Quarta-feira, Dezembro 09, 2009

A fábrica de baterias de Aveiro e o que Portugal fica a dever ao Grande Líder

Toda a gente sabe que foi inaugurada uma fábrica de baterias de iões de Lítio da Renault-Nissan, em Aveiro, para o anunciado automóvel eléctrico. Implicará um investimento de 160 milhões de € e criará 200 empregos, e o Administrador agradeceu as excepcionais condições oferecidas por Portugal e que determinaram a nossa escolha, entre os 27 países da União.
De caminho, o Primeiro-Ministro afirmou que, no passado, Portugal sempre tinha chegado atrasado às novas tecnologias mas que, agora, com ele, se colocava finalmente na dianteira.
Uma afirmação desta grandeza só pode, de facto, provir de um Grande Líder que Portugal não tinha, salvo erro, desde D. João II.
Entretanto, porém, uma Associação de PME protestou por se sentir discriminada e explicando que o Governo cobria, através da CGD, os riscos daquele investimento.
Mas haverá riscos?

Ora há momentos cruzei-me com um colega meu que, apesar de não ser da "cor" política do nosso Primeiro-Ministro, acredita no carro eléctrico. Trocámos umas palavras e, a certa altura, eu disse-lhe: " ...o pior é a duração das baterias!". Ele olhou para mim obviamente sem entender e eu expliquei-lhe: "é que as baterias são as mesmas que usamos nos telemóveis; já viu quanto tempo duram?"
Ele, que foi obviamente apanhado em falso mas que nunca dá o braço a torcer, negou. "Não, não são nada!"
Não tive tempo de lhe dizer para abrir o telemóvel e ver, mas digo-o a vocês. Hão-de lá ler algures: Li ion". Iões de Lítio. Claro que são as mesmas baterias. E também as dos portáteis. Experimentem abrir os equipamentos e comprovem por vós próprios!

A do meu portátil, comprado no Verão de 2008, já está nas últimas. E a do telemóvel, que é de 2006, já vai na segunda que compro - quase por 1/3 do preço do próprio telemóvel!
Claro que as baterias não são exactamente as mesmas. São muito maiores e cheias de dispositivos de controlo e segurança. Mas a tecnologia química é a mesma e padece exactamente dos mesmos problemas das baterias dos nossos habituais gadgets.
Já expliquei isso tudo aqui! Se quiserem, consultem.
E aos hyperlinks que lá inseri e que vos permitem desenvolver a vossa informação.

Voltando ao investimento da Renault: dado o problema da curta vida e alto preço das baterias de iões de lítio, é evidente - também já postei noutros lados o que se pensa sobre o assunto internacionalmente - que o futuro não está nestas baterias e que ainda há muita investigação fundamental a fazer até se encontrar uma boa solução. Pelo que se trata de uma fábrica com os dias contados.
Mas o Governo de Portugal acha bem subsidiar a indústria estrangeira.
Já o fez nas eólicas, e agora estende-o às marcas de automóveis em dificuldades...
À custa do défice e, sobretudo, das PME preteridas!

Sexta-feira, Dezembro 04, 2009

Desafio à APREN e aos media que lhe fazem eco acrítico

De um leitor conhecedor destas coisas, recebi o seguinte comentário, que republico:

Já leu esta notícia do Diário Económico ?  Portugal poupa 15.300 milhões com as renováveis.

Começa assim : Os números prometem esmagar os mais cépticos.”
E termina assim :
Uma verba que daria para construir três novos aeroportos de Lisboa ou pagar, com bastante folga, a nova travessia rodo-ferroviária sobre o Tejo. As contas constam de um estudo sobre o impacto económico das renováveis, encomendado à Deloitte pela APREN - Associação de Energias Renováveis.”

Não vi o estudo, mas numa primeira impressão tenho fortes dúvidas de que as renováveis permitam poupanças daquela ordem de grandeza.
Gostava de conhecer a sua opinião.
Só o facto de renováveis como a eólica e a fotovoltaica exigirem a disponibilidade de fontes de backup põe em dúvida a ideia de que o investimento em renováveis nos permita poupar grande coisa.
O nosso PM veio há dias clamar que tal investimento nos permitia reduzir o endividamente externo. Acho isto uma fantasia. Até porque, como o Prof. tem aqui mostrado, os equipamentos são maioritariamente adquiridos no estrangeiro. Só o vento e o sol é que não, mas não sei se chega para compensar. E depois, há aqueles preços subsidiados que vão agravar o défice tarifário.
Enfim, independentemente de uma análise mais detalhada, quer o estudo, quer a notícia, cheiram muito a “encomenda”.
De facto, "Esmagar os cépticos" parece-me linguagem “soprada”. E toda esta fartura vem demasiado a calhar para os dois principais interessados. De facto, junta-se a fome (Governo) à vontade de comer (APREN).
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De facto, vi a notícia e procurei de imediato o tal estudo na net, para conhecer a argumentação desenvolvida.
A única coisa que encontrei foi que a notícia foi cuidadosa e metodicamente "plantada" em todos os jornais e televisões relevantes, que obedientemente lhe fizeram eco.
Mas, quanto ao estudo propriamente dito, não está acessível ao público em parte alguma!
Desafio, pois (sem esperança de resposta), a APREN e/ou a Deloîtte para que coloquem o referido estudo on-line ou acessível ao Público de alguma forma.
E desafio os nossos jornalistas a que deixem de se fazer eco de notícias "plantadas" para as quais não podem ter tido nenhuma confirmação!

E já agora, a empresa que fez o estudo encomendado, é a mesma Deloîtte posta nos píncaros pela mesma COTEC que "plantou" no jornalista Nicolau Santos a "informação" de que Portugal triplicou o número de patentes registadas na Europa desde 2004, e a mesma que não encontrou nenhuma irregularidade na actuação da Administração da REN, na auditoria que lhe foi encomendada, poucos dias antes de precisamente o sr. Eng.º Penedos ter sido constituído arguido por ilegalidades nessa actuação...!

Estaremos já a viver sob o domínio da Máfia?

De novo as patentes: a propaganda e a triste realidade

Num entusiasmado editorial do Expresso, o jornalista Nicolau Santos manifesta a sua felicidade pelo grande salto em frente que o nosso país estará a dar, com o presente Governo, em matéria de Investigação & Desenvolvimento, o que seria tanto mais admirável quanto o nosso país seria avesso ao risco e à Inovação, segundo ele.
Nicolau Santos alinhava os grandes números a que já estamos habituados e que eu já desmontei aqui e aqui e noutros posts anteriores, mostrando que não passam, no que respeita às empresas, de pura mistificação contabilística.
Porém, e contradizendo o que eu notara no último dos posts para que hyperlinko acima, a dado passo Nicolau Santos afirma, certamente porque alguém lhe mentiu isso (ao estilo da propaganda de Goebels), que com este Governo face a 2004 Portugal aumentou 3 vezes o número de patentes registadas na União Europeia!

As patentes registadas na Europa por país de residência na última década podem ser consultadas aqui. São as patentes provenientes de um enorme número de países, totalizando uma população de cerca de 2200 milhões de habitantes. Junto o gráfico construído a partir destes dados, que mostra que:
  1. A linha a encarnado é a evolução da totalidade das patentes. Como é visível, há um crescimento geral mas com irregularidades, com grande probabilidade devidas ao próprio funcionamento do Gabinete de Registo de Patentes. Assim, a partir de 2003, inclusivé, há quase uma duplicação do número de patentes anuais registadas provenientes de todo o Mundo. Essa quase duplicação que ocorreu em 2003 e depois se manteve, também afectou as patentes portuguesas (a verde) e as espanholas (azul) e, portanto, deve ser vista como um bias do próprio processo de registo de patentes, e não tirar dali nenhuma conclusão para cada país particular.
  2. As linhas representando Portugal (verde) e Espanha (azul) foram normalizadas por mim para as respectivas populações, para se terem termos comparáveis. Concretamente, os números portugueses foram multiplicados por 220 e os espanhóis por 58, para ter em conta as respectivas populações.. Os gráficos mostram, assim, o número de patentes per capita.
  3. Como é evidente, e em relação a Portugal:
  • O nosso número de patentes per capita é uma ordem de grandeza inferior ao da média dos países registados;
  • É também significativamente inferior ao de Espanha, na verdade apenas cerca de 1/5 (per capita, note-se!);
  • Portugal estagnou, desde 2003, que foi o melhor ano de sempre; não houve aumento desde 2004 e muito menos uma triplicação!
  • O aumento que se verificou em 2003 relativamente ao passado resulta de alterações no processo europeu de registo de patentes, visto que o mesmo aumento beneficiou toda a gente. Pelo que se pode concluir que, descontando esse bias, de facto Portugal está estagnado desde 1999.

Quinta-feira, Dezembro 03, 2009

Portugal e o reino da Dinamarca

O Governo português acaba de legislar hoje a criação de uma rede de abastecimento de (inexistentes) carros eléctricos. E, segundo os media ao serviço do Ministério da Propaganda, o consumidor poderá pagar com cartão Multibanco em função do operador eléctrico a que está vinculado, como se isto da energia fosse um mercado de retalho. Tratam-se de 1300 postos espalhados pelo país e não se sabe quanto custarão.
Curiosamente e também hoje, o New Yort Times fala dos planos da Dinamarca para fazer um "show" publicitário na cimeira que começa dentro de dias em Copenhaga, mostrando como se já fossem de uso corrente alguns carros eléctricos entretanto encomendados. A Dinamarca, que não fabrica automóveis, concede um desconto fiscal de 25000 € em cada carro eléctrico e estacionamento grátis em Copenhaga, mas apesar de todos os esforços de promoção pelo seu Governo e da cultura "green" fortemente radicada no país, pouca gente lá parece interessada na oferta. Vale a pena ler a notícia do NYT para que hyperlinkei para perceber porquê.
Segundo o NYT e como estamos fartos de saber, o propósito do Governo dinamarquês, como aliás do nosso, é dar vazão ao excesso nocturno de energia eólica carregando as baterias dos carros, dado que a Dinamarca é o país do mundo com maior percentagem de energia eléctrica de origem eólica (20%) e não pode fazer barragens reversíveis para a armazenar à noite como nós, por ser plana.
O nosso Governo ambiciona ultrapassar a Dinamarca em % de energia eólica, chegando aos 25% e tornando-se com isso o campeão mundial. Mas há uma grande diferença entre Portugal e o reino da Dinamarca neste assunto: é que a Dinamarca, que há já um século que usa o seu forte vento costeiro para produzir energia, tem o maior fabricante mundial de turbinas eólicas, a Vestas, que emprega lá directamente perto de 25 mil pessoas (numa população que é metade da nossa) - vd os números da tabela ao lado, da European Wind Energy Association - , exporta anualmente 4 biliões de € e fornece metade dos mercados mundiais em mais forte crescimento!
E nós, não...!

Quarta-feira, Dezembro 02, 2009

Aquecimento Global? É a economia, estúpido!...

Como habitualmente de cada vez que falo em "clima", recebi um conjunto inflamado de comentários ao meu post anterior - uns, indignados com a persistência dos "negacionistas" na blogosfera (último reduto que lhes resta no "Admirável Mundo Novo" que consideram estar paulatinamente a criar-se), outros clamando contra as "trapaças" dos advogados da antropogenia do Aquecimento Global.
Entretanto, um interessante artigo de um editor da Scientific American coloca a questão dos emails revelados ao público numa perspectiva apaziguadora: mais do que factos ou mentiras científicas, eles revelam a agudeza da luta ideológica que se trava entre cientistas nesta matéria. É que se a ilicitude com que foram obtidos os emails não os desmente, também é verdade que os próprios emails não desmentem só por si o essencial dos factos que fundamentam a convicção dos defensores do Aquecimento global antropogénico.
Subsiste apenas o "pequeno" mistério de por que razão a temperatura do globo estacionou na última década e nenhum modelo climático antropogénico consegue explicar isso, como os emails revelados confirmam...
O certo é que, independentemente de assentar numa base científica sólida ou de, pelo contrário, ter por premissa um dos maiores mitos científicos da História (e valha-nos no IST a voz livre e crítica do Prof. Delgado Domingos para se indignar), o 1º Mundo caminha de forma quase consensual para um tratado limitador das emissões de CO2.
Nas últimas semanas foram a Austrália, a Nova Zelândia e a Califórnia (a 8ª economia mundial) que adoptaram metas redutoras das emissões de CO2. É também quase certo que os EUA acabarão por adoptar medidas nesta matéria, e até o Presidente Lula já manifestou a intenção do Brasil aderir ao tratado em preparação (apesar da consciência recente de ser uma potência petrolífera lhe moderar o ecologismo), depois de também o novo governo do Japão ter assumido objectivos ambiciosos no assunto.

Entretanto, tanto a Índia como a China, os colossos asiáticos cujo rápido desenvolvimento económico mais assusta os climatologistas, têm adoptado uma posição ambígua.
Por um lado, oficialmente arrastam os pés para qualquer compromisso mas, ao mesmo tempo, no plano interno desde os anos 90 que têm estado a apostar furiosamente no desenvolvimento das indústrias e know-how que hão-de explorar os mercados emergentes das tecnologias "verdes", como descrevi aqui a propósito das eólicas e aflorei aqui, no que respeita ao solar, relativamente à China.
China que, com os EUA, são de facto quem determinará o futuro do tratado climático e das alterações económicas decorrentes.

E isto traz-nos perante a seguinte constatação: o Aquecimento Global de origem antropogénica, do ponto de vista científico poderá ser discutível e ainda incerto mas, do ponto de vista económico, é garantido, enquanto promotor de grandes alterações tecnológicas e correspondentes indústrias e mercados. E, uma vez obtido um Tratado nesta matéria, o que se vier finalmente a comprovar cientificamente sobre o Aquecimento global, talvez daqui a uns 20 anos, será irrelevante!...

Podemos mesmo ser até um pouco cínicos e conjecturar que tudo isto não passa da criação de uma onda de necessidades artificiais visando reanimar a economia de consumo, sobretudo agora que ela caiu em recessão e que é conveniente seguir os ensinamentos de Schumpeter, criando novas necessidades que propiciem novos mercados para novos produtos, uma promoção de consumo similar à que cada 4 anos lança novos modelos de carros apesar dos que temos durarem bem 16, novas colecções de vestuário de estação todos os anos, o buraco do ozono que levou a substituir todos os frigoríficos ou a necessidade de revitalizar a indústria de lâmpadas, eliminando as incandescentes.
A única diferença nesta lógica já velha da sociedade de consumo (e que a minha geração muito criticava por alturas do Maio de 68), é que o mercado assim revitalizado não é, principalmente, o dos bens de consumo mas, e pela primeira vez,... o dos bens de equipamento!

Perante estes factos (dúvidas quanto ao fundamento das alterações industriais a realizar, mas certeza quanto a essa realização), que estratégia tecnológica deverá um país sensato adoptar?

Parece-me que a resposta é clara: quanto à adopção de medidas internas mitigadoras das emissões de CO2, deverá arrastar os pés e procurar ir no meio do pelotão (ou mesmo nas últimas posições) mas, quanto à promoção das novas tecnologias e indústrias associadas a essa mitigação, deverá apostar em força, com vista à exploração das oportunidades de mercado que os países campeões da "verdura" constituem. E esta estratégia é válida quer a antropogenia do Aquecimento Global se venha a confirmar, quer não!

É evidente que, mais que qualquer outro país, é esta posição que está a ser adoptada pela China. China que, curiosamente, é um dos raros países que ainda é politicamente dirigido por uma "ideologia científica" mas que, no plano prático, se revela imune ao pós-modernismo e mantém os pés na terra dos interesses nacionais.
De facto, a China constitui um caso extremo de aposta nos mercados externos de energias renováveis com o mínimo de despesa interna na mitigação das próprias emissões, mas até ela investe na transformação industrial necessária a essa mitigação: constrói presentemente as centrais a carvão mais eficientes do mundo, instala parques eólicos em quantidade, vai montar na Mongólia interior o maior parque solar do Mundo, solar de cujos painéis entretanto assegurou a hegemonia industrial, e vai instalar metade de todas as novas centrais nucleares previstas no planeta. Na verdade, tal investimento interno é necessário como suporte a uma estratégia exportadora e além disso fica bem na "fotografia", tema a que adiante voltarei.
Ora, o que a China propõe para Copenhague será, decerto, a bottom line que a Índia, o Brasil e todos os países que ambicionam sair da miséria e serem grandes potências adoptarão: reduzir a "intensidade de CO2" da sua economia, desde que nada limite o crescimento desta!


[E a propósito de Aquecimento Global: sabem que o Brasil já tem 193 milhões de habitantes, mas que em 1900 só tinha 17 (na figura, o seu crescimento populacional)? Que a China já tem 1320 milhões (19.9% da Humanidade), mas que há 60 anos só tinha 563? Que os EUA já têm 308 milhões mas só tinham 200 há 40 anos, e que igualarão a envelhecida população da Europa das 27 nações, 500 milhões, em 2050? Europa que há um século tinha 1/4 da população mundial, hoje já só tem 1/12 e em 2050 terá apenas 1/18?...]

Face a este cenário, que estratégia tecnológica e científica deve Portugal adoptar?

Naturalmente, uma resposta a tal pergunta só pode ser política. Por isso, e que me perdoem os colegas do IST que prefeririam ler-me matérias estritamente científicas (os "engenheiros dos bits", como lhes chamava - sem ofensa! - um grande engenheiro com vocação comercial que tive por colaborador na EFACEC...), vou expor um par de reflexões sobre a problemática que dá (ou não) sentido à I&D que fazemos.

Em primeiro lugar, e como já detalhei a propósito da História da indústria de turbinas eólicas e venho repetidamente notando aqui, Portugal foi o único país que apostou em força nas energias renováveis... apenas como consumidor! As pioneiras Dinamarca e Alemanha, que lideram a produção e a tecnologia mundial de eólicas, há mais de 70 anos que desenvolvem o seu know-how no assunto, e mesmo a Espanha o começou a fazer há mais de 30 anos!
Quando esses países resolveram apostar nas renováveis há quase duas décadas, com políticas de subsidiação às tarifas, estavam de facto a subsidiar indústrias nacionais de forte vocação exportadora e capacidade empregadora, e não a endividarem-se para salvar a atmosfera do planeta como nós - além de terem dos melhores ventos da Europa, ao contrário de Portugal!
Mais clara ainda tem sido a mais recente política industrial chinesa seguida na medida do possível pela Índia, e só os EUA estão agora a deixar abrir os seus mercados à produção estrangeira, aliás com a oposição dos sindicatos, mas isso nos EUA é uma tradição permitida pela força do dólar - além do grande peso que os EUA têm nas emissões de CO2!...
E porque apostaram a Alemanha, a Dinamarca, e até antes destas, nos anos 30, a França, a URSS, os EUA e o Reino Unido no desenvolvimento da tecnologia eólica? Preocupações ambientais? Não - iniciativa industrial e preocupações geo-estratégicas!
O caso alemão é o mais paradigmático, já que foi em 1942, em plena Guerra Mundial e com uma fatal penúria de petróleo para os seus carros e aviões de combate que, como já narrei aqui, o austríaco Ulrich Ütter estabeleceu as bases da tecnologia essencial das turbinas eólicas na sua tese de Mestrado (tese à moda antiga, não como as de Bolonha). Tecnologia que depois os EUA tentaram infrutiferamente copiar nos anos 70, e que voltaria a renascer na Alemanha, nos finais dos anos 80, aproveitando várias circunstâncias favoráveis e nomeadamente o desemprego de engenheiros altamente qualificados na indústria naval em crise.
Na Dinamarca, cuja empresas Vestas domina largamente o mercado mundial destas turbinas, emprega 30 mil trabalhadores qualificados (num país com metade da população de Portugal) e exporta anualmente 4 biliões (!) de €, a tradição de fabrico de aerogeradores é tão antiga que já os faziam no início do século XX para alimentar pequenas comunidades, como nós por cá fazíamos com mini-hídricas. Naturalmente, isso era propiciado pelos excelentes ventos existentes no mar do norte. Com uma tradição tecnológica diferente da alemã, "Danish wind power development stressed incremental improvements in capacity and efficiency based on extensive serial production of turbines, in contrast with development models requiring extensive steps in unit size based primarily on theoretical extrapolation". Mas, tanto a Alemanha como a Dinamarca chegaram ao domínio que hoje têm nestas tecnologias graças a um factor determinante: experiência! Experiência e de muitas décadas!...
A Espanha iniciou-se na tecnologia eólica quando nós por cá estávamos a sair do PREC, em 1976, e mesmo os newcomers mais recentes, como a China e a Índia, começaram há mais de 12 anos e com toda a capacidade dos seus imensos recursos humanos!

Ora a estratégia de Portugal nesta matéria tem sido a de simples comprador. Estas novas tecnologias passam-nos pelas mãos apenas quando lhes importamos os frutos. Indústria para as fabricar só será possível ou se o Estado apostar aqui as suas "parcerias público-privadas" ou se vier por investimento estrangeiro.
Investimento estrangeiro em fábricas de componentes de tecnologias destas significa que é o estrangeiro quem tem os serviços essenciais que viabilizam qualquer indústria moderna: a concepção a montante, e a comercialização a jusante. Pelo que o investimento estrangeiro em Portugal nestas coisas, como na Quimonda e até na Auto-Europa (ainda assim com bastante trabalho nosso incorporado), cria tanta sustentabilidade económica em Portugal como as fábricas nos países estrangeiros para onde a nossa população tem por tradição emigrar (e de onde são deslocadas para onde for mais competitivo).

Quanto às "parcerias público-privadas" esta minha menção não passa de pura especulação, claro.
O Estado poderia ter usado o poder que as golden share lhes dá nas grandes empresas públicas para catalizar a ligação entre os restos de indústria fabricante que ainda temos e as Universidades. Mas para isso era preciso que alguém com poder de decisão nesses planos tivesse alguma ideia de como se cria know-how tecnológico industrial e que, sobretudo,  estivesse realmente interessado em criar riqueza nacional sustentável com todo o incontornável longo tempo que isso exige, e não em apresentar resultados mediáticos imediatos para efeitos eleitorais - e, de caminho, ir fazendo meras negociatas de ocasião à custa de endividamento externo e de subsídios públicos, directos ou e sobretudo "desorçamentados".
Além de tal plano, seria preciso um segundo factor essencial: um mercado nacional protegido que escoasse os produtos nacionais assim desenvolvidos e lhes fornecesse o laboratório de ensaios necessário à aprendizagem e ao aperfeiçoamento, e que lhe pagasse os custos fixos de fabrico - sobretudo os custos da engenharia de concepção. É isso que todos fazem lá fora e que se chegou a fazer cá nos anos 80, com a EFACEC. Um produto cujos custos fixos é pago pelo respectivo mercado nacional - e há muitas formas de forjar proteccionismos, mesmo num Mercado único europeu, sobretudo através de normas técnicas e de cadernos de encargos à medida - pode depois exportar-se a custos variáveis apenas!
Esta "criação" artificial de um mercado interno nacional para produtos em fase de desenvolvimento tecnológico tem também um valor promocional para os mercados-alvo, e é isso precisamente que explica parcialmente as estratégias de subsidiação pública das energias renováveis na Alemanha, Dinamarca e Espanha, e que as explica totalmente na China! Uma das melhores provas do que afirmo é o facto da Alemanha e da Espanha terem abruptamente cortado nessa subsidiação já em Maio de este ano, quando se verificou que eram os produtos chineses que estavam a ocupar esses mercados, especialmente quanto ao solar fotovoltaico - e como foi expressamente reconhecido por fabricantes alemães e hyperlinkei noutro post.
Mas não é essa estratégia que existiu em Portugal: o mercado nacional foi saturado por produtos estrangeiros e já nunca poderá constituir o referido laboratório, as tecnologias em que havia know-how  nacional tradicional deixaram-se morrer (como nas hídricas) e aquelas em que o Estado havia apostado, também (como na energia nuclear) e, por isso, vou ser franco convosco: estou dolorosamente de acordo com a análise que António Barreto faz nesta entrevista que deu recentemente ao jornal "i"!
Só nos resta esperar que os ordenados nacionais desçam tanto que venha a valer a pena aos investidores estrangeiros virem cá fabricar e dar-nos emprego, em vez de irem para a Eslováquia ou a Letónia. Ou, muito mais provavelmente e como acontece noutras paragens, que seja a nossa população que se vá indo embora, trabalhar para lá.
Uma coisa é certa: nunca e em parte alguma foram as Universidades o motor da evolução tecnológica, e não me venham com o exemplo do Sillicon Valley! I&D tecnológica académica sem indústrias a orientá-la é apenas brincar à tecnologia sustentado pelo pai-Estado.

Sexta-feira, Novembro 27, 2009

Mais um negócio renovável, desta vez em convergência central

E não é que o Eng.º Ângelo Correia, Presidente da Foment Invest, converge com a política energética do Governo não só por opinião expressa, como pelo arrecadar de alguns euros aos portugueses, através do défice da EDP?
Pois é verdade. Acaba de ser assistido pelo Primeiro-Ministro em pessoa na inauguração da sua central solar urbana, a "maior do mundo" no seu género (que bom pertencer-se a um país de vanguarda assim!), uma central de 6 MW de " pico" cujo investimento orçou em 31 milhões de €, portanto a 5,15 mil € /Kw de "pico".
Central que, como a da Igreja de Fátima (que custou quase o mesmo por kw de "pico") só produzirá em média 15% desses 6 MW, ou 900 kW, sobretudo no Verão e só de dia, claro. Pelo que o custo da unidade de energia assim gerada superará os 40 ç/kwh, quase o triplo do que o próprio consumidor paga à EDP, mas que esta é obrigada por Lei a comprar!

Diz a notícia que esta energia dá para "abastecer 12 mil portugueses" - por uma vez, as contas estão certas. Só que não os abastece quando eles precisam, à noite...
E qual a incorporação portuguesa na central? O montá-la, o que demorou poucos meses! Quantos empregos criados? 100 durante a montagem, de Janeiro a Agosto.
Quanto à independência energética (eléctrica) assim obtida, convém não esquecer que os 31 milhões de € vieram certamente da Banca (quiçá em empréstimo politicamente bonificado), que por sua vez se financiou na Europa, a quem ficámos a dever; uma simples troca de dependências, mas se medida em €, para muito pior!...

Segunda-feira, Novembro 23, 2009

Quando a ciência comanda a política, a política comanda a ciência

De um modo geral, os cientistas gostam da ideia de que a política seja conduzida pela racionalidade e a objectividade da Ciência. Pensam que, com isso, se reduzirá ou mesmo eliminará a irracionalidade que tem conduzido repetidamente a História às grandes catástrofes das guerras e dos regimes baseados em fés totalitárias.
Presentemente, a teoria do Aquecimento Global antropogénico e os seus derivados políticos, nomeadamente o protocolo de Kioto de 1997 e a Cimeira de Copenhaga do mês que vem, são considerados por muitos, com satisfação, como um exemplo de como a Ciência pode conduzir boas políticas.
No caso do Aquecimento Global antropogénico há mesmo o sentimento de se estar perante a missão de salvar o Mundo!
Os europeus, em particular, sentem-se de novo na vanguarda da História, arautos desta nova e nobre missão de salvação da Humanidade, já que têm sido eles, conduzidos pela "verde" Alemanha (nunca suficientemente penitenciada dos seus crimes irracionais passados), quem tem procurado liderar o Mundo nesta nobre missão baseada na Ciência. Liderança da Europa que contribui para alimentar uma auto-estima muito abalada pela sua irrelevância político-militar e pelo imparável declínio da sua economia, da sua tecnologia e da influência da sua cultura.

Entretanto, nos últimos dias o escândalo resultante da divulgação dos emails trocados entre climatologistas defensores da teoria do Aquecimento Global antropogénico, com as confissões neles contidas das perplexidades existentes perante alguns dados empíricos e das manipulações da respectiva apresentação, veio revelar ao Mundo um facto pouco conhecido e perturbador: o de que o Aquecimento Global antropogénico não é um consenso na Ciência do clima!
Quem frequente o cyberespaço já sabia que existe uma corrente científica que nega a evidência das origens antropogénicas do Aquecimento Global. É uma corrente que não tem eco nos media e que, portanto, é desconhecida do grande público e que quase não tem aceitação nas revistas científicas da especialidade. São conhecidos por "cépticos" ou "negacionistas" e o seu "apagamento" da ribalta é muito ajudado por o negacionismo ter sido adoptado pelo Presidente Bush, cujos erros políticos muito contribuíram para desacreditar até a  simples expressão de tais posições.
De um ponto de vista estrito da História da Ciência, a existência de "cépticos" é natural e irrelevante a longo prazo, dado que a evolução da Ciência acaba sempre por resolver as dúvidas cientificamente legítimas e por estabelecer o consenso. Einstein, que enterrara de vez a fantasia do éter, também recusou a Física quântica com o argumento de que "Deus não jogava aos dados" e, até, recusara antes a consequência que o jesuíta Lemaître tirara da sua própria teoria da relatividade quanto à ocorrência de um Big Bang e, portanto, do facto do Universo não ter existido sempre!...
Os cépticos quanto às origens antropogénicas do Aquecimento Global têm, por vezes, motivações suspeitas, mas do mesmo acusam eles os "verdes", acusações a que a recente revelação dos interesses financeiros de Al Gore nas energias renováveis veio dar mais credibilidade. O certo é que, como esta revelação dos emails veio revelar, o estado da climatologia tem ainda muitas lacunas e incertezas quanto ao que, de facto, se está a passar com o clima.
Pode-se acusar os "cépticos" de, simplesmente, não quererem aceitar a novidade (como sucedeu a Einstein), mas algumas das suas críticas e teorias são, pelo menos, cientificamente curiosas. Uma delas, recente e elaborada por um Engenheiro nuclear reformado (é verdade que muitos dos "cépticos" são gente já de certa idade, o que se associa bem com a resistência à novidade) defende, por exemplo, que as alterações climáticas são essencialmente explicadas por fenómenos gravitacionais, como as marés, os ventos , a tectónica das placas e movimentos no núcleo líquido do planeta, resultantes do efeito gravitacional de natureza periódica dos astros circundantes - especialmente, na sua análise, a alteração da excentricidade da Terra pelo efeito ressonante de Saturno e de Júpiter, e o aumento de radiação solar recebida em consequência. É uma teoria curiosa porque sem dúvida que tais dinâmicas devem ter algum efeito no clima, e elas são quase universalmente ignoradas pelos climatologistas que quase sempre se limitam ao estudo da atmosfera e da superfície planetária. Pode ser uma perspectiva errada, mas o certo é que está por aprofundar.
Entretanto, no que todos os advogados da antropogenia do Aquecimento Global concordam é que há um Aquecimento inexplicável por causas naturais e que ele se correlaciona bem com o aumento do CO2 na atmosfera, e este com o crescimento explosivo da população humana ocorrido desde a revolução industrial. Mas, como não é totalmente clara a relação de causa-efeito, o que diz o último relatório (2007) do Painel Inter-governamental da ONU para as Alterações Climáticas (IPCC) é apenas: "increases in anthropogenic greenhouse gas concentrations is very likely to have caused most of the increases in global average temperatures since the mid-20th century". Para além disso são quase tudo incertezas, e mesmo o mencionado Aquecimento é questionado por muitos "cépticos" (e é aí que entram os dados e manipulações revelados pelos referidos emails). Curiosamente, já Benjamin Franklin, o inventor do pára-raios e interessado climatologista, mantinha acesas discussões epistolares com outros cientistas da época (1763) sobre as alterações climáticas então em curso, muito antes da sociedade de consumo e da explosão demográfica...
Mas mesmo aceitando a origem antropogénica de um eventual Aquecimento Global, entretanto, a determinação da importância relativa das actividades humanas que o produzirão é muito especulativa, segundo os relatórios mais recentes do próprio IPPC. As simples actividades de uso dos solos e em particular a desflorestação estimam-se como responsáveis por 1/3 do referido aquecimento, mas com uma incerteza admitida para os valores estimados de + ou - 50%!...
Obviamente, as consequências políticas internacionais de tal estimativa são enormes. Geralmente os "verdes" mais radicais tendem a ignorar, de entre as invocadas causas do Aquecimento Global, tudo o que não seja o consumo energético e os automóveis do Ocidente desenvolvido; mas, segundo o próprio IPPC, tal consumo não será responsável por mais de 40% do referido Aquecimento, como tenho divulgado aqui; ora sem uma redução das outras causas, muitas das quais resultam de tecnologias primitivas como os fogões de lenha ou o metano libertado pelas lixeiras a céu aberto do 3º Mundo, além da desflorestação criada pela necessidade de terrenos cultiváveis pelo explosivo crescimento da sua população, pouco adiantarão os sacrifícios do Ocidente desenvolvido. E, sabendo isso, é improvável que a aceitação desses sacrifícios seja consensual nos países do Ocidente onde há discussão pública destes assuntos com consequências eleitorais (o que não acontece em Portugal, como é sabido). Para já não falar na improbabilidade de grandes povos que iniciaram finalmente a saída de misérias ancestrais, como os da China, Índia ou Brasil, aceitarem qualquer sacrifício dos seus desenvolvimentos económicos.
O tempo e o aperfeiçoamento dos dados empíricos e dos modelos hão-de acabar por resolver as dúvidas científicas e criar consensos. Um grande problema, porém, poderão tornar-se as políticas que se assumem como iluminadas por esta Ciência climática.

Na verdade, quem desconhece a História está condenado a repeti-la e, por isso, é conveniente lembrar que o século XX teve dois grandes movimentos políticos que pretenderam salvar o Mundo seguindo a luz da Ciência.
Um deles ocorreu numa época em que a maioria dos cientistas acreditava que a "lei da selva" era a luta do mais forte pela supremacia e, em particular, das espécies mais fortes. Era uma convicção arreigada por todo o lado e que encontrou na Alemanha, como se sabe, a sua expressão política mais determinada e consequente: o nazismo. Poderá parecer de uma irracionalidade inconcebível, hoje em dia em que a Natureza é vista como um sistema ecológico que ilustra a "complementaridade das diferenças", o facto dos dirigentes nazis pensarem que salvavam a Humanidade ao exterminarem as "raças" inferiores, mas a eugenia era generalizadamente vista á época como um supra-sumo científico.
O outro movimento político iluminado pela Ciência foi o do socialismo científico, que pretendia construir uma nova sociedade toda ela baseada numa visão científica das relações humanas (os crentes que me perdoem o uso do pretérito).

Como é sabido, em ambos os casos as supostas Ciências transformaram-se em ideologias quando foram assumidas pelos respectivos movimentos políticos, ideologias que por sua vez passaram a Inquisições de todos os desvios ideológicos e, assim, a comandar a Ciência.
Um dos exemplos mais expressivos deste comando da Ciência pela política foi a negação da genética de Mendel e a defesa de que o meio exterior podia induzir a "adaptação" dos genes por Lyssenko (na fotografia) o que, como se sabe, além da eliminação dos melhores agrónomos russos da época causou danos profundos à produtividade agrícola soviética.
A época em que Lyssenko orientou a política de Estaline para a genética ficou famosa como exemplo das políticas científicas de apadrinhamento de incondicionais e de exclusão de desalinhados, mas qualquer analogia que se possa encontrar entre tal política e a actual promoção da Ciência e Tecnologia "para um futuro sustentável" é, naturalmente, pura coincidência.
O certo é que é preocupante a sobranceria com que na Europa os media vêm as dificuldades do Presidente Obama em convencer o Senado a apoiar a sua política climática de inspiração europeia, assim como as distâncias que os grandes países asiáticos que são a China e a Índia mantêm para com o radicalismo destas ideologias.  E se, por aquelas bandas, se vier a verificar que os rumos escolhidos são outros, esperemos bem que a Europa se não crispe e que não inicie um novo grande conflito ideológico como os que ocorreram no século XX - para afinal, daqui a 10 ou 20 anos (a perda recente do satélite que visava medir as temperaturas oceânicas atrasará esta data), as dúvidas sobre a origem antropogénica do Aquecimento global terem sido definitivamente debeladas - ou, pelo contrário, se terem revelado afinal acertadas.

Sábado, Novembro 21, 2009

Espanto!

Acabo de ler uma notícia no Público on-line que me deixou varado de espanto! De espanto por pertencer a um país cujo Primeiro-Ministro é capaz de dizer publicamente uma asneira como a que acabo de ler!
Transcrevo a notícia:
"José Sócrates lembrou os “progressos notáveis” dos últimos quatro anos, concretamente no caso da energia eólica, passando de cerca de 500 para três mil megawatts instalados. “Fizemos nestes quatro anos investimentos nas energias eólicas que significam duas ou três centrais nucleares em termos de produção de electricidade. E vamos fazer mais. E estamos hoje a apostar como nunca se apostou na construção de barragens”, afirmou".
É que, como já expliquei desenvolvidamente aqui, há uma fraca relação entre "megawatts instalados" e electricidade produzida, nas fontes renováveis. Em Portugal, como na maioria dos países, são precisos 4 Mw instalados de eólicas para se produzir em média 1 Mw de electricidade. Essa média é ao longo do ano - há mais vento à noite que de dia, mais no Inverno que no Verão, e em regra uma eólica passa metade do seu tempo a produzir menos de 5% da sua capacidade, embora haja algumas ocasiões em que produza acima de 90%. Em média, úma eólica produz em Portugal 25% da sua potência "instalada!
No final de Agosto, Portugal já tinha mais de três mil megawatts instalados; tinha 3430 MW. E, neste momento (Novembro), até já deve ter 3500 MW. A questão é: quanta electricidade produzem esses cerca de 200 parques eólicos e perto de 1900 aerogeradores?
Ao longo de um ano, produzem o equivalente à geração contínua de 1/4 disso, ou seja, 875 Mw (x as 8760 horas que tem um ano).
E quanto custaram os 3500 MW de potência instalada nos tais cerca de 200 parques eólicos? É fácil fazer um cálculo: o investimento das eólicas foi até ao ano passado de 1,1 milhões de € por MW instalado, estando agora mais caro por os aerogeradores terem subido de preço. Pelo que, no total, temos um investimento realizado de cerca de 3,8 biliões de € (milhares de milhões) só nas eólicas, das quais 70% para os aerogeradores e o resto para "outros custos", segundo a EWEA (a Organização Europeia das Indústrias Eólicas).
Ora precisamente por este preço podia-se ter construído uma central nuclear de 1650 MW, como se pode verificar pelos valores actuais estimados pela DOE, a Agência Americana para a Energia e que eu já citei aqui.
Em "potência instalada" tal nuclear teria menos de metade da das eólicas existentes por cá, mas com uma primeira enorme diferença: uma central nuclear funciona à sua potência nominal quase permanentemente! Descontadas as paragens para manutenção, em média uma nuclear funciona à sua potência instalada 91% do tempo. Portanto, uma nuclear de 1650 MW geraria em média anual o equivalente à produção contínua de 1500 MW, +70% de electricidade que os 200 parques eólicos já instalados em Portugal!
Uma segunda grande diferença é que o tempo de vida estimado para um aerogerador é de 20 anos, mas para uma nuclear é de 40 anos. Porém, como noticia hoje a Scientific American, nos EUA está-se a chegar à conclusão que as centrais nucleares lá instaladas podem de facto, depois de fazerem os 40 anos de idade como muitas já estão a fazer, fazer mais 50 com actualizações relativamente menores!
Ou seja, o tempo de vida de uma nuclear é incomparavelmente superior ao de uma éólica, na verdade semelhante ao de uma hidroeléctrica. Pelo que o seu custo, distribuído por todo esse tempo, acaba por produzir energia uma ordem de grandeza mais barata. Claro, há que contabilizar os 8% de custo extra para o urânio (presentemente em saldo no mercado mundial, proveniente das ogivas desmanteladas pelos acordos de desarmamento), mas tal custo extra também existe nas eólicas - em rendas pelos terrenos ocupados.

Terça-feira, Novembro 17, 2009

Energia e negócios

No passado sábado, o Expresso conteve uma extensa publicação sobre os investimentos em curso em energias renováveis, e também algumas notícias sobre um alegado problema das centrais nucleares francesas que poderia acontecer cá, se também tivéssemos uma nuclear.
E, no contexto da notícia, o Expresso fez-se eco das posições anti-nuclearistas do "lobby eólico", nomeadamente de algumas afirmações pouco simpáticas da parte do Eng.º Aníbal Fernandes, líder do "consórcio ENERCON" (o coração do lobby eólico), fazendo também menção a interessantes posições do ex-Presidente da República Ramalho Eanes sobre o assunto.
Não vou, hoje, fazer uma análise técnica da questão, que carece de um post prévio detalhado sobre o nuclear que ainda não tive oportunidade de escrever.
O que me traz aqui hoje é um outro aspecto que foi aflorado numa troca de comentários de outro post e que merece agora algum desenvolvimento, a propósito destas notícias do Expresso.

Como já mostrei, quando o investimento planeado pelo Governo (com o aparente alheamento de toda a oposição, aliás), para a energia "verde" estiver terminado, todo esse investimento produzirá a mesma energia que produziria uma central nuclear típica.
Com efeito, teremos 5600 MW instalados de parques eólicos em terra, mais 4640 MW de hidroeléctricas reversíveis cuja capacidade de armazenamento permitirá regularizar a intermitência do vento, solução que produzirá a potência MÉDIA (a que é proporcional a energia) de 1500 MW, sensivelmente o mesmo que uma central nuclear de 1650 MW - ou 1/4 do consumo actual de energia eléctrica nacional.
A primeira questão que quero colocar é: quanto terá custado essa capacidade de produção energética?

A partir dos números que já apresentei noutros posts, pode-se estimar que o custo será de 13,5 biliões de €: 6,5 biliões das eólicas + 5 biliões das hídricas (dos quais 2 espanhóis), e cerca de +1 bilião no investimento da REN necessário para ligar tudo em rede. Importa ainda lembrar que as hídricas poderão operar por mais de 60 anos, mas que às eólicas se atribui um tempo de vida de 20. Para pôr tudo na mesma base de tempo, admitamos os 20 anos de duração das eólicas, e com este tempo só se terá de amortizar 1/3 do valor das hídricas (aproximadamente), o que conduz ao valor de 9,4 biliões de € para a referida energia (à potência média de 1500 MW durante 20 anos).
Quanto teria custado uma nuclear que produzisse a mesma energia? Com os dados mais recentes da Administração dos EUA que já citei noutro lado, 2,7 biliões de €, tendo em conta que uma nuclear dura cerca de 40 anos e que portanto em 20 anos só há que amortizar metade do custo inicial de 3,8 biliões, +30% a amealhar para o custo do desmantelamento final, +8% para o custo do urânio e tratamento dos resíduos nesses 20 anos.
Temos, pois, que o custo extra da solução "renovável" adoptada será, para a energia dos primeiros 20 anos, de +6,7 biliões de €, não muito menos que o custo estimado do TGV, ou 2700 € por família portuguesa.

Há muitos aspectos que se podem discutir sobre isto mas hoje, e por causa do Expresso de sábado, só pretendo falar de um:
Em 2001 a Direcção-Geral de Energia, organismo integrado no Ministério da Economia, encomendou ao Instituto Superior Técnico (IST) uma proposta de regulamentação técnica para as condições de ligação à rede das renováveis, que estavam prestes a iniciar a sua instalação em larga escala em Portugal. E o IST elaborou uma proposta legislativa, acompanhada de um guia técnico de aplicação, que se limitava a conter o que de melhor, na altura, se fazia nos outros países e que se adaptava ao nosso.
Esta proposta continha prescrições que a tecnologia da época permitia cumprir e regras de cálculo para definir em que pontos da rede já existente se poderiam vir a ligar os novos produtores, de modo a lograr-se sempre a solução mais económica para todos - mas especialmente para a rede pré-existente. Estas regras de cálculo, neutras por natureza, eram essencialmente copiadas das praticadas na Alemanha, um dos países com a regulamentação técnica mais completa nestas questões.
Em todos os países da União Europeia existem regulamentos destes, a que foi dada forma de lei. O mesmo sucede nos EUA, China, etc, sendo a Espanha de todos esses países o que tem a regulamentação mais pobre, mas mesmo em Espanha tal regulamentação foi publicada em "Decreto Real".
Em 2003 a União Europeia emanou uma Directiva, a 2003/54/EC, cujo artigo 5º manda explicitamente que "Member States shall ensure that technical safety criteria are defined and that technical rules establishing the minimum technical design and operational requirements for the connection to the system of generating installations, ...are developed and made public. These technical rules ...shall be objective and non discriminatory".
Esta directiva é de 2003, e a referida proposta legislativa de regulamentação técnica elaborada no IST ficou pronta no final de 2002, mas... nunca foi publicada!
Portugal é, pois, o único país do 1º Mundo sem legislação nem regulamentação técnica sobre o assunto.
Não havendo legislação que estabeleça as normas técnicas de ligação à rede das renováveis, como são então essas coisas decididas?
Por Comissões nomeadas pelo Governo, a partir de 2003, no que respeita à selecção e aceitação dos concorrentes que são preferidos, e depois basicamente pelos critérios discricionários e casuísticos da REN, no que diz respeito a pormenores operacionais. As únicas regras que existem publicadas são comerciais.
Já por aqui postei como isto nos encaminha, do ponto de vista técnico, para prováveis "apagões", mas a dúvida que quero partilhar hoje é a seguinte: com tantos biliões de € envolvidos nisto, não seria do interesse do Governo que, cumprindo a Directiva Europeia, houvesse uma regulamentação técnica "objectiva e não-discriminatória" (nas próprias palavras da UE) que não permitisse imaginar os fantásticos negócios privados que poderá proporcionar este modus operandi que se adoptou?

Quinta-feira, Novembro 12, 2009

Os apagões, o nuclear e as eólicas

Há uns dias o Expresso publicou on-line um vídeo mostrando uma visita ao reactor nuclear que Portugal tem perto de Lisboa, em Sacavém, há quase 50 anos, e que a maioria da juventude desconhece que existe.
Trata-se de um reactor experimental que Portugal comprou com o intuito de adquirir know-how na matéria, e que justificou até, então, a criação da defunta Junta de Energia Nuclear, onde trabalharam alguns dos melhores "cérebros" que Portugal tinha antes da queda do regime em 1974.
Na sequência da publicação da notícia proliferaram os comentários on-line sobre o reactor e surgiu um argumento contra a opção de instalação de uma central nuclear em Portugal que fora defendido há 30 anos, na última vez que tal opção foi discutida em Portugal. Esse argumento é que uma central nuclear é tão grande que a sua avaria repentina pode "mandar abaixo" toda a rede eléctrica, provocando um "apagão".
Ora e a propósito de apagões, houve ontem um no Brasil que deixou 50 milhões de pessoas às escuras (1/4 da população brasileira), havendo quem argumentasse que tal se deveu "à falta de investimento na rede de distribuição" devida "à ganância dos accionistas". Mas, na realidade, o apagão de ontem no Brasil nada tem a ver com redes de distribuição, e ilustra precisamente o que pode acontecer quando uma grande central "salta fora" repentinamente de uma rede eléctrica.
De facto, foi a central de Itaipu, que fica na fronteira do Brasil com o Paraguai e com a Argentina, que "saltou fora". Itaipu é umas maiores centrais hidroeléctricas do mundo, de facto a maior do mundo em produção de energia, produzindo uma potência média de 11 GW, o que é quase o dobro do consumo médio de Portugal! Fornece 90% da energia consumida pelo Paraguai e quase 1/5 da consumida pelo Brasil, mas está muito longe dos centros de consumo deste país, com linhas especiais de Alta Tensão com mais de 900 km de comprimento.
Foi uma sequência (rara) de incidentes que desligou essas linhas de Transmissão e levou a central a "saltar fora" e, no seguimento, a rede "partiu-se" (algumas linhas de Muito Alta Tensão terão desligado por não aguentarem a sobrecarga pedida ao norte) e as poucas centrais que havia na rede que ficou a Sul não aguentaram o pedido de energia que lhes caiu em cima repentinamente e saltaram fora também. É aliás assim que acontecem quase todos os apagões.
Uma vez ocorrido o apagão, a reposição da rede em serviço, ligando-se uma central de cada vez enquanto se procura a causa do incidente, leva tempo - neste caso levou 6 horas, provocando o caos e obrigando a cantora Madonna, que estava no Rio de Janeiro a visitar umas favelas, a ter de ir jantar à luz das velas.
Ora uma central nuclear não pode ser pequena, em termos da potência que fornece, para ser rentável. 1,35 GW é uma potência típica. E, naturalmente, pode-lhe sempre acontecer o que aconteceu agora com Itaipu.
Porém, hoje em dia o consumo médio de Portugal é de 6,0 GW, variando entre cerca de 3,5 GW de mínimo pela madrugada, e 9,0 GW de ponta pelas 20 horas, o que é muito mais do que o que acontecia há 30 anos, quando os consumos de electricidade eram de pouco mais de 1/4 dos actuais, em Portugal. Nessa altura, o consumo nas horas de vazio (madrugada) era inferior à produção de uma tal central, cerca de apenas 1 GW, o que criava um problema ao excedente e o grande risco de, caso a nuclear se tivesse de desligar inopinadamente, toda a rede "ir abaixo" e se ter um apagão. Mas isso já não é assim hoje, e o disparo de uma nuclear teria efeitos semelhantes, na pior hipótese, aos do disparo da central de Sines (1,2 GW), que aliás já tem acontecido e "mandado abaixo" o Sul do país - mas a fiabilidade de uma nuclear é muito superior à de uma central a carvão, e por isso o risco de tal acontecer é bem menor, menos de metade. E depende muito da concepção da rede em que se insira.
Entretanto, porém, a mesma energia que produziria uma tal nuclear será produzida, já no fim de 2010, pelos 5,1 GW de centrais eólicas que estão em instalação (e de que neste momento já estarão instalados uns 3,5 GW). Ou seja, a mesma potência média de 1,23 GW que uma central nuclear de 1,35 GW produz anualmente, serão produzidos por um conjunto de parques eólicos de 5,1 GW.
Acontece, porém, que a energia eólica é intermitente. Na maior parte do tempo, não produz mais que 5% (0,25 GW) da potência instalada, mas há ocasiões, sobretudo no Inverno e à noite, em que podem produzir 90%, ou seja, 4,5 a 5 GW. E isso é muito mais que os 3,5 GW que Portugal estará a consumir nessa altura e que é a razão de ser do projecto das 8 hidroeléctricas adjudicadas, como já mostrei , que trabalharão como estações de bombagem para dar consumo a essas eólicas.
É evidente, portanto, que vamos estar, com estas eólicas a superarem o consumo das madrugadas, precisamente na situação que há 30 anos levou a excluir a instalação da nuclear de Ferrel!
Há quem argumente que a situação é diferente porque no caso de uma nuclear se perderiam 1,35 GW de uma vez, enquanto que agora temos muitas turbinas eólicas pequenas e que, portanto, o risco de se desligarem todas simultaneamente é muito menor.
Ora isto é falso, e é precisamente a principal razão de ser deste meu post hoje: o risco de "saltarem fora" de uma só vez 3 a 4 GW de eólicas é maior do que o de saltar a tal nuclear (de 1,35 GW)! E porquê? Porque:
  1. Os parques eólicos estão concentrados, na sua maioria, em zonas restritas, especialmente no Minho;
  2. As eólicas que temos não foram concebidas para suportarem perturbações na rede eléctrica a que estão ligadas, desligando-se à menor perturbação; isto acontece porque o Estado português não previu nem publicou normas técnicas que o exigissem (ao contrário de todos os outros países com eólica em quantidade significativa, e apesar delas terem sido elaboradas no Instituto Superior Técnico no início desta década). Ou seja, cada eólica e cada parque eólico dos que temos suporta muito menos perturbações na rede eléctrica do que qualquer central tradicional, incluindo uma nuclear!
Há uns anos o Instituto Superior Técnico fez um estudo da situação e verificou que, muito antes de se atingirem os 5,7 GW planeados pelo Governo, se estará numa situação em que um incidente na rede de Muito Alta Tensão da REN na região do Minho fará "saltar fora" todas as eólicas da região. E o estudo mostrou que as linhas de ligação a Espanha aguentariam o "solavanco", mas que seria a própria rede espanhola que o não aguentaria (ela própria com eólica em excesso), vindo a ser as linhas de interligação a França que disparariam por sobrecarga, verificando-se de seguida o que aconteceu agora no Brasil: desligação das centrais remanescentes, por não aguentarem a energia subitamente pedida, e "queda" de toda a rede... ibérica!
Ou seja: quando ocorrer o inevitável apagão ibérico que tudo isto prepara, já sabem o motivo! E lembrem-se que a nuclear de há 30 anos foi rejeitada em parte por isto poder acontecer, na altura, mas que agora para o eólico nenhum responsável quis saber disso...

O caso das hidroeléctricas

É interessante (e triste) verificar que a Comissão Europeia acaba de publicar uma dura crítica ao Plano Nacional de Barragens, centrando-se sobre a (invocada) violação de normas ambientais relativas às águas, mas onde o Plano também "é criticado por não ter apresentado alternativas que permitissem uma mais clara relação entre os custos e benefícios do projecto, pelo que face aos dados disponíveis os autores do relatório consideram que "não se compreende esta decisão" do Estado português".
Exactamente, neste aspecto, isto é o que demonstrei detalhadamente aqui há cerca de dois meses!

No meio da crítica e contra-crítica que de imediato se seguiram, desde ontem, entre nós, os "verdes" no Parlamento criticam o Governo por este não ter preferido apostar no eólico off-shore em vez de nas barragens, não percebendo que o fito das barragens é precisamente o armazenamento da excedentária energia eólica que vamos ter.
E o Presidente do INAG, em resposta, descansou-nos dizendo que o investimento iria ser feito por privados e não pelo Estado, e que se os privados o fariam com certeza era porque os investimentos seriam rentáveis. Esqueceu-se foi de dizer que esses privados, a EDP, a Iberdrola e a Endesa, têm tarifas reguladas pela ERSE e definidas pelo Governo, e que portanto os tais investimentos só serão rentáveis porque o Governo garantiu a sua repercussão no défice e na tarifa que todos nós, consumidores, iremos pagar! Ou seja: os investimentos poderão ser rentáveis para essas empresas; não o serão de certeza é para Portugal e os portugueses!

Sábado, Novembro 07, 2009

Um Físico português que dá cartas sobre a estranha gravidade do Universo

A matéria negra que permeia as galáxias é uma hipótese éxplicativa que até hoje ninguém conseguiu identificar.
O problema resulta de, observando a forma das galáxias, se constatar que ela é incompatível com a quantidade de massa visível nas mesmas. Resumidamente, as zonas mais distantes dos seus centros rodam a uma velocidade tal que mantém as galáxias como se fossem, no seu todo, um corpo relativamente rígido, o que significa que, para essas zonas mais periféricas, que rodam mais depressa que as interiores, existirá uma atracção gravitacional para o interior muito grande - de facto, muito maior que a explicável pela quantidade de massa existente nesse interior. Pelo menos da massa visível.
Feitas contas, calcula-se que o referido fenómeno só é possível se a massa existente no interior das órbitas dessas zonas periféricas for pelo menos 6 vezes maior que a observável (e até 20 vezes, se se considerarem efeitos mais afastados!). Mas, como tal massa não é observável, diz-se que provém de uma misteriosa matéria negra (há quem a diga "transparente").
Há muito que há quem suponha que essa massa seria constituída por neutrinos, mas a contagem destes tem-se mostrado elusiva.
Outra teoria, mais especulativa mas mais fascinante, considera a possibilidade de esse efeito gravitacional extra provir de universos paralelos, existentes nas outras dimensões que a teoria das membranas conjectura existirem, e que o campo gravítico seria capaz de "atravessar" a separação entre universos. Convém notar que essas dimensões extra da teoria das membranas (ou das cordas) são muito pequenas, pelo que tais Universos existiriam quase sobrepostos ao nosso, uma espécie de mundos de espíritos, onde poderão até estar o Céu e o Inferno...
Mas há outra hipótese explicativa para o referido efeito gravitacional.
Essa hipótese é a de que lei da atracção universal de Newton está incompleta. Faltam-lhe termos quadráticos e de ordem superior, mas com constantes tão pequenas que tais termos só se fazem sentir para distâncias muito grandes, precisamente as das ordens de grandeza das distâncias galácticas e inter-galácticas.
Ajustando valores nesses termos de ordem superior, consegue-se explicar quase tudo (mas não tudo) dos fenómenos observados que geralmente se atribuem à elusiva matéria negra.
Porém, se a lei da atracção universal contém de facto termos de ordem superior, então há outras teorias da Física que têm de ser revistas. E a principal delas é a teoria da relatividade.
Pedro Gil Ferreita é, talvez, o Físico mundial que melhor tem estudado esta questão - e isto não é uma opinião da propaganda do "Portugal positivo", mas sim da Scientific American. E, como a Scientific American reconhece, uma conlusão essencial do Pedro Ferreira é a de que é possível ajustar a teoria da relatividade para uma lei da atracção gravitacional diferente da de Newton, mas á custa da consideração, nessa teoria, de campos de forças... negros! Ou seja, de campos de forças adicionais aos que conhecemos, de uma natureza tão elusiva como a da matéria negra.
A Física tem acumulado nas últimas décadas uma grande quantidade de dados observados para os quais não existe explicação teórica satisfatória e muito menos comprovada.
Na última década, à estranha forma das galáxias que levou à ideia da matéria negra, juntou-se a constatação de que a expansão das galáxias, em vez de estar a desacelerar como era suposto, pelo efeito da atracção gravitacional, está a ...acelerar! O que é explicado pela existência de um campo de forças, ou energia... negra! Ou seja: pura e simplesmente não há explicação!
Se a História permite extrapolações, a Humanidade está á beira de um salto revolucionário na Física.
E, seja quem for o próximo Einstein, Pedro Ferreira terá sempre sido um contribuinte importante dessa revolução que se avizinha.

Sábado, Outubro 31, 2009

As declarações do Eng.º Penedos - actualizado

Num evento com empresários de Coimbra no passado dia 23, o Presidente da REN e destacado militante do Partido do Governo, Eng.º Penedos, anunciou o advento de um "novo paradigma energético", em que "a procura irá condicionar a oferta". Num discurso que, tal como foi transcrito pela imprensa, terá sido bastante confuso, falou de um futuro a cinco anos em que o consumidor, então também microprodutor, "irá estar em casa e poder ver os preços daquela hora no mercado e decidir se vai consumir energia ou se vai pura e simplesmente prescindir e passar o consumo para outra hora que seja mais económica"!...
A confusão deste discurso é que, desde sempre, foi a procura que condicionou a oferta de energia. Um consumidor liga o interruptor e as centrais eléctricas ajustam a produção a essa procura. Isto é como funciona e sempre funcionou o sistema de energia! Se foi isto que ele disse, não se entende onde está a novidade!
Porém, o que o Eng.º Penedos quis sem dúvida dizer foi o oposto e que, como eu já aqui alertei, é o que de facto os ecotópicos nos preparam: será a oferta que condicionará a procura!
O que o Eng.º Penedos nos anuncia é, por outras palavras, claras e sem confusão, o seguinte: como as energias renováveis são intermitentes e incontroláveis, ao contrário das fontes tradicionais, vai acontecer haver horas e dias em que não haverá energia para todos - o que se vai traduzir em preços exorbitantes que, muito simplesmente, deixarão de fora da civilização de que usufruímos há um século quem não for muito rico! E que, provavelmente, enriquecerão em muito empresas monopolistas como a REN...
Certamente para parecer moderado e equilibrado, o Sr. Eng.º Penedos mostrou-se também aberto à opção nuclear - com uma condição: desde que sejam centrais de uma tecnologia que ainda não existe! Centrais nucleares como as 435 que existem presentemente a funcionar em 31 países, incluindo as 8 que existem em Espanha, que produzem 15% da electricidade mundial e quase 80% da barata electricidade francesa, de que se constroiem novas em grande quantidade por toda a Ásia (há presentemente 52 em construção, mais de metade das quais na China), estão fora de causa! Aceitáveis, só as que "não produzam resíduos", estando sem dúvida a referir-se às centrais de IV geração de cuja disponibilidade se fala lá para 2040...
O Eng.º Penedos dirige uma empresa em que a margem de lucro é proporcional aos investimentos feitos. Por isso, e ele sabe isso perfeitamente, a REN investe com uma lógica completamente contrária à da eficiência - quanto mais investir em redes e equipamentos desnecessários, mais lucros tem. A chamada lógica burocrática.
Foi contra isto que, vai para 30 anos, Reagan decretou a "purple", liberalizando o acesso às redes e à produção de energia nos EUA, o que foi no seguimento copiado por todo o mundo. E, porque havia largo excesso de equipamento de rede, na década seguinte à promulgação da "purple" não foi preciso investir mais apesar do crescimento dos consumos, o que permitiu uma grande redução dos preços da energia nos EUA, ainda hoje a 55% dos nossos.
Infelizmente a História muitas vezes dá um passo em frente para depois dar dois passos atrás...
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Dias depois de ter "postado" isto, apareceu nos media uma notícia deveras triste: a de que o Eng.º Penedos seria arguido, juntamente com o seu filho, de um esquema de favorecimento de um certo grupo empresarial de Aveiro que terá a seu cargo. nomeadamente, o tratamento dos resíduos industriais das nossas empresas "energéticas".
Francamente, estou pouco interessado em saber se o Eng.º Penedos cometeu algum crime ou não. O que deveras me preocupa é outra coisa.
De há uns tempos para cá, quer a EDP quer a REN deixaram de tratar os resíduos industrais dos seus equipamentos, nomeadamente cinzas (algumas com teores de mercúrio) e óleos (portadores dos cancerígenos pcb). Esses resíduos passaram a ser tratados em "outsourcing", por empresas como a O2 - Tratamento e Limpeza Ambientais, SA, que surge agora no cerne desta triste história.
Ora, há uns meses, muito antes desta investigação criminal ser conhecida, um quadro de uma destas empresas manifestou-me a sua preocupação quanto ao desconhecido destino que estariam a ter os referidos resíduos industriais. No meio da conversa, surgiram referências jocosas à máfia italiana e aos crimes ambientais que o "negócio do lixo" tem causado por todo o lado e de que a filmografia é pródiga a romancear.
Sabemos agora que a referida empresa de Aveiro está envolvida em avultados esquemas de corrupção e em enormes fraudes fiscais, nomeadamente com a emissão de facturas falsas. Será que o tratamento dos resíduos industriais propriamente ditos foi feito como deve ser, sabendo-se como por todo o lado esse negócio é frequentemente mafioso? De facto, e conforme o Eng.º Oliveira me chamou a atenção depois de publicar uma versão anterior deste post, a TVI mostrou há semanas uma reportagem sobre a "máfia lusa dos lixos" que é verdadeiramente aterradora! E, no entanto, os medias e aparentemente a justiça parecem muito mais interessados na identificação de corruptos do que em identificar se a empresa que está por detrás de tudo isto comete ou não crimes ambientais!
Seria verdadeiramente triste vir a saber-se, entretanto, o que sinceramente desejo que não aconteça, que a liminar rejeição da opção nuclear para Portugal, em nome do seu alegado "problema dos resíduos", andasse a par da cumplicidade com negócios mafiosos no tratamento dos outros resíduos industriais da produção de energia e nos eventuais crimes ambientais associados...!

Sexta-feira, Outubro 23, 2009

Nada que não seja sabido, mas que há quem prefira não saber!

O Fundo Mundial para a Natureza avisa, numa notícia nos jornais de hoje, que ardem por minuto 36 campos de futebol de florestas, no mundo. E que essa desflorestação contribui com 20% da totalidade os Gases de Efeito de Estuda (GEE) de origem antropogénica! É assunto para que tenho chamado a atenção diversas vezes, até porque há muito quem apregoe que os combustíveis fósseis são responsáveis por 85% dos GEE, quando na verdade o serão por apenas uns 50% e, destes 50%, só 40% (portanto uns 20% do total) resultam da soma da produção de energia eléctrica com o transporte rodoviário...e atenção: limito-me a citar dados do próprio Painel Climático da ONU, e não de algum blog negacionista...! Estes dados mostram ao mais inumerato dos ecotópicos que os fogos florestais emitem tantos GEE como todas as centrais a carvão e todos os automóveis e camiões do mundo juntos!!!

Diz o Fundo que é preciso compensar a floresta ardida com reflorestações, de modo a atingir-se um equilíbrio. Vale a pena notar que o que se tem passado é que onde as florestas ardem é no Sul, nos países subdesenvolvidos, e que onde são plantadas é no norte, nos países desenvolvidos.
Além da modificação do tipo de floresta que tal acarreta, isto mostra como o mito do bom selvagem original que os ecologistas utópicos (ou ecotópicos) gostam de acalentar, o mito de que é preciso regressar ao "equilíbrio natural" do homem primitivo, é mesmo um mito.
A verdade é que só o homem muito civilizado é que sabe que as actividades humanas perturbam o ambiente e é capaz de tomar medidas para o proteger; que é nos países civilizados que há parques naturais onde a fauna e a flora originais são preservadas, e mesmo os parques que existem a Sul só se mantêm por grande pressão dos povos do Norte.
Na Gorongoza, mal os colonos abandonaram Moçambique os nativos acabaram com os animais de "vida selvagem" que lá havia - sobretudo comendo-os.
Os maias da antiga civilização deram cabo dos terrenos que cultivavam até ao abandono das cidades (também resultantes do extermínio mútuo entre cidades que não aprenderam a fazer com o homem ociental)...
O mamute norte-americano desapareceu com a chegada do Homo Sapiens ao continente americano. E o homem de Neanderthal idem, na Europa...
Para Copenhague, o principal obstáculo a um acordo é o montante que se pretende que os civilizados do norte paguem aos povos do Sul para que estes poupem o seu próprio ambiente.
Infelizmente receio que vá ser muito difícil que qualquer acordo nessa matéria, caso se consiga, venha a ser cumprido.

Segunda-feira, Outubro 19, 2009

A nova central solar do Santuário de Fátima - com correcção

Uma notícia de hoje dá conta da instalação, no telhado da Igreja da Santíssima Trindade, no Santuário de Fátima, de uma central fotovoltaica com 100 kW de potência "de pico".
Ontem à tarde,"O padre Cristiano Saraiva, administrador do Santuário, acompanhou ...um grupo de jornalistas à instalação de energia. Trata-se de uma opção feita para colaborar no esforço global contra as alterações climáticas, mas também para tentar reduzir a factura energética do santuário, explicou".
Uma iniciativa destas pela Igreja Católica tem um alto valor simbólico e é, por isso, meritória. Penso que no futuro será de esperar um empenho crescente da Igreja nestas questões, sendo mesmo talvez de se lho reclamar, sabendo-se como as alterações climáticas antropogénicas derivam, no fundo, do excesso de população humana neste planeta finito e de como a Igreja se opõe à limitação da natalidade.
Áparte o valor simbólico da iniciativa, porém, a notícia que a acompanha contém, como infelizmente é usual, um enorme acervo de incorrecções técnicas que se inscrevem na retórica ecotópica do costume, e de que vou dissecar algumas. Não que pense que a Igreja tenha alguma responsabilidade nisto! Sinceramente, acredito que os clérigos envolvidos nesta decisão sejam inocentemente crédulos, quanto ao que ouvem a propaganda dizer sobre estas coisas...

O custo anunciado para esta Central é de meio milhão de €. Ou seja, 5000 € por kw de "pico".
Porém, como se tratam de painéis fixos instalados em telhado, incapazes de seguirem a deslocação do Sol ao longo do dia, a potência média desta Central nunca ultrapassará os 14 a 15 kw. Basicamente pela necessidade de amortizar o investimento, o custo de produção da energia assim produzida ficará pelos 44 ç/kwh, mais cara mais de 10 vezes do que se fosse produzida por uma central nuclear, quase 3 vezes o que o que o próprio consumidor paga à EDP! Só poderá ficar com um custo de produção inferior se as taxas de juros consideradas para o investimento forem subsidiadas...
Obviamente esta instalação só será rentável porque a energia por ela produzida é fortemente subsidiada. Como notei aqui, a EDP é obrigada a pagar 61,75 ç/kwh por esta produção, mas não será como remuneração pela venda de energia que a central solar de Fátima vai ser rentável; será, isso sim, pela captação dos subsídios de decisão política do Governo.
Entretanto, a notícia informa que a central produzirá 150 mil kw por ano (a eterna confusão entre potência - kw - e energia - kwh -...), o que é só um pequeno exagero, visto que a central poderá produzir de facto uns 130 mil kwh anuais (14.84% dos 100 kw de "pico" x 8760 horas que tem um ano). Naturalmente, produz muito mais nos dias longos e soalheiros de Verão do que nos nublados e curtos do Inverno, como se mostra na figura para uma instalação portuguesa típica similar.

Diz ainda a notícia que esta energia produzida pela central solar de Fátima "permitiria alimentar 500 casas". Mas trata-se evidentemente de um erro de zeros; o consumo doméstico médio em Portugal foi de 2611 kwh em 2007, e portanto 130 mil kwh dão para alimentar... 50 casas, e não 500! A 10 mil € de investimento por casa, note-se... se não se tivesse ainda de adicionar ao custo da Central o custo dos meios de armazenamento da energia, de modo a poder-se usufruí-la à noite, que é quando faz mais falta!

Uma estimativa por alto mostra que se considerarmos este custo extra das barragens de armazenamento e o da rede necessária para levar para lá a energia e trazê-la de volta ao início da noite (custo pago por todos os consumidores), e que as perdas energéticas nesse processo reduzem a energia total remanescente à capaz de satisfazer já não as 50 mas apenas 40 casas (o rendimento da armazenagem nunca é melhor que 3/4), mesmo admitindo que 1/3 do consumo seja durante o dia, o custo total deste empreendimento ficaria por nunca menos de 15 mil € por cada uma das 40 casas alimentadas, e isto sem considerar o pagamento dos lucros dos intervenientes no negócio... mas, felizmente, não há só energia de origem solar na rede, e pode-se conceder que na verdade toda a energia solar desta central é consumida durante o dia, em parte da povoação de Fátima, e que à noite, pelas 20-21 horas, quando o consumo doméstico atinge o máximo, as centrais eléctricas convencionais cá estarão para servir os consumidores - incluindo a iluminação da Igreja.

Finalmente, a notícia diz que "A central já instalada permite poupar o equivalente a 31.390 litros de gasolina ou 160 barris de óleo". Em "óleo", devem querer dizer "oil", petróleo. Mas é difícil entender como foi estabelecida esta relação entre gasolina e petróleo, por um lado, e electricidade, que não é produzida a partir daqueles combustíveis. O que talvez se pudesse dizer é que esta instalação permitiria poupar a emissão de 125 toneladas de CO2 por ano (de centrais a carvão), mas só a partir do termo da primeira meia dúzia de anos, já que até lá o CO2 poupado apenas "pagaria" o que teve de ser gasto para a produção dos próprios painéis solares, uma fabricação que requer imensa energia...

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O leitor Fernando Marques comentou, com razão, que a tarifa remuneratória que eu mencionara de 61,75 ç/kwh só se aplica á microgeração (potências até 5 kw). De facto, dada a potência de 100 kw em causa, a tarifa remuneratória é definida de modo mais complexo, pelo Decreto-Lei nº 225/2007. Umas contas por alto mostram que sendo assim a tarifa que a EDP pagará pela energia produzida por esta central deverá andar á volta de 35 ç/kwh, o que efectivamente só pagará os custos de investimento do Santuário se este tiver conseguido condições de financiamento muito favoráveis (em taxas de juros) para o meio milhão de € investidos. Mas, ainda assim, esta tarifa será mais do dobro do que o consumidor médio paga pela energia eléctrica que compra, e o diferencial será pago pelo conjunto dos consumidores (senão pelos contribuintes, se um dia for o Estado que for chamado a saldar o défice das "eléctricas"), sem mencionar os custos de rede.

Diz ainda o leitor que de qualquer modo se trata de um "benefício para a sociedade". Nestes posts eu não tenho feito distinção entre quem lucra e quem perde nestes negócios em Portugal, porque todos constituímos"a sociedade". Interessa-me muito mais, precisamente, é discutir se "a sociedade" no seu conjunto beneficia destas políticas, e aí é que me parece óbvio que a "solução" solar como medida de combate ao aquecimento global é absolutamente insustentável para nós, para qualquer sociedade e para a Humanidade em geral, agora e nas próximas décadas, como já mostrei noutros posts.

Sábado, Outubro 10, 2009

A todo o gás!

Tal como para o petróleo, de que presentemente só se conseguem extrair 30% das reservas conhecidas e para o qual se espera a emergência de novas tecnologias capazes de extrairem muito mais, também para o gás natural a tecnologia vai alargando as reservas exploráveis.
Agora, foi a descoberta de um modo de extrair o gás embedido em rochas e que aumenta as reservas exploráveis no mínimo dos mínimos em 20%!
Anda tudo excitadíssimo, particularmente cá pela Europa!

Quarta-feira, Outubro 07, 2009

A explosão demográfica não é só responsável por 1/3 dos Gases de Efeito de Estufa

Um interessante artigo da Scientific American aborda vários aspectos relacionados com a explosão demográfica humana, além da causa directa que é, pelo uso dos solos, de 1/3 (a 1/2...) da emissão de Gases de Efeito de Estufa (GEE): há também a escassez de água, e a necessidade de aumentar mais ainda a produtividade da agricultura, particularmente na África sub-sahariana.

Uma das esperanças para este aumento da produtividade agrícola são as espécies geneticamente modificadas a que, no entanto, os ecotópicos se opõem.

O problema é que eles desejam um mundo como na primeira das figuras seguintes, quando ele de facto é sobretudo como na segunda figura...

Terça-feira, Outubro 06, 2009

Portugal positivo

Amanhã, quarta-feira 7, haverá um seminário no Tagusparque:

"Revoluções & Oportunidades -- Uma missão para a Universidade e algumas reflexões"
pelo Professor José Epifânio da Franca

Local: Sala 1.36 ("Sala de Formação")
Hora: 16h00 -- café e natas, 16h30 -- talk

Resumo:

A indústria de semicondutores, que tem pouco mais de 50 anos de existência, foi e continuará ser palco de revoluções tão silenciosas como profundos são os seus efeitos nas nossas vidas e no mundo.
Revoluções que rasgam enormes avenidas de oportunidades para que o conhecimento e o empreendedorismo construam novas aventuras e cimentem o desenvolvimento, a modernização e o progresso.

A “Mead & Conway Revolution” iniciou-se com a publicação do livro “Introduction to VLSI System Design” (Dezembro de 1979) que veio desmistificar e rapidamente massificar o que era conhecimento e tecnologia até então de exclusiva propriedade de algumas (ainda poucas) empresas de semicondutores.

Nos primórdios da indústria de semicondutores, quando os “chips” continham algumas centenas de transístores, o seu projecto era realizado quase exclusivamente em empresas e sempre próximo da sua fabricação. O conhecimento das técnicas e metodologias de projecto permanecia estanque nessas empresas, não sendo possível às Universidades proporcionar a formação de base necessária à preparação de profissionais qualificados.
A revolução de Mead & Conway consistiu em separar o projecto da fabricação de circuitos integrados, criando assim as condições fundamentais para que o acesso ao conhecimento dessa tecnologia passasse a ser universal, acessível a qualquer um e em qualquer lugar.

Esta revolução desencadeou uma outra revolução sem paralelo na história de qualquer outra indústria mundial. A revolução da desintegração da cadeia de valor que cria oportunidades, a qualquer um e em qualquer lugar, de participar na que porventura continuará a ser a indústria mais estratégica e global deste século.

Fundada em 1997 a partir de um grupo de investigação do IST, a Chipidea participou nesta revolução. Aproveitou a oportunidade para se tornar pioneira no desenvolvimento da indústria da propriedade intelectual dos circuitos e sistemas integrados analógicos (“Analog Semiconductor Intellectual Property”), tornou-se líder mundial em 2004 e é hoje parte da maior empresa mundial de EDA (Synopsys).

Mas mais que um negócio, foi uma missão que esteve na origem da criação da Chipidea. A missão de criar em Portugal uma actividade profissional que pudesse absorver o conhecimento que era criado na Universidade e que de outra forma seria irremediavelmente perdido, para sempre ou para o estrangeiro. A missão foi cumprida e o seu impacto é irreversível: existem já hoje em Portugal 5 empresas na árvore genealógica que a Chipidea plantou em 1997 e que continuará a crescer nos anos vindouros.
Pelo caminho, ficam algumas reflexões sobre o que continua a tolhar o nosso desenvolvimento, modernização e criação de riqueza.

Segunda-feira, Outubro 05, 2009

A prova final

Como é sabido, as classificações dos alunos do secundário nos exames de Matemática têm melhorado espectacularmente, nos últimos anos.
O Governo e em particular a Ministra da Educação têm justificado esta melhoria como uma prova do "Portugal positivo" que o Governo estaria a construir, e concretamente como um produto da reforma da educação que o Governo realizou, através do novo estatuto do aluno e da avaliação dos professores.
Pelo contrário, a Associação Portugesa de Matemática, de Nuno Crato, e outros especialistas providos de "pessimismo" e "espírito do bota-abaixo", dizem que esses melhores resultados são fruto de mero facilitismo nos exames e constituem um engano.

Quem terá razão?

Ora o Instituto Superior Técnico, com o apoio da Sociedade Portugesa de Matemática, realizou este ano uma prova de matemática a todos os alunos que lhe chegaram do secundário, para averiguar da sua preparação.
A última vez que uma tal prova fora realizada, fora há 7 anos.
Nessa prova realizada há 7 anos, tiveram positiva 80% dos alunos, e 2/3 tiveram mais de 15 valores.
Já na prova deste ano, tiveram positiva 45% dos alunos, e só 10% conseguiram mais de 13,3 valores.
Terá isto alguma coisa a ver com o facto de a Esolováquia (bastante mais pobre que a sua vizinha Checa) nos estar a ultrapassar em PIB por habitante?

Domingo, Outubro 04, 2009

O nosso contributo incendiário para o efeito de estufa - com nota extra

Este Verão terão ardido em Portugal 77 mil hectares de floresta.
Terá sido mais que nos 3 anos anteriores, mas muito menos que no ano record de 2003, em que ardeu quase 6 vezes mais.
Mesmo assim, os incêndios deste Verão terão emitido 1,3 milhões de toneladas de CO2 para a atmosfera, o que constituirá 1,6% do total de emissões portuguesas que, como habitualmente, não considera estas e outras emissões resultantes do uso do solo. Isto, considerando modelos desenvolvidos no Instituto de Agronomia de Lisboa em 2006.
Mas, só a Central a carvão de Sines, já bastante velha, emite em menos de 2 meses de funcionamento tanto CO2 como o total destes incêndios, o que tem sido justificado para a ir usando cada vez menos, em benefício das eólicas e das hidroléctricas de armazenagem que as servem e, sobretudo, das de ciclo combinado a gás natural.
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Incentivado por uma pergunta de um comentário, fiz uma busca que me permitiu descobrir que, além do cálculo feito no Instituto de Agronomia para 2003 e que citei na resposta a esse comentário, existe um amplo e sério trabalho feito continuadamente sobre o assunto na Universidade de Aveiro, sob a direcção dos Profs. Ana Miranda e Carlos Borrego.
Um trabalho deste grupo já com uns anos, estimava em 10% a contribuição dos fogos estivais para os GEE em Portugal: além do CO2, todos os outros gases estão presentes nesses fogos, do metano aos nitritos, alguns dos quais agentes muito piores do Efeito de Estufa!
Trabalhos mais recentes desse grupo de Aveiro e outros mostram duas coisas: a) que os fogos libertam também outros elementos nocivos e cuja concentração atmosférica nas grandes cidades portuguesas tem uma clara correlação com a ocorrência desses incêndios, como o Ozono e o mercúrio; b) que, tal como noutros países industrializados, se verifica uma tendência imparável para o aumento anual dos fogos. Na Coreia isso é correlacionado com as próprias práticas de reflorestação pós-incêndios.
Estes factos, pouco conhecidos, já os tinha aflorado aqui.

Sexta-feira, Outubro 02, 2009

A competição pelo carvão limpo

O actual Secretário de Estado da Energia dos EUA, o prémio Nobel Steven Chu, avisou esta semana ao CO2 emitido pelas centrais a carvão: "We will bury you"!
Isto foi escrito num artigo na Science onde era explicada a decisão pelo Governo Obama de dedicar 3-4 biliões de dólares à I&D para a captura e enterramento do CO2 emitido por aquelas centrais.
Parece, pois, que a decisão política a que o EPRI apela e que aqui referi, foi tomada.
Naturalmente, isto de obter uma tecnologia que torne as centrais a carvão "limpas", tanto como as renováveis ou o nuclear, não é só uma questão de salvar o mundo: é também uma oportunidade estratégica de negócio!
Quem dominar essas tecnologias, dominará grandes e lucrativos mercados mundiais.
E é certamente por isso que a China iniciou a construção não de uma, mas de duas grandes instalações prototípicas, com duas tecnologias diferentes (a ensaiar), para a captura e enterramento do CO2 produzido pelo carvão.
Quem dos dois países, EUA e China, ganhará a corrida, é difícil prever. Ambos esse países são ricos em carvão e usam-no abundamentemente para a produção de electricidade, de que o carvão é lá a principal fonte primária, e é bom que ambos apostem no mesmo.
Quanto a nós, só temos que esperar para ver a quem vamos depois importar, chaves na mão, essa tecnologia de que não haveremos de perceber nada, entretidos que teremos andado a acompanhar vagamente projectos europeus de investigação fundamental, a fazer barragens para armazenar o excesso de energia gerada pelas turbinas eólicas que importámos e a investigar "redes espertinhas" que, da forma como as imaginamos hoje, nunca existirão.
Na figura: operários chineses numa mina de carvão, 2008

Quinta-feira, Outubro 01, 2009

Preço da energia daqui a 20 e a 40 anos

O EPRI ("Electrical Power Research Institute") é a entidade que supervisiona a maioria da Investigação & Desenvolvimento (I&D) em matéria de energia eléctrica na América. É suportado pelo conjunto das Empresas de Electricidade americanas e também conta com o apoio de empresas de 40 outros países, como a EDF francesa, de Universidades e consultores independentes.

Com largos recursos, o EPRI faz ele próprio I&D, mas também financia muita feita por terceiros, sob contrato. No entanto, a sua ligação às empresas e à economia real dá-lhe um pragmatismo económico e um bom senso social muitas vezes ausentes nos académicos.

Nos últimos anos, o EPRI tem procurado avaliar e prever as tecnologias que permitam reduzir as emissões de CO2, juntando-lhe as dimensões sócio-económicas, e realizou dois estudos de que publicou recentemente um relatório actualizado.
Infelizmente o relatório completo só é acessível às empresas sócias do EPRI, mas um resumo do mesmo pode ser consultado aqui.
Nesse relatório são projectados dois cenários de futuro para os EUA quanto às tecnologias energéticas desenvolvidas para a redução das emissões de CO2. Considera-se que se pretende uma redução das emissões de CO2 para 60% do seu valor recente dentro de 20 anos (2030), e para 20% vinte anos depois (2050).

No primeiro cenário, ou de opções limitadas, são excluídos o carvão com captura de carbono (CCC) e o desenvolvimento do nuclear, em consonância com os desejos dos ecotópicos.
No segundo cenário, ou de carteira completa de opções tecnológicas, todas as tecnologias são incluídas.

Em ambos os casos são previstas as melhores soluções, dentro das limitações assumidas.

A previsão da utilização das várias fontes energéticas ao longo das próximas décadas é ilustrado na figura seguinte, respectivamente para a opção de carteira limitada (sem nuclear nem carvão "limpo") e de carteira completa.

No primeiro cenário, em que se decide a exclusão do carvão limpo e do nuclear, verifica-se, a partir do presente (2010), um abandono progressivo do carvão e do nuclear (não instalação de novas centrais e desmantelamento das antigas à medida que atinjam o fim da sua vida útil), e um grande crescimento das energias renováveis, com a solar a fazer o seu aparecimento em força dentro de 20 anos. Porém, as medidas mais significativas serão a redução do consumo, em parte devido ao aumento da eficiência energética, e a curto prazo um grande aumento do consumo de gás natural, em substituição do carvão.

É evidente que isto é o que está a acontecer na Europa, e em particular em Portugal, onde novas centrais de ciclo combinado estão a ser instaladas a um ritmo frenético, ao mesmo tempo que se reduz o uso do carvão. Estas centrais, note-se, funcionam a gás natural, e dizem-se de ciclo combinado por terem dois ciclos termodinâmicos combinados que lhes dão uma grande eficiência: uma turbina a gás (basicamente semelhante às dos motores a jacto dos aviões, mas muito maiores), e depois um ciclo de vapor em que a caldeira é aquecida pelos escapes dessa turbina, que ainda saem dela suficientemente quentes para isso. O gás natural tem o seu preço indexado ao do petróleo e as suas reservas no sub-solo são maiores que os deste, mas limitadas.

No segundo cenário o uso das renováveis é praticamente o mesmo (mas sem o caríssimo solar), o nuclear cresce paulatinamente nos próximos 20 anos mas não o do uso do gás natural (cuja queima emite CO2, recorde-se), o que permitirá uma redução mais suave do consumo do carvão (mais barato), até estar dominada a tecnologia da captura do CO2 das respectivas centrais, aqui prevista para dentro de 20 anos (como o solar). A partir daí o nuclear estabiliza e dá-se um forte retorno às centrais a carvão, agora "limpo", assim como a generalização dos automóveis eléctricos. A redução do consumo também dará um contributo essencial para a redução do CO2 emitido, mas não tão drástico como no cenário de opções limitadas (onde terá o papel principal), e porquê? O gráfico de previsão da evolução dos preços para ambos os cenários explica-o.

A previsão da evolução de preços da electricidade é que, seja como for, estes vão subir significativamente!

Mas, enquanto no cenário com todas as opções, os preços subirão para 180% nos próximos 30 anos, e depois estabilizarão, no cenário sem nuclear nem carvão limpo os preços dispararão até serem mais do triplo do que são hoje, em boa parte devido à subida dos preços do gás natural à medida que se aproximar o seu esgotamento e à necessidade de reduzir ainda mais o CO2 emitido, que passará a ter nas centrais de ciclo combinado a sua principal fonte, uma vez eliminado o carvão. E é essa mesma subida dos preços que conseguirá a redução adicional de consumos sobre o cenário com todas as opções - mas, com toda a probabilidade, essa redução de consumo não será equitativamente distribuída; serão os pobres quem deixarão de poder aceder à energia!

Como não tenho o relatório completo do EPRI, não conheço em detalhe os seus modelos. Porém, estou em crer que a evolução das coisas será muito mais rápida do que o que o EPRI prevê, quiçá em metade do tempo - o que ele prevê para 2030 talvez ocorra já em 2020, e o que prevê para 2050 ocorrerá provavelmente até 2030.

Por outro lado, convém notar que isto são previsões para a América, onde os preços da energia são 55% dos actuais na Europa; com o cenário de mais 80% nos preços da electricidade, a América terá atingido os preços que vigoram presentemente na Europa...! Quanto ao que acontecerá por cá...

Nota o EPRI: a decisão sobre qual dos dois cenários de futuro se materializará, é uma decisão política, e tem de ser tomada agora. A "limpeza do carvão" (captura do CO2 emitido e seu enterramento no sub-solo) é, neste contexto, o tema de I&D que mais necessita de uma decisão política, porque existem soluções técnicas mas falta testá-las em grande escala e aprender com isso, e tais testes requerem investimentos que ninguém fará se os "ventos" político-ideológicos estiverem contra. O mesmo se passa em grande medida com o nuclear, que se "desaprendeu" de fazer devido a esses "ventos". Pelo menos fora da Ásia.

Quarta-feira, Setembro 30, 2009

Clusters industrais nas renováveis: 23 mil empregos, ou a fraude portuguesa do século? Parte II - o caso das hidroeléctricas

Recentemente, o Ministro da Economia em acumulação de funções anunciou um plano de aposta nas energias renováveis que implicaria a criação de 23 mil empregos e 15,5 biliões de euros de investimento. O plano estará em execução há já 2 anos e é para continuar por mais 6.

A enormidade do investimento anunciado e as implicações que ele terá para o futuro nacional tornam irrecusável o imperativo ético de trazer à discussão pública a bondade desta decisão. Um contributo para essa discussão, até aqui ausente do palco mediático (salvo posições do antigo Ministro da Indústria dos Governos de Cavaco Silva, Mestre Eng.º Mira Amaral), é o que decidi escrever no que acabará por ser um texto longo. Decidi escrevê-lo por partes, para postar à medida que o tempo mo permita.

Na parte I, mostrei, historiando, como as tecnologias da energia eólica levam tempo a dominar, como é preciso ter estratégias nacionais para atingir esse domínio, que problemas técnicos e que valor acrescentado existe no fabrico de instalações eólicas e, finalmente, como o que Portugal tem feito na matéria peca por um terceiro-mundismo sem sustentabilidade, nomeadamente quanto aos 1800 empregos que estará a criar. Nas eólicas, que em breve terão esgotado o potencial nacional, terão sido investidos directamente 6,5 a 7 biliões de €, importanto quase tudo e subsidiando fortemente essa importação, num exemplo único no mundo de fomento de indústrias estrangeiras. Àquele investimento haverá ainda que adicionar 1 bilião de €, pelo menos, na expansão de rede necessária para ligar as eólicas à rede eléctrica.

Nesta parte II, agora, debruçar-me-ei sobre os projectos hidroeléctricos em curso. Embora estes projectos sejam apresentados como visando o aproveitamento dos Recursos Hídricos nacionais, objectivo que naturalmente recolhe o apoio consensual dos portugueses, na verdade a energia de origem hídrica que estes investimentos acrescentam ao país é insignificante e, como demonstrarei, não é esse o seu objectivo principal.
O objectivo principal dos projectos hidroeléctricos em curso é a criação de reservatórios de energia... eólica, e principalmente energia eólica de Espanha! Mas que, na sua maior parte, vão ficar sem qualquer utilização.

  • Os factos dos investimentos hidroeléctricos em curso
Em 2008, começou a ser publicitado o relançamento do aproveitamento dos recursos hidroeléctricos nacionais, prosseguindo a construção de centrais que tinha sido bloqueada quando em 1995 o filósofo Prof. Doutor Manuel Carrilho acusou, no Parlamento, o então Ministro da Indústria e ex-especialista da EDP Eng.º Mira Amaral, de "barbarismo tecnocrático" por ele defender a barragem de Foz Coa. A barragem, que já estava em plena construção, foi suspensa pelo sub-sequente Governo de Guterres (1995-2001), e as gravuras pré-históricas lá encontradas só podem hoje ser visitadas com marcação prévia e com muita antecedência, como descobrem os ingénuos visitantes a quem ocasionalmente ocorre ir até lá fazer um passeio turístico.

As 8 hidroeléctricas cujo licenciamento foi atribuído já neste ano de 2009 tinham prevista uma potência instalada total, inicialmente, de 941 MW, mas a potência média esperada, considerando o caudal dos respectivos rios (que não se pode mudar), era de apenas 150 MW, menos de 1/6 do que produz em média a central a carvão de Sines e uns míseros 2,7 % do actual consumo nacional, um valor que apenas dá para cobrir o aumento de consumo de um único ano (sem recessão), como bem notou o ambientalista Prof. Doutor Joanaz de Melo.
Recordo que, como expliquei aqui, é a potência média que nos dá uma ideia da energia que uma central eléctrica efectivamente produz, e não a sua "potência instalada", que só é atingida muito ocasionalmente, ao longo do ano.

Dos referidos 941 MW inicialmente previstos para as 8 barragens, quase metade (424 MW) foram concedidos à espanhola Iberdrola, concretamente 4 das referidas 8 hidroeléctricas e que se situam na bacia do Tâmega e cuja exploração é inter-dependente.

A potência média dessas centrais da bacia do Tâmega, porém, era de apenas 59 MW, e há quem diga que mesmo este valor está sobreavaliado em 20%. E, no entanto, a Iberdrola ofereceu no leilão de concessionamento 1 bilião de € por elas, e mais tarde anunciou que afinal vai investir 1,7 biliões de € ali.
Ao mesmo tempo, a Iberdrola anunciou que vai ampliar a "potência instalada" das referidas centrais dos 424 MW inicialmente previstos para 1135 MW, mais 711 MW que o valor inicial, sobretudo na barragem de Gouvães!

Por outro lado a EDP, que ficou com 3 das 8 centrais e quase metade da potência a instalar inicialmente prevista (444 MW), anunciou também a ampliação desta potência em mais 263 MW, sobretudo na barragem do Alvito, e os investimentos atingirão, somando valores mencionados na imprensa, cerca de 1,1 biliões de €. Porém, a potência média destes 3 aproveitamentos, cuja potência instalada atingirá assim os 707 MW, a potência a que realmente é proporcional a energia de origem hídrica a gerar, será de apenas 80 MW.

A última das 8 barragens, Girabolhos, foi atribuída à espanhola Endesa, para um investimento inicialmente anunciado de 110 milhões de €. Esta barragem tinha prevista uma potência a instalar de 72 MW e uma potência média (proporcional à energia hídrica disponível) de apenas 11,3 MW, mas também a Endesa decidiu, já depois de ganha a concessão e similarmente ao que aconteceu com as outras 7 centrais, multiplicar por cinco a potência instalada, para 355 MW! O investimento final é agora indicado como sendo de 360 milhões de €!

Temos assim que, no total das 8 barragens, se estima em apenas 150 MW a potência média de origem hídrica disponível, mas a potência a instalar prevista no Caderno de Encargos, que era de 941 MW, vai ser efectivamente de... 2200 MW! Isto, para um investimento total anunciado (na imprensa) de 3,0 biliões de € (2/3 dos quais espanhois).

Desde já chamo a atenção de um detalhe crucial para entender estes aumentos de potência instalada e que adiante explicarei para que servem: em quase todos os casos os aproveitamentos serão reversíveis, isto é, as turbinas poderão trabalhar como bombas hidráulicas, enchendo os reservatórios das albufeiras com água já turbinada, puxada de jusante. Como comenta encantado o Eng.º Carlos Pimenta, "põe-se o rio a andar ao contrário"...

Entretanto, a estratégia destes investimentos só se entenderá perfeitamente se se recordar que a EDP tem em curso o reforço de potência instalada de outras 8 barragens (Bemposta II, Picote II, Alqueva II, Venda Nova II e III, Salamonde II, Paradela II e Cabril II), aumentando essa potência num total de 2000 MW, e ainda mais duas novas em construção (Ribeiradio e Baixo Sabor, com 244 MW de potência instalada), que adicionarão ao todo apenas uma potência média de 60 MW, para um investimento total de 3 biliões de €.

Somando todos estes investimentos, temos que no conjunto se está a falar de 5 biliões de € (3 da EDP e 2 espanhóis), + 1 bilião de € estimáveis de investimentos na rede eléctrica (pela REN), valor igual ao custo do novo aeroporto ou 4/5 do do TGV (embora no TGV o Estado co-financie 2/5, enquanto das novas hidroeléctricas o Estado tenha recebido 666 milhões de €). A potência instalada total será de 4640 MW, dos quais 4070 reversíveis mas, como mostrarei mais adiante, a energia de origem hídrica efectivamente produzida por tudo isto não ultrapassará o valor insignificante correspondente à potência média de 220 MW, menos do que produz um só dos 4 geradores da central a carvão de Sines. Na verdade, não é para esta energia que isto tudo está a ser feito, como ficará patente.

  • Quantos empregos? Milhares, só durante a construção dos aproveitamentos...!

As centrais hidroeléctricas, quando em exploração normal, ocupam muito pouca mão-de-obra porque hoje em dia são automatizadas e tele-comandadas. Fora alguns guardas e pessoal de manutenção permanente, as centrais não precisam de operadores, e dos 18 empreendimentos em curso só 10, como vimos, são inteiramente novos. O número de empregos permanentes criados por estas novas centrais não irá ultrapassar sensivelmente uma centena.

Já durante a construção dos aproveitamentos haverá uma utilização intensiva de mão-de-obra, mas o tempo de construção de cada um é, em média, cerca de 4 anos. Trata-se em grande parte de mão-de-obra temporária e deslocada para as empreitadas que, no auge da construção, atinge tipicamente o milhar. Assim, e à média de mil homens por 3 anos e por cada aproveitamento, tem-se que todos os empreendimentos somados poderão ocupar directamente, como ordem de grandeza, 6 mil trabalhadores durante 9 anos (2007-2016). Mas, dadas as condições de trabalho em causa (temporário, duro, e exigindo a deslocação para locais isolados), é muito provável que essas condições atraiam sobretudo trabalhadores imigrantes, considerando ainda que o ordenado típico oferecido para o pessoal não-qualificado nesta construção civil é de 550 € mensais com contratos por 3 anos (a duração típica da fase mais intensiva de cada obra).

Além destes quiçá seis mil empregos temporários, é frequente considerar que por cada um são criados 3 outros indirectos - obviamente, também só durante a construção dos empreendimentos. Parte destes empregos poderão estar nos serviços de apoio aos próprios trabalhadores deslocados (restaurantes, hospedarias), mas a maioria estará nas indústrias fornecedoras dos materais para os empreendimentos - cimenteiras, fábricas de equipamento eléctrico e mecânico, etc. Se, como é provável, houver uma situação de quebra de encomendas nessas indústrias devida à recessão em curso, é conjecturável que essas indústrias se encontrem numa situação de sub-ocupação dos recursos produtivos e que, portanto, as encomendas provenientes das barragens se limitem a ajudar a manter empregos já existentes - e em boa parte nas empresas estrangeiras donde se importem os equipamentos e materiais. Quanto tempo cada um destes empregos é ocupado pelas referidas encomendas é um dado desconhecido, mas certamente será, em média, bem inferior aos 4 anos de duração das obras.
Não deixa de ser verdade, no entanto, que a construção destes empreendimentos sempre incorpora uma maioria de valor acrescentado nacional, ao contrário dos parques eólicos.

  • O "reforço de potência" das centrais hidroeléctricas e a energia de origem hídrica que elas produzem

Recentemente, o Ministro do Ambiente clarificou no Parlamento alguns números actualizados destes projectos, mencionando os aumentos de potência instalada que acabaram por ser decididos pelas "eléctricas" depois da concessão, e associando-lhe um aumento de energia produzida. Esta associação entre a potência instalada numa central e a energia que ela produz é extremamente comum mas, como já expliquei aqui, é uma tremenda confusão, habilmente explorada por alguns e propagada depois por muitos outros (que não sabem Física elementar)!

Numa hidroeléctrica, a quantidade de energia produzível depende, antes de mais, do caudal do rio, ou seja, da quantidade de água por segundo que nele corre, e é evidente que no Verão há menos água que no Inverno, e que há anos secos e anos chuvosos - mas a potência instalada da central é projectada para se poder tirar dela o máximo de energia possível, quando for desejável!

E isto leva-nos à seguinte pergunta: basta aumentar a potência dos geradores de uma central hidroeléctrica, para tirar de um rio mais energia? Infelizmente a resposta é: não!

A energia que se pode tirar de um rio depende do caudal deste e da altura da queda de água da barragem. A energia que aí reside, a energia primária das hidroeléctricas, é a energia mecânica potencial que, todos o sabemos do ensino secundário, é quantificada pela massa de água multiplicada pela altura da sua queda.
A massa de água depende do caudal natural do rio, e não há nada que possamos fazer para o aumentar, pelo menos continuadamente.
A altura da queda depende da altura da barragem, mas esta depois de concessionada também não pode ser aumentada, porque isso iria alargar muito a albufeira e inundar terras não previstas na concessão.
Por conseguinte, a energia que a Iberdrola, a Endesa e a EDP vão poder tirar destas barragens, essa energia, ou a potência média, se preferirem, é praticamente a mesma - aumentem estas "eléctricas" a potência lá instalada ou não! As únicas excepções são algumas centrais que, já antes, não podiam aproveitar toda a água do rio no Inverno - centrais que tinham de "deixar passar" água sem a turbinar em alturas de cheia, quando o rio está muito caudaloso, por insuficiência de turbinas - como é o caso das velhas centrais do Picote e Bemposta, no Douro.

O que o "reforço de potência" permite, na verdade, é turbinar mais água no mesmo tempo - mas isso não aumenta a água disponível no rio, e portanto a energia!

Por exemplo, suponhamos que o rio tem um caudal de 10 metros cúbicos de água por segundo no Verão, mas de 100 metros cúbicos na época de chuvas; se se tiver potência instalada que chegue, consegue-se turbinar os 100 metros cúbicos por segundo no Inverno, mas no Verão as turbinas só funcionarão a 10% da sua capacidade - a menos que se tenha um reservatório, uma albufeira, onde se armazene a água de modo que se possa então, por exemplo, fechar as turbinas durante 9 horas e depois, à hora de ponta, a 10ª hora, despejar tudo de uma vez. Que é precisamente para que servem essas albufeiras, ou reservatórios elevados de água, e portanto de energia! Obviamente a energia gerada é a mesma, e a diferença está só no ritmo a que isso é feito ao longo do tempo, aquilo a que se chama potência.
Em regra, se a central não tiver albufeira, a diferença entre o caudal médio e o caudal de Inverno de um rio é por cá de 1 para 3, e por isso tipicamente a potência média que a central debita é à volta de 30% da potência instalada (que é a máxima de que ela é capaz). Se a central tiver albufeira, pode armazenar a água para ser usada nas horas em que mais falte a energia eléctrica, as horas de ponta, e aí já a potência média da central pode ser de apenas 1/6 da potência instalada - ou seja, a central poderá ter uma potência instalada dupla da do caso anterior, mas isso não significa que produza mais energia, repito, e sim e apenas que pode concentrar essa produção em certas horas.

Espero ter conseguido explicar esta diferença essencial entre potência instalada e potência média (a que é proporcional a energia) aos senhores jornalistas e politólogos!...

Ora, no caso dos investimentos em realização em Portugal, se a energia de origem hídrica que todos estes investimentos vão produzir é tão pequena (potência média de 220 MW), e se o reforço da potência instalada pouco aumenta a energia hídrica das centrais que já existiam, porque razão, então, se vão investir tantos biliões adicionais nestas barragens? Porque razão se não constrói uma potência instalada de até 6 vezes essa potência média de 220 MW, que seria 1300 MW, e em vez disso se vai construir 4640 MW?
A resposta está no facto das turbinas previstas serem reversíveis, de poderem "pôr o rio a funcionar ao contrário", e o interesse desse facto explico-o no seguimento - mas, como é óbvio, quaisquer que sejam as turbinas elas não podem aumentar nem o caudal do rio nem a altura da sua queda, e portanto não aumentam a energia de origem hídrica extraível dos rios.

  • As turbinas reversíveis e as albufeiras como reservatórios de energia... eólica!
Antes de prosseguir, e só para fixar conceitos, noto que a energia é sempre a mesma entidade, mas que pode mudar de forma - pode ser mecânica, na forma de água nas alturas de uma albufeira, mudar para a forma eléctrica na central e nessa forma ser transportada até aos consumidores - mas, se a central funcionar ao contrário, se as turbinas puderem trabalhar como bombas hidráulicas, então é possível fornecer energia eléctrica à central e ela transformá-la de novo em energia mecânica de água nas alturas. Qual o interesse? Armazenamento! A água contida numa albufeira é energia armazenada que pode ser turbinada de novo, convertendo-se em electricidade, quando convier!

Ora esta utilização da albufeira como reservatório de energia, carregado pela central eléctrica a funcionar como uma estação de bombagem, é muito útil e de facto usada há muito pelo mundo fora quando existe, algures, uma outra fonte de energia que se queira aproveitar mas que se não possa controlar. É, precisamente, o caso das fontes de energia renovável, muitas vezes. O Sol não ilumina de noite e, portanto, se se quiser aproveitar a energia solar à noite, é preciso armazenar essa energia nalgum lado. Pode-se, pois, converter a energia solar em eléctrica, transportar essa electricidade até uma hidroeléctrica com turbinas reversíveis, bombar água para cima com essa electricidade, e á noite voltar a turbinar a água da albufeira, produzindo de novo electricidade. A albufeira funcionou como reservatório de energia de origem... solar.

Evidentemente, desde já se pode ver que se quisermos usar energia solar à noite, e só solar, além da central fotovoltaica (já de si caríssima) vamos ter que construir uma estação de armazenamento par tal. Se for muita, justifica-se a dimensão de uma hidroeléctrica com albufeira para a armazenar até á noite... e é exactamente isso que acontece com os aproveitamentos hidroeléctricos em causa, só que não para armazenar energia de origem solar (por enquanto...), e sim energia de origem eólica!

Que a reversibilidade das turbinas das novas hidroeléctricas visa o uso destas como reservatórios de energia de origem eólica pode ser confirmado no próprio Caderno de Encargos oficial dos aproveitamentos e também aqui e em muitas declarações públicas de entusiastas das renováveis! A questão que interessará saber ao povo, entretanto, é que problema técnico justifica o uso das presentes hidroeléctricas como reservatórios de energia de origem eólica, e isso é o que vou tentar explicar de seguida, não vos pedindo que saibam Engenharia ou Física mas apenas que consigam perceber uns gráficos simples, extraídos do próprio Caderno de Encargos dos empreendimentos.

Na figura ao lado mostra-se como evoluiu a produção da energia eólica produzida no nosso país num dia típico de 2006. No nosso país, a legislação criada no tempo de Guterres garante aos produtores eólicos a compra pela rede eléctrica de toda a energia que sejam capazes de produzir, com uma tarifa altamente lucrativa, e por isso eles produzem tudo o que podem. Porém, e como é patente no gráfico, o vento sopra com uma extrema irregularidade, produzindo uma energia eléctrica muito intermitente e que não se adequa nada ao diagrama de consumos dos utentes da rede. Ainda por cima, e em média, sopra predominantemente à noite, quando há menos consumos.
Se não houver muita potência eólica instalada na rede, o problema poderá não ter grandes consequências, porque as outras centrais convencionais se encarregarão de filtrar estas irregularidades, especialmente as centrais fáceis de controlar, como as hidroeléctricas e as a gás.
Porém, se a energia de origem eólica ultrapassar, digamos, 20% do total (o máximo dos máximos internacionalmente considerado como comportável e só atingido na Dinamarca), acontece o que se mostra no gráfico seguinte, previsto já para 2011 em Portugal, data em que a energia eólica atingirá os 25% da produção total nacional, com 5600 MW de potência instalada (e 1400 MW de potência média), o dobro do que se tinha no final de 2008.

Neste diagrama, a linha vermelha superior assinala o consumo nacional num dia chuvoso. Como se pode ver, a produção de energia supera largamente o consumo, e isso devido sobretudo à produção eólica (verde alface) que, pelos contratos feitos com os produtores e pela legislação existente, nunca pode ser parada ou reduzida, e que "sopra" predominantemente à noite! Que fazer para equilibrar a produção total com o consumo?
A produção de origem térmica (verde escuro) pelas "cogerações" (outro negócio semelhante e ainda pior, porque até polui, e de que falarei qualquer dia) também não pode ser parada, nem a das hidroeléctricas sem albufeira (em baixo, azul marinho), e sempre é precisa alguma térmica convencional para controlar o sistema (cinzento). Poder-se-ia pensar em exportar para Espanha, mas a Espanha estará nessa altura com um problema semelhante, cheia de "vento" e um consumo de horas mortas!

É aí, já estão a ver, que entram as novas hidroeléctricas com turbinas reversíveis: para consumir a energia de origem eólica em excesso, armazenando-a na forma de água nas alturas, como é mostrado na linha azul grossa, em baixo.
Depois, nas horas de maior consumo e menos vento, durante o dia, essa água armazenada é turbinada, e a energia de novo devolvida à rede, juntamente com a que veio propriamente do rio (zona azul superior a partir das 9 da manhã, por baixo da linha vermelha do consumo).
Por conseguinte, a necessidade das hidroeléctricas reversíveis resulta de haver energia eólica em excesso, e é a solução para o problema que isso cria. Por um preço extraordinário, como se viu!
E falta acrescentar um detalhe: no ciclo de bombagem de água para cima da albufeira e depois de novo a sua turbinagem, perde-se energia, por atrito nas condutas de água da central. Concretamente, por cada 4 kwh que se gastam a bombar a água para cima, só se recuperam 3 kwh depois no retorno da água. A água é a mesma (áparte alguma evaporação da albufeira), mas é preciso aplicar mais "força" para a içar do que a que ela devolve ao descer de novo, por causa dos atritos.

  • Serão precisos 2000 MW de potência hidroeléctrica reversível para dar consumo às eólicas, mas vão existir 4900!
A REN fez um estudo sobre quanta potência de bombagem, ou hidroeléctrica revertida, virá a ser precisa para conseguir consumir o excesso de potência eólica na pior situação, e essa situação é a ilustrada na figura anterior, que mostra que por volta das 5 da manhã será preciso dar vazão a 2000 MW de potência eólica.
Com os novos aproveitamentos e reforços de potência aprovados a capacidade hidroeléctrica reversível atinge os 4070 MW, mas Portugal já tinha, antes destas novas centrais, cinco hidroeléctricas antigas com capacidade de bombagem ou reversíveis: Aguieira, Alqueva I, Torrão, Vilarinho das Furnas e Alto Rabagão. Estas hidroeléctricas ofereciam já 820 MW de bombagem, pelo que com os novos investimentos o país ficará a dispôr de 4890 MW reversíveis. Ter-se-ão, portanto, quase 2900 MW de hidroeléctricas reversíveis, em grande parte aquelas que foram decididas já depois do concurso das famosas "10" de 2008, cujo propósito é desconhecido.
É possíve, no entanto, conjecturar duas hipóteses alternativas:
  1. O Governo planeia instalar mais de 3000 MW de energia solar ou de eólicas offshore, para que não se antevê consumo (a menos que se esteja a pensar fechar definitivamente a barata produção a carvão que, no cenário previsto pela REN e como se pode ver pela figura anterior, já se prevê que só funcione metade dos dias em 2011);
  2. Há um plano oculto de disponibilização das centrais reversíveis portuguesas a Espanha, para dar consumo ao excesso de potência eólica e solar daquele país.

Este último cenário merece algum desenvolvimento.

A Espanha tem, presentemente, 3272 MW de potência hidroeléctrica reversível, e planeia construir em breve mais 1600 MW, em duas centrais. Com estas, atingirá os 4872 MW, por coincidência quase exactamente o mesmo valor que Portugal!

Se se admitir que a potência eólica instalada em Espanha acompanhe a mesma proporção da portuguesa, e atendendo a que o seu consumo de energia eléctrica é 6 vezes o nosso, é conjecturável que ela venha a precisar de uns 9.000 MW de potência hidroeléctrica reversível para encaixar o seu excesso de produção, para os quais só dispõe de 4900... a menos que os restantes 4100 sejam disponibilizados por Portugal. Isso explicaria os investimentos da Iberdrola e da Endesa nos 1370 MW em Portugal, e a EDP disponibilizaria os restantes 2900 MW que terá em excesso...

A questão final que se põe, entretanto, é de como será remunerada a função de armazenamento de energia pelas hidroeléctricas reversíveis.
Não é difícil fazer umas contas e verificar que a função de bombagem chega para justificar o investimento destas hidroeléctricas, somando-a à pouca energia de origem hídrica que poderão produzir, se o preço da energia eléctrica que consumirem para a bombagem for... grátis! Isto é, se a água que for bombada custar o mesmo que a que vem do rio!
A rede é que terá de arcar com o custo de pagar aos produtores eólicos a sua desnecessária energia à tarifa contratada, para a vender de borla às hidroeléctricas reversíveis, repercutindo o respectivo prejuízo no défice ou nos consumidores domésticos, claro.
Mas, quanto à energia proveniente de Espanha nestas condições, obtê-la grátis é capaz de ser difícil. E, se ela for paga ao preço de mercado corrente, isso significará que Espanha terá conseguido arranjar uma fórmula para se desfazer da sua energia renovável excedentária transferindo parte do prejuízo para Portugal.
Ora, se as hidroeléctricas reversíveis comprarem a energia eléctrica para bombar água, terão de revendê-la por 4/3 do preço de compra só para não terem prejuízo (devido às perdas por atrito), e nesse caso os respectivos investimentos nunca serão recuperados, aos preços actuais na praça ibérica de energia eléctrica (3 ç/kwh nas horas mortas e 5 ç/kwh nas horas de ponta)!

Entretanto, em Maio do ano corrente de 2009 Espanha praticamente acabou com a subsidiação da energia renovável, e assim muito dificilmente se ultrapassarão os 20.000 MW de potência eólica instalada lá até ao fim de 2010. Essa potência corresponde à que tínhamos instalado em Portugal até ao Verão transacto (3334 MW), dada a proporção de consumos nos dois países, mas que ainda é só 60% da que o Governo português decidiu subsidiar. Com o fim da subsidiação em Espanha, esta não vai precisar das hidroeléctricas portuguesas para armazenar excessos de energia, porque os seus instaladores, já em grandes coros de protesto, vão parar os seus investimentos - mas Espanha terá parado a tempo de a energia eólica e solar não se tornar lá um encargo totalmente descontrolado!

De uma forma ou de outra, mesmo admitindo que boa parte destes investimentos se justificam pela (pouca) energia que estas hidroeléctricas vão produzir, haverá sempre 2,75 biliões de €, dos quais pelo menos 1,75 biliões de € portugueses (estando os espanhóis a "arder" com 1 bilião), que só se justificam por causa dos planos do Governo para a instalação de energia eólica e que, em bom rigor, deveriam ser imputados a essa opção eólica, e não às próprias hidroeléctricas!
Somados os 2,75 biliões de € destes investimentos hidroeléctricos aos 6,5-7 biliões que o investimento das eólicas terá custado quando os 5700 MW estiverem todos no terreno, dentro de um ano ou dois, temos que o custo para o consumidor desta energia ficará pelo menos em 140% do custo ao produtor, ou 11 a 13 ç/kwh - o quádruplo do que custa a do carvão ou o triplo da de uma nuclear!...
Por enquanto o consumidor não o sente, porque o operador da rede vai remetendo para o défice, mas alguém terá de vir a pagar isto e é duvidoso que seja o Governo ou as "eléctricas"...

Domingo, Setembro 27, 2009

Um cientista céptico

O Público de hoje publica uma entrevista com um cientista ilustre , Bjorn Lomborg, que reconhece a existência do aquecimento global mas contesta as políticas ideológica e economicamente motivadas que se estão a promover para lhe fazer face.
Não é o assunto central deste blog, a climatologia, mas se há coisa que tenho subcrito aqui é a de que há que ter calma e não embarcar em fantasias e extremismos ecotópicos!
Bjorn Lomborg também sonha com a razão.
No entanto, sou menos pessimista que ele quanto à Conferência de Copenhague e aos seus preparativos. Como o Presidente Obama, penso que será sempre um grande progresso político a Humanidade entender-se para resolver um problema comum. Se haverá um progresso climático, não sei, mas o próprio consenso político, a atingir-se, vale a pena destes esforços, porque o grande problema da Humanidade não é o clima - é o próprio Homem! Como os negacionistas do Aquecimento Global são incansáveis na defesa das suas posições e me enviam imensos comentários, mas o meu programa de blog não passa por colocar esse tema no seu centro, anexo a figura acima que mostra as medições feitas pelos satélites da NASA para "remote sensing" do clima do planeta, sobre a temperatura da nossa atmosfera. Encontra-se aqui também uma boa introdução ao assunto para os interessados em se iniciarem no tema.

Sexta-feira, Setembro 25, 2009

Coisas que é bom saber

Como já notei por aqui, o carvão é a fonte de energia eléctrica mais barata, e por isso é também a mais utilizada no Mundo, gerando 40% de toda a electricidade que se produz no planeta. Em Portugal temos duas centrais a carvão, em Sines e em Abrantes (Pego), capazes de gerarem só elas 30% de toda a electricidade portuguesa, cada uma mais que todas as eólicas que temos.
Infelizmente, as centrais a carvão são também uma terrível fonte de Gases de Efeito de Estufa (GEE), estimando-se que produzam, só elas, 1/4 de todo o CO2 gerado pela actividade humana.
Por causa disto, e porque há muito carvão no planeta, há muito que se estudam técnicas de captura (ou sequestro) do CO2 das centrais a carvão. A ideia é extrair o CO2 dos fumos da central, liquefazê-lo e injectá-lo no sub-solo.
Não se trata de um problema para o qual exista alguma dificuldade tecnológica que não se saiba resolver, ao contrário do que acontece com as baterias dos carros eléctricos ou com os painéis fotovoltaicos. Existem soluções que se sabe (em laboratório) perfeitamente como funcionam, que podem vir ainda a ser muito aperfeiçoadas e, por isso, o único problema que subsiste à sua aplicação generalizada é vontade política. Vontade política de fazer os investimentos necessários à escala de centrais reais, porque a captura do CO2 vai encarecer significativamente essas centrais e reduzir-lhes o rendimento (parte da energia produzida vai ter que ser usada para a própria captura do CO2). Mesmo assim, todos os cálculos mostram que o carvão ainda continuará a ser mais barato que todas as fontes de energia renovável, apenas mais caro que o nuclear, relativamente ao qual é agora mais barato, e que as grandes eólicas em terra (on-shore) em locais de muito bom vento.
A EDP, e muito bem ainda que quase secretamente, considera vir a substituir a actual Central de Sines, que já leva 25 anos de vida e não durará muito mais anos, por uma dessas futuras Centrais a carvão com captura de CO2, embora com uma potência instalada menor que a actual - o que se justifica por, como disse, parte da energia do carvão se ter de gastar na própria captura do CO2 gerado.
Com a preparação dos novos acordos climáticos e a nova política da Administração Obama, os EUA - e a Ásia - preparam-se para lançar finalmente em força esta tecnologia incontornável, como se pode ver aqui. Em futuros posts hei-de voltar a este assunto, até porque esta tecnologia vai ser campo de batalha com os ecotópicos.

Outra coisa que é bom saber é que este ano de 2009 será o ano, desde a descoberta das gigantescas reservas do Casaquistão em 2000, em que mais reservas novas de petróleo foram descobertas. Claro que convém continuar a ser poupado e a não ter carros desnecessariamente gastadores mas, cada vez se vai confirmando mais que, parafraseando Mark Twain, as notícias do esgotamento para breve do petróleo poderão ser grandemente exageradas.
Leonardo Maugeri, um especialista da petrolífera italiana ENI e que é também professor do MIT, a cujo conselho consultivo em energia pertence, publica no número de Outubro da Scientific American (uma revista insuspeita de negacionismos climáticos) um artigo em que defende que o fim do petróleo não está, de facto, para breve, e por duas razões: a) por estarem em desenvolvimento tecnologias de extracção que permitem aumentar os actuais 30% que se conseguem extrair do sub-solo para 50%; b) por tudo indicar que ainda há muito petróleo por encontrar.
Eu já falei disto aqui, e Maugeri também considera que o "pânico" do fim breve do petróleo serve apenas para estimular a especulação financeira com o mesmo e que, a haver alguma falta de petróleo no mercado internacional, é por falta de refinarias, o que aliás o Presidente da GALP e antigo jovem catedrático da FEUP, o Prof. Doutor Eng.º Ferreira de Oliveira também afirmou numa entrevista dada à Televisão em 2008 e de que me lembro muito bem.

Quinta-feira, Setembro 24, 2009

Noções básicas sobre Economia da Energia para não-especialistas - actualizado

Há algumas noções básicas sobre Energia que geralmente faltam a jornalistas e politólogos, o que os torna muitas vezes actores (quiçá involuntários) de fantasias e vigarices, quando se fala de opções energéticas e ambientais.
Vou, por isso, tentar explicar aqui algumas dessas noções básicas.

  • Potência e Energia de uma instalação de produção de electricidade
A potência de uma instalação de produção (central, turbina, etc) indica a energia máxima que ela é capaz de gerar ao momento e que não pode ser ultrapassada, e é conhecida por potência "nominal" ou "instalada". Mas o que se vende e compra é a energia, e não essa potência ou energia máxima ao momento (por segundo) de que a central é capaz.

A potência mede-se em kw (kilowatt) ou MW (1 MW = 1000 kw), mas a energia mede-se em kwh (kilowatt-hora) ou MWh, sendo o kwh (o que pagamos em casa) a energia gerada ou consumida ao fim de uma hora ao ritmo (à potência) de 1 kw. A energia é a potência somada ao longo do tempo. A potência é a energia gerada em cada segundo, ou ao momento.
Ora, devido ao modo como funcionam, as instalações produtoras raramente conseguem trabalhar muito tempo à sua potência nominal. Depende da natureza da sua fonte primária de energia.

Por exemplo, uma central solar de 46 MW como a de Moura, é capaz de gerar energia no máximo a 46,4 MW, mas isso só acontece em condições ideais de Sol. À noite não trabalha, por exemplo. Para se ter uma ideia, então, de quanta energia é a central capaz de produzir, temos que fazer a média ao longo do ano da potência a que ela vai variavelmente trabalhando. E concluímos que numa instalação solar fotovoltaica doméstica simples, a potência média que, multiplicada pelo número de horas do ano, dá a energia anual gerada, é de apenas 15% da potência nominal. Mas, se a central puder controlar a orientação dos painéis ao longo do dia, seguindo o Sol, como na de Moura, isso aumenta consideravelmente o aproveitamento da luz, elevando a potência média para 21-23% da nominal.

Ou seja, para ter uma ideia da energia anual que a Central de Moura produz, o número indicativo é de 10,5 MW (a multiplicar pelas 8760 horas do ano), e não os 46,4 MW de potência instalada, e isto considerando que o Sul de Portugal, de Espanha e de Itália têm as melhores condições possíveis de energia solar na Europa.

Para que interessa, então, saber a potência nominal de uma central, se ela tem tão fraca relação com a energia que efectivamente produz? Para saber quanto custa o investimento na central, pois esse investimento é quase proporcional à potência nominal da instalação, mesmo que depois a central só funcione em média com uma fracção dessa potência!

O mesmo se aplica às turbinas eólicas, que também só trabalham quando há vento mas que são dimensionadas para aproveitarem as condições de vento máximo, que é quando operam à potência nominal.

Em Portugal, como aliás é típico, a potência média a que trabalha uma eólica é de perto de 1/4 (20 a 26%) da potência nominal, portanto ligeiramente mais que uma central solar com painéis móveis seguidores do Sol. Em Portugal havia no fim do ano passado 2800 MW de "potência eólica instalada", ou seja, um conjunto de parques eólicos cuja soma das potências nominais das turbinas atingia 2800 MW; mas a potência média produzida por essas eólicas todas é apenas de 1/4 disso, ou 700 MW. Esta média resulta de, se há ocasiões de vento forte, em metade do ano o vento é insignificante, e ainda há as paragens por avaria.

Raciocínio idêntico se pode também fazer para outro tipo de central de energia renovável: as hidroeléctricas. Também têm uma potência nominal prevista para as condições de máxima àgua turbinada, mas depois os rios têm períodos de seca ou de pouca água.
Numa hidroeléctrica a diferença entre potência nominal e potência média varia muito com os rios, e o investimento não é tão proporcional à potência nominal como no solar e no eólico porque depende muito de onde a barragem for construída. Além disso a água nos rios varia muito de ano para ano, mas tudo junto a potência média das nossas hidroeléctricas varia entre os pobres 12,8% de Alqueva e os 69% do Picote (no Douro). Em média, para o conjunto das nossas hidroeléctricas e para um ano de pluviosidade média, a potência média gerada ronda os 30% da potência "instalada".
Mas as hidroeléctricas têm uma enorme vantagem sobre as solares e as eólicas: podem armazenar água quando as eólicas ou solares (ou outras que não interesse desligar) estiverem a produzir muito, para a usarem depois quando é precisa, isto é, podem adaptar o ritmo de produção (a potência de funcionamento) às necessidades do consumo existentes em cada momento! Sem falar nas reservas de água potável e na utilização agrícola...
Em Portugal há ao todo cerca de 4350 MW de potência hidroeléctrica instalada, mas a potência média que as centrais hidroeléctricas debitam é de perto de 1300 MW.

Já nas centrais termoeléctricas não há dependência das condições climáticas (vento, água ou sol), e por isso poderiam, em princípio, trabalhar à potência instalada o tempo todo - excepto nas paragens para manutenção - e por isso é que Portugal teve de deixar de se basear exclusivamente em hidroeléctricas nos anos 70.

Por exemplo, uma central termoeléctrica de ciclo combinado, a gás natural, poderia funcionar sempre (ou quase, devido às necessidades de manutenção), mas não é isso que geralmente acontece, devido ao preço elevado do gás e ao moderado investimento da central. As centrais a gás, de facto, são usadas em regra apenas para suprir as restantes, até por serem de controlo fácil e, por isso, em média geralmente apenas geram de 1/4 a 1/2 da sua potência instalada. Em Portugal, no entanto, a grande central de ciclo combinado da Tapada do Outeiro tem desde 2008 funcionado com uma potência média acima de 1/2, por as centrais a gás serem presentemente em Portugal a única solução disponível garantida para cobrir a intermitência das eólicas. Isto, para além de este ano o país ter tido de importar 1/9 da electricidade consumida, à média de 625 MW...!

Já numa central a carvão geralmente a potência média é de perto de 80% da nominal. Isto é, uma central como a de Sines, que tem 1250 MW de potência nominal, gera em média perto de 1000 MW ao longo do ano. Por isso a energia produzida só pela central de Sines é mais 50% que a gerada por todo o parque eólico nacional, e pouco menos que a de todas as hidroeléctricas juntas.

Porém, as campeãs da utilização, as centrais que em todo o mundo produzem mais energia para a potência nominal que têm, as centrais cuja potência média de trabalho ao longo do ano atinge 91% da potência instalada, são as de um tipo de que não temos nenhuma: as nucleares.

É por causa destas diferenças entre as reais possibilidades de utilização dos diferentes tipos de central que é essencial saber qual a potência a que em média uma central realmente trabalha, e não a sua potência instalada, para avaliar do interesse económico do seu financiamento. Uma central nuclear de 1400 MW (potência nominal típica de uma grande nuclear) requereria um investimento muito semelhante ao da inacreditável central solar de 2000 MW anunciada pelos media recentemente; mas, enquanto a central solar só geraria em média 430 MW, a nuclear produziria 3 vezes a energia da tal solar... além de que duraria o triplo (60 anos)! E isto se o investimento anunciado para essa central Solar fosse real, o que é duvidoso, porque os preços de mercado actuais apontam para 30 a 50% mais do que o publicitado...

  • Custo de produção da energia eléctrica, mesmo quando o combustível é grátis

Qualquer central de produção de electricidade custa dinheiro a fazer - mesmo que o combustível seja grátis, como acontece com as energias renováveis.

E, se custa dinheiro, se requer um investimento, esse investimento tem de ser pago pela energia que a central produzirá. Por isso, ainda que o sol, o vento e a água dos rios sejam grátis, a energia eléctrica produzida por qualquer central, mesmo as que usam energias primárias renováveis, não pode ser grátis. Tem de, pelo menos, pagar o investimento da sua construção.

Na verdade, o custo da energia eléctrica produzida por uma central tem quatro parcelas: o custo de capital (o pagamento do investimento), o custo de operação e manutenção e outros, o custo do combustível e os lucros.

O custo de capital depende no número de anos de vida útil da central e inclui, claro, a amortização e os juros do crédito (o custo do dinheiro, o pagamento pelo serviço que nos prestam ao nos permitirem fazer um investimento para o qual não temos dinheiro nosso). Presentemente, por exemplo, a previsão mais recente da Administração dos EUA para os custos de construção (investimento) dos vários tipos de central é, por cada kw de potência instalada da referida central, sem considerar juros e já considerando prazos de construção (custos "overnight"), para centrais a investir agora e estarem prontas em 2015, convertendo USD para €:

  1. Solar fotovoltaico: 4000 € (mas na de Moura foi 5635 €...);
  2. Solar térmico: 3265 €;
  3. Eólica (em terra): 1355 €;
  4. Eólica (no mar, off-shore): 2630 €;
  5. Hidroeléctrica (em média): 1650 €;
  6. Nuclear: 2280 € (há quem considere este valor subestimado e o incremente em até 50%);
  7. Ciclo combinado a gás: 475 € (valor corrigido em 25/9/09 dos anteriores 675€, considerando o preço da acabada de fazer em Lares);
  8. Carvão com dessulfurização: 1345 €;
  9. Ciclo combinado a gás com captura do CO2: 1290 € (simples estimativa);
  10. Carvão com dessulfurização e captura do CO2: 2390 € (simples estimativa)

Alguns destes custos de investimento são muito variáveis de central para central, mas dinheiro é dinheiro, e o dinheiro de um investimento terá sempre de ser pago. Porém, uma primeira diferença entre as diferentes centrais é quanto tempo é necessário para amortizar esse pagamento, que naturalmente não pode ser maior que o tempo de vida da central. Ora o tempo de vida de uma central varia entre os 20 anos para as eólicas e as solares e os 50 para as hidroeléctricas, 40 para as nucleares e 30 para as a gás e carvão...

Uma segunda diferença é o custo do dinheiro, isto é, as taxas de juro. Podemos somar-lhe os lucros e obter as taxas de retorno; em mercados regulados, com preços relativamente garantidos, os investidores aceitam muitas vezes taxas de 5%, mas em mercados liberalizados, em que a incerteza quanto aos preços futuros é maior, os investidores exigem taxas de pelo menos 10%, para encurtar os prazos de amortização e, com isso, os riscos quanto ao futuro.

Umas contas simples mostram que para taxas de 10%, a anuidade a recuperar nas vendas de energia terá de ser de 10,1%, 10,25%, 10,61% e 11,75% conforme os prazos considerados forem de 50, 40, 30 ou 20 anos. Isto independentemente do tipo de central. O que depende do tipo de central é a relação entre a sua potência média de funcionamento (a que é proporcional a energia vendida), e a sua potência nominal, a que é proporcional o investimento a recuperar.

Contas feitas e para as centrais acima listadas, obtêm-se os seguintes custos de capital por unidade de energia a vender (kwh) e para a situação actual de escassez de crédito e elevadas taxas de desconto (10%), em cêntimos:

  1. Solar fotovoltaico: 24,4 ç (mas na de Moura seriam 34,3 ç);
  2. Solar térmico: 19,9 ç;
  3. Eólica (em terra): 7,3 ç;
  4. Eólica (no mar, off-shore): 10,08 ç ( no mar a potência média das eólicas anda pelos 35% da nominal, melhor que as de terra);
  5. Hidroeléctrica (em média, com utilização a 30%): 6,33 ç;
  6. Nuclear: 2,93 ç;
  7. Ciclo combinado a gás: 1,28 ç (com utilização a 50%; 2,73 ç com utilização de 30%);
  8. Carvão com dessulfurização: 2,06 ç;
  9. Ciclo combinado a gás com captura do CO2: 3,14 ç (com utilização a 35%);
  10. Carvão com dessulfurização e captura do CO2: 3,67 ç.
É claro que, como já foi dito atrás, estes custos apenas cobrem os custos de capital, ou de investimento. Faltam-lhes os custos de operação & manutenção e outros, como as multas pagas pelo CO2 emitido pelas centrais de ciclo combinado e sobretudo a carvão, ou os depósitos em $ a fazer para pagar o caro desmantelamento das centrais nucleares no fim da sua (longa) vida, e falta-lhes o custo dos combustíveis nas centrais termoeléctricas (gás, carvão e urânio).

O custo do desmantelamento de uma central nuclear é estimado usualmente em 30% do de construção, mas o urânio é barato, menos de 10% do custo total (nos últimos anos o mercado foi inundado pelo urânio proveniente das ogivas nucleares desactivadas pelos acordos de desarmamento nuclear entre os EUA e a Rússia), embora se tenha de adicionar o custo de enterramento dos resíduos radioactivos. Por isso, o custo de uma central nuclear dependente muito das taxas de juro conseguidas, e estas dependem muito do risco, que é moderado se o Estado garantir a rentabilidade do investimento - razão porque praticamente se deixaram de construir no Ocidente, com a lucrativa excepção da França. Mas o custo depende essencialmente da construção não sofrer derrapagens!...
O carvão também é relativamente barato. Para uma central com o custo de construção indicado, uma central moderna com ciclo termodinâmico super-crítico (alta pressão e alta temperatura do vapor), os custos de combustível e de manutenção andarão (nos EUA) por 1,05 ç/kwh, mas mais se a central tiver captura do CO2, por nestas parte da energia gerada ter de ser utilizada para essa captura. Acresce cerca de 0,95 kg de CO2 emitido por cada kwh, a que corresponde uma multa de 1,9 ç/kwh (na Europa, uma tonelada de CO2 "paga" 20 €).

Já o gás é caro. Geradores similares aos instalado em Portugal têm consumos típicos de 0,18 m3 de gás por khw gerado, e embora as nossas centrais tenham contratos especiais de fornecimento, é plausível que os preços que consigam sejam da ordem dos 0,27 €/m3, o que conduz ao custo de combustível de 5 ç/kwh, muito superior ao custo de investimento dessas centrais, e a que há que adicionar os custos de operação, manutenção e CO2 (da ordem de 1 ç/kwh). Além disso, apesar do seu excelente rendimento e de a queima do gás emitir menos CO2 que a do carvão, estas centrais também o emitem, cerca de 0,35 kg de CO2 por kwh gerador, o que "paga" 0,7 ç/kwh de multa.

Tudo ponderado, pode-se listar os seguintes custos totais indicativos, como ordem de grandeza, para a unidade de energia (kwh) gerador por cada tipo de central:

  1. Solar fotovoltaico: 25 ç;
  2. Solar térmico: 20,5 ç;
  3. Ciclo combinado com captura do CO2: 12 ç (4,46ç investimento);
  4. Eólica off-shore: 11 ç;
  5. Eólicas em terra: 8,65 ç (com potência média = 25% da instalada);
  6. Ciclo combinado actual: 6,8 ç (4,5 ç/kwh custo do gás e 0,7 ç/kwh de multa pelo CO2, supondo 50% de uso);
  7. Hidroeléctricas: 6,7 ç (mas muito variável, dependente da "qualidade" do aproveitamento hídrico);
  8. Carvão com captura de CO2: 6,2 ç (3,67ç investimento; mais caro que com as actuais sem captura de CO2, mas sem multa);
  9. Carvão actual: 5,8 ç (1,9 ç de multa pelo CO2, inexistente na China, Índia e EUA, país este onde o carvão é também muito bom, trazendo o custo total para apenas cerca de 3,5 ç/kwh).
  10. Nuclear: 4,2 ç (3,0 ç investimento inicial; segundo a Administração americana é só 2,28 ç, o que baixaria o custo total do kwh para apenas 3,5 ç).

Como resulta evidente, apesar do sol grátis, as centrais solares são presentemente economicamente incomportáveis! As eólicas que por aí vemos estão com custos que podem competir com os das hidroeléctricas em locais de bom vento (que permitam potências médias de pelo menos 30% das nominais), mas devido à sua elevada intermitência são responsáveis pelo recurso excessivo às centrais a gás de ciclo combinado, de energia cara e ainda por cima poluente. E o carvão continua barato, mesmo com a elevada multa que paga (em Portugal a central de Sines, como a maioria por esse mundo fora, é já antiga, de baixo rendimento e por isso mais cara que os valores indicados).

Porém, num horizonte sem CO2, é evidente que as centrais competitivas serão a nuclear e as a carvão com captura de CO2, com custos da mesma ordem de grandeza (embora algumas incertezas não permitam ter a certeza de qual será a de energia mais barata - de qualquer modo, pouco diferirá), enquanto de energia renovável, mas mais caras que as termoeléctricas, serão apenas as eólicas (em locais de bom vento) e as hidroeléctricas (em rios com boa água), Eólicas, mas em terra, porquanto as off-shore não só são muito mais caras, como Portugal não tem plataformas marítimas adequadas para elas, ao contrário do Mar do Norte.

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Recebi o seguinte comentário do meu colega e amigo Prof. Santana, ex-administrador da ERSE:

Em primeiro lugar, quero felicitar o meu colega Pinto de Sá pelo seu blog.

Concordo com ele que, no sector eléctrico, o risco e o custo do dinheiro são determinantes, como por exemplo: os promotores da nova central nuclear finlandeza aceitaram uma taxa de remuneração do capital de 5%, naturalmente reduzindo os riscos do projecto; porém, o mais recente estudo do MIT, sobre a questão nuclear, assume o risco de construção e o risco de operar em ambiente de mercado, e com estas condições estabece as condições financeiros do projecto: 50% do capital é dívida com a taxa de 8%, e 50% é capital próprio com a taxa de 15%.
Assim, o custo previsto pelo finlandezes é cerca de 2,4 ç/kWh, enquanto o custo do kWh previsto pelo MIT é quase o triplo!

Relativamente aos custos variáveis dos combustíveis, apresentados pelo Pinto de Sá, tenho uma dúvida, estes custos referem-se a que data?
Actualmente, no OMEL onde predomina a produção a gás natural, o preço marginal na ponta não ultrapassa os 4,5 ç/kWh.
João Santana

Obrigado pelos dados. Fiz todos os cálculos de custo de capital com base na taxa de 10%, e obviamente que para o nuclear (mas também para as renováveis) essa taxa é essencial para determinar o custo final da energia. Os dados da DOE que usei, já de 2009, dão conta da subida dos preços dos materiais e do crédito, mas o relatório do MIT incluiu uma avaliação mais fina dos vários custos, e não só para o nuclear.

Comparando os dados das duas instituições, verifica-se que os custos de capital que o MIT indica são 20% superiores aos da DOE, tanto para o nuclear como para o carvão, mas para o ciclo combinado são 12% inferiores (depois de converter os USD para €, multiplicando por 0,7). O MIT merece toda a consideração, mas a DOE tem a informação estatística oficial da Administração dos EUA, ambos os dados são já de 2009 e os do MIT parecem-me muito arredondados.

Acresce que o MIT considera algumas hipóteses de cálculo, ao comparar custos, que me parecem académicos, nomeadamente: a) atribui o mesmo tempo de vida útil aos três tipos de centrais, 40 anos, quando na verdade as nucleares têm atribuídos 40 mas que têm sido estendidos para 60, enquanto às outras costuma-se atribuir-lhes 25 ou 30. Eu considerei 40 para as nucleares e 20 para as outras duas. b) Atribui o mesmo factor de utilização a todas, 85%, quando na verdade as nucleares têm-no em geral pelos 90%, as a carvão não chega a 80%, e as a gás menos - e isto é determinante no custo de capital por kwh, claro! Eu considerei, nas minhas contas, 91% para o nuclear, 80% para o carvão e 50% para as a gás...

De qualque modo, o MIT indica também os custos finais, já incluindo tudo e nomeadamente combustíveis, para atingir as seguintes previões de custo (não esquecendo de converter USD para €):

nuclear: 5,88 ç/kwh, versus os 4,2 que eu estimara - ainda assim, bem bom, mas o tal custo finlandês de 2,4 ç/kwh é que é excelente! Se considerarmos um factor de utilização de 91% em vez dos 85% do MIT, já o "custo MIT" desce para 5,57 ç/kwh... Mas calibrando os meus cálculos com os do MIT para os "outros custos", então terei de subir o "meu" preço do nuclear dos 4,2 ç/kwh para 4,7 ç/kwh. De qualquer forma, mesmo a 5,57 ç/kwh para a "opção nuclear", esta continua muito competitiva, apenas mais cara que a do carvão sem multa pelo CO2!

carvão: 4,34 ç/kwh, vs. os "meus" 4,0 , sem "multa" pelo CO2; com multa: 5,8 ç/kwh, o mesmo que os "meus". A diferença não é grande, mas aqui a questão principal está no custo atribuído ao carvão, que varia muitíssimo com a respectiva qualidade.

gás: 5,18 ç/kwh (com multa) vs os "meus" 6,8. Aqui é que a diferença é maior, por um lado por, ao contrário do que sucede para o carvão e o nuclear, para o gás o MIT considerar um custo de capital inferior ao da DOE, mas sobretudo pelo inferior preço do gás nos EUA.

Eu considerei um custo do gás de 0,25 ç/m3 para a Tapada do Outeiro, mas reconheço que foi uma estimativa com poucos fundamentos: vi que a ERSE informa que o custo mínimo de venda a retalho do gás pelas operadoras em Portugal é de 0,32 ç/m3, e considerei que a Turbogás da Tapada do Outeiro, por comprar directamente à GALP, tivesse 20% de desconto. Isto estaria em consonância com o tal custo marginal de 4,5 ç/kwh de venda na OMEL - mas ainda muito acima do preço nos EUA. Será por lá não haver a GALP controlar os preços do gás? :-)

Ah, o custo marginal de 4,0 ç/kwh está on-line na OMI. Aliás, o que lá está neste preciso momento até é só 3,83 ç/kwh...!
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Acabei de perceber a razão da discrepância entre o custo de investimento das eólicas obtido das estatísticas do Departamento de Energia (DOE) dos EUA de Março passado, e as que eu tinha de Portugal (2007): é que estas estavam desactualizadas. Em 2008 houve uma subida dos preços das turbinas no mercado mundial! Além disso, subestimei os custos de Operação & Manutenção das eólicas que, segundo a EWEA, são das ordem de 1.2-1.5 ç/kwh, dos quais apenas 60% respeitam às turbinas - o restante é sobretudo para a renda dos terrenos, que eu negligenciara. Corrijo, pois, os cálculos em conformidade. Aliás, noto que a DOE aponta a alta generalizada dos preços das matérias-primas e do crédito para justificar, também, o alto custo actual de construção das nucleares, ainda assim as que produzem a energia mais barata num cenário sem CO2 e, portanto, sem carvão poluente...

Quarta-feira, Setembro 23, 2009

Uma consultoria grátis

Toda a gente sabe que as faíscas da trovoada preferem as estruturas altas e metálicas para cair.
É o caso, por exemplo, das torres metálicas das linhas eléctricas de Muito Alta Tensão.
E é o caso, também, das altíssimas turbinas eólicas.
Aqui nesta foto pode-se ver o estado de destruição em que ficou uma turbina instalada em Portugal, com uma faísca que lhe caiu em cima, há dias. Um prejuízo de talvez meio milhão de €...!

Claro que a tecnologia tem soluções para proteger as turbinas destes acidentes, embora por todo o mundo se verifique uma elevada taxa de destruição de turbinas eólicas pela trovoada.
Aqui no documento deste link encontra-se informação detalhada sobre o problema.
Infelizmente, as soluções devem ser previstas antes da compra e instalação das turbinas.
Ou seja, mesmo até só para usar turbinas importadas, é preciso saber comprar!
Eis os conselhos essenciais dados pelo documento que linkei:

It is incumbent upon the turbine buyer to demand lightning protection to Class 1 of IEC 61024 from candidate vendors. When purchasing a turbine, the smart shopper should, especially for high-risk sites, insist on good lightning protection in the following forms:

  • An explanation of how the manufacturer meets IEC 61024 lightning protection
  • Blade lightning strike-down conductors with receptors as close as possible to both sides of the tip
  • More than one receptor if necessary for turbine blades over 25 m (82 ft) in length
  • Fiber optic to uncouple base to tower-top control communication
  • Multiple-level surge protection or fiber-optic links for site-wide communication systems
  • Good protection from turbine vendor
  • Good bonding and shielding of all control/sensor cabling
  • Good surge protection and ground reference between the generator, transformer, and power collection system
  • Good safety protection for operators and site personnel.

Terça-feira, Setembro 22, 2009

As ovelhas negras de Copenhague

Talvez quem tenha lido o meu post anterior tenha ficado surpreendido pelo que contei sobre a China e a Índia relativamente às medidas de desenvolvimento tecnológico e industrial para as energias renováveis que aqueles países encetaram desde Kyoto - que, no entanto e inteligentemente, não subscreveram.
Dizia eu lá ontem que era provável que a China aparecesse agora em Copenhague a defender a descarbonização das economias. E hoje aí está!

Quem vai arrastar os pés são os EUA e o Terceiro-Mundo, sobretudo o do Hemisfério Sul.

O Terceiro-Mundo do Sul porque acha que esse problema não é nada com ele. Talvez estejam dispostos a ouvir falar do assunto, se houver dinheiro na mesa... e nisso vão ter o apoio activo - e fatal, para um possível acordo global - dos ecotópicos, os ecologistas que só são pela descarbonização porque são sim anti-globalização e anti-indústrialização.

Os EUA porque perderam a maior parte do tempo decorrido desde Kyoto a não fazer nada quanto ao assunto, com o negacionismo de Bush. E, mesmo agora, ainda estão a encetar os debates, com os ecotópicos na ofensiva e os realistas ainda muito atrasados - veja-se esta notícia do dia, sobre as primeiras experiências no terreno e a oposição que suscitam, da tecnologia de captura do CO2 das centrais a carvão, uma tecnologia absolutamente necessária e inevitável!
Os EUA hão-de também acabar por aderir ao esforço mundial, mas não vão de certeza liderá-lo nos próximos anos, como o desejava o Presidente Obama.

Com grande probablidade, quem vai liderar o processo nos próximos anos é a China, cuja capacidade industrial e ambição estratégica de liderança mundial não encontram nada que se lhe compare a Ocidente!

Talvez o Japão, a Coreia e a Índia lhe façam frente.
Mas, de uma forma ou de outra, o vento sopra do Oriente!

Segunda-feira, Setembro 21, 2009

Clusters industrais nas renováveis: 23 mil empregos, ou a fraude portuguesa do século? Parte I - eólicas

Recentemente, o Ministro da Economia em acumulação de funções anunciou um plano de aposta nas energias renováveis que implicaria a criação de 23 mil empregos e 15,5 biliões de euros de investimento (uso o termo "bilião" de acordo com a prática americana a que os investigadores estão habituados, ou seja, mil milhões). O plano estará em execução há já 2 anos e é para continuar por mais 6 e pressupõe, naturalmente, que o PS ganhe as próximas eleições.

Para se ter uma noção da enormidade deste investimento, vale a pena recordar que a Caixa Geral de Depósitos teve de injectar no "caso BPN" 2,55 biliões e que este valor é mais de metade do capital da própria CGD, mas que o investimento anunciado é mais de 5 vezes o do BPN!

15,5 biliões de euros é o dobro do orçamento do TGV, é quanto custam 6 centrais nucleares ou 5 a carvão com captura do CO2 de 1200 MW cada uma, muito mais do que o consumo português é capaz de encaixar! (e a propósito, o buraco do caso BPN também dava para pagar uma boa central nuclear!...)

15,5 biliões de euros são 10% do PIB de Portugal, é o valor do (insustentável) défice externo português de um ano inteiro, que levará o país à falência em meia dúzia de anos, se continuar!

A enormidade do investimento anunciado e as implicações que ele terá para o futuro nacional tornam irrecusável o imperativo ético de trazer á discussão pública a bondade da sua decisão. Um contributo para essa discussão, até aqui ausente do palco mediático (salvo posições pontuais do antigo Ministro da Indústria dos Governos de Cavaco, o Mestre Eng.º Mira Amaral), é o que procurarei dar no que escrevo de seguida e que será um texto longo. Vou, por isso, escrevê-lo por partes, que irei postando à medida que o tempo mo permita.

Nesta parte I, o meu objectivo é mostrar como as tecnologias da energia eólica levam tempo a dominar, como é preciso ter estratégias nacionais para atingir esse domínio, que problemas técnicos e que valor acrescentado existe no fabrico de instalações eólicas e, finalmente, como o que Portugal tem feito na matéria peca por um terceiro-mundismo sem qualquer sustentabilidade.

  • Evolução histórica e contexto mundial da indústria de turbinas eólicas

As turbinas eólicas e as instalações de energia solar são produtos de alta tecnologia, não são calçado ou texteis! Se fossem tecnologias simples, há muito que teriam sido comercializadas!

A ideia de usar geradores eólicos para produzir energia eléctrica não é nova. De facto, os primeiros foram construídos mal a electricidade começou a ser comercializada, há 120 anos, e há 75 anos eram vulgares para alimentar quintas isoladas onde as redes eléctricas ainda não haviam chegado e quando os motores Diesel ainda eram caros. Na época usavam-se torres de aço articuladas, como nos postes das linhas de Muito Alta Tensão da REN, e chegaram a construir-se geradores a vento de 100 kw, na antiga URSS (1931), na Escócia (1954) e pela EDF francesa (anos 50)[à esquerda: aerogerador de 3 kw usado em quintas isoladas, nos anos 70, suficiente para alimentar uma habitação quando ainda não havia máquinas de lavar loiça nem ar condicionado].

Porém, a energia produzida por estas máquinas era muito pouca para o que custavam e, por isso, logo que as redes eléctricas chegaram aos locais isolados onde eram usadas, foram abandonadas. A energia proveniente das barragens e das centrais termoeléctricas era muito mais barata, e até a produzida por grupos Diesel, além destes terem uma instalação muito mais flexível!

Mas a Investigação & Desenvolvimento (I&D) de aerogeradores continuou, e não será de espantar que a Dinamarca, hoje a campeã mundial do consumo de energia eólica, tivesse nos anos 60 construído uma turbina de 200 kw (Gedser) com muitos dos avanços que viriam a equipar as turbinas de hoje [à esquerda, repare-se nas pás da hélice, semelhantes às dos moinhos de vento]. Porém, esta turbina era economicamente inviável, por se estar num tempo de petróleo barato. Mas vale a pena notar que o gosto dinamarquês pela energia eólica já vinha dos anos 20 do século XX...

Na mesma década de 60, há 45 anos, também a Alemanha (que não será por acaso é hoje o maior produtor e líder tecnológico mundial de turbinas) construíu vários avançados protótipos (para a época), indo com isso encontrando difíceis problemas mecânicos e engenhosas soluções para os mesmos. Uma dessas turbinas chegou mesmo a conseguir funcionar meio ano antes de avariar, graças a avanços fundamentais na construção mecânica parecidos com os que viriam a existir nas articulações das pás das hélices dos helicópteros [à direita, turbina Hutter alemã de há 45 anos: as pás das hélices já eram em fibra de vidro e plástico!..].

O maior dos engenheiros desta I&D alemã foi o Dr. Ing. austríaco Ulrich Hutter, que juntava o rigor matemático e a preparação teórica à capacidade experimental industrial, à boa maneira germânica, e que trabalhou no tema desde o seu Mestrado em 1942, com vários protótipos construídos nesses anos e nos anos 50. Hutter era especialista em aeronáutica, e durante a Guerra trabalhou no projecto de bombardeiros tácticos de mergulho para a Lwftwaffe, embora este projecto nunca tenha passado à produção...

Enquanto a Dinamarca e a Alemanha continuaram a aperfeiçoar continuamente os seus aerogeradores depois dos anos 60, o maior investimento de I&D em turbinas eólicas ocorreu nos EUA a seguir ao choque petrolífero de 1973, e foi financiado directamente pelo Governo americano. Mas, como aconteceu repetidamente na História, este projecto de I&D dirigido por um Governo falhou, devido à má política na sua orientação.

O projecto procurou copiar os resultados teóricos e experimentais do Dr-Ing. Ulrich Hutter, mas copiou mal, não reparando em pormenores mecânicos essenciais e acabando por gastar vários anos (e muito dinheiro) a acumular fracassos (no fundo, repetindo as experiências que os alemães tinham feito 30 anos antes), até aprenderem finalmente porque é que no projecto alemão havia certos pormenores à primeira vista inúteis - só que nessa altura o Congresso deu o projecto por terminado e cortou-lhe os financiamentos, reduzindo a duração das investigações dos necessários 8 anos para 4!

Entretanto, a Califórnia decidiu subsidiar a energia eólica com descontos nas tarifas nos anos 80 e encheu-se de wind farms, com pequenas turbinas de 50-100 kw que chegaram a somar 1700 MW; mas, devido ao fracasso da I&D americana e à política económica liberal de Reagan, assim como a uma má política de subsidiação em que os decisores políticos confundiam potência instalada com energia gerável (como cá...), o mercado acabou por ser ocupado pelos europeus, com 50% dele só para a Dinamarca. A tecnologia dinamarquesa não era brilhante mas era relativamente robusta e conseguira certificações de fiabilidade em que as americanas falhavam, embora os ventos fortes da Califórnia tenham acabado por avariar todas as turbinas, impondo custos de manutenção enormes, até que ao ver que elas não promoviam a indústria americana os Governos acabaram com as tarifas subsidiadas e as wind farms foram paulatinamente desaparecendo, no início dos anos 90.

Ao mesmo tempo, os preços muito mais altos da energia eléctrica na Europa Ocidental permitiram que a Dinamarca e a Alemanha continuassem paulatinamente o aperfeiçoamento das suas turbinas, até que nos anos 90 uma nova tecnologia fez o seu aparecimento nas turbinas eólicas, facilitanto em muito o seu controlo aerodinâmico e aumentando grandemente o seu rendimento e, por conseguinte, a sua viabilidade económica: a electrónica de energia.

Entretanto, a União Europeia começara a preparar desde 1990 o protocolo de Kyoto que viria a ser aprovado em 1997, o qual muito promoveu politicamente as energias renováveis e, com tudo isto, ao longo da década seguinte (a actual) a potência nominal das turbinas dinamarquesas e alemãs, em competição, foi crescendo de 50 para 100 kw, depois 200, depois 500, depois 1000, 1500, até se chegar aos 2000 (2 MW), 2.5 MW e aos 5 e 6 MW, ao mesmo tempo que o seu custo por kw descia.

Pelo seu lado, e também em meados dos anos 90, os EUA absorveram o know-how europeu por processos discutíveis (espionagem) como já narrei neste blog, e as soluções técnicas tornaram-se comuns e universais desde então, com a disputa ainda em curso entre duas opções: "geração síncrona com conversão de frequência", de patente disputada entre a Enercon alemã e a GE americana, e "geração assíncrona duplamente alimentada" usada por todos os outros fabricantes, com especial relevo para a líder de mercado dinamarquesa Vestas. Estes três fabricantes são os maiores do mundo juntamente com a espanhola Gamesa, adiante historiada.

Na presente década, pois, e como fruto por um lado de quase 70 anos acumulados de I&D, na Dinamarca e sobretudo na Alemanha, e do protocolo de Kyoto por outro lado, assistiu-se a uma verdadeira explosão da instalação de turbinas eólicas, com natural primazia para a Dinamarca e a Alemanha, mas também para Espanha.

A evolução da tecnologia de energia eólica em Espanha é particularmente instrutiva, dado que aquele país não participara na história do seu desenvolvimento tecnológico que resumi.
O seu principal fabricante, a basca Gamesa, foi fundada em 1976 como empresa essencialmente metalúrgica mas com o objectivo de explorar tecnologias emergentes, como a microeléctrónica, os materiais compósitos e a aeronáutica. Em 1993 produzia para a indústria aeronáutica asas, peças de fuselagem e partes de motores de avião e, praticamente ao mesmo tempo (1994), constituiu um ramo para a produção de turbinas eólicas, que é hoje em dia a sua principal aposta e cuja I&D ocupa, só por si, 600 investigadores. Sendo o terceiro fabricante mundial de turbinas, emprega mais de 7 mil trabalhadores e já instalou fábricas de montagem nos dois países cujo mercado está em maior crescimento: EUA e China. Vale a pena notar que, partindo de uma base tecnológica já de si favorável, a Gamesa, seguida por outros fabricantes espanhóis de turbinas eólicas (que no conjunto empregam cerca de 21 mil pessoas), se iniciaram na produção de turbinas com tecnologia própria na primeira metade dos anos 90, bem antes do protocolo de Kyoto mas quando as negociações internacionais climáticas de iniciativa europeia já permitiam antever o que aí viria - desde que se tivesse visão, claro...

Outro grande fabricante mundial actual que entrou no mercado mais ou menos na mesma altura (anos 90) foi a indiana Suzlon, cujo volume de vendas é 2/3 do da Gamesa, que ocupa a 5ª posição mundial como fabricante na pégada dos anteriores, e cuja história também é instrutiva.

Na Índia a energia eléctrica é cara e de má qualidade, o que torna economicamente viável a produção eólica mesmo sem subsídios, desde que o preço do barril de petróleo esteja acima dos 40 USD - embora o carvão seja a fonte de energia primária de 85% da electricidade indiana, complementada por nuclear.
Os fundadores da Suzlon foram o Sr. Tanti e os seus irmãos que, sendo empresários texteis, começaram por comprar uma turbina eólica alemã de que tinham de fazer a manutenção, acabando por decidir abandonar os texteis e fabricar turbinas dessas a partir de 1995. Beneficiando do enorme mercado interno e mais tarde do chinês, viriam a aproveitar o boom da actual década, em que a potência mundial instalada de origem eólica tem duplicado cada três anos!
Porém, a tecnologia indiana é relativamente fraca, com frequentes fracturas das pás das turbinas exportadas para os EUA (sempre o mesmo velho problema...) e, por isso, a empresa tem recorrido fortemente à contratação de especialistas europeus, tendo sediado importantes centros de I&D na Bélgica, Holanda e Alemanha (Hamburgo), cujos resultados são depois endogeneizados na Índia.
Nesta sábia estratégia de "se não podes criar a tecnologia nem espiá-la, compra empresas que a tenham", o passo mais importante da Suzlon foi a compra da REpower alemã à Areva francesa.
A REpower é um fabricante de porte comparativamente pequeno mas que domina a tecnologia da aerodinâmica e materiais das pás das grandes turbinas, fabricando das maiores que existem. Enquanto investimento, a REpower era também uma aposta da francesa Areva (cuja actividade central é a indústria nuclear) mas, perante a determinação da Suzlon, a Areva aceitou vender os seus 30% da REpower à Suzlon. (Nota: esta história sobre a disputa da Suzlon com a Areva pela compra da REpower tinha vários erros na versão inicial, que foram corrigidos em 7/10/09 - nomeadamente, a Areva nada tem a ver com a Alstom, embora se fale numa fusão entre ambas).
Porém, dado o capital envolvido, a Suzlon estabeleceu uma parceria para essa compra, realizada em 2007, com a... portuguesa Martifer! Mas a lei alemã exige a posse completa de uma empresa para se lhe poder aceder à tecnologia e, por isso, um ano depois a Suzlon comprou à Martifer a parte desta. A Martifer, que explorou a disputa de oferta de preços entre a Areva e a Suzlon, realizou, assim, um negócio financeiro espertinho e nem deve ter chegado a perceber o objectivo estratégico industrial da Suzlon, embora esta vá dizendo (como sempre se diz nestas compras, de início, para não afugentar clientes nem colaboradores-chave), que não vai interferir na gestão da REpower nem tirar-lhe a tecnologia...

Turbinas de 6 MW da REpower e da Enercon alemãs. Note-se o homem minúsculo entre as duas primeiras turbinas...

A estratégia da Suzlon é admirável porquanto, como é sabido, quando da emergência de uma nova tecnologia de grande valor comercial, a expansão comercial como função da tecnologia obedece a uma "curva em S". Presentemente nas turbinas eólicas está-se na fase intermédia de forte subida do "S" e, nestas condições, qualquer concorrente que ofereça algo que funcione consegue manter-se no mercado (como sucedeu na época do boom da informática dos PC na década de 90). Mas, fatalmente, o mercado há-de chegar à zona superior estabilizada do "S" e, nessa altura, só os concorrentes com fortes vantagens tecnológicas de produto ou de produção conseguirão manter-se. A aposta da Suzlon de compra de tecnologia europeia manifesta, pois, que está nisto para ficar!

Finalmente merece referência a história da tecnologia chinesa, de que dois fabricantes estão já na lista das "10 maiores", depois das anteriormente referidas. E merece referência para se entender como funciona o mercado e a indústria no país que tem o mais rápido desenvolvimento do mundo e 1/5 da população deste, cujo Partido Comunista no poder definiu "a rota capitalista para o socialismo".

A estratégia da China para a energia eólica começou com a sua inclusão no plano quinquenal do Partido para o desenvolvimento do país, originando directamente a criação da Goldwind Science & Technology em 1998, na sequência de Kyoto e já com uns anos de atraso relativamente às concorrentes estrangeiras.

Ao fim de um ano a empresa maioritariamente estatal Goldwing tinha um protótipo pronto, e com mais três (2002) iniciava a produção em massa, mudando a séde para Xangai e tendo obtido autorização do Partido para prosseguir os seus desenvolvimentos tecnológicos em obediência às directivas do 10º Plano Quinquenal. Em 2006 detinha 1/3 do mercado chinês, onde liderava, e ascendia à posição de 10º fabricante mundial de turbinas, ...atingindo a liderança mundial neste ano de 2009!!!

O crescimento da geração eólica, promovido por uma directiva do Partido para que 10% da energia proveniente das duas novas centrais a carvão lá construídas por semana seja compensada por fontes renováveis, assim como tarifas subsidiadas (10% acima das usuais), tem sido tão rápido que se estima que mais de 1/4 das turbinas eólicas montadas estejam paradas por falta de ligação à rede eléctrica, que muitas delas tenham sido montadas em locais sem vento, e que a intermitência deste coloque sérios problemas à gestão das redes eléctricas (problemas típicos do planeamento centralizado burocrático )! De qualquer modo, dos fabricantes estrangeiros, o que tem maior penetração na China (aliás como na Índia) é, de forma esmagadoramente dominante (37% do mercado, mais de metade da quota de importação), a dinamarquesa Vestas, ainda líder mundial. A Alemanha ocupa 14% do mercado chinês, mas a Espanha também consegue 5,5% desse gigantesco mercado!...

A qualidade das turbinas chinesas é fraca (muitas partem as pás e o eixo ao fim de poucas semanas - sempre o mesmo velho problema...), e a China ainda não exporta turbinas. Mas a lei chinesa requer que 70% do valor das turbinas instaladas seja de fabrico nacional, o que tem obrigado os exportadores estrangeiros a abrirem fábricas lá. Considerando a prática tradicional chinesa de usarem isso para aprender a tecnologia estrangeira e depois passarem a usá-la nas suas próprias produções, vale a pena notar que o custo de produção das turbinas chinesas é de apenas 70% do das estrangeiras, o que permite antever uma séria ameaça aos actuais líderes europeus no que respeita, pelo menos, ao mercado chinês.

É também de notar que a reacção chinesa ao protocolo de Kyoto foi a de o não subscrever mas iniciar de imediato o desenvolvimento da base industrial para o cumprir! É muito provável, pois, que 12 anos depois de Kyoto, em Dezembro próximo em Copenhague, a China reapareça agora a defender a descarbonização das economias (até porque a estratégia que aplicou no vento também a aplicou no carvão, no solar, etc).

Como ficará claro adiante, a estratégia chinesa desde Kyoto foi exactamente a oposta da portuguesa.

  • Chaves tecnológicas e valores acrescentados na construção de turbinas eólicas

Quanto maior for uma turbina eólica, mais potência pode gerar. Por um lado, esta potência aumenta com o quadrado da área varrida pela hélice (pás de 44,7 metros geram 5 vezes a potência de pás de 20 metros), e por outro lado quanto mais alta for a turbina mais vento apanha (o vento é mais forte nas alturas). Ora a potência que se pode tirar do vento aumenta com o cubo da sua velocidade (de um vento a 38 km/h tira-se o dobro da potência que se tira de um vento a 30 km/h), e como quanto mais alta for a turbina maiores poderão ser também as pás da sua hélice, facimente se percebe o interesse em ter turbinas altas e com grandes pás de hélice.

Duplicar as dimensões das pás de uma turbina e triplicar a altura da sua torre pode, como ordem de grandeza, aumentar 8 vezes a sua potência (dependendo das zonas).

Infelizmente, o aumento das dimensões das pás e da torre de uma turbina também lhe aumenta o peso, e sobretudo os esforços mecânicos a que as pás, o seu eixo, e a torre são submetidos. Pás de hélice como as fotografadas aqui, fazendo uma rotação completa cada 3 segundos, podem atingir nas extremidades velocidades de 300 km/h! As forças a que as pás são sujeitas são enormes!

Porém, um dos maiores problema dessas forças é que elas são diferentes quando a pá da hélice passa ao alto e passa em baixo, por causa da diferença de velocidades do vento com as alturas. Isso sujeita as pás e o seu eixo a torsões cíclicas que tendem, com o tempo, a "fatigá-los" e a acabar por os partir. O uso de 3 pás em vez de apenas duas (como se usaram inicialmente - vd fotos acima das turbinas Hutter) é uma das soluções para reduzir esses esforços no que respeita ao eixo.

Outro problema é que a rotação das turbinas cria inércia giroscópica (a mesma que explica porque as bicicletas não caiem quando em movimento), o que acarreta que para reorientar o eixo de uma turbina de modo a que ele se alinhe com o vento, quando este muda de direcção, são precisas forças enormes que também tendem a "fatigar" e partir o eixo e os encaixes das pás.

Além dos problemas indicados, as pás devem ter uma forma que optimize a energia que são capazes de extrair do vento e devem ser leves, mas rígidas. Trata-se de um tipo de problemas comum no projecto de aviões e, por isso, não é de admirar que os especialistas iniciais do assunto (como Hutter) e algumas das indústrias associadas (como a Gamesa) fossem especialistas em aeronáutica, embora os aerogeradores tenham problemas específicos diferentes dos dos aviões. Mas, também nos aviões, foi preciso tempo para que dos leves biplanos e triplanos da Grande Guerra se passasse aos monoplanos da Guerra Mundial e aos jactos com asas de geometria variável actuais...

O fabrico das pás das hélices e o crescimento do seu tamanho ocorrido na última década está fortemente associado ao uso de novos materiais e às respectivas técnicas de fabricação. Basicamente feitas de plásticos (polímeros) reforçados com fibra de vidro laminada, são em regra endurecidas com resinas epox cujo vazamento tem de ser perfeitamente homogéneo, e há uma tendência recente para o emprego de fibras de carbono. As soluções variam com os fabricantes e estão em permanente evolução, e é óbvio que a estrutura das enormes pás das hélices (desejavelmente leves mas muito rígidas e resistentes) é o problema técnico mais difícil das turbinas eólicas.

Uma outra tecnologia chave é a do controlo da electrónica de energia das modernas turbinas. Se até há poucos anos esse controlo procurava apenas extrair o máximo de energia do vento permitindo, por exemplo, que a velocidade de rotação da hélice acompanhe a velocidade do vento até certo ponto, o que muito aumenta o rendimento da turbina, à medida que a quantidade de potência eólica instalada começou a tornar-se importante, as redes eléctricas a que elas se ligam começaram a exigir que as turbinas conseguissem suportar as perturbações que sempre existem nessas redes, e que as características da potência a que operam fossem controláveis, como nas centrais convencionais.

As soluções para estas exigências de qualidade passam pela adaptação quer dos algoritmos de controlo, quer pela própria electrónica de energia que equipa as turbinas modernas, e são um dos pontos de forte competição actual entre os fabricantes, com algumas tecnologias a poderem mais facilmente que outras cumprir estas exigências de qualidade. É particularmente instrutivo verificar que, nesta qualificação das turbinas eólicas, existe uma clara colaboração entre as autoridades públicas, as empresas de electicidade responsáveis pelas redes dos países onde a indústria de turbinas é forte, e esta indústria, quer pela colaboração atempada com os fabricantes nacionais, quer por a exigência de funcionamentos de qualidade ser uma forma de barrar mercados a concorrentes estrangeiros eventualmente mais baratos mas menos qualificados, sobretudo quando se traduz em normas com força legal. Ora, é ilustrativo verificar que, nesta matéria, Portugal está completamente a Leste do que está a acontecer no mundo, como já manifestei neste blog!...

Finalmente, e após ter procurado dar uma ideia das dificuldades tecnológicas associadas à produção de energia eólica (consumir tecnologia é fácil, mas não é isso que torna alguém evoluído), penso merecer ainda uma menção o valor que poderá ter a simples fabricação ou montagem de turbinas projectadas por outrem, e com processos de fabrico (nomeadamente nas componentes críticas) também projectados por outrem.

O custo das partes de uma turbina eólica moderna somado fornece o custo da sua produção (70%), mas a que se soma ainda o do seu transporte e instalação no terreno (30%).

Nestas partes de uma turbina, as pás e o respectivo eixo rotativo de suporte valem perto de 30%, a torre e mecanismos de posicionamento da barquinha superior 20%, e os restantes 50% são pelo conjunto do gerador+electrónica de energia+caixa de velocidades (caso exista). Obviamente que o projecto da turbina é integrado e é a chave da sua viabilidade, mas do ponto de vista da simples fabricação, projecto áparte, é esta a divisão principal de custos.
Destas partes, as que incorporam maior volume de trabalho operário são a fabricação das pás das hélices e a electrificação do gerador e partes associadas (ligação de cabos), que o documento acima linkado estima em 15% do respectivo custo total.

  • As opções feitas por Portugal: modernismo, ou incompetência e fraude?

Todo o trabalho de I&D nas tecnologias de turbinas eólicas que conduziu, ao fim de 70 anos, à maturidade que a geração eólica tinha atingido por volta de 1994, passou ao largo de Portugal.

Portugal acordou para a energia eólica no Governo de Guterres, em 2001, com o Prof. Oliveira Fernandes da FEUP, mas acordou apenas... como consumidor! E nisto é que, de facto, fomos pioneiros e somos líderes mundiais.

De facto, todos os outros países, sem excepção, que apostaram na instalação e consumo de energia eólica tinham previamente desenvolvido uma indústria de turbinas com tecnologia própria, como historiei, e os que não tinham ou têm essa indústria e tecnologia nacionais têm continuado no grosso do pelotão, tentando ficar o mais possível na reactaguarda sem dar nas vistas - como é o caso da Suécia, Noruega, Finlândia, Bélgica, Holanda, Polónia, Bulgária, Roménia, República checa, Eslováquia, Itália, Suiça ou França! E isto para só falar da Europa, a campeã de kyoto e das renováveis...!

Os casos mais paradigmáticos de como se atrasou a adesão ao consumo de energia eólica para dar tempo primeiro ao desenvolvimento interno de tecnologia própria e indústria nacionais de turbinas foram, sem dúvida, a China e os EUA, como historiei, e cuja abertura às importações visa pressionar os actores nacionais para a evolução tecnológica, mas sem que percam o controlo sobre os respectivos mercados. Além da China que, como mostrei, exige 70% de incorporação chinesa nas turbinas instaladas (começou por só exigir 57%...), também os EUA dão incentivos na forma de créditos fiscais à fabricação feita no seu país. Nenhum país, repito, nenhum excepto Portugal, permitiu a inundação do seu mercado de geração de electricidade por equipamentos importados de energia renovável subsidiada sem criação de qualquer emprego industrial no país!

De 2001 até ao presente (2009), e sobretudo desde 2003, a importação e instalação de turbinas eólicas foi fulgurante. Em Junho passado estavam instalados 3335 MW de turbinas eólicas, e até ao final do ano a DGEG espera ter a instalação de um total de 3800 MW, 3/4 de todo o potencial eólico nacional, num investimento que se pode estimar em 4,2 biliões de €, dos quais uns 3 em equipamento importado e o restante em trabalhos de instalação - sem mencionar os investimentos que a EDP e a REN tiveram de fazer para ampliar as redes de forma a integrar essa energia! Estavam também já licenciados, em Junho, mais 442 MW, o que totaliza mais de 80% do potencial eólico português!

Ou seja, o mercado nacional para turbinas eólicas aproxima-se muito rapidamente do esgotamento. Que empregos, portanto, poderão vir a ser agora criados pela energia eólica em Portugal?

Ora foi só em 2006 que o Governo português sentiu a incomodidade de promover a forte subsidiação da indústria estrangeira de turbinas eólicas - facto único no mundo! - sem qualquer criação de riqueza no país e começou a falar na criação de um "cluster eólico". Já a importação e instalação de turbinas estrangeiras levava 5 anos! Verdade seja dita que, mesmo assim, foi preciso chegar ao Governo actual para que a vergonha da situação fosse sentida mas, infelizmente, rapidamente se passou à pura propaganda mistificadora.

As promessa de milhares e milhare de empregos soam por todo o lado, mas o prometido "cluster eólico" teve a primeira fábrica a operar apenas no fim de 2008, e com apenas 800 operários não-qualificados. A EFACEC assegura a electrificação dos geradores nas barquinhas e dos parques eólicos à rede mas, obviamente, isso é uma actividade não-exportável que se esgotará quando se esgotar a total ocupação do potencial eólico nacional, muito em breve.

O projecto do "cluster eólico" baseia-se num investimento liderado pela Enercon, o fabricante alemão preferido pelos decisores dos concursos públicos concessionários dos "pontos de ligação" à rede das eólicas, cobre em princípio todas as fases da fabricação e anuncia que, quando completo, empregará 1800 pessoas (na região de Viana do Castelo) e terá comportado um investimento directo estrangeiro de 0,1 biliões de € (2% do investimento nacional total na energia eólica). Há ainda e finalmente a generosa dádiva de 35 milhões de € a Portugal para que este comece a investir na tecnologia eólica (sob tutela de um "fundo" cuja Administração foi nomeada pelo Governo, e já só em 2009)...

A questão que se coloca é como se poderá sustentar tal "cluster industrial", uma vez esgotado (em breve) o mercado nacional, que apenas acrescente o valor da mão de obra nas partes cujo fabrico não pode ser robotizado e que, segundo o documento linkado acima, não constituirá mais de 15-20% do valor da turbina, considerando que:

  1. Como Portugal não tem qualquer know-how no assunto, está completamente dependente da Enercon;
  2. Os custos de transporte das turbinas eólicas é tremendo, dada a sua dimensão, o que recomenda fortemente a fabricação local nos mercados de exportação;
  3. Os maiores mercados emergentes, os dos EUA e da China, subsidiam ou impõem a fabricação local, o que se soma à redução dos custos de transporte;
  4. Os mercados próximos, europeus, ou estão perto do esgotamento, ou protegem os seus fabricantes nacionais.

De tudo o que foi exposto, não se vislumbram razões para acreditar que estas fábricas sobrevivam ao esgotamento do mercado nacional das eólicas. Não têm condições de sobrevivência. Não se trata de uma indústria como a de automóveis da Auto-Europa onde existe um mercado relativamente estável; o mercado destas fábricas é um mercado em explosão, mas que na Europa está já quase esgotado. Que ficará praticamente esgotado em Portugal muito em breve.

Na verdade, face aos 4 bilões de € totais que terão rendido aos fabricantes estrangeiros o investimento português em energia eólica, gastar 2,7% disso numa acção de promoção política pedida pelo governo português para fazer umas fábricas que são para fechar poucos anos depois, não parece grande comissão.

Quarta-feira, Setembro 16, 2009

O sonho da razão

Após iniciar este blog, há cerca de 2 meses, descobri, por alguns emails e comentários que recebi, a existência de dois partidos na blogosfera no que diz respeito às questões climáticas e energéticas, e que desconhecia completamente.
De um lado estão os ecotópicos, os fundamentalistas pós-modernos das renováveis, das "redes espertinhas" e outros combates contra "a grande conspiração do lobby petrolífero", sobre os quais já afirmei as minhas distâncias. Andarão pela ala esquerda do BE.
Do lado oposto estão os que não reconhecem sequer a existência de alterações climáticas antropogénicas e até que haja algum aquecimento global em curso, que raciocinam como os criacionistas e que combatem "a grande conspiração do lobby ecológico", que odeiam de morte Al Gore e que, por alusões ouvidas na TV, concluo terem a concordância ideológica do PNR.

Existe também outra luta extremada, no que respeita às opções energéticas e obviamente associadas a interesses económicos mas também de protagonismo.
De um lado estão os militantes das energias renováveis, desde há uns anos dominando o panorama nacional e até o europeu, e cujos excessos tenho procurado mostrar.
Do lado oposto estão os advogados da opção nuclear, sobre a qual ainda não me debrucei aqui mas que tenho em agenda para breve, quando concluir algumas recolhas de dados que tenho em curso. De momento não emito nenhum juízo de valor; apenas constato que o que defendem é inaceitável para os ecotópicos e dificilmente aceitável também pela maioria dos Governos da União Europeia.

Entre estas lutas de extremos de ideologia e de interesses, sinto-me por vezes na pele de Azaña entre a FAI e a Falange, nos anos 30, cujo "sonho da razão" foi ignorado por quase toda a gente, na altura, e que teve de esperar 40 anos e meio milhão de mortos numa guerra inútil para ver Espanha adoptá-lo...

Espanha na véspera da guerra civil, por Dali

Eu não pretendo ser um especialista em climatologia. E é precisamente por isso que confio nas posições da ONU nesta matéria, e do seu Painel Inter-Governamental para as Alterações Climáticas (IPCC). Em quem haveria de confiar? Além disso parece-me plausível que o tremendo crescimento da população humana sobre um planeta finito o afecte. Como os vírus, que são pequeníssimos mas podem multiplicar-se ao ponto de matar o hospedeiro... E é aliás essa a explicação principal do próprio IPCC, que atribui metade do Aquecimento Global ao crescimento da população. A outra metade atribui-a à melhoria de vida dessa população crescente.
E depois, não me venham dizer que nos últimos 15 anos o Árctico está a arrefecer e que as observações da NASA que Al Gore nos divulgou são "tretas", que também não tenho paciência para quem nega o darwinismo!

Que haverá enviesamento nos editores das revistas científicas que recusam publicar o que saia do que se torna "politicamente correcto" nesta matéria, acredito. Ainda há dias vi no canal Odisseia a história de como a demonstração experimental de que a variação periódica da radiação cósmica afectava a formação de nuvens e, com isso, a reflexão da radiação solar e da temperatura na Terra, só conseguiu ser publicada à 4ª revista tentada (embora depois o assunto tenha sido largamente investigado concluindo-se que o tal efeito não podia explicar o Aquecimento Global em curso).

Muitos investigadores têm a experiência de como descobertas científicas que se chocam com consensos estabelecidos nos comités decisórios das revistas são em regra rejeitadas, inicialmente. E também sabemos que o mundo dos cientistas não é puro e isento: tem todos os defeitos de qualquer comunidade de humanos e é sobretudo dependente de quem financia as investigações, que, no que respeita à Ciência sem aplicação comercial, ou seja, no que respeita a financiamentos públicos, geralmente escolhe o que financia em função das modas e das crenças dominantes...

Por outro lado, há evidentes lobbies económicos e políticos por detrás das posições científicas que têm repercussões políticas.

As grandes petrolíferas começaram por negar o Aquecimento global e por convencer Bush que ele não existia - embora depois tenham concluído do interesse em passarem para o lobby contrário, onde agora se encontram promovendo as renováveis (para os media) e até financiando-as (como a BP Solar). Os criacionistas são, em geral, propensos a acreditar que se Deus fez o mundo como ele é, não o ia depois deixar aquecer (embora o senador McCain já não alinhasse nessas visões à Bush).

Mas também lobbies das renováveis! E que cavalgam a onda ideológica "verde" para ganhar muito dinheiro à custa dos contribuintes!

Porém, e apesar de tudo isto e no que respeita à climatologia, acredito que é ainda dentro da sua comunidade científica que as visões divergentes têm de se confrontar. É assim que a Investigação científica funciona e sempre funcionou, mesmo quando os "good guys" são transitoriamente desprezados. Até Einstein, em 1927, se riu do jesuíta Lemaître e disse que o conhecimento de Física deste era "abominável", por ele lhe ter escrito a notar que da sua teoria da relatividade se deduzia ter havido um Big Bang e portanto uma origem do Universo, dois anos antes de Hubble constatar o desvio para o vermelho da luz das galáxias mais distantes...

Mas é curioso ver como ecotópicos e criacionistas se equivalem na psicologia e atitudes.

Os criacionistas negam o Aquecimento global e dizem que tudo o que se publica cientificamente sobre isso não passa de uma grande conspiração dos ecologistas e de interesses de lobbies industriais ligados às renováveis.

Mas há um outro domínio em que exactamente o mesmo comportamento se vê à esquerda, nos que afirmam teimosamente a existência de malefícios para a saúde pública resultantes das "radiações electromagnéticas" das linhas de Alta Tensão e que recusam terminantemente as posições da OMS (uma instituição tão da ONU como o IPCC) sobre o assunto, bem como toda a ciência que se publica sobre o assunto, acusando-a de estar vendida ao lobby das "eléctricas"...!

O Sonho da Razão é difícil de defender, neste mundo terreno de paixões...!

Terça-feira, Setembro 15, 2009

Pás de uma eólica em trânsito





Fotos de Agosto, algures no Midwest dos EUA. Estavam a pensar montar disto no quintal? :-)
E a propósito: gasolina a 2,69 USD... por galão! 0,50€/litro... e, mais a Sul, encontra-se a 0,44€/litro, praticamente 1/3 do que custa em Portugal!

Custos da energia eléctrica

Só para situar melhor a estimativa apresentada no post anterior sobre os custos de produção da energia eléctrica em função do tipo de central usado, convém recordar que o preço no consumidor da electricidade é, presentemente, de cerca de 15,5 ç/kwh em média para o consumo doméstico e 10 ç/kwh para o industrial, sem IVA mas somando a parcela da "potência contratada".
São valores dentro da média europeia, mas quase duplos dos praticados na Turquia, Letónia ou nos EUA e muito superiores aos verificados nos países da Europa de Leste, e mesmo aos espanhóis.
Nos 15,5 ç pagos por nós, cerca de 6 ç correspondem ao custo (investimento e exploração) das redes de Transporte e Distribução que nos trazem a energia a casa, e cerca de 7,5 ç ao preço da energia fornecida pelas centrais. Os restantes 2 ç pagam diversos serviços e encargos da gestão do sistema eléctrico, e é de notar que dos cerca de 6 ç de custo das redes, mais de metade (uns 3,5 ç) são pagos como "potência contratada", antigamente mencionada com infelicidade como "aluguer do contador", parcela que na verdade paga o custo da rede, que tem de estar lá para que possamos consumir a energia quando a quisermos, consumamo-la ou não.
A diferença entre preço propriamente da energia, os cerca de 7,5 ç, e o valor médio do custo de produção das centrais existentes, e que andará quiçá pelos 6,5 ç, é o prémio (lucro) pago aos produtores. No entanto, como um comentador já me chamara a atenção, o preço pedido no mercado ibérico ultimamente, mercado dominado pelos produtores espanhóis mas onde estamos integrados, é de apenas cerca de... 4,0 ç/kwh!!!
Este preço não significa que os custos de produção espanhóis sejam esses, mas sim apenas os seus custos variáveis, ou seja, que há excesso de oferta. Uma vez satisfeitos os custos fixos (investimento, operação e manutenção), podem vender, se houver excesso de capacidade, ao custo variável (nulo nas eólicas) mais um pouco para acelerar a amortização ou em puro lucro...
Esta concorrência só não arruina completamente os produtores nacionais devido aos vários esquemas proteccionistas de que beneficiam, nomeadamente o estrangulamento da rede de interligação a Espanha, que tem 8 reactores nucleares. Aliás, defender tal liberalização em nome do em princípio saudável princípio da concorrência, equivale de facto a entregar a produção da nossa electricidade a Espanha, coisa que não sei se ocorre aos arautos dessa "maior concorrência".
Mas por aqui se pode avaliar o caminho que Portugal tem vindo a tomar em matéria energética, e a enormidade que constituem as propostas de centrais solares, com custos de produção acima dos 34 ç/kwh, ao mesmo tempo que temos de recorrer à importação!...

Sexta-feira, Setembro 11, 2009

Inacreditável!

Como que a propósito do que aqui escrevi sobre a energia solar, o Público de hoje tem em primeira página a notícia de que alguém se prepara para nos fazer pagar uma central solar similar à que vai ser construída na Mongólia interior e de que aqui falei.
Nem posso acreditar!
Mesmo que a central apenas custe só 6 biliões de €, do que duvido, isso significa um custo de 3€/w, 2,2 vezes do que custa presentemente, em média, uma turbina eólica. Porém, a utilização média da potência de ponta de uma eólica é, por cá, de 25%, enquanto a de uma central solar com seguimento do Sol é de apenas 21,5%, pelo que para a mesma potência, uma solar produz 21,5/25=85% da energia da eólica. Acresce a isto a maior manutenção requerida pela solar, que precisa que se lhe limpe os painéis regularmente.
Por conseguinte, o custo de investimento para a produção do kwh solar será de pelo menos 3 vezes o do eólico.
Ora para que o eólico seja rentável já tem de ser fortemente subsidiado, dado custar mais do dobro do que custa o kwh gerado pelas fontes convencionais de energia! Veja-se, pois, o que custará em subsídios uma energia ainda 3 vezes mais cara!...
E isto só no que respeita ao investimento na central! Porque nas poucas horas em que a Central funcionar à potência máxima, a meio dos dias de Verão soalheiro, a rede terá mesmo de escoar os 2000 MW, quase o equivalente ao que produzem duas centrais de Sines! Nem todo o país tem capacidade para encaixar isso, daí a necessidade de criar rede que escoe isso para lá dos Pirinéus...
Mas como, em média, a central só produzirá 21,5% disso, na verdade gerará menos de metade da energia produzida pela referida central de Sines (que é "só" de 1250 MW)!
Um "cluster" nacional para a sua produção? Continuam a brincar connosco!!!
Penso que se alguém no Governo, na REN, ou qualquer outra instância pública, apadrinhou esta ideia, deve ser imediatamente preso!

Quarta-feira, Setembro 09, 2009

Ainda sobre os Gases causadores de Efeito de Estufa: calma!

Tenho lido com regularidade que o consumo dos combustíveis fósseis seria responsável pela emissão de 85% do total dos GEE (Gases de Efeito de Estufa). E tenho lido esse número tanto para justificar a apologia das energias renováveis, como da energia nuclear!...
Sem pôr em causa os estudos do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC) da ONU, que sintetizam os resultados largamente consensuais da comunidade científica internacional, acho útil, entretanto, esclarecer que os referidos 85% exageram em muito o papel poluidor do uso dos combustíveis fósseis, como aliás eu já analisara aqui.
De facto, e segundo o próprio IPCC, de cujo relatório mais recente (2007) extraio a figura anexa, a estimativa de contribuição para os GEE dos combustíveis fósseis é pouco mais de metade. O resto vem sobretudo do uso dos solos, em última análise do enorme crescimento da população humana verificado sobretudo no último século, num planeta que é finito.

Note-se, entretanto, que este gráfico não pretende ilustrar um cálculo exacto.

Com efeito, o próprio IPCC explica, no seu sumário técnico do referido detalhado relatório de 2007, que relativamente aos valores de metano (CH4) e gases nitrosos (N2O), os dados apresentados têm incerteza de 30 a 50%, e que as emissões de CO2 da agricultura e desflorestação ainda sofrem de incertezas maiores!...

Mas, mesmo aceitando como suficientemente precisa a distribuição de parcelas de GEE ilustradas na figura anterior, também não é verdade que o CO2 resultante do uso de combustíveis fósseis resulte todo da produção de energia eléctrica e dos transportes, como se mostra na figura seguinte.

A indústria, particularmente as refinarias, as siderurgias e as cimenteiras, consomem directamente combustíveis que produzem mais CO2 que os transportes!

E, nos GEE de origem residencial inclui-se a queima de lenha para aquecimento.

Não pretendo com esta nota contestar a necessidade de energias renováveis e da "descarbonização" dos transportes! Apenas penso ser importante pôr as coisas na sua correcta perspectiva: será preciso muito mais do que adoptar automóveis eléctricos ou encher os telhados de painéis solares para salvar o mundo do Aquecimento Global, até porque mesmo nos transportes 1/4 dos GEE são emitidos pelos navios e aviões, e não pelo transporte rodoviário... e, sobretudo, será preciso que muito mais população mundial do que a que subscreveu Kyoto se envolva no processo!

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Como que de propósito justificando o intento do texto acabado de escrever, acaba de ser publicado mais um relatório do "Transatlantic trends 2009" promovido entre outras pela nossa FLAD e que, relativamente à apreciação sobre as alterações climáticas, diz que "Muito preocupados" com as alterações climáticas estarão 40% dos americanos e 48% dos europeus, e que, entre estes, na Europas Central e Oriental serão 37%, mas que os portugueses são os "mais ansiosos" com 62%!!!

A propaganda do Governo e dos ecotópicos faz mesmo efeito!

Energia solar: negócios portugueses e as perspectivas mundiais

No regresso de férias recebi na caixa de correio uma "oferta" de uma empresa que, por 25.200 €, se propunha tornar-me um "microprodutor" pela instalação de um painel solar fotovoltaico na forma de um "kit" de 3,68 kW, o qual me permitiria vender à EDP energia a 0,6175 €/Kwh e recomprá-la depois, da mesma EDP, a 0,121 €/kwh. Embora o folheto o não explicasse, o painel solar do referido kit não terá menos de 25 m2 (cerca de 6 x 4,25 m), ocupando considerável área do telhado. Uma rápida pesquisa permitiu averiguar que a empresa em questão é um obscuro empreiteiro de província.

Dizia-me o folheto que eu ganharia com isso em média 300 €/mês isentos de IRS, além de que poderia deduzir à colecta de IRS 796€ do investimento de 25200 € (mas que na verdade não é aplicável se a casa já estiver adquirida). Quanto aos custos de manutenção e de instalação do "kit" o folheto era omisso, mas pode-se presumir que a vida útil do "kit" seja de 20 anos, com substituição eventual do conversor por volta dos 10 anos. A manutenção terá de incluir a limpeza regular, já que a acumulação de pó reduz o rendimento dos módulos até 50%.

Umas breves contas sobre os dados do próprio folheto mostram que a energia produzida estimada aproveita em média apenas 15% da potência indicada de 3,68 kW, tendo em conta as noites, os períodos de céu nublado e as condições frequentemente não ideais de exploração, nomeadamente o ângulo variável de incidência da luz do sol ao longo do dia. É um valor típico das médias mundiais dos módulos solares.
Um rápido cálculo financeiro mostra também que, excluindo custos de manutenção e considerando as taxas de juro especiais oferecidas para o efeito pela Caixa Geral de Depósitos, o prazo de amortização do referido investimento andaria pelos 8 anos, se a tarifa se mantivesse a mesma. Porém, a referida tarifa só é "oferecida" pelo Governo para os primeiros 5 anos (facto "esquecido" no referido folheto), descendo a partir de então para o valor em que estiver na altura e que, com elevada probabilidade e pelo que adiante é discutido, será pouco superior à tarifa de compra. Quer isto dizer que com elevada probabilidade a instalação só estará de facto amortizada ao fim de 20 anos, o tempo de vida do equipamento e que, portanto, se trata de um investimento com interesse nulo enquanto negócio!

Tendo em conta que a energia produzida pelo vento custa à EDP quase o mesmo preço pela qual é depois vendida (0,1 €/kwh), o dobro do que custa a do carvão, já considerando os 0,2 €/kwh de "multa" pelo CO2 emitido pela queima deste e imposta pelo protocolo de Kioto, vemos que esta energia solar custará à EDP, presentemente, 6 vezes o que lhe custa a eólica e cerca de 15 vezes o que custa a extraída do carvão, "multa" pelo CO2 àparte (que os maiores consumidores mundiais de carvão para a produção de Energia, os EUA e a China, não pagam porque não subscreveram Kioto).
Poder-se-á argumentar que, sendo essa energia eléctrica produzida junto ao consumidor, a EDP poupa os encargos com o seu transporte e distribuição a partir das centrais usuais e que, portanto, o custo a comparar com os 0,62€ não será o da energia à boca dessas centrais mas o acrescido do seu transporte e distribuição, ou seja, perto dos 0,114€ pagos pelo consumidor. Mesmo assim é evidente que se trata de uma subsidiação de 0,55 €/kwh.
Por conseguinte, o custo desta energia solar é totalmente subsidiado pelos impostos cobrados pelo Estado e pelo défice da EDP, ele também a ser pago um dia, mais cedo que tarde, pelos consumidores, e pelo próprio "microprodutor", enquanto financiador e sobretudo pela disponibilizaçã0 da área de colocação dos painéis.
E o que subsidia ao certo esta estratégia energética?

Portugal é o único país que tem uma política generosa de subsidiação às energias renováveis por motivos apenas ideológicos. Porque, espantosamente e ao contrário de todos os outros países que subsidiam a procura interna de energias renováveis, Portugal não tem indústrias próprias de equipamentos produtores de energia renovável. Não as tem para a campeã eólica, e também as não tem para a energia solar!
Quandoo Presidente da República inaugurou a fábrica de módulos solares da Solar Plus em Dezembro passado, manifestou um entusiasmo talvez excessivo face à modesta dimensão do projecto: um empreendimento puramente financeiro de um consórcio nacional de apenas 15 a 18 M€, com tecnologia e organização totalmente estrangeiras, destinado à mera montagem de componentes importados e anunciando 109 empregos não-qualificados. As referências à "tecnologia inovadora" e à "participação das Universidades" do Presidente seriam encorajadoras se ele estivesse a falar de entidades portuguesas, mas sobre isso admito que o tivessem equivocado. A usual Martifer montará a maior parte dos painéis solares "fabricados" em Portugal mas, como se queixou o dirigente da GEOTA Manuel Santos, "a instalação de colectores solares em 65 mil habitações individuais não vai ter impacto no abastecimento energético do país, gerando apenas negócio para algumas empresas". Na verdade, trata-se de um negócio em tudo similar ao da energia eólica em Portugal, embora em menor escala, essencialmente um comércio de importação alimentado por subsídios públicos. Aquilo a que um antigo pensador político chamava de economia "burocrático-compradora"...

É verdade que o panorama mundial de fabrico de módulos solares é caracterizado por uma estratégia europeia de subsidiação à compra (tarifas "feed-in"), como em Portugal, mas que tem beneficiado sobretudo os fabricantes da Alemanha, até recentemente o país maior produtor destes módulos, aliás como de turbinas eólicas. Também a nossa vizinha Espanha tem várias grandes fábricas com tecnologia própria, particularmente na região de Valença, algumas das quais resultam de projectos iniciados há mais de 25 anos, quando em Portugal o Prof. Leopoldo Guimarães se interessava também pelo assunto na sua Faculdade mas sem que, entretanto, tenha havido no país qualquer iniciativa que transformasse esse interesse científico em produção económica, ao contrário de Espanha e já sem falar da Alemanha...

Ora uma estratégia diferente da subsidiação à compra tem sido a da China, cujos Governos central e regionais têm subsidiado antes a produção, com a exportação dos seus painéis a preços inferiores aos próprios custos marginais de produção (i.e., subtraindo os custos fixos administrativos e de I&D). Com esta estratégia, a quota chinesa do mercado mundial de painéis solares cresceu de 7% para 26% em apenas 4 anos, de 2005 a 2009, enquanto a produção dos EUA, em tempos pioneiro e líder, é agora de apenas 5%. A China acaba de ultrapassar a Alemanha como primeiro fabricante mundial de painéis solares o que, juntamente com a crise mundial de crédito, já criou dificuldades à Q-Cells, o fabricante alemão que detém a 2ª posição mundial como produtor e que teve por isso de despedir há semanas 500 dos seus 2600 trabalhadores. Esta concorrência é agravada, para os fabricantes europeus, pela radical redução da subsidiação à compra pelos Governos alemão e espanhol verificada em 2009. De facto, na Alemanha os políticos não estão para pôr os seus contribuintes a subsidiarem indústrias estrangeiras (como afirmou Markus Wieser, porta-voz da Q-Cells), e a Espanha parece ter a mesma atitude (aliás, só Portugal a não tem). Ora, juntas, a Alemanha e a Espanha constituem 70% do mercado mundial de módulos solares!

A posição da Q-Cells no ranking mundial de fabricantes de painéis foi já alcançada este ano pela Suntech Power Holdings chinesa, e este autêntico blietzkrieg chinês compromete mortalmente também, claro, os parcos investimentos feitos em Portugal na montagem de painéis solares estrangeiros. Diversos especialistas consideram, aliás, que nem a Europa nem os EUA têm hipóteses de concorrerem com a China. A China, entretanto, ainda não instalou no seu próprio território uma única central solar e, a primeira que anunciou, para 2010, exige 80% de incorporação chinesa...
Mas qual é a tendência evolutiva dos preços de produção da energia solar e, portanto, que papel se pode esperar para ela no futuro próximo?

Cerca de metade do custo de um módulo solar está nos painéis, mas a outra metade vem dos conversores electrónicos necessários para a sua utilização e dos custos de instalação. Nos últimos anos, o custo total dos módulos tem baixado, mas isso deve-se principalmente aos conversores electrónicos e à automatização das montagens, e não ao componente principal dos módulos, as células foto-eléctricas.
Inicialmente de silício cristalino (o mesmo material de que são feitos os chips electrónicos), a evolução tecnológica juntou-lhes outras alternativas, das quais a mais rentável é presentemente a de películas finas (thin-film). Embora o rendimento energético das películas finas seja o pior, o seu menor custo de fabrico e maior longevidade compensam largamente esse pior rendimento, levando ao menor custo por kw de potência de pico.
No entanto, existem outras tecnologias em evolução competitiva, todas procurando o menor custo de fabrico por unidade de energia eléctrica produzida, de modo que é possível esperar que, a prazo de alguns anos (digamos, uma década), uma das tecnologias emerja como a consistentemente mais rentável. Porém, como é difícil prever que tecnologia será essa, também o é a forma dos módulos dela derivados e as condições ideais da sua exploração (a opção do "solar concentrado", por exemplo, requer grandes instalações cobrindo áreas consideráveis de terreno). É uma situação similar à existente com as baterias dos (futuros) carros eléctricos.
Presentemente, entretanto, o menor custo de produção obtido experimentalmente e já este ano para painéis solares de película fina é de 1 USD/Kw, um custo que torna o custo de investimento por kwh ainda duplo do da energia eólica (dado que os factores de utilização médios das instalações com painéis seguidores do Sol e das eólicas são respectivamente de 21% e de 25% e que falta ainda contabilizar o custo de investimento da integração dos painéis com os conversores e controladores), mas um recente estudo da Universidade de Berkeley para a Administração Obama mostra que será muito difícil conseguir melhor nos próximos anos.

Face aos custos insustentáveis da energia solar (o sol é grátis mas, tal como o vento, a água dos rios e até o petróleo do sub-solo, o problema é a sua transformação em algo utilizável), não admira que a totalidade mundial das instalações solares produtoras de electricidade não produza mais do que a energia gerada por uma única grande central nuclear ou a carvão!
Como afirma o mencionado estudo da Universidade de Berkeley, "the message ... is that unlike the stock market, we need to think long-term, and plan for the solar power we want to see a decade or more in the future. And that means doing some painstaking basic research on neglected materials that, for now, cost a lot more than a dollar a watt."
Esta é a estratégia recomendada para países que têm estratégias.

Para Portugal, e dada a triste realidade de desde Ferreira Dias não se planear a prazo em termos de política industrial e tecnológica, resta o que o Presidente da República recomenda na sua intervenção acima inserida: "redução do consumo" e "aumento da eficiência energética". Ou, noutros termos quiçá duros mais mais claros: aprendermos a viver pobremente da melhor maneira! E, acrescentaria eu: começar a trabalhar para um horizonte de daqui a uma década...
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Hoje mesmo, o Público on-line dá conta de uma notícia que confirma e completa este post e que pode ser lida aqui com maior detalhe: a China e a First Solar, o maior fabricante mundial de módulos solares (americano) e que ainda supera a alemã Q-Cells e a chinesa Suntech Holdings, acordaram no fornecimento de uma gigantesca central solar de 2000 Mw (potência de pico, correspondendo a 300 MW de potência média, pouco mais de um terço da da nossa central a carvão de Sines), ocupando uma área de 65 km2, na Mongólia interior. O custo previsto para a central é da ordem dos 2,5 a 3 USD/w, muito acima do desejável 1 USD/w que traria o custo da energia produzida pelo solar para um valor ligeiramente inferior à de origem eólica, mas os chineses esperam conseguir reduzir-lhes os custos. Vão também adoptar uma subsidiação à compra dessa energia, para a viabilizar. E, como sempre o têm feito, hão-de usar isso para aprenderem a tecnologia e para terem argumentos para exportar depois para os EUA...

Quinta-feira, Setembro 03, 2009

A avaliação dos professores, as "Ciências" da Educação e a estratégia da Administração de Obama

Sendo professor há várias décadas e familiar de muitos docentes e alunos, há muito tempo que concordo com Nuno Crato e a sua crítica ao "eduquês", a linguagem da ideologia "romântica e construtivista" da educação, como ele a caracteriza. Ideologia que, nas suas componentes mágicas, relativistas e subjectivistas ("românticas", chama-lhes benevolamente o Nuno), faz parte do pós-modernismo e embebe outra corrente de pensamento que é prima desta, o ecologismo utópico ou "ecotopia".

No domínio da Educação, esta ideologia tem promovido ideias como a da "promoção da auto-estima" dos alunos sem necessidade dela ser merecida e, de um modo geral, o facilitismo, o culto do divertimento e o horror ao esforço e à disciplina (sobretudo à auto-disciplina), a estranheza perante o valor moral do trabalho e a ideia de que combinando "criatividade" e "empreendedorismo" com isso tudo se poderá ir mais longe do que à promoção da chico-esperteza, que é precisamente como se define criatividade sem esforço nem trabalho.

Considero esta política educativa, ao comprometer por uma geração inteira a capacidade dos portugueses fazerem evoluir o seu país e com isso a sua própria qualidade de vida, um verdadeiro CRIME contra Portugal (ou contra o povo português, como preferirem), no que não sou único, como sabe quem tenha ouvido Medina Carreira a comentar!

E no entanto, a ideologia pós-moderna que sustenta esta política é promovida como tratando-se de "Ciências da Educação", em muitos cursos cuja frequência hoje se exige a quem é docente do ensino pré-universitário, mas a quem não se pede que saiba do que ensina, isto é, que saiba efectivamente português, matemática, ciências em geral (naturais e humanas) e línguas! Ora, na verdade, o segredo do bom professor é antes de mais saber profundamente do que se ensina e gostar de o partilhar, no sentido com que Einstein ironisava que só se tinha conseguido compreender verdadeiramente a sua Teoria da Relatividade quando se conseguia explicá-la à mulher a dias, e ainda capacidade de liderança.

A colmatar o já crónico descalabro da educação, que abrange também os programas fantasticamente imbecis e manuais escolares de qualidade frequentemente criminosa (sobretudo no ensino básico), o actual Governo decidiu avançar com um modelo burocrático de avaliação dos professores que os classifica segundo fórmulas complicadas em função de critérios tão pós-modernos como os do ensino que são levados a praticar!

Será que os professores não devem ser avaliados e que devem manter o direito à irresponsabilidade a que décadas de ausência de hierarquia nas escolas os habituaram? Claro que não penso isso!

Porém, qualquer sistema de avaliação deve complementar toda uma estratégia educativa em que o objectivo final seja a qualificação dos portugueses, e deve estar ao seu serviço como mais uma das suas ferramentas, a par de programas sensatos e correctos, manuais de rigorosa qualidade e objectivos de competência para os alunos cuidadosamente definidos a partir do estudo comparado das melhores práticas internacionais.

A política deste Governo para a avaliação dos professores não tratou de reintroduzir uma avaliação que tivesse estado ausente durante 30 anos, como ouvi o Primeiro-Ministro e muito boa gente defender, como se antigamente (isto é, no salazarismo) houvesse avaliação dos professores, o PREC a tivesse suspendido e agora se estivesse a retomá-la.
Na verdade, essa tese é revisionismo histórico, um truque barato para agradar aos descontentes com a balda existente, pois o facto é que os professores NUNCA foram avaliados por quaisquer critérios classificativos em Portugal, nem antes nem depois do 25 de Abril!

Quem, de facto, era avaliado antigamente (antes do 25 de Abril e até que os pós-modernos tivessem tomado por dentro o Ministério e as Escolas de Educação, já o PREC ia longe), quem era avaliado... eram os alunos! E foi essa avaliação que deixou de existir!

Talvez vocês, jovens, se espantem quando afirmo que a avaliação dos alunos deixou de existir. Claro que continua a haver notas, testes e "trabalhos" classificativos nas escolas. Porém, essa avaliação tem progressivamente sido descentralizada para cada escola e cada professor o que, conjugado com a pedagogia "romântica e construtivista" promovida pelas ditas "Ciências da Educação", conduziu a que agora a avaliação dependa essencialmente do critério de cada professor.

Tal facto é na minha opinião a causa principal da indisciplina existente nas escolas, da perda de autoridade e do clima de intimidação em que muitos professores vivem agora, por parte de alunos e respectivos pais.

Se as aprovações dependem apenas dos professores e se o clima geral é de facilitismo e desprezo pelo trabalho disciplinado, deixou de fazer sentido que os pais e os próprios alunos exijam aos professores que ensinem, para em vez disso se lhes exigir é que facilitem a aprovação.

Para exemplificar a ideia de como o cerne do problema está na falta de uma verdadeira avaliação aos alunos, vale a pena lembrar um sistema de ensino que conheci de perto antes do 25 de Abril, numa região remota do Império ultramarino onde não havia escolas secundárias do Estado.
O ensino era organizado pelos próprios pais dos alunos, em edifícios habitacionais improvisados, e os docentes eram escolhidos de entre os próprios colonos, frequentemente sem sequer terem uma licenciatura completa e sem qualquer hierarquia.
Havia cerca de uma dúzia de alunos por ano lectivo e os exames nacionais eram feitos em liceus oficiais em cidades distantes, de tantos em tantos anos dos ciclos de estudos, e na verdade o sistema assemelhava-se a um centro de explicações, como aliás era oficialmente classificado ("ensino doméstico").
Pois desse esquema improvisado e artesanal vieram a sair muitos futuros licenciados de grande reconhecimento hoje em Portugal e na América, e vários professores universitários actuais...! Qual o seu segredo?
Sem dúvida os tais exames nacionais que ocorriam periodicamente e o empenho dos pais na escola!
O que todos queriam é que os filhos fossem devidamente preparados para os tais exames, que era onde se tinha de obter a aprovação! Portanto, pais e alunos preocupavam-se em saber se a formação ministrada efectivamente preparava para esses exames, e claro que era impensável admitir que um professor não desse o programa todo (que saía nos exames) ou que faltasse às aulas (reduzindo a preparação para esses exames)!
Um aluno desordeiro que impedisse os colegas de se prepararem para os exames, abandalhando as aulas, era rapidamente afastado (e obrigado a ir estudar para internatos em cidades longínquas), pela pressão dos pais dos outros alunos por ele prejudicados. O mesmo afastamento (no final dos anos lectivos) sucedia aos raros docentes que se revelassem menos empenhados ou capazes. Raros, por que a facilitar o trabalho desses improvisados professores, havia programas claros e bons manuais de estudo.
Naturalmente, nesse tempo era motivo de grande orgulho e reconhecimento (ou "auto-estima") obter-se aprovação nos tais exames nacionais, sobretudo quando se tinha boas notas! Um desses exames, o do 2º ciclo (correspondente ao actual 9º ano) compreendia 10 provas escritas realizadas numa só semana, duas por dia, e sobre toda a matéria de 3 anos de estudo!... Ninguém ficava "traumatizado" e a precisar de "apoio psicológico"!...
Naturalmente, os bons professores eram reconhecidos pelo sucesso dos seus alunos nesses exames.
Evidentemente, em escolas de massas como as das cidades, o acompanhamento pelos pais da vida nas escolas como se fazia no exemplo citado é praticamente impossível, e caberá ao Estado substituir os pais nessas funções de avaliação dos professores e em geral da vida escolar. Porém, não há razões para que o referencial dessa avaliação não continue a ser os resultados dos alunos em exames nacionais. E não sou só eu que penso assim, como já mostrarei.

O Mundo mudou, e a "pedagogica romântica e construtivista" não foi só em Portugal que se radicou. Na verdade, e muito semelhantemente à ecotopia, trata-se de uma ideologia internacional que se tornou mesmo dominante em muitos, se não a maioria, dos países ocidentais, crescendo quase sem oposição ao arvorar uma imagem de modernismo que, na verdade, esconde um pós-modernismo profundamente irracionalista e anti-científico.
É uma ideologia que também singrou com êxito nos EUA, mas que enfrenta aí um debate público de ideias que é quase inexistente em Portugal (como aliás também acontece com a ecotopia).

Num país com a dimensão e diversidade cultural dos EUA, habituado à autonomia dos Estados e com uma aversão epidérmica arreigada à interferência do Governo Federal na vida colectiva dos cidadãos, não há exames nacionais e as práticas escolares são as mais variadas. Mas, lá como cá, a carreira dos professores dos ensinos básico e secundário (K-12, como lhe chamam) tem sido desde os anos 80 essencialmente baseada nos anos de experiência e nos graus obtidos em cursos de Ciências de Educação, particularmente pós-graduações.
Porém, os testes globais feitos regularmente mostram que lá, como cá, os resultados escolares estagnaram desde os anos 80, e que muitos cursos de "Ciências de Educação" não valem nada.
Na verdade, a política da Administração Obama e em particular do seu Secretário de Estado Arne Duncan baseia-se no reconhecimento de que não existe qualquer relação entre as pós-graduações em "Ciências da Educação" e os resultados obtidos pelos alunos em testes globais padronizados (isto é, de validade comparável).

Isto é algo que vem sido afirmado há muito entre nós pelo incansável Nuno Crato, mas para se entender melhor o que está em jogo, vale a pena conhecer por exemplo a opinião de Martin Kozloff, professor de Educação na Universidade da Carolina do Norte:

"A master’s degree in most subfields in education (especially reading — or what they like to call “literacy” — early childhood education, teaching and elementary education) adds little or nothing to students’ knowledge or practical skills.
An M.A. in education stamps in the baloney that infects the undergraduate curriculum.
Indeed, a master’s degree in most education subfields further stamps in the “progressive,” “child-centered,” “constructivist,” “developmentally appropriate,” postmodernist, pseudo-liberationist baloney that infects the undergraduate curriculum, and which leaves graduating ed students unprepared to provide their own students with coherent, logically sequenced instruction.
Undergrad students enter ed schools and eventually graduate from master’s programs still 1. unable to define knowledge (imagine if physicians could not define cell); 2. unable to identify, define and show exactly how to teach the different kinds of knowledge (e.g., facts, concepts, rule, routines); 3. unable to explain how learning is a simple and straightforward process of inductive reasoning (and not a mysterious process of “discovery” and “meaning making” that can only be “facilitated” by teachers who are more like artistes than skilled technicians); and 4. unable to determine whether teaching materials (e.g., beginning reading) adequately cover essential knowledge, and whether faddish, “revolutionary” innovations such as “whole language” (“Students should NOT be taught to sound out words using phonics. They should GUESS what words say using pictures on the page and the shape of words”) have solid empirical support and will not make children illiterate.
And if you ask graduating master’s students who have managed to escape indoctrination (because they are fortunately endowed with a wide streak of skepticism), they will tell you that they learned nothing new. Yes, many teachers with master’s degrees in education are more skilled teachers. But this is not because they got a master’s degree
."

O programa de Duncan/Obama para a reforma da educação nos EUA centra-se na avaliação dos professores - na verdade, na própria definição dos critérios do seu recrutamento e carreira - a partir dos resultados dos respectivos alunos em exames "padronizados". Ou seja e resumindo, no regresso ao velho critério de bom-senso do antigo ensino em que, afinal, toda a classe actualmente dirigente foi ela própria educada!
O pós-modernismo nas escolas americanas resiste a esta política, claro, e em alguns Estados tenta mesmo decretar a ilegalidade da avaliação dos professores invocando direitos autonómicos. Mas Obama não desiste, prosseguindo uma estratégia que, aliás e nas suas linhas essenciais ideológicos de bom-senso e realismo - particularmente a exigência de exames globais a nível estadual como fundamento dos programas de ensino - fora já iniciada pela Administração Bush com o programa "No Child left behind". Trata-se, pois, de uma viragem histórica decisiva que está em curso nos EUA e que, mais tarde ou mais cedo, a Europa primeiro, e Portugal também, seguirão, como sempre.

Exames nacionais já existem por cá, dir-me-ão. Pois, mas todos sabemos como a extraordinária melhoria dos seus resultados nos últimos anos é altamente suspeita.
Nuno Crato e a sua Sociedade Portuguesa de Matemática têm tentado correlacionar os exames de Matemática nacionais com os níveis internacionais e concluído que as melhorias obtidas se tratam de grosseiras mentiras, obtidas à custa de um maior facilistismo que desautoriza os professores que efectivamente se esforçam por manter um nível elevado de ensino.
A Ministra, porém e ainda hoje o repetiu, diz que não, que o aumento em 50% de aprovações em Matemática em 4 anos se deveu à sua política e aos professores que trabalharam mais graças à sua política, e parece ser apoiada pela Associação de Professores de Matemática, a "outra associação" e que é "politicamente correcta".
Ora quem quer que tenha estudado (e/ou ensinado) Matemática sabe perfeitamente que melhorias destas são estatisticamente impossíveis! Como terão sido obtidas?
O actual Director do Gabinete de Avaliação Educacional (GAVE) do Ministério é um colega meu do IST e competente Professor de Robótica e Controlo. Desconheço-lhe competências em Ciências de Educação e surpreender-me-ia que tivesse conhecimentos por dentro do nosso ensino "K-12", mas não tenho dúvidas de que tem a capacidade matemática necessária para aferir a dificuldade das provas de exame nacionais, antes de serem submetidas aos alunos, de modo a que produzam as estatísticas que se pretendam.

Quarta-feira, Setembro 02, 2009

Alta do petroleo, Regulação e energia eólica - com comentário

Dia 5, na SIC-Notícias, o Dr. Eng.º Costa e Silva, meu colega no IST e Presidente da PARTEX, a petrolífera que sustenta a Gulbenkian, deu explicações muito interessantes sobre as razões da actual alta de preços do petróleo e das suas perspectivas futuras.
Entre outras causas para esta alta de preços está, como factor determinante, a especulação financeira no mercado mundial de futuros.
A situação é de tal modo alarmante que o Regulador norte-americano do mercado de futuros defendeu recentemente a aplicação de limites mais apertados aos valores de investimento permitidos aos investidores não comerciais no mercado do petróleo e do gás. Referia-se essencialmente à Banca e a certos fundos de investimento.
Será certamente difícil limitar esta especulação, dado o caracter internacional do capital financeiro, mas o certo é que, como disse Costa e Silva, 1/3 da frota petroleira mundial está presentemente parada no mar, com os porões cheios de petróleo, à espera que o preço deste suba para o descarregar.
A própria indisponibilidade destes petroleiros contribui para a alta dos preços do petróleo, ao dificultar o seu transporte (Costa e Silva mencionou, nomeadamente, o estrangulamento do transporte de gasóleo da América para a Europa e da gasolina no sentido inverso - os americanos não usam Diesel e os europeus usam-no cada vez mais).
A base desta especulação é a expectativa de que os preços do petróleo venham a subir. Esperar que eles subam leva a guardá-lo para vender mais tarde, e esse mesmo açambarcamento reforça a rarefacção que lhe faz subir os preços.
No fundo, trata-se do mesmo tipo de especulação que acontece nas Bolsas nas épocas de euforia, e que aconteceu no mercado imobiliário até recentemente. Já tem acontecido também no mercado das obras de arte e até no dos selos de colecção. Baseia-se sempre na expectativa de uma subida futura dos preços e alimenta-se a si própria disso, geralmente até que alguma coisa quebre o ciclo e a bolha rebente.
No caso das Bolsas, dos imóveis e dos selos, porém, esta especulação tem um fundamento muito subjectivo e, portanto, o rebentamento das bolhas é sempre garantido e uma questão de tempo. Os últimos ficarão arruinados mas a tentação de jogar neste Casino enquanto os preços sobem é grande.
E no petróleo?
À primeira vista ele é um bem físico limitado e cuja produção será incapaz de acompanhar o previsto crescimento mundial da procura. Portanto, aparentemente a sua rarefacção futura parece garantida e a consequente subida de preços também. E, neste contexto, o mercado de futuros e a respectiva especulação poderá até parecer razoável e prestando um serviço necessário, ao assumir ele o risco dos preços futuros.

Mas será mesmo assim? Pode ser que sim.
E pode ser que não.
Em primeiro lugar há a questão de saber ao certo que reservas existem. E, para além das reservas existentes, há a questão da possível evolução da tecnologia de extracção que, presentemente, apenas é capaz de extrair cerca de 30% do petróleo existente.
Mas, em segundo lugar e quiçá com muito maior impacto, há o efeito que terá uma redução da procura, motivada pelo aumento da eficiência no seu consumo! Não é precisa uma eliminação da procura; basta uma redução consistente, para que os pressupostos quanto ao futuro em que se baseia a especulação possam ficar subvertidos e a bolha rebente, como as outras!
Ora, como disse Costa e Silva e eu já referi aqui, nos EUA os automóveis primam pela ineficiência. O carro médio americano gasta 10 litros aos 100 km, contra uma média de 7 na Europa e Japão. E, como os americanos vivem em geral longe dos empregos, o consumo de gasolina dos EUA é, só ele, cerca de 35% do total mundial, o dobro do de toda a Europa e mais do quádruplo per capita. Costa e Silva disse que bastava que o rendimento dos automóveis americanos aumentasse 15%, com a adopção generalizada dos híbridos e dos Diesel, para que o panorama da procura se alterasse radicalmente a relativamente curto prazo. Convém notar que adoptar híbridos e Diesel não requer apostas em tecnologias inexistentes, ao contrário dos automóveis eléctricos...
Mas, além da estratégia americana para os automóveis, há também nos EUA propostas sólidas para a adopção do TGV eléctrico em certos circuitos com distâncias apropriadas (a distância tecnicamente apropriada para o TGV é a de Lisboa-Madrid; abaixo disso o automóvel é mais prático, e acima é preferível o avião), como é o caso dos trajectos San Francisco-Los Angeles, Dallas-Santo Antonio-Houston e Boston-New York-Washington. E a melhoria de eficiência dos aviões comerciais, responsáveis por uma parcela importante e crescente do consumo mundial de combustíveis, também já se faz sentir.
Tudo isto significa que, a um horizonte de 10 anos, digamos, não é certo que se mantenha a actual tendência de subida do preço do petróleo.
Existe, claro, o problema do aquecimento climático e das emissões de CO2.
Porém, convém ver que, até agora, essa preocupação e as medidas limitadoras associadas resultantes do protocolo de Kyoto deixam de fora os dois maiores poluidores industriais, os EUA e a China, para já não referir que os problemas da desflorestação e do mau uso dos terrenos agrícolas, responsáveis por de 1/3 a metade das emissões e na sua maioria da responsabilidade de países não-industrializados, nem sequer começou a ser encarado pró-activamente.
Ora no fim deste ano ocorrerá a cimeira de Copenhague, e pela primeira vez existe um empenho activo dos EUA nessas negociações e, com maiores reservas geo-políticas, da China. Se houver um acordo que englobe esses dois gigantes, o panorama mundial relativo às emissões de gases de efeito de estufa poderá modificar-se radicalmente, reforçando o empenho mundial na redução da dependência do petróleo (de que a China tem pouco, no seu sub-solo).
Tudo isto para dizer que não se justifica uma pressa excessiva no abandono do petróleo e dos combustíveis fósseis, e que há tempo para delinear estratégias sustentáveis a 10 ou 20 anos, esperando para ver o que vão decidir os EUA e a China.

Entretanto, Costa e Silva reconheceu o que toda a gente sabe: que as petrolíferas nacionais acompanham a subida internacional dos preços do petróleo ao momento, mas para a descida esperam umas semanas...
E disse outra coisa que também toda a gente sabe: que a Entidade Reguladora de Manuel Sebastião é mais uma Reguladora da "falta de concorrência" do que da Concorrência, em matéria de combustíveis.
Ora, é bem sabido que o actual Governo deu cabo das Entidades Reguladoras, enquanto entidades independentes para a defesa dos consumidores. Transformou-as em Direcções-Gerais do Estado. E, curiosamente, se o Governo fecha os olhos à especulação existente sobre o preço dos combustíveis, já relativamente ao preço da electricidade e ao défice que o antigo Regulador Vasconcelos queria repercutir nos preços desta, foi intransigente.
Temos que é muito claro que o Governo tem uma estratégia de encorajamento de subida do preço dos combustíveis, e de congelamento do preço da electricidade. E também é claro que isto alimenta uma retórica de aposta nas "renováveis" que, espremida de tudo o que são meras palavras ou fantasias, se traduz apenas numa única aposta: a da energia eólica.
Energia eólica cuja potência de ponta ultrapassará em breve o consumo nacional a certas horas de vazio, como já expliquei aqui, e por causa da qual parte das 8 novas hidroeléctricas a construir vai ter capacidade de bombagem, um custo extra que se deve atribuir ainda às eólicas, porque é a intermitência e irregularidade destas que requer essa capacidade às hídricas.
A quantidade de turbinas eólicas instaladas e em instalação levar-nos-á aos píncaros no uso da mesma, o que é extraordinário tendo em conta que não incorporam qualquer know-how nacional, quase nenhuma construção nacional, e muito poucos empregos no país!
E, como entretanto o Governo se deu conta de que não pode invocar a aposta nas eólicas como medida contra a dependência do petróleo importado, inventou a aposta na fantasia do carro eléctrico para ligar uma coisa à outra!

Dizia o Expresso da semana passada que a subsidiação das eólicas custava ao país perto de 500 milhões de € por ano. 50 € anuais por residente. E está-se a subsidiar o quê? Essencialmente as indústrias de turbinas alemã e espanhola!

E, claro, alguns negociantes nacionais de concessões e de "pontos de injecção" de energia!
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Um distinto engenheiro conhecedor do assunto enviou o seguinte comentário:

A factura agora divulgada (447 M€) corresponde às contas da ERSE feitas em 2008 para as tarifas de 2009 e são relativas a toda a produção em regime especial e não apenas às eólicas. Só que estas contas têm um problema: já estão muito desactualizadas! A ERSE estimou para 2009 o custo do MWh de referência (no mercado diário e intradiário OMIE) em 70 €/MWh, mas na verdade o seu preço médio real até 31 de Julho foi de 39 €/MWh, e não dá indicações de subida (pode ver os preços no mercado a prazo OMIP).
Daqui resulta que, o que podia ser uma boa notícia para os particulares e para as empresas, na realidade não o é, bem pelo contrário. Os 447 M€ passam para o dobro, como passo a explicar: a diferença do preço médio das renováveis (101 €/MWh) face ao mercado não é de 31 €/MWh (101-70 = 31), mas sim de 62 €/MWh (101-39 = 62). A ERSE vai ter que corrigir estas contas, e não é difícil de calcular uma boa aproximação ao custo final das renováveis: só no ano de 2009, serão 14.540 MWh (produção estimada dos PRE, o real pode até ser superior) x 62 €/MWh, e o verdadeiro número será muito aproximadamente 900 M€, e não os 447 M€ anunciados na imprensa.
Mas se juntarmos a este valor o investimento obrigatório da REN e da EDP para a ligação das renováveis, o valor é ainda superior, muito perto dos 1.000 M€.
E isto a pagar num único ano, veja agora quando tivermos que pagar o resultado do visionarismo em voga!

O carro a hidrogénio, ainda se lembram?

Até há muito pouco tempo, pouca gente ainda falava no carro eléctrico, e a grande visão do futuro era o carro a hidrogénio.
O Presidente Bush destinou 1.2 biliões de dólares em 2003 para esse projecto e houve até quem começasse a fantasiar sobre uma futura "economia do hidrogénio". Esta "grande visão" caiu de chofre no caixote do lixo da História quando o actual Secretário de Estado da Energia da Administração Obama e prémio Nobel, Chu, sugeriu ao Congresso uma redução em 100 milhões da quantia atribuída por Bush, argumentando que não seria nos próximos 20 anos que o carro a hidrogénio poderia ser produzido em massa.
Há quem pensasse que o hidrogénio, sendo o elemento mais abundante no Universo, deveria ser muito barato - uma ideia que muitos têm também quanto à àgua da hidroelectricidade e ao vento da energia eólica, esquecendo que na natureza tudo é à partida de borla (incluindo o petróleo que existe gratuitamente no sub-solo) mas que o problema é transformar isso em algo utilizável. Ora na verdade o hidrogénio que nos é acessível (excluindo, portanto, o que existe em estado livre mas... no espaço sideral) tem de ser extraído dos compostos onde ele realmente existe. E isso requer energia, e essa energia tem de provir de alguma outra fonte.
Por isso, e ao contrário do que muitos pensam, o hidrogénio não seria a fonte de energia, mas sim apenas um meio de a transportar. A fonte de energia seria a que extrairia o hidrogénio dos compostos onde ele existe (nomeadamente a água), energia essa que o hidrogénio devolveria de novo ao ser combustido nos motores do tal futuro carro.
E, para extrair o hidrogénio da água nas quantidades necessárias para alimentar as frotas de transporte mundiais, seriam sempre precisas fontes de energia colossais que, no actual estado da tecnologia, só poderiam ser centrais nucleares.
Ora convém notar que, enquanto forma de transporte de energia, o hidrogénio tem um concorrente experimentado: a electricidade!
Na verdade, tal como o hidrogénio, a energia eléctrica que usamos também não passa de uma forma de transporte de energia. A electricidade e as redes eléctricas que a sustentam são apenas, de facto, formas de transportar a energia gerada por outros meios (queima de carvão, queda de água em barragens, vento, cisão dos núcleos atómicos do Urânio-235) até aos locais e aparelhos onde a consumimos. A facilidade de transformação e o baixo custo relativo do transporte da electricidade são, precisamente, as razões por que se usa esta forma de energia como intermediária entre as fontes primárias de energia não-eléctrica das centrais e o seu consumo.
Ora nesta competição com a electricidade, o hidrogénio tem uma enorme desvantagem: ocupa volume. E muito volume, se se estiver a pensar na quantidade necessária para equivaler, por exemplo, à energia existente num depósito de gasolina de um carro. E esse problema não se vê como ultrapassar (claro que se pode comprimir o hidrogénio, claro que se pode pensar em incluí-lo em certos compostos, mas todas estas ideias têm problemas colaterais que se não sabe como ultrapassar).
A desistência da ideia do carro a hidrogénio deveria fazer pensar os decisores que estão agora a apostar noutra ideia cheia de problemas por resolver, a do carro eléctrico. Mas parece que a memória tecnológica desses decisores políticos e dos media é curta...

Sábado, Agosto 22, 2009

Notas da América: a promoção à troca de carros

Está aceso o debate nos EUA sobre o "cash-for-clunkers", a medida da Administração Obama pela qual são dados 3500 a 4500 dólares por carros velhos poluidores em troca de novos mais eficientes. O valor para cada comprador depende da eficiência dos carros comprados, em termos de consumo e CO2 emitido, e só se aplica se o carro a trocar for pior que um certo limite nestes critérios. O Congresso aprovou primeiro 1 e depois 3 biliões de dólares para esta medida, prevista para durar 4 meses, mas o fundo esgotou-se em 3 semanas, devido ao enorme sucesso que teve. A medida visa também ajudar a indústria automóvel americana em crise, embora na verdade tenha aumentado ainda mais a quota de mercado dos carros japoneses, sabidamente mais eficientes. O debate divide republicanos e democratas, com os republicanos a acharem que é dinheiro mal gasto e os ecologistas a acusarem a medida de ser insuficientmente green.

Para ter uma melhor ideia da medida, convém começar por notar que nos EUA os carros são muito baratos, porque não existe o "Imposto sobre veículos" que nós temos. Um Honda Civic, por exemplo, custa aproximadamente tantos dólares lá como euros em Portugal, mas o dólar vale 0,7 euros. Por isso, a quantia em jogo em cada carro é muito apreciável.

Ora vale a pena comparar esta medida com a bonificação acrescida na compra de carros que o actual Governo propôs e o Parlamento aprovou recentemente em Portugal. Esta bonificação consiste num desconto de 1250 € para carros com 10 ou mais anos, que sobe para 1500 € se o carro a trocar tiver mais de 15 anos, no Imposto Sobre Veículos (ISV) do carro novo.

Em primeiro lugar, como não consumimos automóveis produzidos em Portugal, economicamente esta medida só pode incrementar o comércio importador dos mesmos e beneficiar alguns comerciantes, mas à custa do défice externo.

Porém, importa notar que a referida bonificação tem a forma de um desconto sobre o ISV, e que a fórmula deste é tal que beneficia (correctamente) os automóveis menos poluentes e mais eficientes. Significa isto que, na realidade, a medida tem pouca aplicação prática para os carros mais baratos e/ou eficientes, e que promove é a aquisição de veículos gastadores e poluidores. Um exemplo demonstra isto.
Supunhamos que se pretende adquirir um Honda híbrido Insight, que custa cerca de 20 mil €: o seu ISV é de 857 €, pelo que de facto esse é o desconto máximo que se poderá ter na sua compra, e não os 1250 ou 1500 € anunciados pelo Governo! Mas conjecturemos que quem tem um carro com 15 anos para trocar é provavelmente pobre e procurará antes um carro de gama baixa, por exemplo um Honda Jazz de 14 mil €: o ISV deste é de 797 €, pelo que é esse de facto o desconto "oferecido" pelo Governo ao referido pobre. Para que ele aproveite melhor a "oferta" do Governo, deverá antes comprar um Mazda 2, carro de preço similar mas que, por ter um motor mais antigo e menos eficiente, paga 1264 € de ISV...
E, continuando a fazer contas, é fácil de ver que para se aproveitar integralmente os 1500 € se terá de trocar o tal "chasso" com 15 anos por um carro novo de gama média, bastante gastador de gasolina e nunca híbrido!
Para quem promove o carro eléctrico como a salvação ecológica do mundo, há aqui uma contradiçãosinha...

Domingo, Agosto 16, 2009

Mais mentiras sobre os empregos verdes em Portugal!

Mais uma vez, os ecotópicos vêm anunciar os imensos empregos verdes que as "renováveis" vão criar. No futuro.
Portugal está já a 2/3 da capacidade total de energia eólica instalável, é um país que por muitas décadas teve nas hidroeléctricas a sua principal fonte de energia eléctrica, mas é no futuro exaltante que aí vem que a renováveis vão criar muitos empregos entre nós!
É sempre algo que vai acontecer no futuro, esta economica empregadora!
E isto é assim para esconder, obviamente, que ATÉ AGORA as renováveis, ou mais exactamente a eólica, apenas criaram em Portugal 1300 empregos ao todo, 800 directos e 500 indirectos! Os quais com grande probabilidade desaparecerão quando o 1/3 que falta estiver instalado, já que as eólicas são quase sempre monitorizadas directamente do estrangeiro, pelos seus fabricantes, por tele-comunicação!
E que, tendo destruído em grande parte a antiga capacidade nacional na engenharia das barragens com a sua substituição pelas integralmente importadas eólicas, agora que a construção destas foi retomada, quase 20 anos depois da última ter sido projectada, 2/3 delas foram doadas a Espanha. Muito em particular à Iberdrola, que nunca escondeu o seu apetite pela posse do sistema hidroelétrico português e que tem agora em Pina Moura a influência que sempre desejou sobre o poder em Portugal! E, naturalmente, a Iberdrola dará é emprego a espanhóis, como nós fariamos no lugar deles!
Um negócio como este que ontem os jornais explicavam, vejam bem: se vocês instalarem "microprodução" de energia em casa, a EDP é obrigada a comprar-vo-la a 0,65 para depois vo-la revender a 0,11! Quem paga a diferença? Para que serve tal política, se não temos em Portugal nenhuma indústria empregadora que faça nada nestas tecnologias?
Na verdade, a economia que as renováveis estão a criar em Portugal é apenas a de uma classe social que um antigo dirigente político designava por "burguesia burocrático-compradora": uma economia que se limita aos negócios da importação e que é suportada pela burocracia do Estado, cujo papel é apenas o de criar os subsídios e as leis que permitem os lucros da importação.
Tudo isto começou com o Prof Oliveira Fernandes, actual dirigente do MIT-Portugal para a Energia, no tempo de Guterres, atingiu o clímax com Castro Guerra, neste Governo, mas também deve muito a Manuel Lencastre do Governo de Durão Barroso!...

Terça-feira, Agosto 04, 2009

Coreia do sul aderiu à salvação do planeta? Sim, mas...

Uma notícia de hoje dá conta que a Coreia do Sul decidiu definir metas de limitação do CO2 emitido para 2020.
A Coreia, que emitia em 2005 11,1 toneladas de CO2 per capita (mais 25% que nós), duplicou as suas emissões nos 15 anos anteriores, sinal do excelente desenvolvimento económico que teve. Notável, para um país que há 55 anos tinha o mesmo rendimento per capita do Gabão!
Segundo a notícia, "O Governo estima que esta meta custará entre 0,3 e 0,5 por cento do PIB e conta reduzir as emissões ao promover os carros híbridos, as renováveis, o nuclear e a eficiência energética."
Alguns ecologistas utópicos pensarão, talvez, que a Coreia assim se sacrifará, gastando uma % do PIB, em prol da salvação do planeta.
Mas há algo que falta à notícia para se ter um quadro mais completo desta aposta coreana.
É que a Coreia do Sul tem em construção, até essa data, 12 centrais nucleares de projecto sul-coreano, e é mesmo hoje em dia um dos únicos 4 países (juntamente com a Rússia, a China e o Japão) capazes de forjarem as gigantescas caldeiras de alta pressão das centrais nucleares com mais de 1 GW!...
Ora sabendo-se como o grande problema económico da energia nuclear é a incerteza quando às taxas de juro e ao preço futuro da energia, este anúncio do Governo sul-coreano é um compromisso de estabilidade para a sua indústria nuclear, sem dúvida uma inteligente opção estratégica na antevisão de que vai haver muita procura internacional para o nuclear e que há agora já poucos que as saibam fazer.
Não nos devemos por isso admirar muito se, um dia destes, além de importarmos Hiunday híbridos, também lhes comprarmos uma centralsita nuclear...

Segunda-feira, Agosto 03, 2009

Gestão da procura, "smart grids" e quem paga a factura

Muito a propósito do momento eufórico que vivemos, cheio de propaganda ao futuro radioso só com energias renováveis e "redes eléctricas espertinhas" (smart grids) que adaptem o consumo à produção, acaba de chegar aos nossos media uma notícia que já andou pelo New York Times e que mobilizou as hostes ecotópicas contra a "conspiração do grande capital monopolista". Concretamente, contra a EDF, a EDP francesa.
Comentei a notícia no Público on-line e a jornalista, a Senhora D. Lurdes Ferreira, uma esfusiante entusiasta da ecotopia, corrigiu-a e bem, aqui e aqui. Mas com novos erros, que também já lá comentei e que vou discutir convosco no seguimento.

Em França, uma empresa resolveu oferecer uma caixinha que desliga os consumos nas horas de ponta ou, mais exactamente, quando as tarifas estão caras por carência de produção disponível na rede. É exactamente este tipo de serviços que os "contadores espertinhos", ou smart meters, nos irão oferecer (ou impôr?) quando os ecotópicos tiverem reduzido toda a produção de energia a fontes renováveis e, em vez de haver produção que se adapte às nossas necessidades de consumo como hoje em dia, passarmos a ser nós que teremos de adaptar o nosso consumo às vicissitudes do estado do tempo.
Do ponto de vista do consumidor e neste momento, em França, que fazem de facto essas caixinhas? Desligam consumos como o ar condicionado (de longe o principal consumidor numa casa ou escritório, quando está ligado). Obviamente, isto significa que o ar ambiente vai aquecer, e é precisamente por não querermos isso que instalámos e ligámos o ar condicionado!
Se não quisermos gastar a energia do ar condicionado, o melhor é termos ventoinhas ou tirar as gravatas, como já aqui aconselhei. Mas se o quisermos, uma alternativa menos má será aceitar a referida desligação do ar condicionado apenas por uns minutos, digamos meia hora. E depois voltar a ligá-lo. Porquê?
Porque os interiores de edifícios têm uma inércia térmica considerável. Uma vez desligada a climatização, a temperatura evolui devagar, e ao fim de meia hora apenas terá subido alguns graus, o que pode ser suportável se durar pouco tempo. Mas depois, quando se voltar a ligar o ar condicionado, o termostato de regulação vai levar o aparelho, que normalmente trabalha por curtos períodos e depois se desliga por alguns minutos, a trabalhar ininterruptamente até repôr a temperatura no valor regulado inicialmente. Pode também fazer-se o inverso pouco antes de chegar a hora de ponta: arrefecer um pouco demais o ambiente, para depois se poder aguentar o aparelho desligado uma meia hora no início dessa hora de ponta.
Obviamente, a energia que se poupou durante a meia hora de desligação é inteiramente dissipada de novo durante o arrefecimento posterior (ou anterior) do equipamento. Nenhuma energia se poupa, no total. Então, onde está o negócio?
O negócio existe se o consumidor tiver uma tarifa bi-horária (no futuro ecotópico, a tarifa estará permanentemente a variar, sendo comunicada pela net aos tais "contadores espertinhos"). O negócio consiste em desligar o consumo à horas da tarifa mais cara, que são as horas de ponta, para o voltar a ligar quando a tarifa tiver mudado para mais barata, por terem passado as hora de ponta - ou antes desta, também.
Ora, porque é a tarifa mais cara nas horas de ponta?
Porque, para a satisfazer, a rede tem que ter centrais só para produzir energia nessas horas de ponta, e isso é um investimento pouco rentável para todos, razão porque é a própria dona da rede que desincentiva esse consumo encarecendo a tarifa nessas horas.
A principal vantagem das grandes redes interligadas é, aliás, precisamente a poupança de centrais de ponta, porque numa grande rede, como a europeia toda, quando o consumo atinge a ponta aqui não o está a atingir na Áustria, e vice-versa. Nos EUA o mesmo sucede entre as costas Leste e Oeste, que é onde reside a maioria da população e dos consumos.

Presentemente e no caso da França, as centrais de base, que trabalham permanentemente ao mesmo ritmo (a potência constante) são as nucleares. Por cá, são as a carvão. As centrais de ponta, capazes de variar facilmente a sua produção em função da procura, são essencialmente as hidroeléctricas, e em menor grau as de ciclo combinado a gás natural. As eólicas são quase totalmente imprevisíveis e, por isso, têm de ter outras hídricas e, sobretudo, a gás, permanentemente prontas só para lhes fazer reserva, caso falhe o vento. Portanto, reduzir as pontas de consumo deslocando-a para as horas de vazio não só não reduz energia nenhuma, no total, como aumenta a porção desta que vem das centrais nucleares e a carvão, em prejuízo da das renováveis hidroeléctricas!
Acontece que por cá, em Portugal, os fornecedores da energia são pagos pela encomenda, ou seja, mesmo que não cheguem a vender a energia das horas de ponta para as quais fizeram as centrais, recebem à mesma! Adivinhem quem paga? Não, não são só vocês! É também o défice, essa invenção maravilhosa que permite gastar sem ter com que pagar...! :-)
Mas em França não é assim, e os donos das centrais de ponta só recebem mesmo se venderem. Ora terem feito uma hidroeléctrica para satisfazer as pontas, e depois não haver consumo para ela por que não houve ponta, e não haver o mecanismo português de receber quer se venda quer não, é natural que tenha indisposto a EDF e que a ERSE lá do sítio lhe tenha dado razão!

Entretanto, e esta é a questão mais interessante, se este sistema em França efectivamente não reduz nenhum consumo de energia e até aumenta a porção proveniente das centrais nucleares em prejuízo das hidroeléctricas, porque se movimentam com tanta virulência os ecotópicos contra esta decisão da ERSE francesa?
Por uma questão de princípio que nada tem a ver com o actual sistema francês! Porque de facto eles querem poder controlar-nos o consumo de energia, pela verdadeira razão de quererem que o sistema produtor seja integralmente composto de fontes renováveis e, como tal, dependentes do estado do tempo, de se é dia ou noite, de se choveu ou não!!!
Só que, quando tudo provier de fontes renováveis, não haverá horas de ponta nem de vazio - tudo será altamente variável e imprevisível. E portanto, os tais mecanismos que se baseiam na antecipação das horas das tarifas serão em geral incapazes de "gerir a procura", e o que vai acontecer é que teremos mesmo de pagar as altas tarifas de quando não há vento, é noite e os rios estão secos. Isto se formos ricos, senão teremos de passar sem a electricidade.
Como já expliquei aqui!

Fogos de Verão e lixo: da limpeza como alternativa ao carro eléctrico

Como já referi aqui, a desflorestação e o mau uso dos terrenos agrícolas e de pastagens são responsáveis, à escala mundial, por entre 1/3 e metade da emissão de gases de efeito de estufa (GEE). O lixo, por outro lado, é responsável por cerca de 3%, segundo o Painel Inter-governamental para as Alterações Climáticas (IPCC) da ONU.

No que respeita à desflorestação e ao uso agrícola da terra, o problema está quase todo no 3º Mundo o que, obviamente, o torna num problema político difícil, considerando os complexos de culpa ex-coloniais do 1º Mundo e a política "correcta" das boas consciências que acham que a culpa de tudo é nossa, os ocidentais.

Provavelmente quando se lê "desflorestação" pensa-se nos fogos da Amazónia. Mas a desflorestação no hemisfério Sul é muito mais que isso.

Nasci e cresci em África, a 1200 km do mar, na savana, e havia uma coisa que me maravilhava nas noites estreladas do cacimbo: o céu vermelho das queimadas no horizonte e o esplendor do fogo na savana. O fogo era tão belo que ainda hoje tenho na sala um quadro enorme a óleo de uma queimada nocturna africana, herança de família, pintado há quase 50 anos!

Depois, às vezes de dia, chuvia cinza durante horas, e era preciso refugiarmo-nos nas casas para não ficarmos todos enfarruscados. A administração colonial não gostava muito destas práticas, mas tolerava-as enquanto tradição indígena e deixava fazê-las umas quantas vezes por ano.

As queimadas eram a forma dos tchokwes caçarem. Faziam uma larga meia-lua de chamas na savana e os homens postavam-se na boca do fogo a apanharem toda a bicharada que fugia espavorida. Claro que era um método bárbaro: as queimadas matavam tudo o que não conseguia fugir, crias e rebentos de vegetação e, quando ainda eram a única forma de vida, passado algum tempo as tribos tinham que se deslocar para novas savanas ainda vivas, e eventualmente disputá-las pela força. Depois os colonos limitaram as queimadas e os tchokwes sedentarizaram-se, aprendendo a plantar a mandioca que os portugueses trouxeram do Brasil e que lá chegou com os caçadores de escravos do litoral, ainda antes da chegada dos colonos.
Ora com a descolonização e as guerras civis subsequentes, é claro que as queimadas voltaram em força. A diferença é que a morte da caça agora é feita com kalashnikovs, e já não com canhangulos de carregar pela boca e zagaias.

Outra diferença essencial é que agora sabe-se quão nociva é a prática das queimadas para o aquecimento global. Não é só o CO2 emitido durante a combustão da vegetação; é também a morte desta e o fim da função clorofila por uns tempos largos, após o fogo.

Ora em Portugal os fogos florestais de Verão têm o mesmo efeito. Qual a sua contribuição para o total de GEE emitidos, não está quantificado. Aparentemente isso interessa muito menos os ambientalistas do Estado do que os negócios dos terrenos e das concessões para as eólicas, visto que todos os estudos existentes e consultáveis sobre a emissão de GEE em Portugal bem como sobre as medidas para a sua mitigação reconhecem que lhes falta esse dado, mas não parecem preocupar-se com isso.
No entanto, já mencionei um estudo rigoroso que calculou, para 2003, o valor emitido pelos fogos florestais e que terá acrescido 9% às cerca de 85 Megaton de CO2 equivalente reconhecidamente geradas no país.

2003 foi um ano mau em fogos (400 mil hectares), mas a àrea ardida tem vindo regularmente a crescer, com máximos cada 5 anos, a uma média anual de 120 mil ha. Isto corresponde, portanto, a pelo menos 3% do total de GEE emitidos em Portugal, cerca de 1/7 do valor gerado pela totalidade do parque automóvel em circulação.

Os fogos florestais em Portugal resultam sobretudo da falta de limpeza das florestas, além da sua má ordenação. Não há incentivos para a limpeza da vegetação seca e morta que junca o solo das florestas, a biomassa, e que é o grande propagador do fogo.
Tem, por isso, muito interesse ambiental a ideia de promover a queima dessa biomassa para a produção de energia eléctrica (e de calor, na forma de cogeração). E foi, portanto e em princípio, louvável a iniciativa do Governo de pôr a concurso a construção de 15 centrais eléctricas a biomassa em 2006, totalizando uma potência de 100 MW. Não tanto pela pouca energia eléctrica a obter com isso, mas por criar um incentivo económico aos madeireiros e às empresas de celulose para apanharem também a biomassa dos eucaliptais, além da madeira. Nas centrais de biomassa, algumas poucas centenas de MW de potência eléctrica podem significar a redução de 2 a 3% de GEE emitidos, pelo efeito indirecto que elas têm na limpeza da floresta e, portanto, na prevenção dos fogos. Claro que a queima em si da biomassa nas centrais também produz CO2, mas muito menos que os incêndios florestais!

Porém, a ideia estava tecnicamente mal fundamentada, como infelizmente é habitual, e por isso falhou. Das 15 centrais a concurso, uma única está em construção, e das restantes a maioria nem sequer teve concorrentes. Em Abril passado, Marques Mendes indignou-se com a situação, mas ninguém lhe ligou. Provavelmente tinha razão quando disse: "O Governo nem quer saber disso, dá pouco nas vistas". E porque é que ninguém se interessou pelo "oportunidade" oferecida pelo Governo?
Porque o subsídio às tarifas era demasiado baixo e as centrais demasiado grandes. Porque para produzir alguns MW numa central de biomassa são precisas imensas àreas de floresta e muitas toneladas de biomassa, porque o poder energético desta é muito baixo. E portanto, as tarifas têm de ser pensadas para pagarem a apanha e transporte da biomassa. Mas não foram! Em Espanha paga-se 159 €/MWh pela energia assim produzida, quando em Portugal se oferecem apenas 108 €. Podem acusar-me de estar a defender maior subsidiação, quando tenho vindo a criticar os subsídios; mas neste caso é para poucos MWh, uma ínfima fracção da energia de origem eólica, e os benefícios indirectos são enormes! Não se trata apenas de evitar fogos e a emissão de GEE; a apanha da biomassa dá emprego, enquanto a do vento, não! Sem falar nos prejuízos evitados pelos incêndios que deixam de haver...!

Mais grave ainda do que passa com o desleixo em matéria de fogos florestais, é o desleixo em matéria de tratamento dos lixos. Toda a gente que viaja sabe que Portugal é um país sujo. Todos os turistas que nos visitam o afirmam, também. E por isso não admira que em Portugal o lixo seja responsável pelo espantoso valor de 8,5% dos GEE, sobretudo por causa do metano, que é 20 vezes mais nocivo que o CO2. Trata-se de um valor típico de países do 3º Mundo onde, mais uma vez, se encontra o principal crescimento desta forma de poluição atmosférica - sobretudo por via dos aterros.

O IPCC considera sensatamente que a melhor forma de reduzir a contribuição do lixo para os GEE é a reciclagem, que é também uma actividade economicamente rentável e geradora de empregos.

Porém, e no que respeita ao problema maior dos aterros e do metano que emitem, a co-incineração do lixo reduz a massa a enterrar deste para 1/4 e a àrea dos aterros para 1/10, reduzindo na mesma proporção os GEE emitidos. Embora emita CO2, a incineração queima o metano, que é muito pior que o CO2, e pode também ser utilizada para a produção de energia eléctrica, tal como a biomassa das florestas.

Em Portugal os ecologistas utópicos têm movido uma oposição encarniçada à co-incineração, sendo de reconhecer a correcta tendência do Governo nesta matéria. Porém, o progresso tem sido lento, e deve fazer parte de uma estratégia multi-facetada que contemple a reciclagem e o devido esclarecimento público.

Os relatórios do IPCC mostram que uma política de tratamento dos lixos correcta com a devida implantação da co-incineração, como é feita por exemplo na Alemanha e no Japão, pode reduzir muitissimo os GEE emitidos. A directiva europeia 1999/31/EC estipulou que até 2016 os Estados membros deverão reduzir em 2/3 (relativamente a 1995) o lixo orgânico aterrado. Não conheço medidas do Governo que tenham em conta tal objectivo.

Porém, a redução em 2/3 dos GEE emitidos em Portugal pelo lixo corresponderá à redução em 6% do total de GEE emitidos, o equivalente a 2/7 dos GEE emitidos pelo parque automóvel.

Pelo que, a simples limpeza do país (das florestas e do restante lixo ) poderá reduzir os gases de efeito de estufa emitidos em Portugal em quase metade do que emite todo o parque automóvel. De certeza que é muito mais sensato e produtivo limpar o país do que delirar com a rápida substituição do nosso parque automóvel por viaturas eléctricas!

Sábado, Agosto 01, 2009

Incêndios de Verão, lixeiras e carros eléctricos.

Como já mencionei aqui, a percentagem de gases causadores de "efeito de estuda" que são emitidos pelos fogos florestais e pela agricultura "descarbonizante" é responsável por entre 1/3 a metade do total de gases emitidos pela Humanidade, segundo o IPPC (Painel Climático Inter-governamental). A dúvida sobre o valor exacto resulta da dificuldade que ainda existe na contabilização desse efeito, que tem uma margem de erro de 50%.
A maioria destes agentes das alterações climáticas provêem do 3º Mundo mas, em Portugal, os especialistas em ambiente estimam em de 10 a 30% a sua parcela - 20% sendo o valor mais provável.
A parcela destas emissões que é proveniente dos incêndios de Verão é algo que está mal estudado em Portugal, e algumas estranhas manipulações de dados não contribuem para a credibilidade das estimativas existentes. No entanto, e conforme os anos, alguns estudos pontuais sérios mostram que estes incêndios contribuem com de 5 a 10% para o total.

Ora os automóveis contribuiem, em Portugal, com cerca de 20% da emissão de gases.

Pelo que resolver o problema dos incêndios de Verão em Portugal seria equivalente, em termos de CO2 não-emitido, a substituir quase metade de toda a frota automóvel actual por carros eléctricos...

Se, além disso, se acabasse com as lixeiras portuguesas e o metano que emitem (20 vezes mais forte que o CO2 a gerar efeito de estufa), e que são responsáveis por mais 8,5% das emissões nacionais, ter-se-ia o equivalente à substituição da outra metade da frota automóvel por carros eléctricos!
Nota: os valores numéricos aqui indicados foram afinados num post subsequente, depois de ter consultado mais dados. A conclusão dessa afinação é que, em média, o tratamento do lixo e a prevenção dos fogos florestais não equivaleria à eliminação da totalidade das emissões do parque automóvel existente, mas apenas a cerca de metade. Mesmo assim...

Contra o pós-modernismo energético: II - esclarecimento de posições

Para que não me interpretem mal e não pensem que tenho interesse em fazer propaganda partidária, esclareço que embora o actual Governo seja o responsável pelas actuais opções, ainda não vi ninguém da oposição levantar a mais pequena voz contra a actual política energética nem a política tecnológica do Governo, com a excepção solitária e incansável de Mira Amaral que, no entanto e tanto quanto sei, também já não representa nenhuma posição partidária. Aliás e como já referi, aparentemente toda a classe política vê com benevolência o ecologismo utópico dominante!...
Penso ser também oportuno recordar que não ponho em causa a relação entre emissão de CO2 e alterações climáticas, nem a competitividade económica, sob certas condições, da energia eléctrica de origem eólica!
Tenciono, aliás, voltar a esse tema (o das condições em que a energia eólica é competitiva), mas o desastre é que a sua proliferação em Portugal foi, e é, altamente subsidiada, sem que se tenha acautelado a prévia aquisição do respectivo know-how e a criação de uma indústria nacional com tecnologia própria (e portanto sustentável) de turbinas, produtora de grande valor acrescentado, de empregos e de exportações, como fizeram todos os outros países que apostaram fortemente nesta fonte de energia! De um ponto de vista do interesse nacional tal subsidiação é um perfeito desastre e uma autêntica anedota perante os outros países, exceptuando alguns ecotópicos que nos vêm como heróis da salvação do planeta enquanto os nossos importadores esfregam as mãos de contentamento!
A questão é simples: que subsidiam os países que apostaram no eólico antes de nós e que imitámos, como a Alemanha, a Dinamarca ou a Espanha? A salvação do planeta? Não! Subsidiam as respectivas indústrias de fabricação de turbinas, que em todos esses países exportam mais de metade da sua produção e que empregam muita gente!!!
Importa sublinhar que a única fonte de energia eléctrica cuja tecnologia em tempos dominámos era a hidroeléctrica, fruto da única vez em que foi formulada e executada uma estratégia nacional correcta em matéria de aprovisionamento de energia!
Porém, quando há 15 anos o "filósofo" Manuel Carrilho do PS se insurgiu no Parlamento contra o "barbarismo" da construção da barragem de Foz Coa, precipitou-se o grande desastre energético nacional. O projecto e construção das barragens, uma coisa que sabíamos fazer e que ocupava efectivamente mão-de-obra e matérias-primas nacionais, foi suspensa e trocada pouco depois pela estratégia eólica, em que a única incorporação nacional é o negócios dos terrenos e das autorizações para a sua construção! E isto quando, se havia tecnologia energética com condições para virmos a dominar pela sua relativa simplicidade, era precisamente a eólica, dado que quanto a centrais térmicas ninguém bom da cabeça pode imaginar que venhamos algum dia a riscar alguma coisa!
Mas como desenvolver tal know-how e respectiva capacidade industrial é coisa para levar de 5 a 10 anos, isso teria exigido visão e capacidade política, coisa de que a nossa classe dirigente parece carecer como se fosse africana (sem ofensa para os africanos, entre os quais aliás me incluo)!
Ora, entretanto e nestes 15 anos, a engenharia nacional de barragens, que já em 95 se ressentia de haver poucos projectos, praticamente desapareceu! Os especialistas reformaram-se ou mudaram de ramo (vi com os meus olhos isso a acontecer numa das empreas especialistas) e muita da indústria nacional de componentes foi abandonada: na mesma altura em 94 em que Carrilho atacava Foz Coa, ainda antes de Guterres ganhar as eleições, a Sorefame que fabricava as comportas das hidroeléctricas era comprada pela ABB, por exemplo.
As barragens têm ainda um outro enorme valor: o de constituirem reservas de água, uma provisão que há-de ser cada vez mais imprescindível à medida que a água se tornar o recurso do planeta mais disputado como algumas secas que temos tido em anos recentes já nos permitem antever.
Só agora é que o actual Governo, de repente, decidiu a construção de dez barragens, mas 2 delas ninguém as quiz e 2/3 das restantes deu-as aos espanhóis, em particular à Iberdrola de Pina Moura!
Ora se, em vez disto, os Governos pós-95 tivessem decidido fazer as 10 barragens mas há 15 anos e, ao mesmo tempo, tivessem então apostado seriamente na I&D nacional (predominantemente em empresas) em tecnologia eólica, poderíamos estar agora a lançar em força a sua produção com know-how nacional, e a sua subsidiação ajudaria de facto alguma actividade produtiva sustentável! Seria tarde para entrarmos no eólico? Não! Os indianos também apanharam o comboio com a Suzlon, os EUA garantiram atempadamente a tecnologia espiando-a aos alemães, e os chineses para isso se preparam também!...
Mas nós entrámos foi em delírio com o automóvel eléctrico, o solar e outras fantasias congéneres! Até que o dinheiro para os subsídios se acabe e seja preciso começar a pensar em produzir alguma coisa!...

Sexta-feira, Julho 31, 2009

Contra o pós-modernismo energético: I - as ficções da microgeração e da gestão da procura

Duas das visões mais fantásticas que os ecologistas utópicos, ou ecotópicos, pretendem materializar, são a da chamada "microgeração" e a da "gestão da procura".
Segundo esta visão, as redes eléctricas interligadas com controlos centralisados são uma velharia em vias de desaparecimento com o advento das energias renováveis e, com estas, vem a "democratização" da produção para cada consumidor.
A visão apregoada pelos ecotópicos é, porém, ainda mais ousada: no futuro, um futuro já muito próximo, segundo eles, o consumidor de energia será não só também um produtor, como um consumidor adaptável.
Esta visão resulta, por sua vez, de os ecotópicos preverem cheios de felicidade que em breve a garantia actual de termos sempre energia eléctrica à disposição quando ligamos o interruptor irá desaparecer.
Mais exactamente: poderá não desaparecer, mas ficará imensamente cara a certas horas de antemão imprevisíveis, o que será registado pelos "contadores espertinhos" ("smart meters") que nos irão montar nas casas e que ajustarão as tarifas a cada momento em função de haver muita ou pouca energia na rede eléctrica para usarmos, e a que chamam "smart grids". Ou seja, a energia será tão cara a certas horas e dias que os que não puderem pagar terão de passar sem ela. Chamam a isso "gestão da procura".
Porque prevêm os ecotópicos que isso vá suceder, e porque o desejam?
Prevêm-no porque o futuro que eles nos desejam baseia-se no abandono da sociedade industrial que nos trouxe a energia que nos habituámos a usar com todo o conforto, inteiramente substituída por energias renováveis que, como é evidente, dependem das condições ambientais.
Energia eólica só há quando o vento sopra com alguma intensidade; sol só há de dia e com céu limpo; àgua caudalosa nos rios só há se tiver chovido e se os cursos de água não tiverem sido transvasado para fins agrícolas pelos espanhóis; e energia geotérmica só há nos Açores!
Todas as outras fontes de energia, as centrais a carvão barato e até as a gás de ciclo combinado, para já não falar do diabólico nuclear, serão banidas por não serem ecológicas.
Por conseguinte, haverá horas do dia (especialmente à noite) e dias do ano (especialmente no Verão) em que não haverá energia que chegue para todos, e por isso os ecotópicos propõem-nos para então a "democratização" da produção e a "gestão da procura".
Que produção democrática de energia prevêm eles?
A microgeração a gás, com micro-turbinas que, além de também poluirem, têm custos que até os ecotópicos reconhecem só serem acessíveis a empresas e colectividades, a venda da energia armazenada nas baterias dos nossos futuros carros eléctricos e a venda da energia produzida nos painéis solares dos telhados das nossas casas.
Quanto aos carros, já vos falei do que esperam de nós e que já foi afirmado na TV: que deixemos os carros eléctricos em casa a descarregar as baterias para a rede e que vamos de transporte público levar os filhos à escola e para o emprego! Nunca acontecerá tal coisa, evidentemente!
Quanto à energia eléctrica com origem nos painéis solares dos telhados, também não acontecerá nos próximos 10 anos nem provavelmente nos próximos 30, pelos motivos que vos exporei num próximo post! Estou a excluir, claro, pequenas experiências promovidas pela subsidiação estatal, que obviamente seria insustentável se de facto toda a gente aderisse...
Mas, além da prometida "microprodução" de energia que, como é evidente, não vai acontecer, os ecotópicos têm outra proposta "complementar", como já referi: a da "gestão da procura".
Candidamente, dizem-nos que se as tarifas subirem muito por falta de energia na rede, isso nos levará a desviar os consumos para as outras horas e dias em que, pelo contrário, haja excesso. Ou seja, que desligaremos os frigoríficos e o ar condicionado no pino do calor de Verão e os ligaremos no Inverno; que apagaremos as luzes à noite e que as ligaremos de manhã; e que aproveitaremos as férias de Natal para deixar as máquinas de lavar a trabalhar mas que em certos fins de semana nos convirá deixar a louça acumular-se no lavatório...
Obviamente, isto também não vai acontecer!
O que vai acontecer é que nas tais horas em que houver excesso de energia eólica e os rios estiverem cheios e não houver consumo, terão de desligar as turbinas. E, por outro lado, quando houver falta de energia a certas horas e em certos dias, só os ricos a poderão pagar e todos os outros terão de passar sem ela e, com o tempo, voltar a viver como na era pré-industrial. E é com este dinheiro extra ganho nas "horas de ponta de consumo" que compensarão a desligação das turbinas nas outras horas e dias, em que houver produção em excesso.
E é esse futuro feliz, "green", que de facto os ecologistas utópicos nos pretendem impingir como se fosse moderno e progressista!
Andam tão entusiasmados com esta ideologia que começaram o habitual processo de reescrever a História. Na wikipedia, por exemplo e a propósito das smart grids, pode ler-se que as redes eléctricas são como são, centralizadas, por isso resultar da "visão do sec. XX" quando, na verdade, as primeiras redes eléctricas do sec. XIX e inícios do XX é que eram dispersas como as que agora nos pretendem impingir como progresso, e a unificação das redes foi um grande avanço que entre nós até veio já tarde, só na segunda metade do sec. XX!

Terça-feira, Julho 28, 2009

O que impede as empresas de efectivamente investirem no desenvolvimento de produtos transaccionáveis?

Um leitor deste blog fez esta pergunta, cuja resposta valeria, se a soubesse, "one-million dollars"...

Penso que a questão mereceria por si só pelo menos uma tese de doutoramento (em Sociologia) e provavelmente uma ampla linha de Investigação. Mas, nos muitos anos que tenho de andar por cá preocupado com o assunto, resultaram-me algumas peças do puzle que vou mostrar-vos.

Muito resumidamente sintetizaria a resposta que tenho, assim: o que impede as empresas portuguesas de desenvolverem produtos transaccionáveis inovadores é... o peso da História!

Poderia divagar muito para trás, até ao rei D. Manuel e à expulsão dos judeus, ou mesmo mais longe... poderia recordar D. João III e a chegada da Inquisição na precisa altura em que arrancava o Renascimento, poderia recomendar-vos a leitura de "Portugal no antigo regime" de Vitorino Magalhães Godinho, ou de Eça de Queiroz, ou de Ramalho Ortigão... mas não vou tão longe.

Vou só recordar-vos uma coisa, que vi de perto há uns 30 anos.

No tempo de Salazar, não era um qualquer que abria um negócio e o geria a seu bel-prazer.
Para se poder ter um negócio era preciso alvará, e esse só era concedido se o regime tivesse a certeza que não ia provocar uma concorrência desestabilizadora ao que já havia. A Coca-cola, por exemplo, era proibida, para viabilizar a produção de cervejas nacionais...

Uma vez obtido o alvará, estava-se á vontade porque não havia nem concorrência estrangeira (os mercados eram fechados e a Espanha, coisa incrível, só tinha 3% do nosso comércio externo à data da queda do regime), nem reivindicações salariais (proibidas, bem como os Sindicatos), nem coisas técnicas por definir - os grémios regulamentavam tudo, do tamanho dos parafusos à composição das farinhas!
Como é que neste contexto se geria um negócio?

Bem, organizava-se a produção e os aprovisionamentos de matéria-prima, somavam-se os custos, adicionava-se a margem de lucro limitada por lei a 10%, e com tudo somado obtinha-se o preço de venda. E depois era só distribuir a mercadoria, porque como não havia concorrência a venda estava garantida, qualquer que fosse o preço, embora naturalmente para um mercado pequenino porque éramos muito pobres.

Mesmo que se quisesse ceder aos trabalhadores aumentando-lhes ordenados, o regime não deixava. Nas grandes greves dos anos 40 houve patrões que quiseram contemporizar com os grevistas mas o regime obrigou-os a despedi-los, e não a aumentá-los! O regime achava que isso seria um precedente que podia desencadear uma reacção em cadeia descontrolada e, se havia coisa de que o regime não gostava, era de coisas que não controlasse!

Tecnologia, também, não era preciso tê-la. Comprava-se no estrangeiro, se fosse precisa, ou com uma parceria, como nas coisas grandes, mas em geral evitando coisas que precisassem de tecnologia. A EFACEC, por exemplo, a nossa grande e única fabricante de equipamentos de energia eléctrica, foi criada a partir de uma oficina de rebobinagem de motores (que é apenas o que há nos países atrasados, como por exemplo em Angola hoje em dia) e da ACEC belga, que tinha a tecnologia, aliás por sua vez dependente da Westinghouse americana. Isto em 1948! No mesmo ano foi deixado que a Siemens se instalasse em Portugal, para haver alguma concorrência, e porque Ferreira Dias queria electrificar o país - mas essa Siemens, a grande gigante mundial a par da GE americana, fora criada na Alemanha cem anos antes, em 1848, e ao contrário da EFACEC foi criada com tecnologia própria, a partir de uma invenção do próprio Siemens, uma máquina que transformava em letras impressas o código morse do telégrafo, ou seja, que fazia telegramas!

Vejam agora o que aconteceu quando, só em 1985, Portugal aderiu ao Mercado Comum europeu e foi forçado a abrir as portas à concorrência - 10 anos depois do 25 de Abril.

Agora já não é possível começar pela produção, somar os custos e o lucro legal e assim chegar ao preço que tiver de ser. Agora as coisas passaram a ser ao contrário! Agora para criar um negócio tem de se começar pelo preço-alvo, porque este é imposto pela concorrência e se o nosso for mais caro não se vende, e depois andar para trás, até chegar a custos de produção que permitam aquele preço ou menos e ainda ter lucro - sem o que não há reinvestimento e o negócio não é sustentável!

Ou se têm ordenados muito baixos, mas agora há liberdade sindical e de emigração, ou se consegue organizar a produção melhor que a concorrência, mas ela já o sabe fazer há muito, ou se têm produtos melhores que os dela.
Mas para isto é preciso conceber esses produtos diferentes, e para tal é preciso estar de olhos postos nesse mercado mundial onde se move a concorrência há muito. E isso nunca se tinha aprendido a fazer! E entretanto a tal concorrência leva mais de cem anos de avanço em saber fazê-lo!...

A maioria dos empresários da grande indústria, pura e simplesmente desistiu. A maioria das coisas que se fabricavam com tecnologia estrangeira licenciada só fazia sentido para o mercado nacional. Nos mercados de fora quem nos dera as licenças de tecnologia tinha-as também dado a outros nesses mercados, ou eles próprios os exploravam, e não se podia ir simplesmente competir lá fora com empresas que tinham as mesmas licenças tecnológicas. E por outro lado agora o nosso mercado estava aberto à concorrência de produtos com outras tecnologias que não dominávamos. Por isso muitos desistiram e venderam as fábricas ao estrangeiro logo que puderam.

Mas houve quem resistisse.
Na EFACEC, por exemplo, onde sempre se tentara perceber como eram feitos os equipamentos fabricados sob licença estrangeira, delineou-se uma estratégia. Começar uma nova área de negócios, na electrónica de energia, que complementasse os produtos tradicionais e explorasse os seus mercados, até porque nessa nova área de negócios não se dependia de licenças estrangeiras. E ancorar os novos produtos nos antigos, comercialmente, e tentar manter alguns destes com know-how próprio. E assim foi. Graças a um único homem invulgar que por lá havia e que depois criou uma escola de atitudes e auto-confiança, o Eng.º Renato Morgado!
A história destes 25 anos passados desde aí não tem sido das mais animadoras. A EFACEC já deixou de fabricar muita coisa, por não conseguir aguentar a concorrência internacional. Tem também sido lenta a aprender a mexer-se nos mercados internacionais. Mas ainda aí está, e é do melhor que temos!
Como poderia ser de outra forma?
Quem souber, ganha one-million dollars!... :-)

Contra o pós-modernismo energético: Manifesto anti-ecotópico

Uma corrente ideológica domina hoje em Portugal as estratégicas opções energéticas do país: o ecologismo utópico, ou ecotopia!

A ecotopia fantasia um futuro romântico que combina a vida frugal e saudável com a magia tecnológica.
A ecotopia visiona um quotidiano bucólico, cheio de pastos verdes com ovelhinhas "biológicas" e painéis fotovoltaicos nos telhados das casas rurais, acolhedoras e floridas.
A ecotopia imagina multidões a deslocarem-se calmamente de bicicleta pelas ruas das cidades coloridas a caminho dos escritórios.
A ecotopia devaneia com as paredes das suas futuras casas rurais decoradas com gravuras de torres eólicas em horizontes verdes, muito verdes e soalheiros.
Na ecotopia, não haverá engarrafamentos de automóveis, porque a magia tecnológica e a reformatação do homem novo terão abolido a necessidade de deslocações de automóvel.
Na ecotopia não haverá doenças, porque "a vida saudável" eliminará a poluição, os pesticidas e os adubos que as causam.
A ecotopia tem uma utopia: um mundo ecológico. Verde. Muito verde e feliz.

Os ecotópicos querem-nos cobrir os telhados das casas com painéis solares, mesmo que a electricidade daí resultante seja 10 vezes mais cara que a que actualmente pagamos e os painéis deixem de funcionar ao fim de 3 anos.
Para os ecotópicos só haverá energias renováveis: sol, vento e água.
Os ecotópicos querem-nos fazer comprar carros eléctricos para depois os deixarmos em casa a carregar e a descarregar as baterias para estabilizar a energia eléctrica que só haverá quando houver sol, ou vento, ou água nos rios.
Os ecotópicos depois vendem-nos as baterias desses carros eléctricos que teremos de mudar de 3 em 3 anos, mas retomam as baterias velhas para reciclar.
Os ecotópicos vão proibir a circulação de carros nas cidades, pelo menos a quem não possa pagar os altos preços dos parquímetros, por causa das alterações climáticas.
Os ecotópicos querem-nos fazer levar os nossos filhos à escola de metro.
Os ecotópicos querem-nos instalar contadores de energia "smart" com tarifas variáveis a cada momento e que estarão sempre mais caras à hora em que precisarmos de ligar a máquina de lavar roupa, ou as luzes do escritório à noite, ou a torradeira de manhã. Para nos encorajar a sermos homens novos.
Os ecotópicos já mandam no Mundo Ocidental e estão a proibir que se estudem outras soluções contra a emissão de CO2, como o nuclear seguro e o carvão limpo.

Os ecotópicos são fortes e conseguiram chegar subrepticiamente ao poder. Surgiram nos anos 80 e têm a sua base principal na Alemanha, mas os herdeiros dos hippies americanos também são ecotópicos.
Todos os dias vários canais da TV nos martelam programas de propaganda ecotópica dizendo-nos que é o que já se faz "lá fora".
Os ecotópicos apresentam-se sempre com propagandistas jovens, para nos fazerem sentir que é com eles que está o futuro.

Os ecotópicos querem fazer de nós homens novos compatíveis com os amanhãs que cantam com que eles sonham.
Para nos mudar, os ecotópicos precisam de nos vigiar.
Os contadores "smart" vão saber tudo sobre os nossos hábitos caseiros de consumo energético.
E os chips que vamos ter nos carros vão permitir saber tudo sobre as nossas deslocações.
O que se vai somar ao que já sabem sobre como, onde e em quê gastamos o nosso dinheiro.
E a todas as conversas que temos ao telemóvel e que ficam gravadas durante um ano.
E quem não for ecotópico não terá direito a nada por parte do Governo.
E tudo o que se fizer dependerá da concordância do Governo.
E isso será verdadeiramente o Admirável Mundo Novo, mas em verde!

O Governo é ecotópico e tem nisso a sua melhor bandeira.
A oposição critica o Governo em muitas coisas, mas concorda que ele age bem no que diz respeito "ás energias renováveis e às tecnologias", ou seja, à ecotopia.
Marcelo Rebelo de Sousa elogia no Governo a ecotopia.
O "Compromisso Portugal" elogia no governo a ecotopia.
Até Pacheco Pereira já louvou no Governo a ecotopia.

As empresas também são todas ecotópicas, agora.
A EDP é ecotópica e tem como seu grande projecto tecnológico o que o Governo lhe mandou fazer: o Inovgrid ecotópico.
A EFACEC é ecotópica porque o Governo lhe deu a construção dos pontos de abastecimento dos ecotópicos carros elécticos.
A Novabase é ecotópica porque vai desenvolver o sistema de gestão desses pontos de abastecimento.
A Critical software também lá está e por isso é ecotópica.
Os "empresários do norte" almoçam com o ex-ministro da Ecotopia Manuel Pinho, e são todos ecotópicos também.
Por causa da Martifer e das fábricas de componentes eólicos de Viana do Castelo.
E da força que foi dada ao INESC-Porto na justificação da política ecotópica do Governo.
E de outras razões com que o Governo, ecotopicamente, escolhe a quem distribuir as receitas dos impostos que pagamos.

As Universidades também são todas ecotópicas, agora.
Há dinheiro a rodos para I&D em temas ecotópicos, como as "smart grids".
E há muitas revistas onde publicar temas ecotópicos.

E os media também são ecotópicos, ou porque estão a mando, ou porque simplesmente há muito que deixaram de ter gente conhecedora a escrever lá.

Por isso, não há uma única voz que se erga a questionar a ecotopia. Exceptuando uma curta coluna quinzenal no Expresso do cavaleiro solitário Mira Amaral...

Mas os ecotópicos não mandam e jamais mandarão na China!
Nem na Índia!
Nem na África!
E haverá sempre quem resista à ecotopia.

Este blog publicará uma série de artigos desmontando a visão ecológica utópica da tecnologia e da energia, nos próximos tempos.
Porque acredito na racionalidade da modernidade e me assumo como adversário do pensamento mágico pós-moderno que suporta a ecotopia.
E porque prezo o direito dos mais fracos à verdade e à liberdade.

Segunda-feira, Julho 27, 2009

I&D das empresas: um critério de aferição - patentes!

Demonstrado que está que o aumento de 115% da I&D privada em Portugal, de 2005 para 2007, resultou apenas da reformulação contabilística promovida pelo SIFIDE, o Sistema de Incentivos fiscais legislado pelo actual Governo, subsiste uma interrogação fundamental:
  • Terá o novo método de Contabilidade da I&D sido apenas uma correcção, um pôr em linha com as práticas da OCDE, como afirmou Manuel Heitor, "destapando muita I&D que se vinha fazendo" nas empresas, e neste caso há muito que Portugal não está mal no que respeita à participação das empresas no esforço em I&D?
  • Ou terá o novo método de Contabilidade apenas passado a contabilizar como I&D o que é Engenharia de concepção simples, sendo neste caso um erro crasso só possível em quem não faz ideia do que seja Engenharia real (descontando eventuais desígnios estatísticos politicamente menos honestos)?

Penso que há um critério de aferição simples para resolver este dilema: a I&D empresarial, se efectivamente visa a criação de produtos ou processos de princípios novos, traduz-se em patentes. Mesmo que nem toda origine patentes, haverá uma estreita correlação. De facto, as patentes estão para a I&D nas empresas como as comunicações científicas estão para a I&D académica, enquanto critério de produtividade!

Ora, em matéria de patentes, continuamos a produzir 1/4 per capita do que produz Espanha. Concretamente, 20 patentes por ano, contra 320 de Espanha.

E este valor está muito mais em consonância com a "antiga" Contabilidade. Infelizmente.

Domingo, Julho 26, 2009

Ainda o mistério do grande salto em frente da I&D das empresas: conjectura final

Hoje, na sequência do que tenho vindo a escrever aqui, no desenvolvimento do que escrevera aqui e aqui e