Desde há alguns anos, várias vozes entre nós têm timidamente pedido que a opção nuclear deixe de ser tabu em Portugal e seja, ao menos, posta à discussão.
A resposta do establishment que nos Governa e a do pensamento único destilado pelos media acéfalos ou arregimentados tem sido a do soberano silêncio.
Nos Partidos, à direita parece que se perdeu qualquer capacidade de pensamento sobre economia real, tecnologia e inovação, quando não se verifica o simples eco do pensamento único do establishment e até, frequentemente, uma competição pelo troféu da ruína nacional!
O PCP, que em tempos teve quadros que sabiam pensar nestas coisas, passou a fazer sua a ideologia pós-moderna dos "verdes" e a falar da opção nuclear como a de uns insaciáveis capitalistas cuja sede de lucro é radioactiva, esquecendo que os países europeus em que a electricidade é de longe mais barata são os de Leste onde o nuclear herdado da era comunista é a principal fonte de energia eléctrica (com excepção da Polónia, que privilegiou o carvão), e esquecendo a sede de lucro dos lobbies pró-renováveis como se estes fossem cândidos idealistas.
Quanto ao BE, no que respeita à política energética, e às económica e tecnológica que lhe estão associadas, ele é simplesmente a ala esquerda do establishment.
Por outro lado, sem dúvida que há interesses nesta matéria.
Há evidentemente os interesses dos lobbies das renováveis e das mega-construtoras civis, bem como dos seus caixeiros-viajantes políticos, que são contra, mesmo que a satisfação dos seus interesses arruíne o país, como tenho mostrado neste blog. E nestes interessados incluem-se, sempre que lhes é $oportuno$, políticos que até são de direita...
E há também, não sejamos ingénuos, vendedores de nucleares a quem motiva muito uma pequena comissão que seja sobre os alguns biliões de € que custa uma central nuclear. Há uns 15 anos, quando eu colaborava com uma empresa portuguesa num projecto de desenvolvimento tecnológico, um Administrador que sabia como estas coisas funcionam, notou-me: "em matéria de luvas, o valor de uma central nuclear até dá para comprar um Presidente da República". Não esqueci a nota e convém que todos a tenhamos presente.
Penso ser tempo, entretanto, de iniciar uma discussão pública deste assunto num dos raros espaços que o Pensamento Único ainda não controla: a www!
Nesta primeira parte, reverei sucintamente em abstracto factos essenciais e os prós e os contras da opção nuclear, tal como hoje em dia as coisas se colocam, tecnológica e economicamente.
Na segunda parte, e que é a que realmente nos interessa, iniciarei a discussão do enquadramento português de uma opção nuclear e da necessidade urgente de algumas medidas absolutamente essenciais para Portugal.
- O papel da energia nuclear na produção mundial de electricidade
15% da electricidade mundial é produzida a partir de energia nuclear. Na Europa dos 27, a energia nuclear produz 25% da electricidade, valor que chega aos 80% em França. A percentagem de electricidade de origem nuclear é de 45% na Coreia, 35% no Japão e 20% nos EUA. Existem em funcionamento no mundo 435 reactores em 30 países.
A Espanha tem 8 reactores nucleares somando 7.5 GW (já teve 10) que produzem 20% da sua electricidade e que permite a exportação para Portugal ao preço típico de 3 ç/kWh, geralmente de madrugada, energia que é armazenada nas nossas barragens reversíveis e usada depois nas horas de ponta (com perdas de 1/4 da energia neste processo). Essa origem nuclear da electricidade que consumimos é verificável na factura da EDP que recebemos.
A China, entretanto, tem apenas 11 reactores a funcionar, mas em construção no ano corrente de 2010 tem mais 18 e projectados tem já um total de mais... 125!!! Destes, 90 foram encomendados só à GE americana, mais de 30 à AREVA francesa (certamente prejudicada pela "cooperação nuclear americano-chinesa" que o Presidente Obama foi pessoalmente vender à China, disputando um mercado imediato de 1 trilião de dólares), e a China espera ter 16% da sua electricidade de origem nuclear em 2030, somando uma potência instalada de... 250 GW!!!...
A Índia tem "apenas" 17 centrais nucleares e mais 6 em construção, mas tem projectados até 2030 mais 38 e, embora comparada com a China pareça ter ambições modestas, está envolvida num ambicioso plano de I&D visando usar Tórium em vez de Urânio como combustível, dado ser rica naquele mineral e pobre neste. Esta I&D reflecte uma busca de independência muito resultante do embargo que sofreu no passado em fornecimento de materiais para a energia nuclear, por não ter assinado o Tratado de Não-Proliferação nuclear (embargo recentemente contornado por um Acordo com os EUA).
A Coreia, de que já há tempos falei, tem 20 reactores em operação, 6 em construção e mais 6 projectados, e o Japão tem 53 em funcionamento e 2 em construção, mas recentemente o mesmo tipo de ideologia "green" que afecta o Ocidente começou a ganhar terreno no país e o projecto de novas centrais abrandou, estando agora planeados "apenas" mais 14...
Entretanto, a Rússia e a Ucrânia têm em conjunto 46 reactores em funcionamento, 9 em construção e... 64 planeados ou propostos! Com um plano de crescimento ainda mais impressionante, em termos relativos, a África do Sul, que tem presentemente apenas 2 reactores a funcionarem, já planeou mais 3 e propõe-se ter mais... 24!
O Brasil, entretanto, tem 2 reactores em funcionamento, um 3º a ficar pronto em 2010, e mais 7 projectados até 2025. O Brasil projecta também a construção de um submarino nuclear seu, e o facto de também não ser signatário do Tratado de não-proliferação nuclear revela a sua ambição de vir a ser uma potência nuclear. A propósito, além destes actuais 435 reactores em centrais eléctricas há mais 220 em submarinos e navios de superfície movidos a energia nuclear, que é também a fonte energética da maioria das sondas espaciais e dos satélites militares...
No total, a somar aos 435 reactores operacionais no mundo (dos quais 165 na Europa excluindo a Rússia), há mais 490 em construção (53), planeados ou propostos, metade dos quais na Ásia. Mas a própria Turquia tem 2 reactores planeados e mais 1 proposto, e até o Vietnam tem 2 planeados e 8 propostos...
Como se pode desde já perceber, a energia nuclear não está morta. Pelo contrário, até 2025 a energia de origem nuclear, com os planos actuais e que poderão vir a ter grande incremento proximamente, crescerá 130%. Sofre, porém, de um estigma ideológico no Ocidente e sobretudo na Europa Ocidental não-francesa que distorce a noção que por cá se tem do assunto, tornando-o um tabu.
De facto, alguns países europeus decidiram ocasionalmente banir a energia nuclear do seu território. Na esteira do alarme mundial gerado pelo acidente de Three Miles Island nos EUA em 1979, a Suécia (um país com a população de Portugal), num referendo em 1980, decidiu banir a energia nuclear do seu território, mas de facto nunca chegou a fechar 10 das 12 centrais nucleares que na altura tinha e, face à evolução da opinião pública desde então, prepara-se para reconsiderar esse banimento. Em 1986 o novo e gravíssimo acidente de Chernobyl na URSS levou a Itália, também com um referendo, a fechar as 4 centrais nucleares que tinha, tornando o país no maior importador mundial de energia eléctrica (de origem francesa, nuclear), mas recentemente e com Berlusconi assinou um acordo com a França para o regresso ao nuclear, prevendo agora a construção de 10 novas centrais. E, também nos EUA, estes acidentes levaram à paragem da construção de novas centrais nucleares desde meados dos anos 80. Esta "crise do nuclear" levou à falência gigantes construtores como a AEG alemã e a Westinghouse americana...
Se esta "crise do nuclear" teve boas razões de ser, convém distingui-la das posições mais recentes e de motivação estritamente ideológica da Espanha, que definira também em 1983 uma moratória e que, em 2006, Zapatero reafirmou, prevendo-se o encerramento da última central dentro de 25 anos, contra a tendência que se verifica na generalidade dos outros países onde haviam ocorrido "travões" semelhantes e que estão agora a reconsiderar; da Bélgica, cujo Governo aprovou em 2003 o fim da instalação de novas nucleares (a Bélgica, que tem a nossa população, tem 7 centrais nucleares que produzem mais de metade da sua energia), e da Alemanha, que no Governo Schroeder de coligação com os "verdes", em 2001, decidiu também o banimento do nuclear e o fecho das suas 17 centrais quando atingirem o fim de vida.
Convém no entanto notar que a Alemanha e a Espanha são, conjuntamente com a pequena Dinamarca que nunca teve nucleares (e só metade da nossa população), os principais fabricantes mundiais de equipamentos de energia renovável, particularmente de eólicas e solares. Ou eram, até à recente emergência da China e da Índia...
É importante sublinhar que o abandono da construção de novas centrais nucleares um pouco por todo o Ocidente no último quarto de século levou à perda do know-how existente nos respectivos técnicos que, entretanto e na sua maioria, se reformaram, perdendo-se com isso a sua experiência.
No entanto, no âmbito da reorganização mundial da produção de equipamentos de energia em curso, as recentes movimentações comerciais permitem pensar que pelo menos os EUA e a França se centrarão na tecnologia nuclear como base de exportações, dados os enormes recursos que ela exige e o avanço que levam na sua indústria. A dependência da China dos fornecimentos americanos e franceses é disso sinal, assim como os acordos norte-americanos, tanto com a China como com a Índia. Aliás, recentemente (2006), formaram-se 3 consórcios internacionais estratégicos dos países mais avançados industrialmente para o futuro nuclear: um franco-japonês (Areva com Mitsubishi) e dois americano-japoneses (GE com Hitachi e Toshiba com Westinghouse). E, se esta minha conjectura estiver correcta, em 2010 os EUA definirão a energia nuclear como a base do programa americano de "descarbonização" energética, deixando as incertas, voláteis, menos rentáveis e mais acessíveis tecnologias de energias renováveis para segundo plano e para os países com menor capacidade tecnológica e industrial.
Quanto à França, há muito que já fez essa opção (como os acordos com a China e a Itália mostram, assim como as vendas à Finlândia), apesar do imenso ruído ecotópico com que isso nos tem sido obnibulado. Porém, a estratégia francesa baseava-se numa aliança da AREVA com a alemã Siemens (para a parte não nuclear), e esta abandonou recentemente a aliança, aparentemente por pressão da "ecológica" E.On alemã, não sendo claro se o recente consórcio com a Mitsubishi compensa essa ruptura.
- Alguns factos técnicos sobre centrais nucleares
Uma central nuclear é uma central termoeléctrica que, como as a carvão e parte das de ciclo combinado, usa vapor de água sob pressão para accionar turbinas que movem geradores eléctricos. O que a distingue das outras é a fonte do calor que produz esse vapor.
Este calor provém da cisão dos átomos de Urânio 235, um isótopo deste mineral facilmente cindível mas que constitui apenas 0,71% da mistura natural em que o grosso (os outros 99.3%) é de Urânio 238. O átomo de U238, muito mais estável que o do U235, se atingido por um neutrão rápido transmuta-se em Plutónio 239, que também é facilmente cindível, como o U235.
O átomo de U235 cinde-se facilmente quanto atingido por um neutrão lento (ou "térmico"), libertando energia e mais neutrões que vão provocar a cisão de outros átomos de U235, numa reacção em cadeia. O que permite controlar esta reacção, e com ela a energia produzida, é a redução da velocidade dos neutrões libertados na cisão do U235 pela interacção com átomos leves circundantes, nomeadamente os de hidrogénio existentes na água circulante nos núcleos dos reactores. Esta desaceleração dos neutrões pela água aquece esta, e assim se produz o vapor que depois acciona as turbinas - directamente, nas centrais de 1ª geração ou de "água fervente" dos anos 50-60, ou indirectamente, nas de 2ª geração ou "pressurizadas" dos anos 70-80, e que são a maioria das em funcionamento.
O processo descrito, com água natural (ou "leve"), não é único, mas é o que se usa na maioria das centrais nucleares, e por isso cingir-me-ei a ele. Esta água é mantida a alta pressão para lhe subir a temperatura de ebulição e, com isso, o rendimento do processo termodinâmico associado, que é da ordem de 1/3 como em qualquer central térmica a vapor (para produzir 1500 MW de electricidade numa central termoeléctrica, é preciso gerar 4500 MW de calor).
Uma percentagem tão baixa como 0,7% de U235 no urânio natural não permite a sua utilização, e por isso este é sujeito a um difícil processo de separação parcial do U238 ou de "enriquecimento" (da porção de U235 na mistura), em centrifugadoras, o que aumenta a percentagem de U235 para tipicamente 3.6 a 3.8%. Este "enriquecimento" é um processo difícil porque as propriedades químicas dos dois isótopos são praticamente idênticas e as suas massas específicas muito próximas, convindo notar que um enriquecimento de 3.6% é insuficiente para fazer bombas, que geralmente contêm mais de 85% de U235 e nunca menos de 20%.
O controlo da potência gerada faz-se pelo controlo da "moderação" dos neutrões libertados, seja pela água já referida, que não permite grande flexibilidade, seja por moderadores adicionais como a grafite.
A ciência em que se baseia o processo de produção da energia nuclear é a única que é verdadeiramente moderna, pois nasceu toda já no sec. XX. Foi, de facto, só em 1939, que Lise Meitner, acabada de fugir ao nazismo, de Berlim, fez a dedução teórica que explicou onde se tinha metido a massa de cerca de 1/5 de protão que faltava aos elementos em que se havia cindido o Urânio - tinha-se convertido directamente em energia, de acordo com a fórmula descoberta anos antes por outro Físico judeu alemão: E= mc2!...
Esta conversão directa da massa em energia permite que, para alimentar por um ano uma única central nuclear de 1500 MW (capaz de produzir sozinha 1/4 do consumo português de electricidade, tanto como todas as eólicas e hidroeléctricas juntas actualmente no país), bastem 38 toneladas de Urânio enriquecido, com um volume de menos de 2 m3 (a massa específica do urânio é 2,4 vezes a do ferro). Destas 38 ton., apenas cerca de 1,4 ton. são de U235, e deste apenas 1,6 Kg se convertem em energia pura, para esse ano de funcionamento dessa central-exemplo...
Durante o processo de cisão atómica, alguns neutrões atingem energias suficientes para transmutar o U238 em Plutónio, que é também facilmente cindível, como já notei, de modo que no fim do ciclo de vida da carga de urânio usada como combustível já cerca de metade da energia vem da cisão desse Plutónio.
Uma vez consumido o U235 (nem todo - o consumo processa-se até que a sua percentagem na mistura se reduza mais ou menos à natural de 0.7%), restam os resíduos. E estes resíduos são radioactivos e, portanto, um problema.
Das referidas 38 ton. de mistura enriquecida necessárias para alimentar por um ano uma central de 1500 MW resultam, em particular, umas centenas de Kg de Plutónio, que é o ingrediente preferido das armas nucleares, mas não este das centrais, que tem demasiados isótopos impróprios para essa aplicação.
No entanto, após a referida "queima", apenas 5% do Urânio inicial foi efectivamente usado, e apenas esses 5% (2 ton., no exemplo em menção) constituem as "cinzas" altamente radioactivas. Os outros 95% são basicamente Urânio natural moderadamente radioactivo e que pode ser guardado em instalações sem especiais medidas de segurança.
As referidas "cinzas" (5%) são uma mistura de elementos leves altamente radioactivos e solúveis em água (e portanto altamente perigosos), como o Césio e o Estrôncio, e de elementos pesados, essencialmente isótopos de Plutónio.
O Césio e o Estrôncio têm meias-vidas radioactivas relativamente curtas, de modo que em cerca de 300 anos a sua radioactividade decai para 0.1% da inicial e deixam de constituir perigo. O Plutónio é que, apesar de constituir apenas 1% do total das "cinzas" (cerca de 350 Kg por ano na tal central-exemplo, uns 19 litros), tem uma radioactividade que dura mais de dez mil anos!
Evidentemente que esta natureza diferenciada dos resíduos radioactivos recomenda um tratamento separador similar ao que se aplica ao próprio "combustível" ao enriquecê-lo: das referidas 38 toneladas de Urânio usadas por ano na central-exemplo referida, a separação dos diversos componentes das "cinzas" reduz a 350 Kg o terrível Plutónio e a cerca de 1600 Kg as perigosas "cinzas" leves - por ano. Uma massa de "cinzas" que cabe numa carrinha de carga, só para termos a noção do volume de que estamos a falar...
Mas, evidentemente, o problema do destino destes resíduos e o da segurança da própria central são questões essenciais que importa analisar.
Depois das já referidas 1ª e 2ª gerações de centrais nucleares (a primeira do Mundo foi instalada, em Inglaterra, há já 56 anos), os requisitos de segurança e os fundados receios das populações levaram os construtores a evoluir para a 3ª geração desde os anos 90, que se distingue das anteriores sobretudo pelas inovadoras soluções de segurança (a primeira foi construída pelo Japão em 1996). Digamos que esta 3ª geração, a actual, está para as centrais dos anos 70 que sofreram os acidentes de Three Miles Island e Chernobyl como os modernos automóveis dotados de cintos de segurança com pré-tensores, airbags, travagem com ABS, controlo de estabilidade e habitáculo indeformável estão para os carros dos anos 60 e 70 que não tinham nada disso (e em cujos acidentes a taxa de mortalidade era uma ordem de grandeza superior à dos actuais).
Além da muito maior segurança, estas centrais têm uma maior longevidade, rendimento e normalização construtiva, e uma característica nova de enorme valor para a gestão das redes eléctricas: a capacidade de seguirem o consumo (ou carga). De facto, as centrais de 1ª e 2ª geração eram inflexíveis e operavam tipicamente a potência constante, e por isso só podiam constituir uma parte reduzida do mix de centrais eléctricas de uma rede bem concebida, enquanto estas são capazes de operar a 25% e de aumentar a potência gerada desse valor para plena carga em apenas meia hora. Por outro lado, a normalização construtiva tem suportado a alegação de que os prazos de construção são reduzidos a 3 anos e que o custo final ficará muito abaixo dos das gerações anteriores, garantindo assim um custo de produção ao kWh absolutamente imbatível.
Entretanto, e para se ter uma ideia das medidas construtivas de precaução destas centrais, cita-se relativamente às da AREVA (denominadas EPR, de que a figura ao lado exemplifica a em construção na Finlândia):
"O edifício de contenção do reactor tem duas paredes: uma interior, de cimento pré-esforçado e forrada por dentro com um revestimento metálico, e um escudo exterior de cimento reforçado, com 1,3 m de espessura. O escudo exterior abrange o edifício do reactor, o do combustível já usado e dois dos quatro edifícios de segurança (os outros dois edifícios de segurança estão num local diferente). Este escudo é capaz de suportar o impacto de um grande avião, e a parede interior alberga o sistema de refrigeração do reactor, dentro de cujo confinamento há uma área onde qualquer parte do núcleo derretido que escape do invólucro do reactor durante uma eventual fusão do núcleo será recolhida, retida e arrefecida.
O sistema de segurança consiste em quatro grandes sub-sistemas ou "trens". Cada trem é capaz de executar todas as funções de segurança de forma independente. Há um trem em cada um dos quatro edifícios de segurança, separados uns dos outros pelo edifício do reactor para impedir a falha simultânea em modo comum dos trens.
A sala de controlo está num dos edifícios de segurança, protegida pelo escudo exterior. Esta sala de controlo informatizada permite aos operadores o controlo completo de todos os parâmetros importantes para o funcionamento da central."
A principal concorrente americana da ERP francesa, a AP1000 da Westinghouse e da Toshiba, em vez de redundância quádrupla dos sistemas de controlo optou por sistemas de segurança "passiva", em que o reactor se desactiva por si mesmo em caso de falha.
A ênfase na contenção do núcleo resulta de em ambos os acidentes ocorridos no passado, nos EUA e na URSS, se ter verificado que o reactor derreteu devido a fugas incontroladas da água de moderação dos neutrões (em Three Miles Island) ou à incapacidade de fazer circular a água de arrefecimento num teste de rotina cheio de falhas humanas (em Chernobyl) e à consequente subida da temperatura da reacção até à destruição do reactor. Com esta destruição verificou-se a libertação do combustível para fora do perímetro das centrais, com as consequentes fugas radioactivas para a atmosfera. Este tipo de acidente, na verdade o mais temível numa central nuclear, coincidiu com um filme que muito contribuiu para a impopularidade das centrais nucleares, "O síndrome da China", de 1979, que associou ao funesto evento de Three Miles Island o romance de uma grande conspiração do lobby nuclear para esconder os perigos de tal forma de energia.
No entanto, em Three Miles Island não há confirmações de qualquer morte directa ou indirecta, enquanto no muito mais grave acidente soviético de Chernobyl, 9 anos depois, foram libertados para a atmosfera 4 vezes mais vapores radioactivos que em Hiroshima, e houve de facto quase 50 trabalhadores mortos e um número estimado de 4 mil mortes indirectas por cancro, posteriormente. Chernobyl não dispunha de nenhum edifício de contenção do núcleo, ao contrário do que já tinham as centrais do Ocidente.
É a garantia de que tal coisa jamais voltará a acontecer que os reforçados sistemas de segurança das centrais de 3ª geração visam. [Nota: tudo tem os seus perigos, no entanto: o rebentamento da barragem de Banqiao na China, em 1975, na sequência de uma chuva impensávelmente torrencial provocada pelo tufão Nina, matou 170 mil pessoas, e o da de Vajont na Itália, em 1963, matou 2 mil...]
O problema do destino dos resíduos, entretanto, é mais delicado. Presentemente estes são guardados, na grande maioria das centrais, nas... próprias centrais. Similarmente ao que sucede com as cinzas de carvão das centrais respectivas. Mas, enquanto nestas as cinzas criam verdadeiras montanhas negras, aparte as quantidades que são vendidas para fazer alcatrão, cimento e outras aplicações, as poucas dezenas de toneladas anuais de uma nuclear podem ser reduzidas a apenas 5%, como mostrei, se os referidos resíduos forem processados. E é isso que é feito na Europa e no Japão (nos EUA toda a "cinza" é considerada lixo), mas primeiro as "cinzas" têm de ser arrefecidas em piscinas adequadas, já que a reacção nuclear prossegue ainda por uns tempos após a extracção do reactor, mantendo essas "cinzas" quentes. Esse tempo de arrefecimento das "cinzas" é, tipicamente, de... 3 a 5 anos. Na figura ao lado mostra-se uma destas piscinas, em que a água absorve os neutrões e simultaneamente arrefece as "cinzas".
Na Europa existem duas grandes "fábricas" de processamento das "cinzas": em La Hague na França, e em Sellafield no Reino Unido. Para se "compactar" o lixo reduzindo-o aos 5% perigosos, tem de se mandá-lo para lá, de onde esses 5% são eventualmente devolvidos, vitrificados e blindados, para armazenamento (para sempre...) na própria central produtora - ou, em alternativa, enterrado em zonas geologicamente estáveis. Ao lado, a afigura mostra dois cilindros com cerca de 1,5 m de altura contendo as "cinzas" radioactivas, vitrificadas e blindadas resultantes do processamento dos resíduos de um ano de uma central nuclear de 1500 MW.
Embora de facto ainda raramente aplicada, a ideia de enterrar estes resíduos em locais muito estáveis geologicamente tem vindo a ser preparada para as montanhas do Yucca, no Estado de Nevada, e está em fase muito adiantada na Finlândia, que após estudos exaustivos identificou um local onde tem vindo a escavar um jazigo apropriado (na figura ao lado, a entrada para o túnel em espiral com 500 m de profundidade para armazenamento milenar dos resíduos mais radioactivos finlandeses). Vale a pena notar que a Finlândia tem metade da população de Portugal mas o triplo do consumo de electricidade per capita, com 4 reactores nucleares e um 5º em construção (da AREVA).
- Duas questões essenciais para a viabilidade económica de uma nuclear
Como já aludi noutro post há uns tempos, o custo do kWh produzido por uma central nuclear de 3ª geração bem construída e bem explorada, isto é, com raras paragens para manutenção de algum tipo, pode variar de 4,0 a 4,7 ç/kWh, constituindo o limite inferior, se efectivamente verificado, um custo imbatível por qualquer outra forma de produção de energia, e o limite superior só batido por boas centrais a carvão (que não é o caso da nossa velha e pouco eficiente central de Sines). Porém, se as competidoras centrais a carvão tiverem de pagar uma taxa de carbono, como os ecologistas pretendem e - sem surpresa - os fabricantes de nucleares como a França, o kWh nuclear ainda será o mais barato desde que não ultrapasse os 5,8 ç/kWh, e isso só quando houver centrais a carvão com captura e sequestro do carbono, porque até lá, e por pelo menos uma década, a única competição "descarbonizada" é das renováveis!...
É por esta razão e pelas considerações geoeconómicas que expus atrás que aposto que os EUA vão assentar a sua estratégia de "descarbonização" na energia nuclear, ainda que fazendo muitas juras de adesão às renováveis (para que aliás têm excelente vento) e que, por causa disso, pelo fim de 2010 talvez a opção nuclear entre então em discussão aberta em Portugal.
Do custo do kwh nuclear, entretanto, a maior parte (2,3 a 3,0 ç/kWh) advém dos custos de construção (estou a usar estimativas recentes de instituições credíveis, e não algumas que apregoam valores irrealistas inferiores a 2 ç) e, como esse é um elevadíssimo investimento que tem de ser feito logo no início, é crucial analisar com cuidado como pode ele variar. Até porque uma das mais frequentes e importantes críticas à alegada barateza do nuclear é que os seus custos de construção nunca ficam pelo preço inicialmente previsto...
Para começar, convém notar que nas centrais de 3ª geração há duas evoluções técnicas com consequências contraditórias relativamente às antigas: por um lado, os seus sistemas de segurança são muito mais reforçados, o que as encarece; mas por outro lado, o seu projecto optimiza o uso de componentes normalizados e uma estrutura simplificada, o que as embaratece. Aliás, é reconhecido que o projecto das centrais antigas era, na sua maioria, uma adaptação do projecto de reactores militares da marinha, não pensado de raiz para esta aplicação civil...
Entretanto, o investimento inicial tem de ser financiado, e só começa a ser recuperado quando a central começa a trabalhar. Por conseguinte, um factor essencial do custo de construção é o tempo que a central leva desde que o seu investimento é feito até que começa a operar, o tempo de construção, tempo esse associado à taxa de juro a pagar pelo investimento, que é outro factor essencial.
Conforme o investimento seja coberto directa ou indirectamente pelo Estado ou por privados, assim as taxas de juro a considerar variam tipicamente entre 5% e 12% (o Estado tem meios de cobrir os riscos, transferindo os custos de quaisquer percalços para os contribuintes). Parcerias público-privadas têm trazido estas taxas para 8%, nalguns casos.
Nos anos 80 muitas centrais ficaram com custos de construção 10 vezes acima dos inicialmente orçamentados e das dos anos 70, por os trabalhos se terem estendido muito além do previsto. As razões foram quase sempre desacordos quanto às regras de segurança e outras a cumprir, que se tornaram muito mais apertadas depois do acidente de Three Miles Island em 1979, e ao facto de cada central ser feita por medida. Este é um aspecto em que a França conseguiu um indiscutível sucesso que o resto do mundo tem procurado copiar, e a definição de normas claras de segurança com certificação prévia dos projectos tem ajudado. Ao importantíssimo assunto das normas de segurança e da sua fiscalização voltarei na parte II desta publicação.
Presentemente, o tempo de construção de uma central nuclear é prometido para cerca de 4 anos, contra os 12 que muitas vezes demoraram nos anos 80. Se uma central fosse construída instantaneamente, o seu custo seria o da engenharia, contratações e construção, mais uma taxa de contingência, que no caso das nucleares varia usualmente entre os 15% e os 25%. Esse custo é conhecido por "custo overnight" . O investimento numa central é a soma deste custo com os encargos associados ao tempo, a amortizar, numa nuclear, tipicamente em 40 anos.
Considerando estes encargos extra, a Administração da Informação Energética dos EUA (EIA) estima, no pior caso de taxa de juro de 12%, de 3.5 a 5.6 ç/kWh o custo só de capital de uma nuclear, sendo o valor inferior o obtido para uma central construída no tempo ideal actualmente previsto para a nova 3ª geração, e o superior o valor de referência. A este custo há que adicionar 0.55 ç/kWh do combustível, e mais 0.55 ç/kWh para a Operação e Manutenção (que sobem para 0.75 ç/kWh nos casos de referência). Ou seja, um custo final de 4.6 a 6.9 ç/kWh, em que não é claro o custo atribuído ao processamento (separação) dos resíduos (que os EUA não praticam e que na Europa se pode estimar em 0.5 ç/kWh, como ordem de grandeza) e o de desmantelamento final (que, no entanto, em França tem um peso mínimo no custo final, até por a central poder vir a "viver" 100 em vez de 60 anos).
Valores praticamente idênticos foram obtidos pelo MIT, num famoso estudo independente, dependendo a obtenção do custo mínimo de: a) o custo "overnight" ser de 1500 €/kW em vez de 2000 €/kW (em 2008 a DOE americana anuniciava a previsão do valor de 2280, em resultado da subida de custo de todas as matérias-primas e outros); b) o custo de construção ser de 5 em vez de 4 anos; c) as taxas de juro conseguidas serem iguais às praticadas para as centrais a gás e a carvão.
Como se pode concluir, o custo de produção de energia por uma central nuclear pode efectivamente ser imbatível, mas apenas se todo o processo de construção for optimizado (se tudo correr bem, em suma). E esse ponto é um ponto-chave a reter para a discussão das condições de construção de uma central nuclear em Portugal, a abordar na II parte.
A segunda questão essencial para a viabilização económica de uma central nuclear é a da garantia de que o preço do Urânio se manterá pouco alterado nos 60 anos previstos de vida para a central. Note-se que o custo do combustível tem um peso mínimo, e dos 0.55 ç/kWh atrás indicados para o custo do urânio, só 0.2 ç/kWh são para o minério; o restante é para o seu enriquecimento. As reservas mundiais de urânio actualmente estimadas e rentavelmente extraíveis dão para 250 anos ao ritmo de consumo actual; com as 490 centrais de construção prevista para os próximos 15-20 anos, porém, esse consumo será multiplicado por 2.3, e não é difícil imaginar que novos países venham a apostar no nuclear, por exemplo duplicando este valor. E, sendo assim, com as presentes técnicas de extracção do urânio, este poderá dar mesmo só para os 60 anos de vida de uma central a começar a operar dentro de 10 anos, embora, como sempre tem acontecido com todos os minerais e muito em particular com o petróleo e o gás natural, se de facto a sua procura se intensificar é quase certo que o engenho inventará novos processos de extracção rentável.
- A para-daqui-a-20-anos 4ª geração de centrais nucleares
Tecnologicamente, os princípios da 4ª geração de centrais nucleares que está neste momento em projecto, numa cooperação internacional que envolve a maioria dos países altamente desenvolvidos, são aliciantes. No entanto, como a sua passagem à comercialização só se prevê lá para 2030, não é na verdade tema de relevância política, e de momento só o menciono para que todos metam na cabeça que o nuclear está ainda na sua infância e que ele é o futuro energético, a menos que a Humanidade regrida a alguma nova Idade Média.
Basicamente, o que distingue os reactores de 4ª geração é o serem "reprodutores". Isto é, reproduzem o combustível. E porquê?
Porque não usam o (raro) Urânio 235, mas sim o pelo menos 100 vezes mais abundante U238, permitindo aliás a reutilização de todo aquele que tem sido separado do U235 no processo de enriquecimento deste! E fá-lo porque cinde directamente o U238, produzindo Plutónio, e é este que é "queimado" na reacção.
Obviamente, e pelo que foi dito mais atrás, para cindir o U238 são precisos neutrões rápidos, e não lentos como nas centrais existentes até agora. E, portanto, nestes reactores não se usa água para a troca de calor, precisamente porque a água é o elemento essencial de moderação dos neutrões - usam-se metais líquidos, ou sódio líquido, e é aí que começam os principais problemas técnicos.
No entanto, além do uso do (praticamente) ilimitado urânio natural, estas centrais também resolvem o problema maior dos resíduos, visto "consumirem" o próprio venenoso Plutónio como combustível. Aliás, o cenário visualizado para estas centrais é o de serem carregadas mensalmente com qualquer coisa como apenas uma lata de leite de urânio natural e assim funcionarem para sempre, com pouca necessidade de limpeza dos resíduos...
Apesar de presentemente o uso comercial da 4ª geração, que nos trará energia "descarbonizada" sem limites de combustível (praticamente), estar longe da comercialização, já existiram em fase experimental várias centrais destas, no Japão e em França, sendo a mais conhecida a Fénix francesa. E há mesmo uma em funcionamento comercial no interior da Rússia.
Há dias, na TV, quando do "apagão" da região Oeste em que numerosos agricultores ficaram sem energia - assim como o pensador Pacheco Pereira, que disso se queixou na Quadratura do Círculo - houve vozes, quer da EDP quer nos jornais, que afirmaram que isto era assim porque os consumidores ainda não tinham auto-produção, como os ecotópicos apregoam que acontecerá nos amanhãs que cantarão.
Ou seja, no futuro haverá micro-redes autónomas "auto-cicatrizantes" que permitirão a um agricultor ou a um pensador isolado ficar desligado da grande rede eléctrica e continuar a ter energia.
Quero anunciar-vos a boa nova de que esse futuro já chegou, e há muitos anos.
Basta comprar e instalar grupos electrogéneos...
Em África é como toda a gente que se preza faz, como quem visitar os bairros chiques do Sul de Luanda poderá verificar.
Como informei há umas duas semanas, no post abaixo, aos crentes na ecotopia das micro-redes, não vai haver micro-redes.
O que poderá vir a haver são super-redes.
Expliquei também que a super-rede em preparação em Bruxelas requererá um Império, se quiser de facto interligar as ventosas estepes russas e a super-hídrica do Inga no Zaire.
Quanto ao Império veremos, mas para os que acham que é grande petulância minha remar assim contra o Pensamento Único, sugiro a leitura desta notícia aqui. E, depois, expliquem-me como é que esta rede é uma resposta ao fracasso de Copenhaga, como diz a notícia, a não ser por se contentar com um Império continental visto o Império mundial estar fora de causa.
E pode ser que isto seja mera imaginação paranóica minha, mas imaginar as estepes russas e o Sahara com eólicas e painéis solares alemães, faz-me inevitavelmente lembrar que nessas mesmas regiões, há 68 anos, era com panzer, respectivamente do 6º exército e do Afrika Korps, que os alemães lá andavam (estou a brincar...).
Uma das mais fantásticas criações imaginárias dos ecotópicos é a de que no futuro as redes eléctricas terão evoluído das actuais nacionais e em muitos casos transnacionais, para redes locais ou quando muito regionais, as futurísticas micro-redes.
Imaginam eles um futuro em que cada consumidor será também produtor, com o telhado cheio de painéis solares, micro-turbinas na cave e carros eléctricos na garagem com as respectivas baterias a armazenarem a energia em excesso e a revendê-la quando há falta.
E dedicam-se a investigações académicas sobre processos de auto-cicatrização destas redes quando se isolarem da rede eléctrica nacional, controlos automáticos pela internet e coisas assim.
Parece excitante, para quem gosta de tecnologia e sonha em transformar o mundo sem nunca sair do laboratório da Universidade. Ou para quem, no Porto, sonha com uma rede eléctrica finalmente livre do jugo lisboeta...
Mas esta causa padece de um grave problema. Nunca se concretizará!
Nunca se concretizará porque a energia solar fotovoltaica nos telhados nunca será competitiva, nos próximos 20 anos, e nenhum Governo, nem mesmo o nosso, aceitará pagar os custos de tal coisa!
Nunca se concretizará porque as redes existentes são fiáveis e não precisam de nenhuma capacidade de auto-cicatrização. Precisam é que o excesso de eólicas na rede nacional não venha a provocar apagões ibéricos!
E nunca se concretizará porque ninguém alguma vez deixará os carros na garagem (caso a tenha) e irá a pé para o trabalho só para negociar uns cêntimos de energia das respectivas baterias!
O que já faz algum sentido, é uma proposta alemã que está a fazer o seu caminho em Bruxelas.
Esta proposta não defende um futuro de micro-redes.
Defende exactamente o contrário: a super-rede!
De um ponto de vista meramente técnico-económico, as super-redes fazem muito mais sentido que as micro-redes. A ideia é a seguinte:
Instalem-se eólicas onde há muito vento e portanto a respectiva energia sai de facto barata e competitiva: nas costas do mar do Norte, sobretudo nas costas escocesa e irlandesa, e nas estepes russas. Instale-se solar onde há sol todo o ano e sem nuvens, isto é, no Sahara. Ligue-se também a extraordinária super-Itaipu africana, a prometida barragem do Inga, na foz do Zaire. Explore-se a diversidade geográfica para minimizar as necessidades de armazenamento. Usem-se algumas barragens reversíveis, onde as haja, para armazenar alguma energia desta. E ligue-se isto tudo por uma rede de linhas de Muito Alta Tensão com milhares de quilómetros de extensão, em corrente contínua.
As contas estão feitas. É viável. Técnica e economicamente. Permitirá produzir energia, toda de origem renovável, praticamente ao preço da actual. Basicamente porque a vai buscar onde ela é mais rentável, como sempre se fez na energia eléctrica.
É também excitante, a ideia de controlar tudo isto em tempo real, quiçá com satélites, Inteligência Artificial, microprocessadores por todo o lado comunicando à escala pluri-continental!
Só tem um problema. Um problema político.
Precisa de um Império para poder gerir tudo isto em boa ordem.
Um IV Reich? Quiçá travestido de Governo de Bruxelas benigno, invocando até um tal "Tratado de Lisboa"?...
Talvez não. Mas, seguramente, só em tal cenário as barragens reversíveis em construção em Portugal terão alguma utilidade.
Como um leitor sabedor me notou, e bem, o valor da energia eléctrica no mercado ibérico tem estado mesmo a ZERO, nestas madrugadas em que tanto em Portugal como em Espanha tem feito muito vento e ao mesmo tempo chovido, em que o consumo é pouco e em que não se pode, por lei, desligar as eólicas (que fazem nestas alturas bom dinheiro, a 9-10 ç/kwh).
Pelo que temos mesmo estado a despejar energia em Espanha... grátis! E a Espanha a passar essa energia para França, que provavelmente a despeja na Itália ou mais para Leste...
A Espanha, ao menos, está a subsidiar a sua própria indústria de turbinas, que emprega lá mais de 7 mil pessoas e que tem fábricas de montagem na China e nos EUA, embora já tenha conhecido melhores dias...
Alguém, entretanto, sugeriu que essa energia em trânsito de Portugal para Leste se perde a aquecer as linhas de Transporte, mas não é assim que o Sistema eléctrico funciona.
O que acontece é que a Espanha consome junto da fronteira a energia em excesso que lhe despejamos e de que ela não precisa, e passa para França energia sua produzida perto da fronteira francesa, e a França, que também não precisa desta energia, fará o mesmo, obviamente.
Como notou o leitor que me lembrou que visse as cotações da energia, se o mercado fosse mesmo livre, teríamos de pagar a Espanha para ela aceitar encaixar a nossa excedentária energia eólica. Assim temos sorte, eles aceitam-na de borla...
Quem recebe sempre e não tem que se preocupar com nada disto são os produtores eólicos.
Talvez alguns estejam a par das observações ao climategate que o Prof. Delgado Domingos publicou no Expresso, no dia 30 de Novembro.
Dias depois, um jovem e ambicioso investigador ambientalista com um curriculum auto-laudatório surpreendente, Prof. convidado da cátedra "Rui Nabeiro" da Universidade de Évora de cujo reitor é filho, decidiu atacar Delgado Domingos no mesmo Expresso.
E, no seguimento, o Prof. Delgado Domingos deu-se ao trabalho de replicar com uma carta que esse jovem investigador publicou no seu blog.
Esta carta é um prazer de leitura, para quem já fez Investigação com modelos matemáticos computacionais e conhece a tentação de os "martelar" para que as suas previsões batam certo com a realidade. Pode ser lida aqui. Fica-se a perceber muita coisa e só tenho pena que um texto tão pedagógico se possa vir a perder...
Como é sabido, nos últimos dias tem chovido e estado imenso vento.
Sendo assim, surge uma questão interessante: à noite, quando o vento sopra mais forte, e dado que as barragens estão cheias de água da chuva e não podem armazenar mais, que tem feito a REN ao excesso de energia eólica existente?
Desde há dias que a REN deixou de publicar gráficos (diagramas diários), se não mostrava-vos.
Como não posso mostrar, posso apenas somar 2 e 2, a partir de outros dados da REN. Por exemplo e relativamente à véspera de Natal:
- As eólicas estiveram a trabalhar à potência média de, somando-lhe alguma cogeração, 3188 MW, atingindo o máximo de 3848 MW;
- As hídricas estiveram também a produzir uns 1504 MW, em média, chegando a atingir o máximo de quase 1840 MW.
- As térmicas produziram em média apenas 1167 MW, e portanto estiveram apenas com o mínimo de segurança ligado.
- O consumo médio foi de 5596 MW, incluindo 425 de bombagem para armazenamento e 160 de importação.
Mas, obviamente, e embora os sumidos diagramas da REN não permitam mostrá-lo, de madrugada havia de certeza excesso de energia eólica na rede, e não se podia desligar as eólicas nem fechar as comportas das hídricas. Que se fez então a tal energia excedentária?
Exportou-se, só pode ter sido isso.
A que preço?
Pois os dados da REN estão difíceis de aceder. O computador deles dá repetidamente o erro de "server too busy". Mas pode saber-se o seguinte: o preço do kwh no mercado ibérico tem estado a 2,99 ç/kwh, e há o gráfico de preços marginais que anexo.
Sabendo-se que o kwh é pago ao nosso produtor eólico à volta de 9 ç/kwh, digam lá se isto não é um negócio e peras?...
E também se fica a perceber o porquê do investimento previsto em armazenagem hídrica...
Ontem, nem percebi bem porque razão, os media lembraram-se de ir visitar o túmulo da central eléctrica de energia das ondas que jaz na Póvoa de Varzim, paralizada sem remédio apenas 3 meses depois de inaugurada. Custou esta experiência, totalmente importada chaves-na-mão e sem qualquer incorporação portuguesa a não ser o dinheiro investido, 9 milhões de €, dos quais 1,2 milhões do erário público, e vale a pena ouvir as palavras do então Ministro da Economia (no hyperlink atrás) para ver a grandiloquência do projecto!
A central começou a funcionar e ao fim de 3 meses avariou de tal maneira que a construtora saiu do projecto.
Mas, segundo a reportagem da SIC para que hyperlinko atrás, há mais projectos destes em preparação, aparentemente "encalhados" por burocracias. E, dizem os jornalistas e um tal Sr. António Sarmento de um "Wave Energy Center", que assim Portugal "corre o risco de perder a corrida" a esta forma de energia. E qual a contribuição de Portugal para tal corrida? Como explica a reportagem, uma tarifa subsidiada que "despertou o entusiasmo em todo o mundo" que teria protótipos para testar e ninguém que pagasse a experiência...
E no entanto, esta não é a primeira central de ondas testada em Portugal.
Ao que parece, já toda a gente se esqueceu da central da Ilha do Pico, decidida em 1992 e inaugurada em 1999, e imediatamente transtornada por avarias constantes que a paralisaram até 2005, quando um consórcio a repôs em funcionamento por um ano apenas para confirmar "a persistência de limitações técnicas na estrutura original do grupo gerador"...
A ideia parece não ter sido de todo abandonada, mas em 2008 já eram até os próprios suportes em cimento da estrutura que estavam danificados pelo mar...
Será que andamos com azar, em Portugal?
A verdade é que a História das tentivas de conseguir usar a energia das ondas para produzir electricidade tem mais de um século! É uma história antiga e com múltiplas experiências prototípicas em variados países do mundo, com realce para o Reino Unido e o Japão, e que se defronta com problemas semelhantes aos das turbinas eólicas, mas ainda muito mais difíceis!
Tal como para as turbinas eólicas, as bases científicas para o seu projecto foram estabelecidas na altura da II Guerra Mundial por um país beligerante com carências dramáticas de petróleo, neste caso o Japão. Compreende-se, por isso e aliás, que desde então e até aos anos 90 o Japão tenha investigado infatigavelmente formas de extrair energia das ondas. O Japão tem tudo o que é preciso para liderar tal tecnologia: décadas de experiência, excelentes e muitos engenheiros, óptima capacidade industrial, imenso mar e falta de recursos naturais em combustíveis fósseis!
E no entanto, o Japão nunca passou até agora da fase dos protótipos experimentais.
Além do Japão, muitos outros países têm investigado teórica e experimentalmente à exaustão diversas soluções, dos EUA ao Reino Unido, passando pela Austrália, Irlanda, e outros. Mas experimentação comercial, essa, só em... Portugal!!!
E qual é a dificuldade técnico-económica que tem impedido o resto do mundo de considerar que se podia passar à fase comercial desta tecnologia?
Um problema similar ao que defrontam as turbinas eólicas, mas em muito pior escala: a extrema irregularidade e variabilidade das ondas! Basicamente, uma turbina de ondas tem de ser capaz de suportar uma potência instantânea máxima nas ondas 10 vezes maior que a potência média que extrai delas, enquanto no vento essa relação é só de 4 vezes.
Ora se este problema já tornou extremamente difícil a construção de pás para as turbinas eólicas que suportassem o vento sem se partirem (o que só há poucas décadas, e só para os melhores fabricantes, foi conseguido), imagine-se a dificuldade do problema para as turbinas de ondas! Além disso estas turbinas têm de ser capazes de suportarem tempestades oceânicas e a corrosão marinha. Claro que se pode sobredimensionar uma turbina para aguentar tal esforço, mas então o problema passa a ser económico: a potência média que tal turbina extrai das ondas não paga o sobredimensionamento que a referida potência máxima requer, nem de perto nem de longe!
Talvez um dia se encontrem soluções que resolvam satisfatoriamente o problema. Portugal até tem participado nessa investigação, como a central da Ilha do Pico atesta, uma central experimental em que o Prof. António Falcão do IST tantos anos da sua investigação académica investiu e em que algumas empresas nacionais põem lá o nome mas nenhum empenho.
Recentemente, o Prof. António Falcão publicou um artigo de síntese numa prestigiada revista em que descreve as inúmeras opções tecnológicas em investigação, sobretudo na União Europeia desde que esta resolveu financiar tal pesquisa no início dos anos 90. Sendo um artigo focado nas opções tecnológicas, ele conclui notando que as turbinas de ondas, para serem viáveis, têm de ter dimensões que as tornem ressonantes com a oscilação das ondas (que nem é sempre a mesma), o que por sua vez requer que não possam ser pequenas, o que implica sempre um elevado custo para as instalações experimentais, impedindo que se evolua de pequenas turbinas para maiores á medida que se adquira experiência e resolvam os problemas construtivos, como aconteceu com as turbinas eólicas.
Um grande mistério é por que razão ninguém fala da experiência da Ilha do Pico que antecedeu a "Pelamis" que tanto entusiasmou o Ministro Pinho! Ou será que ele(s) até sabia(m) que aquilo nunca funcionaria e esperava(m) apenas que ninguém mais falasse no assunto a seguir à (encomendada) inauguração? É inacreditável...
Nota: os meus agradecimentos ao colega Gil Marques pelo comentário privado que me endereçou.
Parece que, por fim, a preciosa liberdade de pensamento da democracia se faz sentir e o Expresso dá voz a uma posição realista e sensata sobre o problema climático: entrevista Bjor Lomborg.
Lomborg não nega o aquecimento global nem a sua origem antropogénica. O que faz é desdramatizá-lo, face aos muitos outros problemas com que a Humanidade no seu conjunto se defronta, e critica as políticas ecotópicas que pretendem lidar com o problema construindo um Admirável Mundo Novo, notando, nomeadamente, a necessidade de investir muito mais em Investigação e Desenvolvimento (I&D), e não tanto em políticas de corte das emissões.
Esta última questão, a da necessidade investigar soluções tecnológicas que ainda não existem, tem sido algo que tenho procurado mostrar com alguns casos concretos, como o da energia solar fotovoltaica e o do automóvel eléctrico e respectivas baterias. Para já não falar de outras componentes que nem se sabe se alguma vez existirão (a custos razoáveis), como o dos meios de armazenamento de energia necessários para regularizar a intermitência das fontes de energia renovável.
Uma política energética de corte de emissões de CO2 que tenha em conta estas realidades científicas e que seja guiada pela sensatez, isto é, pela preocupação em não esmagar os povos com custos exorbitantes, foi a estudada pelo EPRI norte-americano e que já aqui referi, e que aponta para a necessidade de apostar no nuclear a curto prazo, e na captura e sequestro do carbono das centrais a carvão a médio prazo.
Mas, mesmo tal política energética apenas resolverá 1/5 do problema global das emissões de Gases de Efeito de Estufa. Há toda uma indústria pesada que terá de ser reformulada nos seus processos energéticos e há os problemas do mau uso dos solos, do tratamento dos lixos e sobretudo o da desflorestação (esta responsável, só por si, por tantas emissões como a produção de energia eléctrica). Ora resolver esta parte do problema requer a colaboração de todos os povos pobres, e não se vê como tal seja possível sem um Império mundial.
Os povos de África, da Indonésia ou do Brasil que queimam as florestas não o fazem por serem pirómanos. Fazem-no porque desde sempre a conquista de terreno arável e habitável à floresta foi vista como uma coisa boa, exigida pelo mero crescimento demográfrico. A Humanidade, com efeito, tende simplesmente a ocupar todos os bocadinhos de terreno do planeta que possam ser habitáveis...
Ora como impedir tal coisa? Pagando? Pagando para que esses povos abandonem o seu modo de vida tradicional e de repente se industrializem e vivam em cidades limpas? Pagando para que as monstruosas favelas em que vivem, quando vivem em cidades, se transformem em bairros limpos como os de Copenhaga? Mas têm os ecotópicos nocão da escala que isso comporta? E do que desejam de facto essas populações? Não é por acaso que Hollywood deu este ano o Óscar de melhor filme a uma produção estrangeira, "slumdog millionaire" - de facto, poucos filmes nos mostram tão bem como este o que são, como vivem e o que desejam, os povos cujo desenvolvimento tanto assusta os ecotópicos...
É evidente que não há nenhuma política de subsídios que possa impedir sustentavelmente esses povos de se multiplicarem e desenvolverem. É uma realidade incontornável. E se com ela, se com o crescimento explosivo da população humana que o próprio sucesso da modernidade trouxe, o clima for alterado, não se vê que tal possa ser impedido a não ser com um Império mundial, eventualmente alicerçado na ONU, e que use, como sempre sucedeu na História, a guerra e a violência para se impor onde tal for necessário.
A única razão porque isso não vai acontecer é porque a Europa, a grande preocupada com isto, já não está, e estará cada vez menos à medida que o tempo passe, em condições de impor a sua antiga ordem colonial. E por isso toda a causa ecotópica não passa de um devaneio espúrio que usa slogans de estilo maoísta como o dos 20-20-20 (20% de redução de consumos, 20% de energia renovável, para 2020) e que de vez em quando sofre um duche frio de realidade, como aconteceu agora em Copenhaga.
Existe outra proposta imperial para o problema: Bernardino Soares, do PCP, alvitrou-a há dias num debate na SIC sobre Copenhaga: "É preciso mudar a ordem económica", disse. Acabar com a busca do lucro, presume-se, que será a fonte de todos os males e irracionalidades que afectam a Humanidade actual, e substituí-la por uma nova ordem, uma ordem guiada pela busca do bem comum protagonizado pela vanguarda histórica. Não pude deixar de me lembrar dos navios a seco no Mar de Aral que a antiga URSS matou, ou da tremenda ineficiência poluidora da sua indústria pesada. Mas compreende-se como a causa verde pode ter a convergência da actualmente despatriada causa vermelha: ambas querem um Mundo que nada tem a ver com a realidade existente, e ambas têm uma visão do Homem que não é a da Humanidade que existe. Mas ambas têm também uma falta semelhante: falta da força para forçar o advento desses amanhãs que cantam! Daquela força que, segundo um velho pensador, é "a parteira da História"...
Na falta de um Império que estabeleça a ordem mundial ambicionada pelos ecotópicos, a vida continuará a decorrer como sempre e o que vai mudar são os mercados de equipamentos, cheios de novas oportunidades para quem tiver unhas que toquem guitarras produtivas - ou seja, a China, a Índia, a Coreia, o Japão - a Ásia, em suma - e a Alemanha, a Dinamarca, a França (com as suas nucleares) e talvez até a Espanha! Quanto aos EUA, estão com um sarilho que talvez custe as próximas eleições ao Presidente Obama!...
E que acontece entretanto na Lusitânia?
O períódico que é talvez a melhor referência do jornalismo nacional anuncia em grandes parangonas que mais uma vez um português inventou a pólvora, revolucionando a partir de uma ideia que teve na Lourinhã o mundo da energia eólica, e a notícia bate o record de leituras on-line! Tamanha ignorância sobre tudo o que já foi investigado lá fora e que cá se desconhece sobre tecnologia de turbinas eólicas, a par de uma prosápia patrioteira patética, só tem par na notícia oficial segundo a qual Portugal aqueceu mais nos últimos anos que o resto do Mundo e na forma como o Primeiro-Ministro explicou que Portugal vai resolver o problema do seu desenvolvimento económico: investindo nas energias renováveis para garantir a independência energética nacional e nomeadamente do petróleo!... Como se petróleo e energias renováveis tivessem alguma coisa a ver um com as outras!!!...
Mais uma vez, a História está a passar ao largo de Portugal.
Diz hoje na imprensa o nosso pensamento único sobre o clima, que "a Europa está dividida sobre a aplicação de uma taxa de carbono" sobre os países que, em Copenhaga, não subscreveram as propostas europeias para a redução das emissões de Gases de Efeito de Estufa (GEE).
Lendo assim a notícia, parece que a tal divisão entre os países europeus seria uma questão de fervor na adesão à causa ecotópia. No entanto...
Quem é que propõe a tal "taxa sobre o carbono"? A França! E quem é que se lhe opõe? A Alemanha!
Não acharão os jornalistas estranho que seja a França a propor a tal "taxa sobre o carbono", quando em matéria de causas climáticas ela tem andado caladinha, e que seja a Alemanha a opor-se, quando tem sido ela a grande campeã dessa causa?
Ora qual é a situação da França em matéria de emissões de GEE? É boa. Porque 80% da sua energia eléctrica é de origem nuclear, que como se sabe não deita fumo (nem CO2), e 10% de origem hidroeléctrica. A França, graças ao seu já antigo desenvolvimento da aposta nuclear, é um país que se pode arvorar em campeão "green" sem ter tido de mudar rigorosamente nada no seu modo de vida. Aliás, essa "verdura" efectiva coexiste com uma atitude de evidente sarcasmo para com outros países vizinhos, como a Dinamarca e a Alemanha, que sendo campeões ideológicos da "verdura" têm, no entanto, a maioria da sua energia eléctrica com origem na queima de combustíveis fósseis (mesmo a Dinamarca, que a par do vento tem uma importantíssima componente de cogeração, que não deita menos fumo que as centrais a fuel, e carvão).
Outra das razões do sarcamos francês para com os seus vizinhos eólicistas é que estes dependem do nuclear francês para a estabilidade das respectivas redes, como tem sido demonstrado de cada vez que há um apagão regional.
Mas porque saiu agora a França do seu low-profile ecológico, propondo a tal "taxa de carbono"? Porque, como ela própria justifica, esses países fazem uma "concorrência desleal".
Ora a ideia de que os países asiáticos e em geral os estrangeiros não-europeus fazem à França uma concorrência económica desleal, é velha. O grupo PSA (Peugeot-Citroen), por exemplo, passava a vida a reclamar o boicote aos automóveis japoneses, e é francês aquele agricultor (altamente subsidiado pela UE, aliás), que se tornou famoso por atacar McDonalds americanos!
Por mais antipática que possa ser, este chauvinismo tradicional da França mostra que a velha política de cada um defender os seus interesses nacionais, continua actual.
Posto isto, porque recusa a Alemanha esta "taxa sobre o carbono" dos produtos importados dos países não-aderentes às propostas ecológicas europeias?
Pela mesma razão, claro, porque a Alemanha se opõe sempre a qualquer medida europeia proteccionista: a de que ela é (ainda) o maior exportador mundial de produtos industriais, e sabe que esse proteccionsimo europeu implicaria retaliações dos mercados para onde exporta!
Mais uma vez, é preciso dizer aos jornalistas a velha frase da campanha eleitoral de Clinton conta Bush pai: é a economia, estúpido!
Há 18 dias escrevi aqui um post em que afirmava que "a China, com os EUA, será quem determinará o futuro do tratado climático", e também que "o que a China propóe para Copenhaga será o que a Índia, o Brasil, e todos os países que ambicionam sair da miséria e serem grandes potências adoptarão: reduzir a "intensidade do CO2 da sua economia" desde que nada limite o crescimento desta". E notava ainda que a Europa dos 27, que já só tem 1/12 da população mundial, terá em 2050, data-alvo das negociações, apenas 1/18 dessa população...
Pois o acordo aí está a confirmar o que escrevi e que era óbvio a quem conseguisse ver através da mistificadora propaganda com que o pensamento único de Bruxelas nos intoxica diariamente: "acordo vago e sem ambição acaba com liderança da UE", escreve o Expresso. Ora essa liderança só existia na cabeça iluminada pela causa da salvação do Mundo dos ecotópicos europeus, como os números da demografia e da economia incontornavelmente demonstram, e sobretudo os números das suas derivadas (ou, em linguagem não-matemática, dos seus ritmos de crescimento). Iluminação que, parece, acometia o nosso Presidente europeu e o nosso Primeiro Ministro...
Os EUA lideraram, de facto, um acordo para 2050. No sentido em que se entenderam com quem, de facto, será relevante neste mundo em 2050. E a Europa, que acolheu o oportunismo de países como o Sudão, que genocida as suas populações do Sul e que se queixa de que eles e os outros países pobres só emitem 3% dos Gases (repetindo a conversa da extrema-esquerda ocidental que esquece que os próprios relatórios da ONU contabilizam em de 40 a 50% a contribuição da desflorestação e maus usos do solo desses países para o Aquecimento Global), essa Europa será quem pagará 45% dos fundos de "ajuda" aos países pobres. O Japão pagará outros 45% e os EUA... 5%!
É que estas coisas nos EUA discutem-se a sério, e ai da Presidência americana se tivesse alinhado em semelhante conversa por cá, que nunca mais teria hipótese de aprovar alguma coisa no Senado!
Paises pobres que queriam a garantia da continuação de Quioto. E porquê? Porque Quioto não lhes exige nada e garante uma renda em "ajuda" que, em muitos desses países e como se sabe, vem a acabar em contas numeradas na Suiça e off-shores de variada localização!
Não, nem americanos, nem chineses (que entretanto tentaram aumentar a sua influência sobre esses países), nem indianos, vão em tal coisa.
E, basicamente, o que os EUA fizeram foi neutralizar a tentativa chinesa de liderar o 3º Mundo na sua reivindicação "anti-imperialista" (uma orientação que já vem de Mao Tsetung) enquanto, ao mesmo tempo, trabalhavam uma aliança com a África do Sul, único país que geopoliticamente interessa na África sub-sahariana e a longo prazo.
Brilhante!
Isto, politicamente.
Quanto ao Aquecimento global... logo se vê! Vai-se fazer o melhor possível, entretanto.
Quanto a Portugal: bem, a realidade de estarmos na senda da Grécia também se vai impondo de forma crescente dia a dia. Vejamos o que acontece à Grécia, porque a seguir seremos nós.
Toda a gente sabe que foi inaugurada uma fábrica de baterias de iões de Lítio da Renault-Nissan, em Aveiro, para o anunciado automóvel eléctrico. Implicará um investimento de 160 milhões de € e criará 200 empregos, e o Administrador agradeceu as excepcionais condições oferecidas por Portugal e que determinaram a nossa escolha, entre os 27 países da União.
De caminho, o Primeiro-Ministro afirmou que, no passado, Portugal sempre tinha chegado atrasado às novas tecnologias mas que, agora, com ele, se colocava finalmente na dianteira.
Uma afirmação desta grandeza só pode, de facto, provir de um Grande Líder que Portugal não tinha, salvo erro, desde D. João II.
Entretanto, porém, uma Associação de PME protestou por se sentir discriminada e explicando que o Governo cobria, através da CGD, os riscos daquele investimento.
Mas haverá riscos?
Ora há momentos cruzei-me com um colega meu que, apesar de não ser da "cor" política do nosso Primeiro-Ministro, acredita no carro eléctrico. Trocámos umas palavras e, a certa altura, eu disse-lhe: " ...o pior é a duração das baterias!". Ele olhou para mim obviamente sem entender e eu expliquei-lhe: "é que as baterias são as mesmas que usamos nos telemóveis; já viu quanto tempo duram?"
Ele, que foi obviamente apanhado em falso mas que nunca dá o braço a torcer, negou. "Não, não são nada!"
Não tive tempo de lhe dizer para abrir o telemóvel e ver, mas digo-o a vocês. Hão-de lá ler algures: Li ion". Iões de Lítio. Claro que são as mesmas baterias. E também as dos portáteis. Experimentem abrir os equipamentos e comprovem por vós próprios!
A do meu portátil, comprado no Verão de 2008, já está nas últimas. E a do telemóvel, que é de 2006, já vai na segunda que compro - quase por 1/3 do preço do próprio telemóvel!
Claro que as baterias não são exactamente as mesmas. São muito maiores e cheias de dispositivos de controlo e segurança. Mas a tecnologia química é a mesma e padece exactamente dos mesmos problemas das baterias dos nossos habituais gadgets.
Já expliquei isso tudo aqui! Se quiserem, consultem.
E aos hyperlinks que lá inseri e que vos permitem desenvolver a vossa informação.
Voltando ao investimento da Renault: dado o problema da curta vida e alto preço das baterias de iões de lítio, é evidente - também já postei noutros lados o que se pensa sobre o assunto internacionalmente - que o futuro não está nestas baterias e que ainda há muita investigação fundamental a fazer até se encontrar uma boa solução. Pelo que se trata de uma fábrica com os dias contados.
Mas o Governo de Portugal acha bem subsidiar a indústria estrangeira.
Já o fez nas eólicas, e agora estende-o às marcas de automóveis em dificuldades...
À custa do défice e, sobretudo, das PME preteridas!
De um leitor conhecedor destas coisas, recebi o seguinte comentário, que republico:
Já leu esta notícia do Diário Económico ? Portugal poupa 15.300 milhões com as renováveis.
Começa assim : “Os números prometem esmagar os mais cépticos.”
E termina assim :
“Uma verba que daria para construir três novos aeroportos de Lisboa ou pagar, com bastante folga, a nova travessia rodo-ferroviária sobre o Tejo. As contas constam de um estudo sobre o impacto económico das renováveis, encomendado à Deloitte pela APREN - Associação de Energias Renováveis.”
Não vi o estudo, mas numa primeira impressão tenho fortes dúvidas de que as renováveis permitam poupanças daquela ordem de grandeza.
Gostava de conhecer a sua opinião.
Só o facto de renováveis como a eólica e a fotovoltaica exigirem a disponibilidade de fontes de backup põe em dúvida a ideia de que o investimento em renováveis nos permita poupar grande coisa.
O nosso PM veio há dias clamar que tal investimento nos permitia reduzir o endividamente externo. Acho isto uma fantasia. Até porque, como o Prof. tem aqui mostrado, os equipamentos são maioritariamente adquiridos no estrangeiro. Só o vento e o sol é que não, mas não sei se chega para compensar. E depois, há aqueles preços subsidiados que vão agravar o défice tarifário.
Enfim, independentemente de uma análise mais detalhada, quer o estudo, quer a notícia, cheiram muito a “encomenda”.
De facto, "Esmagar os cépticos" parece-me linguagem “soprada”. E toda esta fartura vem demasiado a calhar para os dois principais interessados. De facto, junta-se a fome (Governo) à vontade de comer (APREN).
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De facto, vi a notícia e procurei de imediato o tal estudo na net, para conhecer a argumentação desenvolvida.
A única coisa que encontrei foi que a notícia foi cuidadosa e metodicamente "plantada" em todos os jornais e televisões relevantes, que obedientemente lhe fizeram eco.
Mas, quanto ao estudo propriamente dito, não está acessível ao público em parte alguma!
Desafio, pois (sem esperança de resposta), a APREN e/ou a Deloîtte para que coloquem o referido estudo on-line ou acessível ao Público de alguma forma.
E desafio os nossos jornalistas a que deixem de se fazer eco de notícias "plantadas" para as quais não podem ter tido nenhuma confirmação!
E já agora, a empresa que fez o estudo encomendado, é a mesma Deloîtte posta nos píncaros pela mesma COTEC que "plantou" no jornalista Nicolau Santos a "informação" de que Portugal triplicou o número de patentes registadas na Europa desde 2004, e a mesma que não encontrou nenhuma irregularidade na actuação da Administração da REN, na auditoria que lhe foi encomendada, poucos dias antes de precisamente o sr. Eng.º Penedos ter sido constituído arguido por ilegalidades nessa actuação...!
Estaremos já a viver sob o domínio da Máfia?
Num entusiasmado editorial do Expresso, o jornalista Nicolau Santos manifesta a sua felicidade pelo grande salto em frente que o nosso país estará a dar, com o presente Governo, em matéria de Investigação & Desenvolvimento, o que seria tanto mais admirável quanto o nosso país seria avesso ao risco e à Inovação, segundo ele.
Nicolau Santos alinhava os grandes números a que já estamos habituados e que eu já desmontei aqui e aqui e noutros posts anteriores, mostrando que não passam, no que respeita às empresas, de pura mistificação contabilística.
Porém, e contradizendo o que eu notara no último dos posts para que hyperlinko acima, a dado passo Nicolau Santos afirma, certamente porque alguém lhe mentiu isso (ao estilo da propaganda de Goebels), que com este Governo face a 2004 Portugal aumentou 3 vezes o número de patentes registadas na União Europeia!
As patentes registadas na Europa por país de residência na última década podem ser consultadas aqui. São as patentes provenientes de um enorme número de países, totalizando uma população de cerca de 2200 milhões de habitantes. Junto o gráfico construído a partir destes dados, que mostra que:
- A linha a encarnado é a evolução da totalidade das patentes. Como é visível, há um crescimento geral mas com irregularidades, com grande probabilidade devidas ao próprio funcionamento do Gabinete de Registo de Patentes. Assim, a partir de 2003, inclusivé, há quase uma duplicação do número de patentes anuais registadas provenientes de todo o Mundo. Essa quase duplicação que ocorreu em 2003 e depois se manteve, também afectou as patentes portuguesas (a verde) e as espanholas (azul) e, portanto, deve ser vista como um bias do próprio processo de registo de patentes, e não tirar dali nenhuma conclusão para cada país particular.
- As linhas representando Portugal (verde) e Espanha (azul) foram normalizadas por mim para as respectivas populações, para se terem termos comparáveis. Concretamente, os números portugueses foram multiplicados por 220 e os espanhóis por 58, para ter em conta as respectivas populações.. Os gráficos mostram, assim, o número de patentes per capita.
- Como é evidente, e em relação a Portugal:
- O nosso número de patentes per capita é uma ordem de grandeza inferior ao da média dos países registados;
- É também significativamente inferior ao de Espanha, na verdade apenas cerca de 1/5 (per capita, note-se!);
- Portugal estagnou, desde 2003, que foi o melhor ano de sempre; não houve aumento desde 2004 e muito menos uma triplicação!
- O aumento que se verificou em 2003 relativamente ao passado resulta de alterações no processo europeu de registo de patentes, visto que o mesmo aumento beneficiou toda a gente. Pelo que se pode concluir que, descontando esse bias, de facto Portugal está estagnado desde 1999.
O Governo português acaba de legislar hoje a criação de uma rede de abastecimento de (inexistentes) carros eléctricos. E, segundo os media ao serviço do Ministério da Propaganda, o consumidor poderá pagar com cartão Multibanco em função do operador eléctrico a que está vinculado, como se isto da energia fosse um mercado de retalho. Tratam-se de 1300 postos espalhados pelo país e não se sabe quanto custarão.
Curiosamente e também hoje, o New Yort Times fala dos planos da Dinamarca para fazer um "show" publicitário na cimeira que começa dentro de dias em Copenhaga, mostrando como se já fossem de uso corrente alguns carros eléctricos entretanto encomendados. A Dinamarca, que não fabrica automóveis, concede um desconto fiscal de 25000 € em cada carro eléctrico e estacionamento grátis em Copenhaga, mas apesar de todos os esforços de promoção pelo seu Governo e da cultura "green" fortemente radicada no país, pouca gente lá parece interessada na oferta. Vale a pena ler a notícia do NYT para que hyperlinkei para perceber porquê.
Segundo o NYT e como estamos fartos de saber, o propósito do Governo dinamarquês, como aliás do nosso, é dar vazão ao excesso nocturno de energia eólica carregando as baterias dos carros, dado que a Dinamarca é o país do mundo com maior percentagem de energia eléctrica de origem eólica (20%) e não pode fazer barragens reversíveis para a armazenar à noite como nós, por ser plana.
O nosso Governo ambiciona ultrapassar a Dinamarca em % de energia eólica, chegando aos 25% e tornando-se com isso o campeão mundial. Mas há uma grande diferença entre Portugal e o reino da Dinamarca neste assunto: é que a Dinamarca, que há já um século que usa o seu forte vento costeiro para produzir energia, tem o maior fabricante mundial de turbinas eólicas, a Vestas, que emprega lá directamente perto de 25 mil pessoas (numa população que é metade da nossa) - vd os números da tabela ao lado, da European Wind Energy Association - , exporta anualmente 4 biliões de € e fornece metade dos mercados mundiais em mais forte crescimento!
E nós, não...!