Faz hoje exactamente 2 anos que pela primeira vez escrevi aqui que os extraordinários investimentos em hidroelectricidade anunciados pelo Governo de então não iam gerar energia praticamente nenhuma - iam, sim, servir de estabilizador das energias eólica e solar que então se projectavam a uma escala gigantesca! Chegara a esta conclusão depois de consultar a informação publicamente disponível na net, estimulado pelos extraordinários números que eram avançados, e apesar de uma imensa propaganda que mistificava deliberadamente o assunto. No caminho, deparei com alguém que já fizera reflexão semelhante, o economista Eugénio Rosa, mas que, talvez por falta de conhecimentos técnicos, tinha erradamente chegado à conclusão que o objectivo era dar consumo à electricidade espanhola nuclear, a qual porém nunca precisou de tal recurso nem irá precisar. Eugénio Rosa tinha errado no alvo, mas não tinha errado no facto de ser a bombagem a grande motivação de todo o investimento anunciado *! Depois desse post de há 2 anos escrevi outros (podem ser rapidamente encontrados na rúbrica "hídrica" à direita), e todo o assunto das renováveis intermitentes e do seu sobrecusto sistémico ganhou grande projecção, mas há um aspecto que ainda não analisei devidamente: o dos mecanismos de recuperação dos investimentos anunciados.
Para discutir esta questão, começo por recapitular, corrigindo alguns erros de pormenor de posts passados, a potência média (em MW) de origem hídrica prevista para cada empreendimento, a qual se obtém dividindo os GWh/ano estimados nas memórias técnicas dos empreendimentos por 8,766, o número médio de milhares de horas de um ano. As referidas memórias técnicas estão todas aqui.
Total do PNBEPH: 150.23 MW de potência média, correspondentes a 1317 GWh de energia anual e a 2.5% do consumo nacional. Potência instalada (que não tem nada a ver com a energia oriunda do rio): 2200 MW (inicialmente haviam sido previstos apenas 941 MW ao todo).
Investimentos, retirados do site da EDP e de notícias da Imprensa: 3,16 Biliões € (2,06 espanhóis, 1,1 da EDP). Vale a pena notar que, com 35% do investimento total anunciado, a EDP obteve 53% da energia hídrica (80 MW médios), o que não foi mau negócio nacional.
Porém, além destes 8 aproveitamentos, estavam também já em construção mais dois, pela EDP:
Os investimentos realizados nestas duas barragens, actualizando os preços para o presente, terão sido, segundo a EDP, de 0,67 biliões €. Com estas duas, a potência média gerada total das 10 barragens será de 192.9 MW (1691 GWh/ano), dos quais 121.4 da EDP que, nisto tudo, terá investido 1,77 biliões de €. Assim e aparentemente, quem fez um investimento a pensar sobretudo na bombagem terão sido a Iberdrola e a Endesa, que apenas obtiveram 70.33 MW médios por uns alegados 2,06 biliões de €. Porém, como já tinha notado há 2 anos, é preciso considerar também os investimentos em "reforços de potência" feitos pela EDP e que o foram sobretudo em instalação de bombagem, cobrindo as barragens de Picote II, Bemposta II, Alqueva II, Venda Nova III, Salamonde I e Paradela II, e que acrescentaram produções de energia insignificantes: 3.45 MW médios no Alqueva, 2 MW na Bemposta e, no total e já considerando o 1.45 MW médio que o Baixo Sabor permitiu aproveitar de outros empreendimentos, pela gestão melhorada da bacia hidrográfica, estes outros empreendimentos gerarão apenas 14.5 MW médios anuais, mas terão custado à EDP 1,25 biliões de €.O que crescentaram foi capacidade de bombagem e mais potência de ponta! Como se vê, afinal houve grande convergência e partilha entre Espanha e Portugal!...
A energia total de origem hidroeléctrica que estes 5,08 biliões de € vão gerar é assim, e feita a soma, de 207 MW em média (1,815 TWh/ano), 3,5% do consumo nacional, e apenas acresce em 15,8% a produção hidroeléctrica que já havia no país (excluindo mini-hídricas). Porém, para avaliar custos há ainda que contabilizar os investimentos da REN em rede de Muito Alta Tensão para transitar as enormes, ainda que ocasionais, potências geradas e consumidas por estas hidroeléctricas. Ora já este ano a REN anunciou que dos investimentos na rede previstos para os próximos anos 2012-2016, concomitantes com a construção das novas barragens (e parques eólicos que delas precisam), 0,45 biliões de € se destinam a "apoiar as novas renováveis", o que constituirá 1/4 da totalidade dos investimentos da empresa. No entanto, a REN já há anos que vem a reforçar a rede, a uma média de 200-250 milhões de €/ano, pelo que admitindo a mesma proporcionalidade se poderá estimar que já terão sido investidos outros 0,45 biliões de € para dar vazão às (raras) pontas de produção eólica. De qualquer modo, destes valores nem tudo será para ligar os parques eólicos às estações de bombagem da EDP e, embora o grosso do trânsito de energia vá ser entre o Minho, onde estão a maioria dos parques eólicos, e o Alqueva (o maior "depósito" de água bombábel), no outro extremo do país, poderemos admitir que por causa das barragens a REN investirá pelo menos 0,6 biliões de €, o que totaliza, somando ao investimento nas próprias barragens, 5,7 biliões de €.... Entretanto, a quantidade de energia que a EDP prevê fornecer com origem na bombagem está publicada aqui e extrai-se da frase "17, 9 TWh/ano de produção bruta ou 13,3 TWh/ano de produção líquida de bombagem", o que revela o plano de fornecer 4600 GWh/ano (de 17,9-13,3 TWh/ano) a partir da bombagem. Este valor corresponde a 525 MW de potência média, e se os comparamos com os 207 MW de origem hídrica gerados pelos rios (ou se compararmos os 4600 com os 1815 GWh contabilizados atrás, o que é o mesmo), comprovamos que o grande objectivo destes investimentos é, de facto, a regularização da produção eólica, como aliás a REN já explicara no documento do PNBEPH e como tem sido explicitamente explicado pelo Prof. Peças Lopes da FEUP (ver figura), o grande catedrático desta solução para Portugal...!
Podemos ainda, como já fiz várias vezes, notar o seguinte: para produzir em média 525 MW (4600 GWh/ano) provenientes de bombagem, as barragens têm que consumir pelo menos 700 MW (6130 GWh/ano) de origem eólica, dadas as perdas técnicas no processo. Isto resulta de neste processo a energia de origem eólica ter de primeiro transitar nas linhas da REN até às barragens, linhas onde há perdas (da ordem de 1%), depois passar pelos transformadores das barragens, accionar os geradores a funcionarem como motores, perdendo cerca de 1% em cada uma destas etapas, dos motores eléctricos passar às turbinas hidráulicas e às condutas de elevação, onde as perdas são maiores - e, depois de novo, para regressar à rede, descer pelas condutas, onde se dão a maior parte das perdas devido ao atrito (perdas de carga), accionar as turbinas hidráulicas, que movem os geradores eléctricos, cuja electricidade passa de novo pelos transformadores e volta a transitar nas linhas, perdendo 1% em cada uma destas etapas. No total e incluindo as perdas nas linhas da REN, dissipa-se à volta de 25% da energia inicial, mas as perdas podem ir a mais de 30% **!... Ambientalmente relevante, entretanto, é que estes 175 MW de perdas (que talvez cheguem a 225 MW...) (de 1530 GWh/ano a 1970 GWh/ano) anulam os 207 MW de origem hídrica que as barragens extrairão dos rios, justificando o que tenho dito: as barragens vão produzir zero de energia!...
Sistemicamente, porém, a bombagem hídrica presta um serviço que pode ser rentável para os respectivos investidores, e é isso que vou procurar avaliar, para vários cenários, terminando pela identificação de quem ganha e de quem paga este serviço. Considerando a procura de electricidade, que varia com as horas do dia e os dias da semana e do ano, a oferta não tem sempre o mesmo valor: vale mais quando a procura é maior, nas horas de ponta, e menos quando é menor, nas horas de vazio. Em Portugal o consumo médio é de muito aproximadamente 6,o GW, mas às horas de ponta (hora de jantar) chega perto dos 8,8 GW, e no vazio (madrugadas) pode ficar-se só por uns 3,7 GW. Um sistema eléctrico bem planeado tem um conjunto de centrais de relativamente elevado investimento inicial mas baixos custos variáveis a trabalhar permanentemente de modo a cobrir o mínimo de 3700 MW, e depois para as pontas reservam-se as centrais baratas mas de elevados custos variáveis (sobretudo combustível). Dependendo das condições de um país, essa base do diagrama de cargas pode ser, por exemplo, satisfeita com centrais a carvão ou nucleares, enquanto as pontas serão satisfeitas com centrais de ciclo combinado a gás natural. Se houver rios e barragens, estas podem ser usadas para regularizar a produção, sustendo a água nas horas de vazio e turbinando-a nas horas de ponta, se as condições hídricas forem adequadas e não havendo necessidade de bombagem. Mas pode acontecer que não haja caudal dos rios que chegue, e então uma solução poderá ser ter as tais centrais de base a produzirem mais que o consumo nas horas de vazio, e usar o excesso de energia para bombar água em hidroeléctricas reversíveis, que funcionam assim como reservatórios de energia (na forma de água elevada), para uso nas horas de ponta. Perde-se 25% da energia produzida pelas centrais de base mas, se esta for muito barata, mesmo assim economicamente compensa. Isto é o que faz a França, por exemplo, que tem 75% da sua electricidade de origem nuclear. Se aplicada a solução francesa ao nosso país, para exemplificar, ter-se-iam centrais nucleares a produzirem em permanência 4500 MW (75% dos 6000 consumidos em média), e nas horas de vazio sobrariam 800 MW (4500-3700), que seriam consumidos em bombagem pelas hidroeléctricas. Como o custo médio do kWh nuclear é em França de 4,1 ç, se as centrais a venderem à rede durante a maior parte do dia a 5 ç (valor típico), podem perfeitamente vendê-las em 4 horas de vazio a preço zero que isso ainda é compensador, por não terem de as desligar, dado que se as desligassem isso requereria dias para voltarem a funcionar normalmente. Em Portugal a bombagem também se usa desde há mais de 40 anos, num regime articulado entre hídricas de fio de água e hídricas de albufeira. As primeiras, mais baratas, só conseguem suster água por algumas horas, enquanto as segundas podem armazenar razoáveis quantidades. Assim, em Invernos muito chuvosos, havia alturas, até há 40 anos, quando o nosso consumo per capita era menos de 1/5 do de hoje, em que as hídricas de fio de água ou geravam mais do que o consumo ou abriam as comportas e desperdiçavam a água, e assim produziam um excesso de energia que era consumida pelas hídricas de albufeira com bombagem a encher as barragens - para a usar nas horas de ponta, no Verão e até de um ano para o outro! Obviamente que tanto num como no outro exemplo a bombagem adicona um custo à energia bombada, o custo do investimento nas próprias capacidades de bombagem e mais as perdas de energia do processo; porém, se a energia assim aproveitada for muito barata, o custo total ainda será baixo, e a solução boa para todos - incluindo os consumidores. Para avaliar agora a rentabilidade e custos da nova bombagem prevista para as eólicas, convém começar por notar que o cenário previsto pelo estudo da REN constante do próprio plano do PNBEPH era para uma potência eólica instalada no país de 5.7 GW, +1,5 GW do que existe neste momento, satisfazendo 22% do consumo nacional (à media de 1400 MW eólicos) e tornando-nos o campeão mundial do consumo dessa forma de energia! A figura seguinte simulava o que se previa acontecesse.
A figura mostra claramente que se previa um excesso de produção eólica durante a noite (quando ocorrem os consumos mínimos e o vento é maior), num total de cerca de 350 MW médios e uma ponta de perto de 2000 MW pelas 5 h da madrugada. Ou seja: com tal produção eólica, 1/4 dela teria de ser armazenada por bombagem, para não ter de ser deitada fora ou exportada a preço zero! Os números previstos pela EDP para a energia bombada, porém e como vimos, são o dobro destes, e de facto o plano do Governo anterior propunha que se chegasse a 8500 MW de potência eólica instalada, o dobro do que existe presentemente! Por outro lado, 700 MW em média de energia eólica consumida em bombagem serão o dobro dos 350 MW visualizados pela REN, apesar da potência instalada de 8500 planeada pelo anterior Governo ser "apenas" +50% que os 5700 MW considerados pela REN, mas isso é consistente com o facto de quanto maior a percentagem de energia eólica, maior a percentagem dela que precisará de ser armazenada para se conseguir regularizá-la. É também curial notar que, se os 350 MW médios a bombar previstos pela REN para uma potência eólica instalada de 5700 MW requerem 2000 MW de potência de ponta na bombagem pelas 5h da manhã, os 700 MW médios a bombar previstos pela EDP para a potência eólica de 8500 MW planeados pelo Governo anterior requererão pelo menos 4000 MW de potência de ponta, precisamente o que foi projectado realizar-se após o PNBEPH e pelos investimentos da EDP.
Estamos agora em condições de fazer alguns cálculos de rentabilidade económica, para vários cenários de futuro e algumas hipóteses adicionais que apresentarei no seguimento. A primeira hipótese é que as taxas de juro pagas pelo capital investido serão de 8,5%, um valor típico para investimentos em anos passados recentes,.
Cenário A: tudo corre conforme planeado pelo Governo anterior e os espanhóis também
Neste caso, o mais optimista para os investidores, Espanha usa as barragens da Iberdrola e da Endesa para armazenar o seu próprio excesso de energia eólica, e todo o excesso de eólica nacional é trabalhado apenas pelas centrais da EDP. Vou também ter em conta a remuneração recentemente promulgada de 20 k€/MW pela "garantia de potência" e admitir que as barragens conseguem comprar a energia eólica, no mercado e de madrugada, a 0 ç/kWh, para vendê-la nas horas de ponta a 6,5 ç/kWh. Note-se que, dado o baixo ou nulo valor que a energia eólica atinge no mercado nas horas de vazio, o rendimento técnico da bombagem é irrelevante para quem a faz. O investimento a recuperar é, neste caso, apenas o da EDP (3,0 biliões de €) e o da REN (0,9 biliões de€), verificando-se então que: - O encargo anual da bombagem da energia eólica para os consumidores será de 430 milhões de € (dos quais 80para aREN) acrescendo em 2,5 ç/kWh o custo de produção médio de toda a energia eólica; - A EDP recupera o seu investimento em 11 anos. Receberá anualmente 376 M€ pela electricidade vendida e 52 M€ pela "garantia de potência".
Cenário B: como em A, mas com menor diferencial de preços entre a eólica comprada e a revendida.
Admitindo agora valores mais razoáveis de compra e venda da energia eólica, respectivamente de 1 ç/kWh e 5,5 ç/kWh: - O encargo anual da bombagem da energia eólica para os consumidores será de 339 milhões de € (dos quais 80para aREN) acrescendo em 2,0 ç/kWh o custo de produção médio de toda a energia eólica; - A EDP recupera o seu investimento em 22 anos. Receberá anualmente 257 M€ pela electricidade vendida e 52 M€ pela "garantia de potência".
Cenário C: Como em A, mas só se vêm a instalar 5700 MW de potência eólica
Neste caso e de acordo com a antevisão da REN, só haverá metade da energia eólica para bombar relativamente aos cenários anteriores. O investimento necessário da REN será também menor. - O encargo anual da bombagem da energia eólica para os consumidores será de 261 milhões de € (dos quais 60para aREN) acrescendo em 2,2 ç/kWh o custo de produção médio de toda a energia eólica; - A EDP recupera o seu investimento em 32 anos. Receberá anualmente 226 M€ pela electricidade vendida e 52 M€ pela "garantia de potência".
Cenário D: como em B, mas só se vêm a instalar 5700 MW de potência eólica.
- O encargo anual da bombagem da energia eólica para os consumidores será de 215 milhões de € (dos quais 60para aREN) acrescendo em 1,8 ç/kWh o custo de produção médio de toda a energia eólica;
- A EDP receberá anualmente161 M€pela electricidade vendida e 52 M€ pela "garantia de potência". Nunca recuperará o investimento feito e terá acumulado um prejuízo de 34 biliões de € ao fim de 50 anos. Só recuperará o investimento, e ao fim de 42 anos, se a remuneração do capital investido não superar 6,5% ao ano.
Cenário E: O investimento em eólicas pára no valor em que está (4250 MW).
Mesmo admitindo o cenário optimista de que as barragens conseguem comprar a energia eólica a 0 ç/kWh e vendê-la a 6,5 ç/kWh, e que ainda assim haverá uma potência média de metade da do cenário anterior para bombar (130 MW médios), e que não se realizam os investimentos previstos pela REN para os próximos anos, ter-se-á: - O encargo anual da bombagem da energia eólica para os consumidores será de 164 milhões de € (dos quais 40para aREN) acrescendo em 1,8 ç/kWh o custo de produção médio de toda a energia eólica; - A EDP receberá anualmente149 M€pela electricidade vendida e 52 M€ pela "garantia de potência". Nunca recuperará o investimento feito e terá acumulado um prejuízo de 42 biliões de € ao fim de 50 anos. Só recuperará o investimento, ao fim de 40 anos, se a remuneração do capital investido não superar 6,0% ao ano.
Cenário F: O investimento em eólicas pára no valor em que está (4250 MW) e o de Espanha também.
Nem a EDP nem a Iberdrola nem a Ensesa recuperarão jamais os investimentos feitos, mesmo admitindo que os 2,06 biliões de € alegados pelas "eléctricas" espanholas são pura fantasia e que o valor real andará por metade desse. Além disso estas empresas irão competir pelo reduzido mercado de bombagem português, agravando mais ainda os prejuízos da EDP, ainda que reduzindo os encargos para os consumidores devido à competição nos preços.
Talvez se perceba agora melhor porque é a EDP uma tão grande defensora da energia eólica, apesar de ela própria ter limitados investimentos em aerogeradores no país. Quanto aos investimentos espanhóis, não tenho notícia de como vão eles...
* - não consegui reencontrar o estudo de Eugénio Rosas que estava no blog comunista "Resistir", para lhe fazer a devida hiperligação. ** - A FEUP, com o INESC-Porto e sob a orientação do Prof. Peças Lopes, produziu um estudo de gestão hídrico-eólico para uma região no norte em que considerou, com dados da EDP, perdas na bombagem superiores a 30%. Porém, os resultados desse trabalho, outrora públicos, desde que começámos a falar deste processo passaram a ser cuidadosamente escondidos...
A APREN mandou a Roland Berger escrever um rol de mentiras cuja leitura é deveras nauseante, e por isso e por que já me falta a paciência, não vou tratar do dito escrito. Até porque isso está ser feito, e bem, por quem revela mais paciência do que eu para aturar estes vomitados: aqui no Ecotretas (e aqui), e num novo blog que é um herdeiro meu nestas coisas da energia, o Luz Ligada. Passo-lhes a espada. E recomendo aos leitores interessados que vão até lá ver as estocadas. Entretanto, há novidades: acabo de saber que a ideia do imposto especial que tenho sugerido vai mesmo acontecer, e que por causa disso e infelizmente, a cotação das acções da EDP está em queda. O imposto é sobre os malfadados CMEC, e vai buscar 200 milhões de €. É justo. A crise não pode ser paga só pelos inocentes!
Foi ontem inaugurada a 3ª central nuclear argentina, em Atucha, a 115 km de Buenos Aires. Com um reactor de 700 MW, terá custado cerca de 1,8 biliões de €, o que permite estimar um custo de produção do kWh entre os 4 e os 5 ç. Uma 4ª central nuclear está já em estudo avançado. A Argentina fez há muito tempo uma aposta em reactores nucleares de água pesada, as quais podem usar urânio natural em vez do enriquecido, embora a experiência tenha mostrado que um ligeiro enriquecimento (de 0,7% para 0,85% de U235) permita aumentar a eficiência da cisão nuclear em 40%. Curiosamente, quem projectou e construiu a 1ª central nuclear argentina, nos anos 60, e esta agora inaugurada, foi a SIEMENS, que recentemente se converteu ao "greenpeace" e vendeu as suas encomendas e tecnologias à AREVA francesa. Porém, quem tem dominado no mercado mundial a tecnologia dos reactores de água pesada são os canadianos, com os seus CANDU, que foram quem forneceu as centrais nucleares da Roménia e a 2ª central nuclear argentina, mas que para as próximas terão de concorrer em mercado aberto, segundo os planos argentinos. A construção desta central agora inaugurada esteve parada 15 anos, devido à crise económica argentina que culminou com a bancarrota uma década atrás e de que o país tem estado a recuperar este tempo todo.
Como notei aqui há 4 meses, um aumento do IVA na electricidade de 6 para 23% não arrecadaria para o Estado cerca de 0,5 mil milhões de € extra, mas apenas perto de 0,37 mil milhões de €, porque há dois tipos de consumidores finais de electricidade que suportam esse IVA: as famílias e o próprio Estado. Ora enquanto as famílias consomem presentemente 29% da electricidade total, o próprio Estado consome 9%, ou seja, constitui praticamente 1/4 do consumo final de electricidade que não tem como transferir o IVA para jusante. Esses 9% do Estado decompõem-se em duas parcelas: edifícios (5.6%), e iluminação pública (3.4%). Na década de 2000-2009, o consumo nacional de electricidade aumentou 33% (1/3), mas o consumo das famílias aumentou 49% (1/2), o da iluminação pública 65% (2/3) e o dos edifícios do Estado 70% (de 1,61 para 2,73 TWh)! Não é difícil compreender a razão deste aumento de consumo nos edifícios do Estado, quando se observa o tipo de construção aplicado nas suas remodelações, cheias de superfícies envidraçadas (mais baratas), compensadas pela generalização do ar condicionado: dos novos tribunais na Expo às repartições de Finanças, passando pelas obras da parque escolar, essa foi a regra! Noticiam os jornais que os responsáveis pelas escolas se estão a dar conta de que, com a redução do orçamento disponível, não vão ter dinheiro para pagar a luz. Porém, para a luz sempre terão, mas para o aquecimento e para o ar condicionado é que não! Pelo que a medida da Ministra Assunção Cristas, de eliminar o uso da gravata no seu Ministério, e que alguns ridicularizaram, é perfeitamente avisada e apenas copia, aliás, as práticas japonesas! Convém notar, porém, que se essa medida é avisada para o Verão, já para o Inverno deverá ser complementada pela recomendação do uso de camisolas de gola alta ou cachecóis, senão mesmo pelo regresso à mantinha nos joelhos que o antigo ditador exibia mesmo nos Conselhos de Ministros...
Naturalmente, é provável que haja uma deterioração da saúde das crianças das escolas que já hoje dependem da alimentação lá fornecida, que aumente também o número de idosos que todos os anos morrem de frio em Portugal, e que em geral se vá observar um "aumento da eficiência energética" no país. Porém, o Estado deverá dar o exemplo - sob pena do aumento do IVA ir apenas penalizar as famílias e nem sequer se traduzir em significativos ganhos fiscais para o Estado! Ora, além do aumento do consumo energético pelos edifícios do Estado, e cuja contenção requer mudanças de hábitos que é preciso que o Estado traduza em recomendações concretas de poupança, o problema da iluminação pública não é de somenos importância. Com efeito, é de notar que ao mesmo tempo que se proíbe a venda ao público das velhas lâmpadas incandescentes, seguindo os ditames de Bruxelas, relativamente à iluminação pública, muito recentemente mas ainda na vigência do anterior Governo, através da ADENE, o que o Estado fez foi publicar um manual académico sobre luminotecnia, onde não se consegue encontrar qualquer referência prática a como optimizar economicamente o rendimento da iluminação pública! Valha-nos a iniciativa cívica de alguns cidadãos, como a do Prof. Guilherme Almeida da Academia Militar, e que neste curto e ilustrativo texto ensina os decisores a projectarem a iluminação pública da forma que melhor rendimento lhe obtém: com lâmpadas de sódio de baixa pressão (fica tudo castanho mas, para um país do 3º Mundo como o nosso é bom que chegue) e, sobretudo, projectores nos candeeiros que concentrem a luz no solo em vez de iluminarem as nuvens (como na figura seguinte)!
Nos últimos leilões de energia eólica no Brasil, que ainda tem apenas 1% da sua electricidade proveniente dessa origem mas pretende atingir 5% nos próximos anos, o preço de venda dos vencedores do leilão ficou abaixo de 100 R/MWh - ao câmbio actual, cerca de 4,4 ç/kWh. É um preço excelente e inesperado para as próprias autoridades reguladoras, que não contavam com que o kWh de origem eólica viesse alguma vez a descer abaixo dos 5,25 ç/kWh! No ano passado por esta altura, o melhor preço que se conseguira para a eólica fora de 5,75 ç/kWh... Com este preço, o custo de produção do kWh eólico fica abaixo do gerado em centrais de ciclo combinado a gás natural, as quais ultimamente têm tido um grande incremento no Brasil. Naturalmente que, embora o custo de produção possa ser inferior, o valor sistémico das duas energias não é o mesmo, porque enquanto as centrais a gás geram sempre que é preciso, as eólicas só quando há vento. No entanto, como energia de base, e desde que o seu volume não ultrapasse um limite que o sistema eléctrico possa "encaixar" sem meios de armazenagem ou de reserva adicionais, como será garantido com o limite de 5,5% previsto no Brasil, a intermitência e incontrolabilidade do vento não são graves, e sem dúvida que cada kWh eólico gerado corresponderá a um kWh poupado proveniente de gás natural. Cerca de 72% da electricidade brasileira é de origem hidroeléctrica, apesar do Brasil ainda só ter explorado 1/4 dos seus recursos hídricos, mas as pressões ambientais têm dificultado a construção de novos aproveitamentos e o ritmo de crescimento do consumo desse nosso país-filho de 200 milhões de habitantes tem sido de 5% ao ano. Daí o recurso que nos últimos anos tem sido feito ao gás natural (de que o Brasil tem recursos mas cujo preço nos mercados internacionais subiu já 40% este ano!), assim como os planos brasileiros para a ampliação do seu parque de centrais nucleares (presentemente está em construção a sua 3ª central, de 1400 MW, mas mesmo com ela a energia nuclear só produzirá 3% da electricidade consumida no Brasil). Porém, as centrais nucleares requerem tempos longos desde a decisão até à disponibilidade (a não ser que se progrida ao fulgurante ritmo chinês...), e dado que o Brasil apenas agora começou a instalação de renováveis não-hídricas, tem nestas um potencial considerável, ainda. No seu plano de desenvolvimento energético para a década presente (sim, o Estado brasileiro faz planeamento energético!...), para um consumo que é presentemente umas 9 vezes o nosso e uma população 20 vezes a nossa, consumo que se prevê cresça 50% até 2019 (ver quadro anexo), o abastecimento no fim da década será predominantemente garantido por mais hidroeléctricas (bendito Amazonas!...), mas também biomassa e eólica (em aproximada paridade, algo usual nos países racionais), e a óleo combustível, típico das comunidades isoladas brasileiras! O plano energético brasileiro prevê um custo de produção médio da energia eléctrica, em 2019, de 4,85 ç/kWh (ao câmbio actual).
Voltando ao baixo preço conseguido para a energia eólica actualmente no Brasil, tem interesse entender as razões desse valor de apenas 4,4 ç/kWh, igual ao reclamado em França pela EDF como custo de produção do kWh de origem nuclear (embora o Regulador francês só aceite 4,1 ç/kWh).
Em primeiro lugar, estando no começo, são os locais de melhor vento (ou seja, forte e regular) que estão em concessão. Dado o modo competitivo como as concessões estão a ser leiloadas (ver o parágrafo seguinte), a informação técnica sobre isto é difícil de obter, mas uma pesquisa levou-me ao valor de 34% para o factor de capacidade ou utilização destas eólicas (ver o comentário de Rogério Mastri no hyperlink), valor plausível. A energia produzida por uma eólica é proporcional a esse factor de capacidade, e dado que o custo da mesma é quase todo o do investimento inicial, tal significa que o custo de produção do kWh eólico é inversamente proporcional a esse factor. Para efeitos comparativos, Portugal tem um factor de capacidade médio sofrível de 25%, com os melhores locais a terem-no de 28% na região Oeste, e portanto aqueles 4,4 ç/kWh traduzir-se-iam, nas condições portuguesas, em 5,9 ç/kWh - e os 5,25 e 5,75 ç/kWh que o Brasil nunca esperara fossem ultrapassados ou obtidos em 2010, respectivamente, traduzir-se-iam em 7,15 e 7,7 ç/kWh, valores próximos dos definidos nas últimas atribuições por cá, precisamente.
Em segundo lugar, a atribuição de licenças de instalação de produções renováveis tem sido feita por leilão e monitorizada pela "ERSE brasileira", a ANEEL. O Ministério da Energia do Brasil realiza os leilões através de uma empresa pública de alto pendor técnico, a EPE, e os leilões são públicos (duram algumas horas) e totalmente transparentes. Compare-se isto com o nosso sistema, em que as tarifas remuneratórias das renováveis são definidas por Portaria, desconhecendo-se como foram calculadas mas sabendo-se da inexistência de qualquer organismo estatal, ou privado contratado de forma transparente, capaz de definir essas tarifas em função do interesse público, levando aos escandalosos abusos que já aqui denunciei! Têm existido "leilões" mas com as tarifas já definidas, geridos por comissões ad hoc de nomeação política e que têm negociado arranjos de que se conhece, por exemplo, o financiamento em 75 milhões de € de um "Fundo de Apoio à Inovação", de actividades misteriosas mas que incluíram o pavilhão português na Expo de Xangai em 2010...
O arredamento da nossa ERSE de tudo o que diga respeito ao tarifário e ao processo de concessão das renováveis em Portugal, e em especial das eólicas, retira-lhe qualquer poder regulador efectivo, e já muito antes de todo este processo ter começado a ser criticado por nós, o Prof. Santana, ex-administrador da ERSE, notava no seu livro "Reflectir Energia", essa limitação da ERSE, bem como o facto de já em 2004 a Agência Internacional de Energia ter chamado a atenção do Governo português para a exorbitância das tarifas praticadas na energia eólica! O antigo Presidente da ERSE Jorge Vasconcelos, porém, que viu nascer todo esse obscuro negócio que retirava à tutela do seu organismo uma imensa parte do que lhe competia regular, nunca se manifestou contra isso, por razões que se clarificaram quando as suas posteriores posições vieram demonstrar a sua total identificação com a política então seguida. Em suma, no Brasil pratica-se uma política transparente de competição entre concorrentes, o que pressiona os preços pedidos, enquanto por cá se preferiram os arranjos geridos por Portarias. A juntar a essa transparência leiloeira, o mercado brasileiro abriu-se com gosto aos fornecedores asiáticos de turbinas, estando presentes em força as chinesas Goldwind e Sinovel, bem como a indiana Suszon. Estes dois factores conjugados, uma política competitiva de leilões transparentes e regulados e a abertura a baratíssimos construtores asiáticos, terão sido determinantes nos excelentes preços conseguidos!
Há, entretanto, um outro elemento relevante a acompanhar o sucesso brasileiro no baixo preço conseguido para a energia eólica (cerca de metade do custo real médio que ela tem cá): a política de fomento no Brasil de uma indústria de montagem e construção de componentes antes da abertura macissa do mercado, com a criação de um centro de I&D associado! Há exactamente dois anos, escrevi aqui: "Ora foi só em 2006 que o Governo português sentiu a incomodidade de promover a forte subsidiação da indústria estrangeira de turbinas eólicas - facto único no mundo! - sem qualquer criação de riqueza no país e começou a falar na criação de um "cluster eólico". Já a importação e instalação de turbinas estrangeiras levava 5 anos! ...o prometido "cluster eólico" teve a primeira fábrica a operar apenas no fim de2008, e com apenas 800 operários não-qualificados. A EFACEC assegura a electrificação dos geradores nas barquinhas e dos parques eólicos à rede mas, obviamente, isso é uma actividade não-exportável que se esgotará quando se esgotar a total ocupação do potencial eólico nacional, muito em breve. O projecto do "cluster eólico" baseia-se num investimento liderado pela Enercon, o fabricante alemão preferido pelos decisores dos concursos públicos concessionários dos "pontos de ligação" à rede das eólicas, cobre em princípio todas as fases da fabricação e anuncia que, quando completo, empregará 1800 pessoas (na região de Viana do Castelo) e terá comportado um investimento directo estrangeiro de 0,1 biliões de € (2% do investimento nacional total na energia eólica). Há ainda e finalmente a generosa dádiva de 35 milhões de € a Portugal para que este comece a investir na tecnologia eólica (sob tutela de um "fundo" cuja Administração foi nomeada pelo Governo, e já só em 2009)... A questão que se coloca é como se poderá sustentar tal "cluster industrial", uma vez esgotado (em breve) o mercado nacional, que apenas acrescente o valor da mão de obra nas partes cujo fabrico não pode ser robotizado e que, segundo o documento linkado acima, não constituirá mais de 15-20% do valor da turbina, considerando que:
Como Portugal não tem qualquer know-how no assunto, está completamente dependente da Enercon;"...
Ora compare-se isto com a posição do Brasil:"Com o potencial dos fortes ventos e incentivos dos leilões, ainda não existe um fabricante de equipamentos eólicos brasileiro. Todas as marcas em operação são estrangeiras. Algumas já instalaram fábricas no País. Mas a primeira genuinamente brasileira será a gaúcha WEG, o maior fabricante de motores elétricos do País, que formou uma joint venture com a espanhola M. Torres Olvega Industrial, e se torna fornecedora de soluções completas (em sistema turn-key) para o segmento. De Norte a Sul do Brasil, a empresa já entregou transformadores, inversores de frequência, motores e tintas para o mercado eólico e, em breve, fornecerá aerogeradores, complementando o portfólio. ...Segundo Fiuza, a preocupação da Abeeólica para o desenvolvimento desta cadeia produtiva é com o incentivo do governo para um centro de pesquisa, destinado para equipamentos específicos. “É o primeiro passo para a indústria brasileira desenvolver-se para o setor”, afirma. “Assim, estaríamos seguindo os passos da Espanha, que começou com a atração de estrangeiros. Hoje um dos maiores fabricantes do mundo é a espanhola Gamesa, que está construindo uma fábrica na Bahia. “Um centro de pesquisa é o caminho natural para desenvolver a cadeia do produto nacional.""
As próximas duas novas centrais nucleares americanas, em construção, são da Southern Nuclear Operating Company e da South Carolina Electric & Gas, e são as primeiras novas após 25 anos de interrupção na instalação de reactores nucleares nos EUA. Apesar de toda a propaganda ecotópica por cá, os EUA estão com a Ásia no relançamento do nuclear, como aliás boa parte da Europa (Finlândia, Polónia, Lituânia, Holanda e Reino Unido, nomeadamente...). Cada uma destas duas centrais americanas terá dois dos novos reactores de 3ª geração americano-japoneses, os AP 1000. Por sua vez, cada um dos 4 geradores destas centrais terá 5 transformadores, presume-se, porque foram encomendados 20, ao todo, num contrato de vários milhões de USD. E a quem foram encomendados estes transformadores? À nossa EFACEC! Parabéns, portanto, a esta nossa empresa-estrela!
Os transformadores dos geradores a energia nuclear exigem uma enorme fiabilidade, porque uma avaria sua obriga à paragem de reactores que pode ser prolongada (até o transformador ser reparado). Há umas décadas atrás, quando a Inteligência Artificial estava na moda, a monitorização em tempo real e permanente dos transformadores das centrais nucleares foi das aplicações que mais I&D suscitou para a Inteligência Artificial na área da energia eléctrica. Agora, a quantidade de transformadores encomendados mostra que o problema é resolvido, nestas centrais de 3ª geração, com redundância. Mas, mesmo assim, a qualidade destes transformadores continua a ser de enorme exigência e, portanto, a sua encomenda à EFACEC uma grande honra!
Steve Jobs acaba de se reformar da Apple, que ele fundou com um amigo há perto de 30 anos, o que provavelmente reflecte um agravamento terminal do cancro de que sofre há já uns anos. Para os da minha geração entusiastas da inovação tecnológica, Steve Jobs foi o herói-modelo, mais que Bill Gates ou os amigos Hewlett e Packard, os criadores que fizeram das Start-ups tecnológicas e dos parques à Sillicon Valley as quimeras de muitas políticas tecnológicas. Há 25 anos era em Macintosh que escrevíamos relatórios e artigos. O que o Macintosh tinha de original era o uso do rato e as "windows", com um grafismo excepcional, quando na época os outros computadores só permitiam a escrita de texto (nos PC só havia DOS). Foi esta inovação dos Macintosh que veio a tornar tão popular o computador pessoal, e no entanto não foi Steve Jobs quem inventou o "rato", as "windows" e a computação gráfica. Esta fora desenvolvida pela Xerox, onde Steve Jobs a vira a funcionar em 1979, e de onde trouxe a ideia para a casar com outra ideia essencial que suportava os Macintosh: o uso de um dos novos microprocessadores de 16 bit acabados de surgir, o 68000 da Motorola, como única base de todo o PC, reduzindo em muito o restante hardware - conceito este que levara uma quinzena de anos a amadurecer!... Na época esta ideia era-me tão excitante que foi adaptada para a realização do "Autómato de Subestações" com que me doutorei nessa década de 80 e a que, muitas vezes, chamava de "Macintosh das Subestações"... Steve Jobs ficou também famoso por outro acontecimento muito instrutivo sobre as start-ups: viria a ser despedido da própria empresa que criara, em 1985, no auge do sucesso desta, ilustrando um dos grandes paradoxos da criação de Start-ups tecnológicas: quando a respectiva inovação tecnológica tem sucesso, requerem um salto de dimensão que obriga ao recurso de capital externo e a uma gestão profissionalizada que quase invariavelmente é incompatível com o espírito contestatário frequente nos seus criadores e com a sua gestão informal. Daqui resultam em regra três opções para esses criadores: ou sabem e aceitam esta lei da vida e desde o início pensam a empresa para a virem a vender com grande lucro (o que muitas vezes as mata, como sucedeu com a nossa emblemática ChipIdea), ou mantêm a empresa pequena, desistindo de dimensões internacionais mas garantindo o seu controlo (opção de várias que conheço por cá e que em tempos foi bem caracterizada num estudo da IEEE Transactions on Engineering Management), ou esses criadores abandonam a tecnologia e transformam-se em gestores, em homens de negócios, como precisamente Bill Gates, Hewlett e Packard. Steve Jobs não fez nenhuma destas cedências e, por isso, foi simplesmente despedido da Apple que criara, e por isso ele é um herói para os verdadeiros inovadores tecnológicos! Foi despedido mas era tão bom, tão extraordinariamente criativo, que depois disso a Apple entrou em declínio (perante a emergência da Microsoft de Bill Gates, em particular), até que a Apple o recontratou de novo em 1997, e com isso renasceu, graças ao iPod, ao iPhone e ao iPad que mais uma vez foi Steve Jobs quem inventou! Mas os Steve Jobs são tão raros como as supernovas!... O New York Times de hoje dedica a Steve Jobs uma boa crónica, cuja leitura recomendo. A propósito do processo de inovação tecnológica que Steve Jobs melhor que ninguém popularizou, o NYT menciona um livro recente, "o ADN do inovador", baseado num extenso estudo sobre alguns milhares de inovadores, e que identifica 5 traços nos "inovadores disruptivos" que "fazem as coisas acontecer": "questioning, experimenting, observing, associating and networking. Their bundle of characteristics echoes the ceaseless curiosity and willingness to take risks noted by other experts. Networking, ..., is less about career-building relationships than a search for new ideas. Associating, ..., is the ability to make idea-producing connections by linking concepts from different disciplines — intellectual mash-ups". Claro que há algo do paradigma biológico na inovação tecnológica: as novas soluções e produtos nascem da fertilização entre ideias e conhecimentos vindos de áreas diferentes, o que requer, evidentemente, conhecimentos e ideias de áreas diferentes. Essa é outra das razões para defender uma base curricular diversificada para os doutoramentos, como defendi aqui em Janeiro. Mas é a própria experiência e atitude perante a vida que muitas vezes produz essa fertilização - Jobs, por exemplo, quando criou o Macintosh, acabara de fazer uma viagem de "iluminação espiritual" pela Ásia, no final dos anos 70. Não é que recomende uma viagem dessas, própria daqueles tempos de contestação hippy, mas o que quero realçar é a atitude contestatária quanto à vida em geral que animava Steve Jobs. E que também é frequente nos artistas. Mas rara entre os às vezes adolescentes tardios que hoje em dia tiram cadeiras de "inovação e empreendedorismo" nas nossas Universidades... Mas, mesmo não tendo o génio de Steve Jobs, há outros bons exemplos de inovação tecnológica útil e criadora de riqueza, como este realizado na FEUP há uns anos, para a construção de pontes, e presentemente em plena exploração comercial. Claro que, à falta de um Steve Jobs, terão de ser multiplicadas por muito as inovações mais modestas como esta para que Portugal se venha a tornar merecedor de pertencer ao Euro sem que haja dúvidas sobre esse merecimento nos mercados de crédito.
Como sabem os meus leitores, tenho feito aqui algum eco da teoria climática alternativa que atribui uma importância crucial sobre o clima ao mecanismo de formação de nuvens determinado pela radiação cósmica. Convém desde já notar que não tenho posição definida sobre teorias climáticas (sou nesta matéria, digamos, agnóstico). Não sei do assunto, cuja complexidade me é evidente, o suficiente para tomar esta ou aquela posição. O que combato é toda uma ideologia proto-fascista associada à teoria do aquecimento global de origem antropogénica (vulgo "efeito de estufa"), que mente sobre coisas como as posições da ONU sobre a contribuição da produção de energia e dos transportes para o referido aquecimento, e que tem servido para justificar, sem qualquer razoabilidade mesmo à luz dessa teoria, a aposta em energias renováveis de tecnologia imatura ou suportando interesses económicos anti-portugueses (dados os excessos cometidos). Na rúbrica sobre "clima" deste blog podem encontrar as minhas reflexões sobre isto, se porventura vos interessarem. Foi há cerca de 6 meses que aqui mencionei, pela primeira vez e por a ter descoberto havia pouco tempo, a teoria da radiação cósmica como criadora de nuvens e, portanto, como determinante da temperatura média do planeta. Duas coisas nesta teoria motivaram a minha atenção: a primeira é a excelente correlação empírica entre os registos mineralógicos em rochas antigas da radiação cósmica com as estimativas das temperaturas das mesmas épocas, o que relativamente à teoria do "efeito de estufa" me parece muito mais especulativo (que nas épocas quentes passadas teriam sido grandes libertações de metano que teriam causado o arrefecimento global, coisa muito menos comprovável que os registos da radiação cósmica em certas rochas); a segunda é a concepção de uma comprovação experimental da teoria da formação de nuvens por radiações de alta energia como as cósmicas, a realizar numa câmara apropriada no CERN. Há cerca de um mês "roubei" ao Ecotretas um link para um excelente filme que explica toda esta teoria, e que inseri num post sobre o Verão excepcionalmente fresco que este ano temos ( e que esta teoria explica facilmente). Ora hoje mesmo, regressado de férias, dou com esta notícia na Scientific American, uma revista que até é decididamente pró-aquecimento de origem antropogénica: a notícia, de facto obtida da Nature, informa que... os primeiros resultados das experiências do CERN confirmam preliminarmente a teoria (do papel da radiação cósmica no mecanismo da criação de nuvens). O Ecotretas, sempre atento a estas coisas, já dera ontem notícia do facto, augurando até a atribuição do prémio Nobel ao dinamarquês que tem sido incansável nesta pesquisa! No entanto, os resultados são preliminares e os próprios autores reconhecem que as partículas criadas pelos raios gerados experimentalmente são demasiado pequenas para servirem de "sementes" das nuvens. Mas vão no sentido da confirmação da teoria, que, segundo os investigadores envolvidos, requererá mais 5 anos de experiências e interpretação dos resultados. Seja qual for o resultado final desta investigação, as suas conclusões hão-de ser fundamentais para a progressiva compreensão científica do clima. Ah, e há um português na equipa do CERN que publicou o artigo da Nature: João Almeida, como colaborador do SIM da Faculdade de Ciências de Lisboa que participa no CLOUD (aparentemente apenas com um bolseiro, que não consegui confirmar, mas presumo que seja o João Almeida, embora ninguém com esse nome conste da lista de colaboradores do SIM)... As implicações políticas desta investigação científica são evidentes. O que não significa que não se defenda a descarbonização da economia - mas essencialmente por razões de esgotamento dos combustíveis fósseis - como faz a China. O que impõe timings completamente diferentes, compatíveis com as expectativas de evolução da exequibilidade técnico-económica. --- Nota extra: um leitor chamou-me a atenção para o facto de que há mais portugueses na lista de autores do artigo da Nature. Não me tinha dado conta mas, com efeito, "clicando" no "et al" que aparece no fim da lista de autores visíveis, esta estende-se e aparecem muitos mais, incluindo o Prof. António Amorim. As minhas desculpas pelo lapso involuntário.
Enquanto alguns ecotópicos tentam fazer passar a ideia de que a energia nuclear é uma coisa do passado e fora de moda, a I&D nos reactores de 4ª geração, ou de neutrões rápidos, prossegue, nos países com os pés na terra e ambições de futuro. Como em tempos expliquei, os reactores de neutrões rápidos "queimam" o urânio 238 e não o 235, assim como o plutónio resultante da desintegração de ambos. Assim, não só usam recursos centenas de vezes mais abundantes que o "combustível" das centrais nucleares actuais de neutrões lentos, como dão destino útil ao principal resíduo radioactivo destas centrais, e de maior longevidade, bem como ao imenso stock de Urânio 238 resultante do enriquecimento do "combustível" actual. Um dos projectos futurísticos desta tecnologia é o reactor de ondas móveis da TerraPower e Bill Gates de que já dei notícia, mas há muito que se faz investigação experimental em reactores de 4ª geração - na verdade, os primeiros começaram a ser testados há mais de 50 anos!... Vem isto a propósito de que há uma semana a China ligou à rede eléctrica, começando a gerar electricidade, o seu primeiro reactor de neutrões rápidos, de 4ª geração.
É um reactor experimental, produzindo apenas 20 MW de electricidade (65 MW de calor), mas os dois próximos, de 800 MW cada, começam a ser construídos no mês que vem, ao abrigo de um acordo de cooperação com a Rússia, e um outro de fabrico inteiramente chinês está já previsto, pela joint-ventureSanming Nuclear Power Co Ltd constituída em Abril de 2010.
Os dois reactores de 800 MW agora em construção são de concepção russa, os BN-800, e resultam do aperfeiçoamento dos BN-600 (na foto ao lado) de que há um (e único no mundo...) em exploração comercial em Beloyarks. Porém, a Índia terá também o seu, de 500 MW, em exploração no próximo ano...
É por estas e por outras que ontem mesmo o Público noticiava a contra-gosto (tanto que "contaminou" o mais que pôde a notícia...), que o Director da Agência Internacional de Energia Atómica da ONU afirmou que a produção de electricidade a partir da energia nuclear vai continuar a crescer no mundo, apesar do acidente de Fukushima (onde, recorde-se, ocorreram zero mortos e feridos). “Alguns países, como a Alemanha, reviram a sua política em matéria de energia nuclear. Mas muitos outros pensam que precisam dos reactores nucleares, especialmente para lutar contra as emissões de gases com efeito de estufa e o aquecimento global”, argumentou o referido Director. Vendo isto, talvez compreendamos melhor o vaticínio de Robert Fogel, prémio Nobel da economia em 1993, segundo quem em 2040 o nível de riqueza per capita dos países da Ásia Oriental e do Sudeste será muito superior ao dos actuais países desenvolvidos...
No ano passado, em que o Verão foi quente, foi intensa a campanha mediática dos ecotópicos ao serviço do nacional-ecologismo alemão e dos seus representantes portugueses, culpando o "efeito estufa" causado pelo desmedido consumismo humano de ser a causa disso. Dei nota disso aqui. Este ano, porém, em que Julho está a ser o mês mais fresco dos últimos 27 anos, e que em Cuba até se vivem as temperaturas mais baixas dos últimos 50 anos, os ecotópicos estão caladinhos. Claro que há Verões mais quentes e Verões menos quentes, como sempre houve, e como é normal dentro da variabilidade natural do clima. Nada se pode deduzir das temperaturas de um dado Verão, pese embora a tendência ancestral para nos culparmos dos males do clima e que os nossos ecotópicos acicatam. Entretanto, neste mesmo hyperlink acima, dei conta, há meses, das investigações em curso no CERN sobre o papel das nuvens e dos raios cósmicos no comportamento do clima. Para os interessados, aponto aqui um excelente documentário (52 minutos) sobre esta teoria climática alternativa e que, por enquanto, está tanto sobre a mesa da ciência em aberto como a do efeito estufa de origem antropogénica.
Os jornais de ontem publicavam uma notícia que dá conta que a indústria naval portuguesa chegou a empregar 26 mil trabalhadores, em meados dos anos 70, e que hoje tem... menos de mil! E em risco de mesmo estes desaparecerem, com os despedimentos agora programados para os estaleiros de Viana do Castelo!... O Público, em particular, publica extractos de uma interessante entrevista com um conhecedor do sector, um homem com uma visão estratégica a que talvez não seja alheia a sua condição de militar, e que explica como toda a Europa, e Portugal em particular, foram perdendo competividade para a indústria asiática, ao longo deste último terço de século, até se chegar ao ponto onde se está hoje. "As crises económicas cíclicas desde 1973 fizeram reduzir a procura e desviar a indústria da construção naval desde a América do Norte e Europa para a Ásia. Mais recentemente a China e outros países vizinhos tornaram-se construtores com elevada quota de mercado”,explica o Contra-almirante Gonçalves de Brito. "Maior produtividade, menores custos de produção e condições de mercado distorcidas”, aponta este responsável como causas desta evolução, explicando que “A importação de soluções desenvolvidas no Ocidente permitiram a implantação da Ásia como principal centro da indústria naval de grandes navios e de embarcações de serviços”. A Europa foi relegada para “nichos de navios específicos de alta tecnologia, incluindo navios militares e equipamento para plataformas de exploração oceânica”. E, quanto a Portugal especificamente, diz:"Portugal apenas deverá aspirar à construção de navios em nichos dentro dos nichos, aproveitando situações pontuais de ocasião, potenciando a diplomacia económica e valorizando a entrada na construção de navios militares de tecnologia média, marítimo turísticas e mais algumas outras oportunidades que aparecem esporadicamente”, e que “neste momento a indústria naval portuguesa debate-se com o problema adicional de falta de profissionais qualificados”. “Mesmo que ocorresse uma viragem nas perspectivas de mercado de procura, a incapacidade de resposta seria um facto face à dita falta de recursos humanos qualificados e à descapitalização dos estaleiros que limita a respectiva actualização tecnológica e a inovação”, assume, resumindo:“Portugal deixou de ser competitivo”. "O país não tem custos de produção baixos, produtividade ou sequer capacidade de gestão adequadas. E não dispomos de centros de excelência que disponibilizem rapidamente projectos técnicos inovadores e atractivos para os armadores, por total descapitalização das poucas estruturas de engenheiros e projectistas existentes." Este retrato é comum a outros importantes ramos da indústria portuguesa, e é por isso surpreendente que o nosso contra-almirante, depois de enunciar com sabedoria a falta de especialistas, de tecnologia, de inovação e de centros de excelência no sector, que nos capacitem para competir nos nichos de mercado de alta tecnologia ainda possíveis, alvitre como solução o salto para... as energias renováveis! Concretamente, propõe ele: "Sobretudo grandes estruturas oceânicas de energia, investigação e recolha de matérias primas para as águas sob controlo nacional, onde seja importante minimizar a distância do local de construção ao local de utilização"! Ora se já nem navios sabemos construir, como poderemos resolver isso saltando para a inovação em tecnologias que ainda não existem? Pergunta que associo à de como poderá o mar, esse grande desígnio que por vezes nos apontam, passar de uma miragem a alguma realidade? Na verdade, este salto no vazio como resposta ao nosso atraso tecnológico foi apanágio da nossa governação nos 15 anos terminados, e o seu maior expoente foi o "momento em que se fez História" com a inauguração da central das ondas da Póvoa do Varzim pelo inacreditável ministro Manuel Pinho, como noticiei aqui em tempos! A verdade, infelizmente, é que a nossa construção naval nunca soube muito da ciência moderna dessa construção.
No tempo em que dividíamos os mares com Espanha e a Ribeira das Naus era um imenso complexo fabril, a técnica da construção naval, que dominávamos mas em que pouco inovávamos, era muito empírica e baseada em princípios de simetria pouco científicos, como Franklin Guerra nos recorda na sua História da Engenharia em Portugal.Quando a engenharia naval veio a ganhar raízes na matemática e na física modernas, no sec. XVIII, dando origem aos velozes brigues do sec. XIX que faziam de Lisboa à Índia em 3 meses, contra os 6 meses das nossas naus, já há muito que Portugal deixara de dominar os mares ao mesmo tempo que viria a passar ao lado dessa revolução industrial...
O boom da construção naval em Portugal no início dos anos 70 (na verdade, essencialmente reparação naval), resultou de duas circunstâncias: a excelente posição geográfica do país, que faz com que todos os petroleiros que abastecem a Europa passem ao largo da nossa costa, e o fecho do canal do Suez de 1967 a 1975, em resultado da guerra dos 6 dias e do bloqueio egípicio decorrente. Este bloqueio promoveu a construção, com destaque para o Japão, de superpetroleiros que passaram a ter de fazer a rota do Cabo, contornando a África, para trazerem do Médio Oriente o precioso líquido. Os estaleiros, cujos operários bem pagos eram baluartes apetecidos da esquerda revolucionária dos anos 70, chegaram a ter de facto um peso económico relevante mas, surpreendentemente, Portugal só veio a ter a sua primeira licenciatura em Eng.ª Naval em 1981, quando os estaleiros já tinham entrado em decadência acentuada!...
Presentemente, coordena esta licenciatura um velho amigo meu e colega do liceu que se me queixa da pouca aplicação que encontra em Portugal para a I&D em que se especializou (doutorou-se há muito na Holanda, com que depois colaborou por muitos anos). E, por isso, ele também tem procurado novas áreas de aplicação dos seus conhecimentos, como as energias renováveis. Temos, pois, uma construção naval agonizante e sem know-how, e uma tecnologia universitária que não encontra aplicação industrial. E há quem imagine resolver isto, tanto do lado da indústria como da Universidade, saltando para novas áreas que não existem...!
Os media de dia 24 de Junho noticiaram que o Japão estima em 147 biliões de € (biliões brasileiros, ou americanos) a reconstrução das infra-estruturas danificadas pelo terramoto e, sobretudo, pelo maremoto de 11 de Março passado. Ao mesmo tempo, foi anunciado que serão gastos 0,87 na monitorização dos 2 milhões de habitantes da região próxima de Fukushima nos próximos 30 anos... Esta quantia é 0,6% da outra, mas mesmo assim os media falam dos gastos na reconstrução do Japão lembrando sempre que "não incluem a central nuclear de Fukushima". Na verdade, o maior problema decorrente do efeito do sismo sobre as centrais nucleares japonesas é a falta de energia que assola o país, e que levou há dias o Ministro do Economia a reclamar o regresso ao serviço de todas as centrais nucleares em boas condições. Naturalmente, o custo do desmantelamento da enorme central de Fuskushima-Dachai (6 reactores!...) não será pequeno: 8,7 biliões de € (12 biliões de USD) é o preço estimado pelo consórcio Hitachi-Toshiba-Areva para o fazer, ao longo de 15 anos. A TEPCO já pôs de parte 1,7 biliões de € para isso. É o custo de construção aproximado de uma central e meia daquela potência (esta já estava amortizada, dados os seus 40 anos de vida), 6,5% a incluir no custo geral de reconstrução do Japão pós-sismo, incluindo os 0,87 biliões de monitorização das populações... Considerável, certamente, mas não o principal problema da reconstrução do Japão! E uma quantia que, se não fora antecipada por inclusão no preço de venda da energia dessa central, o devia ter sido, pelo menos parcialmente. Entretanto, informação técnica detalhada e permanentemente actualizada sobre a situação em Fukushima-Dashai pode ser encontrada aqui. Está fotograficamente documentado que os danos foram causados pelo maremoto de 14 metros que afogou as instalações e penetrou meio km naquela zona da ilha, e que só foi igualado por outro que ocorrera há mais de um milénio e de que só há relativamente poucos anos de adquirira toda a noção do impacto tido.
Naturalmente, isto ensina que é preciso prever o imprevisível, razão das "margens de segurança" que os engenheiros conhecem tão bem e que ali permite tirar uma conclusão geral que não era considerada na época do projecto daquela central: há incidentes que podem afectar simultaneamente todos os meios de controlo da temperatura da reacção nuclear numa central nuclear! Coisa que as novas de 3ª geração agora em projecto e construção já prevêm (como no projecto de aviões, em que se vai aprendendo com a experiência dos que caem, para o que existem as "caixas negras"), mas que ainda não sucede com muitas das existentes, projectadas há 40 anos e mais (como Fukushima)...! No caso de Fukushima-Dashai, os quase 4 meses decorridos desde o acidente têm permitido clarificar a situação e a sua sequência. Depois das explosões de hidrogénio, poucos dias depois do tsunami, e que libertaram para a atmosfera cerca de 10% das emissões radioactivas verificadas em Chernobyl, a injecção de água de arrefecimento tem mantido as coisas sob controlo. É verdade que tudo indica haver fendas nas canalizações de água ou nos contentores dos reactores, mas isso só afecta a água de arrefecimento, que tem estado a verter dos circuitos fechados a que se devia limitar e a inundar caves com água altamente radioactiva. 110 mil toneladas dela!... Mas é um problema localizado à central e em resolução. Foram instalados sistemas de limpeza da água (retenção do césio), que está já a ser reinjectada nos reactores, depois de limpa e dessalgada, e o nível da água nas caves estabilizou. O césio assim extraído é depois vitrificado, impregando a zeolite usada no processo. Entretanto, os nossos media fizeram amplo eco da decisão do Governo alemão de fechar os seus reactores quando chegarem ao fim da vida (logo se verá, porém...), de igual decisão da Suíça e do referendo italiano que recusou o retorno da Itália à energia nuclear. Porém, nenhuma notícia foi ouvida sobre a decisão do Governo inglês de renovação do seu parque de centrais nucleares, sobre a do regulador francês prolongar em mais 10 anos a vida da mais antiga central nuclear francesa, sobre o decreto saído hoje mesmo do Governo russo declarando a tecnologia nuclear como uma tecnologia prioritária para o país, ou sobre os progressos da Lituânia na encomenda dos seus novos reactores... É que, sabem, ... não morreu ninguém no Japão, nem adoeceu, por causa do acidente em Fukushima-Daichi!
---- 29 de Agosto: um extra, para os preocupados: