na FEUP. O INESC-Norte agradece mas é bom registar que com tal comportamento a EFACEC se comporta, relativamente ao que não é "norte" de Portugal, como uma empresa tão ou mais estrangeira que algumas suas concorrentes. Portugal é assim...

Quanto às Universidades... são outra longa matéria, para desenvolvimento em próximo post!

   2.  Os projectos europeus de I&D

 No post original sobre a EFACEC, mencionei o afluxo dos fundos europeus na viragem da década de 80 para a de 90, e em como o INESC se tinha especializado na sua captação, coisa com que a EFACEC devia competir, na minha opinião.
Ora esta questão dos fundos e dos projectos europeus é crucial para a contribuição da I&D das nossas Universidades para o desenvolvimento da nossa economia. É crucial mas tem sido quase sempre... altamente negativa!
Negativa porque tem desviado as Universidades e Institutos para-universitários da procura de ligações à realidade nacional, sem que os projectos desenvolvidos com tais fundos tenham sequer dado algum contributo útil à Europa. Ou seja, a participação nos projectos comunitários de I&D tem um alto custo de oportunidade (o custo da perda dos benefícios dos projectos nacionais que, por causa destes, se deixaram de fazer), e o único benefício que terão é a obtenção de fundos pelas Universidades e institutos afins, que reforçam assim a tendência a se pensarem como um fim em si mesmo - tal como acontece com todas as burocracias.
Não sou o único a colocar estas questões. Na mesma altura em que as colocava à EFACEC, em 1996, elas eram discutidas no Parlamento do Reino Unido, por exemplo.
Ora os fundos "estruturais" para I&D só constituem uma parcela determinante dos seus financiamentos para os países periféricos, como se pode ver neste relatório. E, também como se pode ver neste outro trabalho (há muitos), a correlação entre o uso destes fundos e o desenvolvimento económico nas regiões europeias não é positiva.
Como compatibilizar, se tal é possível, a captação dos fundos europeus com a aplicação da I&D ao desenvolvimento das empresas nacionais (ou localizadas em Portugal) e, portanto, ao bem estar do povo português?
Sem dúvida, começando por ter objectivos nacionais, uma estratégia nacional, um plano nacional e, depois, explorando oportunisticamente esses fundos e os projectos em que vêm. Oportunisticamente significa aproveitá-los para fazer o que realmente nos interessa, de acordo com a nossa própria estratégia, sem pena da Europa porque esses projectos nunca resultam em nada nem para a própria Europa. E sobre isto termino este post, com dois louváveis exemplos do oportunismo que defendo quanto aos fundos europeus:

Há cerca de 18 anos, uma sucursal da GE norte-americana em Espanha, onde esta instalara no tempo do plano Marshall uma fábrica de equipamentos de protecção de redes eléctricas, decidiu promover um projecto de modernização dos seus equipamentos com fundos europeus. Para isso organizou um projecto de I&D multi-participado, em que até Portugal entrou, a par de empresas francesas e alemãs. E, nesse projecto, foram de facto desenvolvidas novas tecnologias, mas o projecto não chegou à criação de nenhum novo produto. E não chegou porque, entretanto, outra jogada oportunista se desenvolvera dentro do oportunismo da GE: um grupo de técnicos dessa sucursal espanhola, com o apoio de outras entidades exteriores, abandonou a empresa quando o projecto estava perto do fim e criou a primeira empresa espanhola daquela tecnologia, a ZIV. Que tem sido um sucesso...

O segundo exemplo é nacional. Há 20 anos Portugal conseguiu participar num projecto europeu para o desenvolvimento de uma nova geração de Sensores e Actuadores Inteligentes e Distribuídos. Tratava-se de um projecto visando essencialmente a melhoria da segurança de algumas indústrias químicas perigosas italianas e de centrais nucleares francesas e, portanto, a participação de Portugal surgiu por pressão política, e não por necessidade técnica. Como tal a tarefa que foi atribuída a Portugal foi secundária, a da criação da "interface homem-máquina" do sistema. Esta interface requeria por um lado vizualizações gráficas, do que se encarregou a Universidade, e de uma Base de Dados ligada em tempo real aos sensores e actuadores, de que se encarregou a EFACEC. E porque se interessou a EFACEC por tal tarefa? Porque estava interessada em desenvolver precisamente o seu know-how e produtos de Bases de Dados para Tempo Real para os sistemas de SCADA de redes eléctricas, SCADA que tinham sido estrategicamente definidos como área de negócio da empresa. E tudo correu bem (excepto que não há notícia do projecto ter tido alguma aplicação às centrais nucleares ou às fábricas de química)...!

Pessoalmente, se a participação em projectos de I&D tecnológica com fundos europeus não se puder inserir numa estratégia oportunista destas, sou contra a participação nacional. Para Portugal, os custos de oportunidade que esses projectos implicam não compensam os dinheiros obtidos.

domingo, janeiro 09, 2011

1ªs notas de rodapé sobre "O papel da I&D no grupo EFACEC"

Há umas duas semanas, postei um texto que escrevera para a Administração da EFACEC - Sistemas de Electrónica 14 anos antes, após terminar o desenvolvimento de 3 anos da primeira série de Unidades Terminais e de Protecção nacionais (para Média e Alta Tensão), no laboratório que criei para essa empresa, em Carnaxide. Como o texto já era bastante longo procurei não o alongar com esclarecimentos adicionais mas, agora e tendo em conta que os muitos anos passados trouxeram outra luz ao que então escrevera, julgo que vale a pena desenvolver e/ou discutir certas ideias presentes naquele texto, que fora escrito na perspectiva da indústria nacional, da economia, e não na dos Investigadores académicos, da Universidade!

  1. O papel da componente curricular nos doutoramentos
Afirmava eu que "a faceta das pós-graduações ameri­canas que é talvez a mais útil, a da ex­is­tência de uma com­ponente curri­cular de elevado nível e exigência, não está interiorizada (diria mesmo que mui­tas das ca­dei­ras de mestrado das escolas de eng. portuguesas são uma fraude)". Talvez se surpreenda com esta afirmação quem pense que isto de "inovação" é uma questão de "espírito positivo", de "auto-estima", de tirar umas cadeiras de "Empreendedorismo" e "Inovação". Eu penso que será isso se entendermos por "inovação" a arte da vigarice, a qual frequentemente também nos surpreende pela criatividade!
Na verdade, em tudo o que é realmente produtivo, a criação depende da fertilização cruzada de diferentes conhecimentos. E é por isso que é preciso antes de mais nada ter esses diferentes conhecimentos!
Tal como é sabido na Inteligência Artificial que, mais que a capacidade de inferência, o que mais interessa na Inteligência é a quantidade e qualidade do conhecimento sobre o qual realizar inferências, também na capacidade de inovação tecnológica importa antes de mais saber bem e muito.
O modelo de doutoramentos americanos é aquele em que se formou não só a espantosa criatividade tecnológica americana, mas também a asiática e muita da europeia!
Até há alguns anos, para se atingir um doutoramento em Engenharia nos EUA tinha-se de ter feito primeiro um Bacharelato de 4 anos, e depois um Mestrado de 2 anos, com tipicamente ano e meio de cadeiras. As cadeiras de Mestrado pertenciam a uma categoria muito mais exigente que as do Bacharelato, as de pós-graduação, e em regra apenas 1 em 4 bacharéis americanos em Eng.ª fazia o Mestrado. Porém, devido à procura por estudantes estrangeiros, o número de Mestres produzidos em Engenharia nos EUA era de facto de 1 para cada 3 Bacharéis.
Tirando a importantíssima diferenciação qualitativa entre as cadeiras de pós-graduação do Mestrado e as do Bacharelato, em número de anos curriculares a exigência não era muito superior à que tínhamos em Portugal antes de Bolonha (mais meio ano, e mais outro tanto para a Tese) e era mesmo igual á que existia até 1970 (quando as licenciaturas em Eng.ª eram de 6 anos em Portugal). Havia também nos EUA Mestrados profissionais, sem Tese, e que em vez desta tinham (mais) cadeiras.
Ora o doutoramento americano requeria em regra mais outro tanto de cadeiras de pós-graduação (portanto, tipicamente mais ano e meio), o que totalizava 7 anos de cadeiras, dos quais 3 de nível superior. 
Quando o Mestrado em Engenharia surgiu em Portugal, em 1983, além de exigir a licenciatura prévia de 5 anos, exigia também que esta tivesse sido feita com média de pelo menos 14 valores. As cadeiras estendiam-se por um ano e pode-se dizer, portanto, que nessa altura o Mestrado português em Eng.ª equivalia ao americano, do qual fora aliás em alguns casos simplesmente copiado, nomeadamente a nível dos conteúdos curriculares. Foi a época da criação do INESC e da explosão de doutoramentos em geral. Estes doutoramentos, porém, continuavam a não ter componente curricular, na tradição europeia de origem alemã, e daí as minhas críticas observações no texto feito para a EFACEC.
Compare-se isto com o que trouxe Bolonha: "licenciaturas" de 3 anos, e um Mestrado de 5 com apenas 4 anos e meio de cadeiras, e sem pré-selecção entre uma coisa e outra!
Por outro lado os doutoramentos agora disponíveis seguem o modelo de Bolonha (3º ciclo),alguns em parceria com Universidades americanas, nomeadamente no âmbito do "MIT-Portugal", mas onde se tem apenas um ano de cadeiras (no caso do MIT-Portugal, de qualidade mais que duvidosa!...).
Ou seja: com Bolonha, a componente curricular do doutoramento totaliza agora 5 anos e meio, menos que um Mestrado dos anos 80/90 e tanto como um Mestrado americano, além de que deixou de existir o requisito de ter feito o grau anterior com pelo menos 14 valores!
Por outro lado, a Tese que antes não tinha componente curricular mas se estendia em regra por 4 ou 5 anos, agora é para 2 anos.
Em suma: o Mestrado actual curricularmente é menos do que a antiga licenciatura, e o Doutoramento actual totaliza menos cadeiras que o Mestrado dos anos 80/90, para já nem falar no doutoramento americano...
Quanto ao Doutoramento antigo, de tipicamente de 5 anos de Tese, pura e simplesmente desapareceu. Não há. Nem o correspondente treino de I&D!...


          2. A alienação na produção de "papers" seguindo as modas americanas


Outra coisa que mencionava no referido texto, escrito há 14 anos, era a "perversão dos “papers” como um fim em si, levando a técnicas de publicação por recombinação de todo o tipo de no­vas modas, e da perversão dessas próprias modas, nascidas muitas vezes de resul­ta­dos obtidos na I&D de aplicação militar (o que é oculto mas ocupa mais de 50% da I&D uni­ver­sitária norte-americana), com fraca relação com os problemas in­dustriais".
Uma máxima que governa a carreira académica americana é: publish or perish!
A ideia subjacente é que a Investigação produzida se traduz sempre em papers, publicações avalizadas por pares (referees), privilegiando-se as publicadas em revistas (definitivas, arquiváveis em bibliotecas), sobre as publicadas apenas em Conferências (visando trocas de impressões com pares sobre os mais recentes resultados).
Porém, como a carreira académica depende sobretudo do número destas publicações, um académico tende a dedicar todo o esforço a isso, tornando a publicação do máximo número de papers o seu principal objectivo na vida. E para este efeito (publicação do máximo número de papers) existem várias técnicas, como por exemplo:
 - Conseguir que num assunto qualquer muito específico se seja uma referência mundial, e depois nunca mais largar esse assunto, explorando-o de todas as perspectivas possíveis e fazendo raides sobre assuntos conexos, mas sempre centrados no referido assunto, ganhando assim uma imagem de autoridade na matéria e trabalhando para a manutenção dessa imagem. Pode-se não saber mais nada de coisa nenhuma e o tal assunto ser irrelevante, mas se naquele assunto muito específico se publicar muito, a carreira académica é garantida e pode-se mesmo chegar a ser considerado um sábio!
- Seguir as últimas modas. Quando as modas aparecem, é fácil a qualquer trabalho que as aplique ser publicado, porque será sempre inovador desde que se mantenha na crista da onda da moda (que, como as ondas, morrem na praia e são substituídas por modas novas). Exemplos passados: Inteligência Artificial, redes neuronais, agentes, etc... A moda desta estação: smart grids!


O Ministério da I&D considera essencial publicar muito e ufana-se da melhoria estatística que se consiga nessa matéria, mas as empresas que produzem bens transaccionáveis, isto é, as que não dependem de favores estatais para a vida mas sim de terem capacidade competitiva, como a EFACEC, abominam os papers. Se há coisa que com toda a justiça detestam é que um investigador seu esteja preocupado em publicar, em vez de terminar o novo produto no prazo curto que a concorrência exige! E também não lêem papers - porque, obviamente, papers sobre assuntos exotéricos muito especializados ou sobre modas de ocasião desligadas da realidade em nada contribuem para a competitividade das empresas!
Quando muito, os únicos papers que lhes poderão interessa publicar, e às empresas compradoras de bens de equipamento ler, são que se apresentam em algumas Conferências em que também haja Exposições de novos equipamentos!
Claro que neste contexto de subordinação à produção e comercialização, durante os 7 anos em que colaborei com a EFACEC só publiquei alguns papers e em conferências dessas, os quais são irrelevantes para efeitos de carreira académica...
Quanto às modas tecnológicas, vale a pena mencionar ainda alguns exemplos de disparidade entre elas e as necessidades empresariais. Nos anos 80/90 a grande moda era a Inteligência Artificial. No Porto houve um doutoramento de alguém que durante vários anos desenvolveu uma aplicação de Inteligência Artificial para a gestão das avalanches de alarmes geradas nos centros de controlo da rede eléctrica de Muito Alta Tensão em caso de incidentes; mas, ao mesmo tempo, um eng.º desses centros desenvolveu em apenas alguns meses um programa que fazia exactamente a mesma coisa mas usando apenas o seu bom senso. Outro exemplo são os algoritmos baseados em redes neuronais para a identificação de padrões de incidentes nas redes eléctricas e de que há anos se publicam inúmeros papers: não há um único em comercialização. Os algoritmos clássicos servem perfeitamente, e os problemas reais que existem têm a ver é com as redes e protocolos de comunicação, e nada com redes neuronais!
Donde vêm, então, essas modas? Não o posso provar (dado o secretismo inerente), mas estou convencido que vêm da I&D militar, que nos EUA despende 58% dos recursos pagos pelo Estado em I&D. Senão, vejamos: a moda da Inteligência Artificial nos anos 80 é contemporânea do projecto de Reagan para a "guerra das estrelas", cujo principal problema tecnológico era o sistema automático de gestão de batalha, capaz de se auto-reconfigurar, e onde aquela tecnologia parecia ser a solução; as redes neuronais são óptimas para o reconhecimento automático de alvos militares por satélites, ou de caras de suspeitos por redes de videovigilância.
É sabido que estas tecnologias procuram, depois de desenvolvidas, aplicações civis que as rentabilizem, e é assim que estou convencido que passam dos Departamentos de Controlo e Robótica onde são desenvolvidas nos EUA para os outros Departamentos académicos. E, a propósito, é discutível o peso que têm em Portugal esses Departamentos académicos, dado não termos indústria de Defesa; andam, assim, entretidos a desenvolver robots para jogar futebol e outros brinquedos, suportados pelo erário público, em vez de estarem a desenvolver o "drône" português ou torpedos mais inteligentes para os novos submarinos, ou então serem reestruturados em algo de útil...

sexta-feira, janeiro 07, 2011

Uma previsão optimista sobre o custo das baterias?

Uma notícia de hoje dá conta de uma notícia que excitou os ecotópicos: o Deutch Bank (logo por sinal um Banco com grandes investimentos na indústria alemã de energias renováveis) anuncia que reviu em baixa a sua previsão para o preço das baterias de iões de lítio dos automóveis eléctricos para 2020: 250 USD (190 €)/kWh, em vez dos 350 que previra anteriormente.
"Estimativas" destas, entusiastas e sem bases racionais, estamos todos fartos de ouvir acerca dos painéis fotovoltaicos, mas a questão que me traz aqui é o seguinte raciocínio:
- Presentemente, estas baterias estão a cerca de 625 €/kWh (810 USD), como se pode ver pelo Nissan Leaf, ou ainda pior nos outros. Por isso, dos 30000€ que custa de base o Leaf, o mesmo que custa, antes de impostos, um BMW da série 5, metade é para a bateria. Isto para um carro com que nunca se poderá fazer uma viagem de Lisboa ao Porto ou ao Algarve, porque a sua autonomia só dá para metade dessa distância...
Para que o Leaf seja efectivamente competivo em consumos com os automóveis actuais mais económicos, os híbridos a gasolina ou os Diesel (tendo em conta a semelhança de consumos em €), é preciso que custe antes de impostos a mesma ordem de grandeza, e que a sua autonomia seja também suficiente para, pelo menos, uma viagem Lisboa-Porto ou Lisboa-Faro. Ou seja, dupla!
Quer isto dizer que para se atingir essa situação de competitividade, é preciso que a bateria do Nissan tenha pelo menos o dobro da capacidade que tem agora, e que custe menos de metade do que custa agora. Ou seja, é preciso que o seu preço caia para menos de 1/4 do valor actual, portanto para uma ordem de grandeza de 160 €/kWh.
A previsão optimista do Deutch Bank prevê que em 2020 esse preço esteja pelos 190 €/kWh. Mais ou menos o tal valor necessário de 160 kWh para que sejam competitivas. Ok - confere basicamente com as nossas previsões.
Portanto, daqui a 10 anos (nesta hipótese optimista) o automóvel eléctrico poderá começar a ser competitivo, e a lograr por isso uma quota de mercado razoável. Se for de 25% desse mercado (ultra-optimista, já que continuará a ter muito menos autonomia que os seus competidores Diesel e/ou híbridos), tal significará em Portugal que se venderão então (2020) uns 50 mil por ano, e a esse ritmo serão precisos mais 10 anos para que constituam 1/8 do parque automóvel nacional.
Não está longe da nossa previsão, que portanto não pode ser acusada de "bota-abaixo". O automóvel eléctrico só começará a ter alguma expressão na redução das importações de petróleo no mínimo daqui a uns 20 anos...

Renováveis, Carvão e Gás Natural

Hoje em O SOL, o nosso estimado amigo Mira Amaral dá mais uma estocada no seu combate pela verdade e por Portugal. Aqui o transcrevo com gosto:

O Secretário de Estado Carlos Zorrinho, recém-chegado a estas complexas questões da energia, está em maus lençóis, entalado entre a herança de Manuel Pinho, centrada num exagerado voluntarismo, diria mesmo fundamentalismo, nas renováveis da moda, e os consumidores de electricidade, domésticos e empresariais, os quais começam agora a sentir na factura eléctrica os grandes sobrecustos dessa politica (?) energética.
No dia em que publicámos o Manifesto para uma Nova Política Energética (7 de Abril de 2010) tivemos a elegância de ir ao Secretário de Estado Zorrinho explicar as nossas preocupações, que os actuais aumentos dos preços da electricidade vêm agora confirmar!
O Senhor ignorou olimpicamente os nossos alertas e o Governo veio logo a seguir publicar a 20 de Maio o Decreto-Lei 51/2010, reforçando a aposta em nova produção eólica e permitindo que os actuais produtores aumentassem a potência instalada em 20%!
Já tínhamos previsto que era impossível, como tinha acontecido até agora através duma subsidiação cruzada, que os sobrecusto da Produção em Regime Especial (PRE), isto é a produção que beneficia de preços políticos fixados pelo Governo como a eólica, a fotovoltaica e a co-geração, ficasse confinada aos consumidores domésticos, as microempresas e a iluminação pública, poupando-se as empresas a as actividades de maior peso económico a tais sobrecustos. Os dramáticos aumentos agora anunciados para as empresas confirmam as nossas previsões!
De acordo com a ERSE, verifica-se que nos chamados Custos de Interesse Económico Geral (CIEG), o que aumentam de forma exponencial são os sobrecustos das PRE (eólica e co-geração), havendo também um aumento recente dos sobrecustos dos Contratos de Aquisição de Energia (CAE’s) e dos Custos de Manutenção do Equilíbrio Contratual (CMEC’s), derivados do facto de as centrais térmicas, sujeitas aos CAE’s e CMEC’s, estarem a trabalhar hoje em dia menos horas do que estava previsto quando entraram em funcionamento. Com efeito, as renováveis têm preferência na entrada em rede, relegando as centrais térmicas para a função meramente de apoio às renováveis. Assim sendo, os CMEC’s e os sobrecustos dos CAE’s sobem justamente porque vão pagar aos produtores térmicos a diferença entre o que deveriam facturar quando estava previsto que funcionassem como centrais de base e o que facturam agora em regime suboptimo, só de apoio às renováveis. Poder-se-ia pensar que, uma vez que a sua produção dimimui na proporção inversa do crescimento da energia renovável, estas centrais térmicas se estariam a tornar dispensáveis e que a sua equilibragem contratual seria injustificada, tendendo no limite essas centrais  a desaparecerem, e com elas esses sobrecustos. Porém, tal não acontece porque o carácter intermitente das renováveis da moda exige a disponibilidade dessas centrais, as únicas capazes de suprirem a falta de vento e de chuva quando essa falta ocorre. Assim, quanto mais renovável na rede, mais sobem os CMEC’S e os sobrecustos dos CAE’s!
 (Milhões  euros)


2010
2011
Variação 2011/2010
Sobrecustos das PME’s
805
1210
50,3%
CMEC’s
305
427
40,0%
Sobrecusto das CAE’s
248
299
20,8%

Fonte: ERSE
 Na recente entrevista ao “SOL” o Secretário de Estado tenta escamotear o facto de que os aumentos dos CMEC’s e dos sobrecustos das CAE’s são decorrentes precisamente do aproveitamento suboptimo do parque térmico a carvão ou gás natural, consequência directa da intermitência a que são obrigados, pela prioridade absoluta dada às renováveis na entrada em rede. Assim, Carlos Zorrinho diz que quer renegociar os contratos com as térmicas (CMEC’s e CAE’s), esquecendo-se que o problema vem dum mix de produção desequilibrada devida ao excesso de renováveis da moda sendo pois esse sobrecusto imputável a elas! Mas nesses excessos não toca!
Carlos Zorrinho volta ainda a insistir noutra falácia, a de que as renováveis da moda que só produzem electricidade vão reduzir a importação de petróleo, o que não é verdade! Com efeito, nas nossas centrais já não se utiliza petróleo para produzir electricidade e ainda vai levar muito tempo até à massificação do automóvel eléctrico, situação em que a electricidade substituirá o petróleo. A única forma actual de reduzir as importações de petróleo era apostar nos biocombustíveis, fonte de energia renovável que tem sido completamente esquecida pelo governo!
Enfim, continuamos no irrealismo energético! Até quando?
Luís Mira Amaral
Engenheiro e Economista

quarta-feira, dezembro 29, 2010

Missão cumprida

Ultimamente, como terão reparado, deixei de falar nos sobrecustos das energias renováveis, no défice tarifário e na decomposição das tarifas.
E deixei de falar nisso porque, após muitos meses de luta quase solitária pela iluminação do assunto, contra uma espessa cortina de mentiras com a qual colaboraram personagens mediáticas, algumas até docentes universitários, nas últimas semanas os ventos mudaram e de repente, finalmente, muita gente, a começar pelos grandes jornalistas mas também outros, descobriram a luz e começaram a dizer exactamente o que eu comecei, na altura aparentemente com a "arrogância" de me julgar mais que os outros (precedido, é preciso reconhecer, pela isolada coluna quinzenal "Economia Real" do Eng.º Mira Amaral no Expresso).
Um bom exemplo de como já não preciso de falar mais neste tema é este artigo de hoje no jornal de negócios. Agora, há já muita gente a dizer o mesmo. Posso mudar de assunto. Missão cumprida - uma missão que pensei dever ao país, como Professor dos seus filhos.

Um dos novos temas a abordar, é o que o artigo que citei de Paulo Pinho menciona no fim: o do enterramento das Linhas de Energia por causa do alegado perigo das suas "radiações" para a saúde pública. A ele voltarei mas, entretanto e para quem se quiser informar, sugiro a leitura disto para começar, e disto para aprofundar.

terça-feira, dezembro 28, 2010

O papel da I&D no grupo EFACEC e os seus condicionamentos


Há 14 anos, estava a desenvolver na EFACEC - Sistemas de Electrónica com alunos e um assistente que para lá levara comigo as Unidades Terminais (de SCADA) e de Protecção de Subestações (TPU, Terminal and Protection Unities), e foi-me pedido pelo Director de área que contribuísse para uma reflexão então em curso na empresa sobre as suas perspectivas de internacionalização. O que se segue é o documento interno que redigi em resposta a este pedido e que correspondia ao que pensava da política de I&D tecnológica e que hoje, mais que nunca, se encontra em oposição ao pensamento dominante - não só no Ministério de Mariano Gago, como também na minha própria Universidade, aliás alinhada com o poder (como sempre). Em 14 anos algumas coisas mudaram, mas na maioria para pior - e por isso creio ser oportuno atirar esta pedrada ao charco!
A EFACEC é o maior grupo industrial privado nacional. É também, segundo números publi­ca­dos na imprensa, a entidade empresarial que maior despesa consagra à actividade de I&D (embora estes números possam estar algo empolados por uma arte bem desenvolvida e não criticável de captação de subsídios para I&D) [Nota: como vêm, não falo grátis quando falo de I&D "fiscal", mas naquele tempo os subsídios vinham essencialmente de fundos europeus, pelo PEDIP-"Medida 3" de Mira Amaral]. Mais importante ainda, a EFACEC se­gue per­sistentemente uma estratégia de internacionalização como resposta ao desafio da in­tegração europeia, e aposta no desen­volvimento de tecnologia própria como suporte para tal. São mui­tíssimo raras as empresas nacionais que fazem tal aposta, a qual, com todas as difi­culdades, é certamente a única que pode possibilitar um futuro ao país no 1º Mundo.
E no entanto, o grau de desenvolvimento tecnológico da EFACEC é baixo. Tal deriva de ra­zões históricas, começando pelo facto de o próprio aparecimento da EFACEC, há cerca de 50 anos, ter ocorrido um século depois do de empresas como a SIEMENS, quando os capi­tais acumulados com a neutralidade do país na II Guerra Mundial e a visão do minis­tro eng.º Fer­reira Dias o permitiram. Um século depois do nascimento das grandes empresas suas competi­doras e, o que é bem mais grave, sem tecnologia própria, ao contrário daquelas!...
Depois disso, e sem deixar de reconhecer a justeza da estratégia de protecção à nossa indústria nascente, trinta anos de aversão à liberdade de mercado e, portanto, de ausência de estímulo à ino­vação como factor de competitividade, não permitiram mais do que iniciativas isoladas como as dos estudos experimentais em transformadores do eng.º Renato Morgado, ou a aprendi­zagem empírica de algumas técnicas quando das visitas à ACEC ou resultantes da aná­lise cuidada a que os projec­tos licenciados sempre foram sujeitos. Esse torpor tec­noló­gico nes­ses 30 anos foi, aliás, geral no país - não esqueçamos que foi apenas nos anos 70 que chegaram ao país os primeiros en­genheiros doutorados no estrangeiro, onde haviam realizado Investiga­ção, e ainda por cima a maior parte deles no sofrível sistema britânico [Nota: no Reino Unido um licenciado brilhante do IST fazia o doutoramento em 2 anos, enquanto nos EUA nunca o fazia em menos de 4; o próprio IEEE considerava o doutoramento britânico um meio termos entre as teses de mestrado e as de doutoramento americanas. Mas hoje penso que apesar disso esses doutoramentos britânicos tinham também a grande virtude de "virarem" para a sociedade concreta].
O esforço de aquisição de competências próprias na globalidade das actividades industriais da EFACEC teria sempre de ser, com tal passado, impossível, dada a pe­que­nez do mercado naci­o­nal, mesmo se ele fosse totalmente protegido. Por isso, e por causa tam­bém das peias resul­tantes da de­pendência da ACEC, a administra­ção da empresa apostou, e bem, na Electrónica Industrial como área nova e prioritária de desen­volvimento tecnológico, numa estratégia bem explicada por Renato Morgado em 1983. Porém, a integração europeia realizada na última dé­cada, se veio tornar ainda mais urgente a aquisição de competências pró­prias traduzidas em produtos capazes de competir nos mercados globalizados, veio por outro lado agravar a com­petição no próprio mercado nacional, re­du­zindo com isso os volumes de vendas e praticamente anulando as margens de comercialização e, em consequên­cia, a disponibilidade de meios de in­vestimento para a aquisição das referidas com­petências. Competências que têm duas vertentes: a tecnoló­gica e a comercial. Mas, sendo reconhe­cida a extraordinária habilidade comercial da empresa, é certamente na disponibilidade de produtos de concepção própria e capazes de ofe­recerem vantagens competitivas no mercado internacional que reside a grande dificuldade da internacionalização - e, portanto, da própria sobrevivência.
A referida escassez de meios de investimento é entretanto compensada pela disponibilidade tem­po­rária de fun­dos europeus, pelo que as maiores dificuldades ao referido desenvolvimento de com­petências não se situarão na escassez de dinheiro. Mas, sendo esses fundos de dis­poni­bili­dade tem­porária, é compreensível que a empresa desenvolva uma corrida contra o tempo e só endogenize na sua es­trutura os Recursos que forem sendo capazes de se auto-sustentar - isto é, cuja criação de ri­queza prove a sua viabilidade.
A esta encruzilhada difícil que é, em grande medida, a do próprio país, junta-se um contexto tec­nológico nacional desfavorável - isto é, os parcos Recursos Huma­nos existentes, concentra­dos na Universidade e desenvolvidos aí ao longo dos anos 80, não têm uma cultura de apoio à indústria, pela qual têm, aliás, um considerável des­prezo, um muito disseminado desconheci­mento das capaci­dades exis­tentes, e uma fre­quente visão das empresas como galinhas de ovos de ouro a ex­plorar em benefício da Uni­versidade, vista como fim em si.
Esta situação resulta de diversos factores, de que os mais importantes serão:
1) uma cultura aristocrática na Universidade, tradicional até aos anos 70, mas ainda presente em muitos doutorados sobre­tudo dessa década, e que se manifesta no próprio facto de terem na maioria feito doutoramen­tos no Reino Unido e não nos Estados Unidos da América - isto é, mais que com­petências, obtive­ram um título nobiliárquico de prestígio. Tal espírito con­tras­ta, por e­xem­plo, com a ati­tude corrente dos asiáticos que se doutoram nos EUA, país em que, devido sobretudo à realiza­ção de cadeiras de pós-graduação tanto no mestrado como no dou­toramento, estes graus têm uma qualidade muito supe­rior à eu­ropeia. Ora é prá­tica corrente nos EUA os asiáticos re­a­lizarem estágios em empre­sas ameri­canas após os douto­ramentos e antes de re­gressarem aos seus países - isto é, não só adquirem o “background” cur­ricular e a capacidade de iniciativa em I&D, como treinam de­pois a sua aplicação no ambi­ente em­pre­sa­r­ial. É que o seu objectivo não é a ob­tenção de um título no­biliárquico para faze­rem car­reira nas Universi­dades públicas dos seus países, mas sim o de ad­quirirem competências úteis à actividade em­presarial. No nosso país, currículos desses con­tam-se pelos dedos - Tribo­let, Fon­seca de Moura, Salcedo, etc. Claro que o ambiente na­cional dos anos 70 tam­bém não fa­vorecia uma estratégia de pós-graduações no estrangeiro visando a aquisição de com­petên­cias de utilidade empresarial...! Que empresas tin­ha al­guma vez havido, em Por­tu­gal, que produzis­sem baseadas em tec­nologia própria, tec­nologia de ponta da que se aprendia no es­trangeiro e que é preciso manter em desen­volvimento? Seja como for, o certo é que tal men­ta­li­dade aris­tocrática que despreza a noção de produção de ri­queza e procura a pura “realização in­telec­tual”, existe. E se ela é infelizmente im­por­tante nas Uni­versidades, nos labo­ratórios do Estado é mesmo um verdadeiro paradigma...
2) Outro factor crucial que, na Universidade, se opõe à criação de tecnologia de apli­cação em­pre­sarial é a adopção do modelo norte-americano. Neste modelo, é a pro­dução de I&D tradu­zida em “papers” que determina a valorização dos currículos e, como consequência, da pro­gressão na car­reira. Ora os “papers” só são possíveis nas áreas de con­hecimento em que, em absoluto mundial, haja inovação. O modelo norte-americano pressupõe que serão depois as empresas, ou os labo­ratórios do Estado, quem fará o Desen­volvimento e as aplicações comer­ciais. Esse sistema funciona bem nos EUA, com a Universidade a fazer principalmente a In­ves­tigação de alto risco, alargando as fronteiras do conhecimento, e as empresas a faze­rem o De­s­envolvimento, aplicando o melhor daquele conhecimento e desenvolvendo as tec­nologias ren­táveis. O problema é que este modelo é bom para países em que é a indústria que detém o “know-how” aplicado, que o desenvolve e con­cretiza; mas nos países em que a in­d­ús­tria não tem esse “know-how” e pre­cisa de redescobrir muito do que, em ab­soluto mun­dial, já é co­n­he­cido (mas não divul­gado), o modelo norte-americano pro­duz um fosso en­tre os in­teresses tec­nológicos da indústria e os da Universidade. A existência deste fosso no nosso país foi bem apontada por Renato Morgado diversas vezes nos anos 80. Na prática ele traduz-se em que para um Universitário promissor, capaz de se en­volver na com­petição por uma car­reira, os te­mas de I&D capazes de o interessarem só po­dem ser os propiciadores de “papers” e não os de produtos. De “papers” aceitáveis em revistas geralmente editadas nos EUA...
Além deste fosso entre os interesses tecnológicos da Universidade e os das em­pre­sas portu­guesas, gerado pelo modelo norte-americano, acontece que infelizmente o próprio modelo norte-ame­ri­cano tende a ser aplicado, nas Universidades portuguesas, de forma degradada. Tal de­grada­ção mani­festa-se no baixo nível de muitas das cadeiras de pós-gradua­ção ensinadas nos mestrados (cuja e­x­is­tência no país, é de recor­dar, tem pouco mais de uma dé­cada) [Nota: os mestrados de que estava aqui a falar não têm nada a ver com os actuais de Bolonha!], e na inexis­tência de cadeiras no doutoramento - ou seja, a faceta das pós-graduações ameri­canas que é talvez a mais útil, a da ex­is­tência de uma com­ponente curri­cular de elevado nível e exigência, não está interiorizada (diria mesmo que mui­tas das ca­dei­ras de mestrado das escolas de eng. portuguesas são uma fraude)! Por outro lado, o grau de exi­gência das Teses de Mestrado e de Doutoramento nacionais nada têm tido a ver, em anos re­centes, com o das norte-americanas.
Esta degradação resulta em primeiro lugar de muitos dos docentes da pós-graduação não te­rem, eles próprios, realizado qualquer estudo curricular nas suas pós-graduações: ou por que as fizeram no Reino Unido ou França, onde tal prática não existe, ou por que as fizeram em Portugal antes da existência de mestrados, ou por que já as fizeram no actual sistema de­gra­dado - reproduzindo e acentuando o seu baixo nível. A invocação, por vezes exprimida, de que as licenciaturas portuguesas de 5 anos já incorporam o conteúdo das cadei­ras de pós-gradua­ção norte-americanas, esquece a tremenda diferença de nível e de exigência dessas cadei­ras - re­sultante, antes de mais, da pré-se­lecção dos alunos feita, no sistema americano, pela separa­ção do bacharelato relativamente ao mestrado, permitindo exigir nes­te incom­paravel­mente mais, e por a admissão aos doutoramentos exigir a aprovação com "A" em todas as cadei­ras pré-condicionantes!...
A importação do modelo norte-americano de valores Universitários só adoptou, infelizmente e em regra, a valorização dos “papers” como medida de competitividade, não conseguindo in­corporar a elevada qualidade das suas pós-graduações. Ora esta valorização tende por sua vez a sofrer da perversão dos “papers” como um fim em si, levando a técnicas de publicação por recombinação de todo o tipo de no­vas modas, e da perversão dessas próprias modas, nascidas muitas vezes de resul­ta­dos obtidos na I&D de aplicação militar (o que é oculto mas ocupa mais de 50% da I&D uni­ver­sitária norte-americana), com fraca relação com os problemas in­dustri­ais.
O facto é que, tal como a mentalidade aristocrática, o modelo de valores norte-ameri­canos na Uni­versidade é um facto incontornável. Certo é que haverá sempre indivíduos excepcionais que mesmo no ambiente descrito, ou até sem passarem pela pós-graduação universitária, con­seguem obter um conhecimento aplicável de elevado valor empresarial. Mas são essencial­mente auto-didactas, como tal em pequeno número, um número claramente insuficiente para as necessidades de desen­volvimento tecnológico sustentado da EFACEC.
3) Finalmente, o factor INESC. Ao contrário dos dois factores anteriores que se divorciam das es­tratégias de desenvolvimento tecnológico empresarial e, em particular, da do Grupo EFA­CEC, o INESC não recusa o Desenvolvimento de tecnologia aplicada em produtos. Porém, a forma como o faz é inconsequente e, muitas vezes, oposta ao real desenvolvimento tec­noló­gico empresarial e à correspondente criação de riqueza.
O INESC foi criado em 1981 (na mesma altura que a EFACEC/SE...), pelo Prof. Tribolet, tendo como modelo os laboratórios Bell dos EUA. Tanto estes laboratórios da ATT em que Tribolet esta­giou, como o MIT onde se doutorou, são as grandes referências da sua actua­ção. À época da sua criação, o I­NESC constituiu uma verdadeira revolução nacional no panorama tec­noló­gico então cir­cunscrito à Universidade e defrontou, com êxito, a oposição da cultura aris­tocrá­tica domi­nante, aliando-se aos defensores do modelo Universitário norte-americano, lide­rados pelo Prof. Fon­seca de Moura. A revolução consistiu essencialmente na defesa da In­ves­tigação Aplicada, na do De­sen­volvimento Tecnológico, e na ligação às em­presas CTT e TLP, con­gé­neres nacionais da ATT americana numa relação replicante da que os laboratórios Bell têm com a ATT.
Em meia dúzia de anos o INESC atingiu um inegável sucesso: 1) galvanizou um largo con­junto de professores e de alunos para o seu projecto, em muitos casos por motivos ge­ne­ro­sos, particular­mente entre os jovens; 2) Criou uma estrutura que rapidamente se tornou a mais efi­caz no país na captação de subsídios à I&D; 3) Conseguiu criar uma imagem nacional de ins­ti­tuição tecnologica­mente competente e disponível, vindo aliás a determinar, em grande medida, as es­tratégias governa­mentais na primeira metade dos anos 90; 4) estendeu-se a quase todas as Universidades e atingiu uma grande dimensão em quadros.
Apesar da inegável inovação que o INESC constituiu na História da engenharia nacional, ele tem geralmente falhado no seu objectivo primordial inicial: a transferência de tecnologia para o tecido económico existente. E isso resulta, sem dúvida, de uma errada filosofia que consiste em pen­sar a tecnologia, nascida da Investigação Universitária, no seguimento das modas e ten­dên­cias norte-americanas, como o primeiro objectivo para o qual há depois que procurar apli­cação económica - ou seja, em pensar a Universidade e não as empresas em mercado como o motor do de­sen­volvimento eco­nómico...!
Esta filosofia foi sobejamente demonstrada pela História como incapaz de criar os resulta­dos indica­dos, acabando sempre, inclusive nos laboratórios Bell em que se inspirou, por gerar apa­relhos pesa­dos e improdutivos que se tornam, por força das coisas, um fim em si mesmo - aca­bando a competir contra as entidades económicas que pretendiam inicialmente servir, pe­los Recursos Humanos, pelos subsídios, e, em certos casos, pelos próprios mercados.
Esta filosofia só é possível por que a actividade económica não é a fonte que sustenta as suas estru­turas. O INESC vive à custa do Estado - através da Universidade que lhe paga os Profes­sores e lhe cede os alunos, e dos subsídios para I&D e “formação” profissional. Os produtos resultantes da sua tec­nolo­gia não são o seu ganha-pão. E esta irrealidade acaba por ser, pelas razões oportuna­mente explicadas por Michael Porter, um travão à viabilização económica da I&D empresarial.
Na EFACEC e outras empresas existe, pelo contrário, a saudável noção de que o seu objec­tivo fi­nal são as vendas e as margens - ou seja, o dinheiro - e que a tecnologia é um meio, por ve­zes, de conseguir esse fim. Esta é, sem dúvida, a única perspectiva que pode fazer da tec­nolo­gia uma fonte de riqueza. A perspectiva que parte das necessidades do mercado para o Desen­vol­vimento de pro­dutos, e deste para a Investigação, e não ao contrário...
Porém, uma excessiva polarização no esforço de vendas e de aumento de margens pode tam­bém fazer perder de vista a necessária cadeia de criação tecnológica. No limite, a atenção pode centrar-se de tal forma nas vendas que tenda a tornar-se uma actividade eminentemente co­mer­cial, pouco in­teressa de quê, e a procurar margens na redução de custos até à auto­fagia! Quando o mer­cado exige depois a disponibilidade de produtos incorporando uma tec­nologia inexistente, a solução de recurso à Universidade ou INESC descobre, com frequência, a ine­xis­tência de conhecimentos e pessoas utilizáveis.

Do que foi dito resulta que é minha opinião que, numa perspectiva estratégica de longo prazo, a EFACEC deve procurar garantir o controlo da cadeia de criação tecnológica desde a sua ori­gem, a Investigação aplicada e a formação que lhe está associada nas Universidades.
O Desenvolvimento de produtos não deve ser realizado na Universidade. A Universidade visa e deve visar a obtenção de conhecimentos e o seu ensino e, por conseguinte, deve centrar-se na In­vestigação associada a Teses - de licenciatura, de mestrado e de doutoramento.
O De­senvolvimento visa a criação de produtos vendáveis em mercados abertos, e portanto deve ser orientada por objectivos comerciais, ter em conta desde a concepção os custos de produção e de compo­nentes, contemplar os aspectos de imagem, o design e as interfaces Ho­mem-Máquina, guiar-se por preços-objectivo e pelas soluções da concorrência, e ser go­v­er­nada pelas regras da Pro­priedade Intelectual. Estes aspectos só são possíveis no interior de empresas, num ambiente em­presarial fortemente integrado, nunca num ambiente de Ensi­no!
A EFACEC deve pugnar junto do Governo para que os subsídios que têm sido destinados ao IN­ESC e utilizados para projectos de Desenvolvimento, sejam canalizados para as em­presas, e em particular para a EFACEC. Tal transferência de fundos, que poderá ser subs­tan­cial, poderá permitir à EFACEC desviar parte dos Recursos Humanos e materiais do INESC para seu próprio uso (notícias recentes parecem indicar uma reorientação positiva dos finan­ci­amentos estatais nesta direcção).
Por outro lado, a política de subsidiação da Investigação Universitária deverá ser também de­finida em estruturas consultivas do Estado em que a EFACEC - e eventualmente outras em­pre­sas - ten­ham um papel determinante. Esta é a fórmula sueca, por exemplo.
Mas, reconhecendo à Universidade o papel de efectuar a Investigação e a formação associada, e não pretendendo degradar esse papel com objectivos oportunistas de exploração de mão de obra barata, é necessário que a EFACEC possua uma noção clara das áreas em que lhe interessa estrategicamente ter “know-how”, o que por sua vez exige recur­sos próprios de elevado nível. Na prática, a associação a Professores universitários em áreas chave poderá ser uma solução - elementos que ajam, claro, como agentes da EFACEC na Universi­dade, e não o con­trário.
Note-se que o oportunismo não consiste, naturalmente, em exigir trabalho gratuito a estudan­tes, ou em exigi-lo em quantidade. Nem tão pouco em querer que o façam para benefício de uma empresa externa à Universidade, desde que não se perca de vista que o referido trabalho gratuito é um inves­timento do estudante e das suas famílias visando a sua formação. O opor­tunismo reside em sacrificar a aquisição de conhecimentos técnico-científicos à produção de resultados comercializáveis acaba­dos, já que não é esta a função da Escola. No entanto, a aprendizagem de matiz nitidamente profis­sionalizante no interior das empresas é possível e mesmo desejável - como estágios.
Há também que ter em conta que por Investigação se não en­tende apenas a Investigação te­ó­rica dos grandes temas, ou seja, a correspondente às Teses de doutoramento - mas sobretudo a Investi­gação aplicada de certos assuntos ou pro­blemas bem definidos e mais ou menos com­plexos, que podem ir desde o estudo das po­tencia­lidades de um novo microcontrolador para alguma aplicação específica, à implemen­tação de um algoritmo de estimação de estado num certo ambiente de soft­ware. Investiga­ções, por ou­tras palavras, adequadas a Teses de Licencia­tura (sem tradição no nosso país mas equivalentes a Trabalhos Finais de Curso) ou de Mes­trado - dado que toda a Inves­ti­ga­ção Universitária tem ser capaz de se traduzir numa formação académica bem identificada ou é oportunista. Desde que estas condições sejam verificadas, só se pode desejar que toda a actividade de Investigação seja do interesse das empresas e susci­tada por elas, não faltando na EFACEC os temas que a motivem.
Entretanto, é de sublinhar a importância que tiveram dois projectos de I&D desenvolvidos sob contrato entre a Indústria e a Universidade, para a formação de dois engenheiros que aliam, nas suas competências, a formação tradicional em Sistemas de Energia com o domínio de no­vas tecnologias informáticas, e que são dos raros, no país, a possuir as aptidões de que a EFACEC necessita. Não há qualquer dúvida de que re­sultaram do facto de os seus trabalhos de Investigação terem sido orientados por necessida­des industriais (embora da EDP, em ambos os casos).
Para que esta subordinação da Universidade seja possível, é necessário desenvolver uma estra­tégia de relacionamento institucional com a Universidade. O limite desejável será gerir uma Uni­ver­si­dade em parceria com outras empresas e determinados organismos do Estado, como é bom e­xemplo o SUPÉLEC, sem dúvida a Universidade francesa que maior prestígio tem con­se­guido nos últimos anos, e cujos “papers” são do melhor que se tem pu­bli­cado re­centemente no estudo de problemas bem reais, usando com alto ní­vel no­vas ferramentas mas bem adequa­das a esses proble­mas...
Tal limite será difícil no nosso pequeno país, a curto prazo. A alternativa poderá ser, então, uma es­tratégia de aliança a grupos de Professores visando a tomada do poder interno de al­guma(s) Univer­sidade(s) existente(s), estratégia do tipo da que o INESC desenvolve como grupo na Univer­sidade, o que requer meios de pressão e de atracção - provavelmente o poder de, através do Estado, definir as políticas de subsidiação da Investigação Universitária.

Muito do que aqui exprimia em Janeiro de 1997 ficou desactualizado com a adopção de Bolonha, na última década. E, por outro lado, no que respeita especificamente à EFACEC, pode-se dizer que ela prosseguiu esta visão mas muito moderadamente e circuncrevendo-se à FEUP, onde o INESC-Porto conseguiu escapar à voragem estatista e pior que aristocrática, cortesã (numa tradição nossa milenar que não enfraquece), que os Governos do PS trouxeram consigo como modelo à I&D tecnológica. Conseguiu até passar a ter enorme influência sobre o Governo dos "mouros", enquanto preservava a sua estratégia própria.
Pena é que reine ali um regionalismo radical e auto-exclusivo da nação no seu todo.

domingo, dezembro 26, 2010

I&D real ou fiscal? - uma adenda

Tal como eu notei há semanas no post sobre este assunto, na mesa redonda que passou na SIC Notícias na sexta-feira 26 de Novembro, o Secretário de Estado da Ciência e Tecnologia fez uma ligeira inflexão a algo que afirmara uns anos antes, sobre a razão do prodigioso aumento da I&D empresarial portuguesa. De facto, enquanto antes ele a explicara por que o SIFIDE "destapara muita I&D que se vinha fazendo", agora estabeleceu uma relação entre esse prodigioso crescimento da I&D empresarial e a despesa pública em I&D, dando a entender, embora não de forma clara, que fora a I&D feita nas Universidades que suscitara a empresarial.
O Secretário de Estado não foi taxativo nesta afirmação, mas foi-o o próprio Ministro agora, numa entrevista publicada no Diário de Notícias. Cito: "O facto de termos tido nos últimos anos uma grande expansão da investigação nas empresas é, em grande parte, resultado do investimento público. Pode parecer contraditório, não é o investimento nas empresas, é o investimento público nas universidades. Foi o investimento público nas universidades ao longo de muitos anos que criou as condições de formação, de formação avançada, de internacionalização..."
Ora é difícil acreditar nesta relação. 
O investimento público na I&D universitária - visto que não se trata do investimento no ensino - tem sido orientado para bolsas de doutoramento. Mas as empresas que mais "investem" em I&D, segundo as declarações fiscais que servem de base às estatísticas, não contratam doutorados, conforme já há cerca de ano e meio eu aqui contabilizara; recordo o que então compilei:

Apesar de se "produzirem" agora em Portugal 1400 doutorados por ano, com 815 em áreas científicas e 270 em Engenharia e Tecnologia, a I&D empresarial apenas empregava, ao todo... 360! Olhando para quem é que empregava esses 360 doutorados, verificava-se que:
  • 63 estavam nas Indústrias Químicas e Farmacêutica. Viva a Hovione!
  • 58 estavam na consultoria e nos serviços às empresas, provavelmente a maioria no Ambiente.
  • 27 estavam nos Serviços de Informática, apesar deste sector ser o campeão em número de investigadores declarados (32%); a Novabase e o Carapuça devem ter boa parte...
  • 22 estão na Banca e Serviços Financeiros, um número proporcional à % de investigadores declarados (7%), mas muito inferior ao peso na despesa deste sector;
  • 37 estarão empregados pelo conjunto de toda a indústria, a somar aos da Química e das farmacêuticas;
  • 1 ou 2, apenas, estavam nas Comunicações, apesar do peso deste sector na despesa de I&D;
  • 7, apenas, estavam na Energia (e destes sei que pelo menos 3 foram dispensados depois de 2007, 2 deles por "necessidades de contenção orçamental"...);
Porém, até 2003 inclusivé, o número de doutorados contratados por empresas em Portugal não excedia anualmente... 15!
Se são as empresas que são retrógradas e não percebem a utilidade dos doutorados, como acusam os universitários, ou se são os doutorados que pouco know-how têm com aplicação às necessidades reais das empresas, como acusam estas, é assunto para outra conversa. Para breve.

Entretanto, no recente documento laudatório recentemente publicado pelo Governo sobre "AS EMPRESAS E INSTITUIÇÕES HOSPITALARES COM MAIS DESPESA EM ACTIVIDADES DE I&D EM 2008", entre encumiásticas estatísticas sobre as despesas "declaradas" por essas empresas em I&D, há uma lista ordenada pelo número de doutorados que empregavam mais recentemente, em 2008; quantos?
114 ao todo! E, destes, só 32 são nas duas farmacêuticas de referência, a Hovione e a Bial (a indústria farmacêutica empregava 64 doutorados no inquérito anterior)!
Na Energia, a EFACEC tem um doutorado e a EDP, que declara ter gasto 88 milhões de € em I&D (!!!) e empregar 86 investigadores, agora tem nenhum doutorado!...
Ou seja, e como a minha própria observação empírica confirma: o número de doutorados empregados pelas empresas diminuiu, em vez de aumentar, nos últimos anos.
E portanto, que relação tem o "investimento" público em doutoramentos e a I&D empresarial em Portugal?

sexta-feira, dezembro 24, 2010

Uma nota optimista neste Natal de 2010

Aos meus leitores que me pedem insistentemente novos contributos, peço desculpa pela inactividade, que se deve a uma acumulação de trabalho no final do ano que precisava de despachar. Sim, eu não estou ao serviço de nenhum lobby energético e tenho que trabalhar para pagar a luz e a gasolina!...
Além de que gosto do que faço, mas isso é outra conversa.
Hoje venho só trazer uma boa nova a todos, tentando esconjurar um pouco a depressão nacional que nos aflige.
Até para os fundamentalistas das renováveis a nova é boa, porque com a crise do crédito e a má-vontade generalizada em sustentar a sua subsídio-dependência, os ventos estão-lhes desencorajadores e vão ter que acabar por arranjar outro ofício, como muita gente. Embora seja óbvio que eles se vão opor à nova, mas já lá voltarei...

Lembram-se de como em tempos vos notei como a produção de electricidade a partir do gás natural tem um baixo custo de investimento e tempos curtos de construção de centrais (bom em épocas de dificuldade de crédito), e o seu preço depende essencialmente do do próprio gás? E de que para o mesmo kWh, as centrais a gás de ciclo combinado geram metade dos Gases de Efeito de Estufa das a carvão? E que, sendo capazes de uma resposta ágil às variações da potência na rede, são um complemento indispensável para colmatar a intermitência da produção de origem eólica e solar?
O problema maior do gás natural é que na Europa está quase esgotado, vindo o que cá se consome da Rússia, da Argélia e, no nosso caso, da África sub-sahariana por barco (liquefeito). Outro problema é que apesar de haver mais dele do que petróleo, também não é de uma abundância extraordinária, a prazo.

Ora no ano passado, 2009, dei aqui conta de uma invenção americana revolucionária que permite extrair rentavelmente o gás natural existente sob solos com xistos argilosos. Essa invenção foi considerada pelo MIT a maior nas tecnologias de Energia em 2009, e com ela as reservas em gás natural dos EUA passaram bruscamente para 90 anos, talvez mesmo 160 anos, segundo o MIT!
O certo é que esta tecnologia, com a "baixa inércia" típica dos americanos, redundou já numa corrida ao gás xistoso e, com isso, o seu preço caiu drasticamente nos EUA! De tal forma que, apesar do Congresso ter ratificado para 2010 e 2011 as ajudas à energia eólica, os investimentos nesta caíram 72% em 2010 e prevê-se uma queda adicional sobre o remanescente de 50% em 2011! E é por isso que os investimentos da EDP-Renováveis nos EUA procuaram agora um comprador chinês que os salve...
Bem, mas só há gás xistoso nos EUA? Não, há em todo o mundo, e por isso também o MIT considera sem dúvida que o gás natural reúne todas as condições para substituir o poluente carvão e ser a via de uma transição paulatina para um futuro descarbonizado.
E na Europa?
Pois, na Europa também há. Sobretudo na Polónia e Alemanha, mas enquanto na Alemanha os lobbies eólico-solar esforçam-se por assobiar para o ar e levantar objecções ambientalistas, a Polónia já se vê como a nova Noruega, dado que as estimativas mais recentes das suas reservas apontam para 200 anos! E daí também que os capitais activos nestas coisas tenham acabado de dar um passo para controlar esses recursos, nomeadamente a ENI italiana que tem uma relação tradicional com a nossa GALP.
Há, com efeito, uma corrida silenciosa neste momento ao controlo dos recursos europeus em gás xistoso. O silêncio advém por um lado de como o gás xistoso mata com um tiro fatal todo o movimento ecótópico e os seus interesses subsídio-dependentes, assim como os media cujo pensamento eles controlam, e advém também dos negócios fantásticos que se congeminam nos corredores.
E é aqui que entra a boa nova que vos trago: o mapa anexo. Portugal também tem uma grande reserva de gás xistoso, que começa por alturas de Fátima (Nossa Senhora de lá deu-nos esta prenda!) e se estende pela zona marítima exclusiva!

Razão tinha, portanto, quando há pouco mais de um ano eu dizia que a "aposta estratégica no mar" de Portugal, depois de termos deixado de ter frotas mercante e pesqueira e Ultramar sob bandeira nacional, só fazia sentido se houvesse lá petróleo. Só tinha um pequeno erro, este vaticínio: não é petróleo que temos, é GÁS XISTOSO!
A ver se não o deixamos cair em mãos alheias!...

sexta-feira, dezembro 03, 2010

A DECO apela

Há uma semana, a DECO,  a nossa principal Associação de Defesa de Consumidores, lançou uma petição on-line para a revisão das fórmulas tarifárias da electricidade.
Só no primeiro dia logrou 40 mil assinaturas, e neste momento já vai nuns 145 mil!
Cá para mim, eles leram este post aqui, escrito há uns meses e um dos mais lidos do blog!...
Se quiser juntar o seu protesto, siga este link.

quinta-feira, dezembro 02, 2010

I&D real ou fiscal?

Há quase ano e meio escrevi aqui um post em que manifestava o meu assombro com um mistério que se verificara no biénio 2006-2007: o investimento das empresas nacionais em I&D mais que duplicara nesse curto espaço de tempo (teria aumentado 114%!!!), e o número de investigadores envolvidos nesse espantoso progresso crescera em 4625 (ou até mesmo 6311, a acreditar na estatísticas publicadas pelo Ministério da Ciência e Tecnologia - vd o meu post referido)!!!
O meu assombro advinha de um acréscimo de 6311 investigadores nas empresas em apenas 2 anos ser uma coisa capaz de arrombar todos os recursos académicos disponíveis para I&D de aplicação empresarial, e no entanto ninguém nas Universidades ter dado por nada! De facto, não sendo provável que tais recursos tivessem sido recrutados nas áreas das ciências humanas e sociais em número significativo, é conjecturável que proviessem maioritariamente das engenharias e quiçá da saúde (embora os hospitais não estivessem abrangidos pelas referidas estatísticas), e ninguém notara nada!
É que, não sendo o nosso país muito dotado de investigadores interessados e capazes de trabalhar em empresas, nas alturas em que o mercado laboral intensifica os seus recrutamentos é costume as empresas contactarem directamente os docentes das cadeiras terminais, como eu, pedindo-lhes recomendações de bons alunos ou ex-alunos! Os próprios alunos a realizarem teses são assediados por essas empresas, em tais alturas, e isso é coisa que se sabe! Como é que seria possível ter-se dado tal prodigioso salto no empenho em inovação tecnológica das nossas empresas, e nada se ter notado na Universidade??!!!
Uma breve análise às principais empresas que encabeçavam a lista das nossas investidoras em I&D mostrava que a Banca fora quem dera o salto maior, e à frente vinha o BCP. Como tenho um amigo que tinha uma empresas de alta tecnologia que há anos desenvolvia e vendia um inovador produto informático à Banca, e em que por acaso o BCP era um dos seus grandes clientes, indaguei-o sobre o que sabia ele desse grande salto - e a resposta foi que não sabia nada e que estava muito admirado com a notícia, porque o que vinha constatando era o contrário, uma redução dos investimentos da Banca em novas tecnologias e em especial no BCP, desde que este entrara em crise!
Após alguma pesquisa e reflexão adicionais, acabei por descobrir o que se passara, como descrevi neste post: o SIFIDE! Este "Sistema de Incentivos Fiscais em Investigação e Desenvolvimento Empresariais" permite abater 1/3 da despesa declarada de I&D em IRC, a somar à dedução de 50% do aumento desta despesa em relação à média dos dois anos anteriores, até ao limite de 1,5 milhões de euros!
E como se comprova que a actividade declarada foi efectivamente de I&D? Pois, não são conhecidos os mecanismos de prova! A única coisa necessária é ter a empresa sido "certificada" pelo Governo.
É certo que em 2008 foi publicado por cá o "Manual de Frascati" da OCDE que, em particular, numa linguagem própria para burocratas, aborda a diferenciação entre o que é mera Engenharia de concepção (por exemplo, o projecto de uma ponte nova ou de um novo web site), do que é realmente I&D (por exemplo, a criação de um novo método de cálculo de pontes, ou o desenvolvimento de uma nova tecnologia informática para a construção de web sites). Mas, com uns milhares de empresas a concorrerem à generosa bonificação fiscal do SIFIDE, sobretudo na área de informática, onde estão as equipas fiscalizadoras, os seus manuais de avaliação e os seus relatórios de apreciação? Mais: qual a taxa de rejeição das candidaturas ao SIFIDE?
Há ano e meio eu dava notícia de que Manuel Heitor, o Secretário de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior desde 2005, explicava o prodigioso surto na I&D empresarial portuguesa com o facto de que o SIFIDE "destapara muita I&D que se vinha fazendo nas empresas" (o que, a ser verdade, significava então que essa I&D já pré-existia e fora apenas "destapada", o que torna estranha a notória falta de inovação tecnológica da nossa economia transaccionável). Entretanto, na sexta-feira passada, no programa da SIC Notícias "Expresso da Meia Noite", Manuel Heitor notava o papel central destas empresas no respectivo crescimento e no das exportações nacionais, o que relacionou com a sua aposta na I&D (aparentemente apenas nos últimos 5 anos e, portanto, devida à política do Governo) e com o crescimento da comunidade científica nacional (algo difícil de compreender atendendo ao evidente não recrutamento de pós-graduados pelas empresas).
Porém, alguma dúvida metódica permite questionar se o referido e inegável crescimento da despesa em I&D não resultará antes do crescimento universal e inerente da esmagadoramente maioritária informática nessa lista (em que a Novabase de Rogério Carapuça representava, em 2007, praticamente metade da referida I&D), e se o maior crescimento das exportações dessas empresas estará mesmo bem contabilizado.
É que a visão optimista dos participantes no referido programa de televisão é arrefecida por alguns dos dados contidos nas estatísticas publicadas recentemente pelo Eurostat. Neste documento, se Portugal se compara agora de facto razoavelmente em muitas estatísticas de despesa em I&D, continua a ombrear com países como a Bulgária, países bálticos, a Polónia, a Eslováquia, a Islândia e a Croácia no pouco peso que a indústria fabril tem na sua I&D, ao contrário do que acontece na Alemanha, Suiça, Finlândia, Holanda, Eslovénia e República Checa. Todos sabemos quais destes países são os pobres e quais são os ricos...
Estes dados do Eurostat são agravados pelas contas do Prof. Álvaro dos Santos Pereira, da Universidade canadiana de Columbia, que também não partilha do optimismo local e que contabiliza que o peso da alta tecnologia nas nossas exportações industriais terá descido, e não crescido, nos últimos 8 anos, de 10% para... 7,6%!
Há dias foi publicada a actualização do Inquérito ao Potencial Científico e Tecnológico Nacional para o biénio de 2008-2009. Depois de atingir um máximo em 2008, a despesa empresarial em I&D estagnou em 2009.
Quanto à receita retornada por essa despesa é que faltam estatísticas...