sexta-feira, julho 17, 2009

A despesa nacional em I&D e o mistério do grande salto em frente de 2007

Os economistas que estudam a (im)produtividade da economia nacional há muito que identificaram um problema crítico, senão mesmo O seu problema crítico, e que é a falta do "factor imaterial" ou "intangível" da inovação no que se produz.

Mesmo já antes da presente década de estagnação económica nacional, nos tempos menos maus que a antecederam em que havia fundos europeus visíveis, verificava-se que havia trabalho, que havia investimento, mas que a combinação do capital e do trabalho (os factores "materiais") gerava pouco valor. E a situação piorou esta década. Consideram os economistas que o problema está na falta de valor do que se produz e que esta, por sua vez, resulta da falta de incorporação "intangível" de inovação e conhecimento na produção.
De inteligência, diria eu, já que a Inteligência Artificial tem demonstrado experimentalmente que, em domínios especializados como os profissionais, a inteligência é antes de mais conhecimento, e só depois a capacidade de o aplicar à resolução de novas situações.

A inteligência incorporada no que se produz é a inteligência dos gestores das empresas e dos seus empregados e, notando-se a sua falta de formação académica (comparando-a com a dos países desenvolvidos), conclui-se que o "baixo nível de qualificação escolar" da população activa portuguesa é um dos responsáveis pela referida falta de valor acrescentado na economia. Daí o consenso sobre a necessidade de melhorar a inteligência dos agentes económicos (frequentemente identificada com "qualificação" escolar, o que tem até levado à "qualificação" de conhecimentos "adquiridos na vida"...).

Por outro lado, os economistas olham para o que o país investe em Investigação e Desenvolvimento (I&D) e concluem que, comparativamente, se tem investido muito pouco, e que há uma correlação entre esse investimento (que os cépticos consideram uma despesa) e as taxas de crescimento económico nos países-modelo. E, atento a estes factos, o actual Governo adoptou um Plano Tecnológico que, pelo menos no "power-point", pretendeu atacar as três frentes do conhecimento, da tecnologia e da inovação.

Devo desde já manifestar que considero um grande progresso, relativamente a alguns Governos anteriores, o simples facto do actual ter manifestado consciência do valor da I&D como factor de desenvolvimento da produtividade nacional e ter decidido fazer qualquer coisa quanto a isso. Mesmo um simples "power-point" já é um começo!...

Porém, há uma grande diferença entre o valor economicamente reprodutivo da Ciência e o da Investigação Tecnológica Aplicada e, quanto a esta, entre a que se faz com vista à produção de papers e que a se traduz em patentes, como já escrevi. E, numa planificação coerente, as coisas têm de estar articuladas, como qualquer dia desenvolverei.

Para já, gostaria de mencionar que é um facto bem conhecido pelos que se preocupam com estas coisas que a I&D que produz riqueza e que aumenta produtividades é essencialmente a que se faz nas empresas, jogando as agressivas e impiedosas regras do jogo comercial que tem por objectivo ganhar... dinheiro. Para os que que não sabem do que estou a falar, eu explico: aquele dinheiro donde vêm os ordenados para os empregados, o capital para investimento em mais crescimento e os impostos do Estado donde se pagam os vossos ordenados!
Isto é um facto bem conhecido e cuja teoria este Governo tem manifestado saber, visto ultimamente ter vindo a ser apresentado como um seu feito notável o facto de, pela primeira vez, a despesa em I&D das empresas ter ultrapassado em Portugal a do Estado.

Com efeito, se durante muitos anos a despesa nacional em I&D em % do PIB era muito inferior à média europeia, o actual Ministério da Tecnologia sempre procurou elevar esse valor mas, de facto, até recentemente só o conseguira na componente pública que, como Portugal praticamente não tem tecnologia militar própria (uma despesa pública de I&D de reconhecidos efeitos multiplicativos na economia civil, que em Portugal é apenas de 1% da despesa em I&D, contra 13% da média europeia e 16% da espanhola), justifica a visão de alguns cépticos de que se trata, de facto, de mera ...despesa, e não de um investimento.
O facto é que o investimento empresarial em I&D (o tal que gera dinheiro de impostos, ao contrário do outro que gasta dinheiro de impostos) se tem mantido em Portugal muito abaixo dos valores dos países desenvolvidos e em particular dos europeus, aliás em perfeita correlação com o (fraco) registo nacional de patentes, como ilustra o gráfico ao lado (% da I&D suportada por empresas por país - OCDE, 2005). Até 2007.

Ora, segundo contas de 2008 do Governo, em 2006-2007 a despesa empresarial em I&D ultrapassou pela primeira vez a pública. Tratou-se de um sucesso notável e promotor do maior optimismo, se efectivamente traduziu uma modificação do padrão produtivo português. Porém...

O gráfico anexo mostra que este sucesso de 2007 resultou da prática duplicação da despesa empresarial só nesse biénio de 2006-2007 (linha amarela).

Ora, sendo Portugal um país pequeno onde toda a gente do mesmo sector de actividade se conhece ao fim de alguns anos, imediatamente surge a interrogação: mas onde e em que actividades terá ocorrido um tal reforço da I&D empresarial nacional, de que não conheço nenhum indício?

Não houve nenhum aumento da procura dos melhores alunos finalistas de engenharia como é usual as empresas intercederem entre os académicos, não há notícias que corram boca-a-boca de que em algum lado se esteja a desenvolver algum grande projecto de I&D, nenhum eco de tal nova actividade chegou à Universidade, nada!

Onde terá ocorrido então esse fantástico aumento do investimento empresarial em I&D de que não há nenhum vestígio palpável?

Uma busca permitiu localizar em que sector de actividade se verificou este suposto grande aumento da despesa empresarial em I&D: na Banca (vd. grafico anexo)! Mas também nos Serviços de Informática e nas Comunicações, verificando-se que na crucial Energia o investimento em I&D terá crescido... 80 vezes!!!
Como tenho um amigo de infância que é um engenheiro notável, trabalhou vários anos nos EUA para uma multinacional informática e criou há muito tempo uma empresa nacional sua que vive de inovadores produtos de alta tecnologia seus para a Banca, perguntei-lhe que se teria lá feito. E ele manifestou-me o maior espanto, dado que 2007 terá até sido um mau ano em investimentos tecnológicos pela Banca portuguesa!

Na Energia também não há conhecimento de nenhum incremento de actividade de I&D empresarial, àparte a compra "chaves na mão" da famosa central das ondas e, nas Comunicações, outra actividade essencialmente nas mãos de uma empresa onde o Governo manda através de "gloden shares", só se foi algo parecido.
Mas o que terá levado a Banca, sempre tão ciosa dos seus lucros e autonomia, a apresentar tão espectaculares despesas, só por si um aumento de 140 milhões de euros, metade da tal duplicação nacional, uma multiplicação por 6,5 vezes da sua despesa em I&D de anos anteriores?

Sem desistir de esclarecer este insondável mistério, continuei a pesquisar e descobri o seguinte:
Em 2005 o Governo criou um louvável incentivo fiscal à I&D, o SIFIDE, que criou a possibilidade de generosos descontos no IRC aos gastos com I&D pelas empresas. Em 2007 uma intensa actividade de esclarecimento foi patente, inclusivé por organismos ligados ao Ministério da Tecnologia, sobre como contabilizar as despesas de I&D nas contas das empresas, e sabendo-se como a Banca é perita em explorar até ao tutano todas as ambiguidades fiscais que se lhe ofereçam...
O sucesso "estatístico" desta medida foi tal que, já este ano, o Governo reforçou os generosos descontos fiscais permitidos às despesas em I&D empresarial.

Note-se que considero este tipo de despesa pública (ou não-receita fiscal, o que é o mesmo) um incentivo à I&D empresarial muito louvável, em abstracto. O que me incomoda é a ausência de qualquer evidência de que a I&D empresarial daí resultante não tenha sido apenas... uma I&D contabilística!
Até porque, quando trabalhei com uma empresa nacional por vários anos num projecto de desenvolvimento tecnológico subsidiado pelo PEDIP, vi como essas coisas se faziam: o segredo consiste em classificar como despesa em I&D despesas que o não são. Mas ao menos naquele tempo o dinheiro vinha de fundos estrangeiros e não de contribuintes nacionais, a causa era boa e no fim houve realmente novos produtos capazes de se venderem em mercados internacionais...
Ora o gráfico acima mostra que, apesar dos generosos descontos fiscais, neste biénio de 2006-2007 se verificou uma preocupante redução da I&D na indústria de equipamentos, a de bens transaccionáveis (como dizem os economistas).

segunda-feira, julho 13, 2009

As patentes e os artigos científicos pertencem a universos opostos

Se Portugal há alguns anos não tinha dos melhores scores em matéria de papers per capita publicados em revistas científicas, ainda fazia muito pior figura em matéria de patentes de invenções industriais (ditas de utilidade)! Na verdade e neste domínio, a sua produção era praticamente nula, uma fracção das patentes registadas até pela... Grécia!
Com o Governo actual foi dado um impulso ao registo de patentes nacionais, que passou de cerca de uma dúzia por ano para cerca de duas dezenas, o que melhorou as estatísticas de absolutamente vergonhosas para menos vergonhosas (embora per capita ainda tenhamos apenas 1/4 das de Espanha e menos que a Grécia, estando na 47ª posição mundial). A liderança mundial pertence ao Japão e à Coreia do Sul, outrora conhecidos como meros copistas...


Estando a decorrer no Porto a "XII International Conference on Technology Policy and Innovation ", ocorre, entretanto, a pergunta: fora a boa figura nas estatísticas e a "melhoria da auto-estima" (uma importante recomendação pedagógica das modernas escolas de "Ciências da Educação"...), para que servem as patentes?
Para quem tenha tido algum contacto ou participação em desenvolvimento industrial de novos produtos ou processos, a resposta é: servem para excluir outros da exploração económica daquilo que se inventou!
Ou seja: o registo de patentes é uma arma estratégica comercial, não é nenhuma medalha tecnológica! É um cadeado para fechar portas comerciais, não é uma desinteressada oferta à Humanidade! Ofertas desinteressadas serão os papers (se o seu conteúdo tiver algum valor)! As patentes visam exactamente o contrário dos papers, ainda que nas estatísticas oficiais possam aparecer lado a lado.

Não vou lembrar como Edison ou o homem que inventou a abertura das latas de conserva sem abre-latas enriqueceram com as patentes das suas invenções, nem quão antigas são as "guerras de patentes", como as com que Edison
tentou impedir o uso do motor de indução trifásico inventado por Tesla ou de como as empresas dos telégrafos combateram o advento do telefone. Vou apenas lembrar duas histórias recentes de grande impacto para os que sonham com uma "liderança tecnológica portuguesa" a partir das Universidades.

A primeira história é a do roubo da tecnologia de velocidade variável com geradores síncronos da Enercon pelo Echelon norte-americano. Concretamente, o que o fundador da Enercon inventou foi um método de controlo automático da electrónica de energia que liga o gerador das turbinas eólicas à rede eléctrica e que, entre outras vantagens, dispensa caixas de velocidades, um componente caro e sujeito a avarias que existia nas soluções concorrentes da época. Esse invento terá sido prototipado no fim da década de 80, numa época em que os EUA eram pioneiros com as primeiras wind farms na Califórnia e muito antes de Kioto, em 1997, fazer explodir o interesse pelas renováveis.
O roubo está bem documentado e é reconhecido pelas intâncias próprias da União Europeia, e as suas consequências manifestaram-se quando a Keneteck Windpower americana processou a Enercon, visto ter registado como patente sua a invenção da Enercon antes desta o ter feito. E, neste processo, conseguiu em 1994 que a Enercon fosse proibida de exportar para os EUA até 2010, o que lhe terá causado 100 milhões de marcos de prejuízos e a perda de 300 empregos.
A Keneteck faliu em 1996 devido aos prejuízos sofridos com a fractura frequente das pás das suas turbinas e a patente foi adquirida pela Enron, que viria também a falir e a ser adquirida pela gigante General Electric. Esta tornou-se a 2ª fabricante mundial de turbinas eólicas, à frente da Enercon e, como se vê, os EUA garantiram assim a independência da sua tecnologia eólica, não deixando o estratégico desenvolvimento do seu programa energético em mãos alheias.
A segunda história é a das baterias híbridas níquel-metal NiMH e da sua aplicação em automóveis eléctricos. Um dos primeiros automóveis inteiramente eléctricos foi o RAV4 EV da Toyota, comercializado entre 1997 e 2003 (mas de que só se venderam algumas centenas de exemplares). O RAV EV tinha uma autonomia média de 160 km, como a anunciada agora para os futuros carros eléctricos com baterias de iões de lítio, e no entanto as suas baterias eram do tipo NiMH. Porque não foi continuada nem repetida esta experiência?
As baterias NiMH tinham várias vantagens sobre as de iões de lítio, incluindo uma muito maior durabilidade. Embora as baterias de iões de lítio tenham um custo unitário de metade (estimativas apontam para o valor de cerca de 6000€ (!) se produzidas em massa), não duram mais que 4 anos de uso regular médio, enquanto as NiMH duravam a vida do carro. É certo que para a mesma capacidade tinham cerca do triplo do peso das de lítio e um rendimento muito inferior, mas mesmo assim eram uma alternativa competitiva, dada a sua longevidade. Porque, então, nunca foi repetida a experiência do RAV EV?
A resposta é: patentes! A tecnologia das baterias NiMH foi desenvolvida por uma empresa especializada, a Ovonic, que em 1994 a General Motors adquiriu e de que depois vendeu as patentes à petrolífera Texaco em 2001, a qual por sua vez foi pouco depois comprada pela petrolífera Chevron. E a partir de 2003 a Chevron deixou de permitir o uso desta tecnologia em automóveis eléctricos...
Estas duas histórias ilustram exemplarmente para que servem as patentes. Quem regista uma patente, por conseguinte, tem de estar preparado para vigiar a sua violação no mercado mundial e tem de ter os meios para as correspondentes litigâncias. Obviamente, não são Universidades nem micro-empresas quem tem estruturas para esse efeito! O registo de uma patente de utilidade tem de se inserir numa estratégia de ofensiva comercial internacional, para um país da nossa dimensão (nos EUA o mercado interno poderá justificá-lo por si só). Ou seja, o registo de uma patente é o primeiro acto de uma agressiva ofensiva comercial em mercados internacionais por uma empresa com envergadura para isso, envergadura produtiva, comercial, e de litigância jurídica! Sem isso, não servirá de nada!
Um corolário do que acabei de escrever é que, efectivamente, a capacidade inovadora de um país, falando daquela inovação que cria riqueza e faz de um país um exemplo de desenvolvimento, se pode medir bem pelo número de patentes que regista. Basta olhar para o ranking dos países na figura anexa para o verificar!
Outro aspecto estreitamente ligado ao objectivo das patentes é, naturalmente, o do segredo industrial. Até uma patente ter sido submetida, o conhecimento que encerra está nas mãos dos investigadores que desenvolvem a correspondente tecnologia, e é evidente que quem financia o seu desenvolvimento se terá de proteger com o segredo. Significa isto que tal financiador terá de impor segredo aos referidos investigadores, e terá que dispor dos meios coercivos para essa imposição. Lá fora, isso faz-se em regra por contratos que prevêm expressamente esse segredo nas suas cláusulas, mas as penalidades pela sua violação não se podem limitar ao despedimento; têm de permitir o recurso eficente aos Tribunais e prever punições exemplares. E têm que ser acompanhadas, é evidente, de políticas de prémios e de reconhecimento que constituam estímulos positivos à invenção. Nada disto se compadece com o espírito académico, onde as carreiras se fazem pela medida dos papers que se publicam e os estudantes têm de escrever em teses públicas aquilo que criarem de inovador!...
Entretanto, dizem os jornais que na Conferência supra-citada a decorrer no Porto, o representante da OCDE afirmou que, devido à crise, "o investimento e o número de patentes desceram e estão a afundar-se com o PIB. São as pequenas e médias empresas que têm mais I&D e são elas que vão sofrer mais", e que "é preciso investir na educação e formação para dar um suporte a curto e médio prazo aos jovens desempregados e restaurar o valor do capital humano".

O registo de patentes, sendo como expus um intrumento de estratégia comercial, estará efectivamente em queda, como toda a actividade económica. Porém, como qualquer académico das tecnologias sabe, é nas épocas de crise económica que mais estudantes de pós-graduação há nas Universidades, precisamente devido ao desemprego. E, por isso, com as crises económicas diminui o registo de patentes mas aumenta a publicação de papers. Para um académico cujo objectivo na vida seja o de publicar, a crise é uma benção. Mas para publicar papers, e não patentes!

domingo, julho 12, 2009

Ainda os carros eléctricos: notas inconvenientes

Sendo electrotécnico e dedicado às "novas tecnologias", porque não partilho eu o entusiasmo esfusiante do Governo com a ideia dos carros eléctricos já para amanhã (2011, prometeu o MIT-Portugal na TV)?
Convém notar que obviamente reconheço ao automóvel eléctrico o potencial de redução de emissões de CO2 se a electricidade de que fôr abastecido provier de "fontes limpas", e que a longo prazo o acho bastante plausível, como alternativa ao esgotamento do petróleo. A "longo prazo" quero dizer, porém, 20 anos ou mais, e a tal distância não é possível saber se não se inventarão entretanto novas tecnologias que redefinam o problema num quadro imprevisível hoje.


Começo por lembrar que,
como já mostrei, o custo do "combustível" eléctrico será muito semelhante ao dos automóveis a gasolina optimizados para a respectiva economia, ou seja, híbridos, depois de descontado o Imposto sobre combustíveis da gasolina e adicionados à electricidade os 40% de défice de que presentemente beneficia. Alguns panegíricos esquecem-se destes factos ao fazer as contas, e é até possível que na fase de lançamento um Governo "ofereça" a electricidade ao preço a que está e mantendo o Imposto sobre Combustíveis para os a gasolina, mas tratar-se-á de uma grosseira vigarice, porque evidentemente não será sustentável manter tal distorsão política dos preços se houver mesmo uma massificação do automóvel eléctrico! No entanto, para preços da gasolina a partir de 1,15€ (com impostos) poder-se-á dizer que, do ponto de vista estrito do custo da energia, o carro eléctrico se torna competitivo.
Porém, o custo dos automóveis em si será bastante superior aos modelos hoje em dia populares, a menos que a sua produção se massifique à escala mundial. Ora tal massificação não está nas mãos deste Governo nem sequer nas de Portugal, e não há nenhum movimento internacional nessa direcção.
Naturalmente, é fácil a fabricantes de automóveis produzirem protótipos e até pré-séries experimentais, se virem que isso lhes dá uma boa imagem publicitária e sobretudo se para tal forem subsidiados pelas políticas tecnológicas dos Governos. Mas nenhum passará à produção em massa se não tiver mercados garantidos, e sem isso os preços dos carros nunca baixarão.

No entanto, o grande e antigo óbice maior dos carros eléctricos são as baterias.
As baterias que hoje equipam os carros têm funções meramente auxiliares e não poderão servir para deslocar carros inteiramente eléctricos. As que no presente estado da tecnologia têm capacidade e pouco peso suficientes para esta função são as de iões de lítio, como as que equipam os submarinos e também os dispositivos electrónicos portáteis, e que levam 6 vezes mais energia por kg que as bateriais de automóvel tradicionais. O Tesla californiano usa grandes quantidades de baterias de computadores portáteis empilhadas, que podem ser substituídas com relativa facilidade.
Ora estas baterias acarretam várias contrariedades que não estão resolvidas:
1) A autonomia que proporcionam dificilmente ultrapassa os 150 km; nem dá para ir de férias ao Algarve ou fazer o Porto-Lisboa.2) Uma vez descarregadas, requerem cerca de 4 a 8 horas para a recarga.
3) Para que pudessem ser simplesmente substituídas, em estações de recarga próprias como nas bombas de gasolina, era preciso que: a) fossem normalizadas de modo a servirem em todos os modelos de automóvel; b) houvesse muito mais baterias em circulação, a fabricar; c) houvesse estações industriais de recarga de baterias e circuitos comerciais para a sua distribuição, como há para a gasolina; d) o custo deste serviço de recarga não fosse incomportável; e) se resolvesse o ponto seguinte.
4) Estas baterias, que pesam umas centenas de kg, perdem cerca de 20% da sua capacidade por ano. Ao fim de 3 a 4 anos têm de ser substituídas, e não são baratas: nunca menos de 700 €/kWh cada, e...
5) O lítio de que são feitas é um metal raro de que a Bolívia e o Chile detêm 50% das reservas mundiais de extracção mais fácil. Recentemente tem havido uma corrida internacional à compra dessas minas, o que augura futuras especulações sobre o preço do lítio semelhantes às de que sofre hoje em dia o petróleo!
6) As baterias de lítio são dadas a explodir e têm riscos de segurança consideráveis, embora isso possa ser melhorado mas com custos extra, claro.

Entretanto, e pensando no povo real que vive nos subúrbios das nossas grandes cidades, amontoando os automóveis por cima dos passeios dos seus bairros, ocorre perguntar: onde vão as pessoas carregar as baterias dos seus carros eléctricos durante a noite, se nem garagem têm?

Desejando veículos eléctricos, e dado que o carro eléctrico fará sobretudo sentido para as curtas distâncias casa-trabalho por causa da sua falta de autonomia, não será mais sensato pensar em modernizar e estender os comboios eléctricos, o metro, e até pensar em voltar aos eléctricos colectivos (em carris) e aos trólleys (vd. figura), como existem nas cidades da Europa com boa qualidade de vida?
Na América do Norte poderá fazer sentido discutir se o carro eléctrico não será preferível ao metropolitano e ao eléctrico citadino sobre carris, mas as cidades lá são completamente diferentes, muito mais extensas e pensadas de raíz para o automóvel e, por outro lado, os EUA deixaram-se atrasar tanto na qualidade dos seus carros que a repensá-los de raíz poderá justificar-se dar um salto em frente desses, até porque os americanos vivem na esmagadora maioria em vivendas com garagem própria onde fará sentido carregar as baterias durante a noite. Mas seria prudente esperar para ver...

sábado, julho 11, 2009

Aquecimento global e combustíveis fósseis: Transportes. Os EUA "at stake" e nós também!

Já notei aqui que a parcela de responsabilidade do uso dos combustíveis fósseis no aquecimento global é incerta. Esse uso tem responsabilidades e sabe-se quantificá-lo, mas as grandes incertezas estão no peso que têm as outras actividades, as ligadas ao uso da terra (basicamente a "desmatação" para ocupação humana e a agricultura, com uma população em crescimento permanente). Tais incertezas hão-de diminuir, sobretudo com as medições feitas por satélites e aviões especializados, mas por enquanto não se sabe se o uso dos combustíveis fósseis representa 1/4 se um pouco mais de metade, se algo entre esses valores, das causas do referido aquecimento. Seja como for, é um factor determinante.
Note-se que não estou a negar verdades oficiais do ambientalismo! Estou, pelo contrário, a expôr por palavras minhas o que consta na própria documentação produzida pelo Painel Intergovernamental (IPCC) patrocinado pela ONU!
Entretanto, abandonar o uso de adubos na agricultura (os nitratos aí usados têm uma elevada responsabilidade na emissão de gases "aquecedores do clima" - no mínimo 8%) seria desistir da que foi a 1ª grande revolução agrícola e condenar à morte pela fome boa parte da Humanidade; e quem ousará recomendar aos orientais o fim do cultivo do arroz, base da sua alimentação mas responsável por metade da emissão do metano causador de no mínimo 14% do referido aquecimento? Talvez pudéssemos recriminar aos povos subdesenvolvidos a queima de lenha, os fogos e a desflorestação responsáveis por no mínimo 18% do aquecimento global, muito mais que todos os transportes do mundo juntos, mas que alternativas temos para lhes oferecer que não sejam o adoptarem o nosso estilo de vida (o que aliás eles desejam ardentemente)?
Assumamos, porém, nós os da "sociedade de consumo", o ónus do aquecimento global e paguemos aos pobres na esperança de que eles aprendam a tratar melhor o seu próprio meio ambiente, e vejamos o que há para modificar no mundo industrializado. Até porque a produção de energia, os transportes e a desflorestação são os emissores cuja poluição mais tem crescido...

Começando pelos transportes, convém começar por notar que perto de 1/4 do seu consumo energético não ocorre em terra, mas sim no mar e no ar, sendo aliás o transporte aéreo aquele cujo consumo mais tem crescido. Exceptuando o regresso às velas ou à passagem ao nuclear no transporte naval, a única coisa a fazer é optimizar motores e rotinas de voo!
Por outro lado e quanto ao transporte terrestre, convém saber que as suas emissões de gases não são no mundo desenvolvido que mais têm aumentado! Aqui já quase toda a gente tem carro e o número de automóveis pouco tem crescido. É precisamente nos povos que estão a ascender ao nosso modo de vida que o aumento de consumo tem sido e será maior (vd. figura), pelo que assumamos o ónus, como cavalheiros, mas não nos culpemos pelo mal dos outros.
Naturalmente que muito se poderá fazer para reduzir as emissões dos veículos de estrada. Que recomenda o IPCC? Nada de revolucionário, para já:
- A redução do peso dos veículos, que cresceu desnecessariamente nas últimas décadas (os SUV...), neutralizando a melhoria dos motores que entretanto se verificou. Há algo de irracional em ter de dispender energia para mover 1500 kg de material quando apenas se pretende deslocar uma pessoa com 5% dessa massa!
- A adopção da tecnologia híbrida (que recupera boa parte da energia das travagens) e de motores de maior rendimento (diesel, sobretudo);
A longo prazo, de facto, primeiro carros híbridos carregáveis electricamente (plug-in hybrids) e depois puramente eléctricos, mas isso só valerá a pena quando a electricidade também for toda produzida por fontes não poluentes.
Entretanto, uma enorme redução de emissões resultará do incremento de transportes públicos nos circuitos casa-trabalho: autocarros e comboios eléctricos, nomeadamente metros.
Ora acontece que na Europa o automóvel já só é usado em 50% das deslocações, em benefício do transporte colectivo, enquanto nos EUA o é em 90%; por outro lado, os Diesel já são a regra na Europa (e em Portugal), e apenas nos EUA (onde não se usam Diesel) a Administração Obama definiu agora a meta de redução do consumo médio dos seus automóveis de 10 para 7 litros aos 100 km, que já é o consumo médio do automóvel europeu. Ou seja: no domínio dos transportes terrestres, são os EUA para quem as medidas reformistas preconizadas pelo IPCC implicam maiores mudanças de hábitos e mudanças nas estruturas de transporte terrestre. Aliás, basta comparar na figura acima as emissões de origem norte-americana com as europeias, tendo em conta a similitude de populações e automotorização, para o perceber.

Uma questão relevante é: e em Portugal, qual a percentagem de deslocações que é feita em transporte público? Dados em debate na Assembleia da República mostram que se em 1990 tal percentagem era de 50%, o mesmo valor que a média europeia, 10 anos depois ela reduzira-se para 37% e deve presentemente estar nos 30%. Tal mudança acompanhou a natureza das deslocações, que passaram de predominantemente intra-concelhias para inter-concelhias. Ou seja: os centros urbanos desertificaram-se e as pessoas, como passaram a morar mais longe, usam mais o automóvel - para não falar na falta de melhoria dos transportes colectivos.
Parece, pois, que a melhor forma de promover o veículo terrestre eléctrico e/ou reduzir o seu uso será promover a requalificação urbana e o uso de transportes colectivos eléctricos de alta qualidade. E abandonar a fantasia dos automóveis eléctricos para quando eles estiverem maduros. A menos que se queira à viva força dar vazão à energia do lobby eólico...!
Até porque comboios e requalificações urbanas sabemos fazer, assim haja planeamento! Para já não falar do enorme potencial de melhoria tecnológica que encerram...

Empregos eólicos: afinal quantos?

Descobri uma notícia de Outubro de 2008, no Público, em que se dizia, a propósito da nova fábrica de torres de cimento da Enercon em Viana do Castelo:
"O gestor estima que quando a fileira eólica estiver concluída em Portugal dará emprego a 20 mil pessoas, de forma directa e indirecta, confirmando que a energia renovável é uma fonte de emprego superior à da indústria eléctrica tradicional e que a produção descentralizada de energia é mais trabalho-intensiva. Na Alemanha, por exemplo, a eólica representa 10 por cento da electricidade produzida, empregando cerca de 300 mil pessoas....Em Espanha trabalham 100 mil pessoas neste sector."
A notícia anunciava também a intenção de exportação a partir de Portugal pela Enercon de "torres, pás e geradores" a partir de 2010, um anúncio que ouvi ontem na SIC-Notícias reafirmar com grande convicção ao Presidente da AEP, a Associação Empresarial do "Norte".
Que a Enercon é a líder tecnológica mundial de turbinas eólicas presentemente, não tenho dúvidas. É a única fabricante que produz turbinas de velocidade variável com geradores síncronos, uma tecnologia pela qual tem uma guerra de patentes com os EUA como já referi, e por causa do que está proibida de exportar para lá precisamente até 2010.

Que a Enercon planeie exportar a partir de 2010 também não duvido, por ser então que se lhe abre o mercado americano, o de maior desenvolvimento no mundo presentemente.

Que Portugal tenha 45% do seu parque eólico com turbinas Enercon também acho positivo, só lamentando não se aproveitar a sua superior tecnologia para regulamentar regras técnicas de interligação à rede de qualidade, como fez a Irlanda onde a Enercon tem uma penetração semelhante.

Agora, o que me indigna são os números de empregos anunciados na referida notícia!
É que segundo a EWEA, a Associação Europeia da Energia Eólica que se assume como a "voz da indústria" europeia, num relatório publicado já este ano, afirma-se que, no final de 2007, a indústria eólica empregava em toda a Europa 108 mil e 600 pessoas e, incluindo os empregos indirectos, 154 mil; na Alemanha, empregos directos eram 38 mil, e incluindo os indirectos 48 mil (e não os 300 mil mencionados pela notícia do Público); em Espanha 20,5 mil e, com os indirectos, 38 mil (e não os 100 mil mencionados na tal notícia); e em Portugal, directos eram no fim de 2007 apenas 800, prevendo a EWEA a contratação de mais 3 mil a partir de 2009.
A EWEA calcula ainda que o número de empregos indirectos em Portugal associados à indústria eólica fosse de cerca de 500 no fim de 2007, reflectindo o excepcional peso dos custos de instalação e de ligação à rede que as eólicas têm em Portugal.
A EWEA nota também, no relatório mencionado, que a EDP tem um dos maiores portfolios de energias renováveis do Mundo, referindo-se à "EDP Renováveis". No entanto, uma rápida busca a relatórios desta empresa mostra que ela tinha em 2007 o modesto número de colaboradores de 240, que cresceu para 296 em 2008. Trata-se, evidentemente, de uma empresa financeira, e não de uma tecnológica!
325 mil empregos são quantos empregos a EWEA prevê que venham a existir em toda a Europa criados pela indústria eólica em... 2020! E certamente a EWEA não terá interesse em subestimar a sua capacidade empregadora...
Que fique claro que nada me move em princípio contra a energia eólica, uma indústria que explodiu esta década e que merece sem dúvida a classificação de "nova tecnologia"!
Do que gostaria é que Portugal tivesse tido uma estratégia para o sector que tivesse aumentado a sua ridícula incorporação de valor e emprego qualificado nesse tipo de energia, a de maior crescimento na Europa e quiçá noutras partes do mundo, presentemente!
E que não se mentisse tanto sobre o assunto!

quinta-feira, julho 09, 2009

Alterações climáticas e o G8: porque vão os ricos dar 20 milhões aos pobres

O conhecimento existente sobre a natureza, causas e efeitos das alterações climáticas é vasto e ao mesmo tempo com muitas incertezas, mas o que me traz aqui não é pôr em causa nada, mas apenas expôr alguns factos desse conhecimento científico que em regra são escamoteados por inconvenientes.
Antes de prosseguir, quero esclarecer que considero existir indubitavelmente um aquecimento global, acelerado sobretudo desde há um século. As provas são irrefutáveis: o mar já subiu um palmo (15 cm) nos últimos 150 anos (vd. figura) e os grandes degelos em curso são inegáveis.
Quais exactamente as suas causas e sobretudo a sua quantificação exacta, é muito mais incerto. Mas a ideia geral de que a combustão causa efeito de estufa é consensual, e ocorreu muito antes até de se ter dados para crer que isso realmente acontecia, no sec. XIX, ao químico Arrhenius. Vou, por isso, dar como bons os resultados científicos estabelecidos pelo Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (PIAC) e pela NASA. Não os porei em causa. O que considero digno de menção são factos constantes desse conhecimento pouco divulgados, talvez por os nossos opinion-makers raramente lerem os documentos produzidos pelos Organismos internacionais especializados que gostam de invocar para agitar bandeiras e emoções.

O primeiro facto é relativo às causas humanas da emissão de gases causadores do efeito de estufa: o gráfico que postei aqui mostra a contribuição relativa dessas causas. De acordo com esse gráfico, a produção de energia eléctrica e para aquecimento mais os transportes produz, no total... 1/4, apenas, desses gases! No entanto, o próprio PIAC reconhece que a incerteza nos modelos climáticos existentes é ainda grande e que a margem de erro na quantificação da contribuição dos gases emitidos pelo uso de terras e pela desflorestação é de 30 a 50%.
De acordo com o gráfico que referi atrás, a maior contribuição humana para o aquecimento global vem do CO2 da desflorestação, das queimadas das savanas, dos fogos florestais e dos métodos agrícolas que "secam" os solos de carbono, bem como do metano gerado na agricultura do arroz. Juntos, estes eventos causarão metade das emissões humanas de CO2, mais de duas vezes as causadas pelos nossos "vícios consumistas" na sociedade industrial!
No entanto, dentro da "margem de erro" referida também se pode chegar a conclusões mais culposas para o nosso "consumismo", como as representadas no gráfico ao lado. Neste quadro, a produção de energia e os transportes já serão responsáveis por cerca de metade dos gases emitidos, mas ainda assim o mau uso da terra produzirá 1/3 desses gases!

Como é evidente, a existência destas incertezas acarreta um enorme potencial de desentendimento político mundial, porque conforme os extremos dos intervalos de incerteza adoptados assim se poderá culpar sobretudo os países "consumistas" industrializados, ou pelo contrário advogar que não são menos culpados os países do 3º Mundo que desflorestam para construir e cultivar, deixam queimar as savanas ou têm agriculturas desertificantes!
Na verdade, a primeira grande causa da emissão de gases causadores de alterações climáticas é, simplesmente... a explosão demográfica da Humanidade! Praticamente qualquer actividade humana causa alterações à Natureza que modificam o clima! Ora desde que a primitiva comunidade de uma centena de Homo Sapiens saiu do corno de África há uns cem mil anos, até aos 6770 milhões actuais, a Humanidade ocupou a maioria da superficie do planeta, e com essa ocupação veio a sua modificação. Quanto a esta causa determinante, a principal esperança de redução das causas do aquecimento central é a previsão da redução da população, após o máximo de 10000 milhões previstos para 2050... ou a partida para a colonização de outros planetas :-) .
A segunda grande causa da emissão de gases é o elevado consumo propiciado pela evolução tecnológica, sobretudo da sociedade industrial, a que toda a Humanidade quer ascender. O planeta tornou-se demasiado pequeno para esta espécie que nós constituímos, e basicamente o que temos é de aprender a viver num espaço limitado. E com recursos naturais limitados.
Como sempre, naturalmente, todos querem um bocadinho maior desses recursos, e com isso vêm os conflitos. Contra os quais a única resposta boa é a negociação e a cedência, mas de parte a parte.
Para já, o 1º Mundo a que pertencemos oferece-se para ajudar o outro e, como gesto de boa vontade, avança com 20 milhões para ajudar a evitar, que mais não seja, o lixo a céu aberto...

Provincianos q.b.!

Quando 1/5 (20%) da energia eléctrica for de origem eólica no nosso país, como planeou o actual Governo, haverá ocasiões em que o conjunto das eólicas produzirá mais que o consumo nacional.
Que fazer a essa energia excedente?
Pode-se exportá-la, mas a Espanha vai ter o mesmo problema, e de Espanha para a restante Europa há poucas linhas de Alta Tensão por onde escoar excedentes.
Há, na verdade, duas soluções.
A primeira é o que estão a fazer países como a Alemanha, a Irlanda e os EUA (e até, em segredo, a Espanha), que é exigir aos fabricantes das turbinas que as munam da capacidade de reduzirem temporariamente a potência gerada e de pilotarem a que estiverem a produzir em função do consumo da rede, como fazem as centrais eléctricas clássicas. Exceptua-se a Dinamarca que resolve o problema com a sua forte interligação à rede eléctrica alemã, muito maior.
A segunda solução são as ideias "iluminadas" que se propõem em Portugal: as eólicas trabalharem sempre à máxima potência como até aqui, e arranjar-se alguma coisa que "armazene" a energia excedente.
Do MIT-Portugal ouvi ontem na TV a extraordinária "inovação" para os Açores (elevados a "green islands") de as pessoas comprarem carros eléctricos e, quando houver excesso de energia na rede, deixarem os carros em casa a carregar as baterias (para escoar a energia em excesso) e irem para o trabalho e levarem os filhos à creche de autocarro ou a pé! :-)
O Governo arranjou também uma solução altamente inovadora para o Continente (ninguém ainda teve esta ideia lá fora para resolver o excesso pontual de energia das eólicas, a não ser alguns académicos): as novas centrais hidroeléctricas que vão agora ser construídas serão de bombagem: isto é, terão albufeiras com previsão de armazenamento e serão capazes de funcionar ao contrário, como motores de bombagem de água, levando-a de baixo para cima de volta às albufeiras. Quanto ao que estas hidroeléctricas custarão a mais por causa disto e quanta energia se perde neste processo ainda não vi contas...
Mas porque não começamos por ver o que fazem os outros?

Portugal já foi um país com a maior parte da energia gerada por renováveis; porque deixou de o ser?

Durante muitos anos, Portugal teve nos seus rios a fonte da maior parte da energia eléctrica que produzia, e de forma completamente auto-suficiente.
De facto, até meados do século passado não havia uma rede eléctrica única no país. Cada cidade ou região administrativa tinha as suas próprias centrais eléctricas: uma quantidade apreciável de pequenas mini-hídricas, e algumas térmicas, como Lisboa, que era alimentada pela "Central Tejo", construída durante a Grande Guerra e hoje convertida em museu da electricidade, e que funcionava com carvão importado de Inglaterra. No final dos anos 30 havia cerca de 400 pequenas centrais eléctricas em Portugal, mas só 5 ultrapassavam a potência de 5 MW. Era quase o paradigma da microgeração que agora se propugna como inovador....
Naturalmente, o país era muito pobre e grande parte da população não tinha acesso à electricidade.
Depois, durante a Guerra Mundial, Salazar resolveu dar uma oportunidade aos "industrialistas" que defendiam ser possível o progresso económico do país apesar dele não ser rico em carvão, contra os "ruralistas" que dominavam a Corte da época. E chamou o Eng.º Ferreira Dias (na foto), professor de Electrotecnia do Instituto Superior Técnico, que publicaria o famoso "Linha de Rumo" (reeditado em 1998), onde defenderia o primeiro (e talvez único...) projecto estratégico coerente de desenvolvimento industrial de Portugal. Foi com base no trabalho de Ferreira Dias como Sub-Secretário de Estado que foi publicada a lei da Electrificação Nacional de 1944, onde se estabelecia o princípio de que "a produção de electricidade teria de ser de origem hidráulica, devendo as centrais térmicas reservar-se para funções complementares, nomeadamente durante o Verão, para aproveitar os carvões pobres de origem nacional". Como vêm, Ferreira Dias estaria na moda hoje!...
E foi assim que, sobretudo na década de 50, foram construídas as grandes (para a época) centrais hidroeléctricas de Castelo de Bode e do Alto Douro, Cávado, Zêzere e Tejo. E que todas essas centrais foram interligadas numa rede eléctrica nacional.
Dos anos 50 aos 80 do século passado, portanto, a maioria da energia eléctrica em Portugal foi de origem renovável, concretamente hidroeléctrica!
Mas mais: a construção e exploração dessas centrais hidroeléctricas foi inteiramente nacional, porque Ferreira Dias arquitectara um plano integrado de desenvolvimento, assim:
- para que Portugal dominasse a engenharia civil necessária ao projecto e construção das barragens, criou o LNEC, indo ao IST buscar um professor para o efeito, Manuel Rocha. O LNEC teve tal importância que foi a partir de engenheiros nele treinados que se vieram a formar as grandes empresas de engenharia e construção civil portuguesas, que ainda hoje tanto peso têm;
- enquanto professor do IST, promoveu o ensino das aplicações da electricidade e seleccionou sistematicamente os melhores alunos para irem ajudá-lo a planear a rede eléctrica nacional, que é um sistema complexo;
- para que fosse Portugal a construir as máquinas eléctricas que equipariam essa rede eléctrica nacional, promoveu a criação da EFACEC e da SIEMENS de Portugal, em 1948, e a SOREFAME viria a construir comportas para as barragens;
- e para que se garantisse consumo para a energia que se iria produzir, o Porto foi privado de rede de distribuição de gás.

Porque e quando deixaram as "renováveis" de ser dominantes na produção de energia eléctrica portuguesa?
A primeira grande central térmica de Portugal foi a do Carregado, e entrou em funcionamento no início dos anos 70: concebida antes do 1º choque petrolífero de 1973, operava a partir do petróleo, mas a sua função essencial era mais a de equilibrar a tensão das linhas que traziam a maior parte da energia das barragens do Norte do que outra coisa. Já razoavelmente maior foi a outra central a petróleo que se lhe seguiu pouco depois, a de Setúbal, e que entrou em serviço no final da mesma década de 70. Há já largos anos que essas centrais raramente operam, agora.
Acontece que após o 25 de Abril as empresas de electricidade foram nacionalizadas e a rede eléctrica estendeu-se finalmente a todo o país, levando a energia a todo o lado, o que estava longe de acontecer até então. E o grande aumento do consumo daí decorrente, bem como da industrialização acelerada que ocorrera nos últimos anos do regime deposto em 74 é que tornaram inaceitável estar-se à mercê da variabilidade dos rios - secos no Verão e cujo potencial energético depende, em cada ano, do acaso das chuvas que tiverem ocorrido - tornaram inaceitável a dependência da chuva que enche os rios.
Foi assim que foi construída, já nos anos 80, a grande central a carvão de Sines e, só então, a energia eléctrica nacional deixou de ter origem renovável na sua maior parte.
Ora a energia eólica ainda é muito mais variável que a dos rios. Se esta varia com os meses do ano e por vezes, fora do Verão, com os dias de chuva ou não, o vento muda radicalmente quase hora a hora e é muito mais imprevisível! E o mesmo sucede com a energia solar, que depende das nuvens no céu e que, obviamente, não funciona à noite quando se precisa de acender a iluminação!
É por isso que, pela mesma razão que em tempos se teve de complementar a nossa energia renovável de origem hídrica com centrais térmicas, o mesmo terá de acontecer com o eólico. Mas uma central térmica não tem de ser forçosamente poluente. Para o carvão estão em desenvolvimento tecnologias de "captura do carbono", e nas centrais nucleares o vapor que acciona as turbinas é produzido pela cisão atómica, que não liberta fumos.
Mas claro que seria conveniente era que qualquer projecto de desenvolvimento energético copiasse as preocupações de Ferreira Dias quanto à incorporação nacional! Não por qualquer bandeira nacionalista de outros tempos, mas porque Portugal precisa desesperadamente de empregos, de empregos qualificados e sustentáveis como os que tais actividades criam!

quarta-feira, julho 08, 2009

O carvão não se deixou de usar com o fim das locomotivas a vapor!...

Toda a gente sabe que os carros e muitas fábricas emitem CO2, o principal gás que contribui para o efeito de estufa e as alterações climáticas decorrentes. O que já pouca gente sabe é a que ponto contribuiem para a emissão de CO2 as relativamente poucas centrais a carvão que produzem grande parte da energia eléctrica que o mundo consome!...

Uma publicação recente detalha o que já era conhecido: as centrais a carvão emitem 1/4 de todo o CO2 gerado no mundo. Mas a maior parte do CO2 não vem da indústria nem dos transportes (vd. figura).

Na "liderança" desta produção de CO2 pelo carvão estão os EUA, cuja electricidade deriva em 50% desse tipo de centrais, e no conjunto do planeta o carvão é a fonte de 40% da energia eléctrica. Na Polónia, 92% da electricidade é gerada a partir do carvão, na República Checa e na Grécia cerca de 60%, na Alemanha 50%.

Em Portugal, só as duas centrais de Sines e de Abrantes geram 30% da nossa electricidade, cada uma delas mais que todas as turbinas eólicas existentes juntas!

quem pense em petróleo quando se fala em "energia", mas da energia eléctrica muito pouca é feita com petróleo, e a que o é na maioria é em produções dispersas por fábricas a que se chama, muitas vezes impropriamente, "cogeração", aliás generosamente subsidiada pelo défice do sistema eléctrico ao abrigo da legislação existente desde o Governo de Guterres.

O carvão é abundante e não está no sub-solo de países inconvenientes. O nosso vem na sua maioria da Austrália que, sendo rica em carvão, o usa à discrição e é, por isso, dos maiores produtores de CO2 per capita a partir dessa matéria-prima. Outro país muito rico em carvão é a China que, por isso, quase equipara os EUA na emissão de CO2 por essa via. Os EUA e o Canadá (outro grande poluidor) reservam 30% do carvão mundial no seu sub-solo (sim, God blessed America), e sob a Sibéria e a Europa do norte estão mais 1/3 das reservas mundiais. E são reservas grandes: ao actual ritmo de consumo, se o petróleo dá para mais 40 anos e o gás natural para 65, o carvão ainda durará 150 - tempo suficiente, decerto, para se conseguir o controlo da fusão nuclear, o Santo Graal da energia limpa e infinita.

O carvão e a sua queima são baratos: o custo do kWh gerado a partir dele é da ordem de 30 € /MWh, menos de metade do que custa a mesma energia extraída do vento, e desse preço só metade é do carvão em si, sendo o resto do custo da central; na Europa, porém, desde há 10 anos que o protocolo de Kioto multa o carvão pela sua emissão de CO2, o que aumenta o seu custo dos 30 para 50 €. Nos EUA o custo do MWh produzido a carvão é ainda menor, 25 €/MWh, e os EUA não subscreveram Kioto...

Por tudo isto, coloca-se a questão: mas é mesmo necessário desistir do carvão e mandar as centrais eléctricas que o produzem para o caixote do lixo da História onde jazem as velhas locomotivas a vapor? Não haverá soluções engenhosas que permitam "limpar" o carvão e manter o seu uso, não haverá reformas tecnológicas que evitem a revolução energética?
Não as há em uso corrente, mas há-as em fase experimental: consistem em "capturar" e depois "sequestrar" o carbono da queima do carvão, e num próximo post falarei das perspectivas dessas tecnologias.

terça-feira, julho 07, 2009

Uma "esperteza" realmente necessária nas redes eléctricas

Um dos graves problemas que a proliferação das eólicas está a trazer às redes eléctricas é a da sua segurança.
Com efeito e ao contrário do que desde sempre foi exigido às centrais de geração tradicionais, às eólicas não tem sido exigido que suportem as oscilações de potência que ocorrem quando dos inevitáveis incidentes a que a rede está sujeita, o que as predispõe a que "desafinem" facilmente, se desliguem e possam causar apagões, como notei aqui.
Mesmo que as turbinas eólicas evoluam para serem capazes de aguentar essas oscilações e darem o seu contributo à segurança das redes, o que tecnologicamente já está a acontecer graças à pressão das regras técnicas alemãs, que claramente pretendem manter a liderança tecnológica mundial da sua indústria de turbinas (que os EUA se preparam para desafiar), é preciso que países como o nosso adoptem regras técnicas similares para não se tornarem o "caixote do lixo" das indústrias de turbinas obsoletas. Como está exemplarmente a fazer a Irlanda, por exemplo, que também não fabrica turbinas mas também tem muita energia eólica (pudera, têm os melhores ventos da Europa!...)
Mas isto não basta.
Há um problema crítico com as grandes instalações eólicas ligadas às redes de Distribuição de energia, que não foram pensadas para encaixarem essa produção, e que em Portugal, como em alguns outros países (mas não em Espanha) encaixam quase metade da produção eólica. Esse problema é um problema técnico, e consiste em como poderão as instalações eólicas distinguir um incidente na rede de origem local, de um com origem na rede de Muito Alta Tensão da REN. Trata-se de um problema crítico para que se evitem os apagões, desde que as turbinas tenham as modernas capacidades que referi.
Ora a solução desse problema passa por sistemas de protecção que requerem comunicações muito rápidas e flexíveis entre equipamentos dispersos na rede eléctrica, comunicações que são a base do futurista conceito das "smart grids".
Há normas internacionais em desenvolvimento para o efeito, mas tratam-se de coisas ainda pouco maduras para as quais não há ainda produtos no mercado mundial. Eis um assunto correspondendo a um problema realmente existente que poderia ser uma oportunidade para as nossas empresas, se quem de direito - concretamente, o Ministério da Economia, que é quem supervisiona estes assuntos - produzisse a legislação com normativos técnicos a cumprir pelos produtores de energia que os melhores dos outros países têm...

segunda-feira, julho 06, 2009

O provinciano pensa que o mundo é como a sua aldeia

O Público de hoje traz uma entrevista com o especialista americano de política educativa Stephen P. Heyneman que nos critica a "criação de leis sem conhecer o que os outros países fazem de melhor".

Não vou falar da entrevista em si, mas sim desta afirmação específica que penso ser certeira como um míssil guiado por GPS. Aliás, tudo o que o Stephen diz nesta entrevista é igualmente certeiro!

Na verdade, o meu incómodo sobre a nossa habitual ignorância e menosprezo pelo que se faz lá fora nem é particularmente no que respeita a leis, mas muito mais no que respeita à tecnologia - à que efectivamente se pratica no terreno sócio-económico, e não à que se publica nas Conferências e revistas de académicos! Vou dar dois exemplos da minha experiência pessoal que considero absolutamente exemplares.

O primeiro passou-se com um projecto de concepção e desenvolvimento de uma linha de produtos de alta tecnologia que há quinze anos fui desenvolver para a indústria, após anos de investigação académica sobre a respectiva tecnologia.

Para começar, esclareço que o próprio facto de "ter ido para a indústria" resultou da convicção de que um produto se desenvolve para dar dinheiro a ganhar a quem o produz, criando empregos sustentáveis, e que por isso tem de ser concebido para ser flexivelmente comercializado, economicamente produzido, e ter uma evolução tecnológica sustentável. Ou seja: o seu desenvolvimento tem de ser feito para as estratégias de marketing que o promoverão, para minimizar os factores de que dependem os custos de produção, e satisfazendo a necessidade de fixação da gente no interior das empresas que há-de manter a evolução do produto. Em suma: um produto tecnológico pensado para ser vendido com lucro em mercados não-monopolistas só pode ser desenvolvido no interior de empresas, e não no da Academia!

Mutatis mutantis, trata-se da mesma posição que levava a Organização estudantil maoísta em que militei nos anos 1970-73 a achar que era preciso "ir para a classe operária" organizar a revolução operária e não pensar em fazê-la no movimento estudantil universitário, posição muito mais fácil (e estéril) de muitos "iluminados" da minha geração (e foi por isso que a UDP, mais tarde, chegou a ter um deputado e os outros grupúsculos maoístas não).

Esta minha posição no desenvolvimento da tal linha de produtos foi coroada de sucesso e eles lá estão em produção, cada vez melhores e exportando-se bem. Claro que isto não contribuiu em nada para a minha carreira académica e não são poucos os meus colegas que acham que eu com isto "traí" a Universidade...

Porém, houve outra orientação que pratiquei nesse desenvolvimento da linha de novos produtos: além de estudar dentro da empresa com que fui colaborar as estratégias de marketing e de produção, comecei por fazer um estudo sistemático de todos os produtos estrangeiros que se faziam à época e com que os nossos iriam concorrer. No fundo, adaptei o que se aprende na Investigação académica: antes de se pensar em inovar nalguma coisa, há que se informar bem do que já existe. E, nesse processo, abri e estudei todos os produtos estrangeiros que pude, além do estudo dos seus manuais e definições de produto.

Ora o curioso é que, embora eu tivesse feito isto dentro de uma empresa que é das melhores que temos em termos tecnológicos e comerciais, o facto é que tal prática era algo nova por lá, o que muito me surpreendeu. Muitas das sugestões iniciais que recebi na empresa e que pareciam criativas, por exemplo, não correspondiam ao que os "outros" faziam e, em vez de desdenhar deles como era algo habitual, parti do princípio que esses "outros" não eram parvos e que deviam ter boas razões para fazer como faziam, as quais importava descobrir. E assim evitei muito trabalho fadado ao fracasso e muito aprendi com os concorrentes, ainda que um ou outro dos seus produtos fosse mesmo mau. Isto até tem um nome clássico na gestão de tecnologia, o de "reverse engineering", mas que por cá é frequentemente visto como algo desprezível. O mesmo desprezo que se tinha pelos japoneses, que também copiavam tudo quando começaram...

O segundo exemplo de provincianismo nacional no domínio tecnológico que quero mencionar é algo mais recente: o das regras técnicas de ligação à rede da EDP das instalações de energia renovável.
Uma rede eléctrica é um gigantesco organismo onde tudo o que lhe está ligado se relaciona e em que todos os equipamentos geradores de energia têm de funcionar sincronamente, como os membros de uma orquestra sinfónica. Um gerador que "desafine" pode prejudicar gravemente a actuação do conjunto e, se um grupo inteiro de geradores perder o ritmo e parar de tocar, toda a "orquestra" se desconjunta e pode ser forçada a parar - o chamado "apagão".
Ora os produtores independentes de energia renovável (e não só) não são pagos por funcionarem bem sincronamente. São pagos apenas por "emitirem som", digamos assim, ou seja, pela energia que fornecem mas não pelo modo como o fazem. Portanto, para que eles não "desafinem" a rede toda têm que obedecer a regras, quanto ao modo como "fazem o som". E portanto essas regras têm que existir.
Há uns anos, um estudo feito em Portugal mostrou que certos incidentes que podem ocorrer na nossa rede eléctrica poderiam levar a um grande apagão peninsular, quando a quantidade de energia eólica atingisse um certo valor, e se não se definissem algumas regras técnicas para o modo como os "renováveis" se ligam à rede. Estudo idêntico feito pouco antes em Espanha chegara à mesma conclusão lá. Ora esse valor de energia eólica está quase a ser atingido, e essas regras não existem ainda!
Feita uma digressão pelas práticas dos outros países, verifica-se que quase todos os que têm energia renovável com tanta importância como a nossa há muito que definiram regulamentos e/ou legislações precisos e adequados para as condições técnicas dessas ligações à rede, e que vão colaborando com as suas indústrias nacionais de turbinas para que elas implementem as soluções técnicas necessárias. Alguns nem têm muita energia renovável e têm regras de alta qualidade técnica, como a França, outros nem são grandes potências e têm regulamentos excelentes, como a Irlanda, e só a Espanha, que infelizmente hoje em dia tende a ser a nossa referência tecnológica (substituindo a tradicional França), se aproxima do nosso grau de probreza na matéria. Porque, de facto, a questão da existência destas regras técnicas tem passado completamente ignorada dos nossos decisores na matéria, constituindo mais um aspecto em que nos distinguimos decisivamente dos outros - pela negativa. E se a Espanha não está muito melhor que nós, ao menos eles têm uma Gamesa e 40 mil empregos "eólicos" para proteger...!
Ora o extraordinário é pretendermos ser líderes tecnológicos em "redes eléctricas inteligentes" alegadamente por causa do futuro radioso e "renovável" que está a nascer, e depois termos esta vergonhosa situação na gestão da rede eléctrica real que existe!
Mas porque não começamos por ver o que fazem os outros?

Porque vão os EUA apostar na energia eólica

Recentemente, um estudo da Universidade de Harvard feito com múltiplas fontes metereológicas e em particular da NASA, apresentou um primeiro mapa mundial do potencial eólico para a produção de energia.
O estudo considera apenas as novas turbinas de 3 MW que estão agora em desenvolvimento e que usam torres com 100 metros de altura, e os resultados são os ilustrados na figura, por país.
De um modo geral, verifica-se que há dois tipos de regiões "ricas" em vento: em certas costas, como no Mar do Norte ou na Argentina, e em certas grandes planíceis, como no Austrália (Sul), toda a pradaria americana e Canadá, e Sibéria.
Nos EUA, toda a grande região central que vai do Texas ao Dakota é relativamente pouco habitada (mas muito agricultivada). Mais uma vez se demonstra que "God blessed America".

Quanto custa o vento?

Há quem pense que a energia eólica deve ser muito barata, já que o vento é grátis.
O vento é grátis, mas as turbinas eólicas necessárias para o transformar em electricidade não o são. E, no caso português e ao contrário de todos os outros países europeus com grande produção deste tipo de energia, são infelizmente integralmente importadas.
Ora segundo um relatório da EWEA, em Portugal o custo de instalação por MW das instalações eólicas anda pelo 1,1 milhão de €. É um custo médio, em termos internacionais, muito semelhante ao verificado nos outros países.
Este custo distribui-se da seguinte forma: 68% para a turbina eólica e 32% para "outros custos", que incluem a construção das fundações e a "ligação à rede". A EWEA sublinha o facto de Portugal ser o país europeu onde os "outros custos" são de longe mais altos...
Uma vez posta a trabalhar, toda a energia que as turbinas produzirem tem de ser obrigatoriamente comprada pela EDP, com uma tarifa definida pelo Governo e cujo valor médio, garantido a 15 anos, era de 90 €/Mwh até 2005, mas que daí para cá tem andado pelos 74 €.
Como as turbinas produzem, em média anual, apenas cerca de 1/4 da sua capacidade máxima, mas os seus custos de manutenção e operação são muito baixos (da ordem dos 2% da energia produzida), contas feitas, ao fim de entre 5 1/2 a 7 anos estão amortizadas. Para um período de 15 anos de tarifa garantida, trata-se de um investimento seguro e rentável e sem "chatices", dado que a monitorização do funcionamento das turbinas é feita por tele-comando, em geral pelo próprio fabricante estrangeiro. Basicamente o investidor só tem que obter o terreno, o financiamento para a importação das turbinas, as autorizações e as concessões, e pagar o projecto e a execução do parque eólico e da sua ligação à rede da EDP (que é onde entra a "incorporação nacional").
Entretanto, os 74 € /Mwh que são pagos pela EDP ao produtor eólico são pouco menos que o valor pago pelo consumidor à EDP. Quer isto dizer que este não paga grande parte dos custos da rede eléctrica que transporta a energia de origem eólica até às suas casas. São esses custos que vão para o défice.

domingo, julho 05, 2009

TGV é o quê?

Muita gente pensa nos TGV e vê comboios a andar a alta velocidade e imagina que o essencial, na tecnologia dos TGV, são as locomotivas que os movem e a sua enorme potência.
Mas é um erro.
O essencial nos TGV são as ferrovias, que não podem ter nenhuma irregularidade, nenhum desnível, nenhuma falha, de modo a que os comboios que lá passam a 300 e 400 km/h não descarrilem.
As ferrovias dos TGV são autênticas pistas de aviação, no rigor que tem de ter o seu piso, estreito mas com muitas centenas de km de comprimento a direito, haja vales, montanhas, rios ou cidades! As montanhas têm de ser atravessadas por túneis, os vales têm de ser ultrapassados por pontes, os montes têm de ser aplainados, para que lá passe um TGV. Construir tal ferrovia não tem nada a ver com o tipo de tarefa dos coolies ao construirem o caminho de ferro americano ou dos prisioneiros da Ponte do Rio Kway!
Ou seja: o projecto de um TGV é essencialmente um colossal projecto de engenharia e de construção civil, e não de comboios rápidos!

Estão a ver agora o que há de comum entre o projecto de um TGV, o de um aeroporto e o das auto-estradas?

sábado, julho 04, 2009

Carro eléctrico versus a gasolina: que economia em cada 100 km?

Já notei aqui como só poderá haver alguma relação entre "energias renováveis" e "independência energética" quando os carros forem eléctricos. Hoje vou partilhar convosco umas contas sobre o custo do consumo desses hipotéticos carros.
Um carro a gasolina típico num circuito combinado (auto-estrada+estrada+cidade) gasta entre 6 e 11 litos de gasolina, conforme seja um Honda Jazz ou um BMW de 6 cilindros. Admitamos, para fixar referências, que é um Honda Civic e que gasta, portanto e em média, 7 litros.
Um Civic não é concebido para a máxima economia. Uma das operações que dissipa muita energia é a travagem do "pára-arranca" urbano. Se, durante a travagem, for possível recuperar a energia cinética do carro em vez de a dissipar a aquecer os discos dos travões, muito se poupará. É isso que fazem os automóveis híbridos. Durante a travagem, em vez de aquecerem discos nas rodas, os "travões especiais" do carro híbrido funcionam como um gerador e carregam baterias. Depois, o carro usa de novo essa energia recuperada das travagens com um motor eléctrico auxiliar do a gasolina. Globalmente, portanto, é nos percusos do "pára-arranca" que um híbrido mais poupa. No percurso misto cidade+estrada+auto-estrada, um híbrido como o Insight da Honda gastará apenas 5 litros (o fabricante diz que são só 4,5l mas já isso é em condições ideais). E ainda se lhe podem acrescentar alguns aperfeiçoamentos, como a gestão do motor a gasolina no seu ponto de máximo rendimento jogando com o motor eléctrico axiliar, como faz o novo Prius da Toyota, e que reduz o consumo médio para 4,5 litros (a Toyota diz que para 3,9 l).
Ora 4,5 litros de gasolina custam hoje em dia em Portugal 6,4 € (a 1,42€/l), mas deste valor cerca de 60% são impostos para o Estado. Descontando-os, temos que num carro a gasolina optimizado para economizar (ou seja, híbrido), o custo de combustível sem Impostos será de 2,55 €/100 km. Num carro similar não-híbrido será uns 55% superior, portanto 3,96 €.
E quanta energia eléctrica gastará um carro eléctrico equivalente a um Civic? Um Tesla da Califórnia (vd. figura) diz que gasta cerca de 12.5 kWh aos 100 km, mas os números do Nissan Leaf são mais fiáveis: 24 kWh para uma autonomia média de 150 km, portanto à média de 16 kWh/100 km, um valor semelhante aos 18 kWh anunciados pelo Toyota RAV eléctrico (naturalmente, os automóveis eléctricos também fazem "travagem regenerativa de energia" como os híbridos). Ora o kwh no consumidor está no mínimo a 0,15 €, pelo que o consumo
do Nissan custará, àparte o custo da bateria, cerca de 2,4 €. Porém, este custo está presentemente subsidiado pelo défice em perto de 15% e por um IVA de apenas 5%, pelo que retirado esse subsídio e o IVA, o custo da electricidade sem impostos nem subsídos sobe para 2,59 €/100 km. E é este valor que se tem de comparar com os 2,55 € sem impostos que custarão os 100 km no carro a gasolina híbrido (ao preço actual da gasolina). Como se vê, o custo da energia do carro eléctrico nunca será inferior ao do híbrido, e se considerarmos o custo adicional a incluir no kwh das estações de carga das baterias, o custo ficará ainda maior.Claro, ficaram por tratar os custos do carro em si e o problema crítico da sua autonomia, dada a fraca capacidade das baterias existentes. Porém, o que é evidente é que qualquer comparação de custos entre gasolina e electricidade tem de ter muito cuidado em descontar a parte política dos respectivos preços; sem isso, em vez de termos os custos reais aproximadamente iguais, teremos a ilusão do carro a electricidade poder gastar 1/4 ou menos do $ que gasta o equivalente a gasolina (como nos tentam enganar aqui). Ora, não é fácil de crer que o Governo venha, num cenário futuro de carros eléctricos, a aceitar perder o Imposto sobre os combustíveis em troca de nada e muito menos em troca de um défice tarifário permanente na electricidade.Por outro lado, umas contas simples mostram que para carregar as suas baterias, se todos os carros portugueses em circulação (quiçá 3,5 a 4 milhões) forem eléctricos e fizerem de 12.500 a 15.000 km/ano, isso causará um consumo de energia eléctrica adicional de 16% do consumo nacional actual (que é de 49 Twh). Como já existe um défice de produção anual de perto de 10% (importada) e a exploração integral dos recursos eólicos nacionais dificilmente permitirá acrescentar mais que 10% ao que já está em exploração, tal significa que serão sempre precisos mais 15 a 20% de geração (além da eólica) para cobrir o consumo eléctrico automóvel e ser-se auto-suficiente em electricidade. O equivalente a uma central térmica, a gás ou a carvão, e se a quisermos descarbonizada, uma nuclear...
Actualizado em 30 de Novembro de 2011.

Os checos ainda andam a investigar carros híbridos!



Na Conferência Internacional de 2008 de Máquinas Eléctricas, dois investigadores da Universidade Técnica de Praga publicaram um paper muito interessante sobre o projecto optimizado de automóveis híbridos (paper ID 833). Trata-se de um trabalho inserido numa linha de Investigação do Centro de Engenharia de Motores e Automóveis Josef Bozek daquela Universidade.

Nós por cá, porém, estamos todos a virar-nos para o "automóvel eléctrico", o que dá a impressão de estarmos muito mais avançados que os checos, que ainda andam interessados só em híbridos. Pff...!

Será que o atraso dos checos se deve ao facto de terem uma empresa nacional de automóveis muito antiga, a Skoda, por sinal considerada a marca com os automóveis mais fiáveis que se fabricam na União Europeia hoje em dia, e que este trabalho foi feito para a Skoda?

Nós, felizmente, não temos esses obstáculos à liderança tecnológica!...

"Smart grids" - uma bolha financeira em formação?



quem tenha sérios receios de que todo este enorme capital disponibilizado primeiro pela União Europeia, e agora pela Administração Obama, para a realização das "redes de energia inteligentes", venha a traduzir-se numa enorme bolha especulativa que um dia rebentará em nada.
Na verdade, de concreto, todo este "movimento" assenta apenas em dois pressupostos muito longe de estarem confirmados:

- Um, é que vêm aí formas de microgeração de electricidade rentáveis, como o solar fotovoltaico, de tal forma que os consumidores poderão vir a ter horas em que lhes interesse vender "excessos" de produção; trata-se de pura fé, esta expectativa na microgeração. A menos que seja fortemente subsidiada pelo Estado, mas duvido que a China vá nisso - e se ela não for, muito menos o irão os EUA e a Índia...
- O outro é que com contadores inteligentes e ligados aos aparelhos eléctricos, os consumidores aceitarão desligar este ou aquele consumo em função da tarifa.

Ora esta ideia de que os consumidores poderão ajustar os consumos ao preço instantâneo da energia já é velha: há 30 anos chamavam-lhe "gestão de cargas", foi experimentada usando sinais codificados nas emissões de rádio comerciais (como as usadas nos rádios dos carros para dar informações de tráfego), e nunca deu em nada. Pois se uma das grandes belezas da electricidade é poder-se usá-la quando se quer, quem é que estará disposto a desligar o ar condicionado ou a luz só porque a energia está mais cara neste preciso momento, e ainda ter de pagar para ter todo o equipamento electrónico para isso?

sexta-feira, julho 03, 2009

Portugal, uma "Albânia, farol do ecologismo"?

A "aposta nas energias renováveis", na verdade a aposta na energia eólica, foi decidida pelo Professor Oliveira Fernandes, quando era Secretário de Estado do Governo de António Guterres.
Os Governos de Durão Barroso e Santana Lopes deram-lhe um grande impulso e, finalmente, o de Sócrates fez dela um dos esplendores da sua governação.
Entretanto, um ex-Secretário de Estado e um ex-Director-Geral da Energia, que foram decisivos neste grande projecto, vieram a obter sociedade numa das empresas mais beneficiadas com o grande negócio das eólicas e conhecida como uma das "empresas do regime", a Martifer.
Portugal é, presentemente, o 3º país da Europa com maior percentagem de energia eléctrica proveniente do vento, depois da Dinamarca e ombreando com a Espanha, e o 10º produtor mundial em capacidade instalada. Tal facto tem sido apontado com orgulho e chega-se a justificá-lo por combater a "dependência energética".
Mas terá Portugal um especial interesse nesta posição de vanguarda, tendo em conta que a energia eléctrica de origem eólica custa, descontando taxas e subsídios, cerca do dobro da proveniente do carvão queimado nas grandes centrais de Sines e Abrantes?
Se analisarmos os outros países que ombreiam com Portugal na vanguarda da energia eólica, verificamos o seguinte:
- Na Alemanha, que é o maior produtor europeu e apontado como o país que mais fez para cumprir o protocolo de Kioto de 1997, existe uma poderosa e tecnologicamente liderante indústria de turbinas eólicas. Entre os seus vários fabricantes, destaca-se a avançada Enercon, de que a imprensa alemã deu conta de ter sido vítima de um roubo de tecnologia pelo Echelon americano em meados dos anos 90; por causa disso, as patentes da Enercon foram registadas primeiro pelos EUA, e esta está proibida de exportar para aquele país;
- A Dinamarca, que é a campeã mundial na percentagem do consumo eléctrico de origem eólica, tem o maior fabricante mundial de turbinas, a Vestas, responsável por exportações no valor de 4 mil milhões de euros anuais.
- A Espanha, nossa companheira, tem também vários fabricantes de turbinas, e entre eles a Gamesa. A Gamesa exporta metade da sua produção, em especial para os EUA e a China (que entretanto instala uma central a carvão nova por mês!...).
- A Vestas, a Enercon e a Gamesa detêm, respectivamente, o 1º, o 3º e o 4º lugar no ranking dos fabricantes mundiais de turbinas eólicas. O 2º lugar é da GE americana.
- Segundo dados da EWEA, a Associação Europeia da Energia Eólica, no final de 2007 a energia eólica dava emprego directo ou indirecto a 154 mil pessoas na Europa. Destas, cerca de 100 mil eram na Alemanha, Dinamarca e Espanha, com 38 mil no país "hermano". Segundo o mesmo relatório da EWEA, o número de empregos efectivamente já criados pela indústria eólica em Portugal, nos finais de 2007, era de... 800!
Estes números evidenciam o facto de, sendo Portugal um "líder" do eólico, o ser mas só enquanto consumidor! E, se é facto que este Governo procurou trazer para Portugal alguma fabricação de componentes (a EWEA reconhece a criação em 2009 de mais 3 mil empregos), também é verdade que não temos qualquer domínio da respectiva tecnologia nem, pois, qualquer poder de decisão na sua fabricação e, portanto, ela é tão sustentável como a da Quimonda ou a das fábricas de montagem de automóveis!
Mas será que Portugal tem especiais condições de vento, que tornem particularmente interessante essa fonte de energia?

Ora os mapas de ventos mundiais recentemente publicados por um estudo feito em Harvard com dados da NASA, e os estudos da EWEA, mostram que nem por isso. O vento é muito variável, e uma turbina eólica passa a maior parte do tempo a produzir nada ou muito pouco
(e é essencialmente por isso que é difícil rentabilizar as turbinas). Em zonas de bom vento, uma turbina conseguirá gerar, em média, 1/3 do que seria capaz se soprasse sempre o vento ideal; mas em Portugal, como na maioria dos países europeus, as turbinas só geram, em média, 1/5 a 1/4 da sua capacidade. Aliás, abaixo de 1/5 considera-se que não há vento que justifique o investimento, mesmo com generosos subsídios. E 1/4 é precisamente a média que produzem as turbinas em Portugal, mas as próximas já serão em locais cada vez piores...
Na Europa, os melhores ventos estão nas costas do mar do Norte e do Báltico, na costa da Escócia e na da Irlanda, e em Navarra (no mapa ao lado, a qualidade do vento decresce do máximo em roxo para o mínimo em verde). E essa é a outra razão porque alguns países dessas regiões tanto investiram na energia eólica, como precisamente a Dinamarca, a Alemanha e a Espanha.

Portugal, portanto, nem tem particularmente boas condições de vento, nem uma indústria exportadora e empregadora de turbinas eólicas, ao contrário dos outros países que "competem pela liderança" connosco nesta matéria. Qual é, então, a razão desta grande aposta portuguesa?
Numa entrevista à SIC de ontem o ex-Ministro da Economia foi claro: uma razão é o orgulho em sermos apontados como exemplo no combate às alterações climáticas, e outra o sermos um "laboratório" destas coisas.

Gostaria, porém, de lhe ter ouvido esclarecer que, sendo a energia de origem eólica mais cara que a tradicional, tal não é sentido pelos consumidores porque o referido custo extra tem sido remetido para o défice!
Porque será que isto me lembra a Albânia de Enver Hodja quando ela, na sua miséria e com a insignificância dos seus 2 milhões de habitantes, se considerava o "único país verdadeiramente revolucionário no mundo", o "farol do socialismo" mundial?

quinta-feira, julho 02, 2009

Energias renováveis e dependência energética

E que têm a ver as Energias Renováveis com a dependência energética?
Qual dependência energética? A do petróleo com que se fazem andar os carros? Ou a da energia eléctrica?
A energia eléctrica não se faz com petróleo. Faz-se essencialmente com carvão (40% a nível mundial, em Portugal 30%, nas grandes centrais de Sines e de Abrantes), hidroelectricidade (temos a sorte da maioria dos rios ibéricos desaguar em Portugal), nuclear (importada de Espanha e sobretudo de França), gás natural (ultimamente), e vento (1/8 do que consumimos presentemente).
Portanto, substituir o carvão pelo vento, na produção de energia eléctrica, nada muda na dependência do petróleo que é pago pelo contribuinte na bomba de gasolina. Não há qualquer relação!!!
Poderá vir a haver, daqui a 10 anos, se os carros deixarem de andar a gasóleo ou gasolina e passarem a andar a electricidade. Mas isso ainda é pura ficção científica!
Poderá Portugal posicionar-se para vir a "liderar" uma indústria de carros eléctricos?
Os (imaginados) carros eléctricos precisarão de motores eléctricos. Ora Portugal já os fabricou, em tempos, mas há anos que abandonou tal produção, por ser incapaz de ser competitivo. Não somos a Itália, onde desde os secadores dos lavatórios públicos aos elevadores tudo leva motores eléctricos italianos. Nós agora importamos quase todos os motores eléctricos. E todos os carros.
Grande revolução será precisa, pois, para de tal estado virmos um dia a passar ao de líderes de carros com motores eléctricos, ultrapassando a Honda e a Toyota que, coitados, ainda só lideram o mercado mundial de automóveis híbridos!
Talvez lá cheguemos com muita "vontade" e "determinação". O que me lembra a extrema-esquerda que, nos anos 70, também acreditava poder mudar radicalmente o mundo apenas com a sua visão "iluminada" e muita vontade...

Porque têm a Rússia e os EUA tantas armas atómicas?

A estratégia militar da guerra nuclear baseia-se na teoria dos jogos, como o filme “War Games” romanceou. E, nessa estratégia, o problema tecnológico da precisão de tiro dos mísseis balísticos intercontinentais (ICBM) sempre foi decisivo.
A questão inicial que se coloca é a seguinte: se eu lançar um primeiro ataque com os meus ICBM, que alvos escolherei? Obviamente, sobretudo os ICBM adversários ainda no solo, de modo a neutralizar a sua capacidade de retaliação.
Pensando da mesma forma, o adversário antecipa tal ataque enterrando os seus ICBM em silos subterrâneos “à prova de bomba”. À prova de bomba mas não à prova de uma bomba nuclear com impacto directo na boca do silo!
Porém, os antigos ICBM não tinham precisão de tiro para garantir que acertariam na boca do silo dos ICBM adversários. Este problema, porém, pode resolver-se probabilisticamente se, em vez de lançar um único ICBM contra cada silo dos ICBM adversários, lançar uma barragem deles, um número que se pode calcular – por exemplo, 5. Algum há-de acertar. Mas, para isso, tenho que ter 5 ICBM por cada um dos que o adversário tem.
Naturalmente, o adversário faz as mesmas contas e pensa que se tiver 2 ICBM em vez de um só, eu com os meus 5 talvez não consiga destruir mais que um. Mas, à cautela e porque isto da precisão de tiro é probabilístico, em vez de 2 é melhor ter 6, não vá acontecer que todos os 5 ICBM do meu primeiro ataque acertem no alvo. E, como o meu adversário está a intalar 6 ICBM para garantir a sobrevivência de pelo menos um, eu terei que ter 6x5=30 para garantir que lhe destruo os 6 que ele vai construir ou que suponho que vai. E assim sucessivamente…
Estes números podem ser exponenciados se o adversário dificultar mais ainda a destruição dos seus ICBM instalando mísseis anti-mísseis em torno dos silos dos seus ICBM. Esses anti-mísseis terão de destruir os meus ICBM em voo, antes da reentada destes na atmosfera a caminho dos silos adversários. Mas os anti-mísseis também não tinham grande precisão de tiro, e se os meus ICBM não garantem que acertam no silo, os mísseis anti-mísseis do adversário ainda menos garantem que acertam nos meus ICBM. A menos que transportem, eles próprios… uma ogiva nuclear! Assim, não precisam de acertar directamente no meu ICBM; basta que expludam a menos de alguns quilómetros de distância, ao cruzarem-se, sendo a falta de pontaria compensada com a força da explosão nuclear. Bem, estão a ver a “corrida aos mísseis” que isto provoca…
Dada a imprevisibilidade desta estratégia e a ruína ecomómica mútua que induziria, os EUA e a URSS fizeram o seu primeiro acordo, o SALT I, em 1972, estabelecendo que cada parte só protegeria com mísseis anti-mísseis uma base de ICBM e a capital de cada um dos países. Depois disso, a corrida continuou mas mais na busca de meios para contornar esta lógica quantitativa infernal, ou MAD (“louco”), a lógica do Mutually Assured Destruction.

Hoje em dia a precisão de tiro dos mísseis melhorou enormemente, e é essa a razão principal porque se pode reduzir o seu número sem que isso constitua uma redução da capacidade militar de cada lado, mas apenas a redução do risco de alguma ogiva acabar em "mãos erradas". Como na história do Dr. Estranho Amor, o filme de Stanley Kubrick.

Cálculo do risco de morte com a nova gripe

Remando contra a inumeracia nacional, eis umas contas:
Número de casos detectados até dia 6: 94500; número de mortes: 429; taxa de mortalidade da doença: 0,4%. Dados da OMS disponíveis aqui.
• Mortalidade anual, no mundo, da gripe vulgar: de ¼ a ½ milhão. Sim, a gripe vulgar mata! Aqui. Afecta 10 a 20% da população, todos os anos.
• Taxa de mortalidade da gripe vulgar todos os anos, em média: 0,1%.
• Taxa de mortalidade da gripe de 1918: de 2,5 a 10%. Aqui. Em Portugal terão morrido então mais de 60 mil pessoas, na altura. Afectou 50% da população mundial de 1600 milhões e matou de 20 a 40 milhões, mais que a Grande Guerra, que estava a acabar na altura. Estatísticas recentes avaliam mesmo em de 50 a 100 milhões o número de mortes, equiparáveis aos da peste negra medieval, e que em certas regiões a mortalidade terá atingido os 20%.

Portanto, a gripe A é mais parecida com uma gripe vulgar (quiçá 4 vezes mais mortal) do que com a gripe de 1918, que foi 25 a 100 vezes mais letal (e muito mais contagiosa).
Na verdade, parece similar em letalidade à gripe asiática de 1957, também altamente contagiosa, e que terá matado 1 milhão de pessoas em todo o Mundo.
Será uma gripe "forte", comparando-a com as usuais, mas ainda não é "A grande gripe" por que se espera há anos e se sabe ser inevitável. Esta é só um ensaio, um teste à capacidade de resposta da globalização instantânea da informação.
Uma incompreensão frequente é que a gripe raramente mata por si mesma, o que pode levar a euforias pouco sensatas. A gripe mata sobretudo pelas consequências que provoca o seu enfraquecimento geral da resposta imunitária, e mata as mais das vezes com as pneumonias subsequentes.
Entretanto, é interessante que exista por cá uma memória popular das gripes asiática de 1957 e da de Hong-Kong de 1969. A mãe de uma amiga minha, que vivia numa aldeia perto de Coimbra, lembra-se de haver "casas inteiras com a gente acamada", em 1957...

Do regresso dos cientistas portugueses

Li há dias as declarações feitas em Londres pelo Ministro da Ciência e ocorreram-me de imediato umas memórias reflexivas dos primeiros contactos com colegas estrangeiros em conferências nos EUA, no início dos anos 90. Na altura conheci muitos doutorados sul-coreanos, chineses (da Formosa), indianos e até egípcios, e descobri uma diferença de atitude notória relativamente à maioria dos portugueses que conhecia, também doutorados nos EUA.
Em regra, havia nesses asiáticos uma enorme apetência pela criação de riqueza. Mais exactamente, a assimilação do espírito que mais tarde conheceria no Silicon Valley (onde tenho um amigo de infância, hoje americano, que veio a criar lá a sua empresa high-tech e pela mão de quem visitei muitas outras empresas lá, anos depois): o de que o sucesso científico – melhor ainda: o sucesso pessoal! - se mede pela capacidade de enriquecer com o que se sabe fazer. Daqui derivava a prática generalizada de quase todos terem feito um post-doc… não numa Universidade, mas sim numa empresa high-tech americana! Com vista a aprenderem a transformar conhecimento em negócio.
E, passo seguinte, abriam a sua própria empresa, as mais das vezes com sede nos EUA (por causa do seu mercado aberto e inovador mas também pela questão da imagem), tentando usar a mão-de-obra qualificada dos países de origem com que mantinham laços. Inúmeras empresas high-tech que conheci nos EUA eram feitas assim. Aliás, uma constatação imediata é a de quão desajustada é da realidade a ideia de promover a "marca Portugal"! Ninguém com sucesso real seguiu esse percurso; pelo contrário, procuravam era esconder o país de origem! E só depois, se o seu produto ganhava a confiança do mercado, é que começavam a revelar a sua natureza estrangeira, e só se isso tivesse algum interesse económico.
O terceiro passo era o regresso ao país de origem, se para tal houvesse acolhimento em empresas grandes com estratégia tecnológica lá. Os casos mais conhecidos são, claro, os da Coreia, China e Índia. E, desde há anos, o regresso da "diáspora chinesa" é bem conhecido: todos voltam, se no seu país houver oportunidades, mesmo que numa pequena fracção das existentes nos EUA.
Os nossos colegas lusitanos, porém, padeciam em regra de uma visão que se me afigurava aristocrática: o seu sonho era o regresso a um lugar na Administração pública onde a Corte lhes garantisse uma renda vitalícia – ou seja, o regresso a um pequeno lugar numa Universidade de um país com a população de Manhattan! Na altura ocorria-me que só queriam ser reis numa terra onde chegava ter um olho para tal. Alguns voltaram para depois se irem de novo embora de vez, e alguns desses reencontrei em Palo Alto. Mas mesmo nestes nenhum parecia ter a ambição de ser rico, no sentido em que, para os colegas americanos, isso é uma medida da própria ambição de sucesso profissional. De facto e com esse espírito, só conheço um caso cá na terra, de alguém que conheço há muitos anos: o do Epifânio e a sua Chipidea!
O espírito do Silicon Valley, de resto, é irreproduzível no contexto da nossa mentalidade, mesmo a mais avançada! Ali existe um espírito de aventura, de gosto pelo risco e pelos desafios, que é típico dos países de colonos. Entre uma autêntica Babilónia de origens, etnias e idiossincrasias individuais (o Vale lembra-me uma base lunar da espécie humana dos romances de ficção científica), o típico investigador do Vale não tem horários de trabalho (quantas vezes dorme num colchão ao lado da secretária!), gosta de desportos radicais (ciclismo de montanha, viaturas todo-o-terreno, canoísmo), preza a individualidade (é frequente ter o peluche de infância sobre a secretária) e sonha ser rico. Não rico de um modo qualquer, mas pelo valor do que descobrir ou inventar!
O espírito do investigador do Vale é o mesmo do do antigo garimpeiro da corrida ao ouro na Califórnia. Ele trabalha numa empresa geralmente pequena e considera a Microsoft o "Império do mal", e tenta desenvolver uma ideia nova que, se vingar, multiplicará por muito o valor da empresa na bolsa - e muitas vezes o seu sonho é a seguir vendê-la e gozar da riqueza assim conquistada. Em regra, porém, e tal como acontecia com os antigos garimpeiros, não descobre o filão da sua vida. Apenas umas pepitas e, esgotado o veio (ou o capital de risco da empresa), parte para outra. Essencial para tal é a rede de contactos que vai criando com os colegas que, com o tempo, se espalham por múltiplas empresas. É um ser que adora o alto risco. Alguns não praticam apenas desportos radicais: de um deles sei que pertencia às Forças especiais inglesas e que desaparecia por uns tempos sempre que começava uma guerra no Oriente!...
O capital de risco que financia estes empreendimentos também nada tem a ver com a Banca tradicional. É gerido por empresas específicas, financiadas de facto pela Banca mas geridas por gente que conhece bem o espírito do Vale e que o partilha, gente do mesmo género, e não gente da Banca!
Por tudo isto, é completamente espúrio pensar em replicar coisas como o Silicon Valley em Portugal. Olhemos antes para as experiências francesas ou alemãs...