quarta-feira, fevereiro 29, 2012

A causa da recente mortalidade anormal

Há uns dias foi notícia o facto de, nas últimas semanas, terem ocorrido em Portugal um número de mortes acima do normal. O Instituto Ricardo Jorge foi a fonte e, como se pode ver pelo gráfico anexo por ele publicado, o número de mortes total em excesso terá sido da ordem das muitas centenas.

O blog Ecotretas fez um bom apanhado do que se disse sobre a questão, que mereceu a atenção do próprio Ministro da Saúde, e constatou o óbvio: o excesso de mortes deveu-se ao frio ligeiramente mais rigoroso que se verificou nas mesmas semanas!
Trata-se de algo óbvio porque é coisa que se repete todos os Invernos e que aqui comentei há 2 anos, mas que o gráfico acima mostra ter aumentado muitíssimo este ano, tal como eu profetizava nesse post!
Mas será que é mesmo o frio a causa destas mortes?
É óbvio que, num país europeu do século XXI, o frio não mata a não ser os sem-abrigo, como tem sucedido na Europa central onde, porém, faz mesmo frio, e não o fresco que por aqui se sentiu.
É óbvio que a causa da morte destes idosos é o facto de não terem dinheiro para pagar a energia de aquecimento! E muito particularmente a electricidade que temos, que em paridade de poder de compra é a mais cara da Europa!
Pelo que, em última análise, boa parte da culpa destas mortes é dos responsáveis pela política energética que conduziu a esta situação e que defendem com unhas e dentes a manutenção dos seus privilégios e rendas decretinas!
E, também por isto, é escandalosa a defesa que Jorge Vasconcelos fez recentemente numa entrevista ao Público da necessidade de subida dos preços da energia nos próximos anos! Vê-se que não faz ideia do frio que se passa em Portugal ...

13 comentários:

EcoTretas disse...

Obrigado por chamar a atenção para este magnífico gráfico, que ilustra como o Aquecimento Global é na verdade uma grande vantagem para os Portugueses! Utilizei num post há pouco.

Ecotretas

incitador@gmail.com disse...

«...boa parte da culpa destas mortes é dos responsáveis pela política energética...»

Eu dividiria as culpas entre esses responsáveis e os responsáveis pela qualidade das construções e seus regulamentos. As casas são frias, primeiro porque são mal projectadas e apenas depois, pela razão que nos indica. A necessidade de recorrer a aquecimentos com custo associado (eléctrico, Ar Condi., gás, etc) só é necessária para compensar as deficiências do projecto.

Pinto de Sá disse...

Incitador, na Finlândia as casas são bem calafetadas mas mesmo assim o consumo de electricidade per capita é quádruplo do nosso!...
Ou Espanha: também bem maior que o nosso.

incitador@gmail.com disse...

Pinto de Sá,
Claramente, essas construções na Finlândia ou em Espanha são mal projectadas.
Há algumas pessoas (casos muito isolados, naturalmente... mas admiráveis!) que construíram casas de forma sustentável (coisa muito rara!) onde os níveis de conforto são elevados e onde, frequentemente, nem estão ligadas à rede eléctrica.
A meu ver, o caminho a seguir é o de adoptar soluções construtivas inteligentes que permitam reduzir a necessidade de utilização de energia (paga). O nosso rumo é em direcção à escassez e não à abundância. E não tenho dúvidas de que vai ser muito positiva essa transição.

Pinto de Sá disse...

Duvido que as casas na Finlândia sejam mal projectadas, e citei a Espanha por ter um clima e cultura mais semelhantes à nossa.
O que acontece é que habitações bem construídas termicamente - e isso não é tema ecientificamente esgotado - são mais caras. É obviamente e aliás por isso que elas são mal construídas!
Por conseguinte, a poupança energética tem de ser comparada com o acréscimo de custo da construção, e como o retorno só sucede a longo prazo (cá a Sul da Europa), todos fogem disso.
Esse é aliás um problema de todas as medidas de eficiência energética: são caras e de retorno económico apenas a prazo. Acreditar que essa eficiência não tem custos e é só uma questão psicológica, é conversa ascética fiada...

Anónimo disse...

Caro Pinto de Sá,

Tenho vindo a seguir o seu blog recentemente e aprecio imenso o seu ponto de vista nas questões relacionadas com o estado da energia em Portugal. Na Newsletter DEEC Março '12 a que julgo tem acesso, figurou uma entrevista a um professor catedrático na qual são apresentadas opiniões bastante díspares das que aqui partilha. Queira considerar uma pequena análise da mesma para um novo post, certamente me interessaria bastante. Faço a sugestão porque me parecem duas visões extremamente diferentes sobre o estado das coisas por duas pessoas que julgo estarem informadas.

Agradeço-lhe desde já pelo tempo dispendido no blog, terá com certeza inúmeros afazeres e manter o blog é um serviço excelente que permite a quem está de fora da indústria perceber o que realmente se passa.

Um bem haja

Pinto de Sá disse...

Caro Anónimo,
Sou amigo de longa data do entrevistado a que se refere e, ainda que não pareça, a minha apreciação global da situação e a dele não diferem muito.
A grande diferença é a dos pontos de vista. Eu tenho procurado avaliar a situação do ponto de vista do que considero ser o interesse nacional, enquanto ele, na entrevista, aprecia a situação do ponto de vista da Administração da EDP.
Assim, enquanto os meus contratos de I&D com a EDP, muito semelhantes no relacionamento e estilo aos dele, caducaram todos no fim de 2011 e não foram continuados, por indicações da Administração da holding, os dele mantêm-se vivos, e esta entrevista contribuirá sem dúvida para que assim continuem, o que aliás penso ser precisamente o propósito da entrevista ;-)...

Anónimo disse...

Essa relação sempre houve, mas desta vez a anormalidade parece ser maior.

Mas para analisarmos várias hipóteses/especulações, precisaríamos dos dados todos, em vez de partir logo para o custo da energia. Eu também sou um grande crítico deste modelo energético, e preocupa-me o elevado preço da energia e as consequências que tem para os mais pobres, mas acho um pouco imbecil acusar-se logo o custa da energia como o ecotretas faz.

Ou seja, gostaria de ter dados mais antigos.

1º Dados por exemplo de outros Invernos similares, este tipo de inverno seco e frio não acontece regularmente (tempo limpo, noites muito frias ampliadas por inversões térmicas), gostaria de ter dados de mortes de 2005 por exemplo, que teve um Inverno muito parecido com este. Para ver se a anormalidade nas mortes vem apenas do frio rigoroso.

2º Dados de gripe e vacinações, estranhamente depois dos últimos anos termos tido quase paranóicas colectivas sobre gripe, campanhas e vacinações, este ano mal se falou no assunto, e acontece logo este massacre. Um pouco estranho...

3º Dados da mortalidade anterior ao inverno, ou seja, será que morreram menos pessoas antes, e agora cumulou. Eu explico o porquê da pergunta. O ano passado tivemos quase um "verão" ameno que durou 7 meses (de Março a Setembro), terão morrido gradualmente menos velhotes ao longo do ano, e que morreram agora ?

etc...

Sem dados não se consegue analisar isto devidamente. E se mesmo analisando dados, não se chegasse a nenhuma conclusão, então aí sim ainda se pode especular com outras coisas, com a própria crise, ou o próprio preço da energia e preço da saúde ou mesmo haver mais velhotes a morarem sozinhos/desprotegidos ...

Mas sem dados, é complicado especular no que quer que seja.
Espero que quem esteja a estudar o assunto esteja a olhar para tudo o que referi.

Manuel Vilarinho Pires disse...

Considerar que os velhos morrem de frio, não por causa do preço da energia, mas pelo deficiente isolamento das suas casas, é um modo interessante de varrer o problema para debaixo do tapete. Então os velhos podiam viver num condomínio fechado bem isolado e vivem em casas velhas? Comam brioche! É um argumento Marie Antoinette...

Anónimo disse...

As casas em Portugal são:
1. mal projectadas,
2. mal construídas.
Dando um exemplo - que para minha desgraça - conheço bem:
1. a cobertura do edifício tem, no desenho de projecto, um isolamento térmico, mas o terraço do último piso, e que é tecto do penúltimo, não tem isolamento térmico no mesmíssimo desenho!...
2. as caixas dos estores, assinaladas no desenho de projecto, não foram instaladas!...
e nem vale a pena falar de pontes térmicas...
Se juntarmos a isto:
a) que o valor pago pelos empreiteiros aos técnicos responsáveis das obras nem chega para suportar duas deslocações ao local durante toda a obra,
b) que mesmo quando os materiais são decentes, operários incompetentes aplicam mal (mosaicos e azulejos soltos por exemplo)
c) licenças de habitação dadas tacitamente (sem inspecção) pelas Câmaras,
d) incompetência de arquitectos que não sabem orientar e desenhar edifícíos que beneficiem da luz natural e dos ventos predominantes,
e) incompetência de engenheiros (formados ao Domingo?) que não percebem puto de transmissão de calor,
f) completa selvajaria na ocupação e ordenamento do território,
e a cereja no topo do bolo: tribunais que não funcionam e juízes completa e absolutamente calões, (no caso que já referi aguarda-se há 14 meses (!!!) que uma Sua Excelência abra uma agenda e marque (nem que seja para o ano 5473) a data para a primeira audiência dum processo contra um construtor que entrou há 11 anos no Tribunal!!!!!! )

Fada do bosque disse...

Pois... já cheguei à conclusão que os mais antigos, apesar de não possuirem a "sabedoria" e as matérias primas à disposição hoje em dia, eram mai inteligentes que certos arquitectos que só procuram a Luz! de resto não interessa.

Os empreiteiros roubam nos materiais de isolamento!
Com uma irmã arquitecta na Câmara, que se queixa que está só contra a corrupção entre empreiteiros e outros senhores da construção, vítima de chantagens por não aprovar e a ficar velha, na luta para ver se muda algo no que toca a "luvas" e subornos!!! O que lhe acontece? está a desesperar! Até familiares se tornam inimigos! assim este País não vai lá! Tudo o que toca ao poder, desde o local ao regional e ao central... está corrompido e quem nada contra a corrente, realmente não é peixe morto, mas é persona non grata!

Fada do bosque disse...

Desculpe Professor... o comentário que precede este, seria no post acima em seguimento do comentário de um anónimo, que se queixou da construção em Portugal...

Nuno Dias disse...

A partir do momento em que as pessoas passam mais tempo juntas/fechadas, parece-me natural que mais rapidamente surjam doenças associadas a tal, sendo o catalizador o frio.

Para estabelecer uma relação entre 'preço electricidade no inverno' e mortes, deverá haver uma correlação entre ambas, ao longo de uns anos. Verifica-se?