sábado, maio 14, 2011

Revisão aos empregos criados pelas renováveis em Portugal

Recentemente dei nota da invocação do dirigente do PS candidato às próximas eleições, num debate televisivo dia 9 passado, de que o Governo cessante a que ele preside criara 100 mil empregos em Portugal nas energias renováveis, e de como esse número se poderia basear num estudo feito por uma empresa de consultoria, a CEEETA, para o Governo, em 2009 (uma empresa que resultou da metamorfose de um Centro Universitário com o mesmo nome no ISEG...). Estudo que, como transcrevi, procede às mais delirantes falcatruas para "produzir" números fabulosos, incluindo a descarada troca dos termos de uma divisão aritmética, certamente a contar com a inumeracia geral que nos caracteriza!
É entretanto de notar que este número de 100 mil empregos é uma "revisão em alta" do número que o mesmo Governo apresentou ainda há um ano no seu PEC 1, e que era de 30 mil, que na ocasião também desmontei vincando que se baseava num trabalho feito por encomenda de outra empresa consultora, a Deloîtte, que em finais de 2008 alardeara a existência de 36 mil empregos no sector das renováveis em Portugal.
O relatório da Deloîtte fora apresentado à Imprensa com grande pompa e circunstância num grande hotel de Lisboa, mas o relatório em si custou a ficar acessível ao público. Quando ficou, porém, tornou-se possível verificar que o número de empregos reais e directos recenseados no sector das renováveis era de 2400, e que os restantes 33 600 eram "empregos indirectos" - ou seja, e como mostrei, pura e simplesmente congeminados!...
Porém, esta criatividade inventiva quanto aos empregos gerados pelas renováveis não é exclusivo nacional. Como notei há pouco mais de um ano, também na Alemanha um estudo económico sério (e até pró-renovável!) contabilizava em 157 mil empregos os criados na Alemanha pelas renováveis (dos quais 64 mil nas eólicas e, destes, directos e recenseados apenas 27,5 mil), enquanto na mesma altura um estudo encomendado e publicado pelo próprio Comissariado Europeu da Energia (há muito ao serviço dos nacionais-ecologistas alemães) duplicava "criativamente" aqueles empregos para... 320 mil!
Como nota à margem, vale a pena recordar que o mesmo estudo recenseava 52 mil empregos na electricidade alemã gerada a partir da biomassa, a mesma ordem de grandeza do emprego existente nas eólicas lá, e isto apesar da indústria de equipamentos de biomassa exportar muito menos que a de aerogeradores, de a produção eléctrica a partir da biomassa requerer apenas 1/3 do investimento da da eólica por kWh gerado, e de a biomassa produzir lá a mesma ordem de grandeza de energia renovável (5.2%) que o vento (6.5%)...

O estudo alemão em referência contêm também outro dado precioso: uma estimativa quantificada, a partir de modelos económicos de Input/Output usando estatísticas oficiais, do número de empregos indirectos criados pela indústria eólica - 4/3 por cada directo, a maioria dos quais na produção de máquinas eléctricas e componentes associados (vd. figura).
Ora desde que o estudo da Deloîtte foi feito, em 2008, que aconteceu por cá que permita considerar um aumento do emprego nas energias renováveis em Portugal?

Recordo que, em 2008, a ADENE promovera um inquérito às nossas empresas e obtivera o único número fundamentado em inquéritos disponível até agora nesta matéria: 800 empregos. Esse número tem sido referido por diversos fóruns internacionais, como este aqui que o cita a propósito do relatório sobre criação de emprego da própria EWEA, e que lhe adiciona os cerca de 2000 empregos criados pela ENERCON em 2009-2010 nas fábricas de Viana do Castelo - que, com alguns fornecedores de componentes, ascenderão optimisticamente a 2400, o número citado pela Deloîtte e pelo próprio líder da ENERCON em Portugal, Aníbal Fernandes, há cerca de um ano.
O número de empregos associado à operação e manutenção (O&M) dos parques eólicos é muito baixo, mesmo incluindo a guarda dos parques (frequentemente inexistente), e é sabido que muitos deles são tele-monitorizados a partir do estrangeiro e nem sequer têm técnicos portugueses em permanência em Portugal. Há empresas em que um único técnico supervisiona 100 MW de aereogeradores, e a extrapolação deste número para os 4000 MW existentes leva a apenas algumas dezenas de empregos. Com efeito, a maioria dos 800 recenseados pela ADENE em 2008 realizavam projecto e instalação de novos parques, e esse número não terá crescido significativamente desde então - na verdade, a técnica do relatório da CEEETA, Lda de estabelecer uma proporcionalidade entre potência eólica instalada e empregos não tem a mínima fundamentação!
Somos assim conduzidos, para a energia eólica, a um total entre 2400 e 3200 empregos directos existentes em Portugal.
O número de empregos indirectos é certamente menor, já que o multiplicador de 4/3 calculado na Alemanha se aplica sobretudo ao fabrico, e que parte desse emprego, em particular a fatia ocupada em Investigação & Desenvolvimento, é realizada no estrangeiro cuja tecnologia usamos - mas, mesmo assim, concede-se que se possam extrapolar 4200 empregos indirectos criados pela energia eólica em Portugal dos quais 400 já contabilizados nos fornecedores associados às fábricas de Viana do Castelo (se o total de empregos directos for de 2800, serão 4/3 de 2800=3700). Teremos, portanto, e na hipótese favorável assumida daqui em diante, 3200 empregos directos e 4200 indirectos (total de 7400).

Adicionalmente à energia eólica temos a construção das barragens reversíveis e a instalação de reversibilidade em antigas (enganadoramente referidas como "reforços de potência") e que são complementares das eólicas, e cuja criação real de empregos já contabilizei aqui, vai para 2 anos5 400 em média durante os 10 anos de construção das centrais mas, depois de terminadas, para a sua O&M, apenas... 84! Neste momento a construção vai sensivelmente a meio.
Quantos empregos indirectos são criados por estas obras hidroeléctricas? Um estudo canadiano mostra que, em média, são criados 2/3 de emprego indirecto por cada directo na construção de hidroeléctricas, o que adiciona, portanto, e durante o período de construção, mais 3600 empregos indirectos estimáveis.

A estes números relativos á energia eólica e à expansão das hidroeléctricas temos a adicionar as mini-hídricas, a energia solar, as centrais térmicas a biomassa e a resíduos.

Em Portugal há cerca de 100 mini-hídricas mas, tal como as eólicas e as grandes hídricas, são automáticas e com poucos requisitos de manutenção. Podemos, entretanto, admitir generosamente um emprego e meio por central, o que totalizará uns 150 empregos directos.

Na energia solar existe o anunciado grande projecto da RPP Solar de Alexandre Alves, que anunciava a criação de 1900 empregos subsidiados com dezenas de milhões de € e sobre o qual eu aqui levantei dúvidas há um ano, infelizmente alarmantemente confirmadas pelas notícias mais recentes desse projecto. Empregos criados, raros, e ao que parece os subsídios esfumaram-se para parte incerta...
Entretanto, a fábrica que a Acciona construiu em Moura como contrapartida da megalómana central fotovoltaica da Amereleja (de que entretanto 1/3 foi vendida à Mitsubishi) arrancou em 2008, empregando 95 trabalhadores. A central em si empregará 15 pessoas em manutenção, e as outras pequenas centrais fotovoltaicas existentes no país quiçá outros 10, mas em Moura foi também criado um Laboratório que empregará ainda uns 10 elementos. A Martifer Solar, porém, empregava 290 pessoas em 2009 em 8 países, das quais quiçá 200 a 220 em Portugal, em particular na sua fábrica de Oliveira de Azeméis.No total e assim, a energia solar suportará directamente em Portugal 350 empregos directos, a que se poderá aplicar um factor multiplicador generoso de 1,1 para o cálculo do número de empregos indirectos, assim estimados em 400, arredondando para cima.

Finalmente e para a produção renovável termoeléctrica, cada central de 10 MW a biomassa emprega, de acordo com um inquérito feito a empresários do sector, directamente 20 pessoas e indirectamente, na limpeza da biomassa, rechega da mesma, trituração e transporte, de 150 a 200 pessoas. Existirão de momento em Portugal umas 11 centrais destas, o que totalizará 220 empregos directos e 2200 indirectos (arredondando para cima).
Por outro lado, existem presentemente 8 centrais de tratamento de resíduos sólidos, tendo este mês anunciado o Governo a instalação de mais 15 nos próximos anos. Admitindo 10 empregos directos por central (de estatísticas na Virginia, EUA, hyperlinkadas adiante), teremos presentemente aqui 80 empregos directos, a crescerem para uns 230 no futuro próximo.  Os empregos indirectos, associados à recolha dos resíduos (a mais que na recolha usual), poderão generosamente extrapolar-se de cálculos americanos para uns 15 por central, o que totalizará cerca de 120 no presente e 450 a prazo.
Estamos, pois, em condições de somar tudo:

Empregos    directos ----- Indirectos (melhor estimativa):
Biomassa           220 -------- 2200 (2420)
Lixo                      80 --------     120 (  200)
Solar                   350 --------    400 (  750)
Eólica               3200 -------- 4200 (7400)
Mini-hídricas     150 -------- --        (  150)
Barragens       5400 --------- 3600 (9000)
Total:             9400 ------- 10320 (19720)

Chegamos, assim, a um valor final redondo e generoso de cerca de 20 mil empregos, dos quais perto de metade directosmetade indirectos.
Porém, estes números poderão crescer ocasionalmente durante os processos de instalação e construção de novas centrais termoeléctricas (biomassa e resíduos sólidos) e mini-hídricas mas, por outro lado, também descerão drasticamente uma vez terminadas as obras nas grandes barragens do Plano Nacional.
Quando isso suceder, e já contabilizando os 84 funcionários necessários para a O&M dessas barragens e o crescimento das centrais de resíduos sólidos, os empregos remanescentes, portanto os (razoavelmente) sustentáveis, serão de uns 4250 directos e 6950 indirectos, totalizando, redondamente, 11 mil empregos. Que também se poderão assumir como 10 mil empregos, considerando os múltiplos arredondamentos para cima feitos na estimativa...
Parece evidente não ser com isto que se poderá resolver o problema dos 800 mil desempregados que Portugal terá em breve...

quarta-feira, maio 11, 2011

Os 100 mil empregos no sector de energias renováveis em Portugal

Recentemente, num debate inserido na campanha eleitoral em curso, o chefe de um dos Partidos concorrentes, defendendo a obra do actual Governo, invocou o que este fez pela economia nacional com a aposta nas energias renováveis e os 100 mil empregos criados no sector.
Já várias vezes neste blog discuti os números sobre emprego apregoados pelos interesses instalados nas tarifas decretadas pelo Governo, mas hoje trago-vos aqui o excerto do documento oficioso que contém esse número.
Esse documento é um "Estudo sobre os empregos verdes em Portugal", de 2009, e feito para o "Gabinete de Estratégia e Planeamento do MTSS", pelo CEEETA - Consultores em Energia Lda, uma empresa onde a influência do Eng. Pimenta é conhecida.
Ora e como chega o referido estudo a este número de 100 mil? Transcrevo apenas o seguinte raciocínio, constante da pag. 129 do documento:

"Energia Eólica:
Segundo um estudo da European Wind Energy Association (EWEA, 2009), a energia eólica em Portugal em 2007 apresentava 800 postos de trabalho em termos de emprego directo. Segundo DGEG (2009), em 2007 a potência instalada em energia eólica era de 2 201 MW, o que corresponde a um indicador que rondará os 2,75 postos de trabalho por MW. No contexto norte-americano, CEERT (2008) aponta valores de 2,86 postos de trabalho por MW para a energia eólica nos EUA, o que vem evidenciar a concordância com o primeiro indicador estimado a partir de dados da DGEG e da EWEA.
Assim, para uma perspectiva de 5.700 MW instalados (valor oficial do PNBEPH, 2007) em 2010, conforme intenções do Governo, corresponderia a cerca de 15 675 postos de trabalho directos associados à energia eólica. Se perspectivarmos as intenções não oficiais a 2020, os 6 958 MW (apenas eólica onshore) corresponderiam a 19 135 postos de trabalho.
Segundo a EWEA, cerca de 15,1 postos de trabalho indirectos são criados por MW instalado, o que acrescentaria em 2010 cerca de 86.070 postos de trabalho indirectos em Portugal e 105 066 postos de trabalho em 2020. Por fim, a EWEA refere ainda que para cada MW instalado de potência adicional são criados 0,4 postos de trabalho correspondente a trabalhos de operação e manutenção."

Perceberam este raciocínio:
"...a energia eólica em Portugal em 2007 apresentava 800 postos de trabalho em termos de emprego directo. Segundo DGEG (2009), em 2007 a potência instalada em energia eólica era de 2 201 MW, o que corresponde a um indicador que rondará os 2,75 postos de trabalho por MW. "?
Eu também não!
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Eureka! Hoje ao acordar tive um enlightnement e percebi o raciocínio! Primeiro dividimos 2201 MW por 800 empregos, o que dá exactamente 2,75 MW /emprego! Depois, "inadvertidamente" trocamos os empregos e os MW... :-))))

sexta-feira, maio 06, 2011

A "troika" deu-me razão!

Não gosto de me gabar nem de argumentos de autoridade, e tento sempre que os argumentos valham por si. Na Ciência deve ser assim.
No entanto, não posso deixar passar a ocasião sem vos notar a coincidência entre o que os técnicos do Fundo Monetário Internacional, do Banco Central Europeu e da Comissão Europeia, vulgo "troika", propõem como medidas correctivas para a política energética nacional e o que eu tenho vindo a pregar no deserto.


Ora compare-se isto com o que eu escrevi aqui há quase um ano, por exemplo, sobre o sistema tarifário das nossas renováveis...
Por outro lado, foi também acordado com a troika:


Ora recorde-se o que eu escrevi aqui sobre as "taxas" especiais, os CMEC e quejandos, ou a nota ao ludíbrio do nosso suposto preço baixo de electricidade conseguido com um IVA subsidiado que publiquei aqui com o Prof. Clemente Pedro Nunes, meu colega do IST...

Evidentemente, não tenho sido o único a denunciar estas coisas na energia e a quem a "troika" veio dar razão; já antes de mim um batalhador incansável se indignava com isto, o Eng. Mira Amaral - o homem que me deu as aulas de Análise de Redes eléctricas em  1979 (turma da noite) e que, por sinal e enquanto Ministro da Indústria nos anos 80, foi quem precisamente criou o quadro legal e os primeiros sistemas de incentivos (com fundos comunitários) à entrada das renováveis no nosso país!...

sexta-feira, abril 29, 2011

As verdadeiras previsões do Governo para o carro eléctrico em Portugal

Como se sabe, o nosso Governo, as Universidades, a EDP e em geral o pensamento único que nos instrui em matéria energética, apregoam que o automóvel eléctrico está aí em pleno e que muito em breve iremos deixar de precisar de petróleo e poder abastecer os nossos automóveis eléctricos com energia de origem eólica e solar.
O nosso 1º Ministro chegou mesmo a notar, em 2009 e por ocasião da inauguração da fábrica de baterias de iões de lítio de Aveiro, que Portugal se colocava na dianteira da tecnologia, ao contrário do que teria sucedido historicamente no passado, e em 2010 reafirmou esta posição de vanguarda, ao inaugurar o sistema de abastecimento dos automóveis eléctricos, o Mobi.E, e que consta se estar a exportar para a Tunísia, Emiratos Árabes, etc...
É sabido que já manifestei por aqui dúvidas sobre esta euforia, mas será que sou apenas um "bota-abaixo", um "velho do Restelo", um "pessimista"?
Ora estive a consultar o Plano Nacional para as Energias Renováveis que o Governo entregou em Bruxelas em Outubro passado, e onde constam as previsões oficiais para a penetração da energia eléctrica nos transportes rodoviários para 2020 (daqui a 10 anos), e para um dado para que um amigo me chamou a atenção: dos 10% de fontes alternativas que a União Europeia mandou ter para combustível nos transportes nessa data, a fracção indicada pelo nosso Governo para a electricidade é de... 11%; o resto são biocombustíveis, especialmente para o Diesel! 11% de 10%!
Porém, como se pode verificar nos quadros 4b e 12 do documento entregue a Bruxelas, mesmo desta parcela a maioria é para os transportes não rodoviários; para os rodoviários prevê-se apenas 26 kTEP em 532!
Ou seja: afinal o próprio Governo prevê que, daqui a 10 anos, menos de 0,5% dos automóveis funcionem a electricidade!...

quinta-feira, abril 28, 2011

Nuc instruction

Electricidade a petróleo em Portugal

Como é sabido, uma das vigarices mais insistentemente repetidas pelos promotores da energia eólica, é que o investimento na mesma poupa ao país importações de petróleo.
Conhecendo há muito tempo como é gerada a electricidade em Portugal, essa é das barbaridades que me deixa desaustinado! Confesso mesmo que foi uma questão decisiva para eu ter iniciado o meu blogue, em 2009!...
No entanto, essa mentira é tão repetida, que há muita gente que a interiorizou, e que chega mesmo a duvidar do contrário. E perguntam alguns pelas centrais do Carregado e de Setúbal, ao que lá temos que explicar que o Carregado há anos que foi reconvertido a gás natural (ciclo combinado) e que Setúbal também há anos que raramente funciona.
Na verdade, o abandono do petróleo para a produção de electricidade é algo que foi consensualmente decidido praticamente em todo o Mundo depois do choque petrolífero de 1973, há já quase 40 anos! Universalmente, a solução foi a mudança para o carvão (alguns para o nuclear, como a França e a Alemanha), e desde os anos 80-90 é o carvão que é a base da geração termoeléctrica mundial, e não o petróleo! Incluindo em Portugal, com as grandes centrais de base de Sines e depois do Pego, perto de Abrantes...
E se o carvão entrou em desgraça a partir de 1990, foi por causa de Kioto e da necessidade de redução das emissões de CO2 o que, como já expliquei sobejamente, está na origem do renascimento mundial da energia nuclear - para substituir o carvão como este substituíra o petróleo.
E no entanto, os que querem teimosamente associar na mente pública o alto custo do investimento na energia eólica com o petróleo não desistem...
Acontece que recentemente me dei conta que, no mix de fontes de electricidade em Portugal, constam duas pequenas parcelas que efectivamente comportam derivados de petróleo mas que em regra passam desapercebidos.
A primeira parcela é a geração eléctrica nos Açores e na Madeira. Nos Açores, numa produção anual de 0,85 GWh, a componente a fuel e gasóleo é de 72%, 0,61 GWh. Na Madeira e Porto Santo, numa geração total de 1 Gwh, a componente a fuel e gasóleo é semelhante - 0,735 GWh. Pelo que a parcela total de geração a derivados do petróleo nas ilhas é de 1,35 GWh, o que perfaz 2.7% da produção eléctrica nacional (na Grécia é 8%). Claro que essas componentes térmicas não são fáceis de substituir nas ilhas, pelo que isto não é nenhum reparo mas apenas uma nota.
A segunda parcela de geração a derivados do petróleo é a cogeração (Produção em Regime Especial) a fuelóleo, que constitui 29% da totalidade da potência instalada em cogeração, que na sua totalidade gera 13.5% da electricidade nacional. A cogeração a fuelóleo deve, assumindo-a proporcional (sobre o que me faltam dados precisos), gerar portanto 3 a 4% da electricidade nacional.
Admitindo o limite inferior, dado que com a subida de preços do fuel essa cogeração não deve ser muito rentável (mesmo usando do fuel mais ordinário e poluente), temos que o petróleo efectivamente gera mais electricidade do que o suposto pelo próprio Governo: 2.7% nas ilhas + uns 3.3% na cogeração = 6%. Mas como esta última também tem tarifas garantidas semelhantes às das eólicas, não se vê como a aposta nas eólicas substitui a cogeração a fuel...
Quanto às ilhas, e nas que têm dimensão para isso, aí sim, vale a pena aproveitar toda a energia renovável tecnicamente possível, porque o fuel e o gasóleo são lá muito caros - sobretudo por se terem de transportar para lá! Nos Açores, em particular, vale a pena aproveitar ao máximo a geotermia, e de facto em 2006 entrou em funcionamento em S. Miguel uma segunda central geotérmica.
E valerá também a pena ter automóveis eléctricos, quando as baterias forem mais baratas, não só para poupar os caros de transportar gasóleo e gasolina, mas também porque as distâncias nestas ilhas são curtas e cheias de subidas e descidas (o que torna ainda mais interessante a travagem regenerativa). Enquanto não há carros eléctricos, estas distâncias curtas e acidentadas recomendam os híbridos, o que aliás se vê lá bastante, e veria muito mais se os combustíveis não tivessem lá uma bonificação fiscal que os torna muito mais baratos que no Continente e desincentiva a "eficiência energética"...

terça-feira, abril 26, 2011

O mix eléctrico europeu. II - Norte e Leste

Na parte I deste texto, percorri metade da União Europeia de 27 países em que estamos integrados, de Espanha à República Checa, caracterizando sumariamente o respectivo mix energético. Deixei de lado, por irrelevantes e por terem condições particulares que os tornam incaracterísticos, Chipre e Malta, e também deixarei o Luxemburgo, na viagem de regresso. Como se viu, dos países visitados apenas um não tem nem quer ter energia nuclear: a Áustria!

Viajando agora para norte da República Checa, chegamos à Alemanha, o coração da União, o seu motor económico e também o seu país mais populoso. Com 82 milhões de habitantes (7 dos quais estrangeiros), a Alemanha consome 13 vezes a nossa electricidade, o que significa ter 140% do nosso consumo per capita - uma excelente conservação energética, comparando com outros países vizinhos e tendo em conta o seu alto poder de compra!
Desde 1998, data em que o partido Verde chegou ao poder através de alianças com os partidos tradicionais, que a Alemanha proclamou uma voluntarista estratégia "green" visando ter 50% da sua electricidade de origem renovável. A Alemanha foi o primeiro país em que os "verdes", um movimento ideológico internacional de raízes germano-flamengas nascido na extrema-esquerda dos anos 60, e nos movimentos pacifistas (anti-americanos) e anti-nucleares dos anos 70 e 80, chegaram ao poder, apesar de terem menos de 11% do eleitorado.
Uma das primeiras conquistas dos "verdes" alemães foi o compromisso de abandono da energia nuclear na Alemanha em 2000, espírito que com toda a evidência passou também a dominar a política energética do Directório de Bruxelas. É entretanto de notar que, já quando da reunificação alemã em 1990, todos os 5 reactores nucleares da Alemanha de Leste foram encerrados por alegada falta de segurança, o que se inseriu num forte sentimento anti-nuclear que se estabeleceu após Chernobyl (a Alemanha também apostara no nuclear depois do choque petrolífero de 1973, como a França). No entanto, a ideologia dos "verdes" alemães deve ser confrontada com a realidade do seu país.
Ora, contrariamente à filosofia "green" a que a Alemanha tenta conduzir os seus parceiros europeus, a grande fonte da sua electricidade, 46% dela, é... o carvão! Na verdade, a Alemanha só é superada no uso de carvão para produção de electricidade pela China, pela Índia e pelos EUA!
Depois do carvão, a principal fonte da electricidade alemã é... o nuclear! Os seus 17 reactores nucleares geram agora apenas 19% da electricidade consumida, mas há 5 anos geravam 23% e há uma década geravam 27%! De facto, é o nuclear que tem sido o alvo principal dos "verdes", e não as emissões de CO2! E a pressão é de tal ordem que a Siemens, o principal suporte tecnológico e industrial da energia nuclear alemã, tem mesmo vindo a abandonar essa tecnologia, como o atesta a muito recente venda à AREVA francesa da sua parte na parceria que tinham!
Presentemente, dos 35% de electridade gerada sem origem no carvão e no nuclear, 18% são satisfeitos por gás natural importado da Rússia, tendo sido atingidos 17% de origem renovável, de que só 6.5% é eólica (com um péssimo factor de utilização médio de 18%), enquanto o resto se baseia em caríssimo solar, hídricas (3.5%) e, sobretudo, biomassa. Com isto, não admira que a Alemanha tenha a 2ª electricidade mais cara da Europa e que é ainda agravada com um pesado IVA de perto de 20%, redundando num preço ao consumidor que é 50% superior ao nosso!
No entanto, a Alemanha lidera a tecnologia destas fontes renováveis e 80% do mercado alemão de energia eólica é satisfeito por indústria alemã, particularmente pela ENERCON, que também domina o panorama português por decisão de Comissões nomeadas pelo nosso Governo. Como em tempos mostrei, os alemães consideram a subsidiação à energia eólica pelos outros países da União indispensável à prosperidade da sua evoluída indústria de aerogeradores.
Nos últimos anos, o Governo de Merckel tinha vindo a arrepiar caminho na desnuclearização da sua produção energética, dada a impossibilidade de cumprimento das reduções de emissão de CO2 sem o nuclear e com a importância que tem o carvão no país (47 mil empregos). Em 2009 a decisão de encerramento das centrais nucleares acordada com os "verdes" em 1998 foi cancelada, e em 2010 foi autorizada a extensão a 60 anos da licença de funcionamento das centrais perto de atingirem 40 de vida mas, no mês passado, depois de Fukushima e da derrota eleitoral do seu partido, Merckel recuou e fechou as nucleares mais antigas! Com isto e para já, não restará à Alemanha outra solução que o reforço da geração a carvão e das emissões de CO2...!
Esta política alemã pode ser classificada com uma expressão que traduz a defesa da ecologia para os outros mas colocando os seus interesses nacionais primeiro: "nacional-ecologismo"! Com efeito, esta política tem tanto de utopia irracional como de impositiva para os países vizinhos...

Outro dos países vizinhos com que, precisamente, a Alemanha tem tentado ser impositiva, é a Polónia. A Polónia, com uma população semelhante à de Espanha, tem um PIB per capita intermédio entre o da Eslováquia e o da República Checa e um consumo também per capita de cerca de 80% do nosso, apesar do clima frio e de preços da electricidade que são apenas 70% dos nossos antes de IVA.
A situação e a estratégia de futuro polacas têm semelhanças com as da República Checa: a percentagem de electricidade produzida a partir do carvão é ainda maior, 90% (!), com 5% para  gás natural e cerca de outro tanto para renováveis (predominantemente hídricas e biomassa)
Entalada entre as pressões para reduzir as emissões de CO2 e a dependência de fornecimento de gás natural da Rússia, a Polónia decidiu apostar na substituição do carvão pelo nuclear, complementando-o com renováveis sobretudo criadoras de emprego - biomassa e biogás, e um pouco de eólica também. A 4 de Junho passado, em entrevista à nossa Vida Económica, a Ministra da Energia da Polónia explicava a aposta do seu país para o cumprimento dos compromissos europeus no domínio da redução de emissões e de energias renováveis: a decisão de substituir o carvão pelo nuclear, e a aposta, além de na eólica, na biomassa e no biogás, que irão ter lá maior peso que cá. E a Ministra justificava: "... prevê-se a criação de cerca de 2 mil centrais a biogás na Polónia. São centrais relativamente pequenas a instalar em todo o país para complementar e criar uma nova fonte de rendimento para o sector agrícola".
O plano polaco, que vem germinando há já alguns anos (de facto desde os anos 90), inclui a devida preparação de recursos humanos e aponta para uma primeira central de 3000 MW, de localização a comprometer em 2013 e construção a iniciar em 2016, para estar pronta em 2020. Nem mesmo os recentes acontecimentos de Fukushima tornaram o apoio popular a esta estratégia inferior a 50%.
Quem já manifestou o seu desagrado com a opção polaca foi a Alemanha. O Presidente do Estado alemão de Bradenburgo pediu à Polónia para desistir do seu projecto (já aprovado pelo Parlamento), ao que o Primeiro-Ministro polaco respondeu: "Calls from a friendly political leader from the other side of the border, Mr. Platzeck, for Poland to stop the project appeared somewhat inappropriate to me. A country that has about 16 nuclear power plants shouldn’t be too concerned with our plans to build the most modern plants available on the market". E o Primeiro-Ministro polaco acrescentou: "We can’t succumb to hysteria about it [Fukushima Daiichi],” ... “The reason for radiological risks in Japan isn’t an accident at the nuclear plant, but an earthquake and tsunami"!...

Da Polónia passamos aos pequenos e pobres estados bálticos.
A Letónia tem 2,2 milhões de habitantes, mas é um país pobre, com metade do consumo energético europeu per capita, apesar do seu preço da electricidade ser dos mais baixos da União (2/3 do nosso). 65% da sua geração eléctrica é hídrica, complementada principalmente com gás natural importado, o que lhe dá o estatuto de país(ito) da União com maior percentagem de energia renovável.

Por outro lado a Lituânia tem 1/3 da população portuguesa (3,37 milhões de habitantes) e caracteriza-se também por uma pobreza considerável, tendo a sua electricidade um dos preços mais baixos da União (65% do nosso) mas mesmo assim um consumo per capita pouco superior ao nosso, apesar do clima gélido. 78% da sua electricidade era de origem nuclear própria, mas o seu mix também inclui 15% de renováveis, essencialmente biomassa. O resto é gerado principalmente a partir de petróleo. Porém, em 2009, a Lituânia foi compelida pela União Europeia a encerrar os seus reactores russos, ficando desde então na penúria energética e quase completamente dependente da Rússia para o fornecimento de electricidade.
Em 2007, entretanto, os três estados bálticos e a Polónia acordaram na construção em parceria de uma central nuclear de 3200 MW (2 reactores modernos) na cidade de Visaginas, perto da fronteira russa. Nos finais de 2010 um concurso internacional para o fornecimento de reactores foi anulado, tendo-se decidido avançar para negociações directas, após reafirmação do apoio ao projecto pelos governos dos 4 países parceiros. Uma potente linha de 400 kV será construída em 2015 entre a Polónia e a Lituânia, e a central espera-se que entre em funcionamento em 2020.

Finalmente a Estónia tem apenas 1,3 milhões de habitantes, e por isso apenas noto que é razoavelmente desenvolvida (o "tigre báltico") e que gera 90% da sua electricidade a partir de um espesso óleo xistoso nacional. O preço da sua electricidade é o mais baixo da União depois do da Bulgária, e a Estónia tem projectado o seu crescimento energético co-participando na central nuclear de Visaginas na Lituânia, embora a Rússia também a pretenda envolver num projecto alternativo de uma nuclear sua em Kalinegrado.

Dos pequenos estados bálticos passamos à Escandinávia, chegando à Finlândia. Com pouco mais de metade da população portugesa, o seu consumo per capita é no entanto 3,4 vezes o nosso (!), de facto o maior da União, com um preço que é, antes de IVA, 70% do de cá.
A base da geração de electricidade finlandesa é a energia nuclear com 4 reactores (30%) e o carvão (30%), mas a Finlândia sofre de um défice energético crónico e importa 13% da sua electricidade. A biomassa e a queima dos lixos geram 16% da restante electricidade, as hídricas 14%, e as eólicas quase nada (0.5%), mas a produção termoeléctrica é também usada para gerar calor para aquecimento urbano.
A Finlândia prevê colmatar o seu défice energético e fazer face ao futuro reforçando a aposta na energia nuclear, relativamente à qual desenvolveu uma exemplarmente apurada tecnologia de exploração. Com um moderno reactor de III geração actualmente em construção pela AREVA, tem ainda projectados mais 2, após aprovação parlamentar com apoio de 60% dos eleitores; os 4 existentes são metade de origem russa, e metade de origem sueca (ABB). O que está em construção deverá entrar em operação em 2013 e,  no conjunto, quando todas prontas, as centrais nucleares finlandesas deverão cobrir 60% do consumo nacional.

Da Finlândia passamos à Suécia, que tem um consumo per capita pouco menor que o finlandês (3,1 vezes o nosso) e uma população pouco inferior à nossa (9,35 milhões). Auto-suficiente energeticamente, 45% da sua electricidade é de origem hídrica (barragens situadas no norte do país), mas 40% é nuclear. O resto é essencialmente biomassa, e um pouco de todas as outras, incluindo 1.6% eólica. O preço da electricidade sueca é praticamente igual ao nosso sem IVA, mas o seu IVA é de cerca de 20%, enquanto o nosso é de 6%; ou seja, o Estado lá financia-se na energia!...
Relativamente ao futuro, a Suécia tinha decidido em 1980, após o acidente de Three Miles Island,  não renovar os seus 10 reactores nucleares de fabrico nacional quando atingissem o seu fim de vida, mas essa decisão, nunca posta de facto em prática, foi revogada em 2010. No entanto, a energia nuclear é ali penalizada com um imposto especial de 0,67ç/kWh, mais reforçando o financiamento do Estado com a energia. Quanto ao futuro, a Suécia sofre de uma ambiguidade persistente: uma maioria da população diz-se anti-nuclear, mas quando sondada sobre a forma de energia preferida para a substituição do nuclear de que dispõe e colocada perante as alternativas, a resposta maioritária é... energia nuclear!

O último estado escandinavo da União é a Dinamarca, o país com a electricidade mais cara do Mundo: 140% do preço da nossa sem IVA e ainda penalizada por um IVA de 20%!Apesar disso, os 5,5 milhões de habitantes da Dinamarca consomem per capita o mesmo que os alemães (140% do que nós consumimos), e a Dinamarca passa por ser a campeã das energias renováveis, dado ser assumidamente anti-nuclearista (desde 1985) e ter o maior e mais antigo fabricante e exportador de aerogeradores do Mundo: a VESTAS. No entanto, também aqui a realidade deve ser comparada com os princípios anunciados.
Praticamente metade da electricidade dinamarquesa é produzida a partir de... carvão (49%)! Depois, e em pé de igualdade com a energia eólica (19%), o gás natural,  e os 13% restantes são divididos pela biomassa (6%), queima de lixos e petróleo. Como se vê, a Dinamarca está longe de dar o exemplo na "luta contra o aquecimento global" que promove internacionalmente e que interessa à exportação dos seus aerogeradores!

Passando à vizinha Holanda, um país com metade da área de Portugal mas 16,7 milhões de habitantes, um preço da electricidade sem IVA ligeiramente inferior ao nosso mas penalizado com 20% de IVA. A Holanda tem um consumo per capita de 155% o nosso, e importa 13% da electricidade que consome. Da que produz, a principal parcela é gerada por gás natural (59%), mais de metade da qual em cogeração. O resto é gerado por carvão (25%), biomassa e lixos (6%), eólicas (4%) e um pequeno reactor nuclear (4%).
Recentemente a Holanda estudou a melhor estratégia a adoptar para a descarbonização da sua produção energética com vista à redução das emissões de CO2 definida pela União para 2020, concluindo que, para além de um substancial incremento de energia eólica (que não deverá ultrapassar 14%, de modo a evitar os custos adicionais de armazenagem e reserva a gás), o grosso deverá assentar na energia nuclear. Uma 1ª grande central nuclear de 2500 MW deverá começar a ser construída em 2015, para operação em 2019, de fabrico americano-japonês (AP1000), e há outro consórcio já a preparar uma segunda central nuclear.

Descendo à Bélgica, um país tradicionalmente conservador, verifica-se uma curiosa contradição: politicamente, tanto o Governo como boa parte da população é anti-nuclearista, mas na prática o que se verifica é o seguinte mix de geração eléctrica: 53% da electricidade é de origem nuclear (7 reactores), 37% de origem em carvão e gás natural, e o resto divide-se em partes iguais entre eólicas e biomassa!
Quanto ao futuro, a Bélgica propõe-se duplicar a parcela de fontes renováveis de electricidade (mantendo a paridade entre eólicas e biomassa), para 20%, em 2020 - o que lhe poderá substituir metade da geração a combustíveis fósseis, mas não mais que isso...! A Bélgica tem praticamente a nossa população embora vivendo num terço do nosso território, mas consome quase o dobro (186%) da nossa electricidade, com um preço da mesma de 113% o nosso antes de IVA, mas com o habitual IVA de 20%.

Para terminar o tour, as ilhas grandes: Irlanda e Reino Unido. A Irlanda tem uma produção de electricidade que é praticamente metade da nossa e, sendo uma ilha eléctrica, teria muito dificuldade em gerir uma grande central termoeléctrica. Por isso não admira que 50% da sua geração seja a gás natural, 30% a carvão, 12% a gasóleo, e 5.5% de renováveis. Com bom vento na sua orla costeira, é daqueles países onde faz sentido económico maximizar a componente eólica, e com efeito a Irlanda tem uma excelente regulamentação técnica na matéria. O seu consumo per capita é praticamente igual à média europeia (120% do nosso) e o preço da electricidade também 120% do nosso, devido também a um IVA duplo do nosso...

Finalmente, o Reino Unido (UK). A produção de electricidade deste país é 7,6 vezes a nossa, com um consumo per capita de 125% o nosso (o UK tem 62 milhões de habitantes). O preço da electricidade é ali 12% inferior ao nosso, sendo o único país da União onde o IVA é também ligeiramente inferior ao nosso, 5% - mas só para as famílias; para as empresas o IVA é perto do usual, 17.5%.
As fontes de geração eléctrica no UK são, por ordem decrescente de importância: gás natural (44%), carvão (28%), nuclear (18%) e renováveis (7%) - biomassa (3%), eólica (2.5%) e hídrica (1.5%).
Nos finais dos anos 90 a energia nuclear detinha uma quota de produção de 25%, gerada em 19 reactores de concepção e fabrico ingleses, e o carvão também muito mais que actualmente (35%), mas o encerramento gradual das velhas centrais nucleares à medida que atingem o fim de vida, e a necessidade de reduzir as emissões de CO2 do carvão, têm levado a uma quota crescente de gás natural. Este tem já por origem a importação em 50%, e tê-la-á em 75% em 2015 à medida que as reservas geológicas nacionais de gás se esgotarem, o que coloca o UK numa indesejada situação de dependência energética.
Por esta razão, e também pelo compromisso do UK em reduzir as emissões de CO2, a enunciada estratégia britânica para o futuro baseia-se em dois eixos: o reforço das renováveis, e a substituição das velhas centrais nucleares por novas.
Existem planos dos ecotópicos e do lobby eólico para levar a energia eólica até 20%, valor praticamente impossível de gerir dada a intermitência do vento, mas que deve ter em conta que a costa do UK tem das melhores condições da Europa (factor de capacidade médio do vento de 30%). Porém, mesmo com tal percentagem ainda haverá mais de 70% de electricidade gerada por meios térmicos, e por isso o Governo do UK alterou em 2006 a política desfavorável ao nuclear que tinha tido até aí, nos últimos anos.
Em resultado desta alteração constituiram-se dois consórcios para a construção de novas centrais nucleares no UK: a Horizon Nuclear Power e a NuGeneration. Esta última projecta iniciar a construção de uma central de 3200 MW em 2015 (AREVA), e a primeira planeia ter 6000 MW, com reactores AP1000 (Toshiba-Westinghouse) - todos de III geração.

Como se vê, a cortina de silêncio, que os nossos ecotópicos e os interesses económicos com eles aliados alimentam, esconde uma realidade muito diferente da propagada!

sábado, abril 23, 2011

O mix eléctrico europeu: I - Sul e Centro

Muita gente em Portugal, despertada para a questão pelo acidente de Fukushima-Daiichi, ficou surpreendida ao descobrir a importância da componente nuclear na produção de energia "lá fora". De facto, a avaliar pelo silêncio sobre energia nuclear em Portugal dos media, políticos e académicos, esta seria uma curiosidade histórica, quiçá uma extravagância científica de alguns Físicos do Instituto Superior Técnico...
Esta ignorância é o fruto do tabu que o Governo, o lobby eólico e a esquerda "radical" ecotópica (ecologista utópica) criaram, assente na ignorância científica e na tradicional aversão à tecnologia industrial de um povo saído quase directamente do mundo rural para o deslumbramento dos centros comerciais...
Lembrei-me, por isso, de fazer um pequeno tour por esta Europa a que nos oferecemos no rescaldo do abandono das seculares posições ultramarinas, de modo a mostrar a realidade do que respeita às políticas energéticas dos nossos vizinhos e parceiros.

No conjunto, a Europa dos 27 produz 28% da sua electricidade a partir de centrais nucleares, 27% a partir do carvão, 23% a partir de gás natural, e 3% a partir de petróleo. A energia renovável divide-se em 10.5% de hídricas, 4% de eólicas e 3.5% de biomassa. Sim, por mais que isso espante, o nuclear é a principal origem da electricidade da União Europeia e é também a sua principal fonte não emissora de CO2...!

A Espanha, cujo consumo anual per capita é de 5,67 Mwh e que no total consome 6 vezes o que nós consumimos, tem 8 reactores nucleares, com apenas 7.5% da potência total instalada mas que geram 20% da sua electricidade. Foram construídos entre 1964 e 1986, mas depois de Chernobyl (1986) a Espanha desistiu de outras três centrais que estavam planeadas, embora tenha vindo a aumentar a capacidade das existentes.
A restante termo-electricidade é produzida a partir de carvão (10%, parte dele espanhol) e gás natural (30%, importado da Argélia). As renováveis hidroeléctricas e eólicas geram respectivamente 15% e 17%, e há ainda uma produção exorbitantemente cara de 3% de energia solar, com 1.6% de toda a intermitente electricidade eólica e solar perdida em dispendiosa bodmbagem. O resto vem de biomassa, lixos, etc. Os preços da electricidade espanhola são pouco superiores aos nossos (e é no IVA que o são) e têm ajudado a desenvolver uma indústria de aerogeradores de tecnologia genuinamente espanhola que exporta bem (GAMESA), mas o défice tarifário de nuestros hermanos vai em 16,5 biliões (milhares de milhões) de €...

Continuando o tour, a França, cujo consumo per capita é de 6,8 Mwh, é o grande produtor de electricidade da Europa: exporta quase 1/4 da sua produção, de que 75% é de origem nuclear (incluindo indirectamente para Portugal, que importa de Espanha praticamente a mesma quantidade que esta importa de França). Tem 58 reactores de concepção e fabrico nacionais, sendo aliás o único país europeu com uma sólida indústria fabricante de reactores, na AREVA. Esta aposta na energia nuclear seguiu-se ao choque petrolífero de 1973 e consolidou-se nas décadas de 80 e 90, mas a França também gera electricidade a partir do carvão e gás natural (9% destas fontes), hídricas (12.5%) e de eólicas, biogás e biomassa (2.7%). A electricidade em França é cerca de 40% mais barata que por cá e a EDF acaba de pôr no mercado livre boa parte dela a partir de Julho, a 4,0 ç/kwh...

A seguir neste tour temos a Itália, que também consome 10% da sua electricidade de origem nuclear, mas... francesa! Presentemente, com um consumo anual per capita de 5,5 Mwh, a Itália importa 1/7 da electricidade que consome, de França e da Suíça, e daí a componente nuclear no seu consumo (metade da electricidade importada vem da Suíça, mas esta por sua vez importa-a de França e da Alemanha). Da que produz, 54% é gerada a gás natural, 15% a partir do carvão, 9% de petróleo, 14% de hídricas e 3% de eólicas. O preço da electricidade em Itália é praticamente o dobro do francês, e isto resulta essencialmente do seu mix, muito dependente do gás e do petróleo e de importações (e altamente poluidor). E porque é isto assim em Itália?
Porque um referendo em 1987 decidiu, no rescaldo de Chernobyl (1986), encerrar as 4 centrais nucleares de que a Itália dispunha! E, no entanto, a Itália tinha sido pioneira no uso da energia nuclear, tendo a sua primeira central (de concepção inglesa) a funcionar no início dos anos 60 e tido sempre uma activa participação na I&D internacional na matéria!...
Com tanto consumo de gás natural, totalmente importado de países de estabilidade duvidosa (especialmente Argélia e Rússia), em 2009 a Itália decidiu regressar ao nuclear, planeando vir a ter 25% da sua produção energética a partir dessa fonte até 2030, com 4 centrais já previstas a serem construídas com a colaboração da EDF. Porém, os opositores políticos do actual Governo, que incluem os herdeiros de uma extrema-esquerda radical, conseguiram que a questão vá de novo a referendo, o que estava previsto para Junho mas, com os acontecimentos de Fukushima e uma sondagem a indicar 70% de oposição à energia nuclear, o Governo decidiu adiar qualquer nova decisão na matéria...

Prosseguindo a viagem, a Áustria, com uma população um pouco menor que a nossa (8,3 milhões), uma área semelhante e um consumo per capita de 160% o nosso, produz a grande maioria da sua electricidade a partir de hídricas alpinas (mais de 50%), mas também da biomassa, queima de lixo e eólicas, totalizando a produção renovável 65% do seu mix. A produção hidroeléctrica austríaca é ímpar na Europa, tendo sempre aquele país explorado muito bem as excelentes condições naturais dos Alpes para isso! No entanto, os preços da electricidade na Áustria são superiores à média europeia...

A Hungria, antiga parceira da Áustria no Império dos Habsburgos e com a mesma população que nós, não tem Alpes, e por isso a sua produção de electricidade é quase toda de origem térmica: 37% nuclear38% a gás natural, 17% a carvão, e o resto essencialmente biomassa (4.5%). A parcela nuclear é produzida por 4 reactores pequenos (470 MW cada), de origem russa (anos 80). A Hungria que, juntamente com os seus vizinhos, tem uma dependência do gás natural russo de que não gosta, tem porém uma electricidade muito barata, mesmo ligeiramente mais que a francesa, mas ainda assim o seu consumo per capita é apenas 80% do nosso (e metade do do seu vizinho austríaco) e tem que importar 10% da electricidade que consome da vizinha Eslováquia. Em 2009 o Parlamento húngaro aprovou (por uma maioria de 95%) um ambicioso programa para resolver esta dependência equipando-se até 2030 de 6000 MW de centrais... nucleares. Mas agora das grandes e modernas!...
Vale a pena notar que o poder político magiar tem um forte pendor nacionalista, o que talvez explique a falta de coragem de Bruxelas para contrariar esta decisão húngara... 

Da Hungria descemos à Eslovénia, um paísito com 2 milhões de habitantes mas com um consumo per capita de 6,0 MWh, bem superior ao nosso. 40% da electricidade que consome é nuclear, de um único reactor de concepção americana partilhado a meias com a vizinha Croácia. O resto da electricidade é gerada sobretudo a partir do carvão e gás natural (30%), hídricas e geotermia (24%), mas a "EDP eslovena" propôs ao Governo a construção de um 2º reactor nuclear, desta vez sem partilha com a Croácia, e que aguarda decisão do Parlamento. Esta decisão, inicialmente apontada para o corrente ano de 2011, foi agora adiada, com Fukushima e um manifesto desagrado de Bruxelas por esta opção eslovena. A alternativa mais encarada para as necessidades de curto prazo é um reforço da queima de carvão, o que leva a questionar se com isso o país cumprirá a meta de redução das emissões de CO2 em 20% para 2020. Mas, quanto a isso, o Governo esloveno assobia para o ar, pois é evidente que a sua prioridade é manter os preços da electricidade entre os mais baixos da Europa, apenas ligeiramente superiores aos franceses, e para isso não tem saída para o dilema entre o carvão e o nuclear.

A sul temos depois a Grécia, o nosso companheiro de ranking habitual desde há 40 anos e com um consumo per capita 13% superior ao nosso e 11 milhões de habitantes. Porém, ao contrário de nós mas em harmonia com os seus vizinhos, a Grécia mantém os preços da sua electricidade entre os mais baixos da Europa (apenas 60% da média europeia), graças sobretudo a ter 60% da sua geração assente em carvão nacional. Tem também, no entanto, uns 8% de produção a petróleo, mas por causa das suas muitas ilhas (as ilhas baseiam sempre a sua geração eléctrica em Grupos Diesel, na Grécia como em Portugal). No continente, ao carvão a Grécia adiciona uns 20% de gás natural, percentagem em crescimento, e também já uma percentagem significativa de renováveis, hídricas (4%) e eólicas (5%).

A Grécia vê-se em apuros para manter o poluente carvão como base da sua produção energética, considerando a "multa" de cerca de 20€/tonelada de CO2 que tem de pagar por causa dele e as exigências de Bruxelas para que reduza essas emissões mas, por outro lado, e dado que as reservas de linhito que tem dão para mais 30 anos e que a sua extracção é um forte criador de emprego, a Grécia não tem manifestado pressa em mandar para o desemprego os seus mineiros para em troca passar a importar areogeradores estrangeiros.
Em 2008 o Governo da altura mencionou publicamente a energia nuclear como solução para o dilema economia vs. ambiente, notando que a energia nuclear era "verde", mas o comissário europeu do Ambiente repreendeu-o de imediato contrariando que "a energia nuclear não pertence ao grupo das energias renováveis", logo secundado por um coro de protestos anti-nuclearistas dos partidos da oposição gregos e pelo Greenpeace.
Apesar da Grécia se ter calado desde então e tentado ser uma "boa aluna" desta ideologia que governa Bruxelas, e dos seus papagaios gregos terem entretanto ascendido à governação no país, a Grécia não parece ter ganho com isso qualquer condescendência europeia quando a bancarrota lhe bateu à porta, como sabemos. Vai até ter que "reestruturar a dívida" (ou seja, declarar falência), parece...

Da Grécia passamos à Bulgária, que tem um consumo per capita muito semelhante ao nosso e 7,5 milhões de habitantes, mas que até 2006 exportava 1/6 da electricidade que produzia para os seus vizinhos, incluindo a Grécia, porque a tinha barata e de sobra, graças... a 6 reactores nucleares de fabrico russo que garantiam 42% da sua produção. O resto era gerado a partir do carvão (41%), hídricas (10%) e gás natural. A Bulgária ainda tem a electricidade mais barata da Europa, a cerca de 40% do preço da nossa.
Quando iniciou as negociações para a adesão à União Europeia, Bruxelas questionou a segurança das centrais nucleares búlgaras, de concepção similar à de Chernobyl, e apesar dos esforços e investimentos feitos para melhorar essa segurança, dos inspectores da Agência Internacional de Energia Atómica e da própria União Europeia terem considerado que com isso 4 dos 6 reactores tinham agora a segurança requerida, apesar das sondagens mostrarem um apoio de 75% da população à continuação dos reactores, a União Europeia exigiu o fecho de 4 deles como condição de ingresso da Bulgária na União. E, assim, a Bulgária encerrou 4 dos seus 6 reactores nucleares em Dexembro de 2006 para ingressar na União Europeia a 1 de Janeiro de 2007. Mesmo assim, os 2 reactores nucleares sobreviventes ainda geram 35% da electricidade búlgara...
Entretanto, e logo que fechou os seus velhos reactores, a Bulgária começou a projectar a construção de 2 novos (de 1000 MW cada), vindo a criar-se uma parceria entre russos, a AREVA francesa e empresas búlgaras, e que obteve a aprovação técnica da União Europeia. A preparação da construção iniciou-se em 2008 mas, em Fevereiro passado (antes de Fukushima), a empresa russa ROSATOM abandonou o projecto: havia muita coisa obscura nos termos do contrato, desde um preço de construção prometido irrealistamente baixo até à inexistência de um compromisso dos russos sobre qual viria a ser de facto o preço final, e o Governo búlgaro começou a hesitar, algo a que se sujeita um país sem instituições reguladoras nem técnicas apropriadas como a Bulgária, que no passado cedera a sua soberania nestes aspectos à URSS. A Finlândia ofereceu-se para dar a devida assessoria técnica, em troca de 1% do valor do projecto, mas a Bulgária não consegue financiamento para o mesmo.
Penso termos aqui um exemplo do que se passaria por cá se avançássemos para a compra de uma nuclear sem estruturas nenhumas preparadas para isso, como tenho vindo a reclamar...

Passando à Roménia, cujos preços da electricidade são cerca de 55% dos nossos e que tem um consumo nacional quase igual ao nosso mas 21 milhões de habitantes, a base da sua geração é também o poluente carvão (40%), a que junta o gás natural (19%), mas que tem também 29% de produção hidroeléctrica e, desde 1996... nuclear. Com um primeiro reactor entrado em funcionamento em 1996 e um segundo recentemente (2007), a Roménia produz já 15% da sua electricidade a partir desta origem, e tornou-se exportadora. Além disso, o projecto de novos reactores prossegue e, depois de ter resolvido sérias dificuldades de financiamento com uma parceria multi-nacional, o 3º reactor deverá entrar em funcionamento em 2016 e um 4º por volta de 2020. Os reactores são também usados para aquecimento distrital e a energia nuclear é a aposta da Roménia para o seu abandono a prazo do carvão e a descarbonização.
É de notar que a opção nuclear romena se iniciou ainda no tempo de Ceausescu e não foi alterada pelo regime democrático entretanto instaurado. No entanto, e não sendo a Roménia um alinhado incondicional da URSS, a opção tecnológica acabou por ser feita, ainda no regime comunista, por reactores pouco usuais: canadianos, de água pesada (CANDU), que não precisam de urânio enriquecido (usam urânio natural).

Prosseguindo para norte chegamos à Eslováquia, que tem 55% do nosso tamanho e população e aproximadamente o mesmo consumo per capita de energia que nós. No domínio do seu abastecimento energético, porém, a História eslovaca é semelhante à búlgara. Não tendo presentemente dos preços mais baixos da Europa (mas ainda apenas 5/6 dos nossos), a Eslováquia tinha em 2006 55% da sua electricidade de origem nuclear, mas a União Europeia exigiu-lhe, como condição de ingresso, o encerramento de 2 dos seus 4 reactores, o que se verificou em 2006 e 2008 apesar dos enormes investimentos feitos para a sua modernização e da sua ratificação tanto pela IAEA como pelos próprios técnicos europeus (a UE tinha exigido esse encerramento para 2000 mas a Eslováquia conseguiu adiar isso até às datas mencionadas).
Os outros 2 reactores foram também melhorados em aspectos críticos de segurança e foram aceites: resistência sísmica, sistema de arrefecimento de emergência e sistema de controlo, mas a percentagem de energia de origem nuclear, que era a base da produção eslovaca, desceu para 30%, e a Eslováquia tornou-se importadora de electricidade, passando por uma grande penúria energética. Presentemente o país tem em construção dois novos reactores, que deverão entrar em funcionamento em 2012 e 2013. Grande parte da tecnologia é da SKODA, que tem uma longa tradição de participação na indústria nuclear do país e da vizinha República checa.
As outras fontes de produção de electricidade são o carvão, o gás natural, e a hidroelectricidade.

Finalmente, terminando esta 1ª parte do nosso tour europeu, chegamos à República Checa, cujo preço da electricidade é de cerca de 80% do nosso, tem a mesma população que nós mas consome per capita 130% do que nós consumimos e exporta 18% da sua produção (nomeadamente para a Eslováquia). Grande produtor de carvão, 62% da electricidade checa é produzida a partir desse poluente combustível, 30% é de origem nuclear, e o resto a partir de gás russo e alguma hidroelectricidade.
Tal como os seus parceiros regionais, os checos sofrem uma grande pressão para reduzirem o uso do carvão por parte dos ambientalistas europeus. E, tal como os seus vizinhos, preocupados em manter os baixos preços da energia a que estão habituados, a sua estratégia para isso é o reforço do nuclear: dois grandes e modernos reactores de 1200 MW estão de construção prevista para ser iniciada em 2013 e entrada em serviço em 2020. Esta estratégia foi ratificada por uma sondagem oficial que mostrou ter o apoio de 77% dos checos, incluindo 56% dos eleitores que votam no partido verde.

sexta-feira, abril 22, 2011

Energia, essa desconhecida

Publicado no "Expresso" de 16-04-2011:

O Expresso de 26/Fevereiro/2011 publicou dois artigos de opinião fazendo o panegírico da política energética do actual governo: “O Mundo da energia tem os olhos postos em nós” do Director Geral da ADENE e “Energia, sustentabilidade e populismo”, do Presidente Execu­tivo da ENEOP. Pode-se entender a propaganda, mas convenhamos que qual­quer pessoa que tenha lido nos últimos meses a imprensa estrangeira sabe que infe­lizmente se “o Mundo tem os olhos postos em nós“ é por causa dos graves problemas de endividamento que nos afec­tam…
Os signatários pretendem assim contribuir para o esclarecimento da opinião pública sobre a situação energética portuguesa. A Energia terá de ser uma ferramenta ao serviço da compe­ti­tividade da Economia de Portu­gal, mas é exactamente o inverso que tem acontecido nos últi­mos 15 anos.
Desde logo, para as empresas os preços de electricidade sem IVA, que é o que conta para a sua competitividade económica, são cerca de 15% superiores aos da média europeia e 40% superiores aos franceses. Para as famílias também são superiores à média europeia e 40% superiores aos franceses se se descontar a subsidiação relativa de um IVA muito inferior ao cobrado em média na Europa. E isto sem contar com o “défice tarifá­rio” que pesa sobre os consumidores portugue­ses!
Depois, o valor médio da energia eólica que consta do documento ofi­cial da ERSE para 2011 é de 90,54 €/MWh, muito acima do valor de referência do mer­cado que é de 52 €/MWh. E isto para não falar nos Decretos Leis que garantem valores de cerca de 350 €/MWh à electri­cidade fotovoltaica, e de 587 €/MWh à de microgeração.
Mas, mais grave, é o facto destas formas de energia serem intermitentes e incontrolá­veis, o que acresce um pesado sobre­custo sistémico a estas tarifas e que a “previsão e a gestão” não resolvem.
A intermitência significa que a produção dos aerogeradores varia drasticamente quando o vento muda ligeiramente, e a dos painéis fotovoltaicos quando o sol se põe ou, até, alguma nuvem o encobre ligeiramente!
Ora quando se promoveu a construção dum parque eólico que atinge hoje uma potência ins­talada de 4000 MW mas apenas 1000 MW em produção média, o governo teve que garantir por Decreto Lei que toda a energia eólica produzida tem de ser paga aos seus produto­res, seja ou não consumida.
Porém, devido à referida intermitência, esta garantia exige que relati­vamente a toda a potência instalada haja investi­mentos adicio­nais vultuosos:
- por um lado é necessária uma “potência de substitui­ção” em cen­trais térmicas porque, não sendo possível saber se na ponta de consumo anual vai, ou não, haver vento e água nas barra­gens que cheguem, o sistema electroprodutor tem que ser dotado com reservas;
- por outro lado é preciso aproveitar a electricidade eólica produzida nas horas de vazio em que não há consumo que a “encaixe”, fazendo bombagem para centrais hidroeléc­tricas de albufeira, processo em que ¼ da energia é dissipada em per­das e que nem sequer sempre fun­ciona, pois quando a chuva compete com o vento pela capa­cidade das albufeiras estas têm que simplesmente abrir as comportas, ou a electricidade ser exportada a preço zero.
Ora estes sobrecustos acrescem às tarifas pagas aos produtores de energia eólica, e são incluí­dos nos CIEG (Custos de Interesse Económico Geral). E é o conjunto destes sobre­custos que não para de subir, como assinalou o Conselho Tarifário da ERSE no seu último documento oficial.
Por outro lado, os números apregoados relativos a novos empregos são completamente fan­ta­siosos. Em toda a Europa, e segundo a própria associação europeia de energia eólica, terão sido criados 10,5 mil empregos anuais, mas 75% deles só nos 3 países que cria­ram e desen­volvem as respectivas turbinas, o que não inclui Portugal. Quanto à redução de importa­ções de combustíveis fósseis em 2010, devida essencialmente a um ano chuvoso de que as nossas hidroeléctricas muito beneficiaram, terá sido de 174 milhões de euros mas em carvão e gás natural, sem que um barril de petróleo tenha sido poupado com isso!
A aposta da política económica portuguesa em bens transaccionáveis não é compatível com esta politica irrealista de fomento de sobrecustos da respectiva base energé­tica.
E é isso que tem que ser corrigido, começando por uma análise global e fundamentada de todos os cenários tecnológicos possíveis de utilização de todas as fontes de energia primá­rias disponíveis.

 José Luís Pinto de Sá e Clemente Pedro Nunes, Professores do Instituto Superior Técnico