quinta-feira, fevereiro 16, 2012

O insustentável custo da energia - 2ª nota

No Prós e Contras do passado dia 13, a argumentação do Eng.º Carlos Pimenta em defesa da política seguida pelos Governos socialistas no domínio da energia eólica assentou em 3 pilares principais: o de que esta aposta libertava o país da dependência do petróleoo de que criara um "cluster" industrial que estaria a exportar "milhares de MW para todo o Mundo, da Europa à África", com "95% de incorporação nacional", e o de que esta energia seria barata.
Relativamente ao primeiro argumento, ele tem sido repetidamente desmistificado neste blogue, e foi também objecto da minha 1ª nota sobre este Prós e Contras: não há nenhuma relação entre independência do petróleo e electricidade de fontes renováveis (a não ser alguma coisa nas ilhas, o que tem um impacto nacional insignificante).
Relativamente ao "cluster" industrial, porém, o assunto merece uma nota extra.
Em Setembro de 2009, há 2 anos e meio, pela primeira vez abordei neste blogue o anunciado "cluster eólico nacional", tendo escrito:

"...Todo o trabalho de I&D nas tecnologias de turbinas eólicas que conduziu, ao fim de 70 anos, à maturidade que a geração eólica tinha atingido por volta de 1994, passou ao largo de Portugal.
Portugal acordou para a energia eólica no Governo de Guterres, em 2001, com o Prof. Oliveira Fernandes da FEUP, mas acordou apenas... como consumidor! E nisto é que, de facto, fomos pioneiros e somos líderes mundiais.
De facto, todos os outros países, sem excepção, que apostaram na instalação e consumo de energia eólica tinham previamente desenvolvido uma indústria de turbinas com tecnologia própria, como historiei, e os que não tinham ou têm essa indústria e tecnologia nacionais têm continuado no grosso do pelotão, tentando ficar o mais possível na rectaguarda sem dar nas vistas - como é o caso da Suécia, Noruega, Finlândia, Bélgica, Holanda, Polónia, Bulgária, Roménia, República checa, Eslováquia, Itália, Suíça ou França! E isto para só falar da Europa, a campeã de Kioto e das renováveis...!
Os casos mais paradigmáticos de como se atrasou a adesão ao consumo de energia eólica para dar tempo primeiro ao desenvolvimento interno de tecnologia própria e indústria nacionais de turbinas foram, sem dúvida, a China e os EUA, como historiei, e cuja abertura às importações visa pressionar os actores nacionais para a evolução tecnológica, mas sem que percam o controlo sobre os respectivos mercados. Além da China que, como mostrei, exige 70% de incorporação chinesa nas turbinas instaladas (começou por só exigir 57%...), também os EUA dão incentivos na forma de créditos fiscais à fabricação feita no seu país. Nenhum país, repito, nenhum excepto Portugal, permitiu a inundação do seu mercado de geração de electricidade por equipamentos importados de energia renovável subsidiada sem criação de qualquer emprego industrial no país!
De 2001 até ao presente (2009), e sobretudo desde 2003, a importação e instalação de turbinas eólicas foi fulgurante. Em Junho passado estavam instalados 3335 MW de turbinas eólicas, e até ao final do ano a DGEG espera ter a instalação de um total de 3800 MW, ..., num investimento que se pode estimar em 4,2 biliões de €, dos quais uns 3 em equipamento importado e o restante em trabalhos de instalação - sem mencionar os investimentos que a EDP e a REN tiveram de fazer para ampliar as redes de forma a integrar essa energia! ...
Ou seja, o mercado nacional para turbinas eólicas aproxima-se muito rapidamente do esgotamento. Que empregos, portanto, poderão vir a ser agora criados pela energia eólica em Portugal?
...

A questão que se coloca é como se poderá sustentar tal "cluster industrial", uma vez esgotado (em breve) o mercado nacional, que apenas acrescente o valor da mão de obra nas partes cujo fabrico não pode ser robotizado e que, ... não constituirá mais de 15-20% do valor da turbina, considerando que:
  1. Como Portugal não tem qualquer know-how no assunto, está completamente dependente da Enercon;
  2. Os custos de transporte das turbinas eólicas é tremendo, dada a sua dimensão, o que recomenda fortemente a fabricação local nos mercados de exportação;
  3. Os maiores mercados emergentes, os dos EUA e da China, subsidiam ou impõem a fabricação local, o que se soma à redução dos custos de transporte;
  4. Os mercados próximos, europeus, ou estão perto do esgotamento, ou protegem os seus fabricantes nacionais.
De tudo o que foi exposto, não se vislumbram razões para acreditar que estas fábricas sobrevivam ao esgotamento do mercado nacional das eólicas. Não têm condições de sobrevivência. Não se trata de uma indústria como a de automóveis da Auto-Europa onde existe um mercado relativamente estável; o mercado destas fábricas é um mercado em explosão, mas que na Europa está já quase esgotado. Que ficará praticamente esgotado em Portugal muito em breve.
Na verdade, face aos 4 biliões de € totais que terão rendido aos fabricantes estrangeiros o investimento português em energia eólica, gastar 2,7% disso numa acção de promoção política pedida pelo governo português para fazer umas fábricas que são para fechar poucos anos depois, não parece grande comissão."
Dois anos e meio depois deste escrito, e depois de se terem alardeado "36 mil empregos criados em Portugal", vejamos melhor o que o tempo clarificou sobre o assunto.

A ENEOP - Eólicas de Portugal, foi um consórcio criado em 2005 para concorrer ao licenciamento de um enorme volume de 1800 MW de potência eólica a atribuir em 2006, tendo a EDP como um dos dois principais accionistas (40%), uma congénere espanhola, mais alguns investidores financeiros e o fabricante alemão ENERCON. A ENEOP ganhou 1200 MW no concurso e, no seguimento, foi constituída uma parceria público-privada (PPP), analisada nesta tese de Mestrado, que levou a ENEOP a criar duas empresas subordinadas: a ENEOP 2 - exploração de parques eólicos SA, visando a instalação e exploração de parques eólicos, e a ENEOP 3 - desenvolvimento de projecto industrial SA, que é a que instalaria e exploraria o "cluster industrial" a criar.
O consórcio mantém hoje em dia a participação dominante da EDP com 40%, mas o restante capital está distribuído pela ENEL Green de Espanha (agora equiparada, com outros 40%), um grupo financeiro (CENERG) dominado pelo empresário Carlos Monjardino, e apenas 10% pelo industrial propriamente dito, a ENERCON alemã (en passant, note-se que na Alemanha o negócio de renováveis remuneradas com tarifas fixas - feed-in - é vedado às empresas de electricidade com responsabilidades de serviço público como a EDP...)
Embora o objectivo da ENEOP 3 seja um "projecto industrial", é de realçar que:
a) O investimento de capital próprio pelas partes foi apenas de 15% dos 1700 milhões de € alegados, de que 174 milhões se destinaram propriamente à fábrica, sendo o restante financiamento da construção dos 1200 MW de turbinas - 85% deste investimento foi obtido por endividamento externo;
b) Não se trata de uma fábrica da ENERCON alemã, que apenas investiu 10% dos referidos 15% de capitais próprios do projecto - trata-se de uma fábrica essencialmente da EDP e de uma congénere espanhola; deste modo, não há nenhum compromisso de inserção da fábrica na estratégia internacional da ENERCON, que presentemente detém 7,5% de quota de mercado mundial mas 60% do mercado alemão.
c) Embora nacional, considerando a sua localização e proprietários, a fábrica não visou fabricar aerogeradores portugueses (inexistentes), mas apenas montar o modelo E-82 da ENERCON, seguindo fielmente os "modos operatórios" por esta fornecidos para o fabrico.
d) O propósito da ENEOP 3 foi, desde o início, o fornecimento dos 1200 MW ganhos no concurso de 2006, e que garantiram aos seus accionistas o monopólio de instalação de aerogeradores em Portugal por largos anos. Propósitos exportadores foram definidos para depois disso, 2014, numa proporção de 60% das vendas.

É possível que a ENEOP tenha já exportado aerogeradores, mas quantos? Infelizmente não se revela possivel obter acesso aos relatórios e contas da empresa... porém, é possível por via indirecta estimar quantos aerogeradores terão já sido aproximadamente construídos e a ordem de grandeza das exportações.
Com efeito, informações diversas oriundas da própria empresa mostram que embora a capacidade máxima de produção prevista seja de 250 aerogeradores por ano (500 MW, com a E-82) no início de 2010 havia queixas de que a capacidade conseguida se limitava a 150, enquanto mais recentemente (Setembro de 2011) a produção de cruzeiro era quantificada em 200/ano. Nesta mesma ocasião a ENEOP 3 anunciava ter ligado à rede 816 MW, o que totaliza 408 aerogeradores do modelo E-82 da ENERCON.
Ora um ano antes, a 28 de Setembro de 2010, a mesma fonte da ENEOP 3 em conjunto com a CEO da EDP-Renováveis, assistiam à instalação em Portugal da 1000ª turbina da ENEOP, segundo o Expresso; como terá sido possível à ENEOP anunciar a inauguração do seu 1000º aerogerador instalado em Setembro de 2010, se só começou a produzir em 2009 e apenas ao ritmo de 150-200 por ano e se só um ano depois haviam sido ligados 408 aerogeradores?


Notando, de caminho, que uma fonte interna da ENEOP notara à LUSA que, daqueles 1000 aerogeradores, "muitos já tinham sido fabricados em Viana do Castelo" (muitos, não todos...), permanece a interrogação sobre onde terá nascido aquele número. Ora o INEGI publica anualmente estatísticas sobre a energia eólica em Portugal que permitem verificar o seguinte:
  • No fim de 2008, pouco antes do ENEOP 3 ter começado a produzir, a ENERCON alemã (e não a ENEOP "portuguesa") já vendera em Portugal 1272 MW de aerogeradores, cerca de 750 a 800 deles, detendo então 45% do nosso mercado. Boa parte destas máquinas já era de 2 MW, mas muitas das mais antigas seriam de potência inferior, nomeadamente o modelo E-40, de 0,66 MW.
  • Em 2009 e até à saída da fábrica da ENEOP 3 do 1000º aerogerador da marca ENERCON instalado em Portugal, em 2010, esta não pode ter construído mais de 200 a 250 aerogeradores.
Por conseguinte, a notícia do Expresso foi mistificadora, ao criar a ilusão de que em Portugal já haviam sido construídos um milhar de aerogeradores, quando desse milhar não mais de 200 a 250 o terá sido - ficando por entender o motivo da comemoração pela EDP-R do sucesso de um fabricante alemão que fornecera boa parte desses aerogeradores antes até da ENEOP existir, quanto mais da sua fábrica (sua, da EDP) ter começado a produzir os modelos daquela marca...!
Em todo o caso, é fácil de estimar que, posteriormente e até ao fim de 2011, a fábrica da ENEOP 3 não pode ter construído mais de 500 a 550 aerogeradores. Dado que uns 500 terão sido instalados em Portugal (408 estavam já "ligados à rede" em Setembro), o que abrange a prática totalidade da capacidade de produção da fábrica, as suas exportações não podem ter ultrapassado algumas dezenas de MW (e não os "milhares" alegados pelo Eng. Carlos Pimenta no Prós e Contras)!...
Naturalmente, a suspensão de novos contratos em Portugal e Espanha, que agora se verifica, coloca problemas à ENEOP, mas as maiores dificuldades que esta enfrenta serão as de financiamento, já que a PPP que Prof. Peças Lopes desenhou para a ENEOP lhe garantem, em princípio, ainda um par de anos de mercado português, até esgotar o fornecimento dos 1200 MW.
Certos mercados europeus têm adquirido pequenas quantidades de aerogeradores, em encomendas da ordem de grandeza das dezenas de MW como aquelas para as quais a ENEOP 3 está dimensionada: são os casos da Polónia, Roménia e França, por exemplo.
Porém, a pequena participação da ENERCON na ENEOP liberta-a, como disse atrás, de qualquer estratégia de privilégio desta no que respeita ao acesso a esses mercados, considerando que a sua fábrica alemã está mais próxima do leste que Viana do Castelo, e a que há que atender que a maioria dos países exige o que nós não exigimos quando devíamos - o fabrico local. Acontece que muito recentemente a ENERCON alemã anunciou uma fábrica de torres para os seus aerogeradores em França, um dos mercados europeus em crescimento, ao mesmo tempo que noticia que tem fornecido a França a partir da fábrica na Alemanha.
Por outro lado a EDP, nos mercados externos, olha sobretudo à conveniência financeira, tendo não só preferido à ENEOP a Vestas para as instalações que promove nos EUA, como a GE para instalações tanto nos EUA como na própria Europa. Até 2010 o aproveitamento pela EDP das turbinas de Viana do Castelo para o mercado americano era mesmo impossível, como já em tempos esclareci, devido a uma disputa de patentes e alegada espionagem industrial que vedou o mercado americano à ENERCON até esse ano, precisamente. Esta guerra de patentes, de resto, mostra como a "transferência de tecnologia" esperada da ENERCON pelos negociadores portugueses da PPP que a privilegiou só pode ter sido ingenuidade infantil!...
A tudo isto acresce, no rol de dificuldades, a total dependência do modelo E-82 da ENERCON, em vias de obsolescência, tanto técnica como comercial (os últimos leilões de eólicas no Brasil demonstram ser possível obter já, no mercado mundial, aerogeradores a 85% do custo actual da E-82, para potência equivalente). Não admira, por isso, que o lobby associado a este projecto procure manter o consumidor português a abastecer-se cada vez mais de eólico-electricidade sem alteração tarifária...
Com as sombras que se avolumam no horizonte da ENEOP 3, os que maiores riscos correm são os seus trabalhadores. Números recentemente disponibilizados no site da empresa dão conta do real número de empregos criados.
Extrapolando do modelo económico alemão que calculou o multiplicador de 4/3 para cada emprego directo criado na indústria eólica, aos 1386 trabalhadores da fábrica da ENEOP 3 poderão corresponder uns 1848 trabalhadores indirectos. Destes, 545 estão já considerados no "cluster", pelo que poderão estar em risco mais uns 1300, totalizando 3200 trabalhadores - fora, claro, os das instalações de novos parques, nomeadamente da ENEOP 2 (estes serão poucos, segundo um relatório do accionista CENERG, onde se dá conta de que é a EDP-R quem fornece o apoio técnico).
3200 trabalhadores são muitas bocas, embora longe dos "36 mil empregos" em tempos anunciados pelo CEO da ENEOP 3.
Ficou também esclarecido, espero, em que consistem os "milhares de MW exportados pelo cluster industrial nacional para todo o Mundo" de que o Eng.º Carlos Pimenta falava...
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Nota (em 17-2-2012): na versão inicial deste post atribuí à ENEOP os 1800 MW que no total estiveram em concurso, mas de facto a empresa só obteve a concessão de 1200 MW desse volume, o que corrigi posteriormente.

13 comentários:

Bruno Carmona disse...

Muito obrigado pelos seus esclarecimentos. O seu conhecimento e rigor são impressionantes. Querer colocar no mesmo saco a produção e exportação de aeorgeradores e a produção de energia eléctrica a partir de fonte eólica como Pimenta ou Sá da Costa pretenderam é tentar desviar as atenções do essencial.

Como Mira Amaral frisou é de salutar que Portugal exporte aerogeradores, penso que ninguém o contesta.

Mas já não é admissível que esta indústria de aerogeradores seja "alimentada" por condições especiais à produção eléctrica eólica.

É pena que estes debates sejam moderados por pessoas com fracos conhecimentos sobre o assunto como foi patente na Fátima Campos Ferreira incapaz de confrontar afirmações menos verdadeiras. Já uns dias antes na TVI também a Judite Sousa deixou que se dissessem alguns preconceitos típicos em relação à energia nuclear.

Fico à espera da 3ª nota. Ainda que sem o seu detalhe também vou tecer alguns comentários no meu blog sobre este debate.

Pinto de Sá disse...

Se a VESTAS dinamarquesa fosse portuguesa e também exportássemos 4 biliões de €/ano de aerogeradores como eles exportavam (agora estão em queda com a concorrência asiática e a retracção mundial deste mercado), eu apoiaria a política de promoção de energia eólica que se praticou por cá..
Mas nós já alcançámos a Dinamarca em CONSUMO eólico e ainda há quem queira continuar nisto, enquanto as exportações não passam de uma miragem, como documentei. A E-82 construída em Viana do Castelo está a ficar obsoleta e a fábrica na verdade só foi concebida para estes 1800 MW, como se deriva dos factos que postei.
E claro que Mira Amaral tem razão! Aliás a Espanha também suspendeu a concessão de novas licenças de renováveis e tem dos maiores fabricantes de equipamentos, a começar pela GAMESA - que, porém, há muito tempo que exporta!

Nogueira da Costa disse...

Professor, por curiosidade fui ver a tal relação entre o petróleo e o gás natural. Se é verdade que possa haver alguma indexação, e entre 2008 e 2009 o preço do GN acompanhou de uma forma muito linear o do petróleo, o que na prática se verifica é que recentemente isso já não acontece (devido, imagino, às razões que já apontou - gás xistoso e evolução do LNG):

http://www.plus500.com/Instruments/CL
http://www.plus500.com/Instruments/NG

Para mais, é preciso que estes senhores expliquem para onde vai o dinheiro que gastamos nas renováveis "endógenas" pois a impressão que me dá é que para evitar de importar gás e carvão, estamos a importar turbinas. E as empresas que detêm os parques eólicos são nacionais?

Anónimo disse...

Caro Prof.

Quem sabe sabe, quem não sabe ensina!

O Manifesto, como este seu texto, diz tanto disparate que não posso ficar calado.

1 - Como foi explicado no programa prós e contras, o gás natural não é petróleo mas tem o preço indexado ao petróleo, o que para efeito de evolução do custo do combustível para produção de electricidade, é igual.

2 - Não é verdade que antes do concurso, ganho pela Eneop,não houvesse qualquer criação de emprego em Portugal. Para sua informação, todas as torres dos aerogeradores montados em Portugal, foram fabricadas em Portugal pela Tegopi, pela Martifer, pela A. Silva Matos, pela VAM e pela Setmague. Mais, a Enercon utilizou a capacidade destes fabricantes para produzir torres para aerogeradores que foram instalados em vários países da Europa, da Ásia e até Austrália.
Para além da Enercon, também a Siemens - Sabugo fabricou transformadores que estão instalados numa grande percentagem dos aerogeradores instalados em Portugal e noutros países.

3 - A sustentabilidade das fábricas da Enercon em Portugal está longe de estar em risco. Como o Eng. Larangeira teve oportunidade de mencionar programa prós e contras, apesar do abrandamento do projecto Eneop, a Enercon não baixou a produção, tendo mesmo aumentado a produção da fábrica de pás (com a contratação de mais 100 operários), para fornecer a sua carteira de encomendas global, daí resultando um incremento significativo das exportações.

4 - A Eneop não concorreu a um concurso para a instalação de 1800 aerogeradores mas apenas de 1200.

5 - Gostava de saber como teve acesso às contas da Eneop para saber de onde vem o dinheiro.

6 - Embora sócia da Eneop, a EDP mão tem nada a ver com a Eneop3 nem a Enercon tem a ver com os parques. Como o próprio concurso previa, depois de instalados os parque as empresas separam-se.

7 - Mais uma vez está a confundir Eneop com Enercon. A Enercon começou a instalar parques em Portugal em 1998 e o aerogerador montado foi o 1000 da Enercon, num parque da Eneop.

8 - Não tente inventar um número para as exportações. Foram muitos navios e muitos milhões de Euros.

9 - Para seu descanso, apesar das dificuldades financiamento o projecto está a andar e deverá estar concluído no próximo ano.

10 - a fábrica de torres em França, não foi a unica que a Enercon anunciou.

11 - As suas afirmações relativamente ao modelo E82 e aos preços do mercado, demonstram que está muito fora do negócio para a apetência que tem em o comentar.

12 - Quanto ao emprego criado, acho que falhou por um ou dois.

António Esteves

Pinto de Sá disse...

Caro Sr. António Esteves,
Deduzo pelos seus comentários que trabalha na ENEOP 3, e como respeito todos os que trabalham em actividades transaccionáveis (em concorrência), dou um desconto ao seu azedume.
Quanto às suas afirmações, não as comento. Ou nada têm a ver com o que escrevi, ou estão erradas, ou são irrelevantes. Mas a si respeito-o, por onde trabalha, e só posso desejar-lhe, e à ENEOP 3, as maiores felicidades nas exportações!

Anónimo disse...

Por lapso escrevi 1200 aerogeradores em vez de MW. Peço desculpa.
Tudo o resto são factos e números reais. Por isso tenho muito gosto de o convidar a si e a quem mais se manifestar interessado a visitar as fábricas da Enercon e a aprender alguma coisa sobre energia eólica, aerogeradores e as suas capacidades de integração na rede.
António Esteves

Pinto de Sá disse...

Tem razão quanto aos 1200 MW, Sr. Esteves. Sabia que o concurso fora de 1200 MW, mas que haviam 1800 em jogo (está no Power-Point do Eng. Aníbal Fernandes que hyperlinkei)e, como houve ajustes no resultado final, depreendi que a ENEOP tinha acabado por ficar com os 1800 - mas tem razão, e vou corrigir isso.

Nogueira da Costa disse...

Só mais uma nota que me parece importante, dado que atirei para ali os links para a evolução do preço de mercado dos combustíveis, não fica nada mal completar com algumas contas.

Como pode reparar o preço do gás natural tem vindo a diminuir consistentemente há bastante tempo, sendo que desde Fevereiro de 2010 se mantém abaixo dos 5$/mmBtu (milhões de btu), situando-se neste momento a volta dos 2,7. Vamos considerar 5$/mmBtu.

1 MW = 3,413 mmBtu
5$/mmBtu -> 17,065 $/Mwh

Considerando o rendimento típico da central da tapada do outeiro, 55%

31,03$/MWh -> 0,76$/€ -> 23,58€/MWh

Sendo que ao preço ACTUAL do combustível, o custo seja até de 12,73€/MWh

Isto claro, é apenas o custo de combustível, ainda é preciso contar com custos do transporte do combustível, de operação, da amortização da central etc etc... Mas como sabemos, numa central a GN tipicamente o combustível é o que tem maior peso no custo final!

De qualquer maneira, considerando que é esperado que com a evolução no transporte e distribuição de LNG e principalmente com a exploração de novas bolsas de gás não convencional (nomeadamente na polónia) o preço de produção numa central a gás, que é suposto ser extremamente caro, parece a milhas de distância do preço pago às eólicas!

Lura do Grilo disse...

O Prof decerto conhece este relatório de Gabriel Calzada do Instituto Juan de Mariana intitulado "Study of the effects on employment of public aid to renewable energy sources" onde mostra de forma muito clara como este indecoroso investimento público em energia renováveis praticamente não produz empregos".

Aqui fica o link
http://www.juandemariana.org/pdf/090327-employment-public-aid-renewable.pdf

Pinto de Sá disse...

Lura do Grilo, esse estudo espanhol já foi por mim discutido aqui há 2 anos: http://a-ciencia-nao-e-neutra.blogspot.com/2010/02/economia-das-energias-eolica-e.html
Na verdade, o estudo defende que por cada emprego criado são destruídos dois, e embora eu pense que o estudo tem alguns erros, pode concluir-se que no mínimo por cada emprego temporário criado, é destruído outro, que era duradouro...
Noronha da Costa: as suas contas podem ser actualizadas com dados sobre o custo da produção a gás que tenho no blog, por exemplo aqui: http://a-ciencia-nao-e-neutra.blogspot.com/2009/09/nocoes-basicas-sobre-economia-da.html
O custo do gás é de facto cerca de 2/3 do custo de produção dessas centrais, mas o rendimento de 55% só é atingido em condições ideais de funcionamento (o apoio á intermitência "estraga" esse rendimento), e o mercado de gás em Portugal está longe de ser concorrencial. Mas o futuro próximo, nesta década, não tenho dúvidas que estará na produção a gás (já vem a estar e muitos países, na Europa e EUA)e não só pela evolução do preço do gás - também por causa do actual alto custo do dinheiro necessário para as centrais capital-intensivas, que incluem as nucleares, a carvão, e também as renováveis, especialmente a eólica e a solar.

Anónimo disse...

Caro Prof. PS,

Gostaria de deixar o meu contributo neste tema relativamente encapotado sobre os custos da energia, que na realidade confronta os "interesses” em renováveis vs. os “interesses” em nuclear.
A participação do Eng. Pimenta foi nitidamente “exageradamente emocional e extremada” como é do seu estilo (para não ser indelicado com o CP) e infelizemente o Prof. PS não aproveitou bem os seus “5 minutos de fama”, não conseguindo ser contundente na sua participação.

A meu ver esta discussão devia partir de permissas diferentes e menos extremadas para que pudesse ser realmente proveitosa:
O investimento diversificado em renováveis (incluindo eólica) faz sentido, num contexto global de evolução da política energética? FAZ!
Existem interesses directos e indirectos de grupos empresariais nacionais e internacionais no sector das renováveis? EXISTEM!
Estes interesses têm conseguido influênciar a tomada de decisões a todos os níveis, incluindo governamental, nestes últimos anos? SIM!
Existe muita “politiquice” envolvida neste tema, com antigos elementos políticos de peso envolvidos em ambos os lados desta disputa encapotada pela instalação de energia nuclear em Portugal? SIM!
Faz sentido pensar em instalar energia nuclear em Portugal, considerando o desenvolvimento da “política energética” dos últimos anos, todos os investimentos já feitos (ainda que inderiores aos propagandeados), todos os postos de trabalho e investimentos locais realizados (ainda que inderiores aos propagandeados), a dimensão do nosso país e a aposta natural e racional na eficiência energética? NÃO!
Faz sentido promover uma discussão mais “limpa” do que a que temos assistido e apostar num enquadramento mais real e vantagoso a longo prazo para a nossa política energética? SIM!!!

Anónimo disse...

Aproveito ainda para esclarecer alguns pontos, para poder melhorar as suas próximas análises deste tema e para uma discussão positiva em geral:
- Os fabricantes de aerogeradores mencionados e as utilities referidas são organizações completamente distintas e independentes umas das outras. A EDP, a Enel ou a Generg não detêm qualquer participação na Enercon nem noutro fabricante;
- A ENEOP é constituída pelas entidades ENEOP2 (consórcio de promotores EDP + Enel + Generg [e não Cenerg, como refere] – desenvolvem os projectos e exploram os parques eólicos) e ENEOP3 (parceiro tecnológico: Enercon – fabrica os aerogeradores para os projectos resultantes do concurso público), cuja colaboração está limitada exclusivamente ao concurso público que decorreu em Portugal (1.200 MW);
- Pelo acima entende-se que Enercon não pertence à EDP e que esta não tem qualquer obrigação de contratar à Enercon aerogeradores para outros projectos fora dos convencionados no concurso público de 1.200 MW (refira-se que nem à Enercon nem a qualquer outro fabricante com o qual não tenha realizado algum acordo/contrato de quantidade XX pelo período YY);
- O Eng. Pimenta pertence à ENEOP e, apesar de falar entusiasticamente em nome da Enercon, não tem esse poder nem a ela está ligada. Creio inclusivamente que tal não agradará em absoluto aos gestores da empresa alemã. O mesmo acontece com o outro administrador da ENEOP, o Eng. Aníbal Fernandes, que por vezes fala como representante/gestor da Enercon sem o ser formalmente ou legalmente;
- Todos os fabricantes de aerogeradores têm planos de investimentos em novas instalações em função do desenvolvimento dos vários mercados e das suas novas plataformas/modelos. Procure informações sobre os outros fabricantes que menciona e irá encontrar várias informações sobre os seus planos de investimentos. A Enercon sendo uma empresa privada e não cotada em bolsa, não tem obrigação de publicar qualquer informação, sendo assim mais difícil de encontrar informação “útil”;
- A Enercon está realmente a exportar grande parte dos componentes fabricados em Viana, para que sejam utilizados em projectos um pouco por todo o mundo. Esta exportação foi reforçada e anticipada devido às dificuldades de financiamento do segundo lote de projectos da ENEOP para os quais estes componentes deviam estar a ser enviados. Estas dificuldades de financiamento são conhecidas e levaram a que os projectos que deviam ter sido instalados no segundo semestre de 2011 e primeio de 2012 fossem adiados por decisão estratégica da ENEOP. Assim, e para evitar que as fábricas parassem, a sua produção foi canalizada para outros projectos de outros clientes da Enercon a operar em diversos mercados, onde o sector eólico continua a crescer.

Espero poder ter contribuído positivamente para uma discussão mais justa e construtiva.
Cpts.

Pinto de Sá disse...

Caro Anónimo,
Relativamente às informações que presta, já eram do meu conhecimento. Aparte a confusão entre GENERG e CENERG (um lapso ortigráfico), nada do que diz era do meu desconhecimento ou contradiz o que escrevi.
O facto é que, como diz, há uma tentiva de colagem de algumas pessoas à ENERCON, o que a meu ver só se consegue explicar pela tentativa de confundir as vendas da ENERCON em Portugal com as da ENEOP, "ampliando" fraudulentamente estas.
De qualquer modo, mantenho que a ENEOP 3 tem todo o meu apoio na medida em que exporte, mantendo os empregos que criou.
Quanto a que esta discussão é entre os enfeudados a interesses nas renováveis e os enfeudados a interesses no nuclear, peço desculpa mas NEM TODOS estão enfeudados a interesses!
Há certamente quem se mova por interesse em ambos os lados, mas nem todos. Eu, por exemplo.
Ou por outra: move-me o que penso ser o interesse nacional, do povo a que pertenço, e nenhum interesse pessoal, pelo contrário - se fosse esse o caso estaria era colado à EDP, com quem tinha projectos de I&D que por causa disto foram terminados - sem que em troca tivesse ganho nada do lado dos "interesses no nuclear".
Aliás, se ler honestamente o que tenho escrito, verá que nunca propus nem proponho a instalação de uma central nuclear em Portugal.
O que defendo para Portugal é a refundação das instituições capazes de gerirem tal energia no futuro (a antiga "Junta") e, para o futuro, sim, penso que cá como no resto do Mundo, o nuclear é incontornável e terá um papel essencial na produção de energia. Mas cá, nunca a menos de 10 anos, quiçá 15, pelo que jamais será coisa que me pudesse trazer benefício pessoal...