segunda-feira, janeiro 16, 2012

EDP, a nossa energia...?

Começo este post explicando a minha relação pessoal com a EDP.
Desde muito antes do slogan publicitário sobre a "nossa energia", a EDP sempre foi para mim a "nossa energia".
O meu doutoramento, feito nos anos 80, foi pioneiro em ter tido por eixo um projecto Universidade-Indústria, concretamente IST-EDP. Plenamente sucedido do ponto de vista contratual e científico, mau grado algumas desavenças pessoais entre responsáveis da EDP e do IST na altura...
Antes deste projecto, desejara fazer o doutoramento no estrangeiro. Abrir-me-ia outras portas lá fora, mas o meu orientador vendeu-me a ideia de que, sendo os doutoramentos a base da Investigação académica, e esta a base da Investigação de um país, fazê-lo no estrangeiro era trabalhar para o desenvolvimento de outros países, numa altura em que o nosso precisava de nós. E eu comprei a ideia. Por patriotismo. Acreditem ou não...
Depois do doutoramento continuei sempre a ter projectos e trabalhos com a EDP, graças primeiro ao sucesso desse doutoramento, e depois ao de cada trabalho e projecto.
Trabalhos e projectos sempre da iniciativa da EDP.
Nunca pedi subsídios à EDP para fazer algo que me interessasse a mim e, pelo contrário, sempre adaptei os meus interesses às necessidades reais da EDP, tanto na Investigação como no ensino!

Por exemplo: no início dos anos 90 participei num projecto avançado para a automatização das Subestações da Rede de Muito Alta Tensão, e depois concebi e dirigi a coordenação dos Sistemas de Protecções dessa rede. Os meus mestrandos de então (hoje, com Bolonha, seriam doutorandos) chegaram a chefes dessas áreas na EDP, mais tarde REN.
Mas fiz muitas outras coisas pela EDP. Defendi-a contra empresas que a processaram por problemas de qualidade de energia. Defendi-a na questão das Linhas de Alta Tensão e dos protestos populares contra os seus supostos "malefícios para a saúde". Sempre com sucesso e dedicação, por ver a EDP como a nossa energia, a nossa electricidade.
Na década passada vim a ter outros projectos com a EDP. Tive até, durante 6 anos, escritório na EDP: no LABELEC primeiro, e na EDP-Inovação depois, quando esta foi criada. E todos os trabalhos chegaram a termo com pleno sucesso técnico, com muitas das medidas por mim preconizadas adoptadas pela empresa.

Nos últimos 2 anos e meio critiquei neste blog a ideologia ecologista utópica que nos governava, e também no Manifesto para uma Nova Política energética cuja primeira publicação foi em Abril de 2010. Critiquei a política mas nunca critiquei pessoas, nem a EDP, "a nossa energia".
Mencionei ocasionalmente alguns governantes, é certo, mas a propósito de afirmações públicas suas concretas de que discordava.
E também mencionei algumas vezes a EDP, por ser ela que detém a nossa electricidade, mas mesmo então nunca a critiquei nem à sua Administração, limitando-me a expor análises de factos tendo por pano de fundo a crítica à política nacional na energia, e não à da EDP empresa. E como tenho a consciência tranquila quanto à lisura do que escrevo, fi-lo de cara descoberta, coisa rara entre nós.

Chegou a altura, porém, de cruzar essa fronteira e, para que tudo seja transparente, começo por declarar que tenho uma mágoa pessoal no assunto. Já vão ver porquê.
A primeira medida que a actual Administração da EDP tomou e me atingiu foi logo que tomou posse com o Dr. Mexia em 2006 e acabou com os contratos de prestação de serviços que a EDP tinha com os raros doutorados que lhe faziam I&D aplicada na empresa. Mencionei isso aqui indirectamente, numa análise da I&D nacional, quando notei a contradição de a EDP se apresentar como tendo multiplicado os seus investimentos em I&D por 80 mas ao mesmo tempo o seu suporte de doutorados ter passado de 3 para zero. Um desses doutorados cujo contrato de prestação de serviços de I&D a EDP mantinha, era eu (que fui quem inaugurou esse tipo de colaboração com a empresa)...
Mesmo assim, nunca critiquei a EDP por isso. E não o fiz por que houve quem, na empresa, achasse que no meu caso os projectos deviam continuar com contratos específicos, que substituíram o contrato genérico de prestação de serviços que antes tinha. E, assim, os projectos continuaram, e apenas deixei de frequentar o escritório que me disponibilizavam na EDP-Inovação (cujas instalações se reduzem a um pequeno apartamento sem nenhum investigador), por não ter lá nem ferramentas nem gente com que realizar os trabalhos.
Porém, depois houve a publicação do Manifesto e a criação deste blog, e o longo braço do Governo anterior e dos lobbies a ele afectos levou a Administração da holding a mandar questionar por que razão esses projectos contratados comigo ainda não tinham sido extintos!
Organizaram-me um "processo" político (alegando falsamente que eu criticara a EDP), com "ficha" e tudo, e tornou-se perigoso para os que na empresa me estimam falar comigo.
E assim, com o fim (bem sucedido, como sempre) dos meus últimos projectos de I&D com a EDP no final de 2011, graças à Administração do Dr. Mexia e pela primeira vez em 30 anos deixei de ter projectos de I&D para a "nossa electricidade".
Uma purga política, ou "saneamento", como todos na EDP sabem!
Clarificada a minha relação com a "nossa electricidade", esclareço que fui entretanto solicitado por terceiros para outros trabalhos e que tenho muitas "Memórias" científicas e académicas para escrever, pelo que não me queixo de ter ficado desocupado. É apenas uma mágoa que vocês entenderão; talvez afinal devesse ter-me doutorado no estrangeiro e ficado por lá...

Passando então ao que me trás por cá, depois deste prólogo, não venho criticar a venda da EDP. Foi uma desgraça inevitável, na lógica geo-política que o país perfilha, e por cujo termo esperei antes de me manifestar.
Com o que venho indignar-me é com a euforia que por aí reina com esta venda, como se ela tivesse sido um grande feito, e com a mistificação que o CEO da EDP, o Dr. Mexia, apresentou sobre ela, não só gabando o seu sucesso como invocando para a sua própria gestão os supostos méritos disso *!
Ora importa esclarecer que a venda dos 21.35% da EDP pelo preço obtido foi um verdadeiro saldo, um desastre que entregou o controlo da nossa segunda maior empresa nacional por tuta e meia!
Foi, e isso é meritório, vendida pela melhor oferta. Foi até vendida com um "prémio" de 50% sobre o valor de mercado. O que falta explicar, porém, é se esse valor de mercado (numa bolsa deprimida), reflecte o verdadeiro valor estratégico da empresa, ou se não reflecte antes o buraco a que a gestão do Dr. Mexia e a política governamental que ele apoiou conduziram a "nossa energia"!!!
Ora, meus amigos, 2.69 biliões de €, o valor da nachinalização da EDP, não chegam sequer para financiar a construção de uma só central a carvão como a de Sines, um dos muitos activos que a EDP possui!
o investimento da EDP em novas hidroeléctricas do PNBEPH e "reforços de potência" supera largamente o valor pago pelo controlo da EDP!...
E, se somarmos todos os activos da EDP, centrais de produção e redes, mais os capitais próprios da empresa, chegamos a 50 biliões de €, o quádruplo dos 12,6 biliões de que os 2,69 biliões pagos pela Three Gorges são 21.35%!
Porquê então este irrisório preço de saldo?
Porque o Dr. Mexia, à imagem do que o primeiro Primeiro-Ministro que o nomeou em 2006 para o lugar que detém fez com o país, endividou a EDP em 16,5 biliões de €, para realizar investimentos ruinosos no estrangeiro, em eólicas subvencionadas pelos poderes políticos de países estrangeiros, investimentos que estão em muito maus lençóis! Mas, mesmo descontando os passivos da EDP, o seu património ainda vale duas vezes e meia o valor de "mercado" definido pela venda do seu controlo! Como pode o actual CEO da EDP gabar-se do mérito deste negócio?
Na verdade, a EDP é agora uma empresa de elevado risco, coisa que os mercados sabem e que explica os 10% de taxa de juro que a EDP vinha a ter de pagar para conseguir refinanciar a sua colossal dívida, e se algum mérito especial houve na venda conseguida foi o ter-se conseguido impingir essa dívida à China (com o que a taxa de juro lá baixou de 10% para uns ainda incomportáveis 8.5%!...)
Os tais investimentos em energias renováveis feitos pela EDP no estrangeiro, com eólicas fabricadas no estrangeiro e com dinheiro emprestado pelo estrangeiro, dependem na grande maioria de os poderes políticos dos países em questão continuarem dispostos a subvencionar as elevadas tarifas que só elas permitem a rentabilidade dessas renováveis. É tema para futuros posts, mas todos sabem que o protocolo de Quioto faleceu Dezembro passado em Durban e que a economia mundial não está propensa a fantasias dessas...! Os alegados lucros que a Administração da EDP tem imputado aos investimentos estrangeiros derivam sobretudo da valorização cambial dos activos e lucros brasileiros nos últimos anos, mas claro que isso é puramente contingente, como o ilustra o recente aumento da dívida da "EDP Renováveis" nos EUA, resultante da valorização do dólar...
Ora além destes investimentos puramente financeiros e de alto risco no estrangeiro serem apresentados como grande valia da EDP, outra completa mistificação que os media por conta desta empresa têm feito passar é que um dos seus trunfos seria a "tecnologia". Não se poderia invocar melhor exemplo da genética socratina desta Administração do que tal aldrabice!...
É que quem detém o know-how tecnológico de energia eólica são os fabricantes estangeiros que concebem, fabricam e vendem à EDP os aerogeradores que ela manda instalar lá fora sem sequer lhes "tocar"!
De energia eólica, a EDP nada sabe, e todos os que acompanham o que cá se faz em I&D em energia estão a par de que até a célebre windfloat nada tem de concepção portuguesa a não ser o dinheiro que custou!
E como poderia ser de outra forma, se a EDP não tem ninguém a estudar tais assuntos na empresa, nem fora dela?

Não foi, de facto, nem pela valia dos investimentos em renováveis da EDP no estrangeiro, nem muito menos pela inexistente "tecnologia" da EDP no assunto, que a China comprou o controlo da EDP.
Foi apenas por que a República Popular da China anda às compras e está atenta às épocas de saldos!...

* - na entrevista linkada, o Dr. Mexia diz que as tarifas da electricidade são definidas pelo Regulador, a ERSE. Ora isto é mistificador, porque a remuneração da maior parte da produção de electricidade sobre a qual a ERSE calcula as tarifas não é definida por esta mas sim por legislação governamental directa!

11 comentários:

JP disse...

Atenção:

- Biliões são milhões de milhões em Português, ao contrário do "billion" anglo-saxónico, pelo que a EdP foi vendida por 2,69 mil milhões de € - http://goo.gl/DguDm

- Esse valor é perfeitamente adequado para pagar uma central como a de Sines, aos preços EPC que se vêm actualmente (diria ~1,2 mil milhões € para uma similar)

Isto são dois pequenos reparos a bem da correcção do post, que em nada invalidam o que você escreveu.

Concordo consigo, a EDP foi vendida por tuta e meia, por responsabilidade desta administração.

Isto é um padrão: esvaziam-se os activos até ficarem a preço apetecível, vende-se por tuta e meia e depois miraculosamente vê-se um ressurgimento do valor das empresas, quais fenix renascidas das cinzas!

Infelizmente os media não se dão ao trabalho de fazer as contas, é muito grave isto que se anda a passar.

Pinto de Sá disse...

Caro JP,
Uso bilião de acordo com a definição corrente no meio científico, que é o americano mas também o brasileiro e era o nosso até 1958, e é o que o próprio Presidente da República usou também recentemente. Já justifiquei isso neste blog repetidamente.
Quanto ao custo de investimento de uma central a carvão, tendo a de Sines 1200 MW e estando o custo de construção total típico (dados do DOE, 2010)entre 1700€/kW e o dobro, chegamos a de 2,0 a 3,8 biliões, com 1 USD=3/4€. E de onde tirou o JP os seus números?

JP disse...

Quanto aos biliões, entretanto percebi que é a convenção que decidiu usar, tudo bem. Mas olhe que o facto do PR o usar não abona a favor...

Quanto ao custo de construção da central, confesso que estou mais familiarizado com centrais de ciclo combinado (GN), em que é usual ter valores a rondar os 1000€/kW. Não tenho dados concretos para lhe dar senão a minha experiência em projectos EPC que aponta nesse sentido.

Em todo o caso, como disse antes isto não retira mérito nenhum aos seus argumentos: ainda que os 2,7 mil milhões de € dessem para 2 centrais de 1200 MW, seria pouco face aos activos que a EDP controla!

Pinto de Sá disse...

O custo de investimento de uma central de ciclo combinado (GN) é muitíssimo inverior, por MW, ao de uma central a carvão. Em contrapartida o custo do combustível é muito maior, razão porque no final o custo de produção do MWh é inferior nas centrais a carvão.
Estas só têm menor uso hoje em dia em Portugal por que as renováveis, que têm prioridade no acesso à rede por força da lei, lhes tiraram espaço.

Sergio disse...

Os administradores de grandes empresas têm à sua disposição mecanismos de avaliação de desempenho para esconder, por algum tempo, problemas. Veja-se o caso do BCP, BPN, parcerias público privadas com hospitais... no passado tinham gestores excelentes a passado uns anos descobrem-se os buracos...
Certas acções em actividades complexas apresentam efeitos uns anos depois de tomadas...
Infelizmente a comunicação social não apresenta de forma sistemática a causa dos problemas actuais.

Gonçalo Aguiar disse...

Caro professor:

Qualquer venda que o estado faça a esta altura do campeonato vai ser em saldo. Por razões óbvias de má gestão e por decisões macroeconómicas ruinosas nas últimas décadas levaram o nosso estado à falência técnica, por conseguinte qualquer pingo de receita que se conseguir arranjar é sempre bem vindo. É como uma família endividada ir à loja de penhoros vender o ouro. Nunca vai conseguir vendê-lo pelo seu valor de mercado. O desespero leva-os a aceitar qualquer valor que lhes dêem por esse activo. Passa-se o mesmo com a "privatização" da EDP. Se é que se pode chamar privatização a uma venda a uma empresa pública estrangeira... Prefiro usar o seu termo de "nachinalização" que tão inteligentemente criou.

Em segundo lugar gostaria de relembrar que os chineses da Three Gorges vão realizar também investimentos nos próximos de anos no total de 8 biliões de €. A proposta nãos e resume apenas aos 2,7 biliões de €, caro professor.

Não esquecer também que a venda da EDP foi submetida a um concurso e a proposta mais vantajosa foi a chinesa. Relembro que, por exemplo, os Brasileiros da Eletrobras também entraram no concurso. Face a isto, o que é que o estado português, e sabendo a sua situação económica, poderia ter feito mais? Que outra solução o professor daria para a venda da EDP, uma vez que era inevitável visto ter sido imposta pela "troika" no "memorandum de entendimento".

Com os melhores cumprimentos,

Gonçalo Aguiar

Pinto de Sá disse...

Caro Gonçalo Aguiar,
Há-de reparar que eu não critiquei a decisão de venda da EDP, nem questionei que tivesse sido feita pelo melhor valor possível. Pelo contrário, afirmei-o.
Não deixa de ser verdade, porém, que se compararmos o valor de mercado da empresa com o seu valor contabilístico, o preço foi uma pechincha.
Bem sei que foi o melhor possível. Não vejo é razões para o CEO da EDP considerar tal saldo um êxito e ainda por cima tentar chamar a si o mérito disso!
Com o que compara ele o resultado? Com o valor de mercado bolsista, terá sido um êxito. O problema é precisamente esse valor de mercado, e a discrepância entre ele e o valor contabilístico!

RioD'oiro disse...

http://fiel-inimigo.blogspot.com/2012/01/venda-da-edp.html

Chapelada.

Anónimo disse...

Esta treta dos nossos governantes se decidirem por políticas que supostamente vão salvar o planeta - sendo certo e sabido que na base de tais decisões políticas não existe nenhum fundamento científico comprovado, mas somente uma moda perniciosa alarmista e ideológica - está, e vai continuar a destruir a economia de pequenos países tão dependentes como o nosso.
A desindustrialização keynesiana das últimas décadas potenciada pela globalização dos mercados está a chegar ao seu clímax no nosso país, sendo a política energética um dos factores principais deste desastre, e sendo essa política energética comprovadamente ineficaz face às variações do clima e comprovadamente ruinosa para a indústria e economia do nosso país.
O preço que pagamos pela energia eléctrica é absurdo, elevadíssimo e desincentivador de qualquer actividade económica que dela dependa.
Para agravar tudo isto, as pessoas lúcidas e honestas (que não as lúcidas mas desonestas por beneficiarem dolosamente dos subsídios mascarados na factura de uma electricidade que produzem com tecnologias não competitivas) como o Prof. Pinto de Sá, são meticulosamente afastadas dos centros de decisão e dos órgãos de comunicação - por serem vozes que ameaçam obstaculizar a moda-alarmista que tanto nos prejudica.

Bem haja caro professor!

Anónimo disse...

Fica-se embasbacado com o mundo cão que retrata.

Gostava muito de ver um post sobre o fim da tarifa bi-horária, hoje noticiada.
http://sol.sapo.pt/inicio/Sociedade/Interior.aspx?content_id=39140

O ANTONIO MARIA disse...

Só hoje li o esclarecedor seu post. Revela outras facetas do que tenho vindo a escrever s/a EDP (ver último post aqui) há já algum tempo. A EDP foi basicamente transformada num ativo financeiro da economia especulativa, pela mão de um cabotino chamado Mexia, e de um grande vigarista chamado Sócrates. O resultado está à vista, mas falta investigá-lo judicialmente...