quarta-feira, abril 13, 2011

A TEPCO e Fukushima

Faz cerca 30 anos que apareceram os primeiros microprocessadores de 16 bit da Intel e Motorola (os anteriores, de 8 bit, tinham aparecido meia dúzia de anos antes). No entanto, estes chips eram rudimentares, quando comparados com o que se faz hoje: operavam a 8 Mhz e só faziam contas em vírgula fixa, embora já tivessem a multiplicação em firmware. Insuficiente para os algoritmos que desde o início dos anos 70 vinham a ser propostos para a realização digital das funções de protecção e controlo em instalações de energia eléctrica...
No entanto, enquanto nos EUA e Europa se estudavam formas de simplificar os algoritmos, o que se confrontava com a perda de eficácia que isso acarretava, havia uma empresa de electricidade que fazia experiências em instalações reais: a TEPCO. Na realidade, houve mais que uma empresa, mas as outras (a EDF francesa e a AEP americana) só experimentaram protótipos avulsos, ao passo que a TEPCO digitalizava completamente a protecção e controlo de Subestações, e por isso é desde já há 30 anos que a conheço e admiro. Nessa época, o Japão instalara já tantos km de fibra óptica como todo o resto do mundo junto...
Como conseguia a TEPCO obter a performance computacional necessária aquilo que realizava? Usando não esses novos microprocessadores de electrónica MOS, mas outros muito mais caros e menos integrados mas potentes, os "bit slice" da INTEL. E isso enchia-me de admiração: o Japão, com a TEPCO, não se poupava a despesas e trabalhos para ganhar experiência industrial nestas novas tecnologias, enquanto no Ocidente se andava só pelas teorias ou pelos protótipos de laboratório! Isto mostrava uma firme intenção estratégica de ajudar a indústria exportadora japonesa a ganhar experiência em casa (Hitachi e Toshiba, sobretudo), de modo a manter a supremacia que o Japão cultivava então na indústria em geral, e que só na Alemanha encontrava algum paralelo. Coisas de países que lideram indústrias...
Os japoneses também apareciam nas conferências onde estas investigações eram apresentadas. Mas, enquanto os autores dos papers ocidentais eram geralmente dois ou três (o doutorando, o orientador e eventualmente o subsidiador), os papers japoneses eram assinados por equipas de uma dezena ou mais de autores! E toda a assistência americana os escutava reverencialmente - não tanto pelo brilho das ideias, mas pela capacidade de realização industrial que demonstravam!
Por sinal o Japão nunca chegou a liderar a indústria mundial destes equipamentos digitais, que acabaram por se impor comercialmente apenas nos anos 90 (e de que tenho o orgulho de ter sido quem o fez em Portugal, para a indústria nacional). E nunca liderou nem lidera por que há um ramo em que os japoneses se têm mostrado fracos: no software. Costumizar software alheio ainda fazem, mas criar novo, não é grande vocação sua, por razões que eu considero explicadas no filme "Merry Christmas, Mr. Lawrence"...
Este espírito industrialmente inovador mas pragmático da TEPCO também se verifica na aposta que fez na energia nuclear. Note-se que, tendo o Japão sido o único país que sofreu na pele uma amostra de guerra nuclear, e havendo por isso lá um forte sentimento pacifista (típico de países agressivos que levaram uma sova, como também sucede com a Alemanha), apesar disso o Japão tornou-se um líder no fabrico de componentes da indústria nuclear, nomeadamente no contentor de aço dos reactores. Concepção de base americana, mas aperfeiçoada nos pormenores pelos japoneses, numa vocação que fomos os primeiros a conhecer quando Fernão Mendes Pinto lhes ofereceu duas espingardas há 450 anos e eles as copiaram e rapidamente massificaram, e a que atribuem festivamente a unificação política do país.
A TEPCO é também um colosso. Fornecendo cerca de 1/3 da electricidade japonesa, tanto como o consumo de Itália e 6 vezes o nosso, só 3 das 17 centrais nucleares japonesas são suas, mas contêm 17 dos 53 reactores do país, 1/3 deles. Tal como os executivos que dirigem as grandes marcas japonesas, os da TEPCO têm remunerações modestas, se comparadas com os dos seus pares americanos e portugueses: 310 k€/ano em média para os 20 executivos da empresa (1/2,5 a remuneração média actual dos Administradores da EDP), para um rendimento médio nacional per capita de 24 k€ (quase 3 vezes o português, embora apenas 1,5 vezes se ajustado para o seu alto custo de vida)...
Com o terramoto e o tsunami, as perdas financeiras da TEPCO serão tremendas! Só para indemnizar as populações evacuadas do raio de 20 km em torno de Fukushima-Daiichi, prevê-se a verba de 16 mil milhões de € (16 biliões, na notação americana internacionalmente aceite), praticamente tanto como a dívida da nossa EDP! E, embora o Presidente da Associação de Bancos japoneses já tenha vindo anunciar a sua disponibilidade para apoiar a TEPCO, naturalmente que os Seguros não cobrem estes custos colaterais da perda da central, e provavelmente a empresa será socorrida pelas suas congéneres japonesas.
Em redor da central de Fukushima-Daiichi, o tsunami penetrou até 5 km da costa e matou 5700 pessoas (mortos e desaparecidos), incluindo dois jovens trabalhadores que estavam na cave da central e foram afogados. A destruição que o tsunami causou à volta da central pode ser avaliada na foto anexa (da TEPCO).
Entretanto, a situação teve a evolução imediata que se sabe, com os reactores em shutdown mas sem refrigeração durante dias, acabando por levar à descarga programada do vapor de água a alta pressão dos 3 reactores afectados, que por sua vez causou a sucessiva explosão do hidrogénio libertado nessas ventilações e entretanto gerado pela fusão do revestimento de zircónio das varas de urânio - explosões que destruíram as coberturas dos edifícios e, com quase certeza, parte do circuito de refrigeração de um dos reactores, o nº 2. Três explosões que libertaram para a atmosfera materiais radioactivos, nomeadamente os solúveis e voláteis Iodo-131 e Césio, e com um circuito de refrigeração roto obviamente a vazar para a água lançada por todos os meios para arrefecer os reactores, água radioactiva que se tem acumulado nas caves da central, impedindo o acesso das equipas de reparação. Por este motivo, embora a situação dos reactores (e das piscinas de resíduos...!) esteja agora estacionária, ainda não está estável. Estável no sentido de perfeitamente controlada, visto o arrefecimento ainda estar a ser conseguido por meios improvisados.
Depois do tsunami de há um mês têm-se sucedido novos terramotos, e o último deixou o arrefecimento dos reactores novamente sem energia por 50 minutos. E, pouco depois, as autoridades elevaram a gravidade da situação para 7, o nível máximo.
Mas que aconteceu de novo que tenha justificado este agravamento?
Na realidade nada de novo, na central. O que aconteceu é que os japoneses têm andado a trabalhar num modelo de computador que visa estimar a radioactividade libertada pela central por ocasião das ventilações (e explosões), a partir de métodos indirectos baseados na medida da radioactividade presente fora da Central e em extrapolações, a partir daí, da que terá saído dos reactores. Estes modelos são apenas aproximados e terão requerido bastantes medidas até darem uma estimativa razoável. E, face a essa estimativa, as autoridades concluíram que a gravidade da situação a enquadrava no nível 7.
A radioactividade emitida terá sido de 3,7x 10 exp(17) Bq, o que não diz muito por si; os japoneses dizem que isto equivale a 10% do libertado em Chernobyl, mas aqui têm-se números mais precisos, para o Iodo-131 e o Césio, e que equivalem a 7% do gerado em 1986. A situação em si, na Central e nas medições realizadas no Japão, não piorou, como a IAEA relata aqui, e o MIT aproveitou para elucidar o significado prático dos cálculos realizados, aqui. Recomendo a sua leitura aos interessados.

sábado, abril 09, 2011

Terrorismo mediático em curso

Na sequência do novo terramoto de grau 7.1 que assolou antes de ontem o Japão e de que ontem dei aqui notícia, notando a robustez com que as centrais nucleares japonesas lhe resistiram, alguns dos nossos jornais publicaram "informações" alarmantes contrariando o que eu escrevera.
Como qualquer pessoa pode confirmar pelos hyperlinks que eu inserira no texto, o que eu afirmara baseava-se nos comunicados das instâncias que, no terreno, estão naquelas centrais, ou seja, a TEPCO (a "EDP" local) e a Agência Internacional de Energia Atómica (IAEA). Procurei, por isso, tentar saber se alguma coisa me escapara na informação disponível.
Mas vejamos primeiro o que noticiaram on-line estes nossos jornais.
O Jornal de Negócios, por exemplo, afirmou aqui, sob o título de "duas novas centrais nucleares afectadas no Japão", que "Duas novas centrais nucleares do Japão tiveram que recorrer a geradores de emergência depois de terem perdido a sua fonte de alimentação externa", e que "As centrais nucleares de Onagawa e Higashidori sofreram infiltrações ". Subscreveu a notícia a jornalista Andreia Major.
O Diário de Notícias, em Revista de Imprensa Internacional, com o título "Novo sismo provoca fuga em central nuclear japonesa", é um pouco mais cuidadoso na menção das fontes, e afirmou aqui que "Segundo o El País, que cita a televisão NHK, a central nuclear de Onagawa, situada na província de Miyagim, no Noroeste do Japão, está a sofrer infiltrações de água, mas não se registou ainda um aumento da radioactividade". "Ainda", notem...!
Finalmente, o Expresso, um pouco mais comedido no título, diz que "Novo abalo de terra de 7.1 graus no Japão causou pelo menos dois mortos e 132 feridos, apagão em mais de 3,3 milhões de edifícios e fuga radioatioativa na central nuclear de Oanagawa".
Ora, que se passou que eu não soubesse ontem e não tivesse mencionado?
Como ontem expliquei, o que se passou foi um terramoto muito similar ao que devastou o Haiti em 2010, e que derrubou boa parte das linhas de Alta Tensão da rede de transporte, causando um apagão. Normal, para um terramoto como este. Já em Março isso também acontecera. A construção de habitações, no Japão, é feita para resistir a terramotos destes, mas as coisas menos importantes para a segurança de pessoas, não. Em Março, além de derrubar postes de linhas de energia, o terramoto danificou 1700 estradas, destruiu 50 pontes e fendeu 7 barragens, destruindo uma, incendiou refinarias e assolou fábricas. Normal, para um terramoto de grau 9. E este? Deste os media não deram a menor notícia, mas certamente houve mais estragos, além do derrube de postes de Alta Tensão, que no entanto não preocuparam minimamente os media...
No Japão, as habitações são projectadas para resistir aos terramotos e as centrais nucleares também, por maioria de razão! E resistiram!
Como noticiei, se a rede eléctrica a que as centrais estão ligadas sofre um apagão, as centrais recorrem aos seus geradores próprios, os Diesel, que lhes garantem a autonomia. Tudo isso funcionou bem, agora como em Março, e em Março o que houve a mais foi o tsunami!
Mas de onde vêm estas histórias da "fuga radioactiva", de "infiltrações", na centrais nucleares japonesas? A informação mais detalhada e actualizada, nas fontes, é a seguinte, consultável por todos aqui:
Relativamente a Onagawa, além do que eu já escrevera ontem (antes de conhecer estas "notícias" dos jornais), isto é, que a central estava desligada, portanto apenas com as piscinas dos resíduos a requererem arrefecimento (as piscinas têm uma enorme capacidade calorífica; a do reactor 4 de Fukushima só ao fim de 10 dias sem circulação da água terá entrado em ebulição), e que das 3 linhas de Alta Tensão que ligam a central à rede duas foram derrubadas, mas que a central, como é normal, resolveu o problema com os seus próprios recursos e a 3ª linha, a única coisa nova que há a mais relativamente ao que noticiara é a seguinte: "the plant also suffered water leaks at eight locations, including a spillage of about 3.8 litres in total from the three reactors' spent fuel pools". Ou seja: com o tremor de terra, transbordou água das piscinas, dentro da central, num total de 3,8 litros de água! Para quem ignora como são estas gigantescas piscinas, pode ver aqui um filme explicativo.
Relativamente à outra central nuclear que também ficou isolada da rede eléctrica, de acordo com o Ministro da Economia japonês, Meti, "There have been no signs of any radioactive release from Higashidori".
Onde foram, portanto, as "infiltrações" e as "fugas radioactivas"?
Alguns anónimos têm-me pedido para comentar notícias de jornais ou da TV sobre os acontecimentos no Japão, contrapondo-as ao que aqui tenho escrito. Espero que fique claro que, de acordo com a formação científica que me prezo de cultivar, o que escrevo não se baseia em notícias de jornais; conheço bem a fraca qualidade de muitos jornalistas actuais e, pior ainda, os interesses e influências a que muitas vezes eles são permeáveis. Sobre coisas desta responsabilidade só escrevo o que posso consultar em fontes credíveis, e não jornais ou televisões.
Por isso, também só adiciono aos comentários informação adicional vinda de fontes originais e credíveis. Tudo o resto é mero ruído. Neste caso, ruído terrorista.
Nota extra: que isto não é só por cá pode-se ver nesta excelente apreciação feita nos EUA.

sexta-feira, abril 08, 2011

Mais um terramoto no Japão e a "ajuda" portuguesa a Fukushima

Ontem houve um novo terramoto, de grau 7.1, no Japão. O epicentro deste sismo deu-se a apenas 20 km da central nuclear de Onagawa e a 120 km de Fukushima.
Comparado com o sismo de 11 de Março, este foi apenas um "pequeno" sismo, mas comparado com o que em 2010 assolou o Haiti, foi muito semelhante: praticamente a mesma intensidade (o do Haiti foi de 7.0) e à mesma distância da costa (o do Haiti teve o epicentro a 25 km da capital). O Haiti ficou como a foto documenta e sofreu mais de 250 000 mortos! Quanto ao Japão, fala-se em 2 mortos e 90 feridos, e naturalmente houve destruições!...
Por exemplo, na central nuclear mais próxima do epicentro, Onagawa: o último relatório que a Agência Internacional da Energia Atómica (IAEA) publicou sobre a situação nas nucleares japonesas, há minutos, dá conta que, efectivamente, das 3 linhas de Alta Tensão que alimentam a central (que está em shutdown desde o terramoto de Março), duas foram derrubadas pelo novo terramoto, o que indisponibizou a alimentação das piscinas de arrefecimento de resíduos (que levam, sem alimentação das respectivas bombas de circulação de água, pelo menos uma semana a entrarem em ebulição), mas pouco depois a respectiva alimentação foi reposta. Uma outra central nuclear, também em manutenção (Higashidori), sofreu um "apagão" da rede eléctrica exterior à central, mas o arrefecimento das piscinas foi garantido com os respectivos geradores Diesel. E, em Fukushima, as operações de gestão da crise continuaram como dantes...
Naturalmente, o que desta vez não houve foram maremotos!

Entretanto e relativamente a Fukushima, este relatório da IAEA e os que também regularmente a TEPCO publica dá conta da situação (numa exemplar transparência, contrastante com o "fecho em copas" da nossa TAP quanto à grave avaria do Airbus que vinha do Rio de Janeiro para Lisboa e que teve de aterrar de emergência em Salvador).
Os reactores e as piscinas estão estabilizados, a fuga de água altamente radioactiva das caves para o mar que se detectara foi estancada, e todos os níveis de radioactividade em terra e no mar estão dentro dos limites de segurança legislados!
Claro que Fukushima ainda tem muito trabalho pela frente até tudo estar resolvido, nomeadamente o controlo total do que se passa nos reactores 1 a 3, sem o qual se compreende que o Governo japonês e a IAEA mantenham as medidas preventivas de afastamento das populações até 20 km da central. Nesta, por outro lado, as medidas de segurança da TEPCO relativamente aos seus trabalhadores também garantem a segurança destes, fora acidentes imprevisíveis que têm acontecido mas de pouca gravidade.
Mas, embora de envergadura bem maior que Three Miles Island, logo pelo facto de em 1979 só ter estado envolvido um reactor, a crise de Fukushima continua a ser-lhe essencialmente similar, ou seja, de grau 5 (ver figura anexa para clarificação da escala de gravidade).

Entretanto, o MIT mantém a sua acção pedagógica com esclarecimentos pontuais mas rigorosos sobre este ou aquele assunto mais relevante. Ontem, por exemplo, explicou aqui como são estabelecidos os limiares de segurança contra a radioactividade pelas entidades regulamentadoras. O tema do que se sabe sobre os efeitos da radioactividade é um a que penso voltar em breve, tanto mais que se baseia em muito numa ferramenta que me tem interessado por outras razões: a epidemiologia.
De passagem, uma questão: no seu recente brief (hyperlinkado acima), a IAEA informava: "In addition to those reported in previous briefs, the following countries have submitted monitoring data and/or links to national websites where data is available: Denmark, Germany, Lithuania, Luxembourg, Mexico and Portugal". Que estará exactamente a fazer Portugal nisto?

segunda-feira, abril 04, 2011

Os 2 mortos de Fukushima e a "nacionalização" da TEPCO

Infelizmente, em resultado do acidente na central nuclear de Fukushima-Daiichi, já há a registar dois mortos. Não, não me refiro à crise na central depois do acidente - refiro-me ao acidente, isto é, ao terramoto e ao tsunami!
O mesmo tsunami que alagou e destruiu os geradores Diesel e demais quadros eléctricos dos serviços auxiliares da Central, afogou 2 trabalhadores que estavam num turno de rotina de verificação de equipamentos numa cave da central. Claro que isto já era esperado, porque desde o início que a TEPCO vinha informando do desaparecimento de 2 trabalhadores de um empreiteiro seu, mas mesmo assim há quem queira atribuir estas mortes às posteriores avarias dos reactores!...
Na mesma linha terrorista, há quem tenha vindo a dizer que o prejuízo causado pelas avarias em Fukushima levará à nacionalização da TEPCO.
Ora a TEPCO tem, com efeito, graves prejuízos com este terramoto-maremoto! Como todo o Japão, de resto.
Mas, como se pode comprovar aqui, além da perda irreparável de 3 ou 4 reactores nucleares em Fukushima I e das destruições nas restantes instalações da central causadas pelo terramoto-maremoto, a TEPCO sofreu ainda avarias noutra central nuclear, Fukushima II (mas sem problemas de segurança), em mais 3 centrais térmicas convencionais (Hirono, Hitachinaka e Kashima), que estão indisponíveis, e ainda em centrais hidroeléctricas e Subestações de Transporte, obrigando a cortes de energia rotativos entre os consumidores.
Nestas condições, juntando a estes prejuízos as indemnizações que o governo japonês já declarou que a TEPCO terá de pagar às populações deslocadas (deslocadas preventivamente, note-se, e não por os 20 km de área á volta da central estarem "radioactivos"), é natural que a empresa se veja em face de grandes necessidades financeiras, estando em discussão a forma que a ajuda do Governo japonês deverá tomar; no entanto, uma nacionalização completa está fora de questão, sendo antes de esperar a prestação de garantias bancárias para a realização de um empréstimo de emergência. Claro que a perda da central nuclear de Fukushima I e sobretudo de todos os problemas associados constitui a maior parte dos prejuízos da TEPCO, mas não serão os contribuintes japoneses a "socializarem" esse prejuízo.
Por outro lado, a TEPCO não é a única empresa japonesa a ter sofrido perdas enormes com o terramoto-maremoto: as acções da maioria dos grandes conglomerados japoneses estão em queda, e no total os prejuízos estimam-se em 310 biliões de USD (140% do PIB português)!...
Mesmo assim, a comunidade internacional espera que o Japão recupere depressa.
Entretanto e para quem estiver interessado em alguns esclarecimentos prestados à nossa TV sobre o que se tem passado em Fukushima, sugiro a visualização desta edição do programa "Olhar o Mundo".

domingo, abril 03, 2011

Seguros e nuclear civil

Uma das atoardas que alguns demagogos gostam de propalar, às vezes publicamente, é que as centrais nucleares não têm seguro contra casos como o de Fukushima, dado o alto custo que ele comportaria.
Ora isso é completamente falso, como se pode comprovar pela explicação aqui constante!
Em todo o caso e relativamente  a Fukushima, acrescentaria que:
  1. Bem mais preocupados do que com a recuperação das perdas económicas com a central de Fukushima, os japoneses estão-no é com toda a imensa destruição de toda a costa oriental de Honchu! Só os seguros reclamáveis relativamente á propriedade imobiliária destruída estimam-se ascender a 35 biliões de USD!
  2. Fukushima estava amortizada, dados os seus 40 anos de vida, embora tivesse acabado (2010) de ver autorizada a extensão da sua licença de funcionamento por mais 10 anos.

sábado, abril 02, 2011

O risco de estar vivo - Fukushima "update"

Estar vivo é uma actividade cujo risco acumulado é sempre fatal!
Posto isto, a singularidade humana consiste em enfrentar permanentemente e desde sempre esse risco ganhando controlo sobre as ameaças. "Transformando o mundo em função das suas necessidades", dirão os marxistas, chamando a isso "trabalho" e que consideram a essência da natureza humana. "À imagem de Deus", dirão os crentes nas religiões dos livros.
Como indivíduos, luta-se contra o risco "fazendo pela vida". Mas além de indivíduos somos elementos sociais, inseridos em organismos, e por isso também lutamos contra os riscos que ameaçam o grupo. Não somos aliás únicos nisso - qualquer vertebrado defende as suas crias...
No caso humano, porém, esta luta pela imortalidade (ou contra a morte, como queiram) levou à criação das civilizações. E, embora a maioria delas tenha perecido pelo caminho, há legados que se têm vindo a passar num crescendo de imunidade à morte.
Tudo começou quando deixámos o corno de África há uns cem mil anos. Hoje tentamos compreender e dominar o ADN, e mandamos sondas fotografar de perto planetas distantes. Já sabemos que também há planetas fora do sistema solar, e não paramos. Parar é morrer. Individual e colectivamente. É o super-vulcão de Yellowstone que pode irromper. Um asteróide perdido que nos pode extinguir. Um novo vírus, com letalidade e tempo de incubação entre o HIV e o Ébola, que pode surgir de alguma mutação aleatória. E, mesmo que nenhuma dessas más surpresas ocorra, hão-de haver novas épocas glaciares e novos estios gerais, e por fim o Sol há-de esmorecer. Quem julga que o Universo é pacífico e o stress uma alienação, que veja os filmes e as fotos das luas de Júpiter!...
Há, porém, uma ideologia persistente que acredita que os bons tempos eram aqueles em que, de geração em geração, se vivia na natureza, em "harmonia" com ela. O mais parecido com isso que houve, porém, foi a Idade Média, onde um dia apareceu a peste negra e matou 1/3 da população europeia. Para já não mencionar o desaparecimento geral da megafauna do planeta com a proliferação da nossa espécie, no fim da última glaciação, muito antes sequer da História, quanto mais da sociedade industrial que os ecotópicos culpam pelo suposto "desequilíbrio" com a Natureza...
Contra essa utopia ecológica, relativamente à qual partilho muito do que pensa o meu guru ideológico de há 40 anos, a Humanidade tem vindo sempre a querer mais. O que não admira, enquanto formos mortais. E estaremos sempre em risco enquanto não dominarmos a biologia e, em última análise, a galáxia, e mesmo aí...
É evidente que, no presente, o maior risco para o Homem é o próprio Homem. Com esse risco não sabemos bem como lidar: parece haver agora um consenso de que o melhor é permitir a liberdade de cada forma de expressão humana, o paradigma do "equilíbrio dos ecossistemas, da harmonia na diversidade interactiva". Filosoficamente não estou certo que isto se mantenha, mas pelo menos somos mais felizes que no paradigma ecológico que esteve na moda até ao esmagamento do nazismo, o da "lei da selva" em que "vencem os mais fortes"...! Mas não tenho qualquer dúvida que só muito recentemente e ao atingirmos o presente  estádio de civilização é que começámos a cuidar da preservação da Natureza e a respeitar as diferenças mesmo entre nós, humanos!
O certo é que enquanto não pudermos viajar pelo espaço inter-planetário e um dia pelo inter-estelar, como espécie estaremos em risco mortal. E, para isso, precisaremos de energia. Nem fóssil, nem renovável. Apenas com energia nuclear será possível viver "out there"!...
Portanto, aprendamos com Fukushima e sigamos em frente!

As últimas notícias sobre a situação na central nuclear de Fukushima-Daiichi são boas, por mais que o terrorismo eco-fascista o tente ensurdecedoramente iludir. Podem ser consultados resumos "certificados" aqui, no site do MIT. Desde o meu último post sobre isto, a situação estabilizou:
  • dentro dos reactores, a água está agora líquida, cobrindo as varas de urânio, e as piscinas de resíduos mantêm-se cheias de água, graças aos carros especiais japoneses e aos a chegar de outros países;
  •  Foi detectada água contaminada nas caleiras e caves dos edifícios dos reactores, alguma dela altamente radioactiva(1000 mSv/h!), a do reactor nº 2 cujo toro de refrigeração deverá ter sido fendido pela explosão de hidrogénio quando da sua ventilação, o que dificulta a aproximação dos trabalhadores (em Chernobyl foram lá mesmo assim e 28 morreram, mas estamos noutra galáxia, apesar das porcas mentiras que se propalam sobre isto). A água está a ser bombeada a bom ritmo para reservatórios mas, pela 1h30 de hoje em Lisboa detectaram uma racha de 20 cm na trincheira do reactor nº 2, de onde estaria a correr água para o mar - estando em curso o enchimento com cimento dessa racha (talvez com os robôs que já lá estão a realizar a melhor tarefa para que se pode desejar um robô...)! A água destas trincheiras, porém, proveio não dos reactores mas sim do tsunami, embora tenha efectivamente sido depois contaminada.
  • Houve 20 trabalhadores que receberam doses de radioactividade superiores a 100 mSv; o limite legal no Japão, nestas condições de trabalho, é de 250 mSv. Há porém, um trabalhador que se feriu numa queda ao mar quando ajudava na atracagem de um navio-tanque americano e outro que sofreu uma entaladela, além dos 3 que se queimaram nos pés quando entraram pela primeira vez no edifício do reactor e, às escuras, não notaram que havia água (radioactiva!) no chão e não ligaram aos avisos dos monitores individuais que todos transportam...
  • Claro que há radioactividade na água do mar perto da central, resultante quer das ventilações ocorridas nos primeiros dias, com as infelizes explosões do hidrogénio presente no vapor ventilado juntamente com resíduos radioactivos, quer da provável fissura existente no toro de arrefecimento de um dos reactores (resultante de uma dessas explosões do hidrogénio) e que contaminou a água de refrigeração que escorreu para as trincheiras exteriores ainda alagadas pelo tsunami! Os mais recentes registos estão aqui, mas é evidente que a radioactividade no mar não tem importância: as correntes e a diluição natural em pouco tempo reduzirão a concentração dos resíduos a valores inócuos - se não fosse assim, teria havido graves consequências dos testes que em tempos se fizeram com dezenas de bombas nucleares explodidas no mar!!! Neste momento, as concentrações de Iodo-131 são à volta de10 Bq/litro, e as de Césio-134 de menos de 1 -4 Bq/l; as doses máximas recomendadas para alimentação infaltil pelo Euratom são de 150 Bq/l para o Iodo-131 e 400 Bq/l para o Césio e outros, embora o Japão seja ainda mais exigente e estabeleça 100 Bq/litro como limite de Iodo-131 para crianças...
  • A água já se pode beber em todo o Japão, isto é, a sua concentração de Iodo-131 e outros resíduos menos graves desceu abaixo dos limites ultra-seguros estabelecidos pela OMS, excepto em 4 localidades próximas da Central;
  • De 113 locais em que foi monitorizado o nível de radioactividade no solo e produtos alimentares agrícolas, também em 4 foram detectados níveis de Iodo-131 e Césio superiores aos limites legais. Entretanto, e dada a estabilização da situação, o Governo japonês começou no passado dia 30 a estudar as condições de regresso das populações deslocadas.
  • De um modo geral e para quem se quiser manter actualizado, recomendo a consulta deste site oficial. Para quem queira uma excelente descrição gráfica do que sucedeu, sugiro isto.
Entretanto, e embora já tenha notado que tudo isto aconteceu na central nuclear mais antiga do Japão, entre 17 que o país tem e que sofreram como esta o terramoto de grau 9 que o assolou, e que toda a situação foi agravada pela impossibilidade de ajuda imediata do exterior devida à destruição geral causada pelo tsunami - fora da central mas também nos acessos aos edifícios dos reactores - vale a pena considerar algumas das coisas ali sucedidas que não aconteceriam numa central moderna de 3ª geração e que o Japão também tem, desde 1996.
Para começar, haverá que evitar que os sistemas de reserva de energia possam ser sim­plesmente eliminados por um maremoto ou algo equivalente como em Fukushima-Daiichi. Nas nucleares de geração III europeias (EPR) existem quatro sistemas de gera­dores Diesel redundantes e separados, dois dos quais estão colocados em casama­tas à prova de água, dos quais basta um único sistema para manter o núcleo do reactor em temperaturas seguras após a desligação da central. Se esta for construída perto da costa, os Diesel poderão ser colocados do lado mais afastado do mar, usando os edifí­cios da central como barreira adicional para condições de tempo extremas, ou mare­motos.
Nas nucleares de geração III americanas (AP 1000) todos os sistemas de energia de reserva estão protegidos dentro do edifício blindado e dentro do seu contentor inte­rior, e portanto não estão em risco face mesmo às mais extremas condições naturais anóma­las. Além disso os sistemas de segurança passiva destas centrais não requerem ali­mentação, visto serem projectados para simplesmente permitirem que caia água no núcleo por efeito da gravidade e que circule depois apenas por convecção natural.
Mesmo que todos estes sistemas falhem e ocorra fusão do núcleo do reactor, as conse­quências radiológicas externas não seriam nestas centrais sequer como as relativamente menores verificadas em Fukushima. Em primeiro lugar, ambos estes tipos de centrais têm sistemas de mitigação do hidrogénio, portanto sem possibilidade do tipo de explosões ali verificadas. Por outro lado, a EPR dispõe de um contentor duplo e de uma cova de espalhamento do córium (nada pode sair dele), enquanto o contentor de aço da AP 1000 pode ser indefinidamente arrefecido do exterior.

Entretanto, uma provável e inesperada lição a tirar é a vulnerabili­dade das piscinas de arrefecimento dos resíduos a faltas prolongadas de energia. Embora possam levar semanas a atingir a temperatura de ebulição, Fukushima demonstra que essa possibilidade existe, o que recomenda que a quantidade de resí­duos ali mantida seja minimizada, de modo a limitar o calor que geram. Isso, por sua vez, conduzirá provavelmente à recomendação de que os referidos resíduos sejam sempre, tão cedo quanto a sua temperatura o permita, processados e transferidos para cascos secos, sem necessidade de água com circulação forçada.

Energia nuclear? Contra isto aqui é que há que ser contra! E uma boa forma é "queimar" o urânio e o plutónio dessas bombas em reactores!

terça-feira, março 29, 2011

Verdadeira ciência viva! - Revisto

Ou vivemos já no reino dos filhos e netos de Goebbels, ou o programa "Ciência Viva" do Governo não tem tido efeito nenhum!
Ora vejam esta pérola acessível no "Expresso" on-line: o TGV poderá produzir energia renovável: diz que o TGV terá umas pequenas ventoinhas entre os carris que, accionadas pelo vento da deslocação, poderão gerar electricidade "renovável"!
Se os jornalistas que escreveram esta enormidade tivessem aprendido uns rudimentos de Física, saberiam que as ventoinhas, ao rodarem como indicado, funcionam como travão do TGV e que a energia que este tem de dispender para vencer essa travagem é sempre maior que a que as ventoinhas poderão produzir, visto que nenhum processo de transformação de energia tem rendimento maior que 1!
Pelo que o TGV gastará sempre mais energia com este processo do que se gerar directamente a electricidade (para a iluminação interna) a partir dos seus motores...

Alguns leitores manifestaram-me o seu espanto pelo que aqui postei, e por isso vou adicionar alguma informação explicativa. A ideia aqui apresentada está melhor explicada aqui, onde também se vêm as tais T-box, entre os carris, e em substituição (aparentemente), das travessas.
Num comboio de alta velocidade (TGV), a aerodinâmica é a questão chave. Quem quiser instruir-se, pode talvez começar por aqui.
A potência necessária para vencer a resistência do ar é tal que, além de justificar aturadas pesquisas sobre a forma óptima do comboio e em especial do seu nariz, de modo a reduzir essa resistência, uma das opções que mais se tem procurado é que o comboio não sofra o atrito dos carris, fazendo-o levitar.
Com isto, consegue-se que um TGV normal que não levite use perto de 8 MW de potência para vencer todo esse atrito do ar e carris, mas a parte dessa potência necessária para vencer o atrito do ar por baixo do comboio é pequena, quiçá menos de 0,5 MW.
Essa potência por baixo do comboio produz grande turbulência e as travessas geram ruído (de baixa frequência), que é energia sonora resultante da perturbação do ar.
Ora, na ideia apresentada diz-se que o Tbox poderá gerar 897 kWh numa viagem do TGV de 345 km a 300 km/h. Portanto, o TGV passará para essas ventoinhas uma potência tal que elas gerarão 0,897 MWh/1,15 horas = 0,78 MW (2,6 kW x 300 travessas para os 200 metros de comprimento do comboio). Mas, para gerarem isso, e dado que segundo a lei de Betz o rendimento máximo de uma turbina eólica é de 59% mas na prática não ultrapassa 35%, e considerando ainda o rendimento da conversão em electricidade (menor que 100%), o sistema entregará, no máximo, 33%, ou 1/3, da potência que recebe do vento. Portanto, para gerar 0,78 MW tem que receber no mínimo 2,34 MW do comboio na forma de vento - bastante mais que os cerca de 0,5 MW que ele dissipa, no máximo, nessa turbulência que gera por baixo de si.
Isto só é possível, claro, se a forma das Tbox funcionar como um travão aerodinâmico, para ir buscar mais energia ao comboio. Da qual nunca conseguirá aproveitar mais que 1/3!
A ideia subjacente a esta "invenção" é que a deslocação de ar causada pelo comboio contém uma grande quantidade de energia que de outra forma se perde. Ideia errada! E de que, mesmo que fosse verdade, nenhuma máquina conseguiria jamais aproveitar 100% - 33% e já não é mau!...
O problema é que, como noutras ideias similares, tais "inovações" nascem nuns "criativos" sem a bagagem que só o trabalho e o suor permite obter. Ou em "malta criativa" à procura de subsídios para "viabilizar" estas ideias...

segunda-feira, março 28, 2011

spin-offs

Ora aqui vem um estudioso confirmar o que eu já sabia há muito mas que parece difícil de entender a quem nunca saiu da torre de marfim!

Um tsunami não é uma onda grande!

domingo, março 27, 2011

Fukushima e os ecotópicos

Quando, há 15 dias, chegaram as primeiras notícias do terramoto e do tsunami no Japão, que falavam em menos de mil mortos e mostravam os edifícios de Tóquio a abanarem com a população perfeitamente calma, dei-as por conclusivas e notei que se tratava do ultimate teste à capacidade das centrais nucleares suportarem sismos.
Rapidamente, porém, me dei conta de que me precipitara e que estupidamente ignorara as experiências anteriores: o retrato do que se passava no Japão ainda ia no início, e as dimensões do desastre só pouco a pouco se iriam revelar - e vim aqui imediatamente reconhecer o meu erro.
Os ecotópicos, entretanto, parece que tomaram a minha nota de que isto era um teste à capacidade anti-sísmica das centrais nucleares como desafio à sua ecotopia e passaram a não falar doutra coisa, chegando ao ponto de no jornal "O Público", por exemplo, sistematicamente darem notícia do número de mortos pelo desastre natural em sub-título das notícias sobre Fukushima, como se esses mortos resultassem das avarias nesta central e não do tsunami!...
Outros jornalistas ("Expresso", suplemento económico) ironizaram este sábado sobre as afirmações que um responsável da TEPCO (a "EDP" proprietária de Fukushima) teria feito sobre a absoluta segurança desta central, e deram nota semanal baixa às afirmações desdramatizantes de Pedro Sampaio Nunes, acabando mesmo o "Expresso" por, a despropósito, publicar como notícia a informação de que, segundo o Eurostat, o preço da nossa electricidade para os consumidores domésticos estaria abaixo da média europeia graças à aposta nas renováveis - desinformação que começo por esclarecer com o quadro seguinte tirado dos últimos dados publicados pelo Eurostat, precisamente:
Neste quadro, as "outras taxas" são custos da energia com outro nome, como se sabe bem por cá (os famosos CIEG, CMEC, CAE, etc), e vale a pena é olhar para a componente rosa superior, o IVA. No preço total, é verdade que Portugal (PT) estava em 2010 com preços inferiores aos da média europeia (15,8 ç/kWh versus 16,7), mas também é patente que isso se deve a um IVA português de apenas 6%, quando a média europeia é de 15 a 16%! Sem IVA, a nossa electricidade doméstica é mais cara que essa média europeia e custa o mesmo que a espanhola. Na verdade, o Governo subsidia o preço da electricidade com este IVA especial (só o Reino Unido faz algo parecido), mas veremos se a dívida pública permitirá manter isso no futuro...
Esta nota sobre o preço da electricidade foi um pequeno desvio (e nem falei do défice tarifário...) ao tema que me traz aqui hoje, e que é o da forma como os ecotópicos falam de Fukushima. Resumamos, então, os factos já conhecidos sobre o sismo japonês.

O terramoto, de grau 9, tão intenso como o que destruiu Lisboa (e muitas povoações algarvias) em 1755, segundo a OMS danificou 1700 estradas (fechando muitas delas), destruiu uma barragem (Fujinuma, matando 12 pessoas) e abriu fendas em mais 7, derrubou mais de 50 pontes e muitas torres de electricidade e de comunicações, deixando sem energia nem água milhões de pessoas. No entanto, a esmagadora maioria dos edifícios resistiu sem danos de maior, incluindo todas as centrais nucleares.
O Japão demonstrou brilhantemente ser possível ter uma construção civil resistente aos maiores sismos que se possam esperar! E a nossa, resistirá ao inevitável próximo grande terramoto?
O que o Japão subestimou foram os tsunamis!
Sendo um país de ilhas vulcânicas e montanhoso, 40% da população vive na orla costeira e, por isso, o Japão construiu ao longo do tempo barreiras e defesas contra tsunamis, sendo consensual que dispõe do sistema mais avançado do mundo nessa matéria.
Mas o tsunami que chegou à costa entre meia a uma hora depois do terramoto foi muito superior ao que se havia previsto nessas defesas. Sabe-se agora que, por exemplo e no que respeita à central nuclear de Fukushima, esta fora projectada (há 50 anos) para tsunamis com 6 metros de altura e que os serviços auxiliares (geradores Diesel e circuitos eléctricos associados) estavam 10 metros acima do nível do mar, mas que o tsunami que atingiu a central teve... 13 metros de altura!
Porém, para o Japão, muito mais importantes que os danos na Central eléctrica foram os outros danos: mais de 27 mil mortos, até agora, e uma indescritível destruição de toda a orla costeira! Em certas zonas o mar penetrou até 10 km da costa, e estima-se que pelo menos 8% dos arrosais japoneses precisem de um ano para se lhes retirar o sal depositado pelo mar e recomeçarem a produzir!
E nós, Portugal, que defesas previmos para o tsunami que há-de acompanhar o grande terramoto que um dia havemos de ter? Estima-se que o tsunami de 1755 tenha atingido 20 metros de altura...
E, no entanto, aos ecotópicos a única coisa que interessa aprender sobre este terramoto japonês é o "falhanço" da central nuclear de Fukushima-Dachaii!

É claro que houve falhas na central nuclear! Antes de mais a falta de previsão de um tsunami desta envergadura mas que, como é óbvio, não foi um erro de concepção específico da central - foi um erro sistemático de todo o Japão, pago bem caro com a mortandade e a demais destruição que se constata!
A central, como todas as outras no Japão, resistiu na perfeição ao sismo e ao "apagão" geral resultante da destruição da rede eléctrica. Introduziu de imediato as barras moderadoras nos reactores, desligando-os, e os Diesel da central iniciaram automaticamente e conforme foram projectados a tarefa para que foram previstos, a de alimentarem as bombas de circulação de água para o arrefecimento de reactores e piscinas de resíduos. Até que, uma hora depois do terramoto, chegou o tsunami e destruiu tudo o que estava no piso inferior da central, ou seja, os Diesel e os circuitos eléctricos associados.
Houve outros erros de concepção ou operação e lições a tirar?
Quanto aos procedimentos de operação realizados pelas equipas da central e as autoridades, não há nenhuma razão para pensar que não tenham trabalhado, até agora, na perfeição. Não seria de esperar outra coisa do Japão, que faz os produtos industriais de melhor qualidade do Mundo e que tem uma cultura em que a honra e o sentido de dever são únicos! Aliás, é de fazerem rir os temores relativos aos produtos alimentares e ao shushi importados do Japão, como se fosse sequer imaginável que aquele país exportasse alguma coisa contendo riscos para a saúde própria ou alheia! E, a propósito, recordo a campanha que em 2010 se fez nos EUA contra a Toyota, por supostamente haver bugs no computador de controlo dos motores que alegadamente teriam levado um número de automóveis a acelararem inopinadamente, causando acidentes - as investigações posteriores pelas autoridades americanas provaram que não havia bugs nenhuns e que em metade dos casos o que sucedera era que os condutores tinham confundido o pedal do acelerador com o do travão (nos carros americanos não há pedal de embraiagem e os outros dois são grandes)...

Quanto a erros de concepção da central, sim, há lições a tirar.
Em primeiro lugar o facto do arrefecimento dos reactores precisar de energia eléctrica - coisa, precisamente, que os sistemas de segurança passiva dos modernos reactores de III geração já não têm, III geração de que por sinal o Japão foi o primeiro país a ter uma central, em 1996.
Em segundo lugar o sistema de armazenamento em piscinas dos resíduos, e que se mostra com isto serem bem mais arriscados que o armazenamento em cascos secos, como se faz na Europa (vejam-se as fotos que postei aqui).
Em terceiro lugar o toro de injecção de água de arrefecimento, adicionado à concepção inicial deste reactor da GE, um ponto fraco no confinamento dos reactores e que com grande probabilidade terá sido fendido no reactor nº 3, dando azo a fugas de água radioactiva, na sequência da explosão do hidrogénio que, nesse reactor, terá ocorrido dentro desse toro e não nas condutas de escoamento.
Em quarto lugar, a imprevisão da susceptibilidade à explosão da mistura de hidrogénio decorrente da fusão do revestimento de zircónio das barras de urânio em contacto com a água de arrefecimento,  explosão que estará na causa dos aparentes danos graves do toro mencionado atrás.
E, em quinto lugar, a tecnologia de água fervente do reactor, em que a água banha directamente as barras de urânio do reactor.
Todos estes erros de concepção já eram conhecidos e não existem nas modernas centrais nucleares de III geração.
E é por isso que, ao contrário do que diz por exemplo o jornalista Pedro Lima do "Expresso" do último sábado, não se verifica nenhum "movimento um pouco por todo o mundo" de questionamento da energia nuclear.
Houve moratórias, por curto tempo, na Alemanha e na Itália. Mas nos EUA nada parou na construção das novas centrais, e na China o presidente do comité da Ciência e Tecnologia, Pan Ziqiang, fez o ponto na passada sexta-feira: "From a safety perspective, up to now China has never had an incident higher than level 2. From the 1950s when development began, there hasn't been a single death caused by radiation -- not one -- and there hasn't been a single fatal disease (caused by radiation). Of course, there have been skin burns, and 10 people were killed in a work accident in 2007, but this is very far from the amount of deaths from China's coal industry."  E para rematar: "We need to adopt stricter management and strengthen the safety culture and our monitoring (but) I think we should accept nuclear development".

terça-feira, março 22, 2011

Nota extra sobre Chernobyl

Ontem escrevi aqui sobre os 4 mil mortos estimados em Chernobyl, mas entretanto encontrei este resumo das conclusões da OMS sobre esse acidente, em termos de consequências na saúde pública.
De particular interesse são os números precisos fornecidos para a única patologia claramente associável á radioactividade de Chernobyl: o cancro da tiróide infantil.
Segundo os registos da OMS, terão ocorrido 4 mil casos, mas com uma taxa de sobrevivência da ordem de 99%!
Confesso que eu próprio fico a duvidar destes números fornecidos pelas autoridades ex-soviéticas! É que a taxa usual de sobrevivência do cancro da tiróide infantil é só de 90 a 95%, no Ocidente...
De qualquer modo, e portanto, o verdadeiro número deve estar entre os apenas 60 contabilizados ao certo pela OMS, e os 4000 estimados pelas calculadoras. Talvez umas centenas...
Menos, portanto, que o rebentamento da barragem de Valjont na Itália, em 1963.
Mas muito mais do que seria desejável e que é admissível!

segunda-feira, março 21, 2011

Sobre radioactividade de origem nuclear

Os trabalhadores da central nuclear de Fukushima trazem consigo um "medidor cumulativo" de radioactividade que monitoriza o total anual recebido, de modo a limitá-lo a 20 mSv, em média, ao longo de 5 anos, não devendo ultrapassar 50 mSv num só ano, e que foi elevado recentemente para 100 mSv no Japão. Este valor é atingido, para um horário de trabalho normal, com uma radioactividade média de 54 microSv/hora (1mSv = 1000 microSv). Se a radioactividade fosse recebida permanentemente a uma taxa constante, o referido limite anual seria atingido com 11 microSv/hora.
O diagrama de excelente rigor neste hyperlink compara diversas fontes e valores de exposição.
Aqueles limites cumulativos anuais contêm uma grande margem de segurança relativamente aos menores efeitos patológicos conhecidos. Com efeito, a Comissão Internacional para a Protecção Radiológica (ICRP), que monitoriza todos os estudos científicos na matéria, recomenda por precaução o princípio ALARA ("As Low As Reasonably Achievable"), o que significa que os limites geralmente recomendados para situações correntes são em regra muito prudentes, mas admite 3 níveis diferentes de segurança: para condições normais, para exposições planeadas, e para situações de emergência.
O valor máximo de exposição humana à radioactividade até ao qual não está cientificamente comprovado qualquer efeito patológico é de 100 mSv. O limiar comprovado a partir do qual há patologias agudas registadas é de 1000 mSv, mas o ICRP assume, prudentemente, que a radioactividade é sempre danosa a longo prazo - 5 a 20 anos - para o ADN, e estipulou algo arbitrariamente que o risco de cancro aumenta linearmente com a dose recebida sem limiar mínimo (portanto a partir de 0), à taxa de 5.5%/Sv, o que dá 0,55% para os 100 mSv). O ICRP assume também que o efeito da radioactividade é cumulativo no tempo, pelo que os limites recomendados não são diferentes se uma dose for recebida numa hora ou somada ao longo de um ano.
Porém, os seres humanos estão expostos quotidianamente a fontes radioactivas naturais e artificiais e dispõem de uma grande resiliência a essa radioactividade, pelo que esta não é um perigo absoluto; o perigo depende do valor relativo da radioactividade.
Numa cidade como Londres, por exemplo, a radioactividade natural ambiente é de 0,35-0,5 microSv/hora. O valor médio nos EUA, considerando também as fontes de radioactividade artificial, é de 6.2 mSv/ano, mas as tripulações de voos de longo curso, por exemplo, recebem em média +9 mSv/ano (a alta altitude a exposição é maior).
Ao longo de toda uma vida de 80 anos recebe-se, contas feitas e apenas da radioactividade ambiente, cerca de 500 mSv. Obviamente isto não faz o mesmo efeito que receber tal dose toda numa hora! Ou, pior ainda, tal dose horária durante 7 a 10 horas de trabalho seguidas, totalizando 3.500 a 5.000 mSv, o suficiente para matar 50% dos atingidos (e a totalidade se os sobreviventes não forem medicados). O limiar da morte certa é de 10.000 mSv.
Da mesma forma, se falarmos dos níveis para os quais não há consequências agudas (com sintomas) mas prováveis consequências crónicas (a longo prazo: cancro, cataratas ou envelhecimento precoce), e que se situam entre 100 e 1000 mSv, embora este valor seja atingível com 11 a 110 microSv/hora permanentes, obviamente essa radiação não tem qualquer efeito se for recebida apenas durante algumas horas!
Acontece que a Humanidade tem infelizmente uma considerável experiência do efeito das libertações maciças de radioactividade. Desde que " a bomba" foi inventada, em 1945, e até que em 1963 um tratado internacional baniu esses testes, os EUA, a URSS e a Inglaterra fizeram explodir na atmosfera 570 bombas nucleares, e mesmo depois dessa data a China e a França, que não assinaram o tratado, continuaram a fazer explodir bombas nucleares na atmosfera até 1980 (+73 explosões atmosféricas só por estes 2 países)!

Não são conhecidas consequências patológicas confirmadas da radioactividade assim gerada, com excepção da primeira bomba de Hidrogénio testada pelos EUA no atol de Bikini, em 1954, mil vezes mais poderosa que a de Hiroshima! A radioactividade subsequente desta bomba afectou seriamente 23 pescadores japoneses que se encontravam na região, matando um deles em poucos dias e 11 outros em poucos anos, vitimando também habitantes das ilhas Marshall, onde houve mais tarde casos de crianças com más-formações congénitas e leucemias tardias, estimando as autoridades locais um total de 840 mortes por causa disso nos 20 anos seguintes à explosão (mas que há que ponderar com o facto dos EUA terem indemnizado as populações e o governo local e poder por isso haver algum interesse económico nestes números).
Esta história ficou bem conhecida em todo o Mundo nos anos posteriores, (na figura, a forma como a sua nuvem radioactiva espraiou as 10 toneladas de resíduos da bomba), mas o nível de radioactividade registada na região atingiu os vários milhares de mSv.
No caso do acidente de Chernobyl em 1986, nas primeiras horas após a explosão do circuito de refrigeração do reactor, da destruição deste e da cobertura do edifício que o continha, enquanto o seu conteúdo exposto ardia a céu aberto e enviava durante 10 dias para as nuvens as suas cinzas, a radioactividade medida ao pé do reactor foi de 6000 mSv!
Após 20 anos de seguimento dos afectados, a ONU elaborou em 2008 um relatório final sobre Chernobyl (acessível integralmente aqui), em que fez o balanço dos efeitos a curto e a longo prazo do acidente.
As doses médias de radioactividade recebida, sem contar a ingerida posteriormente em alimentos envenenados (principalmente leite) variaram entre 120 mSv para os 530 mil trabalhadores que estiveram envolvidos no aterro do reactor e 1.3 mSv para os 98 milhões de habitantes das repúblicas da Ucrânea e Bielorrúsia, passando por 31 mSv para os 115 mil evacuados do perímetro da central. Estes valores médios escondem uma grande variância individual.
Da totalidade destes casos, segundo o referido relatório da ONU, terão morrido em prazo curto 28 trabalhadores de 134 com sintomas agudos devidos à radioactividade, e mais 19 nos 20 anos seguintes mas de razões que foram da cirrose à tuberculose, sendo por isso muito difícil distinguir os que foram vítimas tardias da radioactividade.
Na restante população, de causa atribuível à radioactividade observaram-se cerca de 4000 casos adicionais ao expectável de cancros na tiróide em crianças menores de 18 anos e que, à taxa de mortalidade típica desta doença (2% ao fim de 5 anos, e 5% ao fim de 30 anos), poderão vir a causar algumas centenas de mortes adicionais. Estes cancros na tiróide resultaram da ingestão de leite contaminado e não houve outras mortes confirmadas devido a Chernobyl - aliás, as autoridades médicas só identificaram até agora 9 mortes confirmadas causadas por estes cancros! No entanto, alguns trabalhos assumiram a "hipótese linear" do ICRP de 0,005%/mSv de incremento de risco de cancro, sem limiar mínimo, para chegarem à contabilidade de 4 mil mortes, mas convém atentar em que tal se baseou na referida "hipótese linear" de risco, e que não há confirmação científica de casos de cancro para exposições inferiores a 100 mSv, àparte a ingestão por crianças de alimentos contaminados (a tiróide adulta é muito mais resistente e pouco vulnerável).
Claro que de Chernobyl resultaram milhares de doentes e afectados, com doenças em que predominaram as cataratas. Mas a maioria dos doentes da altura recuperou.
Claro que o acidente de Chernobyl foi terrível, e não pretendo minimizá-lo como justificação da energia nuclear. Pretendo, isso sim, pôr as coisas na sua base racional e factual, exorcizando terrores irracionais que confundem guerra nuclear com energia nuclear e manipulações que jogam com a ignorância e o medo que dela se alimenta.
A Fukushima voltarei em breve. Mas, é já óbvio que nada do que aconteceu em Chernobyl se repetiu ali, apesar do terrível cataclismo natural que se abateu sobre o Japão e aquela central.
Como engenheiro, e dado que não se pode "desinventar" a tecnologia nuclear, sobretudo na sua faceta mais temível, a militar,  considero que o que há é que tirar lições - dos acidentes nas centrais nucleares como das hidroeléctricas rebentadas - e fazer melhor da próxima vez. Sempre melhor!...

sábado, março 19, 2011

Nova crónica de Engenheiro sobre o desastre de Fukushima I - 18 Março 2011

Enquanto a batalha de Fuskushima estabiliza, com os sistemas de arrefecimento dos reactores e das piscinas de resíduos a recuperarem pouco a pouco, vale a pena falar um pouco sobre a concepção e funcionamento destas centrais nucleares, essas obras-primas da Ciência e da Engenharia do sec. XX que, desde que existem há já 56 anos, tiveram até hoje 3 acidentes graves: Three Miles Island (EUA, 1979), Chernobyl (URSS, 1986), e agora Fukushima Dachaii.
Convém desde já notar que nem Three Miles Island, nem Fukushima até agora, produziram qualquer morte ou caso de doença aguda (em Three Miles Island nem aguda nem qualquer outra, e em Fukushima ainda não sabemos), e que a radioactividade de Chernobyl terá causado 4 mil mortes estimadas (na verdade, confirmadas foram apenas 56  - apenas 31 admitidas pelo Governo soviético - e o resto é a estimativa da ONU para as mortes a longo prazo por cancro resultante da radioactividade). Porém, ao contrário dos ocidentais incluindo Fukushima, os reactores de Chernobyl não dispunham de um contentor de aço reforçado ele próprio por outro de grosso cimento a envolver o reactor, e que foi por isso que o seu conteúdo, numa quantidade 400 vezes a da bomba de Hiroshima, subiu às nuvens quando o aquecimento fez explodir o seu inoperacional circuito de arrefecimento e a cobertura do edifício e o núcleo ficou a arder durante 10 dias a céu aberto.
Para comparação e como já notara há mais de um ano no meu primeiro post sobre energia nuclear, durante os últimos 50 anos houve vários rebentamentos de barragens hidroeléctricas, dos quais os mais mortíferos foram um na Itália que matou 2 mil pessoas (Vajont, 1963), e outro na China (Banqiao, 1975), que matou... 170 mil (dos quais 26 mil por afogamento mas a maioria pelas epidemias e fome subsequentes)!...
A central de Fukushima Daiichi, a mais antiga do Japão, foi projectada nos anos 60 e os seus 6 reactores montados durante os anos 70. É do tipo que se usou no início da energia nuclear, de "água fervente", de concepção base americana como todas as do Ocidente, neste caso da General Electric - embora a construção seja japonesa, da Toshiba, e o contentor do reactor tenha sido produzido pelo melhor fabricante de aço do Mundo (o melhor ferro usado no fabrico dos transformadores da EFACEC também vem do Japão...). Esse contentor, com 15 cm de espessura, é feito numa peça única e a sua fundição demora meses, só havendo actualmente no Mundo três metalúrgicas capazes de fazerem os dos reactores maiores - na Rússia, na Coreia e no Japão!
O esquema seguinte ilustra o funcionamento básico deste tipo de centrais.

Note-se que o princípio funcional desta geração de centrais nucleares da GE tem sido criticado por alguns especialistas, mas é de notar que desde o início a GE enfrentou a concorrência da Westinghouse, cujas centrais eram de "água pressurizada", o que pode explicar parte dessas críticas. Em todo o caso, é provável que alguma má concepção americana da central tenha sido melhorada pelos construtores japoneses, conhecidos pela qualidade imaculada dos seus produtos industriais.
Uma visita guiada ao reactores de Fukushima ilustrando perfeitamente os respectivos sistemas de arrefecimento e como foram afectados pelo tsunami pode ser feita neste filme da CNN. Vale a pena ver...
Um facto que prova a violência do cataclismo natural que se abateu sobre a central, e que matou pelo menos 17 mil pessoas (mas nenhuma foi morta pelo acidente nuclear, ao contrário do que os media vendidos á ecotopia tentam fazer crer, ao colocarem o número de mortos pelo tsunami em sub-título das notícias sobre o acidente nuclear...) é o que sucedeu noutra central nuclear próxima.
Com efeito, não muito longe desta central (Fukushima Daiichi) existe outra (Fukushima Daini) que também foi vítima do mesmo terramoto e do mesmo tsunami. Ambas as centrais tinham sido concebidas para serem imunes a tsunamis com alturas de onda até 6,5 metros, mas o que chegou desta vez tinha 7 metros de altura, e por isso ambas tiveram os seus serviços auxiliares inundados. Porém, em Daini alguns dos Diesel de emergência não foram afectados, e por isso o pessoal da central conseguiu cumprir os procedimentos previstos e rapidamente arrefecer os reactores que tiveram um "apagão" dos sistemas de arrefecimento semelhante aos de Fukushima Daiichi.
Foi realmente preciso um tsunami gigantesco após um terramoto cataclísmico para que uma das centrais nucleares avariasse gravemente. Mas é possível (não me arrisco a dizer "provável", por enquanto), que este acidente acabe tão inócuo para as populações como o de Three Miles Island, e não como o de Chernobyl, ao contrário do que os ecotópicos tanto desejam...
Entretanto e quanto à famosa "nuvem radioactiva" que terá atingido os EUA, segundo a propaganda ecotópica, relembro a escala de perigosidade da radioactividade estabelecida pela experiência médica. Ah, os 400 mSv medidos em Fukushima a 14/03 foram-no episodicamente no interior da central, mas à sua periferia só chegaram 11 mSv e não havia pessoal lá dentro, na altura...

quinta-feira, março 17, 2011

Radioactividade em Fukushima - 16 de Março

Dadas as atoardas sem a menor vergonha que alguns têm propalado sobre a radioactividade emitida até agora por Fukushima, transcrevo aqui um gráfico elaborado pela equipa de Engenharia Nuclear do MIT há algumas horas:

E alguns números típicos, constantes do mesmo post, tomando por unidade de radiação o milisievert (mSv):
  • Dose letal (para 50% das pessoas) - 2500 a 5000;
  • Dose causadora de patologia aguda - 500 a 2500;
  • Dose capaz de a longo prazo causar envelhecimento precoce ou cancro - 100 a 500;
  • Dose abaixo da qual não há dados que confirmem patologias - 50.
  • Dose normal no ambiente quotidiano - 5.
Ora como o gráfico acima mostra, até ontem (quarta-feira) os níveis máximos registados, e por curtos períodos, na periferia da Central, foram de 11. Não é bom, mas ainda não tem nada a ver com Chernobyl ou o apocalipse!
Entretanto, o lançamento de água por helicóptero e carros de bombeiros na piscina de arrefecimento dos resíduos dos reactores nº 3 e 4, piscinas cuja secagem é o maior perigo que de momento a situação encerra, terá tido êxito. A montagem da linha de energia auxiliar para alimentação das bombas hidráulicas também (toda a rede eléctrica da central e arredores foi devastada pelo terramoto e pelo tsunami subsequente). E um dos Diesel de emergência já está a trabalhar. De um modo geral, a situação está cada vez melhor controlada, como as últimas notícias de há minutos atrás indicam. O heroísmo e competência dos trabalhadores japoneses nas instalações e a ajuda dos que em todo o Mundo lhes desejam os maiores sucessos, conseguirão a vitória nesta tremenda batalha!
E, já agora, para quem queira ver uma história sobre uma emergência nuclear, recomendo o aluguer na Zon ou a compra na Fnac do excelente filme de Kathryn Bigelou (a ganhadora do Óscar de melhor realizadora em 2010), K-19 - the widowmaker.