quinta-feira, junho 02, 2011

Telemóveis, cancro, e Linhas de Alta Tensão: a mesma história...

Há já alguns anos que se esperava que viesse a acontecer isto: o estabelecimento de um novo terror público, com os telemóveis.
Vem isto a propósito da atribuição pela IARC (Agência Internacional para a Investigação sobre Cancro), um organismo da OMS (Organização Mundial de Saúde), ela própria uma instituição da ONU (Nações Unidas), da classificação de "possivelmente cancerígenas" às "radiações" dos telemóveis.
Há anos que diversos alarmistas, geralmente grupos que mesclam interesses económicos com ideologia pós-moderna (ignorante e céptica em ciência mas com a mania das conspirações), vinham a inventar suspeitas sobre supostos malefícios dessas "radiações", e que variados académicos se disponibilizavam pressurosos a investigar o assunto. E, como essas investigações nunca chegam a conclusão nenhuma, este é o tipo de problema ideal para um investigador profissional que esteja muito mais preocupado em garantir emprego para a vida do que em resolver algum problema à Humanidade!
Há alguns anos que se esperava que isto acontecesse porque exactamente o mesmo já sucedera com as "radiações" das Linhas de Alta Tensão, também elas classificadas, já há anos, como "possivelmente cancerígenas".
Por acaso este problema é um daqueles a que me dediquei profissionalmente nos últimos anos, tendo produzido sobre isso um relatório de cem páginas consultável no site da ERSE, e um pequeno resumo na forma de "perguntas frequentes" também lá consultável. Não vou, por isso, falar dos telemóveis, mas apenas transcrever parcialmente algumas das FAQ relativas às Linhas de Alta Tensão, para vos dar uma ideia da coisa.

    É verdade que a OMS considera os campos magnéticos como sendo cancerígenos?

Não exactamente. O que a OMS subscreve é a posição definida em 2002 pela IARC e reafirmada em 2007, segundo a qual “existe uma evidência limitada para a cancerigenidade humana dos campos magnéticos de Baixa Frequência relativamente à leucemia infantil, e que “não existe evi­dência ade­quada para a cancerigenidade humana desses campos em relação a todas as outras formas de cancro”, esclarecendo ainda que isso não se estende a campos eléctricos nem a ani­mais. A IARC mantém uma tabela de classificação de vários elementos quanto à sua cancerigeni­dade, que vai dos comprovadamente cancerígenos como o tabaco, o amianto, o álcool, o rádon, os raio-X e a luz solar (75 elementos), aos não classificáveis quanto à cancerigenidade. Depois dos comprovada­mente cancerígenos, a IARC lista em perigosidade os provavel­mente canceríge­nos (59 elementos), que incluem os fumos de escape dos motores Diesel e os PCB, e finalmente os possi­vel­mente canceríge­nos, que são muitos (225 elemen­tos). Estes, que incluem o café, os fumos de escape dos motores a gasolina e os “pick­les”, são onde se incluem também os campos magné­ticos de baixa frequência. Para a IARC um agente “possi­vel­mente cancerí­geno” é aquele cujas evi­dên­cias de cancerigenidade em seres humanos são conside­radas credíveis, mas para as quais não se exclui a possibilidade de outras expli­cações.

1.      Que evidências considera a OMS existirem para a sua posição sobre a cancerigenidade dos campos magnéticos?

As evidências existentes são duas análises de conjunto (“pooled analysis”) de muitos estudos epi­de­miológi­cos feitos nos EUA, Canadá e vários países da Europa do Norte, abrangendo mais de 100 milhões de pes­soas ao longo de várias décadas, e em que num deles se totalizaram, perto de linhas de Alta Tensão, 44 casos de leucemia infantil quando seriam de esperar, na ausência dessas linhas, de 14 a 35, e no outro, mais abrangente, 98 casos quando seriam de espe­rar de 42 a 85. Relativamente ao valor médio esperado, o primeiro estudo aponta para uma duplicação do que seria normal mas, concretamente, o que se observou “perto” de linhas de Alta Tensão, para uma enorme população e várias déca­das, foram 44 casos quando o valor esperado seria de 24 (isto de um total de 3247 leuce­mias infantis observadas naquela população e durante aqueles anos).

2.      Porque diz a OMS que ainda não há certezas sobre a cancerigenidade dos campos magné­ti­cos?

Por duas razões: a primeira é que nenhum estudo laboratorial confirmou qualquer mecanismo expli­cativo de como poderá o campo magnético à frequência das redes de energia causar altera­ções no ADN, nem isso é considerado fisicamente plausível, por esses campos induzirem efeitos no interior do corpo humano muito inferiores aos dos próprios campos naturais deste. Alguns efeitos metabólicos indirectos (radicais livres, magnetite, etc) têm sido investigados em pro­fundidade, mas os resultados ou são inconclusivos ou, quando positivos, não se têm mostrado replicá­veis.
A segunda razão é um conjunto de fraquezas dos estudos epidemiológicos realizados e que têm sido criti­cadas por vários cien­tistas de competência reconhecida pela OMS. Na realidade, estes estudos, que consis­tem em comparar o número de casos de doença verificados com o esta­tistica­mente espe­rado na ausência dos campos magnéticos, defrontam-se com duas grandes dificul­da­des: a primeira é que a leu­cemia infantil é uma doença rara (1 caso-ano por cada 30 mil crianças, em média), e a segunda é que pouca gente vive perto de linhas de Muito Alta Tensão (0.5% da população, na Europa).
A combinação destas duas rari­dades cria um número muito pequeno de leuce­mias infan­tis na vizi­nhança das linhas de Alta Tensão, o que acarreta grandes incer­tezas esta­tís­ti­cas, mesmo quando muitos estudos desses são fundidos em análises de con­junto. Na reali­dade, a pequenez relativa dos números de casos observados é tal que qualquer imperfei­ção no método de selecção de amostras produz grandes variações nas estimativas de risco relativo.

3.      O que falta saber para se ter a certeza sobre os efeitos da exposição do campo magné­tico para a saúde?

Dada a extensão e inconclusibilidade dos estudos epidemiológicos já realizados e relativos à leuce­mia infantil, alguns conceituados cientistas consideram que não vale a pena fazer mais estudos desses. Por outro lado, também já foram gastos muitos milhões de euros e dólares em estudos laboratoriais igual­mente inconclusivos. Na verdade, é muito difícil provar que um qualquer agente raro é inofen­sivo para a saúde.... Por estas razões, a própria OMS considera que o esclarecimento deste assunto passa pela compreensão é do pro­cesso de desenvolvimento da leu­cemia infantil, a qual teve recen­temente (Janeiro de 2008) um grande progresso com a identifica­ção dos genes envolvi­dos nas mutações can­cerígenas que a ini­ciam....
Presentemente pensa-se que a maioria dos casos desta doença, que em regra se manifesta antes dos 3 anos de idade, resulta de uma predisposição genética presente em cerca de 1% das crianças, pro­movida depois por uma reacção imunológica desadequada a uma infecção vulgar, como uma gripe. Um facto interessante comprovado, por exemplo, é que nas crianças expostas desde muito cedo ao ambiente de infantários com pelo menos outras 3 crianças, a taxa de leucemia infantil é metade da que se verifica nas que ficam sempre em casa, no 1º ano de vida, com mães domésti­cas; a exposição precoce a contágios infecciosos parece amadurecer saudavel­mente o sis­tema imuni­tário. A leucemia infantil é também ligeiramente mais frequente nas famí­lias de estrato social superior, o que se pensa resultar de terem ambientes mais assépticos em casa.
Há, naturalmente, outros agentes causadores da leucemia infantil, como a radioactividade e os raios-X. Quanto a estes comprovou-se que aumentam em 50% o respectivo risco quando recebi­dos pelas mães durante a gravidez. Por este motivo, aliás, se deixaram de fazer raios-X a grávi­das.

4.      Se as suspeitas sobre a cancerigenidade do campo magnético das linhas de Alta Ten­são se con­firmarem, que taxa de mortalidade daí decorre para Portugal?

Em primeiro lugar temos de considerar o número de casos de leucemia infantil observado em média em Portu­gal. Podemos usar dois processos: o primeiro é usar as estatísticas da Direcção-Geral de Saúde e dos IPO, e o segundo é extrapolar dos números espanhóis (3.4 casos por cada 100 mil meno­res de 15 anos), e também se pode combinar os dois processos. A razão da necessi­dade destes cál­culos é que infelizmente não se con­segue encontrar esse número exacto nas esta­tísticas publicadas em Portugal. O número a que se chega é de cerca de 50 por ano.
Como só 0,5% da população vive “magneticamente perto” das linhas de Alta e Muito Alta Tensão, isto con­duz ao número de uma leucemia infantil esperada, cada 4 anos, “perto” dessas linhas e sem considerar qualquer efeito por estas. Admi­tindo que, como no estudo mais pessimista em que se baseou a IARC para a sua classificação dos campos magnéticos, estes duplicam a incidên­cia da doença, então àquele caso normal tere­mos de adicionar outro, associado aos referidos cam­pos.
Outra via para estimar o referido número é admitir que será semelhante ao calculado na Suécia pelo estudo epidemiológico ali realizado em 1993, considerando que esse país tem 9 milhões de habitan­tes, o que conduz ao mesmo número de uma leucemia infantil cada 4 anos associada às linhas de Alta Tensão.
Em segundo lugar temos de considerar a taxa de mortalidade da leucemia infantil, hoje em dia uma doença com uma elevada taxa de cura nos países mais desenvolvidos como a França ou os EUA. Nes­ses países, a taxa de cura (sobrevivência ao fim de 5 anos) é presentemente de 85%....
Assim, se considerarmos o estado recente da medicina portuguesa, teríamos uma morte esperá­vel cada 12 anos (4/0,30); mas se acreditarmos que ela vai melhorar no sentido da francesa tería­mos uma morte espe­rável cada 25 anos (4/0,15)…!
Para se ter uma ideia destes valores, vale a pena notar que o número anual de mortes de crianças (com menos de 15 anos), por acidente, em Portugal, é de cerca de 100, dos quais 40 em acidentes de via­ção, e que o número de mor­tes por aciden­tes de trabalho com electricidade tem sido de 12.
Quando iniciei este estudo, em 2007, havia um alarme generalizado relativamente aos altíssimos custos que poderia comportar o enterramento das linhas de Alta Tensão. Hoje parece que cresce a opinião na REN e até em parte da EDP de que, se a ERSE permitir que esses custos sejam passados para as tarifas dos consumidores, até será bom...

4 comentários:

Gonçalo Aguiar disse...

A hipocrisia das pessoas é inacreditável. Não se tem a certeza que linhas de Alta Tensão e os Telemóveis sejam cancerígenos. Tem-se a certeza sim que apanhar banhos de sol sem usar protector solar causa melanoma (cancro de pele) e que fumar causa cancro nas vias respiratórias, e quem pratica estes dois comportamentos de risco, normalmente não prescinde de os fazer antes de apanhar um susto.

Será que é preciso mudar o sistema de transporte para corrente contínua para se acabar com as suspeições e mitos de uma vez por todas?

Franco Palmieri disse...

Quantos Maranhenses estão expostos a radiação eletromagnética com resgo de contrair câncer e leucemia em los meninos? Somos muitos e todo porque a Eletronorte respeita só um corredor de 24 metros para as linhas de alta tensão, insuficiente assim diz um estudo encomendado por ANEL a la universidade de São Paulo e conclusão enviadas a operadoras elétricas, onde se denunciam resgos dentro de los 50 metros da fonte de radiação. Eletronorte tampouco respeitou os condicionantes do licenciamento meio ambiental da linha São Luís 2 a São Luís 3, como se releva de um estudo da Secretaria do Meio Ambiente do Maranhão encargado por o Ministério Publico Federal, assim em Paço do lumiar os afetados somos muitos... e os feitos estão investigados desde Fevereiro 2010 por a Promotoria da União e agora passam por competência a Promotora Estadual. Minhas neuronas estão fritando, tenho a minha morada a 20 metros da linha, nunca padeci de hemicrania, agora desperto muitas vezes na noite e levanto com dor de cabeça a parte de ter esse zumbido constante por a forte umidade da temporada das chuvas: obrigado Eletronorte, capital 99% Eletrobras. Porque não vem a trocar minha casa algum grande doctor comprado por las empresas e mora 3 anos no campo eletromagnético?

Pinto de Sá disse...

Franco Palmieri, lamento muito a desvalorização dos seus terrenos devido à presença dessa linha de electricidade, que deve ser o que realmente o preocupa...
Mas tem a certeza que quando foi morar para aí a linha não estava já lá? Ou pelo menos tinha a concessão atribuída? É que acontece muito isso, sabe?...

Franco Palmieri disse...

Pois não, apreçado Pinto de Sá, no me preocupa a desvalorização do terreno, já estou na vida passiva do aposentado que quer ver crescer suas prantas e brincar com seus animais de companhia. Quando cheguei la torre não estava nem ninguém sabia dos projetos da Eletronorte, tinha a obrigação de informar a população mais isso não aconteceu, no documento da defensa frente ao Promotor Federal, Eletronorte falou ter avisado uma senhora Maria, ela morreu no 1990 assim de ser difícil ter sido informada, de não ser em uma sessão espiritista. De saber isso, nunca tenderia construído a minha casa a 20 metros da linha de alta tensão, para ter um gostoso sito de descanso, depois de ter trabalhado toda minha vida no exterior do pais. Mais o que me preocupa é morar com um constante zumbido em dias de umidade, alias sempre, ter transtorno do sono, alias não dormir toda a noite, despertar com dores de cabeça, algo que nunca tive em 60 anos de vida, de não ser por uma ressaca depois de um dia de festa, sou bebedor social. No caso de ter um câncer a quem vou agradecer... nos cigarros temos aviso das autoridades da saúde sobre isso assim podemos optar por prender o cigarro ou não, no caso da linha da Eletronorte, não posso fazer o mesmo de optar, minha casa e minha vida estão ali antes que chegasse a radiação eletromagnética. Ademais informo que, em um estudo da Secretaria do Meio Ambiente do Maranhão, encomendado por o Promotor Federal, se fala claro: Eletronorte não tem respeitado os condicionantes do licenciamento meio ambiental.