quarta-feira, setembro 23, 2009

Uma consultoria grátis

Toda a gente sabe que as faíscas da trovoada preferem as estruturas altas e metálicas para cair.
É o caso, por exemplo, das torres metálicas das linhas eléctricas de Muito Alta Tensão.
E é o caso, também, das altíssimas turbinas eólicas.
Aqui nesta foto pode-se ver o estado de destruição em que ficou uma turbina instalada em Portugal, com uma faísca que lhe caiu em cima, há dias. Um prejuízo de talvez meio milhão de €...!Claro que a tecnologia tem soluções para proteger as turbinas destes acidentes, embora por todo o mundo se verifique uma elevada taxa de destruição de turbinas eólicas pela trovoada.
Aqui no documento deste link encontra-se informação detalhada sobre o problema.
Infelizmente, as soluções devem ser previstas antes da compra e instalação das turbinas.
Ou seja, mesmo até só para usar turbinas importadas, é preciso saber comprar!
Eis os conselhos essenciais dados pelo documento que linkei:

It is incumbent upon the turbine buyer to demand lightning protection to Class 1 of IEC 61024 from candidate vendors. When purchasing a turbine, the smart shopper should, especially for high-risk sites, insist on good lightning protection in the following forms:

  • An explanation of how the manufacturer meets IEC 61024 lightning protection
  • Blade lightning strike-down conductors with receptors as close as possible to both sides of the tip
  • More than one receptor if necessary for turbine blades over 25 m (82 ft) in length
  • Fiber optic to uncouple base to tower-top control communication
  • Multiple-level surge protection or fiber-optic links for site-wide communication systems
  • Good protection from turbine vendor
  • Good bonding and shielding of all control/sensor cabling
  • Good surge protection and ground reference between the generator, transformer, and power collection system
  • Good safety protection for operators and site personnel.

terça-feira, setembro 22, 2009

As ovelhas negras de Copenhague

Talvez quem tenha lido o meu post anterior tenha ficado surpreendido pelo que contei sobre a China e a Índia relativamente às medidas de desenvolvimento tecnológico e industrial para as energias renováveis que aqueles países encetaram desde Kyoto - que, no entanto e inteligentemente, não subscreveram.
Dizia eu lá ontem que era provável que a China aparecesse agora em Copenhague a defender a descarbonização das economias. E hoje aí está!

Quem vai arrastar os pés são os EUA e o Terceiro-Mundo, sobretudo o do Hemisfério Sul.

O Terceiro-Mundo do Sul porque acha que esse problema não é nada com ele. Talvez estejam dispostos a ouvir falar do assunto, se houver dinheiro na mesa... e nisso vão ter o apoio activo - e fatal, para um possível acordo global - dos ecotópicos, os ecologistas que só são pela descarbonização porque são sim anti-globalização e anti-indústrialização.

Os EUA porque perderam a maior parte do tempo decorrido desde Kyoto a não fazer nada quanto ao assunto, com o negacionismo de Bush. E, mesmo agora, ainda estão a encetar os debates, com os ecotópicos na ofensiva e os realistas ainda muito atrasados - veja-se esta notícia do dia, sobre as primeiras experiências no terreno e a oposição que suscitam, da tecnologia de captura do CO2 das centrais a carvão, uma tecnologia absolutamente necessária e inevitável!
Os EUA hão-de também acabar por aderir ao esforço mundial, mas não vão de certeza liderá-lo nos próximos anos, como o desejava o Presidente Obama.

Com grande probablidade, quem vai liderar o processo nos próximos anos é a China, cuja capacidade industrial e ambição estratégica de liderança mundial não encontram nada que se lhe compare a Ocidente!

Talvez o Japão, a Coreia e a Índia lhe façam frente.
Mas, de uma forma ou de outra, o vento sopra do Oriente!

segunda-feira, setembro 21, 2009

Clusters industrais nas renováveis: 23 mil empregos, ou a fraude portuguesa do século? Parte I - eólicas

Recentemente, o Ministro da Economia em acumulação de funções anunciou um plano de aposta nas energias renováveis que implicaria a criação de 23 mil empregos e 15,5 biliões de euros de investimento (uso o termo "bilião" de acordo com a prática americana a que os investigadores estão habituados, ou seja, mil milhões). O plano estará em execução há já 2 anos e é para continuar por mais 6 e pressupõe, naturalmente, que o PS ganhe as próximas eleições.

Para se ter uma noção da enormidade deste investimento, vale a pena recordar que a Caixa Geral de Depósitos teve de injectar no "caso BPN" 2,55 biliões e que este valor é mais de metade do capital da própria CGD, mas que o investimento anunciado é mais de 5 vezes o do BPN!

15,5 biliões de euros é o dobro do orçamento do TGV, é quanto custam 6 centrais nucleares ou 5 a carvão com captura do CO2 de 1200 MW cada uma, muito mais do que o consumo português é capaz de encaixar! (e a propósito, o buraco do caso BPN também dava para pagar uma boa central nuclear!...)

15,5 biliões de euros são 10% do PIB de Portugal, é o valor do (insustentável) défice externo português de um ano inteiro, que levará o país à falência em meia dúzia de anos, se continuar!

A enormidade do investimento anunciado e as implicações que ele terá para o futuro nacional tornam irrecusável o imperativo ético de trazer á discussão pública a bondade da sua decisão. Um contributo para essa discussão, até aqui ausente do palco mediático (salvo posições pontuais do antigo Ministro da Indústria dos Governos de Cavaco, o Mestre Eng.º Mira Amaral), é o que procurarei dar no que escrevo de seguida e que será um texto longo. Vou, por isso, escrevê-lo por partes, que irei postando à medida que o tempo mo permita.

Nesta parte I, o meu objectivo é mostrar como as tecnologias da energia eólica levam tempo a dominar, como é preciso ter estratégias nacionais para atingir esse domínio, que problemas técnicos e que valor acrescentado existe no fabrico de instalações eólicas e, finalmente, como o que Portugal tem feito na matéria peca por um terceiro-mundismo sem qualquer sustentabilidade.

  • Evolução histórica e contexto mundial da indústria de turbinas eólicas

As turbinas eólicas e as instalações de energia solar são produtos de alta tecnologia, não são calçado ou texteis! Se fossem tecnologias simples, há muito que teriam sido comercializadas!

A ideia de usar geradores eólicos para produzir energia eléctrica não é nova. De facto, os primeiros foram construídos mal a electricidade começou a ser comercializada, há 120 anos, e há 75 anos eram vulgares para alimentar quintas isoladas onde as redes eléctricas ainda não haviam chegado e quando os motores Diesel ainda eram caros. Na época usavam-se torres de aço articuladas, como nos postes das linhas de Muito Alta Tensão da REN, e chegaram a construir-se geradores a vento de 100 kw, na antiga URSS (1931), na Escócia (1954) e pela EDF francesa (anos 50)[à esquerda: aerogerador de 3 kw usado em quintas isoladas, nos anos 70, suficiente para alimentar uma habitação quando ainda não havia máquinas de lavar loiça nem ar condicionado].

Porém, a energia produzida por estas máquinas era muito pouca para o que custavam e, por isso, logo que as redes eléctricas chegaram aos locais isolados onde eram usadas, foram abandonadas. A energia proveniente das barragens e das centrais termoeléctricas era muito mais barata, e até a produzida por grupos Diesel, além destes terem uma instalação muito mais flexível!

Mas a Investigação & Desenvolvimento (I&D) de aerogeradores continuou, e não será de espantar que a Dinamarca, hoje a campeã mundial do consumo de energia eólica, tivesse nos anos 60 construído uma turbina de 200 kw (Gedser) com muitos dos avanços que viriam a equipar as turbinas de hoje [à esquerda, repare-se nas pás da hélice, semelhantes às dos moinhos de vento]. Porém, esta turbina era economicamente inviável, por se estar num tempo de petróleo barato. Mas vale a pena notar que o gosto dinamarquês pela energia eólica já vinha dos anos 20 do século XX...

Na mesma década de 60, há 45 anos, também a Alemanha (que não será por acaso é hoje o maior produtor e líder tecnológico mundial de turbinas) construíu vários avançados protótipos (para a época), indo com isso encontrando difíceis problemas mecânicos e engenhosas soluções para os mesmos. Uma dessas turbinas chegou mesmo a conseguir funcionar meio ano antes de avariar, graças a avanços fundamentais na construção mecânica parecidos com os que viriam a existir nas articulações das pás das hélices dos helicópteros [à direita, turbina Hutter alemã de há 45 anos: as pás das hélices já eram em fibra de vidro e plástico!..].

O maior dos engenheiros desta I&D alemã foi o Dr. Ing. austríaco Ulrich Hutter, que juntava o rigor matemático e a preparação teórica à capacidade experimental industrial, à boa maneira germânica, e que trabalhou no tema desde o seu Mestrado em 1942, com vários protótipos construídos nesses anos e nos anos 50. Hutter era especialista em aeronáutica, e durante a Guerra trabalhou no projecto de bombardeiros tácticos de mergulho para a Lwftwaffe, embora este projecto nunca tenha passado à produção...

Enquanto a Dinamarca e a Alemanha continuaram a aperfeiçoar continuamente os seus aerogeradores depois dos anos 60, o maior investimento de I&D em turbinas eólicas ocorreu nos EUA a seguir ao choque petrolífero de 1973, e foi financiado directamente pelo Governo americano. Mas, como aconteceu repetidamente na História, este projecto de I&D dirigido por um Governo falhou, devido à má política na sua orientação.

O projecto procurou copiar os resultados teóricos e experimentais do Dr-Ing. Ulrich Hutter, mas copiou mal, não reparando em pormenores mecânicos essenciais e acabando por gastar vários anos (e muito dinheiro) a acumular fracassos (no fundo, repetindo as experiências que os alemães tinham feito 30 anos antes), até aprenderem finalmente porque é que no projecto alemão havia certos pormenores à primeira vista inúteis - só que nessa altura o Congresso deu o projecto por terminado e cortou-lhe os financiamentos, reduzindo a duração das investigações dos necessários 8 anos para 4!

Entretanto, a Califórnia decidiu subsidiar a energia eólica com descontos nas tarifas nos anos 80 e encheu-se de wind farms, com pequenas turbinas de 50-100 kw que chegaram a somar 1700 MW; mas, devido ao fracasso da I&D americana e à política económica liberal de Reagan, assim como a uma má política de subsidiação em que os decisores políticos confundiam potência instalada com energia gerável (como cá...), o mercado acabou por ser ocupado pelos europeus, com 50% dele só para a Dinamarca. A tecnologia dinamarquesa não era brilhante mas era relativamente robusta e conseguira certificações de fiabilidade em que as americanas falhavam, embora os ventos fortes da Califórnia tenham acabado por avariar todas as turbinas, impondo custos de manutenção enormes, até que ao ver que elas não promoviam a indústria americana os Governos acabaram com as tarifas subsidiadas e as wind farms foram paulatinamente desaparecendo, no início dos anos 90.

Ao mesmo tempo, os preços muito mais altos da energia eléctrica na Europa Ocidental permitiram que a Dinamarca e a Alemanha continuassem paulatinamente o aperfeiçoamento das suas turbinas, até que nos anos 90 uma nova tecnologia fez o seu aparecimento nas turbinas eólicas, facilitanto em muito o seu controlo aerodinâmico e aumentando grandemente o seu rendimento e, por conseguinte, a sua viabilidade económica: a electrónica de energia.

Entretanto, a União Europeia começara a preparar desde 1990 o protocolo de Kyoto que viria a ser aprovado em 1997, o qual muito promoveu politicamente as energias renováveis e, com tudo isto, ao longo da década seguinte (a actual) a potência nominal das turbinas dinamarquesas e alemãs, em competição, foi crescendo de 50 para 100 kw, depois 200, depois 500, depois 1000, 1500, até se chegar aos 2000 (2 MW), 2.5 MW e aos 5 e 6 MW, ao mesmo tempo que o seu custo por kw descia.

Pelo seu lado, e também em meados dos anos 90, os EUA absorveram o know-how europeu por processos discutíveis (espionagem) como já narrei neste blog, e as soluções técnicas tornaram-se comuns e universais desde então, com a disputa ainda em curso entre duas opções: "geração síncrona com conversão de frequência", de patente disputada entre a Enercon alemã e a GE americana, e "geração assíncrona duplamente alimentada" usada por todos os outros fabricantes, com especial relevo para a líder de mercado dinamarquesa Vestas. Estes três fabricantes são os maiores do mundo juntamente com a espanhola Gamesa, adiante historiada.

Na presente década, pois, e como fruto por um lado de quase 70 anos acumulados de I&D, na Dinamarca e sobretudo na Alemanha, e do protocolo de Kyoto por outro lado, assistiu-se a uma verdadeira explosão da instalação de turbinas eólicas, com natural primazia para a Dinamarca e a Alemanha, mas também para Espanha.

A evolução da tecnologia de energia eólica em Espanha é particularmente instrutiva, dado que aquele país não participara na história do seu desenvolvimento tecnológico que resumi.
O seu principal fabricante, a basca Gamesa, foi fundada em 1976 como empresa essencialmente metalúrgica mas com o objectivo de explorar tecnologias emergentes, como a microeléctrónica, os materiais compósitos e a aeronáutica. Em 1993 produzia para a indústria aeronáutica asas, peças de fuselagem e partes de motores de avião e, praticamente ao mesmo tempo (1994), constituiu um ramo para a produção de turbinas eólicas, que é hoje em dia a sua principal aposta e cuja I&D ocupa, só por si, 600 investigadores. Sendo o terceiro fabricante mundial de turbinas, emprega mais de 7 mil trabalhadores e já instalou fábricas de montagem nos dois países cujo mercado está em maior crescimento: EUA e China. Vale a pena notar que, partindo de uma base tecnológica já de si favorável, a Gamesa, seguida por outros fabricantes espanhóis de turbinas eólicas (que no conjunto empregam cerca de 21 mil pessoas), se iniciaram na produção de turbinas com tecnologia própria na primeira metade dos anos 90, bem antes do protocolo de Kyoto mas quando as negociações internacionais climáticas de iniciativa europeia já permitiam antever o que aí viria - desde que se tivesse visão, claro...

Outro grande fabricante mundial actual que entrou no mercado mais ou menos na mesma altura (anos 90) foi a indiana Suzlon, cujo volume de vendas é 2/3 do da Gamesa, que ocupa a 5ª posição mundial como fabricante na pégada dos anteriores, e cuja história também é instrutiva.

Na Índia a energia eléctrica é cara e de má qualidade, o que torna economicamente viável a produção eólica mesmo sem subsídios, desde que o preço do barril de petróleo esteja acima dos 40 USD - embora o carvão seja a fonte de energia primária de 85% da electricidade indiana, complementada por nuclear.
Os fundadores da Suzlon foram o Sr. Tanti e os seus irmãos que, sendo empresários texteis, começaram por comprar uma turbina eólica alemã de que tinham de fazer a manutenção, acabando por decidir abandonar os texteis e fabricar turbinas dessas a partir de 1995. Beneficiando do enorme mercado interno e mais tarde do chinês, viriam a aproveitar o boom da actual década, em que a potência mundial instalada de origem eólica tem duplicado cada três anos!
Porém, a tecnologia indiana é relativamente fraca, com frequentes fracturas das pás das turbinas exportadas para os EUA (sempre o mesmo velho problema...) e, por isso, a empresa tem recorrido fortemente à contratação de especialistas europeus, tendo sediado importantes centros de I&D na Bélgica, Holanda e Alemanha (Hamburgo), cujos resultados são depois endogeneizados na Índia.
Nesta sábia estratégia de "se não podes criar a tecnologia nem espiá-la, compra empresas que a tenham", o passo mais importante da Suzlon foi a compra da REpower alemã à Areva francesa.
A REpower é um fabricante de porte comparativamente pequeno mas que domina a tecnologia da aerodinâmica e materiais das pás das grandes turbinas, fabricando das maiores que existem. Enquanto investimento, a REpower era também uma aposta da francesa Areva (cuja actividade central é a indústria nuclear) mas, perante a determinação da Suzlon, a Areva aceitou vender os seus 30% da REpower à Suzlon. (Nota: esta história sobre a disputa da Suzlon com a Areva pela compra da REpower tinha vários erros na versão inicial, que foram corrigidos em 7/10/09 - nomeadamente, a Areva nada tem a ver com a Alstom, embora se fale numa fusão entre ambas).
Porém, dado o capital envolvido, a Suzlon estabeleceu uma parceria para essa compra, realizada em 2007, com a... portuguesa Martifer! Mas a lei alemã exige a posse completa de uma empresa para se lhe poder aceder à tecnologia e, por isso, um ano depois a Suzlon comprou à Martifer a parte desta. A Martifer, que explorou a disputa de oferta de preços entre a Areva e a Suzlon, realizou, assim, um negócio financeiro espertinho e nem deve ter chegado a perceber o objectivo estratégico industrial da Suzlon, embora esta vá dizendo (como sempre se diz nestas compras, de início, para não afugentar clientes nem colaboradores-chave), que não vai interferir na gestão da REpower nem tirar-lhe a tecnologia...

Turbinas de 6 MW da REpower e da Enercon alemãs. Note-se o homem minúsculo entre as duas primeiras turbinas...

A estratégia da Suzlon é admirável porquanto, como é sabido, quando da emergência de uma nova tecnologia de grande valor comercial, a expansão comercial como função da tecnologia obedece a uma "curva em S". Presentemente nas turbinas eólicas está-se na fase intermédia de forte subida do "S" e, nestas condições, qualquer concorrente que ofereça algo que funcione consegue manter-se no mercado (como sucedeu na época do boom da informática dos PC na década de 90). Mas, fatalmente, o mercado há-de chegar à zona superior estabilizada do "S" e, nessa altura, só os concorrentes com fortes vantagens tecnológicas de produto ou de produção conseguirão manter-se. A aposta da Suzlon de compra de tecnologia europeia manifesta, pois, que está nisto para ficar!

Finalmente merece referência a história da tecnologia chinesa, de que dois fabricantes estão já na lista das "10 maiores", depois das anteriormente referidas. E merece referência para se entender como funciona o mercado e a indústria no país que tem o mais rápido desenvolvimento do mundo e 1/5 da população deste, cujo Partido Comunista no poder definiu "a rota capitalista para o socialismo".

A estratégia da China para a energia eólica começou com a sua inclusão no plano quinquenal do Partido para o desenvolvimento do país, originando directamente a criação da Goldwind Science & Technology em 1998, na sequência de Kyoto e já com uns anos de atraso relativamente às concorrentes estrangeiras.

Ao fim de um ano a empresa maioritariamente estatal Goldwing tinha um protótipo pronto, e com mais três (2002) iniciava a produção em massa, mudando a séde para Xangai e tendo obtido autorização do Partido para prosseguir os seus desenvolvimentos tecnológicos em obediência às directivas do 10º Plano Quinquenal. Em 2006 detinha 1/3 do mercado chinês, onde liderava, e ascendia à posição de 10º fabricante mundial de turbinas, ...atingindo a liderança mundial neste ano de 2009!!!

O crescimento da geração eólica, promovido por uma directiva do Partido para que 10% da energia proveniente das duas novas centrais a carvão lá construídas por semana seja compensada por fontes renováveis, assim como tarifas subsidiadas (10% acima das usuais), tem sido tão rápido que se estima que mais de 1/4 das turbinas eólicas montadas estejam paradas por falta de ligação à rede eléctrica, que muitas delas tenham sido montadas em locais sem vento, e que a intermitência deste coloque sérios problemas à gestão das redes eléctricas (problemas típicos do planeamento centralizado burocrático )! De qualquer modo, dos fabricantes estrangeiros, o que tem maior penetração na China (aliás como na Índia) é, de forma esmagadoramente dominante (37% do mercado, mais de metade da quota de importação), a dinamarquesa Vestas, ainda líder mundial. A Alemanha ocupa 14% do mercado chinês, mas a Espanha também consegue 5,5% desse gigantesco mercado!...

A qualidade das turbinas chinesas é fraca (muitas partem as pás e o eixo ao fim de poucas semanas - sempre o mesmo velho problema...), e a China ainda não exporta turbinas. Mas a lei chinesa requer que 70% do valor das turbinas instaladas seja de fabrico nacional, o que tem obrigado os exportadores estrangeiros a abrirem fábricas lá. Considerando a prática tradicional chinesa de usarem isso para aprender a tecnologia estrangeira e depois passarem a usá-la nas suas próprias produções, vale a pena notar que o custo de produção das turbinas chinesas é de apenas 70% do das estrangeiras, o que permite antever uma séria ameaça aos actuais líderes europeus no que respeita, pelo menos, ao mercado chinês.

É também de notar que a reacção chinesa ao protocolo de Kyoto foi a de o não subscrever mas iniciar de imediato o desenvolvimento da base industrial para o cumprir! É muito provável, pois, que 12 anos depois de Kyoto, em Dezembro próximo em Copenhague, a China reapareça agora a defender a descarbonização das economias (até porque a estratégia que aplicou no vento também a aplicou no carvão, no solar, etc).

Como ficará claro adiante, a estratégia chinesa desde Kyoto foi exactamente a oposta da portuguesa.

  • Chaves tecnológicas e valores acrescentados na construção de turbinas eólicas

Quanto maior for uma turbina eólica, mais potência pode gerar. Por um lado, esta potência aumenta com o quadrado da área varrida pela hélice (pás de 44,7 metros geram 5 vezes a potência de pás de 20 metros), e por outro lado quanto mais alta for a turbina mais vento apanha (o vento é mais forte nas alturas). Ora a potência que se pode tirar do vento aumenta com o cubo da sua velocidade (de um vento a 38 km/h tira-se o dobro da potência que se tira de um vento a 30 km/h), e como quanto mais alta for a turbina maiores poderão ser também as pás da sua hélice, facimente se percebe o interesse em ter turbinas altas e com grandes pás de hélice.

Duplicar as dimensões das pás de uma turbina e triplicar a altura da sua torre pode, como ordem de grandeza, aumentar 8 vezes a sua potência (dependendo das zonas).

Infelizmente, o aumento das dimensões das pás e da torre de uma turbina também lhe aumenta o peso, e sobretudo os esforços mecânicos a que as pás, o seu eixo, e a torre são submetidos. Pás de hélice como as fotografadas aqui, fazendo uma rotação completa cada 3 segundos, podem atingir nas extremidades velocidades de 300 km/h! As forças a que as pás são sujeitas são enormes!

Porém, um dos maiores problema dessas forças é que elas são diferentes quando a pá da hélice passa ao alto e passa em baixo, por causa da diferença de velocidades do vento com as alturas. Isso sujeita as pás e o seu eixo a torsões cíclicas que tendem, com o tempo, a "fatigá-los" e a acabar por os partir. O uso de 3 pás em vez de apenas duas (como se usaram inicialmente - vd fotos acima das turbinas Hutter) é uma das soluções para reduzir esses esforços no que respeita ao eixo.

Outro problema é que a rotação das turbinas cria inércia giroscópica (a mesma que explica porque as bicicletas não caiem quando em movimento), o que acarreta que para reorientar o eixo de uma turbina de modo a que ele se alinhe com o vento, quando este muda de direcção, são precisas forças enormes que também tendem a "fatigar" e partir o eixo e os encaixes das pás.

Além dos problemas indicados, as pás devem ter uma forma que optimize a energia que são capazes de extrair do vento e devem ser leves, mas rígidas. Trata-se de um tipo de problemas comum no projecto de aviões e, por isso, não é de admirar que os especialistas iniciais do assunto (como Hutter) e algumas das indústrias associadas (como a Gamesa) fossem especialistas em aeronáutica, embora os aerogeradores tenham problemas específicos diferentes dos dos aviões. Mas, também nos aviões, foi preciso tempo para que dos leves biplanos e triplanos da Grande Guerra se passasse aos monoplanos da Guerra Mundial e aos jactos com asas de geometria variável actuais...

O fabrico das pás das hélices e o crescimento do seu tamanho ocorrido na última década está fortemente associado ao uso de novos materiais e às respectivas técnicas de fabricação. Basicamente feitas de plásticos (polímeros) reforçados com fibra de vidro laminada, são em regra endurecidas com resinas epox cujo vazamento tem de ser perfeitamente homogéneo, e há uma tendência recente para o emprego de fibras de carbono. As soluções variam com os fabricantes e estão em permanente evolução, e é óbvio que a estrutura das enormes pás das hélices (desejavelmente leves mas muito rígidas e resistentes) é o problema técnico mais difícil das turbinas eólicas.

Uma outra tecnologia chave é a do controlo da electrónica de energia das modernas turbinas. Se até há poucos anos esse controlo procurava apenas extrair o máximo de energia do vento permitindo, por exemplo, que a velocidade de rotação da hélice acompanhe a velocidade do vento até certo ponto, o que muito aumenta o rendimento da turbina, à medida que a quantidade de potência eólica instalada começou a tornar-se importante, as redes eléctricas a que elas se ligam começaram a exigir que as turbinas conseguissem suportar as perturbações que sempre existem nessas redes, e que as características da potência a que operam fossem controláveis, como nas centrais convencionais.

As soluções para estas exigências de qualidade passam pela adaptação quer dos algoritmos de controlo, quer pela própria electrónica de energia que equipa as turbinas modernas, e são um dos pontos de forte competição actual entre os fabricantes, com algumas tecnologias a poderem mais facilmente que outras cumprir estas exigências de qualidade. É particularmente instrutivo verificar que, nesta qualificação das turbinas eólicas, existe uma clara colaboração entre as autoridades públicas, as empresas de electicidade responsáveis pelas redes dos países onde a indústria de turbinas é forte, e esta indústria, quer pela colaboração atempada com os fabricantes nacionais, quer por a exigência de funcionamentos de qualidade ser uma forma de barrar mercados a concorrentes estrangeiros eventualmente mais baratos mas menos qualificados, sobretudo quando se traduz em normas com força legal. Ora, é ilustrativo verificar que, nesta matéria, Portugal está completamente a Leste do que está a acontecer no mundo, como já manifestei neste blog!...

Finalmente, e após ter procurado dar uma ideia das dificuldades tecnológicas associadas à produção de energia eólica (consumir tecnologia é fácil, mas não é isso que torna alguém evoluído), penso merecer ainda uma menção o valor que poderá ter a simples fabricação ou montagem de turbinas projectadas por outrem, e com processos de fabrico (nomeadamente nas componentes críticas) também projectados por outrem.

O custo das partes de uma turbina eólica moderna somado fornece o custo da sua produção (70%), mas a que se soma ainda o do seu transporte e instalação no terreno (30%).

Nestas partes de uma turbina, as pás e o respectivo eixo rotativo de suporte valem perto de 30%, a torre e mecanismos de posicionamento da barquinha superior 20%, e os restantes 50% são pelo conjunto do gerador+electrónica de energia+caixa de velocidades (caso exista). Obviamente que o projecto da turbina é integrado e é a chave da sua viabilidade, mas do ponto de vista da simples fabricação, projecto áparte, é esta a divisão principal de custos.
Destas partes, as que incorporam maior volume de trabalho operário são a fabricação das pás das hélices e a electrificação do gerador e partes associadas (ligação de cabos), que o documento acima linkado estima em 15% do respectivo custo total.

  • As opções feitas por Portugal: modernismo, ou incompetência e fraude?

Todo o trabalho de I&D nas tecnologias de turbinas eólicas que conduziu, ao fim de 70 anos, à maturidade que a geração eólica tinha atingido por volta de 1994, passou ao largo de Portugal.

Portugal acordou para a energia eólica no Governo de Guterres, em 2001, com o Prof. Oliveira Fernandes da FEUP, mas acordou apenas... como consumidor! E nisto é que, de facto, fomos pioneiros e somos líderes mundiais.

De facto, todos os outros países, sem excepção, que apostaram na instalação e consumo de energia eólica tinham previamente desenvolvido uma indústria de turbinas com tecnologia própria, como historiei, e os que não tinham ou têm essa indústria e tecnologia nacionais têm continuado no grosso do pelotão, tentando ficar o mais possível na reactaguarda sem dar nas vistas - como é o caso da Suécia, Noruega, Finlândia, Bélgica, Holanda, Polónia, Bulgária, Roménia, República checa, Eslováquia, Itália, Suiça ou França! E isto para só falar da Europa, a campeã de kyoto e das renováveis...!

Os casos mais paradigmáticos de como se atrasou a adesão ao consumo de energia eólica para dar tempo primeiro ao desenvolvimento interno de tecnologia própria e indústria nacionais de turbinas foram, sem dúvida, a China e os EUA, como historiei, e cuja abertura às importações visa pressionar os actores nacionais para a evolução tecnológica, mas sem que percam o controlo sobre os respectivos mercados. Além da China que, como mostrei, exige 70% de incorporação chinesa nas turbinas instaladas (começou por só exigir 57%...), também os EUA dão incentivos na forma de créditos fiscais à fabricação feita no seu país. Nenhum país, repito, nenhum excepto Portugal, permitiu a inundação do seu mercado de geração de electricidade por equipamentos importados de energia renovável subsidiada sem criação de qualquer emprego industrial no país!

De 2001 até ao presente (2009), e sobretudo desde 2003, a importação e instalação de turbinas eólicas foi fulgurante. Em Junho passado estavam instalados 3335 MW de turbinas eólicas, e até ao final do ano a DGEG espera ter a instalação de um total de 3800 MW, 3/4 de todo o potencial eólico nacional, num investimento que se pode estimar em 4,2 biliões de €, dos quais uns 3 em equipamento importado e o restante em trabalhos de instalação - sem mencionar os investimentos que a EDP e a REN tiveram de fazer para ampliar as redes de forma a integrar essa energia! Estavam também já licenciados, em Junho, mais 442 MW, o que totaliza mais de 80% do potencial eólico português!

Ou seja, o mercado nacional para turbinas eólicas aproxima-se muito rapidamente do esgotamento. Que empregos, portanto, poderão vir a ser agora criados pela energia eólica em Portugal?

Ora foi só em 2006 que o Governo português sentiu a incomodidade de promover a forte subsidiação da indústria estrangeira de turbinas eólicas - facto único no mundo! - sem qualquer criação de riqueza no país e começou a falar na criação de um "cluster eólico". Já a importação e instalação de turbinas estrangeiras levava 5 anos! Verdade seja dita que, mesmo assim, foi preciso chegar ao Governo actual para que a vergonha da situação fosse sentida mas, infelizmente, rapidamente se passou à pura propaganda mistificadora.

As promessa de milhares e milhare de empregos soam por todo o lado, mas o prometido "cluster eólico" teve a primeira fábrica a operar apenas no fim de 2008, e com apenas 800 operários não-qualificados. A EFACEC assegura a electrificação dos geradores nas barquinhas e dos parques eólicos à rede mas, obviamente, isso é uma actividade não-exportável que se esgotará quando se esgotar a total ocupação do potencial eólico nacional, muito em breve.

O projecto do "cluster eólico" baseia-se num investimento liderado pela Enercon, o fabricante alemão preferido pelos decisores dos concursos públicos concessionários dos "pontos de ligação" à rede das eólicas, cobre em princípio todas as fases da fabricação e anuncia que, quando completo, empregará 1800 pessoas (na região de Viana do Castelo) e terá comportado um investimento directo estrangeiro de 0,1 biliões de € (2% do investimento nacional total na energia eólica). Há ainda e finalmente a generosa dádiva de 35 milhões de € a Portugal para que este comece a investir na tecnologia eólica (sob tutela de um "fundo" cuja Administração foi nomeada pelo Governo, e já só em 2009)...

A questão que se coloca é como se poderá sustentar tal "cluster industrial", uma vez esgotado (em breve) o mercado nacional, que apenas acrescente o valor da mão de obra nas partes cujo fabrico não pode ser robotizado e que, segundo o documento linkado acima, não constituirá mais de 15-20% do valor da turbina, considerando que:

  1. Como Portugal não tem qualquer know-how no assunto, está completamente dependente da Enercon;
  2. Os custos de transporte das turbinas eólicas é tremendo, dada a sua dimensão, o que recomenda fortemente a fabricação local nos mercados de exportação;
  3. Os maiores mercados emergentes, os dos EUA e da China, subsidiam ou impõem a fabricação local, o que se soma à redução dos custos de transporte;
  4. Os mercados próximos, europeus, ou estão perto do esgotamento, ou protegem os seus fabricantes nacionais.

De tudo o que foi exposto, não se vislumbram razões para acreditar que estas fábricas sobrevivam ao esgotamento do mercado nacional das eólicas. Não têm condições de sobrevivência. Não se trata de uma indústria como a de automóveis da Auto-Europa onde existe um mercado relativamente estável; o mercado destas fábricas é um mercado em explosão, mas que na Europa está já quase esgotado. Que ficará praticamente esgotado em Portugal muito em breve.

Na verdade, face aos 4 bilões de € totais que terão rendido aos fabricantes estrangeiros o investimento português em energia eólica, gastar 2,7% disso numa acção de promoção política pedida pelo governo português para fazer umas fábricas que são para fechar poucos anos depois, não parece grande comissão.

quarta-feira, setembro 16, 2009

O sonho da razão

Após iniciar este blog, há cerca de 2 meses, descobri, por alguns emails e comentários que recebi, a existência de dois partidos na blogosfera no que diz respeito às questões climáticas e energéticas, e que desconhecia completamente.
De um lado estão os ecotópicos, os fundamentalistas pós-modernos das renováveis, das "redes espertinhas" e outros combates contra "a grande conspiração do lobby petrolífero", sobre os quais já afirmei as minhas distâncias. Andarão pela ala esquerda do BE.
Do lado oposto estão os que não reconhecem sequer a existência de alterações climáticas antropogénicas e até que haja algum aquecimento global em curso, que raciocinam como os criacionistas e que combatem "a grande conspiração do lobby ecológico", que odeiam de morte Al Gore e que, por alusões ouvidas na TV, concluo terem a concordância ideológica do PNR.

Existe também outra luta extremada, no que respeita às opções energéticas e obviamente associadas a interesses económicos mas também de protagonismo.
De um lado estão os militantes das energias renováveis, desde há uns anos dominando o panorama nacional e até o europeu, e cujos excessos tenho procurado mostrar.
Do lado oposto estão os advogados da opção nuclear, sobre a qual ainda não me debrucei aqui mas que tenho em agenda para breve, quando concluir algumas recolhas de dados que tenho em curso. De momento não emito nenhum juízo de valor; apenas constato que o que defendem é inaceitável para os ecotópicos e dificilmente aceitável também pela maioria dos Governos da União Europeia.

Entre estas lutas de extremos de ideologia e de interesses, sinto-me por vezes na pele de Azaña entre a FAI e a Falange, nos anos 30, cujo "sonho da razão" foi ignorado por quase toda a gente, na altura, e que teve de esperar 40 anos e meio milhão de mortos numa guerra inútil para ver Espanha adoptá-lo...

Espanha na véspera da guerra civil, por Dali

Eu não pretendo ser um especialista em climatologia. E é precisamente por isso que confio nas posições da ONU nesta matéria, e do seu Painel Inter-Governamental para as Alterações Climáticas (IPCC). Em quem haveria de confiar? Além disso parece-me plausível que o tremendo crescimento da população humana sobre um planeta finito o afecte. Como os vírus, que são pequeníssimos mas podem multiplicar-se ao ponto de matar o hospedeiro... E é aliás essa a explicação principal do próprio IPCC, que atribui metade do Aquecimento Global ao crescimento da população. A outra metade atribui-a à melhoria de vida dessa população crescente.
E depois, não me venham dizer que nos últimos 15 anos o Árctico está a arrefecer e que as observações da NASA que Al Gore nos divulgou são "tretas", que também não tenho paciência para quem nega o darwinismo!

Que haverá enviesamento nos editores das revistas científicas que recusam publicar o que saia do que se torna "politicamente correcto" nesta matéria, acredito. Ainda há dias vi no canal Odisseia a história de como a demonstração experimental de que a variação periódica da radiação cósmica afectava a formação de nuvens e, com isso, a reflexão da radiação solar e da temperatura na Terra, só conseguiu ser publicada à 4ª revista tentada (embora depois o assunto tenha sido largamente investigado concluindo-se que o tal efeito não podia explicar o Aquecimento Global em curso).

Muitos investigadores têm a experiência de como descobertas científicas que se chocam com consensos estabelecidos nos comités decisórios das revistas são em regra rejeitadas, inicialmente. E também sabemos que o mundo dos cientistas não é puro e isento: tem todos os defeitos de qualquer comunidade de humanos e é sobretudo dependente de quem financia as investigações, que, no que respeita à Ciência sem aplicação comercial, ou seja, no que respeita a financiamentos públicos, geralmente escolhe o que financia em função das modas e das crenças dominantes...

Por outro lado, há evidentes lobbies económicos e políticos por detrás das posições científicas que têm repercussões políticas.

As grandes petrolíferas começaram por negar o Aquecimento global e por convencer Bush que ele não existia - embora depois tenham concluído do interesse em passarem para o lobby contrário, onde agora se encontram promovendo as renováveis (para os media) e até financiando-as (como a BP Solar). Os criacionistas são, em geral, propensos a acreditar que se Deus fez o mundo como ele é, não o ia depois deixar aquecer (embora o senador McCain já não alinhasse nessas visões à Bush).

Mas também lobbies das renováveis! E que cavalgam a onda ideológica "verde" para ganhar muito dinheiro à custa dos contribuintes!

Porém, e apesar de tudo isto e no que respeita à climatologia, acredito que é ainda dentro da sua comunidade científica que as visões divergentes têm de se confrontar. É assim que a Investigação científica funciona e sempre funcionou, mesmo quando os "good guys" são transitoriamente desprezados. Até Einstein, em 1927, se riu do jesuíta Lemaître e disse que o conhecimento de Física deste era "abominável", por ele lhe ter escrito a notar que da sua teoria da relatividade se deduzia ter havido um Big Bang e portanto uma origem do Universo, dois anos antes de Hubble constatar o desvio para o vermelho da luz das galáxias mais distantes...

Mas é curioso ver como ecotópicos e criacionistas se equivalem na psicologia e atitudes.

Os criacionistas negam o Aquecimento global e dizem que tudo o que se publica cientificamente sobre isso não passa de uma grande conspiração dos ecologistas e de interesses de lobbies industriais ligados às renováveis.

Mas há um outro domínio em que exactamente o mesmo comportamento se vê à esquerda, nos que afirmam teimosamente a existência de malefícios para a saúde pública resultantes das "radiações electromagnéticas" das linhas de Alta Tensão e que recusam terminantemente as posições da OMS (uma instituição tão da ONU como o IPCC) sobre o assunto, bem como toda a ciência que se publica sobre o assunto, acusando-a de estar vendida ao lobby das "eléctricas"...!

O Sonho da Razão é difícil de defender, neste mundo terreno de paixões...!

terça-feira, setembro 15, 2009

Pás de uma eólica em trânsito





Fotos de Agosto, algures no Midwest dos EUA. Estavam a pensar montar disto no quintal? :-)
E a propósito: gasolina a 2,69 USD... por galão! 0,50€/litro... e, mais a Sul, encontra-se a 0,44€/litro, praticamente 1/3 do que custa em Portugal!

Custos da energia eléctrica

Só para situar melhor a estimativa apresentada no post anterior sobre os custos de produção da energia eléctrica em função do tipo de central usado, convém recordar que o preço no consumidor da electricidade é, presentemente, de cerca de 15,5 ç/kwh em média para o consumo doméstico e 10 ç/kwh para o industrial, sem IVA mas somando a parcela da "potência contratada".
São valores dentro da média europeia, mas quase duplos dos praticados na Turquia, Letónia ou nos EUA e muito superiores aos verificados nos países da Europa de Leste, e mesmo aos espanhóis.
Nos 15,5 ç pagos por nós, cerca de 6 ç correspondem ao custo (investimento e exploração) das redes de Transporte e Distribução que nos trazem a energia a casa, e cerca de 7,5 ç ao preço da energia fornecida pelas centrais. Os restantes 2 ç pagam diversos serviços e encargos da gestão do sistema eléctrico, e é de notar que dos cerca de 6 ç de custo das redes, mais de metade (uns 3,5 ç) são pagos como "potência contratada", antigamente mencionada com infelicidade como "aluguer do contador", parcela que na verdade paga o custo da rede, que tem de estar lá para que possamos consumir a energia quando a quisermos, consumamo-la ou não.
A diferença entre preço propriamente da energia, os cerca de 7,5 ç, e o valor médio do custo de produção das centrais existentes, e que andará quiçá pelos 6,5 ç, é o prémio (lucro) pago aos produtores. No entanto, como um comentador já me chamara a atenção, o preço pedido no mercado ibérico ultimamente, mercado dominado pelos produtores espanhóis mas onde estamos integrados, é de apenas cerca de... 4,0 ç/kwh!!!
Este preço não significa que os custos de produção espanhóis sejam esses, mas sim apenas os seus custos variáveis, ou seja, que há excesso de oferta. Uma vez satisfeitos os custos fixos (investimento, operação e manutenção), podem vender, se houver excesso de capacidade, ao custo variável (nulo nas eólicas) mais um pouco para acelerar a amortização ou em puro lucro...
Esta concorrência só não arruina completamente os produtores nacionais devido aos vários esquemas proteccionistas de que beneficiam, nomeadamente o estrangulamento da rede de interligação a Espanha, que tem 8 reactores nucleares. Aliás, defender tal liberalização em nome do em princípio saudável princípio da concorrência, equivale de facto a entregar a produção da nossa electricidade a Espanha, coisa que não sei se ocorre aos arautos dessa "maior concorrência".
Mas por aqui se pode avaliar o caminho que Portugal tem vindo a tomar em matéria energética, e a enormidade que constituem as propostas de centrais solares, com custos de produção acima dos 34 ç/kwh, ao mesmo tempo que temos de recorrer à importação!...

sexta-feira, setembro 11, 2009

Inacreditável!

Como que a propósito do que aqui escrevi sobre a energia solar, o Público de hoje tem em primeira página a notícia de que alguém se prepara para nos fazer pagar uma central solar similar à que vai ser construída na Mongólia interior e de que aqui falei.
Nem posso acreditar!
Mesmo que a central apenas custe só 6 biliões de €, do que duvido, isso significa um custo de 3€/w, 2,2 vezes do que custa presentemente, em média, uma turbina eólica. Porém, a utilização média da potência de ponta de uma eólica é, por cá, de 25%, enquanto a de uma central solar com seguimento do Sol é de apenas 21,5%, pelo que para a mesma potência, uma solar produz 21,5/25=85% da energia da eólica. Acresce a isto a maior manutenção requerida pela solar, que precisa que se lhe limpe os painéis regularmente.
Por conseguinte, o custo de investimento para a produção do kwh solar será de pelo menos 3 vezes o do eólico.
Ora para que o eólico seja rentável já tem de ser fortemente subsidiado, dado custar mais do dobro do que custa o kwh gerado pelas fontes convencionais de energia! Veja-se, pois, o que custará em subsídios uma energia ainda 3 vezes mais cara!...
E isto só no que respeita ao investimento na central! Porque nas poucas horas em que a Central funcionar à potência máxima, a meio dos dias de Verão soalheiro, a rede terá mesmo de escoar os 2000 MW, quase o equivalente ao que produzem duas centrais de Sines! Nem todo o país tem capacidade para encaixar isso, daí a necessidade de criar rede que escoe isso para lá dos Pirinéus...
Mas como, em média, a central só produzirá 21,5% disso, na verdade gerará menos de metade da energia produzida pela referida central de Sines (que é "só" de 1250 MW)!
Um "cluster" nacional para a sua produção? Continuam a brincar connosco!!!
Penso que se alguém no Governo, na REN, ou qualquer outra instância pública, apadrinhou esta ideia, deve ser imediatamente preso!

quarta-feira, setembro 09, 2009

Ainda sobre os Gases causadores de Efeito de Estufa: calma!

Tenho lido com regularidade que o consumo dos combustíveis fósseis seria responsável pela emissão de 85% do total dos GEE (Gases de Efeito de Estufa). E tenho lido esse número tanto para justificar a apologia das energias renováveis, como da energia nuclear!...
Sem pôr em causa os estudos do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC) da ONU, que sintetizam os resultados largamente consensuais da comunidade científica internacional, acho útil, entretanto, esclarecer que os referidos 85% exageram em muito o papel poluidor do uso dos combustíveis fósseis, como aliás eu já analisara aqui.
De facto, e segundo o próprio IPCC, de cujo relatório mais recente (2007) extraio a figura anexa, a estimativa de contribuição para os GEE dos combustíveis fósseis é pouco mais de metade. O resto vem sobretudo do uso dos solos, em última análise do enorme crescimento da população humana verificado sobretudo no último século, num planeta que é finito.

Note-se, entretanto, que este gráfico não pretende ilustrar um cálculo exacto.

Com efeito, o próprio IPCC explica, no seu sumário técnico do referido detalhado relatório de 2007, que relativamente aos valores de metano (CH4) e gases nitrosos (N2O), os dados apresentados têm incerteza de 30 a 50%, e que as emissões de CO2 da agricultura e desflorestação ainda sofrem de incertezas maiores!...

Mas, mesmo aceitando como suficientemente precisa a distribuição de parcelas de GEE ilustradas na figura anterior, também não é verdade que o CO2 resultante do uso de combustíveis fósseis resulte todo da produção de energia eléctrica e dos transportes, como se mostra na figura seguinte.

A indústria, particularmente as refinarias, as siderurgias e as cimenteiras, consomem directamente combustíveis que produzem mais CO2 que os transportes!

E, nos GEE de origem residencial inclui-se a queima de lenha para aquecimento.

Não pretendo com esta nota contestar a necessidade de energias renováveis e da "descarbonização" dos transportes! Apenas penso ser importante pôr as coisas na sua correcta perspectiva: será preciso muito mais do que adoptar automóveis eléctricos ou encher os telhados de painéis solares para salvar o mundo do Aquecimento Global, até porque mesmo nos transportes 1/4 dos GEE são emitidos pelos navios e aviões, e não pelo transporte rodoviário... e, sobretudo, será preciso que muito mais população mundial do que a que subscreveu Kyoto se envolva no processo!

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Como que de propósito justificando o intento do texto acabado de escrever, acaba de ser publicado mais um relatório do "Transatlantic trends 2009" promovido entre outras pela nossa FLAD e que, relativamente à apreciação sobre as alterações climáticas, diz que "Muito preocupados" com as alterações climáticas estarão 40% dos americanos e 48% dos europeus, e que, entre estes, na Europas Central e Oriental serão 37%, mas que os portugueses são os "mais ansiosos" com 62%!!!

A propaganda do Governo e dos ecotópicos faz mesmo efeito!

Energia solar: negócios portugueses e as perspectivas mundiais

No regresso de férias recebi na caixa de correio uma "oferta" de uma empresa que, por 25.200 €, se propunha tornar-me um "microprodutor" pela instalação de um painel solar fotovoltaico na forma de um "kit" de 3,68 kW, o qual me permitiria vender à EDP energia a 0,6175 €/Kwh e recomprá-la depois, da mesma EDP, a 0,121 €/kwh. Embora o folheto o não explicasse, o painel solar do referido kit não terá menos de 25 m2 (cerca de 6 x 4,25 m), ocupando considerável área do telhado. Uma rápida pesquisa permitiu averiguar que a empresa em questão é um obscuro empreiteiro de província.

Dizia-me o folheto que eu ganharia com isso em média 300 €/mês isentos de IRS, além de que poderia deduzir à colecta de IRS 796€ do investimento de 25200 € (mas que na verdade não é aplicável se a casa já estiver adquirida). Quanto aos custos de manutenção e de instalação do "kit" o folheto era omisso, mas pode-se presumir que a vida útil do "kit" seja de 20 anos, com substituição eventual do conversor por volta dos 10 anos. A manutenção terá de incluir a limpeza regular, já que a acumulação de pó reduz o rendimento dos módulos até 50%.

Umas breves contas sobre os dados do próprio folheto mostram que a energia produzida estimada aproveita em média apenas 15% da potência indicada de 3,68 kW, tendo em conta as noites, os períodos de céu nublado e as condições frequentemente não ideais de exploração, nomeadamente o ângulo variável de incidência da luz do sol ao longo do dia. É um valor típico das médias mundiais dos módulos solares.
Um rápido cálculo financeiro mostra também que, excluindo custos de manutenção e considerando as taxas de juro especiais oferecidas para o efeito pela Caixa Geral de Depósitos, o prazo de amortização do referido investimento andaria pelos 8 anos, se a tarifa se mantivesse a mesma. Porém, a referida tarifa só é "oferecida" pelo Governo para os primeiros 5 anos (facto "esquecido" no referido folheto), descendo a partir de então para o valor em que estiver na altura e que, com elevada probabilidade e pelo que adiante é discutido, será pouco superior à tarifa de compra. Quer isto dizer que com elevada probabilidade a instalação só estará de facto amortizada ao fim de 20 anos, o tempo de vida do equipamento e que, portanto, se trata de um investimento com interesse nulo enquanto negócio!

Tendo em conta que a energia produzida pelo vento custa à EDP quase o mesmo preço pela qual é depois vendida (0,1 €/kwh), o dobro do que custa a do carvão, já considerando os 0,2 €/kwh de "multa" pelo CO2 emitido pela queima deste e imposta pelo protocolo de Kioto, vemos que esta energia solar custará à EDP, presentemente, 6 vezes o que lhe custa a eólica e cerca de 15 vezes o que custa a extraída do carvão, "multa" pelo CO2 àparte (que os maiores consumidores mundiais de carvão para a produção de Energia, os EUA e a China, não pagam porque não subscreveram Kioto).
Poder-se-á argumentar que, sendo essa energia eléctrica produzida junto ao consumidor, a EDP poupa os encargos com o seu transporte e distribuição a partir das centrais usuais e que, portanto, o custo a comparar com os 0,62€ não será o da energia à boca dessas centrais mas o acrescido do seu transporte e distribuição, ou seja, perto dos 0,114€ pagos pelo consumidor. Mesmo assim é evidente que se trata de uma subsidiação de 0,55 €/kwh.
Por conseguinte, o custo desta energia solar é totalmente subsidiado pelos impostos cobrados pelo Estado e pelo défice da EDP, ele também a ser pago um dia, mais cedo que tarde, pelos consumidores, e pelo próprio "microprodutor", enquanto financiador e sobretudo pela disponibilizaçã0 da área de colocação dos painéis.
E o que subsidia ao certo esta estratégia energética?

Portugal é o único país que tem uma política generosa de subsidiação às energias renováveis por motivos apenas ideológicos. Porque, espantosamente e ao contrário de todos os outros países que subsidiam a procura interna de energias renováveis, Portugal não tem indústrias próprias de equipamentos produtores de energia renovável. Não as tem para a campeã eólica, e também as não tem para a energia solar!
Quandoo Presidente da República inaugurou a fábrica de módulos solares da Solar Plus em Dezembro passado, manifestou um entusiasmo talvez excessivo face à modesta dimensão do projecto: um empreendimento puramente financeiro de um consórcio nacional de apenas 15 a 18 M€, com tecnologia e organização totalmente estrangeiras, destinado à mera montagem de componentes importados e anunciando 109 empregos não-qualificados. As referências à "tecnologia inovadora" e à "participação das Universidades" do Presidente seriam encorajadoras se ele estivesse a falar de entidades portuguesas, mas sobre isso admito que o tivessem equivocado. A usual Martifer montará a maior parte dos painéis solares "fabricados" em Portugal mas, como se queixou o dirigente da GEOTA Manuel Santos, "a instalação de colectores solares em 65 mil habitações individuais não vai ter impacto no abastecimento energético do país, gerando apenas negócio para algumas empresas". Na verdade, trata-se de um negócio em tudo similar ao da energia eólica em Portugal, embora em menor escala, essencialmente um comércio de importação alimentado por subsídios públicos. Aquilo a que um antigo pensador político chamava de economia "burocrático-compradora"...

É verdade que o panorama mundial de fabrico de módulos solares é caracterizado por uma estratégia europeia de subsidiação à compra (tarifas "feed-in"), como em Portugal, mas que tem beneficiado sobretudo os fabricantes da Alemanha, até recentemente o país maior produtor destes módulos, aliás como de turbinas eólicas. Também a nossa vizinha Espanha tem várias grandes fábricas com tecnologia própria, particularmente na região de Valença, algumas das quais resultam de projectos iniciados há mais de 25 anos, quando em Portugal o Prof. Leopoldo Guimarães se interessava também pelo assunto na sua Faculdade mas sem que, entretanto, tenha havido no país qualquer iniciativa que transformasse esse interesse científico em produção económica, ao contrário de Espanha e já sem falar da Alemanha...

Ora uma estratégia diferente da subsidiação à compra tem sido a da China, cujos Governos central e regionais têm subsidiado antes a produção, com a exportação dos seus painéis a preços inferiores aos próprios custos marginais de produção (i.e., subtraindo os custos fixos administrativos e de I&D). Com esta estratégia, a quota chinesa do mercado mundial de painéis solares cresceu de 7% para 26% em apenas 4 anos, de 2005 a 2009, enquanto a produção dos EUA, em tempos pioneiro e líder, é agora de apenas 5%. A China acaba de ultrapassar a Alemanha como primeiro fabricante mundial de painéis solares o que, juntamente com a crise mundial de crédito, já criou dificuldades à Q-Cells, o fabricante alemão que detém a 2ª posição mundial como produtor e que teve por isso de despedir há semanas 500 dos seus 2600 trabalhadores. Esta concorrência é agravada, para os fabricantes europeus, pela radical redução da subsidiação à compra pelos Governos alemão e espanhol verificada em 2009. De facto, na Alemanha os políticos não estão para pôr os seus contribuintes a subsidiarem indústrias estrangeiras (como afirmou Markus Wieser, porta-voz da Q-Cells), e a Espanha parece ter a mesma atitude (aliás, só Portugal a não tem). Ora, juntas, a Alemanha e a Espanha constituem 70% do mercado mundial de módulos solares!

A posição da Q-Cells no ranking mundial de fabricantes de painéis foi já alcançada este ano pela Suntech Power Holdings chinesa, e este autêntico blietzkrieg chinês compromete mortalmente também, claro, os parcos investimentos feitos em Portugal na montagem de painéis solares estrangeiros. Diversos especialistas consideram, aliás, que nem a Europa nem os EUA têm hipóteses de concorrerem com a China. A China, entretanto, ainda não instalou no seu próprio território uma única central solar e, a primeira que anunciou, para 2010, exige 80% de incorporação chinesa...
Mas qual é a tendência evolutiva dos preços de produção da energia solar e, portanto, que papel se pode esperar para ela no futuro próximo?

Cerca de metade do custo de um módulo solar está nos painéis, mas a outra metade vem dos conversores electrónicos necessários para a sua utilização e dos custos de instalação. Nos últimos anos, o custo total dos módulos tem baixado, mas isso deve-se principalmente aos conversores electrónicos e à automatização das montagens, e não ao componente principal dos módulos, as células foto-eléctricas.
Inicialmente de silício cristalino (o mesmo material de que são feitos os chips electrónicos), a evolução tecnológica juntou-lhes outras alternativas, das quais a mais rentável é presentemente a de películas finas (thin-film). Embora o rendimento energético das películas finas seja o pior, o seu menor custo de fabrico e maior longevidade compensam largamente esse pior rendimento, levando ao menor custo por kw de potência de pico.
No entanto, existem outras tecnologias em evolução competitiva, todas procurando o menor custo de fabrico por unidade de energia eléctrica produzida, de modo que é possível esperar que, a prazo de alguns anos (digamos, uma década), uma das tecnologias emerja como a consistentemente mais rentável. Porém, como é difícil prever que tecnologia será essa, também o é a forma dos módulos dela derivados e as condições ideais da sua exploração (a opção do "solar concentrado", por exemplo, requer grandes instalações cobrindo áreas consideráveis de terreno). É uma situação similar à existente com as baterias dos (futuros) carros eléctricos.
Presentemente, entretanto, o menor custo de produção obtido experimentalmente e já este ano para painéis solares de película fina é de 1 USD/Kw, um custo que torna o custo de investimento por kwh ainda duplo do da energia eólica (dado que os factores de utilização médios das instalações com painéis seguidores do Sol e das eólicas são respectivamente de 21% e de 25% e que falta ainda contabilizar o custo de investimento da integração dos painéis com os conversores e controladores), mas um recente estudo da Universidade de Berkeley para a Administração Obama mostra que será muito difícil conseguir melhor nos próximos anos.

Face aos custos insustentáveis da energia solar (o sol é grátis mas, tal como o vento, a água dos rios e até o petróleo do sub-solo, o problema é a sua transformação em algo utilizável), não admira que a totalidade mundial das instalações solares produtoras de electricidade não produza mais do que a energia gerada por uma única grande central nuclear ou a carvão!
Como afirma o mencionado estudo da Universidade de Berkeley, "the message ... is that unlike the stock market, we need to think long-term, and plan for the solar power we want to see a decade or more in the future. And that means doing some painstaking basic research on neglected materials that, for now, cost a lot more than a dollar a watt."
Esta é a estratégia recomendada para países que têm estratégias.

Para Portugal, e dada a triste realidade de desde Ferreira Dias não se planear a prazo em termos de política industrial e tecnológica, resta o que o Presidente da República recomenda na sua intervenção acima inserida: "redução do consumo" e "aumento da eficiência energética". Ou, noutros termos quiçá duros mais mais claros: aprendermos a viver pobremente da melhor maneira! E, acrescentaria eu: começar a trabalhar para um horizonte de daqui a uma década...
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Hoje mesmo, o Público on-line dá conta de uma notícia que confirma e completa este post e que pode ser lida aqui com maior detalhe: a China e a First Solar, o maior fabricante mundial de módulos solares (americano) e que ainda supera a alemã Q-Cells e a chinesa Suntech Holdings, acordaram no fornecimento de uma gigantesca central solar de 2000 Mw (potência de pico, correspondendo a 300 MW de potência média, pouco mais de um terço da da nossa central a carvão de Sines), ocupando uma área de 65 km2, na Mongólia interior. O custo previsto para a central é da ordem dos 2,5 a 3 USD/w, muito acima do desejável 1 USD/w que traria o custo da energia produzida pelo solar para um valor ligeiramente inferior à de origem eólica, mas os chineses esperam conseguir reduzir-lhes os custos. Vão também adoptar uma subsidiação à compra dessa energia, para a viabilizar. E, como sempre o têm feito, hão-de usar isso para aprenderem a tecnologia e para terem argumentos para exportar depois para os EUA...

quinta-feira, setembro 03, 2009

A avaliação dos professores, as "Ciências" da Educação e a estratégia da Administração de Obama

Sendo professor há várias décadas e familiar de muitos docentes e alunos, há muito tempo que concordo com Nuno Crato e a sua crítica ao "eduquês", a linguagem da ideologia "romântica e construtivista" da educação, como ele a caracteriza. Ideologia que, nas suas componentes mágicas, relativistas e subjectivistas ("românticas", chama-lhes benevolamente o Nuno), faz parte do pós-modernismo e embebe outra corrente de pensamento que é prima desta, o ecologismo utópico ou "ecotopia".

No domínio da Educação, esta ideologia tem promovido ideias como a da "promoção da auto-estima" dos alunos sem necessidade dela ser merecida e, de um modo geral, o facilitismo, o culto do divertimento e o horror ao esforço e à disciplina (sobretudo à auto-disciplina), a estranheza perante o valor moral do trabalho e a ideia de que combinando "criatividade" e "empreendedorismo" com isso tudo se poderá ir mais longe do que à promoção da chico-esperteza, que é precisamente como se define criatividade sem esforço nem trabalho.

Considero esta política educativa, ao comprometer por uma geração inteira a capacidade dos portugueses fazerem evoluir o seu país e com isso a sua própria qualidade de vida, um verdadeiro CRIME contra Portugal (ou contra o povo português, como preferirem), no que não sou único, como sabe quem tenha ouvido Medina Carreira a comentar!

E no entanto, a ideologia pós-moderna que sustenta esta política é promovida como tratando-se de "Ciências da Educação", em muitos cursos cuja frequência hoje se exige a quem é docente do ensino pré-universitário, mas a quem não se pede que saiba do que ensina, isto é, que saiba efectivamente português, matemática, ciências em geral (naturais e humanas) e línguas! Ora, na verdade, o segredo do bom professor é antes de mais saber profundamente do que se ensina e gostar de o partilhar, no sentido com que Einstein ironisava que só se tinha conseguido compreender verdadeiramente a sua Teoria da Relatividade quando se conseguia explicá-la à mulher a dias, e ainda capacidade de liderança.

A colmatar o já crónico descalabro da educação, que abrange também os programas fantasticamente imbecis e manuais escolares de qualidade frequentemente criminosa (sobretudo no ensino básico), o actual Governo decidiu avançar com um modelo burocrático de avaliação dos professores que os classifica segundo fórmulas complicadas em função de critérios tão pós-modernos como os do ensino que são levados a praticar!

Será que os professores não devem ser avaliados e que devem manter o direito à irresponsabilidade a que décadas de ausência de hierarquia nas escolas os habituaram? Claro que não penso isso!

Porém, qualquer sistema de avaliação deve complementar toda uma estratégia educativa em que o objectivo final seja a qualificação dos portugueses, e deve estar ao seu serviço como mais uma das suas ferramentas, a par de programas sensatos e correctos, manuais de rigorosa qualidade e objectivos de competência para os alunos cuidadosamente definidos a partir do estudo comparado das melhores práticas internacionais.

A política deste Governo para a avaliação dos professores não tratou de reintroduzir uma avaliação que tivesse estado ausente durante 30 anos, como ouvi o Primeiro-Ministro e muito boa gente defender, como se antigamente (isto é, no salazarismo) houvesse avaliação dos professores, o PREC a tivesse suspendido e agora se estivesse a retomá-la.
Na verdade, essa tese é revisionismo histórico, um truque barato para agradar aos descontentes com a balda existente, pois o facto é que os professores NUNCA foram avaliados por quaisquer critérios classificativos em Portugal, nem antes nem depois do 25 de Abril!

Quem, de facto, era avaliado antigamente (antes do 25 de Abril e até que os pós-modernos tivessem tomado por dentro o Ministério e as Escolas de Educação, já o PREC ia longe), quem era avaliado... eram os alunos! E foi essa avaliação que deixou de existir!

Talvez vocês, jovens, se espantem quando afirmo que a avaliação dos alunos deixou de existir. Claro que continua a haver notas, testes e "trabalhos" classificativos nas escolas. Porém, essa avaliação tem progressivamente sido descentralizada para cada escola e cada professor o que, conjugado com a pedagogia "romântica e construtivista" promovida pelas ditas "Ciências da Educação", conduziu a que agora a avaliação dependa essencialmente do critério de cada professor.

Tal facto é na minha opinião a causa principal da indisciplina existente nas escolas, da perda de autoridade e do clima de intimidação em que muitos professores vivem agora, por parte de alunos e respectivos pais.

Se as aprovações dependem apenas dos professores e se o clima geral é de facilitismo e desprezo pelo trabalho disciplinado, deixou de fazer sentido que os pais e os próprios alunos exijam aos professores que ensinem, para em vez disso se lhes exigir é que facilitem a aprovação.

Para exemplificar a ideia de como o cerne do problema está na falta de uma verdadeira avaliação aos alunos, vale a pena lembrar um sistema de ensino que conheci de perto antes do 25 de Abril, numa região remota do Império ultramarino onde não havia escolas secundárias do Estado.
O ensino era organizado pelos próprios pais dos alunos, em edifícios habitacionais improvisados, e os docentes eram escolhidos de entre os próprios colonos, frequentemente sem sequer terem uma licenciatura completa e sem qualquer hierarquia.
Havia cerca de uma dúzia de alunos por ano lectivo e os exames nacionais eram feitos em liceus oficiais em cidades distantes, de tantos em tantos anos dos ciclos de estudos, e na verdade o sistema assemelhava-se a um centro de explicações, como aliás era oficialmente classificado ("ensino doméstico").
Pois desse esquema improvisado e artesanal vieram a sair muitos futuros licenciados de grande reconhecimento hoje em Portugal e na América, e vários professores universitários actuais...! Qual o seu segredo?
Sem dúvida os tais exames nacionais que ocorriam periodicamente e o empenho dos pais na escola!
O que todos queriam é que os filhos fossem devidamente preparados para os tais exames, que era onde se tinha de obter a aprovação! Portanto, pais e alunos preocupavam-se em saber se a formação ministrada efectivamente preparava para esses exames, e claro que era impensável admitir que um professor não desse o programa todo (que saía nos exames) ou que faltasse às aulas (reduzindo a preparação para esses exames)!
Um aluno desordeiro que impedisse os colegas de se prepararem para os exames, abandalhando as aulas, era rapidamente afastado (e obrigado a ir estudar para internatos em cidades longínquas), pela pressão dos pais dos outros alunos por ele prejudicados. O mesmo afastamento (no final dos anos lectivos) sucedia aos raros docentes que se revelassem menos empenhados ou capazes. Raros, por que a facilitar o trabalho desses improvisados professores, havia programas claros e bons manuais de estudo.
Naturalmente, nesse tempo era motivo de grande orgulho e reconhecimento (ou "auto-estima") obter-se aprovação nos tais exames nacionais, sobretudo quando se tinha boas notas! Um desses exames, o do 2º ciclo (correspondente ao actual 9º ano) compreendia 10 provas escritas realizadas numa só semana, duas por dia, e sobre toda a matéria de 3 anos de estudo!... Ninguém ficava "traumatizado" e a precisar de "apoio psicológico"!...
Naturalmente, os bons professores eram reconhecidos pelo sucesso dos seus alunos nesses exames.
Evidentemente, em escolas de massas como as das cidades, o acompanhamento pelos pais da vida nas escolas como se fazia no exemplo citado é praticamente impossível, e caberá ao Estado substituir os pais nessas funções de avaliação dos professores e em geral da vida escolar. Porém, não há razões para que o referencial dessa avaliação não continue a ser os resultados dos alunos em exames nacionais. E não sou só eu que penso assim, como já mostrarei.

O Mundo mudou, e a "pedagogica romântica e construtivista" não foi só em Portugal que se radicou. Na verdade, e muito semelhantemente à ecotopia, trata-se de uma ideologia internacional que se tornou mesmo dominante em muitos, se não a maioria, dos países ocidentais, crescendo quase sem oposição ao arvorar uma imagem de modernismo que, na verdade, esconde um pós-modernismo profundamente irracionalista e anti-científico.
É uma ideologia que também singrou com êxito nos EUA, mas que enfrenta aí um debate público de ideias que é quase inexistente em Portugal (como aliás também acontece com a ecotopia).

Num país com a dimensão e diversidade cultural dos EUA, habituado à autonomia dos Estados e com uma aversão epidérmica arreigada à interferência do Governo Federal na vida colectiva dos cidadãos, não há exames nacionais e as práticas escolares são as mais variadas. Mas, lá como cá, a carreira dos professores dos ensinos básico e secundário (K-12, como lhe chamam) tem sido desde os anos 80 essencialmente baseada nos anos de experiência e nos graus obtidos em cursos de Ciências de Educação, particularmente pós-graduações.
Porém, os testes globais feitos regularmente mostram que lá, como cá, os resultados escolares estagnaram desde os anos 80, e que muitos cursos de "Ciências de Educação" não valem nada.
Na verdade, a política da Administração Obama e em particular do seu Secretário de Estado Arne Duncan baseia-se no reconhecimento de que não existe qualquer relação entre as pós-graduações em "Ciências da Educação" e os resultados obtidos pelos alunos em testes globais padronizados (isto é, de validade comparável).

Isto é algo que vem sido afirmado há muito entre nós pelo incansável Nuno Crato, mas para se entender melhor o que está em jogo, vale a pena conhecer por exemplo a opinião de Martin Kozloff, professor de Educação na Universidade da Carolina do Norte:

"A master’s degree in most subfields in education (especially reading — or what they like to call “literacy” — early childhood education, teaching and elementary education) adds little or nothing to students’ knowledge or practical skills.
An M.A. in education stamps in the baloney that infects the undergraduate curriculum.
Indeed, a master’s degree in most education subfields further stamps in the “progressive,” “child-centered,” “constructivist,” “developmentally appropriate,” postmodernist, pseudo-liberationist baloney that infects the undergraduate curriculum, and which leaves graduating ed students unprepared to provide their own students with coherent, logically sequenced instruction.
Undergrad students enter ed schools and eventually graduate from master’s programs still 1. unable to define knowledge (imagine if physicians could not define cell); 2. unable to identify, define and show exactly how to teach the different kinds of knowledge (e.g., facts, concepts, rule, routines); 3. unable to explain how learning is a simple and straightforward process of inductive reasoning (and not a mysterious process of “discovery” and “meaning making” that can only be “facilitated” by teachers who are more like artistes than skilled technicians); and 4. unable to determine whether teaching materials (e.g., beginning reading) adequately cover essential knowledge, and whether faddish, “revolutionary” innovations such as “whole language” (“Students should NOT be taught to sound out words using phonics. They should GUESS what words say using pictures on the page and the shape of words”) have solid empirical support and will not make children illiterate.
And if you ask graduating master’s students who have managed to escape indoctrination (because they are fortunately endowed with a wide streak of skepticism), they will tell you that they learned nothing new. Yes, many teachers with master’s degrees in education are more skilled teachers. But this is not because they got a master’s degree
."

O programa de Duncan/Obama para a reforma da educação nos EUA centra-se na avaliação dos professores - na verdade, na própria definição dos critérios do seu recrutamento e carreira - a partir dos resultados dos respectivos alunos em exames "padronizados". Ou seja e resumindo, no regresso ao velho critério de bom-senso do antigo ensino em que, afinal, toda a classe actualmente dirigente foi ela própria educada!
O pós-modernismo nas escolas americanas resiste a esta política, claro, e em alguns Estados tenta mesmo decretar a ilegalidade da avaliação dos professores invocando direitos autonómicos. Mas Obama não desiste, prosseguindo uma estratégia que, aliás e nas suas linhas essenciais ideológicos de bom-senso e realismo - particularmente a exigência de exames globais a nível estadual como fundamento dos programas de ensino - fora já iniciada pela Administração Bush com o programa "No Child left behind". Trata-se, pois, de uma viragem histórica decisiva que está em curso nos EUA e que, mais tarde ou mais cedo, a Europa primeiro, e Portugal também, seguirão, como sempre.

Exames nacionais já existem por cá, dir-me-ão. Pois, mas todos sabemos como a extraordinária melhoria dos seus resultados nos últimos anos é altamente suspeita.
Nuno Crato e a sua Sociedade Portuguesa de Matemática têm tentado correlacionar os exames de Matemática nacionais com os níveis internacionais e concluído que as melhorias obtidas se tratam de grosseiras mentiras, obtidas à custa de um maior facilistismo que desautoriza os professores que efectivamente se esforçam por manter um nível elevado de ensino.
A Ministra, porém e ainda hoje o repetiu, diz que não, que o aumento em 50% de aprovações em Matemática em 4 anos se deveu à sua política e aos professores que trabalharam mais graças à sua política, e parece ser apoiada pela Associação de Professores de Matemática, a "outra associação" e que é "politicamente correcta".
Ora quem quer que tenha estudado (e/ou ensinado) Matemática sabe perfeitamente que melhorias destas são estatisticamente impossíveis! Como terão sido obtidas?
O actual Director do Gabinete de Avaliação Educacional (GAVE) do Ministério é um colega meu do IST e competente Professor de Robótica e Controlo. Desconheço-lhe competências em Ciências de Educação e surpreender-me-ia que tivesse conhecimentos por dentro do nosso ensino "K-12", mas não tenho dúvidas de que tem a capacidade matemática necessária para aferir a dificuldade das provas de exame nacionais, antes de serem submetidas aos alunos, de modo a que produzam as estatísticas que se pretendam.

quarta-feira, setembro 02, 2009

Alta do petroleo, Regulação e energia eólica - com comentário

Dia 5, na SIC-Notícias, o Dr. Eng.º Costa e Silva, meu colega no IST e Presidente da PARTEX, a petrolífera que sustenta a Gulbenkian, deu explicações muito interessantes sobre as razões da actual alta de preços do petróleo e das suas perspectivas futuras.
Entre outras causas para esta alta de preços está, como factor determinante, a especulação financeira no mercado mundial de futuros.
A situação é de tal modo alarmante que o Regulador norte-americano do mercado de futuros defendeu recentemente a aplicação de limites mais apertados aos valores de investimento permitidos aos investidores não comerciais no mercado do petróleo e do gás. Referia-se essencialmente à Banca e a certos fundos de investimento.
Será certamente difícil limitar esta especulação, dado o caracter internacional do capital financeiro, mas o certo é que, como disse Costa e Silva, 1/3 da frota petroleira mundial está presentemente parada no mar, com os porões cheios de petróleo, à espera que o preço deste suba para o descarregar.
A própria indisponibilidade destes petroleiros contribui para a alta dos preços do petróleo, ao dificultar o seu transporte (Costa e Silva mencionou, nomeadamente, o estrangulamento do transporte de gasóleo da América para a Europa e da gasolina no sentido inverso - os americanos não usam Diesel e os europeus usam-no cada vez mais).
A base desta especulação é a expectativa de que os preços do petróleo venham a subir. Esperar que eles subam leva a guardá-lo para vender mais tarde, e esse mesmo açambarcamento reforça a rarefacção que lhe faz subir os preços.
No fundo, trata-se do mesmo tipo de especulação que acontece nas Bolsas nas épocas de euforia, e que aconteceu no mercado imobiliário até recentemente. Já tem acontecido também no mercado das obras de arte e até no dos selos de colecção. Baseia-se sempre na expectativa de uma subida futura dos preços e alimenta-se a si própria disso, geralmente até que alguma coisa quebre o ciclo e a bolha rebente.
No caso das Bolsas, dos imóveis e dos selos, porém, esta especulação tem um fundamento muito subjectivo e, portanto, o rebentamento das bolhas é sempre garantido e uma questão de tempo. Os últimos ficarão arruinados mas a tentação de jogar neste Casino enquanto os preços sobem é grande.
E no petróleo?
À primeira vista ele é um bem físico limitado e cuja produção será incapaz de acompanhar o previsto crescimento mundial da procura. Portanto, aparentemente a sua rarefacção futura parece garantida e a consequente subida de preços também. E, neste contexto, o mercado de futuros e a respectiva especulação poderá até parecer razoável e prestando um serviço necessário, ao assumir ele o risco dos preços futuros.

Mas será mesmo assim? Pode ser que sim.
E pode ser que não.
Em primeiro lugar há a questão de saber ao certo que reservas existem. E, para além das reservas existentes, há a questão da possível evolução da tecnologia de extracção que, presentemente, apenas é capaz de extrair cerca de 30% do petróleo existente.
Mas, em segundo lugar e quiçá com muito maior impacto, há o efeito que terá uma redução da procura, motivada pelo aumento da eficiência no seu consumo! Não é precisa uma eliminação da procura; basta uma redução consistente, para que os pressupostos quanto ao futuro em que se baseia a especulação possam ficar subvertidos e a bolha rebente, como as outras!
Ora, como disse Costa e Silva e eu já referi aqui, nos EUA os automóveis primam pela ineficiência. O carro médio americano gasta 10 litros aos 100 km, contra uma média de 7 na Europa e Japão. E, como os americanos vivem em geral longe dos empregos, o consumo de gasolina dos EUA é, só ele, cerca de 35% do total mundial, o dobro do de toda a Europa e mais do quádruplo per capita. Costa e Silva disse que bastava que o rendimento dos automóveis americanos aumentasse 15%, com a adopção generalizada dos híbridos e dos Diesel, para que o panorama da procura se alterasse radicalmente a relativamente curto prazo. Convém notar que adoptar híbridos e Diesel não requer apostas em tecnologias inexistentes, ao contrário dos automóveis eléctricos...
Mas, além da estratégia americana para os automóveis, há também nos EUA propostas sólidas para a adopção do TGV eléctrico em certos circuitos com distâncias apropriadas (a distância tecnicamente apropriada para o TGV é a de Lisboa-Madrid; abaixo disso o automóvel é mais prático, e acima é preferível o avião), como é o caso dos trajectos San Francisco-Los Angeles, Dallas-Santo Antonio-Houston e Boston-New York-Washington. E a melhoria de eficiência dos aviões comerciais, responsáveis por uma parcela importante e crescente do consumo mundial de combustíveis, também já se faz sentir.
Tudo isto significa que, a um horizonte de 10 anos, digamos, não é certo que se mantenha a actual tendência de subida do preço do petróleo.
Existe, claro, o problema do aquecimento climático e das emissões de CO2.
Porém, convém ver que, até agora, essa preocupação e as medidas limitadoras associadas resultantes do protocolo de Kyoto deixam de fora os dois maiores poluidores industriais, os EUA e a China, para já não referir que os problemas da desflorestação e do mau uso dos terrenos agrícolas, responsáveis por de 1/3 a metade das emissões e na sua maioria da responsabilidade de países não-industrializados, nem sequer começou a ser encarado pró-activamente.
Ora no fim deste ano ocorrerá a cimeira de Copenhague, e pela primeira vez existe um empenho activo dos EUA nessas negociações e, com maiores reservas geo-políticas, da China. Se houver um acordo que englobe esses dois gigantes, o panorama mundial relativo às emissões de gases de efeito de estufa poderá modificar-se radicalmente, reforçando o empenho mundial na redução da dependência do petróleo (de que a China tem pouco, no seu sub-solo).
Tudo isto para dizer que não se justifica uma pressa excessiva no abandono do petróleo e dos combustíveis fósseis, e que há tempo para delinear estratégias sustentáveis a 10 ou 20 anos, esperando para ver o que vão decidir os EUA e a China.

Entretanto, Costa e Silva reconheceu o que toda a gente sabe: que as petrolíferas nacionais acompanham a subida internacional dos preços do petróleo ao momento, mas para a descida esperam umas semanas...
E disse outra coisa que também toda a gente sabe: que a Entidade Reguladora de Manuel Sebastião é mais uma Reguladora da "falta de concorrência" do que da Concorrência, em matéria de combustíveis.
Ora, é bem sabido que o actual Governo deu cabo das Entidades Reguladoras, enquanto entidades independentes para a defesa dos consumidores. Transformou-as em Direcções-Gerais do Estado. E, curiosamente, se o Governo fecha os olhos à especulação existente sobre o preço dos combustíveis, já relativamente ao preço da electricidade e ao défice que o antigo Regulador Vasconcelos queria repercutir nos preços desta, foi intransigente.
Temos que é muito claro que o Governo tem uma estratégia de encorajamento de subida do preço dos combustíveis, e de congelamento do preço da electricidade. E também é claro que isto alimenta uma retórica de aposta nas "renováveis" que, espremida de tudo o que são meras palavras ou fantasias, se traduz apenas numa única aposta: a da energia eólica.
Energia eólica cuja potência de ponta ultrapassará em breve o consumo nacional a certas horas de vazio, como já expliquei aqui, e por causa da qual parte das 8 novas hidroeléctricas a construir vai ter capacidade de bombagem, um custo extra que se deve atribuir ainda às eólicas, porque é a intermitência e irregularidade destas que requer essa capacidade às hídricas.
A quantidade de turbinas eólicas instaladas e em instalação levar-nos-á aos píncaros no uso da mesma, o que é extraordinário tendo em conta que não incorporam qualquer know-how nacional, quase nenhuma construção nacional, e muito poucos empregos no país!
E, como entretanto o Governo se deu conta de que não pode invocar a aposta nas eólicas como medida contra a dependência do petróleo importado, inventou a aposta na fantasia do carro eléctrico para ligar uma coisa à outra!

Dizia o Expresso da semana passada que a subsidiação das eólicas custava ao país perto de 500 milhões de € por ano. 50 € anuais por residente. E está-se a subsidiar o quê? Essencialmente as indústrias de turbinas alemã e espanhola!

E, claro, alguns negociantes nacionais de concessões e de "pontos de injecção" de energia!
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Um distinto engenheiro conhecedor do assunto enviou o seguinte comentário:

A factura agora divulgada (447 M€) corresponde às contas da ERSE feitas em 2008 para as tarifas de 2009 e são relativas a toda a produção em regime especial e não apenas às eólicas. Só que estas contas têm um problema: já estão muito desactualizadas! A ERSE estimou para 2009 o custo do MWh de referência (no mercado diário e intradiário OMIE) em 70 €/MWh, mas na verdade o seu preço médio real até 31 de Julho foi de 39 €/MWh, e não dá indicações de subida (pode ver os preços no mercado a prazo OMIP).
Daqui resulta que, o que podia ser uma boa notícia para os particulares e para as empresas, na realidade não o é, bem pelo contrário. Os 447 M€ passam para o dobro, como passo a explicar: a diferença do preço médio das renováveis (101 €/MWh) face ao mercado não é de 31 €/MWh (101-70 = 31), mas sim de 62 €/MWh (101-39 = 62). A ERSE vai ter que corrigir estas contas, e não é difícil de calcular uma boa aproximação ao custo final das renováveis: só no ano de 2009, serão 14.540 MWh (produção estimada dos PRE, o real pode até ser superior) x 62 €/MWh, e o verdadeiro número será muito aproximadamente 900 M€, e não os 447 M€ anunciados na imprensa.
Mas se juntarmos a este valor o investimento obrigatório da REN e da EDP para a ligação das renováveis, o valor é ainda superior, muito perto dos 1.000 M€.
E isto a pagar num único ano, veja agora quando tivermos que pagar o resultado do visionarismo em voga!