domingo, outubro 16, 2011

Energia eólica reduz investimentos e perdas na rede?

Um dos benefícios que o lobby eólico e alguns desconhecedores costumam invocar para as energias renováveis é que elas poupam investimentos na rede eléctrica, assim como perdas na sua utilização, porque seriam consumidas no próprio local onde são produzidas, ou pelo menos ali perto.
Ora isso só é verdade para centrais geradoras com potências instaladas muito pequenas ou, sendo maiores, se inseridas em grandes complexos industriais que consomem de facto a maior parte dessa energia - como é o caso da cogeração, quando verdadeira.
Um dos melhores exemplos do que realmente se passa é a situação da produção eólica, que invoca essa economia de redes eléctricas no último documento de publicidade enganosa que tenta passar por "estudo independente" da APREN (um "trabalho" que custou perto de 1/4 de milhão de € e que foi pago por um organismo dependente do Ministério da Economia, o Fundo de Apoio à Inovação).
Com efeito, e como se pode consultar aqui, 44% da potência eólica instalada está directamente ligada à rede de Muito Alta Tensão da REN!
Na verdade, esses 44% directamente ligados à REN incluem parques com mais de 100 MVA (que totalizam 28% de toda a potência eólica instalada), e os restantes são essencialmente parques com mais de 50 MVA!
Nos 56% restantes, ligados à rede de Distribuição, só 10% têm potências instaladas inferiores a 10 MVA e estarão ligados de forma distribuída à rede de Média Tensão.
A larga maioria destes 56%, 46% do total, tem potências entre os 10 e os 50 MVA, e está ligada ou à rede de repartição de 60 kV (a maior parte), ou pelo menos directamente às Subestações da EDP.
Uma das razões disto ser assim são as economias de escala que se obtêm ao juntar os aerogeradores nos mesmos terrenos e partilhando linhas de ligação à rede.
Porém, uma outra razão existe para isto, e que é o método de atribuição de "pontos de injecção" na rede dos parques eólicos (e, em geral, da produção em regime especial, PRE) usado em Portugal.
Este método, ainda que informalmente, continua a ser o preconizado num "Guia Técnico" elaborado em 1988, quando as primeiras mini-hídricas e cogerações começaram a ser instaladas (as eólicas só chegariam uma década depois). Estipulava ele que a relação entre a "Potência de curto-circuito" da rede no ponto de ligação atribuído e a potência a instalar devia ser pelo menos de 20. Esta relação, também conhecida por relação de curto-circuito, visava limitar as perturbações causadas aos consumidores quando um PRE se liga à rede, mas pressupunha certos factos tecnológicos que nunca se vieram a verificar (ver (1)). E, no entanto, essa regra tornar-se-ia norma.
Daqui resulta que se, por exemplo, se quiser instalar um PRE de 10 MW, frequentemente ele se terá de ligar à rede de 60 kV, com o correspondente custo agravado da ligação, e então este custo justifica-se melhor se for possível ligar um PRE de 20 ou mesmo 40 MW...
Há quase 10 anos, quando as eólicas se começavam a instalar, elaborei, a pedido da DGEG, uma proposta de revisão da legislação e regulamentação técnica das condições de ligação à rede dos PRE, mas ficou na gaveta, disseram-me que por boicote da REN e da FEUP, que então tinham grande audiência no Ministério da Economia (a proposta pode ser consultada aqui e o guia técnico da sua aplicação aqui).
A proposta resultou de um benchmarking que fiz do que havia na altura de melhor em todo o mundo, mas só muito recentemente algumas das disposições que eu aí preconizava começaram a ser aplicadas, graças a sugestões da EDP...
De qualquer modo as eólicas vieram trazer novas exigências técnicas e, com o crescente tamanho que vêm adquirindo, dificilmente se podem instalar num quintal...

(1) - O facto principal que aquela regra pressupunha era que os geradores viessem a ser predominantemente assíncronos, exigindo baterias de condensadores, que deviam injectar cerca de 60% de potência reactiva na rede. Com isso e uma relação de curto-circuito superior a 20, a ligação à rede nunca causaria variações de tensão superiores a 3%. Porém, basta que os PRE não injectem nem consumam potência reactiva nenhuma para que aquela variação de tensão seja quase nula, e será mesmo nula se consumirem alguma reactiva, numa dada proporção da activa que injectam. É o que se faz em toda a parte, da Alemanha à Irlanda, e que permite que os PRE possam ser ligados a redes locais, com a única ressalva da potência  real (activa) que injectam na rede menos o mínimo gasto pelos consumidores locais ser comportável pelas linhas.
Assim, tem-se entre nós um perfeito aborto técnico, cuja persistência só se entende pela conjugação de interesses da REN (justificar investimentos desnecessários) com o dos grandes produtores (encarecer o acesso à rede para os pequenos).

4 comentários:

Francisco Domingues disse...

Valerá a pena reenviar o seu estudo para este Ministério da Economia? Talvez seja uma boa ideia! Saudações!

Henrique Sousa disse...

Na mouche! Pois foi essa legislação anacrónica que não deixou que a energia eólica começasse a ser usada mais cedo. E, desculpe que lhe diga, se a proposta foi feita há 10 anos, já veio demasiado tarde. A legislação devia ter sido alterada nos anos 80 já.
Cumprimentos

Pinto de Sá disse...

Nos anos 80 a eólica não parecia importante. Foi só nos anos 90 que ela atingiu maturidade tecnológica, e foi só em 1998 que Kioto promoveu as políticas de subsidiação com tarifas fixas definias pelos Estados. E foi por isso apenas em 2001 que o Governo português de então aprovou a política de fomento da energia eólica, que se instalou em força apenas a partir de 2003.
Noa anos 80 pensava-se que o futuro seriam as mini-hídricas, e foram-no de facto, na altura. Mas com geradores síncronos e não assíncronos, como na altura erradamente se previu.
As coisas têm uma História.

Anónimo disse...

No início dos anos 80 a então Svenska FLAKTFABRIKEN apresentou as renováveis (através de simpósio no Hotel Sheraton em Lisboa) convidando responsáveis do então governo e das principais empresas nacionais. Ninguém por cá conhecia ou estava minimamente preocupado com o futuro energético e poucos anos mais tarde, a FLAKT desiste e sai definitivamente de Portugal. Poucos anos mais tarde, empresas dinamarquesas manifestaram interesse (através de contactos com a Embaixada cá) em colocar eólicas a custo zero em terrenos cedidos por particulares para o efeito, de forma a assegurarem energia eléctrica a vilas que ainda não dispunham deste bem essencial. Contudo, a EDP inviabilizou todos os projectos.