Manifestamente necessário
Jorge Vasconcelos, que foi Presidente da ERSE entre 1996 e 2006 e que preside hoje a uma empresa de consultoria para as energias renováveis, publicou no passado dia 5 um artigo de opinião em que critica o anunciado “Manifesto por uma nova política energética em Portugal“ (com o título "Manifestamente errado").
A primeira injusta acusação que Vasconcelos dirige é a de ser um debate partidário, no sentido de partido político ou no de partido desta ou daquela forma de energia. Ora a múltipla ou ausente coloração política dos signatários do referido documento não justifica a alusão a inscrições partidárias!
Porém, o desejo manifestado por Vasconcelos de um debate sem partido quanto às formas de energia é que se afigura deveras curioso: um tal debate teria sido perfeitamente justificado em 1996 e até 2001, antes do famoso “programa E4” e da decisão do Governo de Guterres de encher o país de instalações eólicas sem a mínima promoção de estudos sistémicos nem de planeamento estratégico, nem de precaução quanto à incorporação sustentável de valor nacional nessas instalações. Nessa altura, porém e infelizmente, não se ouviu ao então Presidente da ERSE a manifestação desse desejo de debate nacional do assunto! E agora, que são patentes as impossibilidades técnicas e as desastrosas consequências económicas que tal política causou, agora que, como o próprio Vasconcelos reconhece, o actual Governo apresentou a “Estratégia Nacional para a Energia 2020”, sem que sejam conhecidos quaisquer estudos que a fundamentem e em que as metas anunciadas se configuram como o multiplicado desvario do que tem vindo a ser praticado, agora não é justo pedir um “debate sem partido”!
Os signatários do Manifesto têm, de facto, partido, em política energética! Não um partido anti-eólico ou anti-fotovoltaico como afirma Vasconcelos, mas um “partido” contra a falta de planeamento e contra a ideologia como guia de uma política em que a consideração das consequências técnicas e dos custos económicos estão ausentes! Ou seja, por uma base energética capaz de na prática poder contribuir para assegurar a competitividade e sobrevivência da Economia de Portugal. Aparentemente, uma preocupação que Vasconcelos nunca teve enquanto presidiu à ERSE!
No seu artigo, Vasconcelos cita alguns excertos do “Manifesto” para explicar “os erros” que, segundo ele, atestam a “falta de rigor” do mesmo mas que, de facto, demonstram é uma surpreendente incompreensão do comportamento sistémico de uma rede eléctrica por parte de quem foi o Regulador. É o caso, em particular, das suas observações sobre as consequências técnicas da intermitência das energias eólicas e fotovoltaicas, que têm obrigado a dissipar ou a exportar a preço nulo a produção renovável em excesso, ao mesmo tempo que exigem o continuado recurso frequente a importações de Espanha (e à disponibilidade de fontes complementares de energia, em particular de centrais de ciclo combinado que operam com gás natural importado). Vasconcelos afirma que estas afirmações “constituem um completo curto-circuito cerebral” e que se as exportações ocorrem a preço nulo é por ser esse o preço marginal do mercado a essa hora. Ora isto é uma verdade de La Palisse, mas é Vasconcelos que curto-circuita cerebralmente a verdadeira questão: porque se exporta essa energia, então? Porque se exporta uma energia que é paga ao produtor ao elevado preço médio de 9 ç/kWh, se o preço que o mercado está disposto a pagar por ela é nulo? Porque se faz este ruinoso negócio? É esta questão que Vasconcelos curto-circuita, esamoteando que tal ocorre porque a produção dessa energia, a certas horas e certos dias, excede a capacidade de consumo nacional mas não pode ser pura e simplesmente desligada nem se pode reduzir a tarifa subsidiada que desde 2001 é paga aos respectivos produtores, que estão assim completamente imunes às vicissitudes do mercado!
Aliás, Vasconcelos também curto-circuita na sua argumentação o facto desse excesso de energia eólica nem sempre ser exportado a preço nulo e ser pura e simplesmente dissipado (mas pago sempre aos respectivos produtores ao preço fixo referido), como aconteceu por exemplo em Dezembro passado, onde esse excesso de produção alimentou bombagens na central do Alqueva para depois esta ter de abrir as comportas e deixar vazar sem préstimo essa água, e com ela a energia armazenada (e bem paga)!
Por outro lado, além de mostrar não compreender que relativamente às necessidades do diagrama de consumos as mesmas fontes de energia renovável que por vezes produzem em excesso, outras vezes não produzem quase nada e é preciso recorrer a importações ou ao uso de novas e subutilizadas centrais termoeléctricas, o que é um problema técnico de desadaptação da produção intermitente ao diagrama de consumo, Vasconcelos escamoteia que a parcela importada de energia eléctrica anualmente consumida no país tem vindo cronicamente a crescer, contrariando a apregoada independência energética que estas formas de energia proporcionariam. A importação crónica resulta efectivamente da insuficiência da produção renovável nacional, e não de “razões económicas”, como afirma Vasconcelos. Estas determinam é a que horas do dia é essa importação preferencialmente feita, e não o seu saldo global anual!
Finalmente merece resposta a acusação de que “os subscritores do Manifesto não digam uma palavra sobre a ineficiência do Mercado Ibérico de Energia”. Este Mercado poderá não ser eficiente, mas a semelhança das mesmas políticas de subsidiação ruinosa à eólica e à fotovoltaica em ambos os países ibéricos é clara!
Pelo que, à acusação de que o Manifesto é “manifestamente errado”, estes subscritores respondem: que ele era manifestamente necessário!
José Luís Pinto de Sá
Luís Mira Amaral
segunda-feira, abril 12, 2010
quinta-feira, abril 08, 2010
De como mais depressa se apanha um mentiroso que um coxo e da argumentação ad hominem...
A versão impressa do Público de hoje noticia que "desvalorizei ontem o peso económico do pólo industrial eólico criado em Viana do Castelo" e que o considerei "um cluster que faz umas montagens", sublinhando, segundo o Público, "que a Enercon, o parceiro alemão que liderou o projecto com a EDP, tem um problema de exportações por um litígio de patentes com a General Electric, que a proíbe de exportar para os EUA".
Confrontado sobre isso, o responsável pelo projecto industrial da ENERCON em Portugal Aníbal Fernandes, afirmou o seguinte, segundo o Público: "não aceito comentários soezes de um ex-PIDE-DGS". E diz que "considerou ofensivas" as minhas declarações, e que apenas entende "a desvalorização da importância do núcleo de Viaba do Castelo, com 2100 postos de trabalho qualificados directos e cinco mil indirectos, vinda de uma pessoa que não merece credibilidade", citando "a sua ligação à polícia política, durante o movimento estudantil, e que considera assumida no livro Conquistadores de Almas, editado pela Guerra e Paz em 2006".
Vamos então aos factos e deixemos as conclusões (e os julgamentos) para o leitor.
Não me lembro de ter afirmado ontem que o "cluster" "fazia umas montagens" (na verdade acho que foi outro membro da mesa que disse essas palavras), mas admito que desvalorizei o "cluster" e que mencionei a história do litígio de patentes com a General Electric.
Ora este litígio existe, e já contei neste blog detalhadamente a sua história aqui, e que pode ser consultada aqui. Contei a história com links para as suas fontes, como faço sempre que falo de factos destes, e é algo que qualquer pessoa pode confirmar com uma busca na wikipedia.
Resumindo os factos, nos anos 80 a tecnologia de velocidade variável desenvolvida pela ENERCON e que permite aproveitar muito melhor o vento e que não exige a problemática caixa de velocidades das turbinas de velocidade fixa que havia até então, terá sido roubada usando o Echelon, e patenteada pela Keneteck Windpower que depois foi comprada por outra que faliu e foi comprado por outra até acabar nas mãos da General Electric. E isso deu origem a um litígio, em que os americanos acusaram a ENERCON de ser quem violou a sua patente, o que terminou em 1994 numa decisão judicial que proíbiu o acesso da ENERCON ao mercado americano até 2010. Está tudo documentado e comentado na Internet.
Ora eu nunca coloquei em causa a qualidade técnica da ENERCON! O que afirmo é que para uma estratégia industrial de exportação, sendo o mercado americano um dos de mais rápido crescimento, é obviamente um handicap ter um parceiro estrangeiro com estes contrangimentos comerciais. Ou não é verdade?
Por outro lado, e quanto ao valor do cluster eólico de Viana do Castelo, é de deitar foguetes por Aníbal Fernandes ter finalmente dito um número verdadeiro! 2400 empregos directos, diz agora, e deve ser um número certo, porque é congruente com os números do relatório da APREN/Delloitte. Ainda bem para esses trabalhadores! Porém, ainda não há muito tempo Aníbal Fernandes afirmou na TV que em breve teríamos 36 mil empregos nesse cluster, há ano e meio prometeu 20 mil empregos para agora, e trata-se de algo que tenho seguido atentamente, tanto mais que Aníbal Fernandes deve ser um dos principais mentores dos 30 e tal mil empregos que a APREN e o Governo têm apregoado sobre a criação de emprego nos tais "clusters"...
Porém, o que tenho questionado é principalmente a falta de incorporação tecnológica própria que, conjugada com a exigêngia de montagem local dos países que estão a instalar eólicas em quantidade, me leva a duvidar muito da sustentabilidade desta produção quando se esgotar o mercado nacional. Bem sigo as notícias a ver se encontro algo sobre eólicas fabricadas em Portugal e exportadas, mas ainda não tive a sorte de encontrar dessas boas novas...
Finalmente e quanto ao livro Conquistadores de Almas; agradeço a publicidade de Aníbal Fernandes e recomendo-o a todos os interessados na nossa História de há 40 anos, quando eu e ele tínhamos 20 anos: pode-se encomendá-lo pela Wook e custa só 17 €. Mas para quem tiver muita pressa em lê-lo, voltei a abrir ao público um blog que em 2006 fiz sobre o assunto e que contém largos resumos do livro. Podem lê-los aqui.
Confrontado sobre isso, o responsável pelo projecto industrial da ENERCON em Portugal Aníbal Fernandes, afirmou o seguinte, segundo o Público: "não aceito comentários soezes de um ex-PIDE-DGS". E diz que "considerou ofensivas" as minhas declarações, e que apenas entende "a desvalorização da importância do núcleo de Viaba do Castelo, com 2100 postos de trabalho qualificados directos e cinco mil indirectos, vinda de uma pessoa que não merece credibilidade", citando "a sua ligação à polícia política, durante o movimento estudantil, e que considera assumida no livro Conquistadores de Almas, editado pela Guerra e Paz em 2006".
Vamos então aos factos e deixemos as conclusões (e os julgamentos) para o leitor.
Não me lembro de ter afirmado ontem que o "cluster" "fazia umas montagens" (na verdade acho que foi outro membro da mesa que disse essas palavras), mas admito que desvalorizei o "cluster" e que mencionei a história do litígio de patentes com a General Electric.
Ora este litígio existe, e já contei neste blog detalhadamente a sua história aqui, e que pode ser consultada aqui. Contei a história com links para as suas fontes, como faço sempre que falo de factos destes, e é algo que qualquer pessoa pode confirmar com uma busca na wikipedia.
Resumindo os factos, nos anos 80 a tecnologia de velocidade variável desenvolvida pela ENERCON e que permite aproveitar muito melhor o vento e que não exige a problemática caixa de velocidades das turbinas de velocidade fixa que havia até então, terá sido roubada usando o Echelon, e patenteada pela Keneteck Windpower que depois foi comprada por outra que faliu e foi comprado por outra até acabar nas mãos da General Electric. E isso deu origem a um litígio, em que os americanos acusaram a ENERCON de ser quem violou a sua patente, o que terminou em 1994 numa decisão judicial que proíbiu o acesso da ENERCON ao mercado americano até 2010. Está tudo documentado e comentado na Internet.
Ora eu nunca coloquei em causa a qualidade técnica da ENERCON! O que afirmo é que para uma estratégia industrial de exportação, sendo o mercado americano um dos de mais rápido crescimento, é obviamente um handicap ter um parceiro estrangeiro com estes contrangimentos comerciais. Ou não é verdade?
Por outro lado, e quanto ao valor do cluster eólico de Viana do Castelo, é de deitar foguetes por Aníbal Fernandes ter finalmente dito um número verdadeiro! 2400 empregos directos, diz agora, e deve ser um número certo, porque é congruente com os números do relatório da APREN/Delloitte. Ainda bem para esses trabalhadores! Porém, ainda não há muito tempo Aníbal Fernandes afirmou na TV que em breve teríamos 36 mil empregos nesse cluster, há ano e meio prometeu 20 mil empregos para agora, e trata-se de algo que tenho seguido atentamente, tanto mais que Aníbal Fernandes deve ser um dos principais mentores dos 30 e tal mil empregos que a APREN e o Governo têm apregoado sobre a criação de emprego nos tais "clusters"...
Porém, o que tenho questionado é principalmente a falta de incorporação tecnológica própria que, conjugada com a exigêngia de montagem local dos países que estão a instalar eólicas em quantidade, me leva a duvidar muito da sustentabilidade desta produção quando se esgotar o mercado nacional. Bem sigo as notícias a ver se encontro algo sobre eólicas fabricadas em Portugal e exportadas, mas ainda não tive a sorte de encontrar dessas boas novas...
Finalmente e quanto ao livro Conquistadores de Almas; agradeço a publicidade de Aníbal Fernandes e recomendo-o a todos os interessados na nossa História de há 40 anos, quando eu e ele tínhamos 20 anos: pode-se encomendá-lo pela Wook e custa só 17 €. Mas para quem tiver muita pressa em lê-lo, voltei a abrir ao público um blog que em 2006 fiz sobre o assunto e que contém largos resumos do livro. Podem lê-los aqui.
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quarta-feira, abril 07, 2010
Manifesto por uma Nova Política Energética em Portugal
E pronto! O Manifesto foi finalmente apresentado ao público!
Temos site próprio e tudo, onde podem encontrar alguns documentos de suporte.
O documento em si podem lê-lo aqui.
A apresentação parece-me que correu bem, mas claro que os jornais dão a sua própria interpretação. Esta, por exemplo, é muito enviezada, mas já sabíamos de antemão em que trincheira nos iríamos encontrar depois. A Luísa Ferreira, por exemplo, queria que tivéssemos um programa integrado para a energia, o desenvolvimento tecnológico e o económico, como se fôssemos Governo, mas neste momento do que se trata é de desmontar as mistificações daquilo que se apregoa existir, e que não existe. Claro que temos as nossas próprias ideias sobre isso tudo, cada um de nós com as suas, mas não nos compete discutir isso agora.
O que pretendemos é que se discuta de forma aberta e transparente TUDO o que está em curso, que é o que não se tem feito.
Gostei de ver no grupo de subscritores o entusiasmado engenheiro Demétrio Alves, antigo Presidente da Câmara de Loures e conhecido militante do PCP, mas nao me safo de ser apontado como o tipo que escreveu um texto no Instituto Sá Carneiro (querendo com isso, obviamente, "provar" o caracter partidário da iniciativa), apesar de todos sabermos que foi aquele Instituto que veio buscar esse texto a este blog (com minha autorização, com certeza), e não o contrário...
Mas os ataques já tinham começado há dias, mesmo antes da publicação do Manifesto, com Manuel Pinho no Expresso e Vasconcelos no Público e, como já esperávamos, depressa escalaram para a argumentação ad hominem, como esta aqui. Que Mira Amaral e o Carlos pensaram em experimentar uma eólica off-shore há 5 anos; e depois? Os nossos adversários querem à viva força transformar esta disputa num pugilato ente a tribo pró-renovável e a tribo pró-nuclear, mas não vão ter sorte.
Eles querem "provar" que nós somos os lobbistas do nuclear para tornar normal o eles serem assumidamente lobbistas das eólicas e dos negociantes de fotovoltaicas.
Mas sós não somos "contra" as eólicas ou contra as renováveis. Somos contra a subsidiação sem sentido, a mentira com que se tem mascarado tudo isto e contra a falta de estudo, de ENGENHARIA em toda esta política (na verdade, este é um Manifesto de ENGENHEIROS). E não somos "pelo" nuclear.
Somos é por Portugal e pelo seu povo, e pela nobre arte da Engenharia!
Temos site próprio e tudo, onde podem encontrar alguns documentos de suporte.
O documento em si podem lê-lo aqui.
A apresentação parece-me que correu bem, mas claro que os jornais dão a sua própria interpretação. Esta, por exemplo, é muito enviezada, mas já sabíamos de antemão em que trincheira nos iríamos encontrar depois. A Luísa Ferreira, por exemplo, queria que tivéssemos um programa integrado para a energia, o desenvolvimento tecnológico e o económico, como se fôssemos Governo, mas neste momento do que se trata é de desmontar as mistificações daquilo que se apregoa existir, e que não existe. Claro que temos as nossas próprias ideias sobre isso tudo, cada um de nós com as suas, mas não nos compete discutir isso agora.
O que pretendemos é que se discuta de forma aberta e transparente TUDO o que está em curso, que é o que não se tem feito.
Gostei de ver no grupo de subscritores o entusiasmado engenheiro Demétrio Alves, antigo Presidente da Câmara de Loures e conhecido militante do PCP, mas nao me safo de ser apontado como o tipo que escreveu um texto no Instituto Sá Carneiro (querendo com isso, obviamente, "provar" o caracter partidário da iniciativa), apesar de todos sabermos que foi aquele Instituto que veio buscar esse texto a este blog (com minha autorização, com certeza), e não o contrário...
Mas os ataques já tinham começado há dias, mesmo antes da publicação do Manifesto, com Manuel Pinho no Expresso e Vasconcelos no Público e, como já esperávamos, depressa escalaram para a argumentação ad hominem, como esta aqui. Que Mira Amaral e o Carlos pensaram em experimentar uma eólica off-shore há 5 anos; e depois? Os nossos adversários querem à viva força transformar esta disputa num pugilato ente a tribo pró-renovável e a tribo pró-nuclear, mas não vão ter sorte.
Eles querem "provar" que nós somos os lobbistas do nuclear para tornar normal o eles serem assumidamente lobbistas das eólicas e dos negociantes de fotovoltaicas.
Mas sós não somos "contra" as eólicas ou contra as renováveis. Somos contra a subsidiação sem sentido, a mentira com que se tem mascarado tudo isto e contra a falta de estudo, de ENGENHARIA em toda esta política (na verdade, este é um Manifesto de ENGENHEIROS). E não somos "pelo" nuclear.
Somos é por Portugal e pelo seu povo, e pela nobre arte da Engenharia!
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sábado, abril 03, 2010
A defesa do curto-prazo e do não-planeamento energético é a demissão do interesse pátrio
Alguns media noticiaram esta semana a apresentação próxima de um Manifesto pedindo a revisão da Política Energética Nacional e criticando os incomportáveis custos da subsidiação corrente à política pró-eólica e pró-fotovoltaica do Governo. O Manifesto ainda não foi apresentado, mas já começaram as vozes críticas ao mesmo.
Num blog ambientalista acusa-se o anunciado e por-apresentar Manifesto de ser pró-nuclear encapuçado e de não discutir a eficiência energética e uma data de outras coisas de que se pode sempre reivindicar a inclusão conforme bem se entenda, e no Expresso o ex-ministro da Economia Manuel Pinho diz que embora não tenha visto no tal Manifesto (ainda por publicar) nenhuma referência ao nuclear, também não vale a pena discutir esse nuclear porque ele só daqui a muito tempo estaria pronto (10 anos) e porque a Agência Internacional de Energia diz que a actual política energética portuguesa é do melhor que há.
É sobre esta posição de Manuel Pinho que quero deixar um par de comentários, já que quanto à Agência Internacional de Energia, como não é ela quem tem de pagar os custos da energia portuguesa nem todos os outros prejuízos para Portugal da ausência de uma estratégia energética, industrial e tecnológica integradas, a sua opinião vale zero. Todos sabemos como opiniões gratuitas destas se obtêm com um convite para uma visita a este país de boas praias e melhor mesa...
O que me indigna na posição de Manuel Pinho não é o que ele diz sobre o nuclear de que o tal Manifesto não fala, e que aliás é a repetição de um argumento que já outros arvoraram.
O que me indigna é a própria natureza do argumento: o de que qualquer coisa que seja para Portugal ter daqui a 10 anos não interessa considerar!
É que isto equivale, pura e simplemente, a recusar a actividade de planeamento como princípio, e é algo inconcebível num Estado que deve ter por razão de ser, precisamente, além da regulação dos interesses privados a defesa do que é o interesse da Nação, uma entidade que já tem quase 9 séculos de História e que há-de ser legada aos nossos filhos e netos!
Ora é precisamente por náo se ter feito este planeamento que enchemos o país de eólicas e só perto do fim nos lembrámos de criar alguma actividade produtiva e emprego à conta desse negócio para alguns! Obviamente, demasiado tarde! Coisa que nenhum, mas nenhum outro país fez!!!
O que me indigna neste argumento é, antes de mais, o ele ter sido aplicado à própria opção pelas energias renováveis e à forma como ela tem sido feita! E que tem sido, a meu ver, a pura demissão do interesse pátrio!
Num blog ambientalista acusa-se o anunciado e por-apresentar Manifesto de ser pró-nuclear encapuçado e de não discutir a eficiência energética e uma data de outras coisas de que se pode sempre reivindicar a inclusão conforme bem se entenda, e no Expresso o ex-ministro da Economia Manuel Pinho diz que embora não tenha visto no tal Manifesto (ainda por publicar) nenhuma referência ao nuclear, também não vale a pena discutir esse nuclear porque ele só daqui a muito tempo estaria pronto (10 anos) e porque a Agência Internacional de Energia diz que a actual política energética portuguesa é do melhor que há.
É sobre esta posição de Manuel Pinho que quero deixar um par de comentários, já que quanto à Agência Internacional de Energia, como não é ela quem tem de pagar os custos da energia portuguesa nem todos os outros prejuízos para Portugal da ausência de uma estratégia energética, industrial e tecnológica integradas, a sua opinião vale zero. Todos sabemos como opiniões gratuitas destas se obtêm com um convite para uma visita a este país de boas praias e melhor mesa...
O que me indigna na posição de Manuel Pinho não é o que ele diz sobre o nuclear de que o tal Manifesto não fala, e que aliás é a repetição de um argumento que já outros arvoraram.
O que me indigna é a própria natureza do argumento: o de que qualquer coisa que seja para Portugal ter daqui a 10 anos não interessa considerar!
É que isto equivale, pura e simplemente, a recusar a actividade de planeamento como princípio, e é algo inconcebível num Estado que deve ter por razão de ser, precisamente, além da regulação dos interesses privados a defesa do que é o interesse da Nação, uma entidade que já tem quase 9 séculos de História e que há-de ser legada aos nossos filhos e netos!
Ora é precisamente por náo se ter feito este planeamento que enchemos o país de eólicas e só perto do fim nos lembrámos de criar alguma actividade produtiva e emprego à conta desse negócio para alguns! Obviamente, demasiado tarde! Coisa que nenhum, mas nenhum outro país fez!!!
O que me indigna neste argumento é, antes de mais, o ele ter sido aplicado à própria opção pelas energias renováveis e à forma como ela tem sido feita! E que tem sido, a meu ver, a pura demissão do interesse pátrio!
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sexta-feira, abril 02, 2010
Obama legisla para que os carros americano gastem menos e o Nissan Leaf.
Acaba de ser publicada nos EUA uma lei que finalmente, após 30 anos de resistência dos 3 grandes de Detroit, obriga a melhorar o rendimento dos motores dos automóveis americanos: terão, dentro de 6 anos, de só gastar 8 litros aos 100km, o que ainda é mais que o consumo médio dos automóveis na Europa e Japão desde que o choque petrolífero de 1973 induziu o aperfeiçoamento dos motores, em vez dos 10 que ainda gastam presentemente na América. O progresso nos motores tem sido, de facto, extraordinário: o Honda Jazz da minha filha, com os seus 90 cavalos, gasta só 6 litros, enquanto há 30 anos o meu primeiro carro, um pequeno Fiat 126 de 2 cilindros e 23 cavalos concebido antes de 1973, gastava 7...
Como o parque automóvel americano é responsável, só por si, por 1/3 do CO2 emitido pelo parque mundial, esta medida tem um impacto significativo nessas emissões. Além disso reduzirá a procura de petróleo e contribuirá para combater a respectiva alta de preços. Preços que, aliás, há já um ano que estão estáveis quando cotados em USD, mas que quando o câmbio do € subia se mantiveram estacionários por cá, e agora que o € está a desvalorizar têm subido em flecha...
Esta legislação é uma daquelas em que todos ganham.
Entretanto, o Nissan Leaf eléctrico estará brevemente à venda nos EUA. Não vem nada barato, mas pelo menos nos EUA faz publicidade honesta: sobre a sua bateria e a alegada capacidade para 165 km de autonomia: avisa que esta se reduz com o uso do carro (veja o víídeo até ao fim e leia as letras pequeninas). Como as dos portáteis e telemóveis e como eu bem tenho avisado...
A Nissan corre um risco considerável com esta aposta. E não será por acaso que é a Nissan, um fabricante de qualidade mas má estratégia de fabrico que a levou à falência e a ter de se deixar comprar pela Renault quem aposta nesta fuga para a frente. Nem a Toyota nem os outros grandes fabricantes com boa saúde financeira vão nesta fantasia. Esses, apostam é nos híbridos e já há muitos anos! Híbridos que se preparam agora para evoluirem para os híbridos também carregáveis electricamente (Plug-In Hybrid Electric Vehicles = PHEV), que é o que toda a I&D internacional com os pés na terra está a considerar...
Como o parque automóvel americano é responsável, só por si, por 1/3 do CO2 emitido pelo parque mundial, esta medida tem um impacto significativo nessas emissões. Além disso reduzirá a procura de petróleo e contribuirá para combater a respectiva alta de preços. Preços que, aliás, há já um ano que estão estáveis quando cotados em USD, mas que quando o câmbio do € subia se mantiveram estacionários por cá, e agora que o € está a desvalorizar têm subido em flecha...
Esta legislação é uma daquelas em que todos ganham.
Entretanto, o Nissan Leaf eléctrico estará brevemente à venda nos EUA. Não vem nada barato, mas pelo menos nos EUA faz publicidade honesta: sobre a sua bateria e a alegada capacidade para 165 km de autonomia: avisa que esta se reduz com o uso do carro (veja o víídeo até ao fim e leia as letras pequeninas). Como as dos portáteis e telemóveis e como eu bem tenho avisado...
A Nissan corre um risco considerável com esta aposta. E não será por acaso que é a Nissan, um fabricante de qualidade mas má estratégia de fabrico que a levou à falência e a ter de se deixar comprar pela Renault quem aposta nesta fuga para a frente. Nem a Toyota nem os outros grandes fabricantes com boa saúde financeira vão nesta fantasia. Esses, apostam é nos híbridos e já há muitos anos! Híbridos que se preparam agora para evoluirem para os híbridos também carregáveis electricamente (Plug-In Hybrid Electric Vehicles = PHEV), que é o que toda a I&D internacional com os pés na terra está a considerar...
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quinta-feira, março 25, 2010
Mais urânio em saldo!
Ora aí vêm mais Urânio e Plutónio a preços de saldo para as centrais nucleares! Os EUA e a Rússia chegaram a acordo para uma nova redução significativa do número de ogivas nucleares dos seus arsenais!
Como se sabe, nos últimos anos as ogivas desmanteladas na sequência do acordo feito ainda no tempo de Gorbachov e Reagan têm estado a converter-se em energia barata em largas regiões do mundo, depois do respectivo "explosivo" ter sido re-empobrecido da habitual concentração de 80% usada nas bombas para os poucos % necessários nos reactores.
Agora que a Coreia ganhou o contrato de fornecimento de 4 reactores para os Emiratos Árabes Unidos (5000 MW, a instalar até 2020), mas em que os EUA asseguraram o fornecimento do Urânio enriquecido, este acordo de desarmamento permite continuar este feliz negócio: transformar a sucata das bombas atómicas em fonte pacífica de energia!
Como se sabe, nos últimos anos as ogivas desmanteladas na sequência do acordo feito ainda no tempo de Gorbachov e Reagan têm estado a converter-se em energia barata em largas regiões do mundo, depois do respectivo "explosivo" ter sido re-empobrecido da habitual concentração de 80% usada nas bombas para os poucos % necessários nos reactores.
Agora que a Coreia ganhou o contrato de fornecimento de 4 reactores para os Emiratos Árabes Unidos (5000 MW, a instalar até 2020), mas em que os EUA asseguraram o fornecimento do Urânio enriquecido, este acordo de desarmamento permite continuar este feliz negócio: transformar a sucata das bombas atómicas em fonte pacífica de energia!
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terça-feira, março 23, 2010
Se tivéssemos energia nuclear em vez de eólica também precisaríamos de bombagem hidroeléctrica?
Tenho ouvido muita gente que pensa que a existência de centrais nucleares também requer obrigatoriamente capacidade de armazenamento de energia para as horas de fraco consumo, ou seja, de bombagem hidroeléctrica, à semelhança das eólicas. Até já ouvi dizer isso a alguns nuclearistas!...
Mas trata-se, de facto, de uma grande confusão.
O plano do Governo é o de virmos a ter 5700 MW de potência eólica instalada, o que ultrapassa em muito o consumo nacional das horas mortas da madrugada, e é por isso que são precisas hidroeléctricas reversíveis que consumam o excedente dessa energia. Essas eólicas todas, +2/3 do que já tínhamos no final de 2009, só de vez em quando produzirão o máximo, que será de uns 5000 MW para o conjunto do país, embora muitas vezes haverá que produzirão mais que o consumo mínimo nacional de 3300 MW, e daí o uso previsto regular da bombagem. No entanto, em MÉDIA, essas eólicas só produzirão 1/4 disso, cerca de 1400 MW, e é este valor que interessa para saber a energia gerada. E isto é assim porque se há ocasiões em que as eólicas poderão produzir os tais 5000 MW, outras haverá e muitas em que só produzirão uns 500 MW. Depende do vento...
Ora um único reactor nuclear típico de 1650 MW produz uma MÉDIA de 1500 MW ao ano (pára uns 9% do tempo, cada ano e meio, para recarga e manutenção), portanto mais energia que os 5700 MW de eólicas, mas nunca ultrapassa os 1650 MW e também raramente desce abaixo disso, a não ser que se queira. E, se nunca ultrapassa os 1650 MW, mal atinge metade do tal consumo mínimo nacional de 3300 MW, e portanto nunca o excede, e portanto não precisa de bombagem nem de armazenamento nem de hidroeléctricas para nada!
Se tivéssemos 80% da energia eléctrica de origem nuclear, como a França, é que o problema se colocaria! Para isso teríamos de ter não 1 mas sim 3 reactores de 1650 MW, que produziriam uma MÉDIA de 4500 MW, mas geralmente estariam a produzir perto dos tais 5000 MW que as eólicas produzem ocasionalmente. Mas isso era se tivéssemos 80% da electricidade de origem nuclear!...
Os franceses, de facto, usam a bombagem para regularizar a produção das suas nucleares.
Mas basta ver que a Espanha, aqui ao lado, tem 9 reactores nucleares e 6 vezes o nosso consumo nacional de electricidade, e tem muito menos bombagem do que Portugal vai ter depois de construir todas estas hidroeléctricas reversíveis...
Mas trata-se, de facto, de uma grande confusão.
O plano do Governo é o de virmos a ter 5700 MW de potência eólica instalada, o que ultrapassa em muito o consumo nacional das horas mortas da madrugada, e é por isso que são precisas hidroeléctricas reversíveis que consumam o excedente dessa energia. Essas eólicas todas, +2/3 do que já tínhamos no final de 2009, só de vez em quando produzirão o máximo, que será de uns 5000 MW para o conjunto do país, embora muitas vezes haverá que produzirão mais que o consumo mínimo nacional de 3300 MW, e daí o uso previsto regular da bombagem. No entanto, em MÉDIA, essas eólicas só produzirão 1/4 disso, cerca de 1400 MW, e é este valor que interessa para saber a energia gerada. E isto é assim porque se há ocasiões em que as eólicas poderão produzir os tais 5000 MW, outras haverá e muitas em que só produzirão uns 500 MW. Depende do vento...
Ora um único reactor nuclear típico de 1650 MW produz uma MÉDIA de 1500 MW ao ano (pára uns 9% do tempo, cada ano e meio, para recarga e manutenção), portanto mais energia que os 5700 MW de eólicas, mas nunca ultrapassa os 1650 MW e também raramente desce abaixo disso, a não ser que se queira. E, se nunca ultrapassa os 1650 MW, mal atinge metade do tal consumo mínimo nacional de 3300 MW, e portanto nunca o excede, e portanto não precisa de bombagem nem de armazenamento nem de hidroeléctricas para nada!
Se tivéssemos 80% da energia eléctrica de origem nuclear, como a França, é que o problema se colocaria! Para isso teríamos de ter não 1 mas sim 3 reactores de 1650 MW, que produziriam uma MÉDIA de 4500 MW, mas geralmente estariam a produzir perto dos tais 5000 MW que as eólicas produzem ocasionalmente. Mas isso era se tivéssemos 80% da electricidade de origem nuclear!...
Os franceses, de facto, usam a bombagem para regularizar a produção das suas nucleares.
Mas basta ver que a Espanha, aqui ao lado, tem 9 reactores nucleares e 6 vezes o nosso consumo nacional de electricidade, e tem muito menos bombagem do que Portugal vai ter depois de construir todas estas hidroeléctricas reversíveis...
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segunda-feira, março 22, 2010
Mais sobre a lógica técnico-económica das hidroeléctricas
Neste caso do investimento nas hidroeléctricas têm-se feito umas enormes confusões, havendo até quem pense que eu estou contra o aproveitamento dos recursos hídricos nacionais!
No meu primeiro post sobre este tema, há uns 6 meses, expliquei tudo em detalhe, depois resumi as conclusões, de novo, aqui e aqui, mas até engenheiros licenciados em Energia e Sistemas de Potência por Universidades credíveis me dizem não ter paciência para ler aquilo tudo (!) e quererem que eu "vá directo ao assunto"!...
Vamos lá a ver então se repesco algumas das coisas que já expliquei por aqui, resumindo-as:
No meu primeiro post sobre este tema, há uns 6 meses, expliquei tudo em detalhe, depois resumi as conclusões, de novo, aqui e aqui, mas até engenheiros licenciados em Energia e Sistemas de Potência por Universidades credíveis me dizem não ter paciência para ler aquilo tudo (!) e quererem que eu "vá directo ao assunto"!...
Vamos lá a ver então se repesco algumas das coisas que já expliquei por aqui, resumindo-as:
- Um reforço de potência não aumenta a energia hídrica de um rio. A energia que se pode aproveitar da água é a energia mecânica potencial dada pela massa de água vezes a altura da sua queda. "Reforçar a potência" é aumentar a capacidade de turbinar a água, é pôr turbinas mais largas ou pôr mais turbinas, mas isso não aumenta a quantidade dessa mesma água e, portanto, não aumenta a energia que há nas albufeiras. Por conseguinte, um reforço de potência só aumenta a velocidade, a taxa a que se consegue turbinar a água, mas não a quantidade existente dessa água. Potência e energia não são a mesma coisa! Potência é só a a velocidade a que se consegue produzir ou consumir a energia; a única potência de uma central que tem alguma coisa a ver com a energia que ela produz é a potência média, que é a energia efectivamente gerada dividida pelas horas do ano, e não a potência instalada. Nas centrais termoeléctricas, incluindo os grupos Diesel, é que a potência instalada é razoávelmente proporcional à energia, porque essas centrais trabalham regularmente à potência nominal, mas nas fontes renováveis isso não é nada assim! Só trabalham quando há água, vento ou sol!...
- Os diversos tipos de centrais eléctricas formam um sistema interligado electricamente. Pode-se pensar que construir hidroeléctricas não tem nada a ver com eólicas, solares ou termoeléctricas em termos de operação do sistema eléctrico, mas é errado. As centrais estão todas interligadas electricamente e aos consumidores e complementam-se. A principal necessidade desta complementaridade resulta de o consumo seguir um padrão dário (e semanal, e anual) que depende dos consumidores, enquanto as centrais eléctricas produzem conforme a sua disponibilidade. Em regra uma coisa não confere com a outra, e por isso é preciso um mix de centrais que permitam adaptar a produção ao consumo, ligando ora umas ora outras. No caso das eólicas e do solar, não há mesmo nenhuma controlabilidade e a sua produção é muito intermitente, pelo que há duas soluções teóricas para as compatibilizar com o consumo.
- A solução economicamente racional para compatibilizar as fontes intermitentes de energia eólica e solar com o consumo é só ter delas uma quantidade limitada. Se as fontes de energia intermitente forem em quantidade moderada, o sistema eléctrico pode adaptar a produção ao consumo usando outras centrais que cubram a diferença, e que existem por mérito próprio: hidroeléctricas com alguma capacidade de armazenamento, que possam suspender a produção quando há da outra energia em abundância, reservando a água que vem dos rios nas suas albufeiras, para a turbinar depois quando há falta, e termoeléctricas de resposta rápida - como as a gás, a parte a gás das de ciclo combinado, e parcialmente as a carvão e as modernas nucleares. Não exceder o razoável que permita este funcionamento complementar é não ter mais que para aí uns 10%, 15% no máximo, do total de energia de origem eólica e solar!
- A outra solução que tem custos absurdos é construir gigantescos armazéns de energia. Se as fontes intermitentes eólica e solar ultrapassarem o valor de referência que apontei, haverá muitas ocasiões em que não produzem quase nada e é preciso ter termoeléctricas para as substituir, que têm de existir e ser pagas mesmo que em média se usem pouco, e por outro lado haverá outras ocasiões em que produzem mais que o consumo. E é aqui que a única solução para este problema é ter maneira de armazenar essa energia ocasionalmente excedentária! Ora esse armazenamento é caríssimo e só se justifica por haver excesso, e apenas pontualmente, de energia eólica ou solar, e é esse o papel das hidroeléctricas reversíveis - que consomem esse excesso de energia eólica e solar bombeando água para as albufeiras, para depois a devolverem quando há de novo falta de energia no sistema - mas perdendo, nesse processo, cerca de 1/4 da energia produzida por essas eólicas e solares!
- Se as hidroeléctricas planeadas fossem só para aproveitar os recursos hídricos, o investimento associado, que terá de ser pago pelos consumidores, seria muito menor. Dos 4900 milhões de € falados para a totalidade das novas hidroeléctricas, pelo menos 1000 a 1500 milhões serão para os 6 reforços de potência reversível de aproveitamentos que já existiam e que, como expliquei, não vão produzir mais energia do que a que já havia; vão apenas servir para armazenar energia de origem eólica. E, dos outros 3400 a 3900 milhões, também provavelmente menos de metade chegariam para dar uso à agua dos respectivos rios. O grosso desses investimentos vai ser para criar o tal armazenamento de energia eólica e solar.
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Explicando as contas da energia que vão produzir as hidroeléctricas como se fossem muito burros
Algumas pessoas parecem incrédulas com as contas que tenho apresentado sobre a energia nula ou mesmo negativa que os novos investimentos hidroeléctricos em projecto ou construção vão produzir, pelo que vou tentar explicar essas contas da forma mais simples que consigo, partindo do princípio que quem me lê nada sabe de engenharia.
Quanto a este aspecto, noto apenas que a própria memória descritiva do PNBEPH diz que foram consultadas as autoridades do assunto relativamente a cada barragem e nenhuma manifestou interesse na água, com excepção do Alvito.
- As 8 novas barragens do "programa nacional de barragens com elevado potencial hidroeléctrico" (PNBEPH) vão produzir em média anual, de origem hídrica, 128 MW. Mais as 2 de Ribeiradio e Sabor, e mais os reforços de potência em outras 6, temos um total de 175 MW. Estas contas fazem-se dividindo a energia média anual constante da própria memória descritiva do PNBEPH pelas 8760 horas do ano.
- Segundo os números disponíveis no site da EDP, quando as barragens estiverem prontas, no total produzirão anualmente em média 17,9 TWh em bruto, mas só 13,3 "líquidas de bombagem". Quer isto dizer que a diferença entre esses dois números é a energia produzida a partir da bombagem, o que dá 525 MW em média anual.
- Como o rendimento total do processo de bombagem e posterior turbinagem é de 75%, para que as barragens produzam 525 MW de origem eólica, têm de consumir 4/3 disso, ou seja, 700 MW.
- No total, portanto, as barragens produzirão em média 525+175= 700 MW, mas também consumirão 700 MW de origem eólica (ou solar). Portanto, o saldo energético das barragens será nulo.
Quanto a este aspecto, noto apenas que a própria memória descritiva do PNBEPH diz que foram consultadas as autoridades do assunto relativamente a cada barragem e nenhuma manifestou interesse na água, com excepção do Alvito.
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domingo, março 21, 2010
Uma cental nuclear levaria 10 a 12 anos a realizar?
Recentemente e quase em simultâneo, o Ministro da Economia do Governo PS e o ex-ministro do último Governo PSD e actual Presidente da EDP convergiram numa mesma e curiosa afirmação sobre a opção nuclear para o sistema energético nacional: que ela levaria 10 a 12 anos a realizar e, portanto, que isso seria demasiado tempo para as urgências energéticas nacionais. Simultaneamente, e em perfeita convergência de centrão, ambos defenderam a continuação da aposta nas renováveis e em particular a construção dos aproveitamentos hidroeléctricos projectados.
Ora na verdade não há razão nenhuma, na própria lógica em que ambos estes senhores raciocinam, para que a opção nuclear tenha que levar tal prazo a realizar. Basta um ano para realizar o Caderno de Encargos e 4 para a construção, pelo que se quisessem fazer tal opção na realidade em 5 anos, 6 no máximo, poderiam ter a tal central nuclear em Portugal.
Quem apontou para um prazo de uns 10 a 12 anos fui eu, mas porque defendi que tal escolha fosse feita com o tempo necessário para que o país se preparasse e tirasse o melhor partido dela, ao contrário do que tem sido feito com as renováveis e da lógica com que estes senhores raciocinam. Porque, se ainda não tivéssemos feito nenhuma opção relativamente às renováveis e estivéssemos agora a considerá-las pela primeira vez, eu defenderia exactamente o mesmo: que houvesse tempo para o país criar uma indústria nacional com tecnologia própria antes de se começarem a montar eólicas e solares, de modo a que elas fossem de fabrico e concepção nacionais, quando viessem!
A bem das tais criações de emprego e de valor acrescentado de que o país tanto necessita e que têm sido tão mistificadoramente desprezados por estes senhores!
E entretanto, um novo apostador no futuro do nuclear como opção energética principal e no desenvolvimento das respectivas tecnologias e indústrias se está a juntar ao binómio EUA-Japão, à França e à Coreia: a Rússia! Com efeito, há dias o New York Times descrevia os desenvolvimentos em curso na Rússia de reactores relativamente pequenos, de apenas 300 MW e capazes de serem transportados de comboio e adaptados a velhas centrais a carvão onde poderão substituir as fornalhas destas mas aproveitar toda a restante estrutura de produção de vapor, desenvolvimentos que visam mesmo chegar a mini-reactores de apenas 100 MW a produzir aos milhares...
Ora na verdade não há razão nenhuma, na própria lógica em que ambos estes senhores raciocinam, para que a opção nuclear tenha que levar tal prazo a realizar. Basta um ano para realizar o Caderno de Encargos e 4 para a construção, pelo que se quisessem fazer tal opção na realidade em 5 anos, 6 no máximo, poderiam ter a tal central nuclear em Portugal.
Quem apontou para um prazo de uns 10 a 12 anos fui eu, mas porque defendi que tal escolha fosse feita com o tempo necessário para que o país se preparasse e tirasse o melhor partido dela, ao contrário do que tem sido feito com as renováveis e da lógica com que estes senhores raciocinam. Porque, se ainda não tivéssemos feito nenhuma opção relativamente às renováveis e estivéssemos agora a considerá-las pela primeira vez, eu defenderia exactamente o mesmo: que houvesse tempo para o país criar uma indústria nacional com tecnologia própria antes de se começarem a montar eólicas e solares, de modo a que elas fossem de fabrico e concepção nacionais, quando viessem!
A bem das tais criações de emprego e de valor acrescentado de que o país tanto necessita e que têm sido tão mistificadoramente desprezados por estes senhores!
E entretanto, um novo apostador no futuro do nuclear como opção energética principal e no desenvolvimento das respectivas tecnologias e indústrias se está a juntar ao binómio EUA-Japão, à França e à Coreia: a Rússia! Com efeito, há dias o New York Times descrevia os desenvolvimentos em curso na Rússia de reactores relativamente pequenos, de apenas 300 MW e capazes de serem transportados de comboio e adaptados a velhas centrais a carvão onde poderão substituir as fornalhas destas mas aproveitar toda a restante estrutura de produção de vapor, desenvolvimentos que visam mesmo chegar a mini-reactores de apenas 100 MW a produzir aos milhares...
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sexta-feira, março 19, 2010
Os "multiplicadores de empregos" e os 30 mil que o Governo diz existirem nas energias renováveis em Portugal
Um interessante conceito do cálculo de impacto económico de uma determinada política que vise gerar empregos, é o dos "multiplicadores de emprego", uns factores que relacionam o número total de empregos directos criados e o número de empregos indirectos induzidos por estes.
Para introduzir conceitos, dou um exemplo: se para construir uma barragem atrás do sol posto são precisos mil trabalhadores durante 3 anos (com um pico de dois mil no auge da obra), há também que os alimentar, transportar, divertir e alojar, pelo que haverá um número razoável de empregados de tascas, de alugadores de quartos, de trabalhadores de lavandaria, de motoristas e de empregados de quiosques de venda de tabaco e jornais desportivos e até de animadoras nocturnas que deverão o seu ganha-pão a esses empregos directos.
Estes são empregos indirectos criados pelos directos, os dos trabalhadores da obra. E quantos serão?
Não é fácil saber, visto que não se faz um recenseamento centralizado desses empregos como se faz dos directamente criados pela obra mas, à falta de um estudo feito no terreno, podemos usar "multiplicadores de emprego" obtidos em estudos feitos noutros locais e para este tipo de trabalho. Não obtemos números exactos, mas teremos pelo menos uma estimativa, uma ideia, vá lá. Alguns trabalhos internacionais indicam um "multiplicador de emprego" de 1,6 associado à construção civil em geral, o que apontará para 1600 empregos gerados pelos mil da construção da tal barragem. Tão temporários quanto estes, claro...
A maioria dos multiplicadores de emprego associados às diversas actividades industriais varia, por exemplo, entre os 2,2 atribuídos às indústrias de produtos metálicos acabados e o máximo de 6,9 associados às extracções de petróleo e gás natural. De um modo geral, quanto mais a montante numa cadeia produtiva está uma actividade, mais empregos se pode considerar que são induzidos (a jusante) por essa actividade.
Uma boa fonte de informação sobre estes números é o Bureau of Economic Analysis (BEA) norte-americano. Claro que esses dados têm de ser usados com sentido crítico, porque os referidos multiplicadores variam muito de actividade específica para actividade específica, de região para região e até com a época. Mas, à falta de melhores referências, sempre nos servem para uma estimativa, uma ideia da ordem de grandeza, vá lá. Isto se encontrarmos dados que sirvam as nossas necessidades específicas...
Como o cálculo do emprego indirecto gerado pelo directo tem de recorrer a muitas hipóteses e informações cruzadas, ele pode procurar ser rigoroso, usando modelos matriciais de Input-Output, ou pelo contrário muito simples.
No limite e de acordo com a teoria marxista, o simples preço final de uma mercadoria reflecte a quantidade de trabalho que ela incorpora e, portanto, o emprego que requereu!
Nesta medida, por exemplo, quanto mais cara for uma fonte de energia eléctrica, tanto mais emprego cria, o que é no fundo o argumento dos que defendem que as energias renováveis criam mais emprego que as tradicionais.
Claro que este tipo de extrapolação é passível de múltiplas manipulações e omissões, conforme os interesses em jogo no que respeita a captar subsídios públicos. Além de passíveis de grandes exageros, os "multiplicadores de emprego" esquecem-se muitas vezes de quantificar que percentagem de cada emprego indirecto é efectivamente dedicado a satisfazer o directo, quanto tempo duram esses empregos, que empregos são destruídos ou se perdem pelo advento dos novos e, sobretudo, onde são esses outros empregos criados (se no estrangeiro, se no próprio país)!
Segundo o hyperlink que fiz acima, por exemplo, a mineração do carvão nos EUA empregava directamente 80 mil trabalhadores em 2001 e geraria mais 351,6 mil empregos indirectos (num total de 432 mil) e, segundo outras fontes credíveis, a esse número haverá que somar 31 mil no transporte e mais 60 mil nas centrais eléctricas a carvão, considerando embora que o número de empregos indirectos será da mesma ordem de grandeza da indicada antes (algumas poucas centenas de milhar), o que aponta para um "multiplicador de emprego" da mineração do carvão de uns 4.5. Porém, a Associação Nacional de Carvão dos EUA estima em 1,5 milhões os empregos totais (directos e indirectos) criados pelo carvão, o que evidentemente está afectado de um "sobre-multiplicador político de emprego " de pelo menos 4 (x4.5...)!
Vem tudo isto muito a propósito do número de empregos afirmado no PEC (Plano de Estabilidade e Crescimento) como existente presentemente em Portugal, gerado pelas energias renováveis. Esse número é de 30 mil. E como terá sido esse número tirado?
Ora no relatório da Deloîtte feiro para a APREN e apresentado publicamente com grande pompa e circunstância nos finais do ano passado, o número era nos finais de 2008 de 36 mil. Só que, como o relatório mostra (pag. 8), esse número é a soma dos empregos indirectos estimados (33,7 mil) com os directos realmente recenseados: 2,4 mil! Este número não está longe do que eu tenho estimado para o presente, 3 mil, pelo que deve ser real.
Porém e pelo que reflecti convosco até aqui, dada a natureza de fim de cadeia produtiva da actividade nacional na matéria, o multiplicador de emprego plausível associado a estas actividades deve ficar algures entre o das actividades comerciais e o das indústrias de produtos acabados, ou seja e como ordem de grandeza, 2. Teremos, assim, induzidos por esses 2,4 mil empregos directos (ou 3 mil...), mais uns 5 a 6 mil empregos - mas quantos deles em Portugal?
Pelo que o número de 30 mil empregos alegados pelo Governo como existentes no presente deverão estar afectados de uma sobre-multiplicação política por um factor entre 3 e 5, e já é uma moderação do sobre-multiplicador da APREN, que será de uns 6!...! E, como não se precisou que se tratam de empregos reais somados a indirectos estimados, dando a entender ao povo ignaro que são todos directos, o sobre-multiplicador político é cerca de dez!...
Quanto aos números do futuro, os 120 mil empregos previstos para daqui a 10 anos, quando o nosso mercado já estiver saturado, são pura especulação.
Mas uma coisa é certa: para realizar as metas de Bruxelas será preciso fechar a central a carvão de Sines e "prescindir" do seu pessoal, o que os seus 500 trabalhadores directos e os indirectos que trabalham para os muitos empreiteiros que operam na Central há muito tempo justificadamente receiam - como também os das Centrais termoeléctricas de Setúbal e Carregado, e ainda os respectivos fornecedores de tabaco e jornais, frutarias e mini-mercados que os abastecem, e todos os outros empregos indirectos dependentes destes, na fila para o desemprego...
Para introduzir conceitos, dou um exemplo: se para construir uma barragem atrás do sol posto são precisos mil trabalhadores durante 3 anos (com um pico de dois mil no auge da obra), há também que os alimentar, transportar, divertir e alojar, pelo que haverá um número razoável de empregados de tascas, de alugadores de quartos, de trabalhadores de lavandaria, de motoristas e de empregados de quiosques de venda de tabaco e jornais desportivos e até de animadoras nocturnas que deverão o seu ganha-pão a esses empregos directos.
Estes são empregos indirectos criados pelos directos, os dos trabalhadores da obra. E quantos serão?
Não é fácil saber, visto que não se faz um recenseamento centralizado desses empregos como se faz dos directamente criados pela obra mas, à falta de um estudo feito no terreno, podemos usar "multiplicadores de emprego" obtidos em estudos feitos noutros locais e para este tipo de trabalho. Não obtemos números exactos, mas teremos pelo menos uma estimativa, uma ideia, vá lá. Alguns trabalhos internacionais indicam um "multiplicador de emprego" de 1,6 associado à construção civil em geral, o que apontará para 1600 empregos gerados pelos mil da construção da tal barragem. Tão temporários quanto estes, claro...
A maioria dos multiplicadores de emprego associados às diversas actividades industriais varia, por exemplo, entre os 2,2 atribuídos às indústrias de produtos metálicos acabados e o máximo de 6,9 associados às extracções de petróleo e gás natural. De um modo geral, quanto mais a montante numa cadeia produtiva está uma actividade, mais empregos se pode considerar que são induzidos (a jusante) por essa actividade.
Uma boa fonte de informação sobre estes números é o Bureau of Economic Analysis (BEA) norte-americano. Claro que esses dados têm de ser usados com sentido crítico, porque os referidos multiplicadores variam muito de actividade específica para actividade específica, de região para região e até com a época. Mas, à falta de melhores referências, sempre nos servem para uma estimativa, uma ideia da ordem de grandeza, vá lá. Isto se encontrarmos dados que sirvam as nossas necessidades específicas...
Como o cálculo do emprego indirecto gerado pelo directo tem de recorrer a muitas hipóteses e informações cruzadas, ele pode procurar ser rigoroso, usando modelos matriciais de Input-Output, ou pelo contrário muito simples.
No limite e de acordo com a teoria marxista, o simples preço final de uma mercadoria reflecte a quantidade de trabalho que ela incorpora e, portanto, o emprego que requereu!
Nesta medida, por exemplo, quanto mais cara for uma fonte de energia eléctrica, tanto mais emprego cria, o que é no fundo o argumento dos que defendem que as energias renováveis criam mais emprego que as tradicionais.
Claro que este tipo de extrapolação é passível de múltiplas manipulações e omissões, conforme os interesses em jogo no que respeita a captar subsídios públicos. Além de passíveis de grandes exageros, os "multiplicadores de emprego" esquecem-se muitas vezes de quantificar que percentagem de cada emprego indirecto é efectivamente dedicado a satisfazer o directo, quanto tempo duram esses empregos, que empregos são destruídos ou se perdem pelo advento dos novos e, sobretudo, onde são esses outros empregos criados (se no estrangeiro, se no próprio país)!
Segundo o hyperlink que fiz acima, por exemplo, a mineração do carvão nos EUA empregava directamente 80 mil trabalhadores em 2001 e geraria mais 351,6 mil empregos indirectos (num total de 432 mil) e, segundo outras fontes credíveis, a esse número haverá que somar 31 mil no transporte e mais 60 mil nas centrais eléctricas a carvão, considerando embora que o número de empregos indirectos será da mesma ordem de grandeza da indicada antes (algumas poucas centenas de milhar), o que aponta para um "multiplicador de emprego" da mineração do carvão de uns 4.5. Porém, a Associação Nacional de Carvão dos EUA estima em 1,5 milhões os empregos totais (directos e indirectos) criados pelo carvão, o que evidentemente está afectado de um "sobre-multiplicador político de emprego " de pelo menos 4 (x4.5...)!
Vem tudo isto muito a propósito do número de empregos afirmado no PEC (Plano de Estabilidade e Crescimento) como existente presentemente em Portugal, gerado pelas energias renováveis. Esse número é de 30 mil. E como terá sido esse número tirado?
Ora no relatório da Deloîtte feiro para a APREN e apresentado publicamente com grande pompa e circunstância nos finais do ano passado, o número era nos finais de 2008 de 36 mil. Só que, como o relatório mostra (pag. 8), esse número é a soma dos empregos indirectos estimados (33,7 mil) com os directos realmente recenseados: 2,4 mil! Este número não está longe do que eu tenho estimado para o presente, 3 mil, pelo que deve ser real.
Porém e pelo que reflecti convosco até aqui, dada a natureza de fim de cadeia produtiva da actividade nacional na matéria, o multiplicador de emprego plausível associado a estas actividades deve ficar algures entre o das actividades comerciais e o das indústrias de produtos acabados, ou seja e como ordem de grandeza, 2. Teremos, assim, induzidos por esses 2,4 mil empregos directos (ou 3 mil...), mais uns 5 a 6 mil empregos - mas quantos deles em Portugal?
Pelo que o número de 30 mil empregos alegados pelo Governo como existentes no presente deverão estar afectados de uma sobre-multiplicação política por um factor entre 3 e 5, e já é uma moderação do sobre-multiplicador da APREN, que será de uns 6!...! E, como não se precisou que se tratam de empregos reais somados a indirectos estimados, dando a entender ao povo ignaro que são todos directos, o sobre-multiplicador político é cerca de dez!...
Quanto aos números do futuro, os 120 mil empregos previstos para daqui a 10 anos, quando o nosso mercado já estiver saturado, são pura especulação.
Mas uma coisa é certa: para realizar as metas de Bruxelas será preciso fechar a central a carvão de Sines e "prescindir" do seu pessoal, o que os seus 500 trabalhadores directos e os indirectos que trabalham para os muitos empreiteiros que operam na Central há muito tempo justificadamente receiam - como também os das Centrais termoeléctricas de Setúbal e Carregado, e ainda os respectivos fornecedores de tabaco e jornais, frutarias e mini-mercados que os abastecem, e todos os outros empregos indirectos dependentes destes, na fila para o desemprego...
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quinta-feira, março 18, 2010
Programar a Inovação tecnológica, doença infantil do planeamento económico
Uma das facetas do voluntarismo messiânico dos ecotópicos (um "nick" para ecologistas utópicos) é a crença de que o seu desejo de novas tecnologias "verdes" se pode tornar realidade pela fé, por muito o quererem, e por para tal financiarem os cientistas. E, por acreditarem nesta capacidade de o desejo se tornar realidade pela simples "muita vontade", têm o hábito de programar o futuro a contar com tecnologias que não existem e de que nem se faz a menor ideia de quando, como e a que custo virão a existir.
Exemplos gritantes desta fé utópica no desenvolvimento tecnológico, que assenta muito na "cultura científica" do Media Market, Nokias de última geração e plasmas de Alta Definição, são o automóvel eléctrico e a energia solar. De facto, essa fé está patente até em planos de Estabilidade e Crescimento de Governos responsáveis por países europeus, como por exemplo Portugal!...
O automóvel eléctrico sofre do problema da curta vida e alto custo das melhores baterias que se conhecem, e o solar a mesma coisa quanto ao Silício. Mas os ecotópicos acreditam que tudo se vai resolver com a mesma facilidade com que vão aparecer os "plasmas 3D"...
Ora estas duas desejadas tecnologias sofrem, como já discuti por aqui, de obstáculos tecnológicos de que não se faz (ainda) ideia de como ultrapassar, e por isso nenhum organismo internacional sério, incluindo o Painel Climático Inter-Governamental da ONU, fazem projecções para elas a prazos inferiores a 20 anos, 10 na melhor hipótese!...
Mas será que se se "apostar em força" não se conseguirá resolver esses problemas tecnológicos, saltando etapas e chegando lá mais depressa?
É chegado a esta questão que assomam à minha memória já bastante vivida os vários grandes projectos tecnológicos da História recente em que se apostou com voluntarismo semelhante e que não deram em nada.
O que melhor ilustra o fiasco deste tipo de voluntarismo é o "projecto da 5ª geração de computadores", decidido pelo Governo japonês nos anos 80, e que iria dar ao Japão a supremacia na competição então travada com os EUA pelo domínio da tecnologia de computadores.
O projecto teve financiamentos colossais, reuniu numa "cidade científica" enormes recursos, com a participação de todas as grandes empresas japonesas do sector, da Hitachi à Toshiba, e tinha um núcleo selecto de 100 jovens génios, que se esperava que conseguissem realizar o tal computador. Este caracterizar-se-ia por entender a linguagem humana falada e assentar na Inteligência Artificial, que à época se esperava que em breve produzisse máquinas como a ilustrada no filme "War Games", para aplicações pacíficas corriqueiras.
Não deu em nada. O que apareceu foi algo que ninguém previra noutras regiões do mundo, os computadores pessoais. E a Inteligência Artificial, pela qual eu próprio me entusiasmei à época (e de que ainda conservo um secreto entusiasmo), também não deu em nada do que se esperava.
Passados uns anos já toda a gente desistira de ter computadores que entendessem a linguagem humana falada e se ficava contente com a ideia de máquinas com a inteligência de insectos mas cooperantes, como as formigas...
O Japão, de resto, tendo uma histórica tradição de fascínio pela tecnologia como o nosso Fernão Mendes Pinto comprovou, é rico em histórias destas. E são eles, que inventaram as baterias de iões de lítio para os telemóveis da Sony, os primeiros a dizer que não é tão cedo que haverá alternativa aos automóveis híbridos, pois os puramente eléctricos nem sequer estão no horizonte...
Mas não há mesmo casos de projectos de inovação tecnológica cuja programação tenha sido suficiente para garantir resultados?
Há. Alguns.
Mas tiveram todos uma característica comum: o custo do produto final não interessava, desde que a tecnologia funcionasse. Refiro-me, é claro, a um dos dois únicos ramos da tecnologia onde isso acontece, onde o preço não interessa desde que solução funcione: a militar!
O projecto mais emblemático de demonstração do voluntarismo tecnológico que obteve o resultado pretendido foi o projecto... Manhatan! O da bomba atómica! Para quem o ignore, os recursos investidos foram tais que, por exemplo, à época os EUA compraram quase toda a prata que havia à venda no mundo, entre outros ingredientes do projecto!...
O projecto de desenvolvimento da bomba atómica foi bem sucedido mas nem mesmo esse demonstra que todo e qualquer projecto de desenvolvimento de tecnologia militar consegue chegar aos resultados pretendidos!
Um exemplo de fracasso de um projecto destes (paralelo ao japonês dos computadores de 5ª geração) foi o da "guerra das estrelas" de Reagan.
O projecto da "guerra das estrelas" requeria várias inovações tecnológicas, desde canhões de laser montados em satélites a mísseis anti-mísseis de alta precisão, e algumas destas tecnologias vieram a ser conseguidas (nomeadamente a dos mísseis anti-mísseis), mas havia uma componente no sistema que nunca se conseguiu realizar: um software de gestão de batalha sem bugs! E por isso, 30 anos depois o projecto reduziu-se à modesta ambição de conseguir deter uma meia dúzia de mísseis balísticos iranianos, que é o que hoje resta dele...
Coisas que quem acredita que a fé pode mover montanhas, neste caso realizar automóveis eléctricos e painéis solares baratos e fiáveis em prazo previsível, e mete essa fé em programas de governação, devia ter em conta...!
Exemplos gritantes desta fé utópica no desenvolvimento tecnológico, que assenta muito na "cultura científica" do Media Market, Nokias de última geração e plasmas de Alta Definição, são o automóvel eléctrico e a energia solar. De facto, essa fé está patente até em planos de Estabilidade e Crescimento de Governos responsáveis por países europeus, como por exemplo Portugal!...
O automóvel eléctrico sofre do problema da curta vida e alto custo das melhores baterias que se conhecem, e o solar a mesma coisa quanto ao Silício. Mas os ecotópicos acreditam que tudo se vai resolver com a mesma facilidade com que vão aparecer os "plasmas 3D"...
Ora estas duas desejadas tecnologias sofrem, como já discuti por aqui, de obstáculos tecnológicos de que não se faz (ainda) ideia de como ultrapassar, e por isso nenhum organismo internacional sério, incluindo o Painel Climático Inter-Governamental da ONU, fazem projecções para elas a prazos inferiores a 20 anos, 10 na melhor hipótese!...
Mas será que se se "apostar em força" não se conseguirá resolver esses problemas tecnológicos, saltando etapas e chegando lá mais depressa?
É chegado a esta questão que assomam à minha memória já bastante vivida os vários grandes projectos tecnológicos da História recente em que se apostou com voluntarismo semelhante e que não deram em nada.
O que melhor ilustra o fiasco deste tipo de voluntarismo é o "projecto da 5ª geração de computadores", decidido pelo Governo japonês nos anos 80, e que iria dar ao Japão a supremacia na competição então travada com os EUA pelo domínio da tecnologia de computadores.
O projecto teve financiamentos colossais, reuniu numa "cidade científica" enormes recursos, com a participação de todas as grandes empresas japonesas do sector, da Hitachi à Toshiba, e tinha um núcleo selecto de 100 jovens génios, que se esperava que conseguissem realizar o tal computador. Este caracterizar-se-ia por entender a linguagem humana falada e assentar na Inteligência Artificial, que à época se esperava que em breve produzisse máquinas como a ilustrada no filme "War Games", para aplicações pacíficas corriqueiras.
Não deu em nada. O que apareceu foi algo que ninguém previra noutras regiões do mundo, os computadores pessoais. E a Inteligência Artificial, pela qual eu próprio me entusiasmei à época (e de que ainda conservo um secreto entusiasmo), também não deu em nada do que se esperava.
Passados uns anos já toda a gente desistira de ter computadores que entendessem a linguagem humana falada e se ficava contente com a ideia de máquinas com a inteligência de insectos mas cooperantes, como as formigas...
O Japão, de resto, tendo uma histórica tradição de fascínio pela tecnologia como o nosso Fernão Mendes Pinto comprovou, é rico em histórias destas. E são eles, que inventaram as baterias de iões de lítio para os telemóveis da Sony, os primeiros a dizer que não é tão cedo que haverá alternativa aos automóveis híbridos, pois os puramente eléctricos nem sequer estão no horizonte...
Mas não há mesmo casos de projectos de inovação tecnológica cuja programação tenha sido suficiente para garantir resultados?
Há. Alguns.
Mas tiveram todos uma característica comum: o custo do produto final não interessava, desde que a tecnologia funcionasse. Refiro-me, é claro, a um dos dois únicos ramos da tecnologia onde isso acontece, onde o preço não interessa desde que solução funcione: a militar!
O projecto mais emblemático de demonstração do voluntarismo tecnológico que obteve o resultado pretendido foi o projecto... Manhatan! O da bomba atómica! Para quem o ignore, os recursos investidos foram tais que, por exemplo, à época os EUA compraram quase toda a prata que havia à venda no mundo, entre outros ingredientes do projecto!...
O projecto de desenvolvimento da bomba atómica foi bem sucedido mas nem mesmo esse demonstra que todo e qualquer projecto de desenvolvimento de tecnologia militar consegue chegar aos resultados pretendidos!
Um exemplo de fracasso de um projecto destes (paralelo ao japonês dos computadores de 5ª geração) foi o da "guerra das estrelas" de Reagan.
O projecto da "guerra das estrelas" requeria várias inovações tecnológicas, desde canhões de laser montados em satélites a mísseis anti-mísseis de alta precisão, e algumas destas tecnologias vieram a ser conseguidas (nomeadamente a dos mísseis anti-mísseis), mas havia uma componente no sistema que nunca se conseguiu realizar: um software de gestão de batalha sem bugs! E por isso, 30 anos depois o projecto reduziu-se à modesta ambição de conseguir deter uma meia dúzia de mísseis balísticos iranianos, que é o que hoje resta dele...
Coisas que quem acredita que a fé pode mover montanhas, neste caso realizar automóveis eléctricos e painéis solares baratos e fiáveis em prazo previsível, e mete essa fé em programas de governação, devia ter em conta...!
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quarta-feira, março 17, 2010
O porquê do estudo da APREN não ser público - retratado
Tenho que me retratar da consideração que fiz de o estudo da APREN não ser público.
De facto na altura da apresentação não o era, e um leitor disse-me que o pretenderiam apresentar primeiro aos sócios.
Passaram meses, fiz uma busca na net e não vi referência nenhuma, e dei-o por não publicado.
Afinal há minutos soube que havia quem o tivesse (versão impressa), e entretanto alguém me mandou o link para o texto. O documento tem um mês de existência impressa e dizem-me que foi colocado ontem no site onde está, mas de qualquer forma já é público, portanto. Vou lê-lo e depois darei conta das minhas impressões.
------------------
Bem, agora depois da apresentação do programa do Governo para a energia feita ontem, já percebi porque nunca foi tornado público o tal estudo da APREN encomendado à Deloîtte e apresentado com grande pompa e circunstância no início de Dezembro de 2009 num hotel de Lisboa. Na verdade, nunca se tratou de um estudo de economia, mas de um simples exercício de propaganda em que tudo é inventado do princípio ao fim e por isso é impossível apresentar os seus fundamentos.
A apresentação feita há 4 meses e meio foi apenas o ensaio da que viria a ser feita ontem pelo próprio Governo.
De facto na altura da apresentação não o era, e um leitor disse-me que o pretenderiam apresentar primeiro aos sócios.
Passaram meses, fiz uma busca na net e não vi referência nenhuma, e dei-o por não publicado.
Afinal há minutos soube que havia quem o tivesse (versão impressa), e entretanto alguém me mandou o link para o texto. O documento tem um mês de existência impressa e dizem-me que foi colocado ontem no site onde está, mas de qualquer forma já é público, portanto. Vou lê-lo e depois darei conta das minhas impressões.
------------------
Bem, agora depois da apresentação do programa do Governo para a energia feita ontem, já percebi porque nunca foi tornado público o tal estudo da APREN encomendado à Deloîtte e apresentado com grande pompa e circunstância no início de Dezembro de 2009 num hotel de Lisboa. Na verdade, nunca se tratou de um estudo de economia, mas de um simples exercício de propaganda em que tudo é inventado do princípio ao fim e por isso é impossível apresentar os seus fundamentos.
A apresentação feita há 4 meses e meio foi apenas o ensaio da que viria a ser feita ontem pelo próprio Governo.
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terça-feira, março 16, 2010
E depois das barragens feitas, quantos empregos terão elas criado?
O plano de construção das novas barragens, que como já sobejamente demonstrei vão produzir energia nenhuma, tem sido invocado como um dos grandes projectos do Governo para a criação de "dezenas de milhar de empregos".
Também já expliquei que esses empregos são de construção civil, mal pagos e em alojamento em regiões deslocadas, e que duram só parte dos 4 anos de construção típicos de uma barragem.
Porém, a questão que quero colocar é a seguinte: depois de todas as barragens construídas, quantos empregos ao certo ficarão depois, em permanência? Será possível saber com rigor?
É. Esse número foi dito numa entrevista ao Expresso de um Administrador da EDP, publicada num suplemento especial dedicado a estas barragens, em Maio de 2009. O número é... 84 empregos!
Por outro lado, sabendo-se que só a amortização destas barragens vai requerer um aumento de uns 6% do preço da electricidade, fica a questão de quantos empregos serão destruídos pelo efeito desse encarecimento na economia e na retracção do poder de compra das famílias...
Também já expliquei que esses empregos são de construção civil, mal pagos e em alojamento em regiões deslocadas, e que duram só parte dos 4 anos de construção típicos de uma barragem.
Porém, a questão que quero colocar é a seguinte: depois de todas as barragens construídas, quantos empregos ao certo ficarão depois, em permanência? Será possível saber com rigor?
É. Esse número foi dito numa entrevista ao Expresso de um Administrador da EDP, publicada num suplemento especial dedicado a estas barragens, em Maio de 2009. O número é... 84 empregos!
Por outro lado, sabendo-se que só a amortização destas barragens vai requerer um aumento de uns 6% do preço da electricidade, fica a questão de quantos empregos serão destruídos pelo efeito desse encarecimento na economia e na retracção do poder de compra das famílias...
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segunda-feira, março 15, 2010
Outro estudo alemão sobre o impacto económico das energias renováveis - e que é feito do estudo da Deloîtte e da APREN sobre Portugal?
Há cerca de um mês mencionei um estudo alemão, de 2006, do Bremer Energie Institut, que postulava que à criação temporária de emprego pela "economia das energias renováveis" se seguia a destruição duradoura de outro resultante do aumento do custo da energia para as actividades económicas e da decorrente retracção de poder de compra das famílias.
Dias antes dera conta de um trabalho similar publicado em 2009 pela Universidade Juan Carlos de Madrid que era ainda mais radical nas conclusões extraídas e que, em particular, relatava os devastadores efeitos que o rebentamento da "bolha solar" tivera em várias regiões espanholas.
Esta "bolha" resultou da especulação que se criou com a política de concessões de autorizações para "pontos de acesso à rede", em que se procuraram essas concessões não para realizar instalações solares, mas sim para as vender a quem desse mais!
A mesma coisa que se passa por cá com a microgeração e o acesso ao portal das respectivas concessões que, como todos os interessados sabem, foi permanentemente bloqueado por uns "espertinhos"...
Cruzando as fontes do trabalho espanhol com outras que eu conhecia, concluí que a alegação segundo a qual por cada emprego temporário criado pelas renováveis eram destruídos 2.2 não era numericamente rigorosa: por cada emprego temporário será destruído um duradouro, apenas - ou seja, ao fim de uns anos vai-se o emprego temporário e ficam dois desempregados, o do emprego temporário e mais um resultante do aumento do preço da energia. Os números do trabalho espanhol poderão não ser exactos, mas a ideia geral é.
Dias depois do meu post o Expresso noticiou este estudo, e descobri recentemente que este trabalho espanhol já fora publicamente referido por Bjorn Lomborg, o "ambientalista céptico" dinamarquês.
Ora há alguns meses foi publicado um novo estudo alemão sobre a economia das renováveis e o seu impacto na Alemanha, do Instituto para a Investigação Económica do Reno-Westefália, cujo texto pode ser encontrado aqui. O novo trabalho é deveras exaustivo e, além de listar detalhadamente os estudos anteriorermente feitos sobre a questão do emprego na Alemanha associado às renováveis, invocando também a incapacidade recente da indústria alemã conseguir competir no seu próprio mercado com os produtos chineses, faz uma crítica exaustiva ao princípio de subsidiação directa aos produtores de renováveis, particularmente aos da energia solar, implementado pela Alemanha desde 1991 (e também por cá), de que realço os seguintes pontos:
Ainda estamos todos à espera que a APREN divulgue o tal estudo...
Dias antes dera conta de um trabalho similar publicado em 2009 pela Universidade Juan Carlos de Madrid que era ainda mais radical nas conclusões extraídas e que, em particular, relatava os devastadores efeitos que o rebentamento da "bolha solar" tivera em várias regiões espanholas.
Esta "bolha" resultou da especulação que se criou com a política de concessões de autorizações para "pontos de acesso à rede", em que se procuraram essas concessões não para realizar instalações solares, mas sim para as vender a quem desse mais!
A mesma coisa que se passa por cá com a microgeração e o acesso ao portal das respectivas concessões que, como todos os interessados sabem, foi permanentemente bloqueado por uns "espertinhos"...
Cruzando as fontes do trabalho espanhol com outras que eu conhecia, concluí que a alegação segundo a qual por cada emprego temporário criado pelas renováveis eram destruídos 2.2 não era numericamente rigorosa: por cada emprego temporário será destruído um duradouro, apenas - ou seja, ao fim de uns anos vai-se o emprego temporário e ficam dois desempregados, o do emprego temporário e mais um resultante do aumento do preço da energia. Os números do trabalho espanhol poderão não ser exactos, mas a ideia geral é.
Dias depois do meu post o Expresso noticiou este estudo, e descobri recentemente que este trabalho espanhol já fora publicamente referido por Bjorn Lomborg, o "ambientalista céptico" dinamarquês.
Ora há alguns meses foi publicado um novo estudo alemão sobre a economia das renováveis e o seu impacto na Alemanha, do Instituto para a Investigação Económica do Reno-Westefália, cujo texto pode ser encontrado aqui. O novo trabalho é deveras exaustivo e, além de listar detalhadamente os estudos anteriorermente feitos sobre a questão do emprego na Alemanha associado às renováveis, invocando também a incapacidade recente da indústria alemã conseguir competir no seu próprio mercado com os produtos chineses, faz uma crítica exaustiva ao princípio de subsidiação directa aos produtores de renováveis, particularmente aos da energia solar, implementado pela Alemanha desde 1991 (e também por cá), de que realço os seguintes pontos:
- A subsidiação directa às várias formas de energia renovável desincentiva a inovação, ao garantir um prémio à tecnologia existente. Isto é particularmente grave no que respeita à energia solar, porquanto estimula a manutenção da tremendamente cara tecnologia de silício e desencoraja a Investigação nas tecnologias de películas finas;
- Desincentiva também a competição entre diferentes tecnologias renováveis, ao estabelecer um valor fixo para cada uma; este desincentivo à procura de evolução tecnológica é reconhecido pela Agência Internacional de Energia, que desencoraja o método da subsidiação directa e específica às renováveis
- Desencoraja e distorce o mercado de emissões de carbono. Sendo o preço máximo já atingido da tonelada de CO2 neste mercado de 30 €, como este preço é muito inferior ao do custo das renováveis necessário para evitar a emissão de tal tonelada, o resultado é que as utilities que têm preferido pagar por tais emissões acabam por conseguir os mesmos resultados face à legislação europeia mas a muito menores custos. Daqui resultará uma redução da ordem dos 20% dos lucros das utilities alemãs, e uma subida correspondente dos da ENEL italiana, por exemplo.
Ainda estamos todos à espera que a APREN divulgue o tal estudo...
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domingo, março 14, 2010
E de como a "exportação da tecnologia nacional em energias renováveis" virá a aumentar a nossa dívida, em vez de a reduzir!
A propósito do post que escrevi aqui há dias sobre a "venda" de energias renováveis que o nosso 1º Ministro foi promover a Moçambique, recebi um interessantíssimo esclarecimento de alguém que conhece bem estas coisas e que tem uma competência a toda a prova, e que passo a partilhar convosco.
A propósito do seu post sobre Moçambique, deixe que lhe conte a fase 1 destes negócios de renováveis em África, para ver que nada daquilo é inocente e inconsequente. Este é o continuar de uma estratégia de financiamento às empresas do regime, de uma forma muito pouco ou nada transparente.
Vamos então falar de um recente sucesso económico, também contado pelo Público: “Martifer instala dois parques solares fotovoltaicos em Cabo Verde” informa este jornal que “De acordo com um comunicado da empresa, a Martifer Solar, empresa do Grupo Martifer, SGPS, assinou um contrato com o Ministério da Economia, Crescimento e Competitividade (MECC) de Cabo Verde para o fornecimento e instalação “chave-na-mão” de dois parques solares fotovoltaicos nas ilhas do Sal e Santiago, com um valor de cerca de 30 milhões de euros.”
Fantástico, não é? Estamos a exportar para África, a vender ao estrangeiro, e por essa via a aumentar o nosso PIB.
Vamos então recuar até Março do ano passado, quando o nosso Primeiro, em visita a Cabo Verde anunciou a abertura de uma linha de crédito de 100 milhões de Euros para apoiar projectos cabo-verdianos nas energias renovaveis (para Moçambique parece ter sido aproximadamente o dobro do valor, vamos ver se a CGD coloca cá fora dados sobre a linha de crédito). Mas, sendo os beneficiários finais entidades Cabo-verdianas que irão contratar fornecedores portugueses, e concretizarão os projectos a financiar ao abrigo da linha, mas com garantia do Estado Português. Vamos agora juntar isto ao facto de o sector eléctrico em Cabo Verde ser ainda muito débil e haver muita falta de água. Face a isto, e para começar, o que é que ocorreu de melhor em algumas doutas cabeças? Investir 30 milhões da linha de crédito, aberta pelo Governo português, em duas centrais de energia solar fotovoltaica.
Quem vai pagar isto?
Após o fim do período de carência do empréstimo, muito generoso diga-se de passagem (10 anos+5 anos), já será visível o buraco financeiro do projecto com a impossibilidade de recuperar os custos de investimento e pagar os elevados custos de manutenção (na hipótese de este ainda estar a funcionar), logo o Governo local vai achar que tem um justificado capital de queixa para pedir perdão da dívida, ou no limite uma renegociação, chutando-a para as calendas. Assim, já ficou bom de ver quem paga mais este sucesso económico da indústria das energias renováveis: os mesmos de sempre – o avalista, ou seja os contribuintes portugueses! Mas também é verdade que isto não é nada que os governantes portugueses não estejam à espera.
Mas não havia aqui uma boa notícia? Claro que há – para a Martifer, que já ganhou esta adjudicação no valor 30 milhões, sem que o Governo português tenha, no mínimo, sujeitado a utilização da linha de crédito à abertura de um concurso público para empresas nacionais, ao contrário do que fazem os outros países financiadores, por norma. E este é que é o facto grave, desta política de apoio à economia.
Assim se conta mais um enorme sucesso português ligado às energias renováveis, e a subida de mais um degrau da dívida pública de Portugal. Outros virão, e como já se viu Moçambique será o próximo (mas com adjudicação directa, que lá fora o Tribunal de Contas não se mete).
A propósito do seu post sobre Moçambique, deixe que lhe conte a fase 1 destes negócios de renováveis em África, para ver que nada daquilo é inocente e inconsequente. Este é o continuar de uma estratégia de financiamento às empresas do regime, de uma forma muito pouco ou nada transparente.
Vamos então falar de um recente sucesso económico, também contado pelo Público: “Martifer instala dois parques solares fotovoltaicos em Cabo Verde” informa este jornal que “De acordo com um comunicado da empresa, a Martifer Solar, empresa do Grupo Martifer, SGPS, assinou um contrato com o Ministério da Economia, Crescimento e Competitividade (MECC) de Cabo Verde para o fornecimento e instalação “chave-na-mão” de dois parques solares fotovoltaicos nas ilhas do Sal e Santiago, com um valor de cerca de 30 milhões de euros.”
Fantástico, não é? Estamos a exportar para África, a vender ao estrangeiro, e por essa via a aumentar o nosso PIB.
Vamos então recuar até Março do ano passado, quando o nosso Primeiro, em visita a Cabo Verde anunciou a abertura de uma linha de crédito de 100 milhões de Euros para apoiar projectos cabo-verdianos nas energias renovaveis (para Moçambique parece ter sido aproximadamente o dobro do valor, vamos ver se a CGD coloca cá fora dados sobre a linha de crédito). Mas, sendo os beneficiários finais entidades Cabo-verdianas que irão contratar fornecedores portugueses, e concretizarão os projectos a financiar ao abrigo da linha, mas com garantia do Estado Português. Vamos agora juntar isto ao facto de o sector eléctrico em Cabo Verde ser ainda muito débil e haver muita falta de água. Face a isto, e para começar, o que é que ocorreu de melhor em algumas doutas cabeças? Investir 30 milhões da linha de crédito, aberta pelo Governo português, em duas centrais de energia solar fotovoltaica.
Quem vai pagar isto?
Após o fim do período de carência do empréstimo, muito generoso diga-se de passagem (10 anos+5 anos), já será visível o buraco financeiro do projecto com a impossibilidade de recuperar os custos de investimento e pagar os elevados custos de manutenção (na hipótese de este ainda estar a funcionar), logo o Governo local vai achar que tem um justificado capital de queixa para pedir perdão da dívida, ou no limite uma renegociação, chutando-a para as calendas. Assim, já ficou bom de ver quem paga mais este sucesso económico da indústria das energias renováveis: os mesmos de sempre – o avalista, ou seja os contribuintes portugueses! Mas também é verdade que isto não é nada que os governantes portugueses não estejam à espera.
Mas não havia aqui uma boa notícia? Claro que há – para a Martifer, que já ganhou esta adjudicação no valor 30 milhões, sem que o Governo português tenha, no mínimo, sujeitado a utilização da linha de crédito à abertura de um concurso público para empresas nacionais, ao contrário do que fazem os outros países financiadores, por norma. E este é que é o facto grave, desta política de apoio à economia.
Assim se conta mais um enorme sucesso português ligado às energias renováveis, e a subida de mais um degrau da dívida pública de Portugal. Outros virão, e como já se viu Moçambique será o próximo (mas com adjudicação directa, que lá fora o Tribunal de Contas não se mete).
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quarta-feira, março 10, 2010
Uma história que é um aviso para quem a escute
Nem todos saberão que a Espanha, em 2008, se tornou o 2º país do Mundo em energia solar, ou mais exactamente, em potência instalada fotovoltaica. 2500 MW, que produzem em média uns 500. O 1º país do Mundo, para quem não saiba, é a Alemanha.
Isto aconteceu porque o Governo de Zapatero decidiu subsidiar essa energia com a extraordinário valor de 58 ç/kWh, umas 15 vezes o que custa a produção do mesmo kWh pelas 9 nucleares espanholas em operação, e na esperança que isso fomentasse o desenvolvimento e maturação da indústria espanhola de equipamentos fotovoltaicos.
Porém, o Governo espanhol não previu a velocidade da corrida ao solar que a sua generosidade iria desencadear, e de repente viu-se a braços com um pesadíssimo encargo, pouca energia produzida, instalações que se avariam e dão repetidos problemas, e sobretudo uma invasão de equipamentos chineses, deixando a indústria espanhola encurralada numa competição que não pode vencer. E baixou o seu prémio, que está agora já só (!!!) em 39 ç/kWh, ainda umas 10 vezes o custo de produção das nucleares.
Resultado: a debandada geral!
O New York Times de ontem conta a história de Puertollano, uma cidadesinha que outrora vivia das minas de carvão e que julgou ver no advento do solar e na procura de terrenos para a sua montagem na região um renascimento económico capaz de reduzir a sua taxa de desemprego de 20%. E conseguiu reduzi-la para metade, de facto... por dois anos.
Agora, com a debandada dos "investidores" (que entretanto tinham criado uma "bolsa" de autorizações para instalação de solares que criou uma verdadeira bolha especulativa que rebentou depressa), Puertollano voltou á taxa de desemprego anterior.
O que ficou foi o encargo para Espanha desses 500 MW médios a serem pagos a 15 vezes o custo de produção normal...
Na Alemanha, que tinha em 2007 um subsídio ligeiramente mais baixo que o espanhol, de 53 ç/kWh, este valor desceu para 43 ç/kWh em 2009 e ocorreu a mesma descida abrupta, ali estando claramente assumido que por causa da constatação pelo Governo alemão de que estava a subsidiar a indústria chinesa. E também houve despedimentos maciços na indústria solar, como contei aqui há uns meses.
Isto aconteceu porque o Governo de Zapatero decidiu subsidiar essa energia com a extraordinário valor de 58 ç/kWh, umas 15 vezes o que custa a produção do mesmo kWh pelas 9 nucleares espanholas em operação, e na esperança que isso fomentasse o desenvolvimento e maturação da indústria espanhola de equipamentos fotovoltaicos.
Porém, o Governo espanhol não previu a velocidade da corrida ao solar que a sua generosidade iria desencadear, e de repente viu-se a braços com um pesadíssimo encargo, pouca energia produzida, instalações que se avariam e dão repetidos problemas, e sobretudo uma invasão de equipamentos chineses, deixando a indústria espanhola encurralada numa competição que não pode vencer. E baixou o seu prémio, que está agora já só (!!!) em 39 ç/kWh, ainda umas 10 vezes o custo de produção das nucleares.
Resultado: a debandada geral!
O New York Times de ontem conta a história de Puertollano, uma cidadesinha que outrora vivia das minas de carvão e que julgou ver no advento do solar e na procura de terrenos para a sua montagem na região um renascimento económico capaz de reduzir a sua taxa de desemprego de 20%. E conseguiu reduzi-la para metade, de facto... por dois anos.
Agora, com a debandada dos "investidores" (que entretanto tinham criado uma "bolsa" de autorizações para instalação de solares que criou uma verdadeira bolha especulativa que rebentou depressa), Puertollano voltou á taxa de desemprego anterior.
O que ficou foi o encargo para Espanha desses 500 MW médios a serem pagos a 15 vezes o custo de produção normal...
Na Alemanha, que tinha em 2007 um subsídio ligeiramente mais baixo que o espanhol, de 53 ç/kWh, este valor desceu para 43 ç/kWh em 2009 e ocorreu a mesma descida abrupta, ali estando claramente assumido que por causa da constatação pelo Governo alemão de que estava a subsidiar a indústria chinesa. E também houve despedimentos maciços na indústria solar, como contei aqui há uns meses.
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sábado, março 06, 2010
Vender energias renováveis a Moçambique
Na sua recente visita à ex-colónia portuguesa de Moçambique, um país com 9 vezes a dimensão de Portugal e quase 2 vezes a nossa população, mas com um PIB igual a 10% do nosso e do qual a comunidade internacional subsidia a fundo perdido metade do Orçamento Geral do Estado, foi anunciado que o nosso Primeiro-Ministro ia vender energias renováveis, dada a alegada posição de vanguarda portuguesa nas respectivas tecnologias.
Moçambique tem um povo amável e pacífico, contrastante com o de outros países de África, mas onde as novas gerações já raramente falam português. Quase tudo o que lá funciona é obra de estrangeiros, de ONG, de alguns portugueses e de muitos sul-africanos, razão porque o inglês é a língua estrangeira dominante e porque Moçambique decidiu há anos aderir à CommonWealth.
Uma coisa que não existe em Moçambique é uma rede eléctrica nacional.
Na realidade, Moçambique produz 30% da electricidade produzida em Portugal, bastante mais que o seu PIB relativo, mas a grande maioria é para exportação. Na realidade, quando no final dos anos 60 Portugal construiu a grande barragem de Cabora Bassa, ainda hoje uma das maiores do Mundo, o seu intuito foi desde o início a exportação de energia para a África do Sul, ideia que levou décadas a pôr-se em prática devido às longas guerras que o impediram por muitos anos.
Moçambique produz 30% da electricidade gerada em Portugal mas só consome 3%. O resto é exportado para a África do Sul.
Maputo, por exemplo, é abastecida de energia por linhas de Alta Tensão que vêm da África do Sul, acompanhando uma estrada por onde passa um fluxo constante de carrinhas e camionetas carregadas de produtos alimentares e de quase tudo o resto que se consome na capital.
Mas, no resto do país, onde há electricidade predomina a "microgeração" dos grupos electrogéneos a gasóleo e, em algumas cidades de província, energia produzida por turbinas a gás montadas em contentores e importadas - como quase tudo - da África do Sul. De facto, Moçambique tem gás natural, e as reservas de gás natural de Moçambique estão já a escoar-se para aquele país vizinho.
As incipientes redes eléctricas das cidades de província são de estrutura tipicamente sul-africana, com um funcionamento intermitente e precário, de modo que fiquei com curiosidade em saber que energias renováveis iria Portugal vender a Moçambique.
Claro: a notícia foi dada no início da visita, com toda a probabilidade para consumo interno do pagode português de modo a alimentar a fantasia de que até exportamos tecnologias de energias renováveis, e depois nunca mais se falou do assunto.
Como não podia deixar de ser.
As energias renováveis exigem redes eléctricas potentes com grandes centrais convencionais que assegurem o controlo das redes, e muito dinheiro, porque são caras. Nunca será por aí que os países pobres de África irão, a menos que os dadores internacionais paguem tudo e fiquem lá a manter as instalações a funcionar, isto é, a menos que o colonialismo volte.
Moçambique tem um povo amável e pacífico, contrastante com o de outros países de África, mas onde as novas gerações já raramente falam português. Quase tudo o que lá funciona é obra de estrangeiros, de ONG, de alguns portugueses e de muitos sul-africanos, razão porque o inglês é a língua estrangeira dominante e porque Moçambique decidiu há anos aderir à CommonWealth.
Uma coisa que não existe em Moçambique é uma rede eléctrica nacional.
Na realidade, Moçambique produz 30% da electricidade produzida em Portugal, bastante mais que o seu PIB relativo, mas a grande maioria é para exportação. Na realidade, quando no final dos anos 60 Portugal construiu a grande barragem de Cabora Bassa, ainda hoje uma das maiores do Mundo, o seu intuito foi desde o início a exportação de energia para a África do Sul, ideia que levou décadas a pôr-se em prática devido às longas guerras que o impediram por muitos anos.
Moçambique produz 30% da electricidade gerada em Portugal mas só consome 3%. O resto é exportado para a África do Sul.
Maputo, por exemplo, é abastecida de energia por linhas de Alta Tensão que vêm da África do Sul, acompanhando uma estrada por onde passa um fluxo constante de carrinhas e camionetas carregadas de produtos alimentares e de quase tudo o resto que se consome na capital.
Mas, no resto do país, onde há electricidade predomina a "microgeração" dos grupos electrogéneos a gasóleo e, em algumas cidades de província, energia produzida por turbinas a gás montadas em contentores e importadas - como quase tudo - da África do Sul. De facto, Moçambique tem gás natural, e as reservas de gás natural de Moçambique estão já a escoar-se para aquele país vizinho.
As incipientes redes eléctricas das cidades de província são de estrutura tipicamente sul-africana, com um funcionamento intermitente e precário, de modo que fiquei com curiosidade em saber que energias renováveis iria Portugal vender a Moçambique.
Claro: a notícia foi dada no início da visita, com toda a probabilidade para consumo interno do pagode português de modo a alimentar a fantasia de que até exportamos tecnologias de energias renováveis, e depois nunca mais se falou do assunto.
Como não podia deixar de ser.
As energias renováveis exigem redes eléctricas potentes com grandes centrais convencionais que assegurem o controlo das redes, e muito dinheiro, porque são caras. Nunca será por aí que os países pobres de África irão, a menos que os dadores internacionais paguem tudo e fiquem lá a manter as instalações a funcionar, isto é, a menos que o colonialismo volte.
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sexta-feira, março 05, 2010
Bruxelas financia a Super-Rede
Parece-me lógico que sendo a Super-Rede eléctrica uma construção europeia, seja Bruxelas que a financie.
E Bruxelas vai financiar alguma coisa. 50 milhões de € para ajudar a ligação da nossa rede à de Espanha, dizem as notícias. E qual a parcela que vai sair do bolso dos consumidores de electricidade portugueses para pagar essas linhas de interligação?
E Bruxelas vai financiar alguma coisa. 50 milhões de € para ajudar a ligação da nossa rede à de Espanha, dizem as notícias. E qual a parcela que vai sair do bolso dos consumidores de electricidade portugueses para pagar essas linhas de interligação?
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sexta-feira, fevereiro 26, 2010
Posição sobre a política energética nacional. IV - O contexto internacional e a preparação do futuro
Este é o 4º e último post da apresentação de uma posição sobre a política energética nacional. O post anterior pode ser encontrado aqui.
13. Na última década, Portugal só ultrapassou ligeiramente as metas de produção de energias renováveis negociadas nos anos 90 com Bruxelas para 2010, e aceitou metas para 2020 que não são realizáveis sem uma provável queda do PIB nacional.
A rota da União Europeia para a promoção das energias renováveis iniciou-se com a Cimeira do Rio de Janeiro em 1992, o protocolo de Quioto em 1997 e o “white paper” sobre a prospectiva das renováveis na Europa no mesmo ano e, finalmente, tomou forma de Directiva em 2001 (2001/77/EC), a qual estabeleceu a meta indicativa, para o ano corrente de 2010, da produção de 21% da electricidade da União com origem renovável.
Na data em que a Directiva foi publicada, Portugal já satisfazia o objectivo nela definido, graças à existência de recursos hidroeléctricos explorados décadas atrás. Na realidade, dos 15 membros que a Comunidade tinha então, ao longo de toda a década de 90 Portugal tivera a 4ª posição em maior incorporação de energia de fontes renováveis, só superado pela Suécia, pela Áustria e pela Finlândia mas, no que respeitava estritamente à electricidade, até superava esta. Com efeito, em 1997 Portugal teve 38.5% da sua electricidade proveniente de fontes renováveis, e a meta indicativa que lhe foi estabelecida foi a da manutenção desse valor (39%), o que foi bem negociado pois teve em conta as nossas necessidades de desenvolvimento. Para comparação, qualquer dos outros 3 Estados que superavam Portugal comprometeu-se a um crescimento significativo, e o nosso país foi mesmo o único dos 15 a que foi concedida a manutenção no valor que já tinha.
Em 2009, porém, Portugal atingiu cerca de 46% da sua electricidade originada em fontes renováveis mas usando os critérios contabilísticos da UE, que tomaram como base a excepcionalmente alta produção hidroeléctrica de 1997, e que fora 28% acima da média anual. Com isto, Portugal ultrapassou largamente a meta que lhe fora definida o que, aliás, já vinha acontecendo desde 2006, devido à tremenda penetração da energia eólica. A custos já analisados e de pagamento diferido para o futuro e sem conseguir acompanhar o aumento de consumo verificado. Entretanto, em 2007 um relatório intercalar da Comissão Europeia notava que na melhor hipótese a União no seu conjunto atingiria em 2010 apenas 19% de electricidade de origem renovável, em vez dos 21% planeados…
Em 2009 a União estabeleceu novas metas para 2020, na Directiva 2009/28/EC, mas desta vez já não quanto à electricidade. Desta vez as metas são de 20% de origem renovável para todo o consumo energético – incluindo transportes e indústria –, assim como de 10% de uso de biocombustíveis nos transportes, e 20% de redução nas emissões de CO2.
Para atingir a nova meta de 20% de renováveis na produção total de energia há estimativas segundo as quais a proporção de origens renováveis na electricidade terá de ser de 35% mas, ao contrário do que acontecera dez anos antes, desta vez Portugal não negociou um esforço moderado. Desta vez Portugal obteve um aumento dos 20,5% de 2010 (valor estimado para a origem renovável de toda a energia consumida no país), para 31%, um acréscimo nominal relativo de 50%! Uma parcela de 10,5% na totalidade da energia consumida, similar à preconizada para os campeões suecos, austríacos e finlandeses, e consideravelmente superior às metas estabelecidas para países com um grau de desenvolvimento semelhante ao nosso, como a República Checa, a Polónia ou a Roménia! Não tendo havido, no entanto, grande condescendência com qualquer dos Estados, nesta nova Directiva europeia.
Ora para alcançar a referida meta de 31% de origem renovável para todo o seu consumo energético, e extrapolando a proporção de 35% de electricidade para os 20% de toda a energia, Portugal terá de alcançar 55% de electricidade de origem renovável, valor considerado nas projecções do único estudo conhecido do Ministério da Economia que terá apoiado as negociações portuguesas. Este estudo supôs a instalação dos 5700 MW de potência eólica planeados pelo Governo que, como vimos, não é tecnicamente realizável, uma enorme proporção de centrais a gás natural, e a substituição imperiosa da poluente (mas de energia barata) central a carvão de Sines por uma nova com captura e sequestro do CO2 – tecnologia que seguramente não estará em comercialização até 2020!
Porém, a agravar dramaticamente a perspectiva nacional, o critério de ponderação do contributo hidroeléctrico para as energias renováveis foi alterado com a Directiva europeia de 2009, conduzindo a uma redução da contabilização portuguesa, dos alegados 46% em 2009 para 39.7%. Com efeito, enquanto na Directiva de 2001 fora escolhido um ano de referência para a referida contabilização particularmente favorável para Portugal (1997), agora é a média dos últimos 15 anos anos que terá de ser considerada o que, sendo tecnicamente mais correcto, dada a variabilidade anual da produção hidroeléctrica, piora dramaticamente a situação nacional. A nova Directiva não permite, também, a contabilização da energia hidroeléctrica proveniente da bombagem de energia de outras fontes.
Nesta situação, congelando o consumo actual de energia eléctrica, as renováveis actualmente existentes satisfarão 42.5% dele, os planeados 2200 MW de eólicas e hidroeléctricas associadas a construir adicionarão mais 9.5%, faltando ainda 3%! Ora apesar de todo o tremendo esforço feito no investimento em renováveis nos últimos anos, se for aplicado retroactivamente o novo e tecnicamente correcto critério contabilístico, verifica-se que Portugal afinal pouco melhorou a proporção de energia renovável na produção de electricidade relativamente a 1997, pouco excedendo a benevolente meta definida uma década atrás! O que nos dá uma primeira ideia da impraticabilidade das metas assumidas para 2020.
Nestas condições, só haverá dois modos de alcançar aquela meta: ou se realizam investimentos em energias renováveis ainda mais dispendiosas que as eólicas e as hidroeléctricas de bombagem, a Super-Rede europeia é construída esta década, para o que a REN se tem esforçado multiplicando as ligações em Alta Tensão a Espanha, mas que depende desta reforçar as suas ligações a França, enfrentando ambos os países então a concorrência da barata electricidade francesa de origem nuclear, e simultaneamente há outras medidas com desenvolvimento radical, como a penetração de biocombustíveis nos transportes, o incremento do aproveitamento da biomassa, do biogás, de medidas de climatização passivas nos edifícios; ou se verifica uma redução dos consumos nacionais associada à queda do PIB e acompanhada de um aumento da emigração (como se verificou em alguns países do Leste europeu). Ou, mais provavelmente, as duas possibilidades concorrem para a meta prevista: investimentos brutais e redução do PIB nacional.
De uma forma ou de outra, os 31% de consumo energético total de origem renovável não acontecerão apenas concessionando eólicas e solares e desligando a central de Sines, e terão sempre um custo económico extraordinário. Urge pois um plano económico bem estruturado e não baseado apenas na aceitação dogmática das metas europeias, mas considerando também os interesses nacionais de desenvolvimento e as restrições técnicas do sistema electroprodutor, e maximizando a incorporação sustentável de valor nacional.
14. Os interesses nacionais devem ter prioridade sobre o cumprimento dogmático das Directivas energéticas europeias, sobretudo quando estas foram desastrosamente negociadas.
Nas negociações mundiais de Copenhaga ocorridas no fim de 2009, ficou clara a existência de um consenso praticamente universal relativamente à necessidade de redução das emissões de CO2 e outros gases considerados causadores de um Aquecimento Global. Porém, ficou também claro que embora todos os países relevantes para essas emissões tenham aceitado o estabelecimento de alguma meta quantitativa para a redução das emissões de CO2, seja em termos absolutos, seja em termos relativos ao peso futuro esperado das suas economias (intensidades energéticas), a União Europeia ficou isolada nas suas propostas de metas quantificadas para as energias renováveis.
Neste quadro tem particular importância a posição da actual Administração dos EUA, comum à da restante comunidade não-europeia, de não aceitar limitações à panóplia de opções tecnológicas disponíveis para a redução das referidas emissões, dado existirem estudos especializadas e acreditados que demonstram que o recurso a uma panóplia inclusiva de todas as tecnologias permitirá chegar a preços futuros da energia substancialmente inferiores à opção europeia estritamente pro-renovável, assim como à continuação da disponibilidade de energia que caracterizou a sociedade industrial. Esta carteira completa de opções tecnológicas inclui, além das energias renováveis, o carvão com captura e sequestro de carbono, dado que embora fóssil o carvão existe em enorme abundância no planeta e em subsolos de países estáveis e amigáveis, e a energia nuclear, cuja segurança evoluiu muito nos últimos 30 anos e que se encaminha para novos patamares tecnológicos de elevada eficiência e sustentabilidade.
A posição isolada em que a União Europeia ficou depois de Copenhaga é passível de várias evoluções, da persistência numa posição ideológica fundamentalista que tenderá a fechar a Europa numa barricada comercial, precursora de uma inevitável decadência e/ou de sobressaltos de intolerância, até, pelo contrário, ao alinhamento progressivo com as posições da restante comunidade internacional. A fortificação de fronteiras comerciais é mais que provável face à concorrência imbatível da China na própria indústria de equipamentos de energias renováveis, se a Europa se limitar a esta opção.
Estas considerações levam a recomendar um não-alinhamento cego e muito menos demasiado papista com posições europeias que poderão vir a moderar-se em breve ou, pelo contrário, a evoluir para radicalismos com um alto custo para Portugal e contrários aos seus interesses de nação quase milenar.
15. Portugal precisa de energia eléctrica barata de fontes controláveis, sem aumento de emissões de CO2, sem políticas perigosas para as liberdades cívicas e com a máxima criação de riqueza nacional sustentável. Em particular, a opção nuclear tem de ser cuidadosa e antecipadamente preparada.
De tudo o que foi analisado nos pontos anteriores, resulta evidente a necessidade de Portugal considerar seriamente a opção nuclear como estratégia energética e económica, dada a sua controlabilidade, não emissão de CO2 e baixo custo da energia gerada.
Não se trata, porém e no imediato, de considerar a compra de uma central nuclear, com a mesma irresponsabilidade e ausência de planeamento com que foi feita a importação de equipamentos de energias renováveis, mas sim e apenas de iniciar a preparação de uma possível futura opção nesse sentido.
Dado o conjunto de aspectos a considerar, é necessária uma estrutura organizativa que coordene esses aspectos. E, dados os longos tempos a envolver nas acções e eventuais investimentos associadas, a actividade dessa estrutura não deverá obedecer aos horizontes temporais de calendários eleitorais. Por esta razão, é necessário que a sua criação resulte de um pacto de regime que garanta uma maioria de apoio parlamentar permanente, e é também imperioso que a sua chefia tenha uma independência imaculada de outros interesses que não os nacionais, sendo por isso recomendável que a sua nomeação requeira a anuência da Presidência da República, podendo a atribuição de funções militares de prevenção e segurança facilitar essa tutela Presidencial. Vale a pena recordar, aliás, que a Junta de Energia Nuclear criada há mais de 50 anos dependia directamente de Salazar, e não do Governo de ocasião. Aliás, o aqui proposto é a refundação de uma Junta como essa, para iniciar a preparação de uma possível opção nuclear!
Esta Nova Junta da Energia Nuclear deverá dispor de uma Comissão Executiva com pelo menos 3 membros, e constituir um Conselho Consultivo onde estejam representados reconhecidos peritos das áreas relevantes e com um leque de sensibilidades ideológicas diversificado, que garanta o escrutínio e a transparência de todas as actividades desenvolvidas. As actividades prioritárias da Comissão Executiva, a terminar no prazo de um ano, deverão incluir:
a) A recolha e análise de todos os estudos parcelares realizados no passado sobre a opção nuclear para Portugal;
b) A constituição de uma equipa interdisciplinar de técnicos de primeira qualidade, cobrindo nomeadamente os aspectos das engenharias civil, mecânica, de controlo e automação, a Física nuclear tecnológica, a Geologia, as Finanças e as Seguranças civil e militar;
c) A identificação das normas internacionais, das necessidades de recursos técnicos especializados futuros e dos projectos em curso ou lançamento noutros países.
Numa segunda etapa, esta Nova Junta deverá preparar, num prazo adicional de 4 a 5 anos, já com a equipa técnica de alta qualidade criada na 1ª etapa e uma definição de objectivos mais precisa:
1) O estudo das opções tecnológicas e comerciais disponíveis internacionalmente;
2) O estudos dos possíveis modelos de financiamento;
3) As normas técnicas nacionais, em harmonia com as internacionais existentes e em particular as europeias, detalhadas e precisas, a aplicar nos projectos de centrais;
4) A formação dos recursos humanos necessários ao acompanhamento e fiscalização de obras;
5) A pré-selecção de locais apropriados;
6) A definição das actividades económicas sustentáveis para as quais se possa associar a máxima incorporação nacional, da preparação do combustível ao tratamento de resíduos, passando pelo aproveitamento dos jazigos nacionais de Urânio;
7) As colaborações internacionais desejáveis, técnicas, económicas e de segurança;
8) A preparação de um Caderno de Encargos rigoroso para uma Central Nuclear.
9) O debate público aberto e esclarecedor das opções em apreço.
Finda esta preparação, que se iniciada já poderia estar concluída em 2015 ou 2016, o país estaria em condições de decidir se avançaria ou não para a construção de uma Central nuclear. Até lá muita coisa evoluirá no domínio das opções internacionais de energia nuclear, dando tempo a que se venha a aproveitar a experiência alheia. Se por volta de 2015 ou 2016 se tiver efectivamente verificado o renascimento do Nuclear, Portugal estará em condições de fazer a opção correspondente, podendo vir a ter a sua primeira central a tempo de substituir a de carvão em Sines, dentro de uma década. Se não for essa a evolução que ocorrer, também não terá sido grande a perda incorrida nesta preparação - afinal o país custeou por mais de 50 anos uma Junta de Energia Nuclear de que não retirou qualquer préstimo!
A ausência da preparação desta opção é que poderá ser trágica!
O documento completo correspondente a estes 4 posts pode ser acedido aqui.
13. Na última década, Portugal só ultrapassou ligeiramente as metas de produção de energias renováveis negociadas nos anos 90 com Bruxelas para 2010, e aceitou metas para 2020 que não são realizáveis sem uma provável queda do PIB nacional.
A rota da União Europeia para a promoção das energias renováveis iniciou-se com a Cimeira do Rio de Janeiro em 1992, o protocolo de Quioto em 1997 e o “white paper” sobre a prospectiva das renováveis na Europa no mesmo ano e, finalmente, tomou forma de Directiva em 2001 (2001/77/EC), a qual estabeleceu a meta indicativa, para o ano corrente de 2010, da produção de 21% da electricidade da União com origem renovável.
Na data em que a Directiva foi publicada, Portugal já satisfazia o objectivo nela definido, graças à existência de recursos hidroeléctricos explorados décadas atrás. Na realidade, dos 15 membros que a Comunidade tinha então, ao longo de toda a década de 90 Portugal tivera a 4ª posição em maior incorporação de energia de fontes renováveis, só superado pela Suécia, pela Áustria e pela Finlândia mas, no que respeitava estritamente à electricidade, até superava esta. Com efeito, em 1997 Portugal teve 38.5% da sua electricidade proveniente de fontes renováveis, e a meta indicativa que lhe foi estabelecida foi a da manutenção desse valor (39%), o que foi bem negociado pois teve em conta as nossas necessidades de desenvolvimento. Para comparação, qualquer dos outros 3 Estados que superavam Portugal comprometeu-se a um crescimento significativo, e o nosso país foi mesmo o único dos 15 a que foi concedida a manutenção no valor que já tinha.
Em 2009, porém, Portugal atingiu cerca de 46% da sua electricidade originada em fontes renováveis mas usando os critérios contabilísticos da UE, que tomaram como base a excepcionalmente alta produção hidroeléctrica de 1997, e que fora 28% acima da média anual. Com isto, Portugal ultrapassou largamente a meta que lhe fora definida o que, aliás, já vinha acontecendo desde 2006, devido à tremenda penetração da energia eólica. A custos já analisados e de pagamento diferido para o futuro e sem conseguir acompanhar o aumento de consumo verificado. Entretanto, em 2007 um relatório intercalar da Comissão Europeia notava que na melhor hipótese a União no seu conjunto atingiria em 2010 apenas 19% de electricidade de origem renovável, em vez dos 21% planeados…
Em 2009 a União estabeleceu novas metas para 2020, na Directiva 2009/28/EC, mas desta vez já não quanto à electricidade. Desta vez as metas são de 20% de origem renovável para todo o consumo energético – incluindo transportes e indústria –, assim como de 10% de uso de biocombustíveis nos transportes, e 20% de redução nas emissões de CO2.
Para atingir a nova meta de 20% de renováveis na produção total de energia há estimativas segundo as quais a proporção de origens renováveis na electricidade terá de ser de 35% mas, ao contrário do que acontecera dez anos antes, desta vez Portugal não negociou um esforço moderado. Desta vez Portugal obteve um aumento dos 20,5% de 2010 (valor estimado para a origem renovável de toda a energia consumida no país), para 31%, um acréscimo nominal relativo de 50%! Uma parcela de 10,5% na totalidade da energia consumida, similar à preconizada para os campeões suecos, austríacos e finlandeses, e consideravelmente superior às metas estabelecidas para países com um grau de desenvolvimento semelhante ao nosso, como a República Checa, a Polónia ou a Roménia! Não tendo havido, no entanto, grande condescendência com qualquer dos Estados, nesta nova Directiva europeia.
Ora para alcançar a referida meta de 31% de origem renovável para todo o seu consumo energético, e extrapolando a proporção de 35% de electricidade para os 20% de toda a energia, Portugal terá de alcançar 55% de electricidade de origem renovável, valor considerado nas projecções do único estudo conhecido do Ministério da Economia que terá apoiado as negociações portuguesas. Este estudo supôs a instalação dos 5700 MW de potência eólica planeados pelo Governo que, como vimos, não é tecnicamente realizável, uma enorme proporção de centrais a gás natural, e a substituição imperiosa da poluente (mas de energia barata) central a carvão de Sines por uma nova com captura e sequestro do CO2 – tecnologia que seguramente não estará em comercialização até 2020!
Porém, a agravar dramaticamente a perspectiva nacional, o critério de ponderação do contributo hidroeléctrico para as energias renováveis foi alterado com a Directiva europeia de 2009, conduzindo a uma redução da contabilização portuguesa, dos alegados 46% em 2009 para 39.7%. Com efeito, enquanto na Directiva de 2001 fora escolhido um ano de referência para a referida contabilização particularmente favorável para Portugal (1997), agora é a média dos últimos 15 anos anos que terá de ser considerada o que, sendo tecnicamente mais correcto, dada a variabilidade anual da produção hidroeléctrica, piora dramaticamente a situação nacional. A nova Directiva não permite, também, a contabilização da energia hidroeléctrica proveniente da bombagem de energia de outras fontes.
Nesta situação, congelando o consumo actual de energia eléctrica, as renováveis actualmente existentes satisfarão 42.5% dele, os planeados 2200 MW de eólicas e hidroeléctricas associadas a construir adicionarão mais 9.5%, faltando ainda 3%! Ora apesar de todo o tremendo esforço feito no investimento em renováveis nos últimos anos, se for aplicado retroactivamente o novo e tecnicamente correcto critério contabilístico, verifica-se que Portugal afinal pouco melhorou a proporção de energia renovável na produção de electricidade relativamente a 1997, pouco excedendo a benevolente meta definida uma década atrás! O que nos dá uma primeira ideia da impraticabilidade das metas assumidas para 2020.
Nestas condições, só haverá dois modos de alcançar aquela meta: ou se realizam investimentos em energias renováveis ainda mais dispendiosas que as eólicas e as hidroeléctricas de bombagem, a Super-Rede europeia é construída esta década, para o que a REN se tem esforçado multiplicando as ligações em Alta Tensão a Espanha, mas que depende desta reforçar as suas ligações a França, enfrentando ambos os países então a concorrência da barata electricidade francesa de origem nuclear, e simultaneamente há outras medidas com desenvolvimento radical, como a penetração de biocombustíveis nos transportes, o incremento do aproveitamento da biomassa, do biogás, de medidas de climatização passivas nos edifícios; ou se verifica uma redução dos consumos nacionais associada à queda do PIB e acompanhada de um aumento da emigração (como se verificou em alguns países do Leste europeu). Ou, mais provavelmente, as duas possibilidades concorrem para a meta prevista: investimentos brutais e redução do PIB nacional.
De uma forma ou de outra, os 31% de consumo energético total de origem renovável não acontecerão apenas concessionando eólicas e solares e desligando a central de Sines, e terão sempre um custo económico extraordinário. Urge pois um plano económico bem estruturado e não baseado apenas na aceitação dogmática das metas europeias, mas considerando também os interesses nacionais de desenvolvimento e as restrições técnicas do sistema electroprodutor, e maximizando a incorporação sustentável de valor nacional.
14. Os interesses nacionais devem ter prioridade sobre o cumprimento dogmático das Directivas energéticas europeias, sobretudo quando estas foram desastrosamente negociadas.
Nas negociações mundiais de Copenhaga ocorridas no fim de 2009, ficou clara a existência de um consenso praticamente universal relativamente à necessidade de redução das emissões de CO2 e outros gases considerados causadores de um Aquecimento Global. Porém, ficou também claro que embora todos os países relevantes para essas emissões tenham aceitado o estabelecimento de alguma meta quantitativa para a redução das emissões de CO2, seja em termos absolutos, seja em termos relativos ao peso futuro esperado das suas economias (intensidades energéticas), a União Europeia ficou isolada nas suas propostas de metas quantificadas para as energias renováveis.
Neste quadro tem particular importância a posição da actual Administração dos EUA, comum à da restante comunidade não-europeia, de não aceitar limitações à panóplia de opções tecnológicas disponíveis para a redução das referidas emissões, dado existirem estudos especializadas e acreditados que demonstram que o recurso a uma panóplia inclusiva de todas as tecnologias permitirá chegar a preços futuros da energia substancialmente inferiores à opção europeia estritamente pro-renovável, assim como à continuação da disponibilidade de energia que caracterizou a sociedade industrial. Esta carteira completa de opções tecnológicas inclui, além das energias renováveis, o carvão com captura e sequestro de carbono, dado que embora fóssil o carvão existe em enorme abundância no planeta e em subsolos de países estáveis e amigáveis, e a energia nuclear, cuja segurança evoluiu muito nos últimos 30 anos e que se encaminha para novos patamares tecnológicos de elevada eficiência e sustentabilidade.
A posição isolada em que a União Europeia ficou depois de Copenhaga é passível de várias evoluções, da persistência numa posição ideológica fundamentalista que tenderá a fechar a Europa numa barricada comercial, precursora de uma inevitável decadência e/ou de sobressaltos de intolerância, até, pelo contrário, ao alinhamento progressivo com as posições da restante comunidade internacional. A fortificação de fronteiras comerciais é mais que provável face à concorrência imbatível da China na própria indústria de equipamentos de energias renováveis, se a Europa se limitar a esta opção.
Estas considerações levam a recomendar um não-alinhamento cego e muito menos demasiado papista com posições europeias que poderão vir a moderar-se em breve ou, pelo contrário, a evoluir para radicalismos com um alto custo para Portugal e contrários aos seus interesses de nação quase milenar.
15. Portugal precisa de energia eléctrica barata de fontes controláveis, sem aumento de emissões de CO2, sem políticas perigosas para as liberdades cívicas e com a máxima criação de riqueza nacional sustentável. Em particular, a opção nuclear tem de ser cuidadosa e antecipadamente preparada.
De tudo o que foi analisado nos pontos anteriores, resulta evidente a necessidade de Portugal considerar seriamente a opção nuclear como estratégia energética e económica, dada a sua controlabilidade, não emissão de CO2 e baixo custo da energia gerada.
Não se trata, porém e no imediato, de considerar a compra de uma central nuclear, com a mesma irresponsabilidade e ausência de planeamento com que foi feita a importação de equipamentos de energias renováveis, mas sim e apenas de iniciar a preparação de uma possível futura opção nesse sentido.
Dado o conjunto de aspectos a considerar, é necessária uma estrutura organizativa que coordene esses aspectos. E, dados os longos tempos a envolver nas acções e eventuais investimentos associadas, a actividade dessa estrutura não deverá obedecer aos horizontes temporais de calendários eleitorais. Por esta razão, é necessário que a sua criação resulte de um pacto de regime que garanta uma maioria de apoio parlamentar permanente, e é também imperioso que a sua chefia tenha uma independência imaculada de outros interesses que não os nacionais, sendo por isso recomendável que a sua nomeação requeira a anuência da Presidência da República, podendo a atribuição de funções militares de prevenção e segurança facilitar essa tutela Presidencial. Vale a pena recordar, aliás, que a Junta de Energia Nuclear criada há mais de 50 anos dependia directamente de Salazar, e não do Governo de ocasião. Aliás, o aqui proposto é a refundação de uma Junta como essa, para iniciar a preparação de uma possível opção nuclear!
Esta Nova Junta da Energia Nuclear deverá dispor de uma Comissão Executiva com pelo menos 3 membros, e constituir um Conselho Consultivo onde estejam representados reconhecidos peritos das áreas relevantes e com um leque de sensibilidades ideológicas diversificado, que garanta o escrutínio e a transparência de todas as actividades desenvolvidas. As actividades prioritárias da Comissão Executiva, a terminar no prazo de um ano, deverão incluir:
a) A recolha e análise de todos os estudos parcelares realizados no passado sobre a opção nuclear para Portugal;
b) A constituição de uma equipa interdisciplinar de técnicos de primeira qualidade, cobrindo nomeadamente os aspectos das engenharias civil, mecânica, de controlo e automação, a Física nuclear tecnológica, a Geologia, as Finanças e as Seguranças civil e militar;
c) A identificação das normas internacionais, das necessidades de recursos técnicos especializados futuros e dos projectos em curso ou lançamento noutros países.
Numa segunda etapa, esta Nova Junta deverá preparar, num prazo adicional de 4 a 5 anos, já com a equipa técnica de alta qualidade criada na 1ª etapa e uma definição de objectivos mais precisa:
1) O estudo das opções tecnológicas e comerciais disponíveis internacionalmente;
2) O estudos dos possíveis modelos de financiamento;
3) As normas técnicas nacionais, em harmonia com as internacionais existentes e em particular as europeias, detalhadas e precisas, a aplicar nos projectos de centrais;
4) A formação dos recursos humanos necessários ao acompanhamento e fiscalização de obras;
5) A pré-selecção de locais apropriados;
6) A definição das actividades económicas sustentáveis para as quais se possa associar a máxima incorporação nacional, da preparação do combustível ao tratamento de resíduos, passando pelo aproveitamento dos jazigos nacionais de Urânio;
7) As colaborações internacionais desejáveis, técnicas, económicas e de segurança;
8) A preparação de um Caderno de Encargos rigoroso para uma Central Nuclear.
9) O debate público aberto e esclarecedor das opções em apreço.
Finda esta preparação, que se iniciada já poderia estar concluída em 2015 ou 2016, o país estaria em condições de decidir se avançaria ou não para a construção de uma Central nuclear. Até lá muita coisa evoluirá no domínio das opções internacionais de energia nuclear, dando tempo a que se venha a aproveitar a experiência alheia. Se por volta de 2015 ou 2016 se tiver efectivamente verificado o renascimento do Nuclear, Portugal estará em condições de fazer a opção correspondente, podendo vir a ter a sua primeira central a tempo de substituir a de carvão em Sines, dentro de uma década. Se não for essa a evolução que ocorrer, também não terá sido grande a perda incorrida nesta preparação - afinal o país custeou por mais de 50 anos uma Junta de Energia Nuclear de que não retirou qualquer préstimo!
A ausência da preparação desta opção é que poderá ser trágica!
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