Segunda-feira, Fevereiro 08, 2010

Economia das energias eólica e hidroeléctrica:que potencial de emprego?.

Qual o potencial de criação de emprego da nova economia das energias renováveis eólica e hidroeléctrica?

Há semanas, no programa da RPT1 "Prós++ e Contras", o impagável Sr. Aníbal Fernandes, líder do cluster eólico "nacional", prometia 36.000 empregos para breve, perante o olhar circunspecto dos restantes convidados e em particular do Eng.º Luís Filipe Pereira da EFACEC, por cujo olhar perpassou um lampejo de incredulidade. Similar entusiasmo mostrou o jornalista Victor Andrade, numa entrevista recente à SIC (a partir do 5º minuto).

No entanto, já aqui mostrei que os dados disponíveis da própria Associação Europeia de Energia Eólica, a EWEA, atestavam a existência, há 2 anos, de 800 empregos directos confirmados a que se somavam mais 500 em actividades acessórias de projecto, instalação, etc, embora se anunciasse a intenção (comunicada pelo Governo português) de criação no referido cluster, em 2009, de mais 3.000 empregos no fabrico de componentes. Porém, de facto, até agora a Enercon terá criado apenas mais 1000 empregos...
É possível no entanto que, somando outros empregos criados por outras entidades como a Martifer, se possam contabilizar presentemente uns 3.000 empregos directos e quiçá uns 1000 indirectos mas, dada a exigência pela maioria dos países que constituem potenciais mercados de exportação de que as turbinas sejam montadas lá, não se vê como a exportação poderá vir a substituir o esgotamento em breve do nosso próprio mercado. Nem, portanto, como poderão estes empregos manter-se.
Para comparação, Espanha, com uma forte indústria própria e o 3º fabricante mundial de aerogeradores (Gamesa), com 5,5 vezes a nossa potência eólica instalada, tem 37.700 empregos (20.500 directos e 17.200indirectos).
Tem-se também propalado o número de dezenas de milhar de empregos para a construção de barragens, escamoteando que se tratam na grande maioria de empregos de construção civil a prazo de 3 anos (cada barragem leva uns 4 anos a construir e atinge um pico de emprego típico de 2 mil), mal pagos e em locais inóspitos, que atrairão apenas uma maioria de imigrantes. Fala-se na "criação" de empregos e deixa-se a falsa ideia de que são empregos duradouros...
Porém, a ideia de que a economia das energias renováveis tem um grande potencial de criação de emprego é propalada por Bruxelas, onde o lobby alemão dos verdes tem uma força determinante, e tem sido tão exaltada pelo Presidente da UE, Durão Barroso, e pelo 1º Ministro de Espanha, Zapatero, como pelo nosso, tendo sido recentemente também defendida pela Administração Obama nos EUA. Tem, por isso, muito interesse saber o que mostram os estudos económicos sérios na matéria, caso existam. E existem alguns.
A Universidade Juan Carlos de Madrid editou em 2009 um trabalho em que faz o balanço de criação de empregos (no hyperlink) da política espanhola de apoio à renováveis, e chega à seguinte conclusão: em média, por cada 4 novos empregos criados pela economia das energias renováveis, são destruídos 9, e isto sem contar com os empregos que poderiam ter sido criados com os subsídios concedidos aos produtores eólicos. Ou seja, globalmente esta nova economia não cria empregos: destrói-os!
A principal originalidade deste trabalho é a avaliação da destruição de emprego causada pela subida dos custos da energia. São particularmente afectadas as indústrias metalúrgicas, a mineração, as indústrias alimentares, de bebidas e de tabaco.
O estudo parte da consideração do aumento do preço da electricidade espanhola que será necessário para os consumidores pagarem o défice tarifário acumulado resultante da subsidiação às energias renováveis, 31% segundo a entidade reguladora espanhola. Na verdade, este sobre-custo das renováveis ainda não foi sentido pela economia de Espanha porque lá, como cá, ele tem sido remetido para um défice tarifário e o estudo espanhol parte do princípio que esse aumento de 31% será repartido por todos os consumidores equitativamente. Mas pode ser que Espanha opte pela subsidiação cruzada que Portugal está a começar a praticar, pondo apenas os consumidores domésticos a pagá-lo. Neste caso o cálculo do efeito é mais complexo, porque então se terá um aumento da tarifa muito superior aos 31% para estes consumidores, e será pela respectiva perda de poder de compra que o retraímento económico se fará sentir - mas neste caso o desemprego afectará sectores diferentes da economia.
Porém, e como o estudo espanhol mostra, quer seja usado este método (subsidiação cruzada), quer o de impostos directos ou indirectos, o pagamento do défice e a redução de poder de compra e/ou de crédito dos atingidos levará sempre ao mesmo resultado: a destruição de  empregos.
O referido estudo considera a criação em Espanha de 15 mil empregos pelas energias renováveis, mas baseia-se para isso num trabalho prospectivo europeu de 2003. Os dados mais recentes da EWEA mostram que esse número está subestimado e que, se for considerado o emprego efectivamente criado, se pode afirmar o seguinte: por cada emprego temporário criado pelas energias renováveis, será destruído duradouramente outro quando os respectivos sobre-custos se repercutirem nas tarifas e na correspondente retracção do poder de compra da população.

Sexta-feira, Fevereiro 05, 2010

Mais uma Ministra da Propaganda?

A nova Ministra do Ambiente acaba de declarar que as 10 novas barragens do Plano Nacional do Governo irão poupar a Portugal a importação de 3,3 milhões de barris de petróleo para as centrais termoeléctricas.
Será que temos, pois, uma nova Ministra da Propaganda no Governo?
É que:
1º) - As centrais termoeléctricas em Portugal não funcionam a petróleo. Funcionam a carvão (Sines e Abrantes) e a gás natural (Tapada do Outeiro, Lares, etc).
2º) - A energia que as novas barragens vão produzir é zero, como já mostrei aqui. De facto, a pouca energia de origem hídrica que produzirão só chega, se chegar, para cobrir as perdas na bombagem necessária à armazenagem de energia de origem eólica que é o seu verdadeiro propósito.

E a propósito, a adicionar aos 3 mil milhões de € de custo de 8 destas novas barragens, a que se adicionam mais 1,85 mil milhões pelas outras 2 em construção e pelo reforço de potência de mais 6, para todas juntas produzirem nenhuma energia, o Governo prepara-se para concessionar mais duas: Pinhosão e Almourol! Diz o Governo que reduzirão o défice público, visto que os concessionados terão de pagar por elas, como pagaram 640 milhões pelas 8 já concessionada. Mas e quem vai pagar depois isso tudo na tarifa da electricidade?
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Sei que há quem fique incrédulo com os valores de energia de origem hídrica que tenho indicado como sendo a verdadeira produção destas novas barragens. No entanto, os dados estão todos na Memória Descritiva do Plano, acessível na net. Estão é em energia anual prevista, e não em potência, e por isso é preciso dividir essa energia pelo número de horas do ano, 8760, para pôr as duas coisas (potência instalada e energia produzível) na mesma base - em potências. Potência instalada e potência média. Uma conta que parece ninguém ter feito, com excepção do Prof. Joanaz de Melo da Universidade Nova.
Para que as minhas contas fiquem claras, aqui vão as potências médias anuais de origem hídrica obtidas assim para cada aproveitamento:
Girabolhos (Endesa): 11,3 MW;
Vigado (Iberdrola): 13,01 MW;
Daivões (Iberdrola): 16,89 MW;
Padroselo (Iberdrola): 11,64 MW;
Gouvães (Iberdrola): 17,47 MW;
Foz Tua (EDP): 31,39 MW;
Fridão (EDP): 12,1 MW;
Alvito (EDP): 7,1 MW;
E ainda:
Baixo Sabor (EDP): 26,26 MW;
Ribeiradio (EDP): 15,3 MW;
Quanto aos "reforços de potência" de Picote II, Bemposta II, Alqueva II, Venda Nova III, Salamonde I e Paradela II, pouco adicionam em energia: 3,54 MW médios no Alqueva, e mais uns 9 MW médios no resto. A recentemente inaugurada com grande pompa Venda Nova III, de origem hídrica propriamente só produzirá 2 MW; o resto é para bombagem!...
Total: 175 MW.
Como a potência média do consumo nacional é de 5700 MW (50 Thw / 8760 horas), esta produção só cobre 3% desse consumo, o aumento previsível de consumo nacional de apenas 1 ou 2 anos.
No entanto, a energia "bruta" prevista para fornecimento corresponde a mais 525 MW, mas de origem eólica. Como para fornecer estes 525 MW é preciso que as eólicas forneçam 700, temos que as perdas por bombagem serão 175 MW médios, ou 25%, nos quais, para que não me acusem de má vontade, já incluo os 2% de perdas na rede eléctrica que transportará a energia das eólicas até às barragens. Exactamente a produção de origem propriamente hídrica.
Balanço final do contributo energético destas barragens para Portugal e dos 4,85 mil milhões de € que teremos de pagar, mais os juros do seu financiamento e mais os custos de expansão da rede da REN: zero!

Domingo, Janeiro 31, 2010

Uma reflexão masculina heterodoxa da história da monogamia :-)

Hoje vou mudar de assunto e partilhar convosco uma conjectura que sei ser discutível e de que eu próprio me rio, mas contra a qual na verdade ainda não encontrei argumentos científicos. Quem quiser divertir-se, que se adiante. De qualquer modo e antes de prosseguirem a leitura, repito que o que se segue não pretende ser inteiramente ciência, mas apenas ilustrar galhofeiramente como a Ciência não é neutra.

Como muitos saberão, há muitos investigadores que se têm interessado pelo estudo evolutivo de alguns marcadores genéticos, em particular dos haplótipos, umas combinações de alelos ou genes com variantes que determinam, por exemplo, as diferentes cores de olhos ou de cabelo entre indivíduos. É a partir dessas investigações que, por exemplo, se chega à conclusão de uma origem única para a nossa espécie no corno de África, de onde aliás partiram várias vagas de humanos, a última das quais, a nossa (Homo Sapiens), há cerca de 40-50 mil anos. Estudos similares na linguística chegam às mesmas conclusões, o que não é de surpreender visto os dialectos se desenvolverem em comunidades mais ou menos fechadas que tendem naturalmente também para a afinidade genética.
Basicamente esta linha de pensamento considera que numa dada comunidade de onde se separe um sub-conjunto de indivíduos, este sub-conjunto é portador de apenas parte da diversidade genética do grupo original, de modo que à medida que vai ocorrendo a "sub-especiação" a homogeneidade genética dos novos sub-grupos aumenta. Por conseguinte, os grupos com maior diversidade genética serão os mais antigos, e os com menor os mais recentes.
Como noutras áreas da Ciência, porém, esta teoria (ou da origem única) é controversa e tem a oposição dos que defendem uma origem multi-regional da espécie, com múltiplos cruzamentos ao longo do tempo. Porém, à medida que a informática e o estudo do genoma permite o tratamento de volumes cada vez maiores de dados genéticos de diferentes populações, a teoria da origem única tem vindo a ganhar terreno enfraquecendo os argumentos da teoria da origem múltipla. As consequências ideológicas destas duas teorias permitem compreender porque é tão acesa a luta entre elas: a teoria da origem múltipla aponta para uma natureza humana originalmente boa e tolerante às diferenças, mais tarde pervertida pelas estruturas sociais da civilização, enquanto a teoria da origem única aponta para a supremacia de uma única linhagem original, sem cruzamentos entre sub-espécies substancialmente diferentes e com a eliminação das menos aptas (não forçosamente pela guerra, entenda-se).
Um exemplo típico desta polémica é a que foi despoletada pela descoberta em 1998 do nosso célebre "menino de Lapedo", que o arqueólogo João Zilhão e outros defendem constituir uma prova do cruzamento de Neanderthais com Homo Sapiens, há uns 25 mil anos (a península ibérica foi o último lugar onde viveram Neanderthais, até há 25-30 mil anos), mas outros argumentam ser impossível ainda haver traços morfológicos de Neanderthal muitas gerações depois desta sub-espécie humana ter desaparecido. Um projecto de sequenciação do Genoma do Neanderthal, entretanto, tem vindo a reforçar a hipótese de que não haverá, de facto, traços genéticos dessa sub-espécie na nossa. Note-se que, segundo a teoria da origem única, terão havido várias vagas migratórias originais de África de espécies humanas, mas só a última vingou. A nossa, obviamente.
Muitos destes estudos centram-se no ADN mitocondrial, que quase só se propaga por via materna, ou no do cromossa Y, que só se propaga por via paterna, embora em ambos se usem modelos de "relógios moleculares" para temporizar (estatisticamente) as mutações e, retrospectivamente, origens ancestrais das populações.

Entretanto, um dado assente é que o advento da agricultura e, com ela, a "1ª vaga" de explosão demográfica humana (a 2ª ocorreu com a industrialização e a 3ª estará em curso com a revolução do conhecimento), deu-se no Próximo Oriente e propagou-se daí pela Europa. A "1ª vaga" correspondeu à chegada do Neolítico e com ela à superação do Paleolítico, dominado pela caça e pela apanha do que a Natureza proporcionasse, e ocorreu há cerca de 10 mil anos, chegando à ponta da Europa mais afastada do Médio Oriente, a Irlanda, há uns 6 mil anos (e cá há uns 8 mil). Muito antes disto e praticamente logo que aparecera, a nossa espécie dedicara-se a realizar "crimes contra a biodiversidade" do planeta, depradando até à extinção muitas das grandes espécies que encontrou, dos mamutes norte-americanos aos cangurus gigantes da Austrália.
Se a propagação da 1ª vaga foi por via cultural (conversa e aprendizagem) ou por migrações (deslocação pessoal) tem sido uma questão em aberto entre os investigadores.

Ora acaba de ser publicado um estudo envolvendo um largo conjunto de investigadores europeus de diferentes países que demonstra que há uma extrema coincidência entre a conhecida propagação da agricultura na Europa, de Sudeste para Noroeste, e a presença de um marcador específico no cromossa Y dos homens - e essa coincidência é no sentido de a maioria dos homens europeus, cerca de 80%, descenderem dos mesmos "avôs", ou antepassados masculinos. O que não se verifica quanto aos marcadores genéticos de origem feminina. Estes novos resultados parecem corrigir as conclusões obtidas há uma década e que apontavam para uma maior diversidade de origens masculinas, embora já então fosse evidente elas não coincidirem com as femininas.
Quer isto dizer que com o advento da agricultura, foram os homens agrícolas que predominantemente se reproduziram, com mulheres locais (paleolíticas). O que aponta para a regra da poligamia ter acompanhado a 1ª vaga.
Aliás, outros estudos genéticos recentes do mesmo género também já apontavam para o facto de sermos todos descendentes de um número reduzido de homens, muito menor que do número de mulheres.
Estas conclusões parecem dar razão à opinião de um amigo meu, segundo a qual há uma alienação na busca masculina de sucesso social e riqueza como fim último da existência, visto o verdadeiro fim natural desta ser o da posse do maior número possível de mulheres, com vista à maximização da reprodução dos genes masculinos. E, invocando o exemplo de muitas espécies animais, nota ele que verificando-se aí a existência de machos dominantes que após acesa competição logram o "the winner takes it all", isso é a forma como a Natureza procede ao apuramento dos genes que garantem a adaptação evolutiva permanente ao ambiente - por via da competição entre os machos e pela reprodução apenas dos dominantes. Aliás, do ponto da vista da Natureza os machos não teriam mesmo mais nenhum papel.
Embora admita que o cromossoma Y é o que mais mutações tem sofrido e que será predominantemente através dele que a evolução genética se processa nos mamíferos, a mim sempre me pareceu que esta teoria dos machos dominantes e polígamos era uma generalização abusiva das práticas dos herbívoros, que vivem, de facto, em grandes grupos (de fêmas, crias, e um macho dominante). Nos carnívoros, porém, que são muito mais inteligentes que os herbívoros, as práticas "familiares" são diferentes. Há só uma regra comum: os machos não toleram crias alheias, o que cria um curioso fundamento para o regime "familiar" dos leões, por exemplo: as leoas acarinham o seu leão macho porque é ele que lhes protege as crias contra os outros machos de fora da "família" - mesmo que esse macho tenha ganho o seu estatuto matando as crias anteriores da leoa! Mas, nos carnívoros, as coisas são de facto diferentes, e mesmo nas poucas espécies que constituem grandes grupos, como as dos eficazes canídeos, ou há também uma fêmea dominante que também mata as crias das outras fêmeas e forma um casal real, como nos lobos, ou são mesmo as fêmas que são dominantes, como nas temíveis hienas.
Seja como for, a revelação de que o número dos nossos antepassados masculinos é muito menor que que o dos femininos parece apontar para a predominância do paradigma sexual dos chimpanzés sobre o dos bonoboos na nossa ancestralidade, o que para quem se imagina um macho dominante nesses tempos antigos pode parecer interessante, mas a quem eu notaria que, probabilisticamente, se fossem machos transportados no tempo para essa antiguidade seria bastante mais provável, pela simples lógica dos números, que pertencessem ao maioritário conjunto dos excluídos, e não ao da minoria dominante. Uma lógica similar à que se pode aplicar às bonitas histórias sobre príncipes e cavaleiros antigos e em que gostamos de nos imaginar a viver como eles, mas em que a simples lógica dos números nos indica ser muito mais provável sermos os seus miseráveis criados ou servos da gleba, se fossemos transportados para tais cenários.
E vem isto tudo a propósito do advento da monogamia, ocorrida há uns 5 mil anos, depois de bem assente a revolução neolítica e quando as cidades se erigiram em civilizações, com Estado, leis e escrita. Monogamia tratada legislativamente em detalhe no Código de Hamurabi, regulada nos 10 Mandamentos judaicos e imposta, claro, pelo cristianismo.

E a conjectura que me traz aqui é esta: hoje, que graças à invenção da pílula e ao facto da 3ª vaga ser partilhada pelas mulheres, temos vindo a viver uma nova revolução sexual, a das mulheres, há muito quem olhe para a monogamia tradicional como um ferrolho da liberdade. Porém, a monogamia veio trazer a cada homem o direito de ter uma mulher, quando antes essa propriedade seria exclusiva de chefes e reis, que as tinham a todas, a julgar pela descendência que deixaram (incluindo nós).

Ou seja: a monogamia, longe de ter sido um ferrolho à liberdade pessoal masculina, foi de facto uma grande evolução democrática e uma importante limitação do poder dos chefes e reis.
Para os homens, claro.
Para as mulheres, a democratização sexual teria que esperar mais 5 mil anos e ainda não foi aceite pelos muçulmanos, razão maior da guerra mundial em curso e apesar de uma amiga minha defender, talvez com algum exagero, que "no fundo de cada homem há sempre um muçulmano recalcado"...   :-)

Sexta-feira, Janeiro 29, 2010

Preços da electricidade - com e sem impostos

No meu post anterior, afirmei que o preço da electricidade ao consumidor doméstico era, na Holanda, 2/3 do da Dinamarca e 30 % superior ao preço em Portugal.
Porém, devia ter comparado o preço dessa electricidade antes de impostos. Por isso trouxe aqui um gráfico dos preços ao consumidor da electricidade (há 4 anos), na Europa - com impostos (o total) e sem (as barras azuis escuras).
Como é evidente, antes de impostos o preço da electricidade na Holanda é inferior ao português. Aliás, antes de impostos só a Irlanda (com os seus custos de insularidade) e a Itália têm preços superiores aos nossos.
O custo da electridade em Portugal tem um preço para o consumidor que é médio, em termos europeus, porque cá o Estado financia a energia (com subsídios às renováveis), enquanto nos países mais ricos da Europa os Estados financiam-se com a Energia.
E isto é assim porque o nosso Governo não tem a coragem de permitir que os preços reflictam inteiramento o custo da sua política de subsidiação às renováveis.
Quando esses subsídios forem inteiramente reflectidos nos preços, provavelmente então "sem tarifas" para que o Governo possa dizer nada ter a ver com esses preços e reclamar que eles apenas reflectem "o mercado", vamos garantidamente estar na gloriosa posição de ter a energia eléctrica mais cara da Europa, sobretudo considerando a necessidade de amortizar as inúteis hidroeléctricas em construção. Antes de impostos. Que se calhar também vão ter de subir, para pagar a dívida pública. E nessa altura talvez a EDP entre em falência, por incapacidade de competir com os preços da energia espanhola, e talvez as "eléctricas" espanholas a comprem. Fará isto tudo parte de um plano precisamente com esse objectivo?

Quinta-feira, Janeiro 28, 2010

O discurso do Estado da Nação e o que fez a Holanda

A previsão futurística que postei há 3 semanas de que os EUA irão apostar no nuclear como estratégia de posicionamento no movimento global para a "descarbonização" da economia, e que se baseia em somar 2 e 2 em geopolítica, tem mais um reforço: essa é a posição com que o Presidente Obama está a tentar obter o apoio dos senadores republicanos para a sua proposta de "descarbonização" e, de um modo geral, conseguir algum consenso na matéria, tanto nos EUA como na Europa. Acaba de o dizer no seu Discurso do Estado da União, embora a nossa imprensa "do regime" tenha "ignorado" esse detalhe...
Se, na verdade, olharmos para o mapa da Europa e agruparmos os seus países nos entusiastas das renováveis (Alemanha, Dinamarca, Espanha, Portugal e agora também a Inglaterra), e nos que tentam passar desapercebidos nessa matéria (Suécia, Finlândia, França, Bélgica, Itália, Polónia, República Checa, Eslováquia, Roménia, Lituânia, etc), vemos que há uma característica comum aos últimos: forte peso da energia nuclear na sua produção de energia! A Itália é um caso especial, porque fechou as 4 centrais que tinha nos anos 80 e com isso tornou-se o maior importador europeu de energia, mas recentemente acordou com a França o regresso a essa opção. E tanto a Alemanha como a Inglaterra e Espanha têm energia nuclear e correntes que o defendem, dependendo o futuro da evolução política dominante nesses países. Ou seja: quando o Governo nos tenta entusiasmar com a suposta posição de vanguarda de Portugal na corrida às renováveis, é conveniente notar que, na verdade, é uma minoria o leque de países que está nessa corrida, mau-grado toda a propaganda verde de Bruxelas nesse sentido.
Ora se os EUA vierem a afirmar, neste ano de 2010, o renascimento do nuclear conforme vaticino, a questão passará para a ordem do dia também por cá.
E, neste quadro, penso que a pior coisa que poderá acontecer a Portugal é o Governo começar a virar nessa direcção com a mesma incompetência, irresponsabilidade e sei lá que mais, com que isso foi feito na adesão à energia eólica. É de estar atento à cimeira de Abril próximo entre o nosso 1º Ministro e Sarkozy, porque penso não ser impossível vir de lá um pré-acordo de compra de uma EPR da AREVA, coisa para que o país não está minimamente preparado...

A segunda nota de hoje é que, embora continue a não encontrar nada que tenha em conta a correlação do vento com a chuva no planeamento do binómio eólico-hídrico, descobri uns papers muito recentes que ilustram o tipo de estudos que devem ser feitos no planeamento de uma opção nacional pela energia eólica, num país civilizado e com dimensões do género da do nosso.
Esse estudo foi encomendado pelo Ministério da Economia da Holanda, no contexto da Directiva Europeia para a produção de 20% da energia eléctrica com fontes renováveis até 2020 (embora estudos preliminares já viessem de 2003), e foi contratado com dois tipos de entidades: várias Universidades holandesas, e uma empresa estrangeira com as melhores ferramentas de cálculo e sólida experiência, a SIEMENS, e isto apesar da KEMA ser holandesa! Uma combinação avisada. 
A Holanda é ainda um exemplo interessante para nós pelo seguinte:
a) tem 1,4 vezes a nossa população e 2,4 vezes o nosso consumo de electricidade, nomeadamente uma ponta de consumo de 21 GW;
b) é um país com completa liberalização do mercado de electricidade: não há subsidiações e, como consequência, o carvão produz lá 35% da energia eléctrica, o gás natural 25% em centrais de ciclo combinado, a cogeração 20%, o nuclear 3% (num "pequeno" reactor de 482 MW), e o eólico aproximadamente o mesmo, mas a electricidade para o consumidor doméstico é cara: apenas 2/3 da campeã da careza que é a Dinamarca, mas mais 30% que em Portugal, onde por sua vez a electricidade custa mais 30% que em França e mais 40% que na Finlândia [estes preços são com impostos. Antes de impostos, os preços holandeses são ligeiramente inferiores aos nossos]...
c) tem dois vizinhos: a Bélgica e a Alemanha;
d) não tem nenhuma indústria forte de equipamentos eléctricos a proteger;
e) tem bons recursos eólicos, na sua costa.
Vale ainda a pena notar que, nas negociações com Bruxelas, a Holanda conseguiu que só lhe fosse atribuída a responsabilidade de vir a ter 14% de energia de origens renováveis, mas nos estudos encomendados pediu a avaliação da possibilidade de vir a ter mesmo os 20% da regra, o que requereria a instalação de 12000 MW (12 GW) de eólicas até 2020 - 4 GW em terra com uma utilização média de 25%, e 8 GW off-shore com uma utilização de 44%. Proporcionalmente aos consumos, isso equivaleria a 6400 MW em Portugal, mais que o valor planeado pelo nosso Governo, e que é de 5700 MW (o nosso Governo ofereceu-se estoicamente para exceder a quota definida pela verdura de Bruxelas, visto que Portugal já tinha hidroeléctricas, ao contrário da Holanda, e portanto não precisava de eólicas para cumprir os referidos 20%).
O consórcio da Universidade de Delft e a SIEMENS investigaram tudo como deve ser: séries temporais do vento baseadas em dados reais, previsões a longo prazo dos consumos, correlações com os trânsitos de energia nos países vizinhos e em particular com a Alemanha, e chegaram às seguintes conclusões:
- A partir de um valor de potência eólica de 7 GW (correspondentes a 3,3 GW em Portugal, um valor que já ultrapassámos este ano), haverá energia eólica em excesso - e o que nos aconteceu em Dezembro foi a confirmação empírica disto;
- A % de energia eólica em excesso irá aumentando até aos 12 MW. O gráfico anexo, retirado de um outro paper elaborado no mesmo estudo, mostra que ao se atingirem 10.9 GW, equivalentes à nossa meta nacional de 5.7 GW, 1/6 dessa energia estará em excesso e não pode ser utilizada no país!

Evidentemente, este excesso não resulta de 20% de energia eólica ultrapassarem os 100% de consumo, mas sim da natureza intermitente do vento, que ora produz pouco, ora produz em excesso.
O estudo averiguou diversas formas de resolver o problema da energia em excesso, mas defrontou-se com o facto de existir uma correlação de 0.71 entre os ventos na Holanda e os da Alemanha, o que impede a solução dinamarquesa de vender o excesso a esse país vizinho ou através dele (situação similar à nossa com Espanha). Entre outras soluções, uma das mais acarinhadas pelos académicos é a da "gestão de cargas" - isto é, obrigar os consumidores a transferir consumos das horas a que precisam de o fazer para as horas em que a rede tem energia em excesso.
Ideia que, como já expliquei, é o verdadeiro objectivo do grandioso projecto das "smart grids" de que o nosso MIT-Portugal tanto gosta e que o nosso Governo inscreveu no Orçamento de Estado deste ano como um dos seus grandes objectivos. Mas cá para mim, penso que para implementar tal propósito será precisa uma ditadura, ainda que vendida como um Admirável Mundo Novo!...
Quanto à Holanda, e graças a ter feito atempadamente este estudo, aposto que se vai ficar pelos 14% de renováveis comprometidos com Bruxelas, ou seja, pelos seus 8 GW de eólicas (que equivale, se tivéssemos o juízo deles, a parar imediatamente a instalação de eólicas no valor já atingido).
Tanto mais que estudos complementares encomendados a outras Universidades holandesas mostram que para atingir o referido objectivo o Governo terá de gastar uma média de 1500 milhões de € por ano (lá não escondem esses custos em obscuros défices tarifários; a subsidiação na Holanda não é à tarifa, mas sim com um valor fixo para a construção das eólicas, que depois têm de competir no mercado para vender a sua energia, como todos os outros produtores)...

Terça-feira, Janeiro 26, 2010

Quanta energia vão produzir todos os aproveitamentos hidroeléctricos planeados?

Notei, nos recentes debates sobre o Orçamento de Estado para 2010 e em diversas intervenções de responsáveis do Governo, que a planeada construção de um largo número de aproveitamentos hidroeléctricos passou a ser o eixo da política económica nacional.
Diz o 1º Ministro que a Energia é o eixo da sua aposta para o desenvolvimento económico, e na Energia a referida construção das hidroeléctricas é agora alegadamente o centro dessa estratégia.
Parece uma ideia consensual. Toda a gente acha bem que se aproveite a àgua da chuva, que é uma coisa limpa e renovável, e a construção das barragens parece algo capaz de criar muito emprego. Aliás, são anunciados muitos milhares de empregos, com essas barragens. E são também anunciados muitos MW de energia.
Infelizmente, tenho que vos dizer que vim aqui hoje fazer um bocadinho de "bota-abaixo". Se me quiserem seguir nos números, ficarão em condições de perceber porquê.

Tenho que começar por recordar que MW e energia não são a mesma coisa. Os MW são a capacidade de produzir energia de uma instalação, não a energia que ela efectivamente produz. Se eu fizer uma barragem de 1000 MW no deserto, terei "instalado" 1000 MW mas, obviamente, a energia que ela vai produzir será nula. Percebido? Então continuemos.
Se dermos uma vista de olhos nos números que acompanham a descrição dos 16 aproveitamentos hidroeléctricos em construção ou para construção próxima, constatamos o seguinte:
- Custo previsto: $4,85 mil milhões de €$;
- Potência média de origem hídrica:  +175 MW;
- Potência média de origem eólica (armazenada): 525 MW;
- Perdas estimáveis no processo de armazenagem da energia eólica: - 175 MW (em média);
- Saldo energético médio produzido (origem hídrica menos as perdas na armazenagem da energia eólica): ~0 MW.

Pois é, a resposta à pergunta do título é: zero! Não acreditam? Os dados estão todos no site da EDP, e se não sabem fazer contas de somar e subtrair peçam a alguém que saiba. Acho que o Governo conta com a vossa inumeracia...
Como é que eles vos enganam? Primeiro, falam em energia "bruta", que é a soma de toda a energia que sai das centrais independentemente da origem. E essa irá ser 175+525= 700 MW, em média. Vocês nem reparam na palavra "bruta" e, ao mesmo tempo, eles "esquecem-se" de explicar que para produzir os 525 MW de origem eólica as centrais terão de dispender primeiro, a bombar àgua para cima, 700 MW adquiridos à rede eléctrica, vindos... das eólicas.  A diferença entre estes 700 e os 525 devolvidos depois são as perdas do processo. Claro que se vocês subtrairem à tal energia eléctrica "bruta" produzida, a 700 MW em média, a consumida de que eles que se esquecem de falar, 700 MW em média, obtêm o saldo real das centrais, e é como vos digo: zero - se até não for menos...

Quanto aos milhares de empregos anunciados, como já notei aqui, são apenas durante o pico das obras durante os 4 anos de construção. Com uma diferença relativamente às barragens feitas até 1985: nesse tempo não havia imigrantes e a mão de obra da construção civil era portuguesa!...

Falta só acrescentar que ninguém teve em conta que quando fizer muito vento dias seguidos, no Inverno, também geralmente choverá muito dias seguidos, e não haverá espaço nas albufeiras para armazenar a energia eólica - como já se verificou este Inverno e ainda vamos só em 60% da quantidade de eólicas planeada pelo Governo...

Sábado, Janeiro 23, 2010

O pensamento único abre brechas!

Como sabem, há umas duas semanas dei aqui conta de como a convergência normal entre intenso vento e chuva copiosa em todo o território nacional levou à situação de termos as eólicas a produzir a plena potência e as hídricas também - e não termos onde meter essa energia. E daí a sua "oferta" a Espanha, que por sua vez a passou a França e por aí fora.


Este absurdo, resultante da política energética existente, tem passado ao largo do Pensamento Único, que continua na generalidade extasiado com a estratégia de quem nos governa nestas matérias. Mas não há machado que corte a raíz ao pensamento e hoje, finalmente, um dos baluartes da liberdade de Imprensa em Portugal dá notícia impressa do facto. Preza-me que seja o Expresso que o faça, porque já em 1973 este jornal era um dos dois cuja leitura era proibida em Caxias (o outro desapareceu há muito).
Claro que a notícia está correcta quanto aos factos mas errada quanto às causas que lhes aponta. A culpa do que tem acontecido não é do mau tempo. Do ponto de vista das energias eólica e hídrica, de facto, o mau tempo é o melhor tempo! Como se pode ver nos gráficos europeus que mostrei aqui, nos 3 meses de Inverno (25% do ano) as eólicas geram em média 35% da sua produção anual, mas nas horas de produção máxima geram o dobro no Inverno do que geram nas melhores horas de Verão!
Dizer que a culpa disto é do mau tempo é equivalente à culpabilização da cegonha pelo apagão nacional que ocorreu em 2000!

Um outro escrito impresso que o Expresso publica hoje e que é também uma brecha no Pensamento Único é o artigo de Todo Bom sobre as PME.
Cito dele as seguintes afirmações que contêm verdades lapidares (carregados meus):

"As economias sólidas apoiam-se em grandes empresas (GE) e não em PME. As PME são organizações complementares no preenchimento da malha industrial, ou transitórias no seu processo de crescimento para GE, onde ganham capacidades e recursos para poderem ser competitivas no mercado global.

...Este deslumbramento e obsessão nacional pelas PME é pouco saudável, assim como as declarações superficiais de que é necessário apoiar genericamente as PME.
Infelizmente, os estudos que têm sido produzidos e divulgados, incluindo os oriundos das associações empresarias, são de uma pobreza intelectual confrangedora em termos do seu suporte teórico.
Uma das suas fragilidades reside na ausência de análise matricial destas organizações em termos de tecnologias/mercados, de que resultariam recomendações de acções estruturantes diferenciadas.

...Acreditar que, na fase actual dos mercados, as PME portuguesas têm recursos suficientes, mesmo com apoios públicos, para desenvolverem com sucesso processos de investimento internacionais é pura ficção. Quando muito, poderão incrementar, marginalmente, as suas exportações.
... não se conhece nenhum programa, com a intervenção obrigatória das sociedades de capital de risco com fundos públicos, desenhado para o apoio às acções de fusão, concentração e reorganização sectorial de PME no sentido do seu crescimento e incremento de competitividade".

As PME são uma bandeira tanto da Oposição como do Governo, e tudo o que Todo Bom escreve sobre elas se aplica à grande ideia que agora assola as nossas Universidades segundo a qual a "Transferência de Conhecimento" recentemente arvorada como um objectivo a perseguir se mede pelo número de "start-ups" engendradas.
Na verdade, as "start-ups" tecnológicas só terão algum impacto sócio-económico se a sua actividade se articular com a das grandes empresas, como o há muito esquecido "relatório Porter" preconizava nos anos 90 com a sua ideia dos "clusters" e das ligações em "diamante".
Quando, por exemplo, em 1993 acordei com a nossa maior empresa nacional fabricante de material eléctrico o projecto de desenvolvimento de uma nova linha de produtos (protecções digitais), na verdade não era nessa linha de produtos que essa empresa estava interessada. No que estava interessada era na manutenção da competitividade de uma outra linha de produtos muito mais importante para ela (SCADA), que por sua vez era a peça essencial de uma estratégia lançada dez anos antes para a manutenção da competitividade dos produtos tradicionais da empresa. A tal referida nova linha de produtos que desenvolvi poderá não ter criado mais que uma dezena de empregos, mas ajudou a manter outras largas centenas!
Isto são factos mais que sabidos de quem, por exemplo, leia a IEEE Transactions on Management!
É por isso que o ardente entusiasmo da política tecnológica que guia as nossas Universidades e que agora descobriu as "start-up" tecnológicas é o contrário do que parece. É, de facto, a desistência da procura de laços com a sociedade e a economia reais, a desistência da procura dos problemas reais das empresas existentes e da humilde adaptação da I&D às suas necessidades. É a resoluta adopção da velha átitude da torre de marfim, agora travestida de "transferência de conhecimentos" para empresas que na verdade não existem: são meros arranjos de oportunidade copiosamente subsidiados por fundos públicos que nunca irão a parte nenhuma!
Exactamente como os grupos de estudantes maoístas que, há 40 anos, achavam ter descoberto a verdade revolucionária e decidiam promover a revolução proletária sem nunca sair da Universidade!

Quarta-feira, Janeiro 20, 2010

Soluções à procura de problemas

Hoje e com o patrocínio do Professor Carlos Fiolhais de Coimbra, tive um post publicado no Rerum Natura. Sobre a mentalidade típica do nosso Investigador e a culpa do Estado nisso.

Numa crónica de Julho passado num jornal diário, Pacheco Pereira recordava como, nos seus tempos de estudante universitário de Filosofia há 40 anos, era regra os Professores ensinarem o que lhes interessava pessoalmente e até, em particular, o que tinham investigado longamente nos seus doutoramentos, com pouca ligação com o que faria sentido do ponto de vista de uma licenciatura coerente.


Não pude deixar de sorrir ao ler isso porque essa situação é também uma tendência nas tecnologias. Não é assim em todas as escolas, não era assim no tempo de estudante de Pacheco Pereira, e mesmo ultimamente a coisa melhorou com a maturação do corpo docente, mas há uns anos nas engenharias também era vulgar um recém-doutorado criar pelo menos uma disciplina de opção sobre o tema que investigara e, em alguns casos, criar até especialidades inteiras de Mestrado e mesmo licenciaturas. A multiplicação de cursos basicamente similares resultou dessa proliferação de doutorados, todos à procura do seu "espaço" próprio, assumida pelas estratégias de algumas escolas.

Como disse, nos últimos anos a coisa melhorou, mas há um domínio em que esse subjectivismo persiste e tem cura difícil: o dos temas de investigação.


É frequente o recém-doutorado, sobretudo se o seu doutoramento foi um desses tradicionais "à francesa" que o ocupou 6 anos a investigar um assunto muito especializado, quase tudo sobre quase nada, como ironizam alguns, enquanto ia esquecendo o resto que aprendera, é frequente, dizia, continuar a investigar o mesmo tema depois do doutoramento, concorrendo a subsídios e fundos públicos ou europeus por muitos anos.
E, quando confrontado com o reparo de que deve procurar ligações à sociedade, aí vai ele à procura de problemas a que possa aplicar os temas que conhece e em que deseja continuar a publicar, dada a importação do lema americano do publish or perish. E muitas vezes conclui que a tal sociedade é atrasada e não o merece, visto não apresentar nenhum problema para a solução que ele domina e que lhe parece evidente ser o centro do mundo. E, se quando fez o doutoramento não era já docente universitário, vira-se para o Estado e exige-lhe emprego.


Claro que é possível inverter os termos deste binómio solução-problemas. Mas para isso é preciso que o Estado que financia os doutoramentos incorpore as entidades empregadoras na própria definição dos seus temas.
Há muitos países avançados onde o Estado só financia investigações universitárias em tecnologia se houver comparticipação empresarial nesses financiamentos. Claro que para tal é preciso que as empresas (privadas e públicas) tenham estratégias tecnológicas, e para ter estratégia tecnológica é precisa segurança financeira, sem o que uma empresa vive obcecada pelas vendas e compromissos de pagamentos, a prazo não superior a um ou dois anos; e é preciso que, se for pública, não viva apenas para fazer boa figura perante a tutela governativa, que tem um ciclo de vida não superior ao ciclo eleitoral.
Ora nenhum desenvolvimento tecnológico leva tão pouco tempo a criar e a chegar a frutos, a não ser que consista na simples compra "chaves na mão" de algo feito lá fora, para eleitor ver...

Mas, também nas áreas não-tecnológicas o Estado pode promover uma maior ligação entre os temas de Investigação e as necessidades sociais.
Porque há-de o Estado português financiar bolsas de doutoramento em História sobre a representação material da realeza assíria, por exemplo, quando não temos nenhuma base de conhecimento particular nem interesses estratégicos no Iraque, e deixar a outros a investigação histórica sobre a formação das cidades angolanas, coisa que devia interessar ao nosso Ministério de Negócios Estrangeiros (nos EUA é a CIA quem muitas vezes apoia essas investigações)? Ou porque não se relacionam os doutoramentos em Sociologia às necessidades de integração das minorias étnicas imigrantes, com o apoio das Câmaras Municipais, como nos EUA? Ou ainda, voltando de novo à tecnologia, porque não disponibiliza o Ministério da Defesa uma pequena percentagem do seu orçamento para, em conjunto com as empresas nacionais, os nossos brilhantes académicos de Automação e Robótica que vivem nuns EUA virtuais terem algo de útil com que se ocupar, como por exemplo o desenvolvimento de um drone português?


Tenho um colega mais novo que se doutorou nos EUA há uns anos sobre a aplicação da teoria dos jogos e em particular dos conceitos de Nash à formação de preços em mercados competitivos de energia. O projecto era financiado por uma entidade interessada, e provavelmente a primeira em que pensarão será numa qualquer petrolífera. Mas não. Quem financiava esse projecto era o equivalente ao nosso Ministério Público, que queria ter meios para a detecção de fenómenos de cartelização na referida formação de preços. Imaginem termos também um Ministério Público assim...

Terça-feira, Janeiro 19, 2010

Correlação entre vento e chuva e soluções à procura de problemas

Já houve quem tivesse notado que há uma estreita correlação entre o vento e o "inflow" de água da chuva nas albufeiras com bombagem, e que isso "limita a possibilidade do uso destas para armazenamento". Não foi foi nenhum académico!
De facto quase sempre os trabalhos académicos estão centrados na investigação de um qualquer novo método teórico e não na caracterização fidedigna do problema a tratar. Ou, como já notei em tempos, em regra os académicos têm uma solução que anda à procura de problemas, enquanto na vida real as coisas requerem o contrário.

Sintoma do nosso sub-desenvolvimento terceiro-mundista é os nossos políticos desconhecerem isto e deixarem-se entusiasmar com as fantasias dos académicos, que por sua vez se entusiasmam frquentemente com políticas totalmente irrealistas.

Segunda-feira, Janeiro 18, 2010

O futuro nuclear - um devaneio em jeito de nota

Um colega por quem tenho grande estima manifestou-me recentemente algum cepticismo quanto ao futuro do nuclear, evocando a suposta miragem da fusão nuclear como exemplo.
Gostaria, por isso, de notar que há diferentes estádios de experiência demonstrada nestas tecnologias, e portanto nas janelas temporais em causa.
A cisão dos átomos de Urânio 235 é usada em reactores industriais há 54 anos!...
Presentemente (desde 1996) está-se na 3ª geração de centrais deste tipo, que se distinguem das anteriores basicamente pelo aperfeiçoamento construtivo - especialmente quanto a segurança.
A transmutação do 138 vezes mais abundante Urânio 238  em Plutónio, e a cisão dos átomos deste, é a base das centrais de 4ª geração. A sua disponibilidade comercial é prevista para dentro de 20 anos, mas este atraso não decorre de haver algum problema técnico por resolver, dado que já houve várias grandes centrais prototípicas em funcionamento, nomeadamente no Japão e em França, e há ainda uma na Rússia. Os problemas que existem respeitam à fiabilidade a longo prazo das centrais e à questão da possível proliferação do Plutónio que geram e que consomem. E é isto que se espera que leve 20 anos a resolver, mas é um prazo que depende muito do empenho que a comunidade internacional colocar no projecto.
A fusão nuclear controlada, pelo contrário, é algo que ainda tem problemas sem solução técnica provada. Há um grande projecto internacional que já escolheu a França para recipiente da primeira instalação prototípica de grande potência (e de que a figura mostra o aspecto geral), mas a construção dessa central está demorada. Talvez lá para 2020 esteja pronta, mas daí até ser possível industrializar esse tipo de centrais para a produção de energia várias décadas deverão passar.
No entanto, gostaria de partilhar convosco um devaneio meu: supondo que o ITER começa a funcionar em 2020, que em 2040 o confinamento dos plasmas quentes está dominado para aplicação industrial e que portanto se começam a construir centrais de fusão, gostaria de devanear com a possibilidade de, uns 50 anos depois, lá para o fim do século, a fusão nuclear de outros materiais além do Hidrogénio já ser possivel de forma controlada.
E então, por volta de 2100, poder-se-ão construir as primeiras grandes naves interestelares que nos poderão levar aos exoplanetas de que na altura já se conhecerão muitos de tipo terrestre, e em que cada viagem levará (para os que nela forem) basicamente sempre 2 anos: 1 para acelerar até perto da velocidade da luz, e outro para a desaceleração subsequente.

Obviamente, isso requer uma energia que só reactores de fusão nuclear, eventualmente alimentados pela própria poeira do espaço, poderão produzir.
Isto, naturalmente, se não nos aniquilarmos mutuamente nem regredirmos a uma nova Idade Média, entretanto.

Sábado, Janeiro 16, 2010

Ainda uma nota sobre o absurdo eólico

Um comentador irado com o que tenho revelado sobre o facto do excesso de vento ser concomitante com a chuva intensa, o que inviabiliza a ideia da armazenagem hidroeléctrica, escreveu-me a dizer que só chove assim poucas semanas por ano.
Ora isso é verdade. Mas também o é que só faz vento de jeito poucas semanas por ano, e que isso coincide com as semanas de chuva intensa. Com uma correlação metereológica de 98%!
Os gráficos que junto são tirados de uma Agência europeia financiada pela própria UE.

O primeiro gráfico mostra a quantidade de horas que as eólicas funcionam a uma dada % da sua capacidade ao longo do ano, para uma utilização média da sua capacidade de 1/4 (25%), que é o que se verifica na Dinamarca e também em Portugal.


O segundo gráfico mostra como essa produção se distribui ao longo do ano (valores escandinavos). É evidente que a produção eólica é muito maior no Inverno que no Verão, e isso é um facto tão bem conhecido que os EUA, por exemplo, o têm estado a considerar nos estudos lá feitos, dado que a ponta de consumo deles (como a nossa) é no Verão, mas o da produção eólica é no Inverno - e eles não têm a alta % de produção hidroeléctica que nós temos, a qual tem um padrão sazonal de produção ainda mais acentuadamente invernal.
Em Portugal, por exemplo e segundo dados da REN, em 2008 o mês de menor produção eólica foi Setembro, e o da maior foi Dezembro (2,5 vezes a de Setembro), o que confirma a distribuição sazonal normal em todo o Mundo.

Vi há pouco um interessante debate na SIC, no programa "Expresso da Meia Noite". E nele, um Prof. da Universidade Católica que até desconheço, João Confraria, disse o que me parece óbvio: o Estado precisa de estruturas de apoio técnico para o estudo e planeamento destas coisas, que não existem. Aliás, também disse outra coisa antes que subscrevo: a própria menção ao "interesse nacional" parece que passou a ser pecado!...

Sexta-feira, Janeiro 15, 2010

A carteira completa de opções tecnológicas para a redução das emissões de CO2

Já aqui há meses referi que o EPRI (Electric Power Research Institute), a super-estrutura norte-americana das empresas de electricidade para a Investigação & Desenvolvimento, tinha feito um estudo sobre as consequências de se limitarem as opções tecnológicas para a produção de energia às renováveis, ou não.
Na altura, o EPRI só permitia o acesso público ao resumo do estudo. Porém, e provavelmente devido á enorme importância política do assunto, o EPRI disponibilizou agora a toda a gente o relatório completo.
É importante perceber o que diz o EPRI, numa altura em que está em curso no país - e um pouco por todo o lado lá fora - uma enorme corrida às licenças de construção de novas centrais de ciclo combinado a gás natural. Com a depressão económica em curso e o aperto dos Governos para reduzirem os défices gerados pela crise, por todo o lado a subsidiação das renováveis esmorece, e com ela voltam as regras do mercado.
Ora considerando que as reservas mundiais de gás natural já davam para 63 anos, ao ritmo de exploração do início de 2009, e que durante este ano se comprovou a eficácia das novas técnicas de extracção do gás natural dos xistos subterrâneos, o que de repente aumentou em de 20 a 40% as reservas mundiais de gás com exploração rentável (uma das grandes inovações do ano em matéria energética, segundo o MIT), a tentação de assentar todo o crescimento da produção futura de electricidade nesta fonte energética é muito grande. Vamos lá a ver se há alguém que na UE cumpre o objectivo de redução das emissões em 20%, com esta tentação - ou se o que haverá mesmo é nenhuma redução, como até aqui!
De facto, uma central de ciclo combinado emite cerca de 1/3 do CO2 da de uma a carvão, para o mesmo kWh. Mas, sobretudo, requer um investimento mínimo e tem uma construção rápida, o que é muito tentador para o investidor privado que não tem uma lógica de longo prazo.
E é mesmo sobre isso que o EPRI nos avisa.
Se assentarmos a produção de energia no gás e desistirmos da aposta no desenvolvimento das tecnologias que requerem mais tempo e investimento, como o nuclear e o carvão com aprisionamento do carbono, lá para 2050 teremos a energia a um preço tremendo!

No cenário de deixar as coisas correrem, teremos a redução rápida do uso do carvão e a gradual do do nuclear, e não serão as renováveis que os substituirão (aparte as eólicas, que têm um "share" garantido), mas sim o gás natural - que é o que já está a acontecer por cá. Até que a necessidade de redução das emissões de CO2 e o aumento dos preoços do gás levarão ao crescimento da "gestão da procura", que será o principal meio, a longo prazo, da resolução do problema. Gestão da procura que significa, é bom de ver, o quase-regresso à Idade Média energética...
E o gráfico seguinte, com a previsão da evolução do preço para as duas opções, mostra porquê. Mas, além desta subida de preços, a opção limitada (excluinte do nuclear e do carvão limpo) levará forçosamente também a uma situação final com muito maiores emissões de CO2...!
Por cá, as duas centrais de ciclo combinado a gás natural a quem foram concedidas licenças (Galp em Sines e Iberdrola), a adicionar às outras duas que já entraram em funcionamento em 2009 (EDP em Lares) e vão entrar em 2010 (Siemens/Endesa no Pego), aponta para a aposta habitual de sacrificar o futuro. Além de que, sinceramente, tenho pena que sejam estrangeiros metade dos investidores que vêm mamar esta vaca-leiteira...

Quinta-feira, Janeiro 14, 2010

A culpa é da liberalização. Ou não?

A propósito do "absurdo eólico" para que tenho vindo a chamar a atenção, em que temos produção a mais sem ter onde a meter e a temos que deitar fora, fiz uma pesquisa aos papers mais recentes que pudessem ter sido publicados sobre o assunto internacionalmente, e falei com um colega muito sabedor.
Encontrei um único paper, já publicado este ano, que se lembra do problema do dimensionamento do reservatório da barragem, ou seja, da sua capacidade em energia armazenável, e não apenas em potência bombável ou turbinável. Mas mesmo este paper, publicado na melhor revista mundial do assunto e que por sinal é português (de alguém que tem estado envolvido no nosso grandioso pioneirismo eólico), mesmo este paper se esquece de considerar o efeito acumulado ao longo de vários dias da chuva e do vento e simplifica o problema evitando tratar a sua aleatoriedade - aliás e de facto, não trata do efeito cumulativo da chuva e da bombagem no enchimento das albufeiras. Aliás, não trata da chuva, sequer. É, portanto, um típico paper académico, mas já é um começo...
Entretanto, lembrei-me que em tempos, antes de aparecerem as eólicas, houve na antecessora da REN alguns engenheiros de grande qualidade que sabiam muito do assunto e, em particular, conheciam bem os nossos regimes hidrológicos. E tentei saber que era feito deles. Pois estão em funções meritórias, mas grupos de estudos com engenheiros desses é que já não há!
E porquê? Porque se raciocinou que, com a liberalização do mercado de energia, deixava de fazer sentido planificar o sistema energético e que os equilíbrios seriam conseguidos pelo simples jogo do mercado. O quer seria bom, porque o planeamento tolhia a inovação e a concorrência, pelo contrário, levaria sempre às melhores soluções.
Temos então que a presente situação resulta dessa liberalização dos mercados?
Bem, se os mercados energéticos fossem realmente livres e, portanto, geridos pelos interesses privados em competição, o que provavelmente teríamos era toda a nova produção energética a ser feita por centrais de ciclo combinado a gás natural! Não seria uma solução de longo prazo, mas ao menos a electricidade seria relativamente barata e sem défice tarifário.
Mas não é isso que temos.
O que temos é um sistema energético regido pelos ditames políticos de Bruxelas relativamente à redução das emissões de CO2, o que leva a subsidiar e a priveligiar as caríssimas energias renováveis e à presente situação!
O que de facto temos, não é um fruto da liberalização energética. É o fruto de um sistema definido por critérios estritamente políticos, mas sem o antigo planeamento nacional...
Ou seja, temos o pior dos dois mundos!
Ah, mas o tal paper de que falei atrás considera uma ideia interessante para quando tivermos as hídricas com capacidade reversível (mas sem capacidade de armazenamento) e que evita a vergonha de termos de doar a Espanha o excesso de energia eólica: as futuras hídricas poderão bombar a água para dar consumo eléctrico às eólicas e manter a rede estável, e ao mesmo tempo abrir as comportas de segurança ao lado para deixar a água sair (sem ser turbinada) antes que as albufeiras transbordem.
Lindo! A capacidade de inovação portuguesa tem realmente progredido muito, nos últimos anos...!

Quarta-feira, Janeiro 13, 2010

Demonstração gráfica do absurdo eólico - Actualizado

Há dias, fiz aqui a demonstração gráfica do absurdo eólico, mostrando como temos "exportado" (por não termos onde a meter, dado as barragens estarem cheias de água da chuva) energia eólica em quantidades de muitos GWh diários, a preço... ZERO!
Isto, claro, enquanto ao mesmo tempo pagamos essa energia aos produtores eólicos a 9 ç/kWh, e não foram previstos nem regulamentos nem meios técnicos que permitam desligar essas "ventoinhas".
Pois não é que o nosso 1º Ministro, 2 dias depois, manifestou uma exfusiante alegria com esta situação?
Tirem-me daqui!!!
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Tenho vindo a referir, recentemente, o absurdo que constitui este excesso de produção eólica que já temos hoje em dia, e como o investimento em "reforços de potência" (de bombagem) hidroeléctrica poderá não resolver nada, quando faz vento, chove muito, e a temperatura é amena.  Os gráficos seguintes de exploração da nossa rede do passado dia 3 demonstra-o.

O primeiro diagrama mostra como o consumo (linha a preto grosso) é inferior à soma da produção hidroeléctrica (azul) e da produção independente e não desligável (a verde), pela madrugada.
Pode-se também ver que não foi possível fazer bombagem de água porque as albufeiras já estavam cheias e tinham que despejar a água da chuva.
O segundo diagrama mostra como se decompõe a produção independente, sendo evidente a extrema irregularidade da eólica; ela atinge 2500 MW entre as 8 e as 12 horas, para às 18 horas já ter caído para cerca de apenas 1000 MW.
Ao mesmo tempo, vê-se no diagrama de produção hidroeléctrica que, apesar daquele excesso de vento, não foi possível reduzir o trabalho das hídricas, sinal de que as respectivas albufeiras já estavam cheias e, portanto, incapazes de reter ou armazenar mais água.

O quarto diagrama mostra que de madrugada se reduziu a produção térmica ao mínimo, com um só dos 4 grupos de Sines a trabalhar e nenhuma central de ciclo combinado, mas mesmo assim se teve de exportar o excesso de produção eólica, por não haver onde a meter.
Pelas 4 da madrugada, a hora de menor consumo, chegaram a exportar-se mais de 1500 MW, eda meia-noite ao meio dia sempre à volta de 1000 MW, todos de origem eólica.

Finalmente, o último diagrama mostra o preço conseguido nesta exportação entre as 3 e as 11 da manhã: ZERO! E o máximo preço, 8 ç/kWh, foi atingido pelas 22 horas, quando por azar o vento decaiu e tivemos de importar!...


Isto resulta, evidentemente, de já termos potência eólica instalada em excesso e de nada ter sido previsto técnica e regulamentarmente para a poder reduzir, sendo o país obrigado a pagá-la ao produtor à volta de 9 ç/kwh para a ter de deitar literalmente fora!
E, como se pode ver pelo diagrama de produção hidroeléctrica, não é o "reforço de potência" que vai resolver as coisas: para as resolver precisávamos de albufeiras muito maiores, o que é obviamente inviável!
E só vamos ainda em cerca de 3800 MW de potência eólica instalada! Imagine-se o que será quando tivermos os 5600 MW previstos pelo Governo para 2012...! E mais o solar, e mais o eólico off-shore...!
Não é por serem pouco arrojados e nós sermos a "vanguarda" que nenhum país tem mais que 20% de produção eólica, e esse país é a Dinamarca, que praticamente não tem conflitos com a energia hídrica. É porque os outros países fazem estudos de planeamento, antes de avançarem com ideias destas. E nós, é como se vê.

Terça-feira, Janeiro 12, 2010

Uma central nuclear em Portugal? Iniciemos a discussão! II - necessidade, custos, riscos e medidas urgentes

Na parte I deste deste pontapé de partida na discussão da opção nuclear em Portugal, procurei reunir alguns dados sobre a matéria que são informação básica, mas que convém alinhar para se saber minimamente de que se está a falar.

O resumo dessa parte I pode ser feito assim:
a) A energia nuclear é vulgar e usada há mais de 50 anos, para a produção de energia eléctrica;
b) Está em início um "renascimento" do nuclear que vai inscrever-se numa divisão mundial de produções e mercados, detonada pelas negociações climáticas, em que a tecnologia nuclear será a aposta estratégica principal dos EUA, França e Japão, que cederão a liderança das tecnologias de energias renováveis aos países com menos recursos tecnológicos e industriais;
c) As novas centrais nucleares actuais de 3ª geração são seguras e resolveram os riscos das antigas, concebidas há mais de 30 anos;
d) Os resíduos são um problema, mas nada que não seja manejável, dado o seu pequeno volume;
e) A um prazo de 20 anos estarão no mercado as centrais de 4ª geração, presentemente em estudo cooperativo internacional mas de que já houve e há protótipos, as quais terminarão com os problemas de aprovisionamento de Urânio e com o dos resíduos.

Ainda relativamente aos resíduos, vale a pena mencionar que está em curso nos EUA um estudo pelo MIT desse problema à escala global, em que se considera que, a virem a enterrar-se os resíduos radioactivos das centrais, isso deveria ser planeado para todo o planeta, com alguns locais a serem partilhados - o que sugere a hipótese do jazigo desenvolvido na Finlândia poder vir a ter parcelas vendidas a outros países.
Porém, de momento, a opção preferida pelo MIT é simplesmente a de guardar os resíduos nas próprias centrais, em caves, por umas décadas, na expectativa do desenvolvimento das centrais de 4ª geração. É que uma vez estas em operação corrente, dentro de algumas décadas, os resíduos das centrais actuais servirão como combustível dessas, passando de lixo a eliminar a valioso recurso a preservar... e, por isso, o já antigo e dispendioso projecto americano de enterramento dos resíduos nas montanhas de Yucca do Nevada foi definitivamente cancelado há meses pelo Presidente Obama, com a concordância geral.
  • Mas teremos nós necessidade de mais centrais termoeléctricas?
Uma rede eléctrica bem planeada tem um mix de fontes energéticas de natureza diferente e complementar. Este planeamento difere conforme seja feito em nome do interesse público, ou em nome apenas dos interesses de investidores privados.
Sendo feita em nome do interesse público, e em particular em Estados independentes, a rede terá fontes renováveis, se estas forem minimamente rentáveis, por assentarem nos recursos naturais do país. Foi por isso que de 1950 a 1980, em Portugal e como já recordei, se assentou o arranque da nossa industrialização e da electrificação que a suportou em hidroeléctricas, visto Portugal ter a sorte de nele desaguarem a maior parte dos rios da península ibérica.
Durante 30 anos a maioria da nossa energia eléctrica foi de origem renovável nacional, não só quanto aos rios como quanto à engenharia e à construção das barragens, mas mesmo nessa altura já havia um mix: a maioria das barragens não tinha capacidade de armazenamento (ditas de "fio de água"), eram baratas mas só trabalhavam quando corria água nos rios, e havia um certo número com albufeiras, mais caras, que guardavam a água para o Verão, quando havia falta dela.
Porém, isso era suficiente quando éramos um país que andava de burro e usava candeeiros a petróleo (nas aldeias)  e o nosso consumo de electricidade era apenas 1/6 do actual! Esgotados praticamente os recursos energéticos de origem hídrica, teve de se começar a instalar centrais termoeléctricas, tendo-se nos anos 70 planeado, e muito bem, que o carvão era a opção mais barata e segura. É certo que se vão agora construir mais 2+8 barragens e "reforçar a potência instalada" de outras mas, como já mostrei, a energia propriamente dita que vão produzir, de origem hídrica, é insignificante - uns meros 220 MW em média, 3.8% do actual consumo, para um colossal investimento de 5 biliões de !...
O problema novo que surgiu foi o protocolo de Kioto, na década de 90, e o correspondente bloqueio ao carvão devido às suas grandes emissões de CO2! Isso e a liberalização dos mercados energéticos, que levou ao retraimento de grandes investimentos em centrais "pesadas" por aí precisarem de muito tempo para serem recuperados, como explicarei melhor adiante. Ora desde então o consumo de electricidade português aumentou 50%, como todo o consumo, e portanto optou-se por uma fonte energética "descarbonizada": a eólica. Que, por grande coincidência, atingira a maturidade tecnológica nos países europeus que tinham sido precisamente os grandes campeões de Kioto, em particular a Alemanha, de onde importamos a maioria dessas turbinas eólicas!...
Além disso, desde os anos 90 nunca mais houve planeamento técnica e economicamente fundamentado em Portugal, como as coisas ilustram.
A energia eólica, porém, e apesar do investimento total já feito de cerca de 4.75 biliões de , apenas satisfez metade deste crescimento do consumo pós-Kioto. O resto foi coberto importando (o que antes só fazíamos ocasionalmente), e sobretudo com novas centrais... termoeléctricas, mas a gás natural em vez do carvão!
No território nacional ainda haverá muitos montes com vento razoável para aerogeradores, mas acontece que a energia eólica sofre de um duplo problema de intermitência: varia muito durante o dia (em geral é máxima de madrugada), e também durante o ano (é máxima no Inverno). A Espanha, que tem uma proporção de eólica similar à nossa, já decidiu parar o seu crescimento, e nós por cá temos a situação que ultimamente se manifestou: temos de deitar fora o excesso de energia eólica por não termos onde a meter!
Pode ser que os projectados "reforços de potência" das hidroeléctricas resolvam parte da situação actual, mas garantidamente não a resolverá se se continuar a instalar potência eólica até aos valores previstos pelo Governo, de mais 50% do que a que já temos. E não a resolverá porque, como a experiência deste Inverno demonstra, o máximo dos ventos coincide com o das chuvas (com uma correlação de 98%), e portanto de pouco serve aumentar a capacidade de turbinar das barragens e torná-las reversíveis, que ao fim de poucas semanas de Inverno húmido (e portanto também ventoso) as albufeiras estarão cheias e sem capacidade de armazenamento. E aumentar as albufeiras está fora de causa, quer pelo custo, quer pelo impacto ambiental que isso teria. [E a propósito para os colegas académicos: este tema dá para fazer n papers, porque que eu saiba ninguém ainda publicou sobre esta realidade...].

Temos assim que a situação actual é a de um consumo de electricidade de aproximadamente 5700 +/- 2700 MW, 3000 MW no vazio da madrugada, 8500 MW na ponta (que já atingiu 9000, mas muito raramente). E que este consumo pode ser presentemente satisfeito, em média, com 16% de energia eólica ajudada pelas hidroeléctricas reversíveis, 22% de energia hídrica (o que soma 38% de energia renovável), 55% proveniente de termoeléctricas (carvão, sobretudo gás natural, mas também cogeração) e 7% de importação. Com as novas hidroeléctricas em construção, estas percentagens subirão para 41-42% de vento+água, permitindo reduzir as importações para 3.5%, se o consumo não aumentar. Isto em ano médio de chuva e vento, sendo que a produção de origem renovável varia muito de ano para ano.
E como crescerão os consumos?
Em Portugal têm crescido cerca de 1.5% acima do crescimento do PIB. Supondo inalteração do padrão de consumo e um difícil crescimento económico anual de 1% do PIB até 2020, temos que dentro de 10 anos o consumo terá crescido para 128% do actual. E depois disso talvez nos aproximemos da média de crescimento médio anual da UE, o que nos levará dentro de 20 anos a 150% do actual consumo.
É verdade que   os ecotópicos encarniçados argumentam que falta considerar o aumento de eficiência energética, a economia de consumos, o efeito das "smart grid" na redução de consumos e a micro-geração, etc, mas isso não acontecerá, a menos que se estabeleça uma ditadura política. Em Portugal passa-se um frio desgraçado nas casas e sobretudo nas escolas e nos centros comerciais e a iluminação é geralmente sofrível, de modo que não há margem para poupar nos consumos, como um dia destes desenvolverei com mais rigor. O mais que se pode admitir é alguma economia devida à substituição das lâmpadas incandescentes e dos frigoríficos, no máximo 5%; isto não são os EUA, que consomem per capita o dobro da média europeia e onde há, de facto, muito desperdício que a tecnologia poderá poupar sem dor!
E quanto à micro-geração estamos conversados.

Entretanto, existem 2 centrais termoeléctricas de combustível fóssil novas a entrar em funcionamento e que permitem garantir as necessidades urgentes dos próximos anos: de ciclo combinado, a gás natural. São de 860 MW (Lares, da EDP, acabada de inaugurar) e de 830 MW (Pego, da Siemens e da Endesa) e, como se lhes prevê uma utilização média a 53%, acrescentarão cerca de 900 MW em média ao mix nacional, satisfazendo 15% do consumo e eliminando a necessidade de importações por uns anos. Mas têm três problemas:
1) as centrais em si são baratas, mas o gás natural, que nos vem em pipelines da Argélia através da Espanha e também de barco da Nigéria, tem o seu preço indexado ao petróleo, pelo que a tendência é para subir, nos próximos anos;
2) as reservas mundiais de gás natural dão para mais alguns anos que as de petróleo, mas com o aumento explosivo do seu consumo que está a ocorrer por todo o lado, esses anos são umas décadas, quiçá 60 anos. E depois?
2) poluem. Menos que as a carvão, mas com elas as emissões de CO2 aumentarão, à medida que tiverem um uso crescente. Pelo que não resolvem o problema da redução de emissões e, pelo contrário, agravá-lo-ão.

Fazendo um balanço da situação, mesmo admitindo uma redução de 5% de consumos optimizáveis (basicamente nas lâmpadas incandescentes e electrodomésticos), dentro de 10 anos Portugal precisará no mínimo de +550 MW em média anual, e dentro de 20 anos de +1250 MW. No mínimo. E não falei ainda do carro eléctrico: se ele efectivamente começar a ser comercializado em série dentro de 10 anos, daqui a 20 teremos o grosso do parque automóvel substituído, o que, como já mostrei há meses, requerá +800 MW médios, pelo menos.
Entretanto, até 2020 a já velha Central a carvão de Sines será desclassificada e irá para a sucata, não sendo viável a disponibilidade até essa data (daqui a 7-10 anos) de soluções experimentadas com captura e sequestro do carbono, o que significará para a rede -950 MW médios anuais.
Ou seja e como ordem de grandeza, precisaremos de +1500 MW médios anuais dentro de 10 anos e, além destes, de + 2000 MW dentro de 20 anos.
Evidentemente, como deve ter ficado claro, isso não poderá ser satisfeito com energias renováveis, por não haver maneira de lidar com a sua intermitência para além dos valores de vento e água que já usamos. E o solar terá um problema similar ainda mais agravado - e nem estou a falar de questões económicas, mas apenas técnicas!

Do ponto de vista técnico, de que tipo de central precisaremos para o mix, de modo a se poder ter uma rede bem gerida e sem os problemas actuais?
Em 1º lugar uma central que substitua a de Sines, que é de base (funcionamento quase permanente), e em 2º lugar capacidade de satisfazer a ponta. E uma reserva que permita lidar com a variabilidade anual da chuva e do vento. Em qualquer dos casos produção termoeléctrica, a única que permite satisfazer a procura quando ela se manifesta.

A necessidade de +1500 MW médios a um prazo de 10 anos pode tecnicamente ser satisfeita com um grupo electroprodutor nuclear, e também o pode com centrais de ciclo combinado a gás natural.  Mas dez anos é pouco tempo para se preparar tudo o que é preciso para a defesa dos interesses nacionais nesta questão, como discutirei mais adiante. Antes, porém, vejamos a questão da competitividade económica do nuclear e dos efeitos económicos multiplicadores que pode ou não ter.
  • Condições para a competitividade económica da opção nuclear em Portugal
Num post de há meses efectuei um cálculo dos custos de produção do kWh oriundo de diversas fontes de energia, e de que recordo aqui alguns:
  • Solar fotovoltaico: 25 ç;
  • Eólica marítima: 11 ç;
  • Eólicas em terra: 8,65 ç (sem consideração do custo adicional de armazenagem hídrica);
  • Ciclo combinado actual: 6,8 ç;
  • Nuclear: 4,2 ç.
Como se pode ver, os custos do kWh nuclear e de gás natural são bastante diferentes, mas como são as únicas opções em alternativa, vale a pena tentar afinar este cálculo e ver o que os pode fazer variar.

As centrais de ciclo combinado a gás natural traduzem um grande progresso tecnológico ocorrido desde os anos 80, com um rendimento termodinâmico imbatível - da ordem dos 57%, contra os 35% usuais das centrais a vapor e que podem ir, no máximo, a 45%. Além disso são muito baratas, comparativamente, e de construção rápida (2 anos).
As duas centrais portuguesas recentes que referi ficaram por 475 €/kW no caso da da EDP, e 360 €/kW no caso da da Siemens/Endesa, que aproveita o recinto da central a carvão da Siemens já existente no Pego para poupar terrenos e outras infra-estruturas. Ou seja, e dadas as suas potências, terão custado 0,41 e 0,30 biliões de , respectivamente.
Com um tempo de vida estimado de 25 anos e uma utilização anual de 50%, os custos de investimento por kWh produzido são muito baixos e os lucros excelentes, e é isso que as torna tão interessantes aos investidores privados, o que merece a compreensão do actual Governo! Com efeito, quando foi anunciada pelo Governo a disponibilidade de licenças para a construção de centrais destas, candidataram-se nada menos de 8 consórcios!...
O grosso do custo do kWh produzido pelas centrais a gás não vem, de facto, do investimento. Vem do custo do gás natural.
Esse custo do kWh tem sido estudado, para as condições portuguesas, e assumindo uma taxa de juro de 8% para o investimento, a amortizar em 20 anos, com uma utilização média de 53% destas centrais como se tem verificado, têm-se as seguintes parcelas:
- custo de investimento: 0,93 - 1,23 ç/kWh (o menor é para centrais como a da Siemens);
- custo de Operação e Manutenção: 0,5 - 1,0 ç/kWh;
- multa pelo CO2 emitido: 0,7 ç/kWh (a 20 € /ton. de CO2);
- custo do gás natural: 3,57-3,88 ç/kWh (preços 2010, rendimentos de 55-58%).
Total: 5,7 - 6,8 ç/kWh (valor médio: 6.2 ç/kWh).

Como se pode ver, o custo do capital constitui uma parcela tão pequena do custo final desta energia que, se a taxa de juro extraída do investimento for de 15% em vez dos 8%, o custo final apenas aumenta 0,6-0,8 ç/kWh, o que explica o grande interesse despertado nos investidores privados pelo negócio - especialmente para os que já têm infra-estruturas.
A opção pelo gás natural, de que as centrais eléctricas já gastam mais de metade do consumido no país, é claramente mais barata que qualquer fonte renovável mesmo pagando a multa pelo CO2 emitido, mas pode-se-lhe apontar os seguintes óbices, além dos já mencionados (reservas mundiais limitadas, preço indexado ao petróleo e emissão de CO2):
- Na Europa o gás está a esgotar-se. É todo importado de países algo instáveis politicamente, e essas importações europeias prevê-se que dupliquem até 2020.
- A incorporação nacional de valor nestas centrais é praticamente nula.
Trata-se, portanto, de uma opção típica de visão de curto prazo. Para já não falar da completa traição aos ideais "green" com que se andaram a justificar os disparatados investimentos em eólicas...

Nas centrais nucleares, o investimento por kW instalado é muito mais caro!
Têm sido anunciados valores da ordem de 1000 e de 1500 €/kW instalado, mas os custos por que têm ficado, de facto, as nucleares de 3ª geração já instaladas no Ocidente são de 2000 a 2400 €/kW - e isto sem consideração dos juros a pagar ao capital investido. No entanto, quase metade deste custo é pela construção civil da dupla casamata estanque em que uma nuclear moderna é envolvida, e esse custo varia bastante com os países. E é de notar que a construção civil pode ser toda nacional...
Geralmente, também, a taxa de juro a pagar ao capital investido na construção varia muito com o compromisso político do Estado; pode ir de um ideal de 5%, para um investimento essencialmente público ou regulado, para até 12%, se feito por privados.
Para uma nuclear ao custo de construção de 2400 €, com uma taxa de juro de 8% (igual à considerada para as centrais de ciclo combinado), um prazo de construção ideal de 4 anos, uma margem de segurança de 15% no investimento e 40 anos de amortização do capital, com uma utilização média anual de 90% da capacidade da central, têm-se as seguintes parcelas de custo:
- custo de Operação e Manutenção: 1,2 ç/kWh;
- multa pelo CO2 emitido: --;

- custo do urânio: 0,55 ç/kWh (0,2 ç do urânio + 0,35 ç pelo seu enriquecimento);
- Processamento dos resíduos: 0,08 ç/kWh;
- poupança para o desmantelamento final: 0,1 ç/kWh (rende juros);
- custo de investimento: 3,57 ç/kWh;
Total: 5,5 ç/kWh.
Como é patente, este custo, que é dominado pelo custo do investimento, é apenas marginalmente inferior ao calculado para as centrais de ciclo combinado. Pode, porém, reduzir-se, e pode também aumentar consideravelmente se ocorrerem alguns factos.

Pode reduzir-se se, além da construção durar os referidos e prometidos 4 anos, se puder reduzir o custo de construção de base.
Assim, admitindo um custo de base optimizado de 2000 €/kWh e uma taxa de juro suportada por um forte compromisso público de 5%, o custo de investimento por kWh, e com ele o custo final, reduz-se em 1,65 ç/kWh, para apenas 3.85 ç/kWh. Não é infazível. A "ERSE francesa" diz que o custo do kWh nuclear da EDF é de 4,1 ç/kWh...
Pelo contrário, se a duração da obra resvalar, por exemplo, dos 4 anos prometidos para 8 (e entretanto os juros do investimento a acumularem...), com uma taxa de juro de 8% e se o construtor puder passar os custos para o cliente, o custo de capital aumenta em 1,3 ç/kWh, e com ele o custo final para o valor máximo actual da produção a gás natural, 6,8 ç/kWh!...
Em termos de incorporação nacional, além da contribuição para a construção civil inicial há a considerar o facto de uma central destas empregar tipicamente 300 a 400 pessoas, o que é uma das razões do seu maior custo de Operação, relativamente às de Ciclo Combinado.
É também relevante notar que Portugal tem jazigos de urânio, que foram explorados (para exportação), durante 50 anos, a partir de 1951. Desses jazigos já se exportaram cerca de 1/3, mas as reservas remanescentes, na Urgeiriça e especialmente em Niza, ainda dão para uma nuclear de 1500 MW trabalhar durante pelo menos 30 anos...

Porém, o que esta análise procurou mostrar é que a competitividade económica de uma nuclear face à alternativa a gás natural depende, essencialmente, da capacidade de negociar a aquisição de uma central e do crédito de construção a bom preço, de um bom planeamento das obras e de uma execução rigorosa das mesmas.
E isto requer que tenhamos uma estrutura nacional, apoiada pelo poder político, capaz de planear as coisas em detalhe, de elaborar o Caderno de Encargos, a escolha e negociação de propostas e a fiscalização das obras, com três características: competência técnica, mestria de gestão e incorruptível dedicação ao serviço público.
E aqui é que está o grande problema!...


  • O que é urgente
Desde a decisão de construção de uma central nuclear até ao início dessa construção, a experiência finlandesa, por exemplo, mostra que são precisos pelos menos 4 anos. E a construção em si também não demora menos de 4 anos.
Por outro lado, antes da decisão é preciso fundamentá-la e precisá-la. Isso requer estudos, a fazer por especialistas devidamente geridos, que nunca demoram menos de 2 anos ( tempo levado por uma empresa de consultoria americana, por exemplo, a quem a Tailândia encomendou esse estudo  - por 3,6 M€). Pelo que se a decisão de se avançar para tal empreendimento se tomasse agora, correndo tudo bem e a marcha acelerada, teríamos a nossa nuclear em 2020. Mesmo a tempo de substituir a central de Sines, e dando tempo a que os processos de construção no estrangeiro das primeiras centrais de 3ª geração ganhassem experiência e maturidade, isto é, entrassem em produção em série. Note-se que estou a falar de uma central de 1500 MW médios, portanto com um reactor de 1650 MW para trabalhar 90% do ano, e que custaria, sem juros e bem negociado (2000 €/MW), 3,3 biliões de !... [Não resisto à piada negra de recordar que, mesmo que se perdesse completamente este investimento, ele ainda seria só 80% do dinheiro já metido pela Caixa Geral de Depósitos no BPN!...]

Porém, há muitos outros factores a planear sistemicamente para que tal decisão se inserisse numa estratégia sustentável para as gerações vindouras, como por exemplo:
> Um acompanhamento de perto da evolução das opções tecnológicas no mercado, bem como de todas as experiências internacionais na matéria quanto a todos os aspectos do ciclo produtivo da energia nuclear.
> O levantamento de todos os aspectos onde se poderia maximizar a incorporação técnico-económica nacional. A Espanha, por exemplo, participa na preparação do urânio das suas centrais;
> A preparação de recursos humanos qualificados. Uma boa ideia seria começar por enviar alguns estudantes de élite para se doutorarem onde haja engenharia nuclear suportada em experiência industrial, e outra seria a FCT disponibilizar alguns fundos para I&D nacional aplicada nessas áreas, de modo a fixar alguns interessados no tema;
> O permanente diálogo com as populações e a opinião pública, e a total transparência dos processos e decisões, únicas atitudes que, como estudos feitos pelas próprias empresas do ramo mostram, inspiram às populações a confiança necessária à aceitação do nuclear.

Mas, além dos trabalhos de estudo e planeamento, será preciso que haja elevados padrões éticos e estabilidade nas estruturas que tomassem estas responsabilidades.
Na Finlândia, por exemplo, onde está em construção uma das primeiras centrais francesas de 3ª geração, os prazos de construção já derraparam 3 anos, mas o contrato que fora feito assaca ao construtor (neste caso a AREVA) os custos desses atrasos, portanto sem agravamento do preço final. Porém, os atrasos ocorreram por causa do rigor da fiscalização finlandesa, que não permite a aceitação de trabalhos menos que perfeitos em aspectos da obra que podem comprometer a sua segurança futura, e por isso a AREVA e as entidades finlandesas já estão em processos contenciosos. Na entidade que supervisiona estas coisas, na Finlândia, a Direcção tem 3 pessoas que têm de decidir tudo por maioria, assim se dificultando os "arranjos" pessoais.
Se for assim também cá, não haverá nada a recear.
O problema é que alguém acredita que num país onde o próprio Tribunal de Contas vai denunciando os contratos ruinosos feitos pelo Estado na construção das estradas ou do Terminal de Contentores do porto de Lisboa, e nada acontece, alguém acredita que as coisas correriam com a confiança que merecem na Finlândia?

Há mais de 50 anos o Estado pensou que a energia nuclear seria o futuro e decidiu preparar o país para isso. Criou para tal uma estrutura (directamente dependente do centro do poder, Salazar, na altura), a Junta de Energia Nuclear, e adquiriu até um reactor para estudo que ainda existe, em Sacavém.
Depois da queda do regime essa estrutura ainda hoje conserva umas centenas de pessoas, mas foi desarticulada, despojada de objectivos e responsabilidades, e hoje nem os resíduos radioactivos dos hospitais monitoriza!
É discutível, pois, se no presente Portugal tem categoria para vir a ter energia nuclear, ou se o futuro não será importá-la toda de Espanha, um futuro em que Portugal será apenas a província mais pobre desse país vizinho.
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Nota ao leitor: evidentemente, aceitam-se todos os comentários, dúvidas, esclarecimentos e críticas substantivas. Só vão para o "delete" os insultos, a retórica sem conteúdo e a auto-propaganda.

Domingo, Janeiro 10, 2010

Energia eólica e armazenagem hídrica: um problema de mera gestão diária, ou também de planeamento?

Ontem os jornais davam conta que a barragem do Alqueva, que é basicamente apenas um grande depósito de água, dado o seu fraco caudal, está cheia.
O Plano Hidroeléctrico de Elevado Potencial visa, como mostrei aqui, explorar a capacidade de armazenamento das 8 novas barragens a construir para escoarem a energia eólica excedentária, objectivo reforçado pelo "reforço de potência" de um largo número de barragens já existentes, e entre elas a do Alqueva.
A ideia de usar barragens para armazenar energia de origem eólica surgiu já há uns anos, mas só tem sido estudada em alguns meios académicos. Não há de facto ainda, em parte alguma do mundo, experiência do uso prático da armazenagem hidroeléctrica para regularizar a intermitência da energia eólica. Nisto, Portugal é pioneiro, ainda que a ideia leve o custo o kwh de origem eólica para valores absolutamente extravagantes, como já mostrei.
Naturalmente, é por causas desses custos exorbitantes que Portugal é pioneiro.
Acontece que, à falta de experiência, os estudos publicados têm-se todos centrado no problema da gestão diária instantânea ("despacho") ou diária do binómio eólicas-barragens. O próprio Plano Hidroeléctrico, usando simulações da REN, baseia-se numa estimativa da potência eólica excedentária que pode ocorrer a certas horas do dia, e na necessidade de a conseguir armazenar toda de umas horas para outras.
Por conseguinte, o Plano estimou a potência (a quantidade de energia por segundo) que as barragens terão de ser capazes de bombar, para corresponder ao excesso de eólicas, e daí todos esses "reforços de potência" em curso.
Ora estes estudos baseiam-se sempre na ideia de que há capacidade de armazenamento nas barragens, o que geralmente é verdade, em média anual. Mas e se chover intensamente durante uns meses, e ao mesmo tempo fizer vento, como é frequente por cá no Inverno e está a acontecer agora?
Poderemos ter então uma situação em que as barragens não possam bombar mais  àgua para escoar a energia eólica, porque estão cheias e têm é de, em muitos casos, despejar a àgua proveniente da chuva, e não meter lá mais. E isto não se resolve com "reforços de potência" das barragens, num país pequeno como o nosso em que quando chove muito chove em todo o lado, e o mesmo acontece ao mesmo tempo com o vento, como agora.

Quinta-feira, Janeiro 07, 2010

Uma central nuclear em Portugal? Iniciemos a discussão! I - Prolegómeno.

Desde há alguns anos, várias vozes entre nós têm timidamente pedido que a opção nuclear deixe de ser tabu em Portugal e seja, ao menos, posta à discussão.
A resposta do establishment que nos Governa e a do pensamento único destilado pelos media acéfalos ou arregimentados tem sido a do soberano silêncio.
Nos Partidos, à direita parece que se perdeu qualquer capacidade de pensamento sobre economia real, tecnologia e inovação, quando não se verifica o simples eco do pensamento único do establishment e até, frequentemente, uma competição pelo troféu da ruína nacional!
O PCP, que em tempos teve quadros que sabiam pensar nestas coisas, passou a fazer sua a ideologia pós-moderna dos "verdes" e a falar da opção nuclear como a de uns insaciáveis capitalistas cuja sede de lucro é radioactiva, esquecendo que os países europeus em que a electricidade é de longe mais barata são os de Leste onde o nuclear herdado da era comunista é a principal fonte de energia eléctrica (com excepção da Polónia, que privilegiou o carvão), e esquecendo a sede de lucro dos lobbies pró-renováveis como se estes fossem cândidos idealistas.
Quanto ao BE, no que respeita à política energética, e às económica e tecnológica que lhe estão associadas, ele é simplesmente a ala esquerda do establishment.
Por outro lado, sem dúvida que há interesses nesta matéria.
Há evidentemente os interesses dos lobbies das renováveis e das mega-construtoras civis, bem como dos seus caixeiros-viajantes políticos, que são contra, mesmo que a satisfação dos seus interesses arruíne o país, como tenho mostrado neste blog. E nestes interessados incluem-se, sempre que lhes é $oportuno$, políticos que até são de direita...
E há também, não sejamos ingénuos, vendedores de nucleares a quem motiva muito uma pequena comissão que seja sobre os alguns biliões de € que custa uma central nuclear. Há uns 15 anos, quando eu colaborava com uma empresa portuguesa num projecto de desenvolvimento tecnológico, um Administrador que sabia como estas coisas funcionam, notou-me: "em matéria de luvas, o valor de uma central nuclear até dá para comprar um Presidente da República".  Não esqueci a nota e convém que todos a tenhamos presente.
Penso ser tempo, entretanto, de iniciar uma discussão pública deste assunto num dos raros espaços que o Pensamento Único ainda não controla: a www!
Nesta primeira parte, reverei sucintamente em abstracto factos essenciais e os prós e os contras da opção nuclear, tal como hoje em dia as coisas se colocam, tecnológica e economicamente.
Na segunda parte, e que é a que realmente nos interessa, iniciarei a discussão do enquadramento português de uma opção nuclear e da necessidade urgente de algumas medidas absolutamente essenciais para Portugal.

  • O papel da energia nuclear na produção mundial de electricidade
15% da electricidade mundial é produzida a partir de energia nuclear. Na Europa dos 27, a energia nuclear produz 25% da electricidade, valor que chega aos 80% em França. A percentagem de electricidade de origem nuclear é de 45% na Coreia, 35% no Japão e 20% nos EUA. Existem em funcionamento no mundo 435 reactores em 30 países.
A Espanha tem 8 reactores nucleares somando 7.5 GW (já teve 10) que produzem 20% da sua electricidade e que permite a exportação para Portugal ao preço típico de 3 ç/kWh, geralmente de madrugada, energia que é armazenada nas nossas barragens reversíveis e usada depois nas horas de ponta (com perdas de 1/4 da energia neste processo). Essa origem nuclear da electricidade que consumimos é verificável na factura da EDP que recebemos.
China, entretanto, tem apenas 11 reactores a funcionar, mas em construção no ano corrente de 2010 tem mais 18 e projectados tem já um total de mais... 125!!! Destes, 90 foram encomendados só à GE americana, mais de 30 à AREVA francesa (certamente prejudicada pela "cooperação nuclear americano-chinesa" que o Presidente Obama foi pessoalmente vender à China, disputando um mercado imediato de 1 trilião de dólares), e a China espera ter 16% da sua electricidade de origem nuclear em 2030, somando uma potência instalada de... 250 GW!!!...
A Índia tem "apenas" 17 centrais nucleares e mais 6 em construção, mas tem projectados até 2030 mais 38 e, embora comparada com a China pareça ter ambições modestas, está envolvida num ambicioso plano de I&D visando usar Tórium em vez de Urânio como combustível, dado ser rica naquele mineral e pobre neste. Esta I&D reflecte uma busca de independência muito resultante do embargo que sofreu no passado em fornecimento de materiais para a energia nuclear, por não ter assinado o Tratado de Não-Proliferação nuclear (embargo recentemente contornado por um Acordo com os EUA).
A Coreia, de que já há tempos falei, tem 20 reactores em operação, 6 em construção e mais 6 projectados, e o Japão tem 53 em funcionamento e 2 em construção, mas recentemente o mesmo tipo de ideologia "green" que afecta o Ocidente começou a ganhar terreno no país e o projecto de novas centrais abrandou, estando agora planeados "apenas" mais 14...
Entretanto, a Rússia e a Ucrânia têm em conjunto 46 reactores em funcionamento, 9 em construção e... 64 planeados ou propostos! Com um plano de crescimento ainda mais impressionante, em termos relativos, a África do Sul, que tem presentemente apenas 2 reactores a funcionarem, já planeou mais 3 e propõe-se ter mais... 24!
O Brasil, entretanto, tem 2 reactores em funcionamento, um a ficar pronto em 2010, e mais 7 projectados até 2025. O Brasil projecta também a construção de um submarino nuclear seu, e o facto de também não ser signatário do Tratado de não-proliferação nuclear revela a sua ambição de vir a ser uma potência nuclear. A propósito, além destes actuais 435 reactores em centrais eléctricas há mais 220 em submarinos e navios de superfície movidos a energia nuclear, que é também a fonte energética da maioria das sondas espaciais e dos satélites militares...
No total, a somar aos 435 reactores operacionais no mundo (dos quais 165 na Europa excluindo a Rússia), há mais 490 em construção (53), planeados ou propostos, metade dos quais na Ásia. Mas a própria Turquia tem 2 reactores planeados e mais 1 proposto, e até o Vietnam tem 2 planeados e 8 propostos...


Como se pode desde já perceber, a energia nuclear não está morta. Pelo contrário, até 2025 a energia de origem nuclear, com os planos actuais e que poderão vir a ter grande incremento proximamente, crescerá 130%. Sofre, porém, de um estigma ideológico no Ocidente e sobretudo na Europa Ocidental não-francesa que distorce a noção que por cá se tem do assunto, tornando-o um tabu.

De facto, alguns países europeus decidiram ocasionalmente banir a energia nuclear do seu território. Na esteira do alarme mundial gerado pelo acidente de Three Miles Island nos EUA em 1979, a Suécia (um país com a população de Portugal), num referendo em 1980, decidiu banir a energia nuclear do seu território, mas de facto nunca chegou a fechar 10 das 12 centrais nucleares que na altura tinha e, face à evolução da opinião pública desde então, prepara-se para reconsiderar esse banimento. Em 1986 o novo e gravíssimo acidente de Chernobyl na URSS levou a Itália, também com um referendo, a fechar as 4 centrais nucleares que tinha, tornando o país no maior importador mundial de energia eléctrica (de origem francesa, nuclear), mas recentemente e com Berlusconi assinou um acordo com a França para o regresso ao nuclear, prevendo agora a construção de 10 novas centrais. E, também nos EUA, estes acidentes levaram à paragem da construção de novas centrais nucleares desde meados dos anos 80. Esta "crise do nuclear" levou à falência gigantes construtores como a AEG alemã e a Westinghouse americana...
Se esta "crise do nuclear" teve boas razões de ser, convém distingui-la das posições mais recentes e de motivação estritamente ideológica da Espanha, que definira também em 1983 uma moratória e que, em 2006, Zapatero reafirmou, prevendo-se o encerramento da última central dentro de 25 anos, contra a tendência que se verifica na generalidade dos outros países onde haviam ocorrido "travões" semelhantes e que estão agora a reconsiderar; da Bélgica, cujo Governo aprovou em 2003 o fim da instalação de novas nucleares (a Bélgica, que tem a nossa população, tem 7 centrais nucleares que produzem mais de metade da sua energia), e da Alemanha, que no Governo Schroeder de coligação com os "verdes", em 2001, decidiu também o banimento do nuclear e o fecho das suas 17 centrais quando atingirem o fim de vida.
Convém no entanto notar que a Alemanha e a Espanha são, conjuntamente com a pequena Dinamarca que nunca teve nucleares (e só metade da nossa população), os principais fabricantes mundiais de equipamentos de energia renovável, particularmente de eólicas e solares. Ou eram, até à recente emergência da China e da Índia...

É importante sublinhar que o abandono da construção de novas centrais nucleares um pouco por todo o Ocidente no último quarto de século levou à perda do know-how existente nos respectivos técnicos que, entretanto e na sua maioria, se reformaram, perdendo-se com isso a sua experiência.
No entanto, no âmbito da reorganização mundial da produção de equipamentos de energia em curso, as recentes movimentações comerciais permitem pensar que pelo menos os EUA e a França se centrarão na tecnologia nuclear como base de exportações, dados os enormes recursos que ela exige e o avanço que levam na sua indústria. A dependência da China dos fornecimentos americanos e franceses é disso sinal, assim como os acordos norte-americanos, tanto com a China como com a Índia. Aliás, recentemente (2006), formaram-se 3 consórcios internacionais estratégicos dos países mais avançados industrialmente para o futuro nuclear: um franco-japonês (Areva com Mitsubishi) e dois americano-japoneses (GE com Hitachi e Toshiba com Westinghouse). E, se esta minha conjectura estiver correcta, em 2010 os EUA definirão a energia nuclear como a base do programa americano de "descarbonização" energética, deixando as incertas, voláteis, menos rentáveis e mais acessíveis tecnologias de energias renováveis para segundo plano e para os países com menor capacidade tecnológica e industrial.
Quanto à França, há muito que já fez essa opção (como os acordos com a China e a Itália mostram, assim como as vendas à Finlândia), apesar do imenso ruído ecotópico com que isso nos tem sido obnibulado. Porém, a estratégia francesa baseava-se numa aliança da AREVA com a alemã Siemens (para a parte não nuclear), e esta abandonou recentemente a aliança, aparentemente por pressão da "ecológica" E.On alemã, não sendo claro se o recente consórcio  com a Mitsubishi compensa essa ruptura.

  • Alguns factos técnicos sobre centrais nucleares
Uma central nuclear é uma central termoeléctrica que, como as a carvão e parte das de ciclo combinado, usa vapor de água sob pressão para accionar turbinas que movem geradores eléctricos. O que a distingue das outras é a fonte do calor que produz esse vapor.
Este calor provém da cisão dos átomos de Urânio 235, um isótopo deste mineral facilmente cindível mas que constitui apenas 0,71% da mistura natural em que o grosso (os outros 99.3%) é de Urânio 238. O átomo de U238, muito mais estável que o do U235, se atingido por um neutrão rápido transmuta-se em Plutónio 239, que também é facilmente cindível, como o U235.
O átomo de U235 cinde-se facilmente quanto atingido por um neutrão lento (ou "térmico"), libertando energia e mais neutrões que vão provocar a cisão de outros átomos de U235, numa reacção em cadeia. O que permite controlar esta reacção, e com ela a energia produzida, é a redução da velocidade dos neutrões libertados na cisão do U235 pela interacção com átomos leves circundantes, nomeadamente os de hidrogénio existentes na água circulante nos núcleos dos reactores. Esta desaceleração dos neutrões pela água aquece esta, e assim se produz o vapor que depois acciona as turbinas - directamente, nas centrais de 1ª geração ou de "água fervente" dos anos 50-60, ou indirectamente, nas de 2ª geração ou "pressurizadas" dos anos 70-80, e que são a maioria das em funcionamento.
O processo descrito, com água natural (ou "leve"), não é único, mas é o que se usa na maioria das centrais nucleares, e por isso cingir-me-ei a ele. Esta água é mantida a alta pressão para lhe subir a temperatura de ebulição e, com isso, o rendimento do processo termodinâmico associado, que é da ordem de 1/3 como em qualquer central térmica a vapor (para produzir 1500 MW de electricidade numa central termoeléctrica, é preciso gerar 4500 MW de calor).
Uma percentagem tão baixa como 0,7% de U235 no urânio natural não permite a sua utilização, e por isso este é sujeito a um difícil processo de separação parcial do U238 ou de "enriquecimento" (da porção de U235 na mistura), em centrifugadoras, o que aumenta a percentagem de U235 para tipicamente 3.6 a 3.8%. Este "enriquecimento" é um processo difícil porque as propriedades químicas dos dois isótopos são praticamente idênticas e as suas massas específicas muito próximas, convindo notar que um enriquecimento de 3.6% é insuficiente para fazer bombas, que geralmente contêm mais de 85% de U235 e nunca menos de 20%.
O controlo da potência gerada faz-se pelo controlo da "moderação" dos neutrões libertados, seja pela água já referida, que não permite grande flexibilidade, seja por moderadores adicionais como a grafite.
A ciência em que se baseia o processo de produção da energia nuclear é a única que é verdadeiramente moderna, pois nasceu toda já no sec. XX. Foi, de facto, só em 1939, que Lise Meitner, acabada de fugir ao nazismo, de Berlim, fez a dedução teórica que explicou onde se tinha metido a massa de cerca de 1/5 de protão que faltava aos elementos em que se havia cindido o Urânio - tinha-se convertido directamente em energia, de acordo com a fórmula descoberta anos antes por outro Físico judeu alemão: E= mc2!...
Esta conversão directa da massa em energia permite que, para alimentar por um ano uma única central nuclear de 1500 MW (capaz de produzir sozinha 1/4 do consumo português de electricidade, tanto como todas as eólicas e hidroeléctricas juntas actualmente no país), bastem 38 toneladas de Urânio enriquecido, com um volume de menos de 2 m3 (a massa específica do urânio é 2,4 vezes a do ferro). Destas 38 ton., apenas cerca de 1,4 ton. são de U235, e deste apenas 1,6 Kg se convertem em energia pura, para esse ano de funcionamento dessa central-exemplo...
Durante o processo de cisão atómica, alguns neutrões atingem energias suficientes para transmutar o U238 em Plutónio, que é também facilmente cindível, como já notei, de modo que no fim do ciclo de vida da carga de urânio usada como combustível já cerca de metade da energia vem da cisão desse Plutónio.

Uma vez consumido o U235 (nem todo - o consumo processa-se até que a sua percentagem na mistura se reduza mais ou menos à natural de 0.7%), restam os resíduos. E estes resíduos são radioactivos e, portanto, um problema.
Das referidas 38 ton. de mistura enriquecida necessárias para alimentar por um ano uma central de 1500 MW resultam, em particular, umas centenas de Kg de Plutónio, que é o ingrediente preferido das armas nucleares, mas não este das centrais, que tem demasiados isótopos impróprios para essa aplicação.
No entanto, após a referida "queima", apenas 5% do Urânio inicial foi efectivamente usado, e apenas esses 5% (2 ton., no exemplo em menção) constituem as "cinzas" altamente radioactivas. Os outros 95% são basicamente Urânio natural moderadamente radioactivo e que pode ser guardado em instalações sem especiais medidas de segurança.
As referidas "cinzas" (5%) são uma mistura de elementos leves altamente radioactivos e solúveis em água (e portanto altamente perigosos), como o Césio e o Estrôncio, e de elementos pesados, essencialmente isótopos de Plutónio.
O Césio e o Estrôncio têm meias-vidas radioactivas relativamente curtas, de modo que em cerca de 300 anos a sua radioactividade decai para 0.1% da inicial e deixam de constituir perigo. O Plutónio é que, apesar de constituir apenas 1% do total das "cinzas" (cerca de 350 Kg por ano na tal central-exemplo, uns 19 litros), tem uma radioactividade que dura mais de dez mil anos!
Evidentemente que esta natureza diferenciada dos resíduos radioactivos recomenda um tratamento separador similar ao que se aplica ao próprio "combustível" ao enriquecê-lo:  das referidas 38 toneladas de Urânio usadas por ano na central-exemplo referida, a separação dos diversos componentes das "cinzas" reduz a 350 Kg o terrível Plutónio e a cerca de 1600 Kg as perigosas "cinzas" leves - por ano. Uma massa de "cinzas" que cabe numa carrinha de carga, só para termos a noção do volume de que estamos a falar...
Mas, evidentemente, o problema do destino destes resíduos e o da segurança da própria central são questões essenciais que importa analisar.

Depois das já referidas 1ª e 2ª gerações de centrais nucleares (a primeira do Mundo foi instalada, em Inglaterra, há já 56 anos), os requisitos de segurança e os fundados receios das populações levaram os construtores a evoluir para a 3ª geração desde os anos 90, que se distingue das anteriores sobretudo pelas inovadoras soluções de segurança (a primeira foi construída pelo Japão em 1996). Digamos que esta 3ª geração, a actual, está para as centrais dos anos 70 que sofreram os acidentes de Three Miles Island e Chernobyl como os modernos automóveis dotados de cintos de segurança com pré-tensores, airbags, travagem com ABS, controlo de estabilidade e habitáculo indeformável estão para os carros dos anos 60 e 70 que não tinham nada disso (e em cujos acidentes a taxa de mortalidade era uma ordem de grandeza superior à dos actuais).
Além da muito maior segurança, estas centrais têm uma maior longevidade, rendimento e normalização construtiva, e uma característica nova de enorme valor para a gestão das redes eléctricas: a capacidade de seguirem o consumo (ou carga). De facto, as centrais de 1ª e 2ª geração eram inflexíveis e operavam tipicamente a potência constante, e por isso só podiam constituir uma parte reduzida do mix de centrais eléctricas de uma rede bem concebida, enquanto estas são capazes de operar a 25% e de aumentar a potência gerada desse valor para plena carga em apenas meia hora. Por outro lado, a normalização construtiva tem suportado a alegação de que os prazos de construção são reduzidos a 3 anos e que o custo final ficará muito abaixo dos das gerações anteriores, garantindo assim um custo de produção ao kWh absolutamente imbatível.

Entretanto, e para se ter uma ideia das medidas construtivas de precaução destas centrais, cita-se relativamente às da AREVA (denominadas EPR, de que a figura ao lado exemplifica a em construção na Finlândia):
"O edifício de contenção do reactor tem duas paredes: uma interior, de cimento pré-esforçado e forrada por dentro com um revestimento metálico, e um escudo exterior de cimento reforçado, com 1,3 m de espessura. O escudo exterior abrange o edifício do reactor, o do combustível já usado e dois dos quatro edifícios de segurança (os outros dois edifícios de segurança estão num local diferente). Este escudo é capaz de suportar o impacto de um grande avião, e a parede interior alberga o sistema de refrigeração do reactor, dentro de cujo confinamento há uma área onde qualquer parte do núcleo derretido que escape do invólucro do reactor durante uma eventual fusão do núcleo será recolhida, retida e arrefecida.

O sistema de segurança consiste em quatro grandes sub-sistemas ou "trens". Cada trem é capaz de executar todas as funções de segurança de forma independente. Há um trem em cada um dos quatro edifícios de segurança, separados uns dos outros pelo edifício do reactor para impedir a falha simultânea em modo comum dos trens.
A sala de controlo está num dos edifícios de segurança, protegida pelo escudo exterior. Esta sala de controlo informatizada permite aos operadores o controlo completo de todos os parâmetros importantes para o funcionamento da central."

A principal concorrente americana da ERP francesa, a AP1000 da Westinghouse e da Toshiba, em vez de redundância quádrupla dos sistemas de controlo optou por sistemas de segurança "passiva", em que o reactor se desactiva por si mesmo em caso de falha.

A ênfase na contenção do núcleo resulta de em ambos os acidentes ocorridos no passado, nos EUA e na URSS, se ter verificado que o reactor derreteu devido a fugas incontroladas da água de moderação dos neutrões (em Three Miles Island) ou à incapacidade de fazer circular a água de arrefecimento num teste de rotina cheio de falhas humanas (em Chernobyl) e à consequente subida da temperatura da reacção até à destruição do reactor. Com esta destruição verificou-se a libertação do combustível para fora do perímetro das centrais, com as consequentes fugas radioactivas para a atmosfera. Este tipo de acidente, na verdade o mais temível numa central nuclear, coincidiu com um filme que muito contribuiu para a impopularidade das centrais nucleares, "O síndrome da China", de 1979, que associou ao funesto evento de Three Miles Island o romance de uma grande conspiração do lobby nuclear para esconder os perigos de tal forma de energia.
No entanto, em Three Miles Island não há confirmações de qualquer morte directa ou indirecta, enquanto no muito mais grave acidente soviético de Chernobyl, 9 anos depois, foram libertados para a atmosfera 4 vezes mais vapores radioactivos que em Hiroshima, e houve de facto quase 50 trabalhadores mortos e um número estimado de 4 mil mortes indirectas por cancro, posteriormente. Chernobyl não dispunha de nenhum edifício de contenção do núcleo, ao contrário do que já tinham as centrais do Ocidente.
É a garantia de que tal coisa jamais voltará a acontecer que os reforçados sistemas de segurança das centrais de 3ª geração visam. [Nota: tudo tem os seus perigos, no entanto: o rebentamento da barragem de Banqiao na China, em 1975, na sequência de uma chuva impensávelmente torrencial provocada pelo tufão Nina, matou 170 mil pessoas, e o da de Vajont na Itália, em 1963, matou 2 mil...]

O problema do destino dos resíduos, entretanto, é mais delicado. Presentemente estes são guardados, na grande maioria das centrais, nas... próprias centrais. Similarmente ao que sucede com as cinzas de carvão das centrais respectivas. Mas, enquanto nestas as cinzas criam verdadeiras montanhas negras, aparte as quantidades que são vendidas para fazer alcatrão, cimento e outras aplicações, as poucas dezenas de toneladas anuais de uma nuclear podem ser reduzidas a apenas 5%, como mostrei, se os referidos resíduos forem processados. E é isso que é feito na Europa e no Japão (nos EUA toda a "cinza" é considerada lixo), mas primeiro as "cinzas" têm de ser arrefecidas em piscinas adequadas, já que a reacção nuclear prossegue ainda por uns tempos após a extracção do reactor, mantendo essas "cinzas" quentes. Esse tempo de arrefecimento das "cinzas" é, tipicamente, de... 3 a 5 anos. Na figura ao lado mostra-se uma destas piscinas, em que a água absorve os neutrões e simultaneamente arrefece as "cinzas".

Na Europa existem duas grandes "fábricas" de processamento das "cinzas": em La Hague na França, e em Sellafield no  Reino Unido. Para se "compactar" o lixo reduzindo-o aos 5% perigosos, tem de se mandá-lo para lá, de onde esses 5% são eventualmente devolvidos, vitrificados e blindados, para armazenamento (para sempre...) na própria central produtora - ou, em alternativa, enterrado em zonas geologicamente estáveis. Ao lado, a afigura mostra dois cilindros com cerca de 1,5 m de altura contendo as "cinzas" radioactivas, vitrificadas e blindadas resultantes do processamento dos resíduos de um ano de uma central nuclear de 1500 MW.


Embora de facto ainda raramente aplicada, a ideia de enterrar estes resíduos em locais muito estáveis geologicamente tem vindo a ser preparada para as montanhas do Yucca, no Estado de Nevada, e está em fase muito adiantada na Finlândia, que após estudos exaustivos identificou um local onde tem vindo a escavar um jazigo apropriado (na figura ao lado, a entrada para o túnel em espiral com 500 m de profundidade para armazenamento milenar dos resíduos mais radioactivos finlandeses). Vale a pena notar que a Finlândia tem metade da população de Portugal mas o triplo do consumo de electricidade per capita, com 4 reactores nucleares e um 5º em construção (da AREVA).
  • Duas questões essenciais para a viabilidade económica de uma nuclear
Como já aludi noutro post há uns tempos, o custo do kWh produzido por uma central nuclear de 3ª geração bem construída e bem explorada, isto é, com raras paragens para manutenção de algum tipo, pode variar de 4,0 a 4,7 ç/kWh, constituindo o limite inferior, se efectivamente verificado, um custo imbatível por qualquer outra forma de produção de energia, e o limite superior só batido por boas centrais a carvão (que não é o caso da nossa velha e pouco eficiente central de Sines). Porém, se as competidoras centrais a carvão tiverem de pagar uma taxa de carbono, como os ecologistas pretendem e - sem surpresa - os fabricantes de nucleares como a França, o kWh nuclear ainda será o mais barato desde que não ultrapasse os 5,8 ç/kWh, e isso só quando houver centrais a carvão com captura e sequestro do carbono, porque até lá, e por pelo menos uma década, a única competição "descarbonizada" é das renováveis!...
É por esta razão e pelas considerações geoeconómicas que expus atrás que aposto que os EUA vão assentar a sua estratégia de "descarbonização" na energia nuclear, ainda que fazendo muitas juras de adesão às renováveis (para que aliás têm excelente vento) e que, por causa disso, pelo fim de 2010 talvez a opção nuclear entre então em discussão aberta em Portugal.

Do custo do kwh nuclear, entretanto, a maior parte (2,3 a 3,0 ç/kWh) advém dos custos de construção (estou a usar estimativas recentes de instituições credíveis, e não algumas que apregoam valores irrealistas inferiores a 2 ç) e, como esse é um elevadíssimo investimento que tem de ser feito logo no início, é crucial analisar com cuidado como pode ele variar. Até porque uma das mais frequentes e importantes críticas à alegada barateza do nuclear é que os seus custos de construção nunca ficam pelo preço inicialmente previsto...
Para começar, convém notar que nas centrais de 3ª geração há duas evoluções técnicas com consequências contraditórias relativamente às antigas: por um lado, os seus sistemas de segurança são muito mais reforçados, o que as encarece; mas por outro lado, o seu projecto optimiza o uso de componentes normalizados e uma estrutura simplificada, o que as embaratece. Aliás, é reconhecido que o projecto das centrais antigas era, na sua maioria, uma adaptação do projecto de reactores militares da marinha, não pensado de raiz para esta aplicação civil...
Entretanto, o investimento inicial tem de ser financiado, e só começa a ser recuperado quando a central começa a trabalhar. Por conseguinte, um factor essencial do custo de construção é o tempo que a central leva desde que o seu investimento é feito até que começa a operar, o tempo de construção, tempo esse associado à taxa de juro a pagar pelo investimento, que é outro factor essencial.
Conforme o investimento seja coberto directa ou indirectamente pelo Estado ou por privados, assim as taxas de juro a considerar variam tipicamente entre 5% e 12% (o Estado tem meios de cobrir os riscos, transferindo os custos de quaisquer percalços para os contribuintes). Parcerias público-privadas têm trazido estas taxas para 8%, nalguns casos.
Nos anos 80 muitas centrais ficaram com custos de construção 10 vezes  acima dos inicialmente orçamentados e das dos anos 70, por os trabalhos se terem estendido muito além do previsto. As razões foram quase sempre desacordos quanto às regras de segurança e outras a cumprir, que se tornaram muito mais apertadas depois do acidente de Three Miles Island em 1979, e ao facto de cada central ser feita por medida. Este é um aspecto em que a França conseguiu um indiscutível sucesso que o resto do mundo tem procurado copiar, e a definição de normas claras de segurança com certificação prévia dos projectos tem ajudado. Ao importantíssimo assunto das normas de segurança e da sua fiscalização voltarei na parte II desta publicação.

Presentemente, o tempo de construção de uma central nuclear é prometido para cerca de 4 anos, contra os 12 que muitas vezes demoraram nos anos 80. Se uma central fosse construída instantaneamente, o seu custo seria o da engenharia, contratações e construção, mais uma taxa de contingência, que no caso das nucleares varia usualmente entre os 15% e os 25%. Esse custo é conhecido por "custo overnight" . O investimento numa central é a soma deste custo com os encargos associados ao tempo, a amortizar, numa nuclear, tipicamente em 40 anos.
Considerando estes encargos extra, a Administração da Informação Energética dos EUA (EIA) estima, no pior caso de taxa de juro de 12%, de 3.5 a 5.6 ç/kWh o custo só de capital de uma nuclear, sendo o valor inferior o obtido para uma central construída no tempo ideal actualmente previsto para a nova 3ª geração, e o superior o valor de referência. A este custo há que adicionar 0.55 ç/kWh do combustível, e mais 0.55 ç/kWh para a Operação e Manutenção (que sobem para 0.75 ç/kWh nos casos de referência). Ou seja, um custo final de 4.6 a 6.9 ç/kWh, em que não é claro o custo atribuído ao processamento (separação) dos resíduos (que os EUA não praticam e que na Europa se pode estimar em 0.5 ç/kWh, como ordem de grandeza) e o de desmantelamento final (que, no entanto, em França tem um peso mínimo no custo final, até por a central poder vir a "viver" 100 em vez de 60 anos).
Valores praticamente idênticos foram obtidos pelo MIT, num famoso estudo independente, dependendo a obtenção do custo mínimo de: a) o custo "overnight" ser de 1500 €/kW em vez de 2000 €/kW (em 2008 a DOE americana anuniciava a previsão do valor de 2280, em resultado da subida de custo de todas as matérias-primas e outros); b) o custo de construção ser de 5 em vez de 4 anos; c) as taxas de juro conseguidas serem iguais às praticadas para as centrais a gás e a carvão.
Como se pode concluir, o custo de produção de energia por uma central nuclear pode efectivamente ser imbatível, mas apenas se todo o processo de construção for optimizado (se tudo correr bem, em suma). E esse ponto é um ponto-chave a reter para a discussão das condições de construção de uma central nuclear em Portugal, a abordar na II parte.

A segunda questão essencial para a viabilização económica de uma central nuclear é a da garantia de que o preço do Urânio se manterá pouco alterado nos 60 anos previstos de vida para a central. Note-se que o custo do combustível tem um peso mínimo, e dos 0.55 ç/kWh atrás indicados para o custo do urânio, só 0.2 ç/kWh são para o minério; o restante é para o seu enriquecimento. As reservas mundiais de urânio actualmente estimadas e rentavelmente extraíveis dão para 250 anos ao ritmo de consumo actual; com as 490 centrais de construção prevista para os próximos 15-20 anos, porém, esse consumo será multiplicado por 2.3, e não é difícil imaginar que novos países venham a apostar no nuclear, por exemplo duplicando este valor. E, sendo assim, com as presentes técnicas de extracção do urânio, este poderá dar mesmo só para os 60 anos de vida de uma central a começar a operar dentro de 10 anos, embora, como sempre tem acontecido com todos os minerais e muito em particular com o petróleo e o gás natural, se de facto a sua procura se intensificar é quase certo que o engenho inventará novos processos de extracção rentável.

  • A para-daqui-a-20-anos 4ª geração de centrais nucleares
Tecnologicamente, os princípios da 4ª geração de centrais nucleares que está neste momento em projecto, numa cooperação internacional que envolve a maioria dos países altamente desenvolvidos, são aliciantes. No entanto, como a sua passagem à comercialização só se prevê lá para 2030, não é na verdade tema de relevância política, e de momento só o menciono para que todos metam na cabeça que o nuclear está ainda na sua infância e que ele é o futuro energético, a menos que a Humanidade regrida a alguma nova Idade Média.
Basicamente, o que distingue os reactores de 4ª geração é o serem "reprodutores". Isto é, reproduzem o combustível. E porquê?
Porque não usam o (raro) Urânio 235, mas sim o pelo menos 100 vezes mais abundante U238, permitindo aliás a reutilização de todo aquele que tem sido separado do U235 no processo de enriquecimento deste! E fá-lo porque cinde directamente o U238, produzindo Plutónio, e é este que é "queimado" na reacção.
Obviamente, e pelo que foi dito mais atrás, para cindir o U238 são precisos neutrões rápidos, e não lentos como nas centrais existentes até agora. E, portanto, nestes reactores não se usa água para a troca de calor, precisamente porque a água é o elemento essencial de moderação dos neutrões - usam-se metais líquidos, ou sódio líquido, e é aí que começam os principais problemas técnicos.
No entanto, além do uso do (praticamente) ilimitado urânio natural, estas centrais também resolvem o problema maior dos resíduos, visto "consumirem" o próprio venenoso Plutónio como combustível. Aliás, o cenário visualizado para estas centrais é o de serem carregadas mensalmente com qualquer coisa como apenas uma lata de leite de urânio natural e assim funcionarem para sempre, com pouca necessidade de limpeza dos resíduos...
Apesar de presentemente o uso comercial da 4ª geração, que nos trará energia "descarbonizada" sem limites de combustível (praticamente), estar longe da comercialização, já existiram em fase experimental várias centrais destas, no Japão e em França, sendo a mais conhecida a Fénix francesa. E há mesmo uma em funcionamento comercial no interior da Rússia.

O apagão do Oeste e a necessidade de micro-redes

Há dias, na TV, quando do "apagão" da região Oeste em que numerosos agricultores ficaram sem energia - assim como o pensador Pacheco Pereira, que disso se queixou na Quadratura do Círculo - houve vozes, quer da EDP quer nos jornais, que afirmaram que isto era assim porque os consumidores ainda não tinham auto-produção, como os ecotópicos apregoam que acontecerá nos amanhãs que cantarão.
Ou seja, no futuro haverá micro-redes autónomas "auto-cicatrizantes" que permitirão a um agricultor ou a um pensador isolado ficar desligado da grande rede eléctrica e continuar a ter energia.
Quero anunciar-vos a boa nova de que esse futuro já chegou, e há muitos anos.
Basta comprar e instalar grupos electrogéneos...
Em África é como toda a gente que se preza faz, como quem visitar os bairros chiques do Sul de Luanda poderá verificar.

Quarta-feira, Janeiro 06, 2010

A ecotopia das micro-redes eléctricas espertinhas ("smart grids") - actualizado

Como informei há umas duas semanas, no post abaixo, aos crentes na ecotopia das micro-redes, não vai haver micro-redes.
O que poderá vir a haver são super-redes.
Expliquei também que a super-rede em preparação em Bruxelas requererá um Império, se quiser de facto interligar as ventosas estepes russas e a super-hídrica do Inga no Zaire.
Quanto ao Império veremos, mas para os que acham que é grande petulância minha remar assim contra o Pensamento Único, sugiro a leitura desta notícia aqui. E, depois, expliquem-me como é que esta rede é uma resposta ao fracasso de Copenhaga, como diz a notícia, a não ser por se contentar com um Império continental visto o Império mundial estar fora de causa.
E pode ser que isto seja mera imaginação paranóica minha, mas imaginar as estepes russas e o Sahara com eólicas e painéis solares alemães, faz-me inevitavelmente lembrar que nessas mesmas regiões, há 68 anos, era com panzer, respectivamente do 6º exército e do Afrika Korps, que os alemães lá andavam (estou a brincar...).

Uma das mais fantásticas criações imaginárias dos ecotópicos é a de que no futuro as redes eléctricas terão evoluído das actuais nacionais e em muitos casos transnacionais, para redes locais ou quando muito regionais, as futurísticas micro-redes.
Imaginam eles um futuro em que cada consumidor será também produtor, com o telhado cheio de painéis solares, micro-turbinas na cave e carros eléctricos na garagem com as respectivas baterias a armazenarem a energia em excesso e a revendê-la quando há falta.
E dedicam-se a investigações académicas sobre processos de auto-cicatrização destas redes quando se isolarem da rede eléctrica nacional, controlos automáticos pela internet e coisas assim.
Parece excitante, para quem gosta de tecnologia e sonha em transformar o mundo sem nunca sair do laboratório da Universidade. Ou para quem, no Porto, sonha com uma rede eléctrica finalmente livre do jugo lisboeta...
Mas esta causa padece de um grave problema. Nunca se concretizará!

Nunca se concretizará porque a energia solar fotovoltaica nos telhados nunca será competitiva, nos próximos 20 anos, e nenhum Governo, nem mesmo o nosso, aceitará pagar os custos de tal coisa!
Nunca se concretizará porque as redes existentes são fiáveis e não precisam de nenhuma capacidade de auto-cicatrização. Precisam é que o excesso de eólicas na rede nacional não venha a provocar apagões ibéricos!
E nunca se concretizará porque ninguém alguma vez deixará os carros na garagem (caso a tenha) e irá a pé para o trabalho só para negociar uns cêntimos de energia das respectivas baterias!

O que já faz algum sentido, é uma proposta alemã que está a fazer o seu caminho em Bruxelas.
Esta proposta não defende um futuro de micro-redes.
Defende exactamente o contrário: a super-rede!
De um ponto de vista meramente técnico-económico, as super-redes fazem muito mais sentido que as micro-redes. A ideia é a seguinte:
Instalem-se eólicas onde há muito vento e portanto a respectiva energia sai de facto barata e competitiva: nas costas do mar do Norte, sobretudo nas costas escocesa e irlandesa, e nas estepes russas. Instale-se solar onde há sol todo o ano e sem nuvens, isto é, no Sahara. Ligue-se também a extraordinária super-Itaipu africana, a prometida barragem do Inga, na foz do Zaire.  Explore-se a diversidade geográfica para minimizar as necessidades de armazenamento. Usem-se algumas barragens reversíveis, onde as haja, para armazenar alguma energia desta. E ligue-se isto tudo por uma rede de linhas de Muito Alta Tensão com milhares de quilómetros de extensão, em corrente contínua.
As contas estão feitas. É viável. Técnica e economicamente. Permitirá produzir energia, toda de origem renovável, praticamente ao preço da actual. Basicamente porque a vai buscar onde ela é mais rentável, como sempre se fez na energia eléctrica.
É também excitante, a ideia de controlar tudo isto em tempo real, quiçá com satélites, Inteligência Artificial, microprocessadores por todo o lado comunicando à escala pluri-continental!
Só tem um problema. Um problema político.
Precisa de um Império para poder gerir tudo isto em boa ordem.
Um IV Reich? Quiçá travestido de Governo de Bruxelas benigno, invocando até um tal "Tratado de Lisboa"?...
Talvez não. Mas, seguramente, só em tal cenário as barragens reversíveis em construção em Portugal terão alguma utilidade.

Ainda o negócio com peras!


Como um leitor sabedor me notou, e bem, o valor da energia eléctrica no mercado ibérico tem estado mesmo a ZERO, nestas madrugadas em que tanto em Portugal como em Espanha tem feito muito vento e ao mesmo tempo chovido, em que o consumo é pouco e em que não se pode, por lei, desligar as eólicas (que fazem nestas alturas bom dinheiro, a 9-10 ç/kwh).
Pelo que temos mesmo estado a despejar energia em Espanha... grátis! E a Espanha a passar essa energia para França, que provavelmente a despeja na Itália ou mais para Leste...
A Espanha, ao menos, está a subsidiar a sua própria indústria de turbinas, que emprega lá mais de 7 mil pessoas e que tem fábricas de montagem na China e nos EUA, embora já tenha conhecido melhores dias...
Alguém, entretanto, sugeriu que essa energia em trânsito de Portugal para Leste se perde a aquecer as linhas de Transporte, mas não é assim que o Sistema eléctrico funciona.
O que acontece é que a Espanha consome junto da fronteira a energia em excesso que lhe despejamos e de que ela não precisa, e passa para França energia sua produzida perto da fronteira francesa, e a França, que também não precisa desta energia, fará o mesmo, obviamente.
Como notou o leitor que me lembrou que visse as cotações da energia, se o mercado fosse mesmo livre, teríamos de pagar a Espanha para ela aceitar encaixar a nossa excedentária energia eólica. Assim temos sorte, eles aceitam-na de borla...
Quem recebe sempre e não tem que se preocupar com nada disto são os produtores eólicos.

Segunda-feira, Janeiro 04, 2010

Um gosto de leitura, para quem gosta de Ciência

Talvez alguns estejam a par das observações ao climategate que o Prof. Delgado Domingos publicou no Expresso, no dia 30 de Novembro.
Dias depois, um jovem e ambicioso investigador ambientalista com um curriculum auto-laudatório surpreendente, Prof. convidado da cátedra "Rui Nabeiro" da Universidade de Évora de cujo reitor é filho, decidiu atacar Delgado Domingos no mesmo Expresso.
E, no seguimento, o Prof. Delgado Domingos deu-se ao trabalho de replicar com uma carta que esse jovem investigador publicou no seu blog.
Esta carta é um prazer de leitura, para quem já fez Investigação com modelos matemáticos computacionais e conhece a tentação de os "martelar" para que as suas previsões batam certo com a realidade. Pode ser lida aqui. Fica-se a perceber muita coisa e só tenho pena que um texto tão pedagógico se possa vir a perder...

Quinta-feira, Dezembro 31, 2009

Um negócio e peras!

Como é sabido, nos últimos dias tem chovido e estado imenso vento.
Sendo assim, surge uma questão interessante: à noite, quando o vento sopra mais forte, e dado que as barragens estão cheias de água da chuva e não podem armazenar mais, que tem feito a REN ao excesso de energia eólica existente?
Desde há dias que a REN deixou de publicar gráficos (diagramas diários), se não mostrava-vos.
Como não posso mostrar, posso apenas somar 2 e 2, a partir de outros dados da REN. Por exemplo e relativamente à véspera de Natal:
  • As eólicas estiveram a trabalhar à potência média de, somando-lhe alguma cogeração, 3188 MW, atingindo o máximo de 3848 MW;
  • As hídricas estiveram também a produzir uns 1504 MW, em média, chegando a atingir o máximo de quase 1840 MW.
  • As térmicas produziram em média apenas 1167 MW, e portanto estiveram apenas com o mínimo de segurança ligado.
  • O consumo médio foi de 5596 MW, incluindo 425 de bombagem para armazenamento e 160 de importação.
Mas, obviamente, e embora os sumidos diagramas da REN não permitam mostrá-lo, de madrugada havia de certeza excesso de energia eólica na rede, e não se podia desligar as eólicas nem fechar as comportas das hídricas. Que se fez então a tal energia excedentária?
Exportou-se, só pode ter sido isso.
A que preço?
Pois os dados da REN estão difíceis de aceder. O computador deles dá repetidamente o erro de "server too busy". Mas pode saber-se o seguinte: o preço do kwh no mercado ibérico tem estado a 2,99 ç/kwh, e há o gráfico de preços marginais que anexo.

Sabendo-se que o kwh é pago ao nosso produtor eólico à volta de 9 ç/kwh, digam lá se isto não é um negócio e peras?...
E também se fica a perceber o porquê do investimento previsto em armazenagem hídrica...

Quarta-feira, Dezembro 30, 2009

A central das ondas do Governo - corrigido e com mais um parágrafo

Ontem, nem percebi bem porque razão, os media lembraram-se de ir visitar o túmulo da central eléctrica de energia das ondas que jaz na Póvoa de Varzim, paralizada sem remédio apenas 3 meses depois de inaugurada. Custou esta experiência, totalmente importada chaves-na-mão e sem qualquer incorporação portuguesa a não ser o dinheiro investido, 9 milhões de €, dos quais 1,2 milhões do erário público, e vale a pena ouvir as palavras do então Ministro da Economia (no hyperlink atrás) para ver a grandiloquência do projecto!
A central começou a funcionar e ao fim de 3 meses avariou de tal maneira que a construtora saiu do projecto.
Mas, segundo a reportagem da SIC para que hyperlinko atrás, há mais projectos destes em preparação, aparentemente "encalhados" por burocracias. E, dizem os jornalistas e um tal Sr. António Sarmento de um "Wave Energy Center", que assim Portugal "corre o risco de perder a corrida"  a esta forma de energia. E qual a contribuição de Portugal para tal corrida? Como explica a reportagem, uma tarifa subsidiada que "despertou o entusiasmo em todo o mundo" que teria protótipos para testar e ninguém que pagasse a experiência...

E no entanto, esta não é a primeira central de ondas testada em Portugal.
Ao que parece, já toda a gente se esqueceu da central da Ilha do Pico, decidida em 1992 e inaugurada em 1999, e imediatamente transtornada por avarias constantes que a paralisaram até 2005, quando um consórcio a repôs em funcionamento por um ano apenas para confirmar "a persistência de limitações técnicas na estrutura original do grupo gerador"...
A ideia parece não ter sido de todo abandonada, mas em 2008 já eram até os próprios suportes em cimento da estrutura que estavam danificados pelo mar...
Será que andamos com azar, em Portugal?

A verdade é que a História das tentivas de conseguir usar a energia das ondas para produzir electricidade tem mais de um século! É uma história antiga e com múltiplas experiências prototípicas em variados países do mundo, com realce para o Reino Unido e o Japão, e que se defronta com problemas semelhantes aos das turbinas eólicas, mas ainda muito mais difíceis!
Tal como para as turbinas eólicas, as bases científicas para o seu projecto foram estabelecidas na altura da II Guerra Mundial por um país beligerante com carências dramáticas de petróleo, neste caso o Japão. Compreende-se, por isso e aliás, que desde então e até aos anos 90 o Japão tenha investigado infatigavelmente formas de extrair energia das ondas. O Japão tem tudo o que é preciso para liderar tal tecnologia: décadas de experiência, excelentes e muitos engenheiros, óptima capacidade industrial, imenso mar e falta de recursos naturais em combustíveis fósseis!
E no entanto, o Japão nunca passou até agora da fase dos protótipos experimentais.
Além do Japão, muitos outros países têm investigado teórica e experimentalmente à exaustão diversas soluções, dos EUA ao Reino Unido, passando pela Austrália, Irlanda, e outros. Mas experimentação comercial, essa, só em... Portugal!!!
E qual é a dificuldade técnico-económica que tem impedido o resto do mundo de considerar que se podia passar à fase comercial desta tecnologia?
Um problema similar ao que defrontam as turbinas eólicas, mas em muito pior escala: a extrema irregularidade e variabilidade das ondas! Basicamente, uma turbina de ondas tem de ser capaz de suportar uma potência instantânea máxima nas ondas 10 vezes maior que a potência média que extrai delas, enquanto no vento essa relação é só de 4 vezes.
Ora se este problema já tornou extremamente difícil a construção de pás para as turbinas eólicas que suportassem o vento sem se partirem (o que só há poucas décadas, e só para os melhores fabricantes, foi conseguido), imagine-se a dificuldade do problema para as turbinas de ondas! Além disso estas turbinas têm de ser capazes de suportarem tempestades oceânicas e a corrosão marinha. Claro que se pode sobredimensionar uma turbina para aguentar tal esforço, mas então o problema passa a ser económico: a potência média que tal turbina extrai das ondas não paga o sobredimensionamento que a referida potência máxima requer, nem de perto nem de longe!
Talvez um dia se encontrem soluções que resolvam satisfatoriamente o problema. Portugal até tem participado nessa investigação, como a central da Ilha do Pico atesta, uma central experimental em que o Prof. António Falcão do IST tantos anos da sua investigação académica investiu e em que algumas empresas nacionais põem lá o nome mas nenhum empenho.
Recentemente, o Prof. António Falcão publicou um artigo de síntese numa prestigiada revista em que descreve as inúmeras opções tecnológicas em investigação, sobretudo na União Europeia desde que esta resolveu financiar tal pesquisa no início dos anos 90. Sendo um artigo focado nas opções tecnológicas, ele conclui notando que as turbinas de ondas, para serem viáveis, têm de ter dimensões que as tornem ressonantes com a oscilação das ondas (que nem é sempre a mesma), o que por sua vez requer que não possam ser pequenas, o que implica sempre um elevado custo para as instalações experimentais, impedindo que se evolua de pequenas turbinas para maiores á medida que se adquira experiência e resolvam os problemas construtivos, como aconteceu com as turbinas eólicas.
Um grande mistério é por que razão ninguém fala da experiência da Ilha do Pico que antecedeu a "Pelamis" que tanto entusiasmou o Ministro Pinho! Ou será que ele(s) até sabia(m) que aquilo nunca funcionaria e esperava(m) apenas que ninguém mais falasse no assunto a seguir à (encomendada) inauguração? É inacreditável...

Nota: os meus agradecimentos ao colega Gil Marques pelo comentário privado que me endereçou.

Sábado, Dezembro 26, 2009

A História a passar ao largo de Portugal, novamente.

Parece que, por fim, a preciosa liberdade de pensamento da democracia se faz sentir e o Expresso dá voz a uma posição realista e sensata sobre o problema climático: entrevista Bjor Lomborg.
Lomborg não nega o aquecimento global nem a sua origem antropogénica. O que faz é desdramatizá-lo, face aos muitos outros problemas com que a Humanidade no seu conjunto se defronta, e critica as políticas ecotópicas que pretendem lidar com o problema construindo um Admirável Mundo Novo, notando, nomeadamente, a necessidade de investir muito mais em Investigação e Desenvolvimento (I&D), e não tanto em políticas de corte das emissões.

Esta última questão, a da necessidade investigar soluções tecnológicas que ainda não existem, tem sido algo que tenho procurado mostrar com alguns casos concretos, como o da energia solar fotovoltaica e o do automóvel eléctrico e respectivas baterias. Para já não falar de outras componentes que nem se sabe se alguma vez existirão (a custos razoáveis), como o dos meios de armazenamento de energia necessários para regularizar a intermitência das fontes de energia renovável.
Uma política energética de corte de emissões de CO2 que tenha em conta estas realidades científicas e que seja guiada pela sensatez, isto é, pela preocupação em não esmagar os povos com custos exorbitantes, foi a estudada pelo EPRI norte-americano e que já aqui referi, e que aponta para a necessidade de apostar no nuclear a curto prazo, e na captura e sequestro do carbono das centrais a carvão a médio prazo.
Mas, mesmo tal política energética apenas resolverá 1/5 do problema global das emissões de Gases de Efeito de Estufa. Há toda uma indústria pesada que terá de ser reformulada nos seus processos energéticos e há os problemas do mau uso dos solos, do tratamento dos lixos e sobretudo o da desflorestação (esta responsável, só por si, por tantas emissões como a produção de energia eléctrica). Ora resolver esta parte do problema requer a colaboração de todos os povos pobres, e não se vê como tal seja possível sem um Império mundial.
Os povos de África, da Indonésia ou do Brasil que queimam as florestas não o fazem por serem pirómanos. Fazem-no porque desde sempre a conquista de terreno arável e habitável à floresta foi vista como uma coisa boa, exigida pelo mero crescimento demográfrico. A Humanidade, com efeito, tende simplesmente a ocupar todos os bocadinhos de terreno do planeta que possam ser habitáveis...
Ora como impedir tal coisa? Pagando? Pagando para que esses povos abandonem o seu modo de vida tradicional e de repente se industrializem e vivam em cidades limpas? Pagando para que as monstruosas favelas em que vivem, quando vivem em cidades, se transformem em bairros limpos como os de Copenhaga? Mas têm os ecotópicos nocão da escala que isso comporta? E do que desejam de facto essas populações? Não é por acaso que Hollywood deu este ano o Óscar de melhor filme a uma produção estrangeira, "slumdog millionaire" - de facto, poucos filmes nos mostram tão bem como este o que são, como vivem e o que desejam, os povos cujo desenvolvimento tanto assusta os ecotópicos...
É evidente que não há nenhuma política de subsídios que possa impedir sustentavelmente esses povos de se multiplicarem e desenvolverem. É uma realidade incontornável. E se com ela, se com o crescimento explosivo da população humana que o próprio sucesso da modernidade trouxe, o clima for alterado, não se vê que tal possa ser impedido a não ser com um Império mundial, eventualmente alicerçado na ONU, e que use, como sempre sucedeu na História, a guerra e a violência para se impor onde tal for necessário.
A única razão porque isso não vai acontecer é porque a Europa, a grande preocupada com isto, já não está, e estará cada vez menos à medida que o tempo passe, em condições de impor a sua antiga ordem colonial. E por isso toda a causa ecotópica não passa de um devaneio espúrio que usa slogans de estilo maoísta como o dos 20-20-20 (20% de redução de consumos, 20% de energia renovável, para 2020) e que de vez em quando sofre um duche frio de realidade, como aconteceu agora em Copenhaga.
Existe outra proposta imperial para o problema: Bernardino Soares, do PCP, alvitrou-a há dias num debate na SIC sobre Copenhaga: "É preciso mudar a ordem económica", disse. Acabar com a busca do lucro, presume-se, que será a fonte de todos os males e irracionalidades que afectam a Humanidade actual, e substituí-la por uma nova ordem, uma ordem guiada pela busca do bem comum protagonizado pela vanguarda histórica. Não pude deixar de me lembrar dos navios a seco no Mar de Aral que a antiga URSS matou, ou da tremenda ineficiência poluidora da sua indústria pesada. Mas compreende-se como a causa verde pode ter a convergência da actualmente despatriada causa vermelha: ambas querem um Mundo que nada tem a ver com a realidade existente, e ambas têm uma visão do Homem que não é a da Humanidade que existe. Mas ambas têm também uma falta semelhante: falta da força para forçar o advento desses amanhãs que cantam! Daquela força que, segundo um velho pensador, é "a parteira da História"...
Na falta de um Império que estabeleça a ordem mundial ambicionada pelos ecotópicos, a vida continuará a decorrer como sempre e o que vai mudar são os mercados de equipamentos, cheios de novas oportunidades para quem tiver unhas que toquem guitarras produtivas - ou seja, a China, a Índia, a Coreia, o Japão - a Ásia, em suma - e a Alemanha, a Dinamarca, a França (com as suas nucleares) e talvez até a Espanha! Quanto aos EUA, estão com um sarilho que talvez custe as próximas eleições ao Presidente Obama!...

E que acontece entretanto na Lusitânia?
O períódico que é talvez a melhor referência do jornalismo nacional anuncia em grandes parangonas que mais uma vez um português inventou a pólvora, revolucionando a partir de uma ideia que teve na Lourinhã o mundo da energia eólica, e a notícia bate o record de leituras on-line! Tamanha ignorância sobre tudo o que já foi investigado lá fora e que cá se desconhece sobre tecnologia de turbinas eólicas, a par de uma prosápia patrioteira patética, só tem par na notícia oficial segundo a qual Portugal aqueceu mais nos últimos anos que o resto do Mundo e na forma como o Primeiro-Ministro explicou que Portugal vai resolver o problema do seu desenvolvimento económico: investindo nas energias renováveis para garantir a independência energética nacional e nomeadamente do petróleo!...  Como se petróleo e energias renováveis tivessem alguma coisa a ver um com as outras!!!...
Mais uma vez, a História está a passar ao largo de Portugal.

Quarta-feira, Dezembro 23, 2009

A "taxa sobre o Carbono" francesa e a "divisão europeia"

Diz hoje na imprensa o nosso pensamento único sobre o clima, que "a Europa está dividida sobre a aplicação de uma taxa de carbono" sobre os países que, em Copenhaga, não subscreveram as propostas europeias para a redução das emissões de Gases de Efeito de Estufa (GEE).
Lendo assim a notícia, parece que a tal divisão entre os países europeus seria uma questão de fervor na adesão à causa ecotópia. No entanto...
Quem é que propõe a tal "taxa sobre o carbono"? A França! E quem é que se lhe opõe? A Alemanha!
Não acharão os jornalistas estranho que seja a França a propor a tal "taxa sobre o carbono", quando em matéria de causas climáticas ela tem andado caladinha, e que seja a Alemanha a opor-se, quando tem sido ela a grande campeã dessa causa?
Ora qual é a situação da França em matéria de emissões de GEE? É boa. Porque 80% da sua energia eléctrica é de origem nuclear, que como se sabe não deita fumo (nem CO2), e 10% de origem hidroeléctrica. A França, graças ao seu já antigo desenvolvimento da aposta nuclear, é um país que se pode arvorar em campeão "green" sem ter tido de mudar rigorosamente nada no seu modo de vida. Aliás, essa "verdura" efectiva coexiste com uma atitude de evidente sarcasmo para com outros países vizinhos, como a Dinamarca e a Alemanha, que sendo campeões ideológicos da "verdura" têm, no entanto, a maioria da sua energia eléctrica com origem na queima de combustíveis fósseis (mesmo a Dinamarca, que a par do vento tem uma importantíssima componente de cogeração, que não deita menos fumo que as centrais a fuel, e carvão).
Outra das razões do sarcamos francês para com os seus vizinhos eólicistas é que estes dependem do nuclear francês para a estabilidade das respectivas redes, como tem sido demonstrado de cada vez que há um apagão regional.
Mas porque saiu agora a França do seu low-profile ecológico, propondo a tal "taxa de carbono"? Porque, como ela própria justifica, esses países fazem uma "concorrência desleal".
Ora a ideia de que os países asiáticos e em geral os estrangeiros não-europeus fazem à França uma concorrência económica desleal, é velha. O grupo PSA (Peugeot-Citroen), por exemplo, passava a vida a reclamar o boicote aos automóveis japoneses, e é francês aquele agricultor (altamente subsidiado pela UE, aliás), que se tornou famoso por atacar McDonalds americanos!
Por mais antipática que possa ser, este chauvinismo tradicional da França mostra que a velha política de cada um defender os seus interesses nacionais, continua actual.
Posto isto, porque recusa a Alemanha esta "taxa sobre o carbono" dos produtos importados dos países não-aderentes às propostas ecológicas europeias?
Pela mesma razão, claro, porque a Alemanha se opõe sempre a qualquer medida europeia proteccionista: a de que ela é (ainda) o maior exportador mundial de produtos industriais, e sabe que esse proteccionsimo europeu implicaria retaliações dos mercados para onde exporta!
Mais uma vez, é preciso dizer aos jornalistas a velha frase da campanha eleitoral de Clinton conta Bush pai: é a economia, estúpido!


 

Domingo, Dezembro 20, 2009

Copenhaga: um banho de realidade!

Há 18 dias escrevi aqui um post em que afirmava que "a China, com os EUA, será quem determinará o futuro do tratado climático", e também que "o que a China propóe para Copenhaga será o que a Índia, o Brasil, e todos os países que ambicionam sair da miséria e serem grandes potências adoptarão: reduzir a "intensidade do CO2 da sua economia" desde que nada limite o crescimento desta". E notava ainda que a Europa dos 27, que já só tem 1/12 da população mundial, terá em 2050, data-alvo das negociações, apenas 1/18 dessa população...
Pois o acordo aí está a confirmar o que escrevi e que era óbvio a quem conseguisse ver através da mistificadora propaganda com que o pensamento único de Bruxelas nos intoxica diariamente: "acordo vago e sem ambição acaba com liderança da UE", escreve o Expresso. Ora essa liderança só existia na cabeça iluminada pela causa da salvação do Mundo dos ecotópicos europeus, como os números da demografia e da economia incontornavelmente demonstram, e sobretudo os números das suas derivadas (ou, em linguagem não-matemática, dos seus ritmos de crescimento). Iluminação que, parece, acometia o nosso Presidente europeu e o nosso Primeiro Ministro...
Os EUA lideraram, de facto, um acordo para 2050. No sentido em que se entenderam com quem, de facto, será relevante neste mundo em 2050. E a Europa, que acolheu o oportunismo de países como o Sudão, que genocida as suas populações do Sul e que se queixa de que eles e os outros países pobres só emitem 3% dos Gases (repetindo a conversa da extrema-esquerda ocidental que esquece que os próprios relatórios da ONU contabilizam em de 40 a 50% a contribuição da desflorestação e maus usos do solo desses países para o Aquecimento Global), essa Europa será quem pagará 45% dos fundos de "ajuda" aos países pobres. O Japão pagará outros 45% e os EUA... 5%!
É que estas coisas nos EUA discutem-se a sério, e ai da Presidência americana se tivesse alinhado em semelhante conversa por cá, que nunca mais teria hipótese de aprovar alguma coisa no Senado!
Paises pobres que queriam a garantia da continuação de Quioto. E porquê? Porque Quioto não lhes exige nada e garante uma renda em "ajuda" que, em muitos desses países e como se sabe, vem a acabar em contas numeradas na Suiça e off-shores de variada localização!
Não, nem americanos, nem chineses (que entretanto tentaram aumentar a sua influência sobre esses países), nem indianos, vão em tal coisa.
E, basicamente, o que os EUA fizeram foi neutralizar a tentativa chinesa de liderar o 3º Mundo na sua reivindicação "anti-imperialista" (uma orientação que já vem de Mao Tsetung) enquanto, ao mesmo tempo, trabalhavam uma aliança com a África do Sul, único país que geopoliticamente interessa na África sub-sahariana e a longo prazo.
Brilhante!
Isto, politicamente.
Quanto ao Aquecimento global... logo se vê! Vai-se fazer o melhor possível, entretanto.
Quanto a Portugal: bem, a realidade de estarmos na senda da Grécia também se vai impondo de forma crescente dia a dia. Vejamos o que acontece à Grécia, porque a seguir seremos nós.

Quarta-feira, Dezembro 09, 2009

A fábrica de baterias de Aveiro e o que Portugal fica a dever ao Grande Líder

Toda a gente sabe que foi inaugurada uma fábrica de baterias de iões de Lítio da Renault-Nissan, em Aveiro, para o anunciado automóvel eléctrico. Implicará um investimento de 160 milhões de € e criará 200 empregos, e o Administrador agradeceu as excepcionais condições oferecidas por Portugal e que determinaram a nossa escolha, entre os 27 países da União.
De caminho, o Primeiro-Ministro afirmou que, no passado, Portugal sempre tinha chegado atrasado às novas tecnologias mas que, agora, com ele, se colocava finalmente na dianteira.
Uma afirmação desta grandeza só pode, de facto, provir de um Grande Líder que Portugal não tinha, salvo erro, desde D. João II.
Entretanto, porém, uma Associação de PME protestou por se sentir discriminada e explicando que o Governo cobria, através da CGD, os riscos daquele investimento.
Mas haverá riscos?

Ora há momentos cruzei-me com um colega meu que, apesar de não ser da "cor" política do nosso Primeiro-Ministro, acredita no carro eléctrico. Trocámos umas palavras e, a certa altura, eu disse-lhe: " ...o pior é a duração das baterias!". Ele olhou para mim obviamente sem entender e eu expliquei-lhe: "é que as baterias são as mesmas que usamos nos telemóveis; já viu quanto tempo duram?"
Ele, que foi obviamente apanhado em falso mas que nunca dá o braço a torcer, negou. "Não, não são nada!"
Não tive tempo de lhe dizer para abrir o telemóvel e ver, mas digo-o a vocês. Hão-de lá ler algures: Li ion". Iões de Lítio. Claro que são as mesmas baterias. E também as dos portáteis. Experimentem abrir os equipamentos e comprovem por vós próprios!

A do meu portátil, comprado no Verão de 2008, já está nas últimas. E a do telemóvel, que é de 2006, já vai na segunda que compro - quase por 1/3 do preço do próprio telemóvel!
Claro que as baterias não são exactamente as mesmas. São muito maiores e cheias de dispositivos de controlo e segurança. Mas a tecnologia química é a mesma e padece exactamente dos mesmos problemas das baterias dos nossos habituais gadgets.
Já expliquei isso tudo aqui! Se quiserem, consultem.
E aos hyperlinks que lá inseri e que vos permitem desenvolver a vossa informação.

Voltando ao investimento da Renault: dado o problema da curta vida e alto preço das baterias de iões de lítio, é evidente - também já postei noutros lados o que se pensa sobre o assunto internacionalmente - que o futuro não está nestas baterias e que ainda há muita investigação fundamental a fazer até se encontrar uma boa solução. Pelo que se trata de uma fábrica com os dias contados.
Mas o Governo de Portugal acha bem subsidiar a indústria estrangeira.
Já o fez nas eólicas, e agora estende-o às marcas de automóveis em dificuldades...
À custa do défice e, sobretudo, das PME preteridas!

Sexta-feira, Dezembro 04, 2009

Desafio à APREN e aos media que lhe fazem eco acrítico

De um leitor conhecedor destas coisas, recebi o seguinte comentário, que republico:

Já leu esta notícia do Diário Económico ?  Portugal poupa 15.300 milhões com as renováveis.

Começa assim : Os números prometem esmagar os mais cépticos.”
E termina assim :
Uma verba que daria para construir três novos aeroportos de Lisboa ou pagar, com bastante folga, a nova travessia rodo-ferroviária sobre o Tejo. As contas constam de um estudo sobre o impacto económico das renováveis, encomendado à Deloitte pela APREN - Associação de Energias Renováveis.”

Não vi o estudo, mas numa primeira impressão tenho fortes dúvidas de que as renováveis permitam poupanças daquela ordem de grandeza.
Gostava de conhecer a sua opinião.
Só o facto de renováveis como a eólica e a fotovoltaica exigirem a disponibilidade de fontes de backup põe em dúvida a ideia de que o investimento em renováveis nos permita poupar grande coisa.
O nosso PM veio há dias clamar que tal investimento nos permitia reduzir o endividamente externo. Acho isto uma fantasia. Até porque, como o Prof. tem aqui mostrado, os equipamentos são maioritariamente adquiridos no estrangeiro. Só o vento e o sol é que não, mas não sei se chega para compensar. E depois, há aqueles preços subsidiados que vão agravar o défice tarifário.
Enfim, independentemente de uma análise mais detalhada, quer o estudo, quer a notícia, cheiram muito a “encomenda”.
De facto, "Esmagar os cépticos" parece-me linguagem “soprada”. E toda esta fartura vem demasiado a calhar para os dois principais interessados. De facto, junta-se a fome (Governo) à vontade de comer (APREN).
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De facto, vi a notícia e procurei de imediato o tal estudo na net, para conhecer a argumentação desenvolvida.
A única coisa que encontrei foi que a notícia foi cuidadosa e metodicamente "plantada" em todos os jornais e televisões relevantes, que obedientemente lhe fizeram eco.
Mas, quanto ao estudo propriamente dito, não está acessível ao público em parte alguma!
Desafio, pois (sem esperança de resposta), a APREN e/ou a Deloîtte para que coloquem o referido estudo on-line ou acessível ao Público de alguma forma.
E desafio os nossos jornalistas a que deixem de se fazer eco de notícias "plantadas" para as quais não podem ter tido nenhuma confirmação!

E já agora, a empresa que fez o estudo encomendado, é a mesma Deloîtte posta nos píncaros pela mesma COTEC que "plantou" no jornalista Nicolau Santos a "informação" de que Portugal triplicou o número de patentes registadas na Europa desde 2004, e a mesma que não encontrou nenhuma irregularidade na actuação da Administração da REN, na auditoria que lhe foi encomendada, poucos dias antes de precisamente o sr. Eng.º Penedos ter sido constituído arguido por ilegalidades nessa actuação...!

Estaremos já a viver sob o domínio da Máfia?

De novo as patentes: a propaganda e a triste realidade

Num entusiasmado editorial do Expresso, o jornalista Nicolau Santos manifesta a sua felicidade pelo grande salto em frente que o nosso país estará a dar, com o presente Governo, em matéria de Investigação & Desenvolvimento, o que seria tanto mais admirável quanto o nosso país seria avesso ao risco e à Inovação, segundo ele.
Nicolau Santos alinhava os grandes números a que já estamos habituados e que eu já desmontei aqui e aqui e noutros posts anteriores, mostrando que não passam, no que respeita às empresas, de pura mistificação contabilística.
Porém, e contradizendo o que eu notara no último dos posts para que hyperlinko acima, a dado passo Nicolau Santos afirma, certamente porque alguém lhe mentiu isso (ao estilo da propaganda de Goebels), que com este Governo face a 2004 Portugal aumentou 3 vezes o número de patentes registadas na União Europeia!

As patentes registadas na Europa por país de residência na última década podem ser consultadas aqui. São as patentes provenientes de um enorme número de países, totalizando uma população de cerca de 2200 milhões de habitantes. Junto o gráfico construído a partir destes dados, que mostra que:
  1. A linha a encarnado é a evolução da totalidade das patentes. Como é visível, há um crescimento geral mas com irregularidades, com grande probabilidade devidas ao próprio funcionamento do Gabinete de Registo de Patentes. Assim, a partir de 2003, inclusivé, há quase uma duplicação do número de patentes anuais registadas provenientes de todo o Mundo. Essa quase duplicação que ocorreu em 2003 e depois se manteve, também afectou as patentes portuguesas (a verde) e as espanholas (azul) e, portanto, deve ser vista como um bias do próprio processo de registo de patentes, e não tirar dali nenhuma conclusão para cada país particular.
  2. As linhas representando Portugal (verde) e Espanha (azul) foram normalizadas por mim para as respectivas populações, para se terem termos comparáveis. Concretamente, os números portugueses foram multiplicados por 220 e os espanhóis por 58, para ter em conta as respectivas populações.. Os gráficos mostram, assim, o número de patentes per capita.
  3. Como é evidente, e em relação a Portugal:
  • O nosso número de patentes per capita é uma ordem de grandeza inferior ao da média dos países registados;
  • É também significativamente inferior ao de Espanha, na verdade apenas cerca de 1/5 (per capita, note-se!);
  • Portugal estagnou, desde 2003, que foi o melhor ano de sempre; não houve aumento desde 2004 e muito menos uma triplicação!
  • O aumento que se verificou em 2003 relativamente ao passado resulta de alterações no processo europeu de registo de patentes, visto que o mesmo aumento beneficiou toda a gente. Pelo que se pode concluir que, descontando esse bias, de facto Portugal está estagnado desde 1999.

Quinta-feira, Dezembro 03, 2009

Portugal e o reino da Dinamarca

O Governo português acaba de legislar hoje a criação de uma rede de abastecimento de (inexistentes) carros eléctricos. E, segundo os media ao serviço do Ministério da Propaganda, o consumidor poderá pagar com cartão Multibanco em função do operador eléctrico a que está vinculado, como se isto da energia fosse um mercado de retalho. Tratam-se de 1300 postos espalhados pelo país e não se sabe quanto custarão.
Curiosamente e também hoje, o New Yort Times fala dos planos da Dinamarca para fazer um "show" publicitário na cimeira que começa dentro de dias em Copenhaga, mostrando como se já fossem de uso corrente alguns carros eléctricos entretanto encomendados. A Dinamarca, que não fabrica automóveis, concede um desconto fiscal de 25000 € em cada carro eléctrico e estacionamento grátis em Copenhaga, mas apesar de todos os esforços de promoção pelo seu Governo e da cultura "green" fortemente radicada no país, pouca gente lá parece interessada na oferta. Vale a pena ler a notícia do NYT para que hyperlinkei para perceber porquê.
Segundo o NYT e como estamos fartos de saber, o propósito do Governo dinamarquês, como aliás do nosso, é dar vazão ao excesso nocturno de energia eólica carregando as baterias dos carros, dado que a Dinamarca é o país do mundo com maior percentagem de energia eléctrica de origem eólica (20%) e não pode fazer barragens reversíveis para a armazenar à noite como nós, por ser plana.
O nosso Governo ambiciona ultrapassar a Dinamarca em % de energia eólica, chegando aos 25% e tornando-se com isso o campeão mundial. Mas há uma grande diferença entre Portugal e o reino da Dinamarca neste assunto: é que a Dinamarca, que há já um século que usa o seu forte vento costeiro para produzir energia, tem o maior fabricante mundial de turbinas eólicas, a Vestas, que emprega lá directamente perto de 25 mil pessoas (numa população que é metade da nossa) - vd os números da tabela ao lado, da European Wind Energy Association - , exporta anualmente 4 biliões de € e fornece metade dos mercados mundiais em mais forte crescimento!
E nós, não...!

Quarta-feira, Dezembro 02, 2009

Aquecimento Global? É a economia, estúpido!...

Como habitualmente de cada vez que falo em "clima", recebi um conjunto inflamado de comentários ao meu post anterior - uns, indignados com a persistência dos "negacionistas" na blogosfera (último reduto que lhes resta no "Admirável Mundo Novo" que consideram estar paulatinamente a criar-se), outros clamando contra as "trapaças" dos advogados da antropogenia do Aquecimento Global.
Entretanto, um interessante artigo de um editor da Scientific American coloca a questão dos emails revelados ao público numa perspectiva apaziguadora: mais do que factos ou mentiras científicas, eles revelam a agudeza da luta ideológica que se trava entre cientistas nesta matéria. É que se a ilicitude com que foram obtidos os emails não os desmente, também é verdade que os próprios emails não desmentem só por si o essencial dos factos que fundamentam a convicção dos defensores do Aquecimento global antropogénico.
Subsiste apenas o "pequeno" mistério de por que razão a temperatura do globo estacionou na última década e nenhum modelo climático antropogénico consegue explicar isso, como os emails revelados confirmam...
O certo é que, independentemente de assentar numa base científica sólida ou de, pelo contrário, ter por premissa um dos maiores mitos científicos da História (e valha-nos no IST a voz livre e crítica do Prof. Delgado Domingos para se indignar), o 1º Mundo caminha de forma quase consensual para um tratado limitador das emissões de CO2.
Nas últimas semanas foram a Austrália, a Nova Zelândia e a Califórnia (a 8ª economia mundial) que adoptaram metas redutoras das emissões de CO2. É também quase certo que os EUA acabarão por adoptar medidas nesta matéria, e até o Presidente Lula já manifestou a intenção do Brasil aderir ao tratado em preparação (apesar da consciência recente de ser uma potência petrolífera lhe moderar o ecologismo), depois de também o novo governo do Japão ter assumido objectivos ambiciosos no assunto.

Entretanto, tanto a Índia como a China, os colossos asiáticos cujo rápido desenvolvimento económico mais assusta os climatologistas, têm adoptado uma posição ambígua.
Por um lado, oficialmente arrastam os pés para qualquer compromisso mas, ao mesmo tempo, no plano interno desde os anos 90 que têm estado a apostar furiosamente no desenvolvimento das indústrias e know-how que hão-de explorar os mercados emergentes das tecnologias "verdes", como descrevi aqui a propósito das eólicas e aflorei aqui, no que respeita ao solar, relativamente à China.
China que, com os EUA, são de facto quem determinará o futuro do tratado climático e das alterações económicas decorrentes.

E isto traz-nos perante a seguinte constatação: o Aquecimento Global de origem antropogénica, do ponto de vista científico poderá ser discutível e ainda incerto mas, do ponto de vista económico, é garantido, enquanto promotor de grandes alterações tecnológicas e correspondentes indústrias e mercados. E, uma vez obtido um Tratado nesta matéria, o que se vier finalmente a comprovar cientificamente sobre o Aquecimento global, talvez daqui a uns 20 anos, será irrelevante!...

Podemos mesmo ser até um pouco cínicos e conjecturar que tudo isto não passa da criação de uma onda de necessidades artificiais visando reanimar a economia de consumo, sobretudo agora que ela caiu em recessão e que é conveniente seguir os ensinamentos de Schumpeter, criando novas necessidades que propiciem novos mercados para novos produtos, uma promoção de consumo similar à que cada 4 anos lança novos modelos de carros apesar dos que temos durarem bem 16, novas colecções de vestuário de estação todos os anos, o buraco do ozono que levou a substituir todos os frigoríficos ou a necessidade de revitalizar a indústria de lâmpadas, eliminando as incandescentes.
A única diferença nesta lógica já velha da sociedade de consumo (e que a minha geração muito criticava por alturas do Maio de 68), é que o mercado assim revitalizado não é, principalmente, o dos bens de consumo mas, e pela primeira vez,... o dos bens de equipamento!

Perante estes factos (dúvidas quanto ao fundamento das alterações industriais a realizar, mas certeza quanto a essa realização), que estratégia tecnológica deverá um país sensato adoptar?

Parece-me que a resposta é clara: quanto à adopção de medidas internas mitigadoras das emissões de CO2, deverá arrastar os pés e procurar ir no meio do pelotão (ou mesmo nas últimas posições) mas, quanto à promoção das novas tecnologias e indústrias associadas a essa mitigação, deverá apostar em força, com vista à exploração das oportunidades de mercado que os países campeões da "verdura" constituem. E esta estratégia é válida quer a antropogenia do Aquecimento Global se venha a confirmar, quer não!

É evidente que, mais que qualquer outro país, é esta posição que está a ser adoptada pela China. China que, curiosamente, é um dos raros países que ainda é politicamente dirigido por uma "ideologia científica" mas que, no plano prático, se revela imune ao pós-modernismo e mantém os pés na terra dos interesses nacionais.
De facto, a China constitui um caso extremo de aposta nos mercados externos de energias renováveis com o mínimo de despesa interna na mitigação das próprias emissões, mas até ela investe na transformação industrial necessária a essa mitigação: constrói presentemente as centrais a carvão mais eficientes do mundo, instala parques eólicos em quantidade, vai montar na Mongólia interior o maior parque solar do Mundo, solar de cujos painéis entretanto assegurou a hegemonia industrial, e vai instalar metade de todas as novas centrais nucleares previstas no planeta. Na verdade, tal investimento interno é necessário como suporte a uma estratégia exportadora e além disso fica bem na "fotografia", tema a que adiante voltarei.
Ora, o que a China propõe para Copenhague será, decerto, a bottom line que a Índia, o Brasil e todos os países que ambicionam sair da miséria e serem grandes potências adoptarão: reduzir a "intensidade de CO2" da sua economia, desde que nada limite o crescimento desta!


[E a propósito de Aquecimento Global: sabem que o Brasil já tem 193 milhões de habitantes, mas que em 1900 só tinha 17 (na figura, o seu crescimento populacional)? Que a China já tem 1320 milhões (19.9% da Humanidade), mas que há 60 anos só tinha 563? Que os EUA já têm 308 milhões mas só tinham 200 há 40 anos, e que igualarão a envelhecida população da Europa das 27 nações, 500 milhões, em 2050? Europa que há um século tinha 1/4 da população mundial, hoje já só tem 1/12 e em 2050 terá apenas 1/18?...]

Face a este cenário, que estratégia tecnológica e científica deve Portugal adoptar?

Naturalmente, uma resposta a tal pergunta só pode ser política. Por isso, e que me perdoem os colegas do IST que prefeririam ler-me matérias estritamente científicas (os "engenheiros dos bits", como lhes chamava - sem ofensa! - um grande engenheiro com vocação comercial que tive por colaborador na EFACEC...), vou expor um par de reflexões sobre a problemática que dá (ou não) sentido à I&D que fazemos.

Em primeiro lugar, e como já detalhei a propósito da História da indústria de turbinas eólicas e venho repetidamente notando aqui, Portugal foi o único país que apostou em força nas energias renováveis... apenas como consumidor! As pioneiras Dinamarca e Alemanha, que lideram a produção e a tecnologia mundial de eólicas, há mais de 70 anos que desenvolvem o seu know-how no assunto, e mesmo a Espanha o começou a fazer há mais de 30 anos!
Quando esses países resolveram apostar nas renováveis há quase duas décadas, com políticas de subsidiação às tarifas, estavam de facto a subsidiar indústrias nacionais de forte vocação exportadora e capacidade empregadora, e não a endividarem-se para salvar a atmosfera do planeta como nós - além de terem dos melhores ventos da Europa, ao contrário de Portugal!
Mais clara ainda tem sido a mais recente política industrial chinesa seguida na medida do possível pela Índia, e só os EUA estão agora a deixar abrir os seus mercados à produção estrangeira, aliás com a oposição dos sindicatos, mas isso nos EUA é uma tradição permitida pela força do dólar - além do grande peso que os EUA têm nas emissões de CO2!...
E porque apostaram a Alemanha, a Dinamarca, e até antes destas, nos anos 30, a França, a URSS, os EUA e o Reino Unido no desenvolvimento da tecnologia eólica? Preocupações ambientais? Não - iniciativa industrial e preocupações geo-estratégicas!
O caso alemão é o mais paradigmático, já que foi em 1942, em plena Guerra Mundial e com uma fatal penúria de petróleo para os seus carros e aviões de combate que, como já narrei aqui, o austríaco Ulrich Ütter estabeleceu as bases da tecnologia essencial das turbinas eólicas na sua tese de Mestrado (tese à moda antiga, não como as de Bolonha). Tecnologia que depois os EUA tentaram infrutiferamente copiar nos anos 70, e que voltaria a renascer na Alemanha, nos finais dos anos 80, aproveitando várias circunstâncias favoráveis e nomeadamente o desemprego de engenheiros altamente qualificados na indústria naval em crise.
Na Dinamarca, cuja empresas Vestas domina largamente o mercado mundial destas turbinas, emprega 30 mil trabalhadores qualificados (num país com metade da população de Portugal) e exporta anualmente 4 biliões (!) de €, a tradição de fabrico de aerogeradores é tão antiga que já os faziam no início do século XX para alimentar pequenas comunidades, como nós por cá fazíamos com mini-hídricas. Naturalmente, isso era propiciado pelos excelentes ventos existentes no mar do norte. Com uma tradição tecnológica diferente da alemã, "Danish wind power development stressed incremental improvements in capacity and efficiency based on extensive serial production of turbines, in contrast with development models requiring extensive steps in unit size based primarily on theoretical extrapolation". Mas, tanto a Alemanha como a Dinamarca chegaram ao domínio que hoje têm nestas tecnologias graças a um factor determinante: experiência! Experiência e de muitas décadas!...
A Espanha iniciou-se na tecnologia eólica quando nós por cá estávamos a sair do PREC, em 1976, e mesmo os newcomers mais recentes, como a China e a Índia, começaram há mais de 12 anos e com toda a capacidade dos seus imensos recursos humanos!

Ora a estratégia de Portugal nesta matéria tem sido a de simples comprador. Estas novas tecnologias passam-nos pelas mãos apenas quando lhes importamos os frutos. Indústria para as fabricar só será possível ou se o Estado apostar aqui as suas "parcerias público-privadas" ou se vier por investimento estrangeiro.
Investimento estrangeiro em fábricas de componentes de tecnologias destas significa que é o estrangeiro quem tem os serviços essenciais que viabilizam qualquer indústria moderna: a concepção a montante, e a comercialização a jusante. Pelo que o investimento estrangeiro em Portugal nestas coisas, como na Quimonda e até na Auto-Europa (ainda assim com bastante trabalho nosso incorporado), cria tanta sustentabilidade económica em Portugal como as fábricas nos países estrangeiros para onde a nossa população tem por tradição emigrar (e de onde são deslocadas para onde for mais competitivo).

Quanto às "parcerias público-privadas" esta minha menção não passa de pura especulação, claro.
O Estado poderia ter usado o poder que as golden share lhes dá nas grandes empresas públicas para catalizar a ligação entre os restos de indústria fabricante que ainda temos e as Universidades. Mas para isso era preciso que alguém com poder de decisão nesses planos tivesse alguma ideia de como se cria know-how tecnológico industrial e que, sobretudo,  estivesse realmente interessado em criar riqueza nacional sustentável com todo o incontornável longo tempo que isso exige, e não em apresentar resultados mediáticos imediatos para efeitos eleitorais - e, de caminho, ir fazendo meras negociatas de ocasião à custa de endividamento externo e de subsídios públicos, directos ou e sobretudo "desorçamentados".
Além de tal plano, seria preciso um segundo factor essencial: um mercado nacional protegido que escoasse os produtos nacionais assim desenvolvidos e lhes fornecesse o laboratório de ensaios necessário à aprendizagem e ao aperfeiçoamento, e que lhe pagasse os custos fixos de fabrico - sobretudo os custos da engenharia de concepção. É isso que todos fazem lá fora e que se chegou a fazer cá nos anos 80, com a EFACEC. Um produto cujos custos fixos é pago pelo respectivo mercado nacional - e há muitas formas de forjar proteccionismos, mesmo num Mercado único europeu, sobretudo através de normas técnicas e de cadernos de encargos à medida - pode depois exportar-se a custos variáveis apenas!
Esta "criação" artificial de um mercado interno nacional para produtos em fase de desenvolvimento tecnológico tem também um valor promocional para os mercados-alvo, e é isso precisamente que explica parcialmente as estratégias de subsidiação pública das energias renováveis na Alemanha, Dinamarca e Espanha, e que as explica totalmente na China! Uma das melhores provas do que afirmo é o facto da Alemanha e da Espanha terem abruptamente cortado nessa subsidiação já em Maio de este ano, quando se verificou que eram os produtos chineses que estavam a ocupar esses mercados, especialmente quanto ao solar fotovoltaico - e como foi expressamente reconhecido por fabricantes alemães e hyperlinkei noutro post.
Mas não é essa estratégia que existiu em Portugal: o mercado nacional foi saturado por produtos estrangeiros e já nunca poderá constituir o referido laboratório, as tecnologias em que havia know-how  nacional tradicional deixaram-se morrer (como nas hídricas) e aquelas em que o Estado havia apostado, também (como na energia nuclear) e, por isso, vou ser franco convosco: estou dolorosamente de acordo com a análise que António Barreto faz nesta entrevista que deu recentemente ao jornal "i"!
Só nos resta esperar que os ordenados nacionais desçam tanto que venha a valer a pena aos investidores estrangeiros virem cá fabricar e dar-nos emprego, em vez de irem para a Eslováquia ou a Letónia. Ou, muito mais provavelmente e como acontece noutras paragens, que seja a nossa população que se vá indo embora, trabalhar para lá.
Uma coisa é certa: nunca e em parte alguma foram as Universidades o motor da evolução tecnológica, e não me venham com o exemplo do Sillicon Valley! I&D tecnológica académica sem indústrias a orientá-la é apenas brincar à tecnologia sustentado pelo pai-Estado.

Sexta-feira, Novembro 27, 2009

Mais um negócio renovável, desta vez em convergência central

E não é que o Eng.º Ângelo Correia, Presidente da Foment Invest, converge com a política energética do Governo não só por opinião expressa, como pelo arrecadar de alguns euros aos portugueses, através do défice da EDP?
Pois é verdade. Acaba de ser assistido pelo Primeiro-Ministro em pessoa na inauguração da sua central solar urbana, a "maior do mundo" no seu género (que bom pertencer-se a um país de vanguarda assim!), uma central de 6 MW de " pico" cujo investimento orçou em 31 milhões de €, portanto a 5,15 mil € /Kw de "pico".
Central que, como a da Igreja de Fátima (que custou quase o mesmo por kw de "pico") só produzirá em média 15% desses 6 MW, ou 900 kW, sobretudo no Verão e só de dia, claro. Pelo que o custo da unidade de energia assim gerada superará os 40 ç/kwh, quase o triplo do que o próprio consumidor paga à EDP, mas que esta é obrigada por Lei a comprar!

Diz a notícia que esta energia dá para "abastecer 12 mil portugueses" - por uma vez, as contas estão certas. Só que não os abastece quando eles precisam, à noite...
E qual a incorporação portuguesa na central? O montá-la, o que demorou poucos meses! Quantos empregos criados? 100 durante a montagem, de Janeiro a Agosto.
Quanto à independência energética (eléctrica) assim obtida, convém não esquecer que os 31 milhões de € vieram certamente da Banca (quiçá em empréstimo politicamente bonificado), que por sua vez se financiou na Europa, a quem ficámos a dever; uma simples troca de dependências, mas se medida em €, para muito pior!...

Segunda-feira, Novembro 23, 2009

Quando a ciência comanda a política, a política comanda a ciência

De um modo geral, os cientistas gostam da ideia de que a política seja conduzida pela racionalidade e a objectividade da Ciência. Pensam que, com isso, se reduzirá ou mesmo eliminará a irracionalidade que tem conduzido repetidamente a História às grandes catástrofes das guerras e dos regimes baseados em fés totalitárias.
Presentemente, a teoria do Aquecimento Global antropogénico e os seus derivados políticos, nomeadamente o protocolo de Kioto de 1997 e a Cimeira de Copenhaga do mês que vem, são considerados por muitos, com satisfação, como um exemplo de como a Ciência pode conduzir boas políticas.
No caso do Aquecimento Global antropogénico há mesmo o sentimento de se estar perante a missão de salvar o Mundo!
Os europeus, em particular, sentem-se de novo na vanguarda da História, arautos desta nova e nobre missão de salvação da Humanidade, já que têm sido eles, conduzidos pela "verde" Alemanha (nunca suficientemente penitenciada dos seus crimes irracionais passados), quem tem procurado liderar o Mundo nesta nobre missão baseada na Ciência. Liderança da Europa que contribui para alimentar uma auto-estima muito abalada pela sua irrelevância político-militar e pelo imparável declínio da sua economia, da sua tecnologia e da influência da sua cultura.

Entretanto, nos últimos dias o escândalo resultante da divulgação dos emails trocados entre climatologistas defensores da teoria do Aquecimento Global antropogénico, com as confissões neles contidas das perplexidades existentes perante alguns dados empíricos e das manipulações da respectiva apresentação, veio revelar ao Mundo um facto pouco conhecido e perturbador: o de que o Aquecimento Global antropogénico não é um consenso na Ciência do clima!
Quem frequente o cyberespaço já sabia que existe uma corrente científica que nega a evidência das origens antropogénicas do Aquecimento Global. É uma corrente que não tem eco nos media e que, portanto, é desconhecida do grande público e que quase não tem aceitação nas revistas científicas da especialidade. São conhecidos por "cépticos" ou "negacionistas" e o seu "apagamento" da ribalta é muito ajudado por o negacionismo ter sido adoptado pelo Presidente Bush, cujos erros políticos muito contribuíram para desacreditar até a  simples expressão de tais posições.
De um ponto de vista estrito da História da Ciência, a existência de "cépticos" é natural e irrelevante a longo prazo, dado que a evolução da Ciência acaba sempre por resolver as dúvidas cientificamente legítimas e por estabelecer o consenso. Einstein, que enterrara de vez a fantasia do éter, também recusou a Física quântica com o argumento de que "Deus não jogava aos dados" e, até, recusara antes a consequência que o jesuíta Lemaître tirara da sua própria teoria da relatividade quanto à ocorrência de um Big Bang e, portanto, do facto do Universo não ter existido sempre!...
Os cépticos quanto às origens antropogénicas do Aquecimento Global têm, por vezes, motivações suspeitas, mas do mesmo acusam eles os "verdes", acusações a que a recente revelação dos interesses financeiros de Al Gore nas energias renováveis veio dar mais credibilidade. O certo é que, como esta revelação dos emails veio revelar, o estado da climatologia tem ainda muitas lacunas e incertezas quanto ao que, de facto, se está a passar com o clima.
Pode-se acusar os "cépticos" de, simplesmente, não quererem aceitar a novidade (como sucedeu a Einstein), mas algumas das suas críticas e teorias são, pelo menos, cientificamente curiosas. Uma delas, recente e elaborada por um Engenheiro nuclear reformado (é verdade que muitos dos "cépticos" são gente já de certa idade, o que se associa bem com a resistência à novidade) defende, por exemplo, que as alterações climáticas são essencialmente explicadas por fenómenos gravitacionais, como as marés, os ventos , a tectónica das placas e movimentos no núcleo líquido do planeta, resultantes do efeito gravitacional de natureza periódica dos astros circundantes - especialmente, na sua análise, a alteração da excentricidade da Terra pelo efeito ressonante de Saturno e de Júpiter, e o aumento de radiação solar recebida em consequência. É uma teoria curiosa porque sem dúvida que tais dinâmicas devem ter algum efeito no clima, e elas são quase universalmente ignoradas pelos climatologistas que quase sempre se limitam ao estudo da atmosfera e da superfície planetária. Pode ser uma perspectiva errada, mas o certo é que está por aprofundar.
Entretanto, no que todos os advogados da antropogenia do Aquecimento Global concordam é que há um Aquecimento inexplicável por causas naturais e que ele se correlaciona bem com o aumento do CO2 na atmosfera, e este com o crescimento explosivo da população humana ocorrido desde a revolução industrial. Mas, como não é totalmente clara a relação de causa-efeito, o que diz o último relatório (2007) do Painel Inter-governamental da ONU para as Alterações Climáticas (IPCC) é apenas: "increases in anthropogenic greenhouse gas concentrations is very likely to have caused most of the increases in global average temperatures since the mid-20th century". Para além disso são quase tudo incertezas, e mesmo o mencionado Aquecimento é questionado por muitos "cépticos" (e é aí que entram os dados e manipulações revelados pelos referidos emails). Curiosamente, já Benjamin Franklin, o inventor do pára-raios e interessado climatologista, mantinha acesas discussões epistolares com outros cientistas da época (1763) sobre as alterações climáticas então em curso, muito antes da sociedade de consumo e da explosão demográfica...
Mas mesmo aceitando a origem antropogénica de um eventual Aquecimento Global, entretanto, a determinação da importância relativa das actividades humanas que o produzirão é muito especulativa, segundo os relatórios mais recentes do próprio IPPC. As simples actividades de uso dos solos e em particular a desflorestação estimam-se como responsáveis por 1/3 do referido aquecimento, mas com uma incerteza admitida para os valores estimados de + ou - 50%!...
Obviamente, as consequências políticas internacionais de tal estimativa são enormes. Geralmente os "verdes" mais radicais tendem a ignorar, de entre as invocadas causas do Aquecimento Global, tudo o que não seja o consumo energético e os automóveis do Ocidente desenvolvido; mas, segundo o próprio IPPC, tal consumo não será responsável por mais de 40% do referido Aquecimento, como tenho divulgado aqui; ora sem uma redução das outras causas, muitas das quais resultam de tecnologias primitivas como os fogões de lenha ou o metano libertado pelas lixeiras a céu aberto do 3º Mundo, além da desflorestação criada pela necessidade de terrenos cultiváveis pelo explosivo crescimento da sua população, pouco adiantarão os sacrifícios do Ocidente desenvolvido. E, sabendo isso, é improvável que a aceitação desses sacrifícios seja consensual nos países do Ocidente onde há discussão pública destes assuntos com consequências eleitorais (o que não acontece em Portugal, como é sabido). Para já não falar na improbabilidade de grandes povos que iniciaram finalmente a saída de misérias ancestrais, como os da China, Índia ou Brasil, aceitarem qualquer sacrifício dos seus desenvolvimentos económicos.
O tempo e o aperfeiçoamento dos dados empíricos e dos modelos hão-de acabar por resolver as dúvidas científicas e criar consensos. Um grande problema, porém, poderão tornar-se as políticas que se assumem como iluminadas por esta Ciência climática.

Na verdade, quem desconhece a História está condenado a repeti-la e, por isso, é conveniente lembrar que o século XX teve dois grandes movimentos políticos que pretenderam salvar o Mundo seguindo a luz da Ciência.
Um deles ocorreu numa época em que a maioria dos cientistas acreditava que a "lei da selva" era a luta do mais forte pela supremacia e, em particular, das espécies mais fortes. Era uma convicção arreigada por todo o lado e que encontrou na Alemanha, como se sabe, a sua expressão política mais determinada e consequente: o nazismo. Poderá parecer de uma irracionalidade inconcebível, hoje em dia em que a Natureza é vista como um sistema ecológico que ilustra a "complementaridade das diferenças", o facto dos dirigentes nazis pensarem que salvavam a Humanidade ao exterminarem as "raças" inferiores, mas a eugenia era generalizadamente vista á época como um supra-sumo científico.
O outro movimento político iluminado pela Ciência foi o do socialismo científico, que pretendia construir uma nova sociedade toda ela baseada numa visão científica das relações humanas (os crentes que me perdoem o uso do pretérito).

Como é sabido, em ambos os casos as supostas Ciências transformaram-se em ideologias quando foram assumidas pelos respectivos movimentos políticos, ideologias que por sua vez passaram a Inquisições de todos os desvios ideológicos e, assim, a comandar a Ciência.
Um dos exemplos mais expressivos deste comando da Ciência pela política foi a negação da genética de Mendel e a defesa de que o meio exterior podia induzir a "adaptação" dos genes por Lyssenko (na fotografia) o que, como se sabe, além da eliminação dos melhores agrónomos russos da época causou danos profundos à produtividade agrícola soviética.
A época em que Lyssenko orientou a política de Estaline para a genética ficou famosa como exemplo das políticas científicas de apadrinhamento de incondicionais e de exclusão de desalinhados, mas qualquer analogia que se possa encontrar entre tal política e a actual promoção da Ciência e Tecnologia "para um futuro sustentável" é, naturalmente, pura coincidência.
O certo é que é preocupante a sobranceria com que na Europa os media vêm as dificuldades do Presidente Obama em convencer o Senado a apoiar a sua política climática de inspiração europeia, assim como as distâncias que os grandes países asiáticos que são a China e a Índia mantêm para com o radicalismo destas ideologias.  E se, por aquelas bandas, se vier a verificar que os rumos escolhidos são outros, esperemos bem que a Europa se não crispe e que não inicie um novo grande conflito ideológico como os que ocorreram no século XX - para afinal, daqui a 10 ou 20 anos (a perda recente do satélite que visava medir as temperaturas oceânicas atrasará esta data), as dúvidas sobre a origem antropogénica do Aquecimento global terem sido definitivamente debeladas - ou, pelo contrário, se terem revelado afinal acertadas.

Sábado, Novembro 21, 2009

Espanto!

Acabo de ler uma notícia no Público on-line que me deixou varado de espanto! De espanto por pertencer a um país cujo Primeiro-Ministro é capaz de dizer publicamente uma asneira como a que acabo de ler!
Transcrevo a notícia:
"José Sócrates lembrou os “progressos notáveis” dos últimos quatro anos, concretamente no caso da energia eólica, passando de cerca de 500 para três mil megawatts instalados. “Fizemos nestes quatro anos investimentos nas energias eólicas que significam duas ou três centrais nucleares em termos de produção de electricidade. E vamos fazer mais. E estamos hoje a apostar como nunca se apostou na construção de barragens”, afirmou".
É que, como já expliquei desenvolvidamente aqui, há uma fraca relação entre "megawatts instalados" e electricidade produzida, nas fontes renováveis. Em Portugal, como na maioria dos países, são precisos 4 Mw instalados de eólicas para se produzir em média 1 Mw de electricidade. Essa média é ao longo do ano - há mais vento à noite que de dia, mais no Inverno que no Verão, e em regra uma eólica passa metade do seu tempo a produzir menos de 5% da sua capacidade, embora haja algumas ocasiões em que produza acima de 90%. Em média, úma eólica produz em Portugal 25% da sua potência "instalada!
No final de Agosto, Portugal já tinha mais de três mil megawatts instalados; tinha 3430 MW. E, neste momento (Novembro), até já deve ter 3500 MW. A questão é: quanta electricidade produzem esses cerca de 200 parques eólicos e perto de 1900 aerogeradores?
Ao longo de um ano, produzem o equivalente à geração contínua de 1/4 disso, ou seja, 875 Mw (x as 8760 horas que tem um ano).
E quanto custaram os 3500 MW de potência instalada nos tais cerca de 200 parques eólicos? É fácil fazer um cálculo: o investimento das eólicas foi até ao ano passado de 1,1 milhões de € por MW instalado, estando agora mais caro por os aerogeradores terem subido de preço. Pelo que, no total, temos um investimento realizado de cerca de 3,8 biliões de € (milhares de milhões) só nas eólicas, das quais 70% para os aerogeradores e o resto para "outros custos", segundo a EWEA (a Organização Europeia das Indústrias Eólicas).
Ora precisamente por este preço podia-se ter construído uma central nuclear de 1650 MW, como se pode verificar pelos valores actuais estimados pela DOE, a Agência Americana para a Energia e que eu já citei aqui.
Em "potência instalada" tal nuclear teria menos de metade da das eólicas existentes por cá, mas com uma primeira enorme diferença: uma central nuclear funciona à sua potência nominal quase permanentemente! Descontadas as paragens para manutenção, em média uma nuclear funciona à sua potência instalada 91% do tempo. Portanto, uma nuclear de 1650 MW geraria em média anual o equivalente à produção contínua de 1500 MW, +70% de electricidade que os 200 parques eólicos já instalados em Portugal!
Uma segunda grande diferença é que o tempo de vida estimado para um aerogerador é de 20 anos, mas para uma nuclear é de 40 anos. Porém, como noticia hoje a Scientific American, nos EUA está-se a chegar à conclusão que as centrais nucleares lá instaladas podem de facto, depois de fazerem os 40 anos de idade como muitas já estão a fazer, fazer mais 50 com actualizações relativamente menores!
Ou seja, o tempo de vida de uma nuclear é incomparavelmente superior ao de uma éólica, na verdade semelhante ao de uma hidroeléctrica. Pelo que o seu custo, distribuído por todo esse tempo, acaba por produzir energia uma ordem de grandeza mais barata. Claro, há que contabilizar os 8% de custo extra para o urânio (presentemente em saldo no mercado mundial, proveniente das ogivas desmanteladas pelos acordos de desarmamento), mas tal custo extra também existe nas eólicas - em rendas pelos terrenos ocupados.

Terça-feira, Novembro 17, 2009

Energia e negócios

No passado sábado, o Expresso conteve uma extensa publicação sobre os investimentos em curso em energias renováveis, e também algumas notícias sobre um alegado problema das centrais nucleares francesas que poderia acontecer cá, se também tivéssemos uma nuclear.
E, no contexto da notícia, o Expresso fez-se eco das posições anti-nuclearistas do "lobby eólico", nomeadamente de algumas afirmações pouco simpáticas da parte do Eng.º Aníbal Fernandes, líder do "consórcio ENERCON" (o coração do lobby eólico), fazendo também menção a interessantes posições do ex-Presidente da República Ramalho Eanes sobre o assunto.
Não vou, hoje, fazer uma análise técnica da questão, que carece de um post prévio detalhado sobre o nuclear que ainda não tive oportunidade de escrever.
O que me traz aqui hoje é um outro aspecto que foi aflorado numa troca de comentários de outro post e que merece agora algum desenvolvimento, a propósito destas notícias do Expresso.

Como já mostrei, quando o investimento planeado pelo Governo (com o aparente alheamento de toda a oposição, aliás), para a energia "verde" estiver terminado, todo esse investimento produzirá a mesma energia que produziria uma central nuclear típica.
Com efeito, teremos 5600 MW instalados de parques eólicos em terra, mais 4640 MW de hidroeléctricas reversíveis cuja capacidade de armazenamento permitirá regularizar a intermitência do vento, solução que produzirá a potência MÉDIA (a que é proporcional a energia) de 1500 MW, sensivelmente o mesmo que uma central nuclear de 1650 MW - ou 1/4 do consumo actual de energia eléctrica nacional.
A primeira questão que quero colocar é: quanto terá custado essa capacidade de produção energética?

A partir dos números que já apresentei noutros posts, pode-se estimar que o custo será de 13,5 biliões de €: 6,5 biliões das eólicas + 5 biliões das hídricas (dos quais 2 espanhóis), e cerca de +1 bilião no investimento da REN necessário para ligar tudo em rede. Importa ainda lembrar que as hídricas poderão operar por mais de 60 anos, mas que às eólicas se atribui um tempo de vida de 20. Para pôr tudo na mesma base de tempo, admitamos os 20 anos de duração das eólicas, e com este tempo só se terá de amortizar 1/3 do valor das hídricas (aproximadamente), o que conduz ao valor de 9,4 biliões de € para a referida energia (à potência média de 1500 MW durante 20 anos).
Quanto teria custado uma nuclear que produzisse a mesma energia? Com os dados mais recentes da Administração dos EUA que já citei noutro lado, 2,7 biliões de €, tendo em conta que uma nuclear dura cerca de 40 anos e que portanto em 20 anos só há que amortizar metade do custo inicial de 3,8 biliões, +30% a amealhar para o custo do desmantelamento final, +8% para o custo do urânio e tratamento dos resíduos nesses 20 anos.
Temos, pois, que o custo extra da solução "renovável" adoptada será, para a energia dos primeiros 20 anos, de +6,7 biliões de €, não muito menos que o custo estimado do TGV, ou 2700 € por família portuguesa.

Há muitos aspectos que se podem discutir sobre isto mas hoje, e por causa do Expresso de sábado, só pretendo falar de um:
Em 2001 a Direcção-Geral de Energia, organismo integrado no Ministério da Economia, encomendou ao Instituto Superior Técnico (IST) uma proposta de regulamentação técnica para as condições de ligação à rede das renováveis, que estavam prestes a iniciar a sua instalação em larga escala em Portugal. E o IST elaborou uma proposta legislativa, acompanhada de um guia técnico de aplicação, que se limitava a conter o que de melhor, na altura, se fazia nos outros países e que se adaptava ao nosso.
Esta proposta continha prescrições que a tecnologia da época permitia cumprir e regras de cálculo para definir em que pontos da rede já existente se poderiam vir a ligar os novos produtores, de modo a lograr-se sempre a solução mais económica para todos - mas especialmente para a rede pré-existente. Estas regras de cálculo, neutras por natureza, eram essencialmente copiadas das praticadas na Alemanha, um dos países com a regulamentação técnica mais completa nestas questões.
Em todos os países da União Europeia existem regulamentos destes, a que foi dada forma de lei. O mesmo sucede nos EUA, China, etc, sendo a Espanha de todos esses países o que tem a regulamentação mais pobre, mas mesmo em Espanha tal regulamentação foi publicada em "Decreto Real".
Em 2003 a União Europeia emanou uma Directiva, a 2003/54/EC, cujo artigo 5º manda explicitamente que "Member States shall ensure that technical safety criteria are defined and that technical rules establishing the minimum technical design and operational requirements for the connection to the system of generating installations, ...are developed and made public. These technical rules ...shall be objective and non discriminatory".
Esta directiva é de 2003, e a referida proposta legislativa de regulamentação técnica elaborada no IST ficou pronta no final de 2002, mas... nunca foi publicada!
Portugal é, pois, o único país do 1º Mundo sem legislação nem regulamentação técnica sobre o assunto.
Não havendo legislação que estabeleça as normas técnicas de ligação à rede das renováveis, como são então essas coisas decididas?
Por Comissões nomeadas pelo Governo, a partir de 2003, no que respeita à selecção e aceitação dos concorrentes que são preferidos, e depois basicamente pelos critérios discricionários e casuísticos da REN, no que diz respeito a pormenores operacionais. As únicas regras que existem publicadas são comerciais.
Já por aqui postei como isto nos encaminha, do ponto de vista técnico, para prováveis "apagões", mas a dúvida que quero partilhar hoje é a seguinte: com tantos biliões de € envolvidos nisto, não seria do interesse do Governo que, cumprindo a Directiva Europeia, houvesse uma regulamentação técnica "objectiva e não-discriminatória" (nas próprias palavras da UE) que não permitisse imaginar os fantásticos negócios privados que poderá proporcionar este modus operandi que se adoptou?

Quinta-feira, Novembro 12, 2009

Os apagões, o nuclear e as eólicas

Há uns dias o Expresso publicou on-line um vídeo mostrando uma visita ao reactor nuclear que Portugal tem perto de Lisboa, em Sacavém, há quase 50 anos, e que a maioria da juventude desconhece que existe.
Trata-se de um reactor experimental que Portugal comprou com o intuito de adquirir know-how na matéria, e que justificou até, então, a criação da defunta Junta de Energia Nuclear, onde trabalharam alguns dos melhores "cérebros" que Portugal tinha antes da queda do regime em 1974.
Na sequência da publicação da notícia proliferaram os comentários on-line sobre o reactor e surgiu um argumento contra a opção de instalação de uma central nuclear em Portugal que fora defendido há 30 anos, na última vez que tal opção foi discutida em Portugal. Esse argumento é que uma central nuclear é tão grande que a sua avaria repentina pode "mandar abaixo" toda a rede eléctrica, provocando um "apagão".
Ora e a propósito de apagões, houve ontem um no Brasil que deixou 50 milhões de pessoas às escuras (1/4 da população brasileira), havendo quem argumentasse que tal se deveu "à falta de investimento na rede de distribuição" devida "à ganância dos accionistas". Mas, na realidade, o apagão de ontem no Brasil nada tem a ver com redes de distribuição, e ilustra precisamente o que pode acontecer quando uma grande central "salta fora" repentinamente de uma rede eléctrica.
De facto, foi a central de Itaipu, que fica na fronteira do Brasil com o Paraguai e com a Argentina, que "saltou fora". Itaipu é umas maiores centrais hidroeléctricas do mundo, de facto a maior do mundo em produção de energia, produzindo uma potência média de 11 GW, o que é quase o dobro do consumo médio de Portugal! Fornece 90% da energia consumida pelo Paraguai e quase 1/5 da consumida pelo Brasil, mas está muito longe dos centros de consumo deste país, com linhas especiais de Alta Tensão com mais de 900 km de comprimento.
Foi uma sequência (rara) de incidentes que desligou essas linhas de Transmissão e levou a central a "saltar fora" e, no seguimento, a rede "partiu-se" (algumas linhas de Muito Alta Tensão terão desligado por não aguentarem a sobrecarga pedida ao norte) e as poucas centrais que havia na rede que ficou a Sul não aguentaram o pedido de energia que lhes caiu em cima repentinamente e saltaram fora também. É aliás assim que acontecem quase todos os apagões.
Uma vez ocorrido o apagão, a reposição da rede em serviço, ligando-se uma central de cada vez enquanto se procura a causa do incidente, leva tempo - neste caso levou 6 horas, provocando o caos e obrigando a cantora Madonna, que estava no Rio de Janeiro a visitar umas favelas, a ter de ir jantar à luz das velas.
Ora uma central nuclear não pode ser pequena, em termos da potência que fornece, para ser rentável. 1,35 GW é uma potência típica. E, naturalmente, pode-lhe sempre acontecer o que aconteceu agora com Itaipu.
Porém, hoje em dia o consumo médio de Portugal é de 6,0 GW, variando entre cerca de 3,5 GW de mínimo pela madrugada, e 9,0 GW de ponta pelas 20 horas, o que é muito mais do que o que acontecia há 30 anos, quando os consumos de electricidade eram de pouco mais de 1/4 dos actuais, em Portugal. Nessa altura, o consumo nas horas de vazio (madrugada) era inferior à produção de uma tal central, cerca de apenas 1 GW, o que criava um problema ao excedente e o grande risco de, caso a nuclear se tivesse de desligar inopinadamente, toda a rede "ir abaixo" e se ter um apagão. Mas isso já não é assim hoje, e o disparo de uma nuclear teria efeitos semelhantes, na pior hipótese, aos do disparo da central de Sines (1,2 GW), que aliás já tem acontecido e "mandado abaixo" o Sul do país - mas a fiabilidade de uma nuclear é muito superior à de uma central a carvão, e por isso o risco de tal acontecer é bem menor, menos de metade. E depende muito da concepção da rede em que se insira.
Entretanto, porém, a mesma energia que produziria uma tal nuclear será produzida, já no fim de 2010, pelos 5,1 GW de centrais eólicas que estão em instalação (e de que neste momento já estarão instalados uns 3,5 GW). Ou seja, a mesma potência média de 1,23 GW que uma central nuclear de 1,35 GW produz anualmente, serão produzidos por um conjunto de parques eólicos de 5,1 GW.
Acontece, porém, que a energia eólica é intermitente. Na maior parte do tempo, não produz mais que 5% (0,25 GW) da potência instalada, mas há ocasiões, sobretudo no Inverno e à noite, em que podem produzir 90%, ou seja, 4,5 a 5 GW. E isso é muito mais que os 3,5 GW que Portugal estará a consumir nessa altura e que é a razão de ser do projecto das 8 hidroeléctricas adjudicadas, como já mostrei , que trabalharão como estações de bombagem para dar consumo a essas eólicas.
É evidente, portanto, que vamos estar, com estas eólicas a superarem o consumo das madrugadas, precisamente na situação que há 30 anos levou a excluir a instalação da nuclear de Ferrel!
Há quem argumente que a situação é diferente porque no caso de uma nuclear se perderiam 1,35 GW de uma vez, enquanto que agora temos muitas turbinas eólicas pequenas e que, portanto, o risco de se desligarem todas simultaneamente é muito menor.
Ora isto é falso, e é precisamente a principal razão de ser deste meu post hoje: o risco de "saltarem fora" de uma só vez 3 a 4 GW de eólicas é maior do que o de saltar a tal nuclear (de 1,35 GW)! E porquê? Porque:
  1. Os parques eólicos estão concentrados, na sua maioria, em zonas restritas, especialmente no Minho;
  2. As eólicas que temos não foram concebidas para suportarem perturbações na rede eléctrica a que estão ligadas, desligando-se à menor perturbação; isto acontece porque o Estado português não previu nem publicou normas técnicas que o exigissem (ao contrário de todos os outros países com eólica em quantidade significativa, e apesar delas terem sido elaboradas no Instituto Superior Técnico no início desta década). Ou seja, cada eólica e cada parque eólico dos que temos suporta muito menos perturbações na rede eléctrica do que qualquer central tradicional, incluindo uma nuclear!
Há uns anos o Instituto Superior Técnico fez um estudo da situação e verificou que, muito antes de se atingirem os 5,7 GW planeados pelo Governo, se estará numa situação em que um incidente na rede de Muito Alta Tensão da REN na região do Minho fará "saltar fora" todas as eólicas da região. E o estudo mostrou que as linhas de ligação a Espanha aguentariam o "solavanco", mas que seria a própria rede espanhola que o não aguentaria (ela própria com eólica em excesso), vindo a ser as linhas de interligação a França que disparariam por sobrecarga, verificando-se de seguida o que aconteceu agora no Brasil: desligação das centrais remanescentes, por não aguentarem a energia subitamente pedida, e "queda" de toda a rede... ibérica!
Ou seja: quando ocorrer o inevitável apagão ibérico que tudo isto prepara, já sabem o motivo! E lembrem-se que a nuclear de há 30 anos foi rejeitada em parte por isto poder acontecer, na altura, mas que agora para o eólico nenhum responsável quis saber disso...

O caso das hidroeléctricas

É interessante (e triste) verificar que a Comissão Europeia acaba de publicar uma dura crítica ao Plano Nacional de Barragens, centrando-se sobre a (invocada) violação de normas ambientais relativas às águas, mas onde o Plano também "é criticado por não ter apresentado alternativas que permitissem uma mais clara relação entre os custos e benefícios do projecto, pelo que face aos dados disponíveis os autores do relatório consideram que "não se compreende esta decisão" do Estado português".
Exactamente, neste aspecto, isto é o que demonstrei detalhadamente aqui há cerca de dois meses!

No meio da crítica e contra-crítica que de imediato se seguiram, desde ontem, entre nós, os "verdes" no Parlamento criticam o Governo por este não ter preferido apostar no eólico off-shore em vez de nas barragens, não percebendo que o fito das barragens é precisamente o armazenamento da excedentária energia eólica que vamos ter.
E o Presidente do INAG, em resposta, descansou-nos dizendo que o investimento iria ser feito por privados e não pelo Estado, e que se os privados o fariam com certeza era porque os investimentos seriam rentáveis. Esqueceu-se foi de dizer que esses privados, a EDP, a Iberdrola e a Endesa, têm tarifas reguladas pela ERSE e definidas pelo Governo, e que portanto os tais investimentos só serão rentáveis porque o Governo garantiu a sua repercussão no défice e na tarifa que todos nós, consumidores, iremos pagar! Ou seja: os investimentos poderão ser rentáveis para essas empresas; não o serão de certeza é para Portugal e os portugueses!

Sábado, Novembro 07, 2009

Um Físico português que dá cartas sobre a estranha gravidade do Universo

A matéria negra que permeia as galáxias é uma hipótese éxplicativa que até hoje ninguém conseguiu identificar.
O problema resulta de, observando a forma das galáxias, se constatar que ela é incompatível com a quantidade de massa visível nas mesmas. Resumidamente, as zonas mais distantes dos seus centros rodam a uma velocidade tal que mantém as galáxias como se fossem, no seu todo, um corpo relativamente rígido, o que significa que, para essas zonas mais periféricas, que rodam mais depressa que as interiores, existirá uma atracção gravitacional para o interior muito grande - de facto, muito maior que a explicável pela quantidade de massa existente nesse interior. Pelo menos da massa visível.
Feitas contas, calcula-se que o referido fenómeno só é possível se a massa existente no interior das órbitas dessas zonas periféricas for pelo menos 6 vezes maior que a observável (e até 20 vezes, se se considerarem efeitos mais afastados!). Mas, como tal massa não é observável, diz-se que provém de uma misteriosa matéria negra (há quem a diga "transparente").
Há muito que há quem suponha que essa massa seria constituída por neutrinos, mas a contagem destes tem-se mostrado elusiva.
Outra teoria, mais especulativa mas mais fascinante, considera a possibilidade de esse efeito gravitacional extra provir de universos paralelos, existentes nas outras dimensões que a teoria das membranas conjectura existirem, e que o campo gravítico seria capaz de "atravessar" a separação entre universos. Convém notar que essas dimensões extra da teoria das membranas (ou das cordas) são muito pequenas, pelo que tais Universos existiriam quase sobrepostos ao nosso, uma espécie de mundos de espíritos, onde poderão até estar o Céu e o Inferno...
Mas há outra hipótese explicativa para o referido efeito gravitacional.
Essa hipótese é a de que lei da atracção universal de Newton está incompleta. Faltam-lhe termos quadráticos e de ordem superior, mas com constantes tão pequenas que tais termos só se fazem sentir para distâncias muito grandes, precisamente as das ordens de grandeza das distâncias galácticas e inter-galácticas.
Ajustando valores nesses termos de ordem superior, consegue-se explicar quase tudo (mas não tudo) dos fenómenos observados que geralmente se atribuem à elusiva matéria negra.
Porém, se a lei da atracção universal contém de facto termos de ordem superior, então há outras teorias da Física que têm de ser revistas. E a principal delas é a teoria da relatividade.
Pedro Gil Ferreita é, talvez, o Físico mundial que melhor tem estudado esta questão - e isto não é uma opinião da propaganda do "Portugal positivo", mas sim da Scientific American. E, como a Scientific American reconhece, uma conlusão essencial do Pedro Ferreira é a de que é possível ajustar a teoria da relatividade para uma lei da atracção gravitacional diferente da de Newton, mas á custa da consideração, nessa teoria, de campos de forças... negros! Ou seja, de campos de forças adicionais aos que conhecemos, de uma natureza tão elusiva como a da matéria negra.
A Física tem acumulado nas últimas décadas uma grande quantidade de dados observados para os quais não existe explicação teórica satisfatória e muito menos comprovada.
Na última década, à estranha forma das galáxias que levou à ideia da matéria negra, juntou-se a constatação de que a expansão das galáxias, em vez de estar a desacelerar como era suposto, pelo efeito da atracção gravitacional, está a ...acelerar! O que é explicado pela existência de um campo de forças, ou energia... negra! Ou seja: pura e simplesmente não há explicação!
Se a História permite extrapolações, a Humanidade está á beira de um salto revolucionário na Física.
E, seja quem for o próximo Einstein, Pedro Ferreira terá sempre sido um contribuinte importante dessa revolução que se avizinha.

Sábado, Outubro 31, 2009

As declarações do Eng.º Penedos - actualizado

Num evento com empresários de Coimbra no passado dia 23, o Presidente da REN e destacado militante do Partido do Governo, Eng.º Penedos, anunciou o advento de um "novo paradigma energético", em que "a procura irá condicionar a oferta". Num discurso que, tal como foi transcrito pela imprensa, terá sido bastante confuso, falou de um futuro a cinco anos em que o consumidor, então também microprodutor, "irá estar em casa e poder ver os preços daquela hora no mercado e decidir se vai consumir energia ou se vai pura e simplesmente prescindir e passar o consumo para outra hora que seja mais económica"!...
A confusão deste discurso é que, desde sempre, foi a procura que condicionou a oferta de energia. Um consumidor liga o interruptor e as centrais eléctricas ajustam a produção a essa procura. Isto é como funciona e sempre funcionou o sistema de energia! Se foi isto que ele disse, não se entende onde está a novidade!
Porém, o que o Eng.º Penedos quis sem dúvida dizer foi o oposto e que, como eu já aqui alertei, é o que de facto os ecotópicos nos preparam: será a oferta que condicionará a procura!
O que o Eng.º Penedos nos anuncia é, por outras palavras, claras e sem confusão, o seguinte: como as energias renováveis são intermitentes e incontroláveis, ao contrário das fontes tradicionais, vai acontecer haver horas e dias em que não haverá energia para todos - o que se vai traduzir em preços exorbitantes que, muito simplesmente, deixarão de fora da civilização de que usufruímos há um século quem não for muito rico! E que, provavelmente, enriquecerão em muito empresas monopolistas como a REN...
Certamente para parecer moderado e equilibrado, o Sr. Eng.º Penedos mostrou-se também aberto à opção nuclear - com uma condição: desde que sejam centrais de uma tecnologia que ainda não existe! Centrais nucleares como as 435 que existem presentemente a funcionar em 31 países, incluindo as 8 que existem em Espanha, que produzem 15% da electricidade mundial e quase 80% da barata electricidade francesa, de que se constroiem novas em grande quantidade por toda a Ásia (há presentemente 52 em construção, mais de metade das quais na China), estão fora de causa! Aceitáveis, só as que "não produzam resíduos", estando sem dúvida a referir-se às centrais de IV geração de cuja disponibilidade se fala lá para 2040...
O Eng.º Penedos dirige uma empresa em que a margem de lucro é proporcional aos investimentos feitos. Por isso, e ele sabe isso perfeitamente, a REN investe com uma lógica completamente contrária à da eficiência - quanto mais investir em redes e equipamentos desnecessários, mais lucros tem. A chamada lógica burocrática.
Foi contra isto que, vai para 30 anos, Reagan decretou a "purple", liberalizando o acesso às redes e à produção de energia nos EUA, o que foi no seguimento copiado por todo o mundo. E, porque havia largo excesso de equipamento de rede, na década seguinte à promulgação da "purple" não foi preciso investir mais apesar do crescimento dos consumos, o que permitiu uma grande redução dos preços da energia nos EUA, ainda hoje a 55% dos nossos.
Infelizmente a História muitas vezes dá um passo em frente para depois dar dois passos atrás...
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Dias depois de ter "postado" isto, apareceu nos media uma notícia deveras triste: a de que o Eng.º Penedos seria arguido, juntamente com o seu filho, de um esquema de favorecimento de um certo grupo empresarial de Aveiro que terá a seu cargo. nomeadamente, o tratamento dos resíduos industriais das nossas empresas "energéticas".
Francamente, estou pouco interessado em saber se o Eng.º Penedos cometeu algum crime ou não. O que deveras me preocupa é outra coisa.
De há uns tempos para cá, quer a EDP quer a REN deixaram de tratar os resíduos industrais dos seus equipamentos, nomeadamente cinzas (algumas com teores de mercúrio) e óleos (portadores dos cancerígenos pcb). Esses resíduos passaram a ser tratados em "outsourcing", por empresas como a O2 - Tratamento e Limpeza Ambientais, SA, que surge agora no cerne desta triste história.
Ora, há uns meses, muito antes desta investigação criminal ser conhecida, um quadro de uma destas empresas manifestou-me a sua preocupação quanto ao desconhecido destino que estariam a ter os referidos resíduos industriais. No meio da conversa, surgiram referências jocosas à máfia italiana e aos crimes ambientais que o "negócio do lixo" tem causado por todo o lado e de que a filmografia é pródiga a romancear.
Sabemos agora que a referida empresa de Aveiro está envolvida em avultados esquemas de corrupção e em enormes fraudes fiscais, nomeadamente com a emissão de facturas falsas. Será que o tratamento dos resíduos industriais propriamente ditos foi feito como deve ser, sabendo-se como por todo o lado esse negócio é frequentemente mafioso? De facto, e conforme o Eng.º Oliveira me chamou a atenção depois de publicar uma versão anterior deste post, a TVI mostrou há semanas uma reportagem sobre a "máfia lusa dos lixos" que é verdadeiramente aterradora! E, no entanto, os medias e aparentemente a justiça parecem muito mais interessados na identificação de corruptos do que em identificar se a empresa que está por detrás de tudo isto comete ou não crimes ambientais!
Seria verdadeiramente triste vir a saber-se, entretanto, o que sinceramente desejo que não aconteça, que a liminar rejeição da opção nuclear para Portugal, em nome do seu alegado "problema dos resíduos", andasse a par da cumplicidade com negócios mafiosos no tratamento dos outros resíduos industriais da produção de energia e nos eventuais crimes ambientais associados...!

Sexta-feira, Outubro 23, 2009

Nada que não seja sabido, mas que há quem prefira não saber!

O Fundo Mundial para a Natureza avisa, numa notícia nos jornais de hoje, que ardem por minuto 36 campos de futebol de florestas, no mundo. E que essa desflorestação contribui com 20% da totalidade os Gases de Efeito de Estuda (GEE) de origem antropogénica! É assunto para que tenho chamado a atenção diversas vezes, até porque há muito quem apregoe que os combustíveis fósseis são responsáveis por 85% dos GEE, quando na verdade o serão por apenas uns 50% e, destes 50%, só 40% (portanto uns 20% do total) resultam da soma da produção de energia eléctrica com o transporte rodoviário...e atenção: limito-me a citar dados do próprio Painel Climático da ONU, e não de algum blog negacionista...! Estes dados mostram ao mais inumerato dos ecotópicos que os fogos florestais emitem tantos GEE como todas as centrais a carvão e todos os automóveis e camiões do mundo juntos!!!

Diz o Fundo que é preciso compensar a floresta ardida com reflorestações, de modo a atingir-se um equilíbrio. Vale a pena notar que o que se tem passado é que onde as florestas ardem é no Sul, nos países subdesenvolvidos, e que onde são plantadas é no norte, nos países desenvolvidos.
Além da modificação do tipo de floresta que tal acarreta, isto mostra como o mito do bom selvagem original que os ecologistas utópicos (ou ecotópicos) gostam de acalentar, o mito de que é preciso regressar ao "equilíbrio natural" do homem primitivo, é mesmo um mito.
A verdade é que só o homem muito civilizado é que sabe que as actividades humanas perturbam o ambiente e é capaz de tomar medidas para o proteger; que é nos países civilizados que há parques naturais onde a fauna e a flora originais são preservadas, e mesmo os parques que existem a Sul só se mantêm por grande pressão dos povos do Norte.
Na Gorongoza, mal os colonos abandonaram Moçambique os nativos acabaram com os animais de "vida selvagem" que lá havia - sobretudo comendo-os.
Os maias da antiga civilização deram cabo dos terrenos que cultivavam até ao abandono das cidades (também resultantes do extermínio mútuo entre cidades que não aprenderam a fazer com o homem ociental)...
O mamute norte-americano desapareceu com a chegada do Homo Sapiens ao continente americano. E o homem de Neanderthal idem, na Europa...
Para Copenhague, o principal obstáculo a um acordo é o montante que se pretende que os civilizados do norte paguem aos povos do Sul para que estes poupem o seu próprio ambiente.
Infelizmente receio que vá ser muito difícil que qualquer acordo nessa matéria, caso se consiga, venha a ser cumprido.

Segunda-feira, Outubro 19, 2009

A nova central solar do Santuário de Fátima - com correcção

Uma notícia de hoje dá conta da instalação, no telhado da Igreja da Santíssima Trindade, no Santuário de Fátima, de uma central fotovoltaica com 100 kW de potência "de pico".
Ontem à tarde,"O padre Cristiano Saraiva, administrador do Santuário, acompanhou ...um grupo de jornalistas à instalação de energia. Trata-se de uma opção feita para colaborar no esforço global contra as alterações climáticas, mas também para tentar reduzir a factura energética do santuário, explicou".
Uma iniciativa destas pela Igreja Católica tem um alto valor simbólico e é, por isso, meritória. Penso que no futuro será de esperar um empenho crescente da Igreja nestas questões, sendo mesmo talvez de se lho reclamar, sabendo-se como as alterações climáticas antropogénicas derivam, no fundo, do excesso de população humana neste planeta finito e de como a Igreja se opõe à limitação da natalidade.
Áparte o valor simbólico da iniciativa, porém, a notícia que a acompanha contém, como infelizmente é usual, um enorme acervo de incorrecções técnicas que se inscrevem na retórica ecotópica do costume, e de que vou dissecar algumas. Não que pense que a Igreja tenha alguma responsabilidade nisto! Sinceramente, acredito que os clérigos envolvidos nesta decisão sejam inocentemente crédulos, quanto ao que ouvem a propaganda dizer sobre estas coisas...

O custo anunciado para esta Central é de meio milhão de €. Ou seja, 5000 € por kw de "pico".
Porém, como se tratam de painéis fixos instalados em telhado, incapazes de seguirem a deslocação do Sol ao longo do dia, a potência média desta Central nunca ultrapassará os 14 a 15 kw. Basicamente pela necessidade de amortizar o investimento, o custo de produção da energia assim produzida ficará pelos 44 ç/kwh, mais cara mais de 10 vezes do que se fosse produzida por uma central nuclear, quase 3 vezes o que o que o próprio consumidor paga à EDP! Só poderá ficar com um custo de produção inferior se as taxas de juros consideradas para o investimento forem subsidiadas...
Obviamente esta instalação só será rentável porque a energia por ela produzida é fortemente subsidiada. Como notei aqui, a EDP é obrigada a pagar 61,75 ç/kwh por esta produção, mas não será como remuneração pela venda de energia que a central solar de Fátima vai ser rentável; será, isso sim, pela captação dos subsídios de decisão política do Governo.
Entretanto, a notícia informa que a central produzirá 150 mil kw por ano (a eterna confusão entre potência - kw - e energia - kwh -...), o que é só um pequeno exagero, visto que a central poderá produzir de facto uns 130 mil kwh anuais (14.84% dos 100 kw de "pico" x 8760 horas que tem um ano). Naturalmente, produz muito mais nos dias longos e soalheiros de Verão do que nos nublados e curtos do Inverno, como se mostra na figura para uma instalação portuguesa típica similar.

Diz ainda a notícia que esta energia produzida pela central solar de Fátima "permitiria alimentar 500 casas". Mas trata-se evidentemente de um erro de zeros; o consumo doméstico médio em Portugal foi de 2611 kwh em 2007, e portanto 130 mil kwh dão para alimentar... 50 casas, e não 500! A 10 mil € de investimento por casa, note-se... se não se tivesse ainda de adicionar ao custo da Central o custo dos meios de armazenamento da energia, de modo a poder-se usufruí-la à noite, que é quando faz mais falta!

Uma estimativa por alto mostra que se considerarmos este custo extra das barragens de armazenamento e o da rede necessária para levar para lá a energia e trazê-la de volta ao início da noite (custo pago por todos os consumidores), e que as perdas energéticas nesse processo reduzem a energia total remanescente à capaz de satisfazer já não as 50 mas apenas 40 casas (o rendimento da armazenagem nunca é melhor que 3/4), mesmo admitindo que 1/3 do consumo seja durante o dia, o custo total deste empreendimento ficaria por nunca menos de 15 mil € por cada uma das 40 casas alimentadas, e isto sem considerar o pagamento dos lucros dos intervenientes no negócio... mas, felizmente, não há só energia de origem solar na rede, e pode-se conceder que na verdade toda a energia solar desta central é consumida durante o dia, em parte da povoação de Fátima, e que à noite, pelas 20-21 horas, quando o consumo doméstico atinge o máximo, as centrais eléctricas convencionais cá estarão para servir os consumidores - incluindo a iluminação da Igreja.

Finalmente, a notícia diz que "A central já instalada permite poupar o equivalente a 31.390 litros de gasolina ou 160 barris de óleo". Em "óleo", devem querer dizer "oil", petróleo. Mas é difícil entender como foi estabelecida esta relação entre gasolina e petróleo, por um lado, e electricidade, que não é produzida a partir daqueles combustíveis. O que talvez se pudesse dizer é que esta instalação permitiria poupar a emissão de 125 toneladas de CO2 por ano (de centrais a carvão), mas só a partir do termo da primeira meia dúzia de anos, já que até lá o CO2 poupado apenas "pagaria" o que teve de ser gasto para a produção dos próprios painéis solares, uma fabricação que requer imensa energia...

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O leitor Fernando Marques comentou, com razão, que a tarifa remuneratória que eu mencionara de 61,75 ç/kwh só se aplica á microgeração (potências até 5 kw). De facto, dada a potência de 100 kw em causa, a tarifa remuneratória é definida de modo mais complexo, pelo Decreto-Lei nº 225/2007. Umas contas por alto mostram que sendo assim a tarifa que a EDP pagará pela energia produzida por esta central deverá andar á volta de 35 ç/kwh, o que efectivamente só pagará os custos de investimento do Santuário se este tiver conseguido condições de financiamento muito favoráveis (em taxas de juros) para o meio milhão de € investidos. Mas, ainda assim, esta tarifa será mais do dobro do que o consumidor médio paga pela energia eléctrica que compra, e o diferencial será pago pelo conjunto dos consumidores (senão pelos contribuintes, se um dia for o Estado que for chamado a saldar o défice das "eléctricas"), sem mencionar os custos de rede.

Diz ainda o leitor que de qualquer modo se trata de um "benefício para a sociedade". Nestes posts eu não tenho feito distinção entre quem lucra e quem perde nestes negócios em Portugal, porque todos constituímos"a sociedade". Interessa-me muito mais, precisamente, é discutir se "a sociedade" no seu conjunto beneficia destas políticas, e aí é que me parece óbvio que a "solução" solar como medida de combate ao aquecimento global é absolutamente insustentável para nós, para qualquer sociedade e para a Humanidade em geral, agora e nas próximas décadas, como já mostrei noutros posts.

Sábado, Outubro 10, 2009

A todo o gás!

Tal como para o petróleo, de que presentemente só se conseguem extrair 30% das reservas conhecidas e para o qual se espera a emergência de novas tecnologias capazes de extrairem muito mais, também para o gás natural a tecnologia vai alargando as reservas exploráveis.
Agora, foi a descoberta de um modo de extrair o gás embedido em rochas e que aumenta as reservas exploráveis no mínimo dos mínimos em 20%!
Anda tudo excitadíssimo, particularmente cá pela Europa!

Quarta-feira, Outubro 07, 2009

A explosão demográfica não é só responsável por 1/3 dos Gases de Efeito de Estufa

Um interessante artigo da Scientific American aborda vários aspectos relacionados com a explosão demográfica humana, além da causa directa que é, pelo uso dos solos, de 1/3 (a 1/2...) da emissão de Gases de Efeito de Estufa (GEE): há também a escassez de água, e a necessidade de aumentar mais ainda a produtividade da agricultura, particularmente na África sub-sahariana.

Uma das esperanças para este aumento da produtividade agrícola são as espécies geneticamente modificadas a que, no entanto, os ecotópicos se opõem.

O problema é que eles desejam um mundo como na primeira das figuras seguintes, quando ele de facto é sobretudo como na segunda figura...

Terça-feira, Outubro 06, 2009

Portugal positivo

Amanhã, quarta-feira 7, haverá um seminário no Tagusparque:

"Revoluções & Oportunidades -- Uma missão para a Universidade e algumas reflexões"
pelo Professor José Epifânio da Franca

Local: Sala 1.36 ("Sala de Formação")
Hora: 16h00 -- café e natas, 16h30 -- talk

Resumo:

A indústria de semicondutores, que tem pouco mais de 50 anos de existência, foi e continuará ser palco de revoluções tão silenciosas como profundos são os seus efeitos nas nossas vidas e no mundo.
Revoluções que rasgam enormes avenidas de oportunidades para que o conhecimento e o empreendedorismo construam novas aventuras e cimentem o desenvolvimento, a modernização e o progresso.

A “Mead & Conway Revolution” iniciou-se com a publicação do livro “Introduction to VLSI System Design” (Dezembro de 1979) que veio desmistificar e rapidamente massificar o que era conhecimento e tecnologia até então de exclusiva propriedade de algumas (ainda poucas) empresas de semicondutores.

Nos primórdios da indústria de semicondutores, quando os “chips” continham algumas centenas de transístores, o seu projecto era realizado quase exclusivamente em empresas e sempre próximo da sua fabricação. O conhecimento das técnicas e metodologias de projecto permanecia estanque nessas empresas, não sendo possível às Universidades proporcionar a formação de base necessária à preparação de profissionais qualificados.
A revolução de Mead & Conway consistiu em separar o projecto da fabricação de circuitos integrados, criando assim as condições fundamentais para que o acesso ao conhecimento dessa tecnologia passasse a ser universal, acessível a qualquer um e em qualquer lugar.

Esta revolução desencadeou uma outra revolução sem paralelo na história de qualquer outra indústria mundial. A revolução da desintegração da cadeia de valor que cria oportunidades, a qualquer um e em qualquer lugar, de participar na que porventura continuará a ser a indústria mais estratégica e global deste século.

Fundada em 1997 a partir de um grupo de investigação do IST, a Chipidea participou nesta revolução. Aproveitou a oportunidade para se tornar pioneira no desenvolvimento da indústria da propriedade intelectual dos circuitos e sistemas integrados analógicos (“Analog Semiconductor Intellectual Property”), tornou-se líder mundial em 2004 e é hoje parte da maior empresa mundial de EDA (Synopsys).

Mas mais que um negócio, foi uma missão que esteve na origem da criação da Chipidea. A missão de criar em Portugal uma actividade profissional que pudesse absorver o conhecimento que era criado na Universidade e que de outra forma seria irremediavelmente perdido, para sempre ou para o estrangeiro. A missão foi cumprida e o seu impacto é irreversível: existem já hoje em Portugal 5 empresas na árvore genealógica que a Chipidea plantou em 1997 e que continuará a crescer nos anos vindouros.
Pelo caminho, ficam algumas reflexões sobre o que continua a tolhar o nosso desenvolvimento, modernização e criação de riqueza.

Segunda-feira, Outubro 05, 2009

A prova final

Como é sabido, as classificações dos alunos do secundário nos exames de Matemática têm melhorado espectacularmente, nos últimos anos.
O Governo e em particular a Ministra da Educação têm justificado esta melhoria como uma prova do "Portugal positivo" que o Governo estaria a construir, e concretamente como um produto da reforma da educação que o Governo realizou, através do novo estatuto do aluno e da avaliação dos professores.
Pelo contrário, a Associação Portugesa de Matemática, de Nuno Crato, e outros especialistas providos de "pessimismo" e "espírito do bota-abaixo", dizem que esses melhores resultados são fruto de mero facilitismo nos exames e constituem um engano.

Quem terá razão?

Ora o Instituto Superior Técnico, com o apoio da Sociedade Portugesa de Matemática, realizou este ano uma prova de matemática a todos os alunos que lhe chegaram do secundário, para averiguar da sua preparação.
A última vez que uma tal prova fora realizada, fora há 7 anos.
Nessa prova realizada há 7 anos, tiveram positiva 80% dos alunos, e 2/3 tiveram mais de 15 valores.
Já na prova deste ano, tiveram positiva 45% dos alunos, e só 10% conseguiram mais de 13,3 valores.
Terá isto alguma coisa a ver com o facto de a Esolováquia (bastante mais pobre que a sua vizinha Checa) nos estar a ultrapassar em PIB por habitante?

Domingo, Outubro 04, 2009

O nosso contributo incendiário para o efeito de estufa - com nota extra

Este Verão terão ardido em Portugal 77 mil hectares de floresta.
Terá sido mais que nos 3 anos anteriores, mas muito menos que no ano record de 2003, em que ardeu quase 6 vezes mais.
Mesmo assim, os incêndios deste Verão terão emitido 1,3 milhões de toneladas de CO2 para a atmosfera, o que constituirá 1,6% do total de emissões portuguesas que, como habitualmente, não considera estas e outras emissões resultantes do uso do solo. Isto, considerando modelos desenvolvidos no Instituto de Agronomia de Lisboa em 2006.
Mas, só a Central a carvão de Sines, já bastante velha, emite em menos de 2 meses de funcionamento tanto CO2 como o total destes incêndios, o que tem sido justificado para a ir usando cada vez menos, em benefício das eólicas e das hidroléctricas de armazenagem que as servem e, sobretudo, das de ciclo combinado a gás natural.
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Incentivado por uma pergunta de um comentário, fiz uma busca que me permitiu descobrir que, além do cálculo feito no Instituto de Agronomia para 2003 e que citei na resposta a esse comentário, existe um amplo e sério trabalho feito continuadamente sobre o assunto na Universidade de Aveiro, sob a direcção dos Profs. Ana Miranda e Carlos Borrego.
Um trabalho deste grupo já com uns anos, estimava em 10% a contribuição dos fogos estivais para os GEE em Portugal: além do CO2, todos os outros gases estão presentes nesses fogos, do metano aos nitritos, alguns dos quais agentes muito piores do Efeito de Estufa!
Trabalhos mais recentes desse grupo de Aveiro e outros mostram duas coisas: a) que os fogos libertam também outros elementos nocivos e cuja concentração atmosférica nas grandes cidades portuguesas tem uma clara correlação com a ocorrência desses incêndios, como o Ozono e o mercúrio; b) que, tal como noutros países industrializados, se verifica uma tendência imparável para o aumento anual dos fogos. Na Coreia isso é correlacionado com as próprias práticas de reflorestação pós-incêndios.
Estes factos, pouco conhecidos, já os tinha aflorado aqui.

Sexta-feira, Outubro 02, 2009

A competição pelo carvão limpo

O actual Secretário de Estado da Energia dos EUA, o prémio Nobel Steven Chu, avisou esta semana ao CO2 emitido pelas centrais a carvão: "We will bury you"!
Isto foi escrito num artigo na Science onde era explicada a decisão pelo Governo Obama de dedicar 3-4 biliões de dólares à I&D para a captura e enterramento do CO2 emitido por aquelas centrais.
Parece, pois, que a decisão política a que o EPRI apela e que aqui referi, foi tomada.
Naturalmente, isto de obter uma tecnologia que torne as centrais a carvão "limpas", tanto como as renováveis ou o nuclear, não é só uma questão de salvar o mundo: é também uma oportunidade estratégica de negócio!
Quem dominar essas tecnologias, dominará grandes e lucrativos mercados mundiais.
E é certamente por isso que a China iniciou a construção não de uma, mas de duas grandes instalações prototípicas, com duas tecnologias diferentes (a ensaiar), para a captura e enterramento do CO2 produzido pelo carvão.
Quem dos dois países, EUA e China, ganhará a corrida, é difícil prever. Ambos esse países são ricos em carvão e usam-no abundamentemente para a produção de electricidade, de que o carvão é lá a principal fonte primária, e é bom que ambos apostem no mesmo.
Quanto a nós, só temos que esperar para ver a quem vamos depois importar, chaves na mão, essa tecnologia de que não haveremos de perceber nada, entretidos que teremos andado a acompanhar vagamente projectos europeus de investigação fundamental, a fazer barragens para armazenar o excesso de energia gerada pelas turbinas eólicas que importámos e a investigar "redes espertinhas" que, da forma como as imaginamos hoje, nunca existirão.
Na figura: operários chineses numa mina de carvão, 2008

Quinta-feira, Outubro 01, 2009

Preço da energia daqui a 20 e a 40 anos

O EPRI ("Electrical Power Research Institute") é a entidade que supervisiona a maioria da Investigação & Desenvolvimento (I&D) em matéria de energia eléctrica na América. É suportado pelo conjunto das Empresas de Electricidade americanas e também conta com o apoio de empresas de 40 outros países, como a EDF francesa, de Universidades e consultores independentes.

Com largos recursos, o EPRI faz ele próprio I&D, mas também financia muita feita por terceiros, sob contrato. No entanto, a sua ligação às empresas e à economia real dá-lhe um pragmatismo económico e um bom senso social muitas vezes ausentes nos académicos.

Nos últimos anos, o EPRI tem procurado avaliar e prever as tecnologias que permitam reduzir as emissões de CO2, juntando-lhe as dimensões sócio-económicas, e realizou dois estudos de que publicou recentemente um relatório actualizado.
Infelizmente o relatório completo só é acessível às empresas sócias do EPRI, mas um resumo do mesmo pode ser consultado aqui.
Nesse relatório são projectados dois cenários de futuro para os EUA quanto às tecnologias energéticas desenvolvidas para a redução das emissões de CO2. Considera-se que se pretende uma redução das emissões de CO2 para 60% do seu valor recente dentro de 20 anos (2030), e para 20% vinte anos depois (2050).

No primeiro cenário, ou de opções limitadas, são excluídos o carvão com captura de carbono (CCC) e o desenvolvimento do nuclear, em consonância com os desejos dos ecotópicos.
No segundo cenário, ou de carteira completa de opções tecnológicas, todas as tecnologias são incluídas.

Em ambos os casos são previstas as melhores soluções, dentro das limitações assumidas.

A previsão da utilização das várias fontes energéticas ao longo das próximas décadas é ilustrado na figura seguinte, respectivamente para a opção de carteira limitada (sem nuclear nem carvão "limpo") e de carteira completa.

No primeiro cenário, em que se decide a exclusão do carvão limpo e do nuclear, verifica-se, a partir do presente (2010), um abandono progressivo do carvão e do nuclear (não instalação de novas centrais e desmantelamento das antigas à medida que atinjam o fim da sua vida útil), e um grande crescimento das energias renováveis, com a solar a fazer o seu aparecimento em força dentro de 20 anos. Porém, as medidas mais significativas serão a redução do consumo, em parte devido ao aumento da eficiência energética, e a curto prazo um grande aumento do consumo de gás natural, em substituição do carvão.

É evidente que isto é o que está a acontecer na Europa, e em particular em Portugal, onde novas centrais de ciclo combinado estão a ser instaladas a um ritmo frenético, ao mesmo tempo que se reduz o uso do carvão. Estas centrais, note-se, funcionam a gás natural, e dizem-se de ciclo combinado por terem dois ciclos termodinâmicos combinados que lhes dão uma grande eficiência: uma turbina a gás (basicamente semelhante às dos motores a jacto dos aviões, mas muito maiores), e depois um ciclo de vapor em que a caldeira é aquecida pelos escapes dessa turbina, que ainda saem dela suficientemente quentes para isso. O gás natural tem o seu preço indexado ao do petróleo e as suas reservas no sub-solo são maiores que os deste, mas limitadas.

No segundo cenário o uso das renováveis é praticamente o mesmo (mas sem o caríssimo solar), o nuclear cresce paulatinamente nos próximos 20 anos mas não o do uso do gás natural (cuja queima emite CO2, recorde-se), o que permitirá uma redução mais suave do consumo do carvão (mais barato), até estar dominada a tecnologia da captura do CO2 das respectivas centrais, aqui prevista para dentro de 20 anos (como o solar). A partir daí o nuclear estabiliza e dá-se um forte retorno às centrais a carvão, agora "limpo", assim como a generalização dos automóveis eléctricos. A redução do consumo também dará um contributo essencial para a redução do CO2 emitido, mas não tão drástico como no cenário de opções limitadas (onde terá o papel principal), e porquê? O gráfico de previsão da evolução dos preços para ambos os cenários explica-o.

A previsão da evolução de preços da electricidade é que, seja como for, estes vão subir significativamente!

Mas, enquanto no cenário com todas as opções, os preços subirão para 180% nos próximos 30 anos, e depois estabilizarão, no cenário sem nuclear nem carvão limpo os preços dispararão até serem mais do triplo do que são hoje, em boa parte devido à subida dos preços do gás natural à medida que se aproximar o seu esgotamento e à necessidade de reduzir ainda mais o CO2 emitido, que passará a ter nas centrais de ciclo combinado a sua principal fonte, uma vez eliminado o carvão. E é essa mesma subida dos preços que conseguirá a redução adicional de consumos sobre o cenário com todas as opções - mas, com toda a probabilidade, essa redução de consumo não será equitativamente distribuída; serão os pobres quem deixarão de poder aceder à energia!

Como não tenho o relatório completo do EPRI, não conheço em detalhe os seus modelos. Porém, estou em crer que a evolução das coisas será muito mais rápida do que o que o EPRI prevê, quiçá em metade do tempo - o que ele prevê para 2030 talvez ocorra já em 2020, e o que prevê para 2050 ocorrerá provavelmente até 2030.

Por outro lado, convém notar que isto são previsões para a América, onde os preços da energia são 55% dos actuais na Europa; com o cenário de mais 80% nos preços da electricidade, a América terá atingido os preços que vigoram presentemente na Europa...! Quanto ao que acontecerá por cá...

Nota o EPRI: a decisão sobre qual dos dois cenários de futuro se materializará, é uma decisão política, e tem de ser tomada agora. A "limpeza do carvão" (captura do CO2 emitido e seu enterramento no sub-solo) é, neste contexto, o tema de I&D que mais necessita de uma decisão política, porque existem soluções técnicas mas falta testá-las em grande escala e aprender com isso, e tais testes requerem investimentos que ninguém fará se os "ventos" político-ideológicos estiverem contra. O mesmo se passa em grande medida com o nuclear, que se "desaprendeu" de fazer devido a esses "ventos". Pelo menos fora da Ásia.

Quarta-feira, Setembro 30, 2009

Clusters industrais nas renováveis: 23 mil empregos, ou a fraude portuguesa do século? Parte II - o caso das hidroeléctricas

Recentemente, o Ministro da Economia em acumulação de funções anunciou um plano de aposta nas energias renováveis que implicaria a criação de 23 mil empregos e 15,5 biliões de euros de investimento. O plano estará em execução há já 2 anos e é para continuar por mais 6.

A enormidade do investimento anunciado e as implicações que ele terá para o futuro nacional tornam irrecusável o imperativo ético de trazer à discussão pública a bondade desta decisão. Um contributo para essa discussão, até aqui ausente do palco mediático (salvo posições do antigo Ministro da Indústria dos Governos de Cavaco Silva, Mestre Eng.º Mira Amaral), é o que decidi escrever no que acabará por ser um texto longo. Decidi escrevê-lo por partes, para postar à medida que o tempo mo permita.

Na parte I, mostrei, historiando, como as tecnologias da energia eólica levam tempo a dominar, como é preciso ter estratégias nacionais para atingir esse domínio, que problemas técnicos e que valor acrescentado existe no fabrico de instalações eólicas e, finalmente, como o que Portugal tem feito na matéria peca por um terceiro-mundismo sem sustentabilidade, nomeadamente quanto aos 1800 empregos que estará a criar. Nas eólicas, que em breve terão esgotado o potencial nacional, terão sido investidos directamente 6,5 a 7 biliões de €, importanto quase tudo e subsidiando fortemente essa importação, num exemplo único no mundo de fomento de indústrias estrangeiras. Àquele investimento haverá ainda que adicionar 1 bilião de €, pelo menos, na expansão de rede necessária para ligar as eólicas à rede eléctrica.

Nesta parte II, agora, debruçar-me-ei sobre os projectos hidroeléctricos em curso. Embora estes projectos sejam apresentados como visando o aproveitamento dos Recursos Hídricos nacionais, objectivo que naturalmente recolhe o apoio consensual dos portugueses, na verdade a energia de origem hídrica que estes investimentos acrescentam ao país é insignificante e, como demonstrarei, não é esse o seu objectivo principal.
O objectivo principal dos projectos hidroeléctricos em curso é a criação de reservatórios de energia... eólica, e principalmente energia eólica de Espanha! Mas que, na sua maior parte, vão ficar sem qualquer utilização.

  • Os factos dos investimentos hidroeléctricos em curso
Em 2008, começou a ser publicitado o relançamento do aproveitamento dos recursos hidroeléctricos nacionais, prosseguindo a construção de centrais que tinha sido bloqueada quando em 1995 o filósofo Prof. Doutor Manuel Carrilho acusou, no Parlamento, o então Ministro da Indústria e ex-especialista da EDP Eng.º Mira Amaral, de "barbarismo tecnocrático" por ele defender a barragem de Foz Coa. A barragem, que já estava em plena construção, foi suspensa pelo sub-sequente Governo de Guterres (1995-2001), e as gravuras pré-históricas lá encontradas só podem hoje ser visitadas com marcação prévia e com muita antecedência, como descobrem os ingénuos visitantes a quem ocasionalmente ocorre ir até lá fazer um passeio turístico.

As 8 hidroeléctricas cujo licenciamento foi atribuído já neste ano de 2009 tinham prevista uma potência instalada total, inicialmente, de 941 MW, mas a potência média esperada, considerando o caudal dos respectivos rios (que não se pode mudar), era de apenas 120,9 MW, menos de 1/8 do que produz em média a central a carvão de Sines e uns míseros 2,1 % do actual consumo nacional, um valor que apenas dá para cobrir o aumento de consumo de um único ano (sem recessão), como bem notou o ambientalista Prof. Doutor Joanaz de Melo.
Recordo que, como expliquei aqui, é a potência média que nos dá uma ideia da energia que uma central eléctrica efectivamente produz, e não a sua "potência instalada", que só é atingida muito ocasionalmente, ao longo do ano.

Dos referidos 941 MW inicialmente previstos para as 8 barragens, quase metade (424 MW) foram concedidos à espanhola Iberdrola, concretamente 4 das referidas 8 hidroeléctricas e que se situam na bacia do Tâmega e cuja exploração é inter-dependente.

A potência média dessas centrais da bacia do Tâmega, porém, era de apenas 59 MW, e há quem diga que mesmo este valor está sobreavaliado em 20%. E, no entanto, a Iberdrola ofereceu no leilão de concessionamento 1 bilião de € por elas, e mais tarde anunciou que afinal vai investir 1,7 biliões de € ali.
Ao mesmo tempo, a Iberdrola anunciou que vai ampliar a "potência instalada" das referidas centrais dos 424 MW inicialmente previstos para 1135 MW, mais 711 MW que o valor inicial, sobretudo na barragem de Gouvães!

Por outro lado a EDP, que ficou com 3 das 8 centrais e quase metade da potência a instalar inicialmente prevista (444 MW), anunciou também a ampliação desta potência em mais 263 MW, sobretudo na barragem do Alvito, e os investimentos atingirão, somando valores mencionados na imprensa, cerca de 1,1 biliões de €. Porém, a potência média destes 3 aproveitamentos, cuja potência instalada atingirá assim os 707 MW, a potência a que realmente é proporcional a energia de origem hídrica a gerar, será de apenas 50,6 MW.

A última das 8 barragens, Girabolhos, foi atribuída à espanhola Endesa, para um investimento inicialmente anunciado de 110 milhões de €. Esta barragem tinha prevista uma potência a instalar de 72 MW e uma potência média (proporcional à energia hídrica disponível) de apenas 11,3 MW, mas também a Endesa decidiu, já depois de ganha a concessão e similarmente ao que aconteceu com as outras 7 centrais, multiplicar por cinco a potência instalada, para 355 MW! O investimento final é agora indicado como sendo de 360 milhões de €!

Temos assim que, no total das 8 barragens, se estima em apenas 121 MW a potência média de origem hídrica disponível, mas a potência a instalar prevista no Caderno de Encargos, que era de 941 MW, vai ser efectivamente de... 2200 MW! Isto, para um investimento total anunciado (na imprensa) de 3,0 biliões de € (2/3 dos quais espanhois).

Desde já chamo a atenção de um detalhe crucial para entender estes aumentos de potência instalada e que adiante explicarei para que servem: em quase todos os casos os aproveitamentos serão reversíveis, isto é, as turbinas poderão trabalhar como bombas hidráulicas, enchendo os reservatórios das albufeiras com água já turbinada, puxada de jusante. Como comenta encantado o Eng.º Carlos Pimenta, "põe-se o rio a andar ao contrário"...

Entretanto, a estratégia destes investimentos só se entenderá perfeitamente se se recordar que a EDP tem em curso o reforço de potência instalada de outras 8 barragens (Bemposta II, Picote II, Alqueva II, Venda Nova II e III, Salamonde II, Paradela II e Cabril II), aumentando essa potência num total de 2000 MW, e ainda mais duas novas em construção (Ribeiradio e Baixo Sabor, com 244 MW de potência instalada), que adicionarão ao todo apenas uma potência média de 41,6 MW, para um investimento total de 1,85 biliões de €.

Somando todos estes investimentos, temos que no conjunto se está a falar de 4,85 biliões de € (2,85 da EDP e 2 espanhóis), + 0,55 biliões de € estimáveis de investimentos na rede eléctrica (pela REN), valor igual ao custo do novo aeroporto ou 4/5 do do TGV (embora no TGV o Estado co-financie 2/5, enquanto das novas hidroeléctricas o Estado tenha recebido 666 milhões de €). A potência instalada total será de 4640 MW, dos quais 4070 reversíveis mas, como mostrarei mais adiante, a energia de origem hídrica efectivamente produzida por tudo isto não ultrapassará o valor insignificante correspondente à potência média de 175 MW, menos do que produz um só dos 4 geradores da central a carvão de Sines. Na verdade, não é para esta energia que isto tudo está a ser feito, como ficará patente.

  • Quantos empregos? Milhares, só durante a construção dos aproveitamentos...!

As centrais hidroeléctricas, quando em exploração normal, ocupam muito pouca mão-de-obra porque hoje em dia são automatizadas e tele-comandadas. Fora alguns guardas e pessoal de manutenção permanente, as centrais não precisam de operadores, e dos 18 empreendimentos em curso só 10, como vimos, são inteiramente novos. O número de empregos permanentes criados por estas novas centrais não irá ultrapassar sensivelmente uma centena.
Já durante a construção dos aproveitamentos haverá uma utilização intensiva de mão-de-obra, mas o tempo de construção de cada um é, em média, cerca de 4 anos. Trata-se em grande parte de mão-de-obra temporária e deslocada para as empreitadas que, no auge da construção, atinge tipicamente o milhar. Assim, e à média de mil homens por 3 anos e por cada aproveitamento, tem-se que todos os empreendimentos somados poderão ocupar directamente, como ordem de grandeza, 6 mil trabalhadores durante 9 anos (2007-2016). Mas, dadas as condições de trabalho em causa (temporário, duro, e exigindo a deslocação para locais isolados), é muito provável que essas condições atraiam sobretudo trabalhadores imigrantes, considerando ainda que o ordenado típico oferecido para o pessoal não-qualificado nesta construção civil é de 550 € mensais com contratos por 3 anos (a duração típica da fase mais intensiva de cada obra).
Além destes quiçá seis mil empregos temporários, é frequente considerar que por cada um são criados 3 outros indirectos - obviamente, também só durante a construção dos empreendimentos. Parte destes empregos poderão estar nos serviços de apoio aos próprios trabalhadores deslocados (restaurantes, hospedarias), mas a maioria estará nas indústrias fornecedoras dos materais para os empreendimentos - cimenteiras, fábricas de equipamento eléctrico e mecânico, etc. Se, como é provável, houver uma situação de quebra de encomendas nessas indústrias devida à recessão em curso, é conjecturável que essas indústrias se encontrem numa situação de sub-ocupação dos recursos produtivos e que, portanto, as encomendas provenientes das barragens se limitem a ajudar a manter empregos já existentes - e em boa parte nas empresas estrangeiras donde se importem os equipamentos e materiais. Quanto tempo cada um destes empregos é ocupado pelas referidas encomendas é um dado desconhecido, mas certamente será, em média, bem inferior aos 4 anos de duração das obras.
Não deixa de ser verdade, no entanto, que a construção destes empreendimentos sempre incorpora uma maioria de valor acrescentado nacional, ao contrário dos parques eólicos.
  • O "reforço de potência" das centrais hidroeléctricas e a energia de origem hídrica que elas produzem
Recentemente, o Ministro do Ambiente clarificou no Parlamento alguns números actualizados destes projectos, mencionando os aumentos de potência instalada que acabaram por ser decididos pelas "eléctricas" depois da concessão, e associando-lhe um aumento de energia produzida. Esta associação entre a potência instalada numa central e a energia que ela produz é extremamente comum mas, como já expliquei aqui, é uma tremenda confusão, habilmente explorada por alguns e propagada depois por muitos outros (que não sabem Física elementar)!
Numa hidroeléctrica, a quantidade de energia produzível depende, antes de mais, do caudal do rio, ou seja, da quantidade de água por segundo que nele corre, e é evidente que no Verão há menos água que no Inverno, e que há anos secos e anos chuvosos - mas a potência instalada da central é projectada para se poder tirar dela o máximo de energia possível, quando for desejável!

E isto leva-nos à seguinte pergunta: basta aumentar a potência dos geradores de uma central hidroeléctrica, para tirar de um rio mais energia? Infelizmente a resposta é: não!

A energia que se pode tirar de um rio depende do caudal deste e da altura da queda de água da barragem. A energia que aí reside, a energia primária das hidroeléctricas, é a energia mecânica potencial que, todos o sabemos do ensino secundário, é quantificada pela massa de água multiplicada pela altura da sua queda.
A massa de água depende do caudal natural do rio, e não há nada que possamos fazer para o aumentar, pelo menos continuadamente.
A altura da queda depende da altura da barragem, mas esta depois de concessionada também não pode ser aumentada, porque isso iria alargar muito a albufeira e inundar terras não previstas na concessão.
Por conseguinte, a energia que a Iberdrola, a Endesa e a EDP vão poder tirar destas barragens, essa energia, ou a potência média, se preferirem, é praticamente a mesma - aumentem estas "eléctricas" a potência lá instalada ou não! As únicas excepções são algumas centrais que, já antes, não podiam aproveitar toda a água do rio no Inverno - centrais que tinham de "deixar passar" água sem a turbinar em alturas de cheia, quando o rio está muito caudaloso, por insuficiência de turbinas - como é o caso das velhas centrais do Picote e Bemposta, no Douro.

O que o "reforço de potência" permite, na verdade, é turbinar mais água no mesmo tempo - mas isso não aumenta a água disponível no rio, e portanto a energia!

Por exemplo, suponhamos que o rio tem um caudal de 10 metros cúbicos de água por segundo no Verão, mas de 100 metros cúbicos na época de chuvas; se se tiver potência instalada que chegue, consegue-se turbinar os 100 metros cúbicos por segundo no Inverno, mas no Verão as turbinas só funcionarão a 10% da sua capacidade - a menos que se tenha um reservatório, uma albufeira, onde se armazene a água de modo que se possa então, por exemplo, fechar as turbinas durante 9 horas e depois, à hora de ponta, a 10ª hora, despejar tudo de uma vez. Que é precisamente para que servem essas albufeiras, ou reservatórios elevados de água, e portanto de energia! Obviamente a energia gerada é a mesma, e a diferença está só no ritmo a que isso é feito ao longo do tempo, aquilo a que se chama potência.
Em regra, se a central não tiver albufeira, a diferença entre o caudal médio e o caudal de Inverno de um rio é por cá de 1 para 3, e por isso tipicamente a potência média que a central debita é à volta de 30% da potência instalada (que é a máxima de que ela é capaz). Se a central tiver albufeira, pode armazenar a água para ser usada nas horas em que mais falte a energia eléctrica, as horas de ponta, e aí já a potência média da central pode ser de apenas 1/6 da potência instalada - ou seja, a central poderá ter uma potência instalada dupla da do caso anterior, mas isso não significa que produza mais energia, repito, e sim e apenas que pode concentrar essa produção em certas horas.

Espero ter conseguido explicar esta diferença essencial entre potência instalada e potência média (a que é proporcional a energia) aos senhores jornalistas e politólogos!...

Ora, no caso dos investimentos em realização em Portugal, se a energia de origem hídrica que todos estes investimentos vão produzir é tão pequena (potência média de 175 MW), e se o reforço da potência instalada pouco aumenta a energia hídrica das centrais que já existiam, porque razão, então, se vão investir tantos biliões adicionais nestas barragens? Porque razão se não constrói uma potência instalada de até 6 vezes essa potência média de 175 MW, que seria 1100 MW, e em vez disso se vão construir 4640 MW, 4 vezes mais?
A resposta está no facto das turbinas previstas serem reversíveis, de poderem "pôr o rio a funcionar ao contrário", e o interesse desse facto explico-o no seguimento - mas, como é óbvio, quaisquer que sejam as turbinas elas não podem aumentar nem o caudal do rio nem a altura da sua queda, e portanto não aumentam a energia de origem hídrica extraível dos rios.

  • As turbinas reversíveis e as albufeiras como reservatórios de energia... eólica!
Antes de prosseguir, e só para fixar conceitos, noto que a energia é sempre a mesma entidade, mas que pode mudar de forma - pode ser mecânica, na forma de água nas alturas de uma albufeira, mudar para a forma eléctrica na central e nessa forma ser transportada até aos consumidores - mas, se a central funcionar ao contrário, se as turbinas puderem trabalhar como bombas hidráulicas, então é possível fornecer energia eléctrica à central e ela transformá-la de novo em energia mecânica de água nas alturas. Qual o interesse? Armazenamento! A água contida numa albufeira é energia armazenada que pode ser turbinada de novo, convertendo-se em electricidade, quando convier!

Ora esta utilização da albufeira como reservatório de energia, carregado pela central eléctrica a funcionar como uma estação de bombagem, é muito útil e de facto usada há muito pelo mundo fora quando existe, algures, uma outra fonte de energia que se queira aproveitar mas que se não possa controlar. É, precisamente, o caso das fontes de energia renovável, muitas vezes. O Sol não ilumina de noite e, portanto, se se quiser aproveitar a energia solar à noite, é preciso armazenar essa energia nalgum lado. Pode-se, pois, converter a energia solar em eléctrica, transportar essa electricidade até uma hidroeléctrica com turbinas reversíveis, bombar água para cima com essa electricidade, e á noite voltar a turbinar a água da albufeira, produzindo de novo electricidade. A albufeira funcionou como reservatório de energia de origem... solar.

Evidentemente, desde já se pode ver que se quisermos usar energia solar à noite, e só solar, além da central fotovoltaica (já de si caríssima) vamos ter que construir uma estação de armazenamento par tal. Se for muita, justifica-se a dimensão de uma hidroeléctrica com albufeira para a armazenar até á noite... e é exactamente isso que acontece com os aproveitamentos hidroeléctricos em causa, só que não para armazenar energia de origem solar (por enquanto...), e sim energia de origem eólica!

Que a reversibilidade das turbinas das novas hidroeléctricas visa o uso destas como reservatórios de energia de origem eólica pode ser confirmado no próprio Caderno de Encargos oficial dos aproveitamentos e também aqui e em muitas declarações públicas de entusiastas das renováveis! A questão que interessará saber ao povo, entretanto, é que problema técnico justifica o uso das presentes hidroeléctricas como reservatórios de energia de origem eólica, e isso é o que vou tentar explicar de seguida, não vos pedindo que saibam Engenharia ou Física mas apenas que consigam perceber uns gráficos simples, extraídos do próprio Caderno de Encargos dos empreendimentos.

Na figura ao lado mostra-se como evoluiu a produção da energia eólica produzida no nosso país num dia típico de 2006. No nosso país, a legislação criada no tempo de Guterres garante aos produtores eólicos a compra pela rede eléctrica de toda a energia que sejam capazes de produzir, com uma tarifa altamente lucrativa, e por isso eles produzem tudo o que podem. Porém, e como é patente no gráfico, o vento sopra com uma extrema irregularidade, produzindo uma energia eléctrica muito intermitente e que não se adequa nada ao diagrama de consumos dos utentes da rede. Ainda por cima, e em média, sopra predominantemente à noite, quando há menos consumos.
Se não houver muita potência eólica instalada na rede, o problema poderá não ter grandes consequências, porque as outras centrais convencionais se encarregarão de filtrar estas irregularidades, especialmente as centrais fáceis de controlar, como as hidroeléctricas e as a gás.
Porém, se a energia de origem eólica ultrapassar, digamos, 20% do total (o máximo dos máximos internacionalmente considerado como comportável e só atingido na Dinamarca), acontece o que se mostra no gráfico seguinte, previsto já para 2011 em Portugal, data em que a energia eólica atingirá os 25% da produção total nacional, com 5700 MW de potência instalada (e 1400 MW de potência média), o dobro do que se tinha no final de 2008.
Neste diagrama, a linha vermelha superior assinala o consumo nacional num dia chuvoso. Como se pode ver, a produção de energia supera largamente o consumo, e isso devido sobretudo à produção eólica (verde alface) que, pelos contratos feitos com os produtores e pela legislação existente, nunca pode ser parada ou reduzida, e que "sopra" predominantemente à noite! Que fazer para equilibrar a produção total com o consumo?
A produção de origem térmica (verde escuro) pelas "cogerações" (outro negócio semelhante e ainda pior, porque até polui, e de que falarei qualquer dia) também não pode ser parada, nem a das hidroeléctricas sem albufeira (em baixo, azul marinho), e sempre é precisa alguma térmica convencional para controlar o sistema (cinzento). Poder-se-ia pensar em exportar para Espanha, mas a Espanha estará nessa altura com um problema semelhante, cheia de "vento" e um consumo de horas mortas!

É aí, já estão a ver, que entram as novas hidroeléctricas com turbinas reversíveis: para consumir a energia de origem eólica em excesso, armazenando-a na forma de água nas alturas, como é mostrado na linha azul grossa, em baixo.
Depois, nas horas de maior consumo e menos vento, durante o dia, essa água armazenada é turbinada, e a energia de novo devolvida à rede, juntamente com a que veio propriamente do rio (zona azul superior a partir das 9 da manhã, por baixo da linha vermelha do consumo).
Por conseguinte, a necessidade das hidroeléctricas reversíveis resulta de haver energia eólica em excesso, e é a solução para o problema que isso cria. Por um preço extraordinário, como se viu!
E falta acrescentar um detalhe: no ciclo de bombagem de água para cima da albufeira e depois de novo a sua turbinagem, perde-se energia, por atrito nas condutas de água da central. Concretamente, por cada 4 kwh que se gastam a bombar a água para cima, só se recuperam 3 kwh depois no retorno da água. A água é a mesma (áparte alguma evaporação da albufeira), mas é preciso aplicar mais "força" para a içar do que a que ela devolve ao descer de novo, por causa dos atritos.
  • Serão precisos 2000 MW de potência hidroeléctrica reversível para dar consumo às eólicas, mas vão existir 4900!
A REN fez um estudo sobre quanta potência de bombagem, ou hidroeléctrica revertida, virá a ser precisa para conseguir consumir o excesso de potência eólica na pior situação, e essa situação é a ilustrada na figura anterior, que mostra que por volta das 5 da manhã será preciso dar vazão a 2000 MW de potência eólica.
Com os novos aproveitamentos e reforços de potência aprovados a capacidade hidroeléctrica reversível atinge os 4070 MW, mas Portugal já tinha, antes destas novas centrais, cinco hidroeléctricas antigas com capacidade de bombagem ou reversíveis: Aguieira, Alqueva I, Torrão, Vilarinho das Furnas e Alto Rabagão. Estas hidroeléctricas ofereciam já 820 MW de bombagem, pelo que com os novos investimentos o país ficará a dispôr de 4890 MW reversíveis. Ter-se-ão, portanto, quase 2900 MW de hidroeléctricas reversíveis, em grande parte aquelas que foram decididas já depois do concurso das famosas "10" de 2008, cujo propósito é desconhecido.
É possíve, no entanto, conjecturar duas hipóteses alternativas:
  1. O Governo planeia instalar mais de 3000 MW de energia solar ou de