terça-feira, maio 31, 2011

O destino da população de Pripyat

O canal Odisseia passou no domingo de 29 de Maio um programa intitulado "Grandes Desastres" ecológicos que incluiu uma referência ao acidente nuclear de Chernobyl em 1986.
Já o documentário ia avançado quando comutei para o canal, a tempo de ver contar como a população de Pripyat, a cidade de 50 mil habitantes apenas a 3 km da Central nuclear, fora toda metida em autocarros "com as mãos nos bolsos" e tirada da cidade sem mais explicações, no dia seguinte ao do rebentamento do reactor. E o narrador explicava: "... milhares deles morreriam nos meses seguintes devido à radioactividade recebida".
As mentiras que se contam sobre os mortos causados pela radiação do acidente de Chernobyl são comparáveis, na História Contemporânea, às mentiras dos nazis sobre os judeus ou às dos maoístas sobre o sucesso do "grande salto em frente" nos anos 50 na China! Na verdade, nem sei como ainda não se lembraram de descobrir que os pepinos mortais que invadiram a Alemanha foram secretamente contrabandeados de Fukushima...:-))

É verdade que Pripyat foi toda evacuada e se transformou numa cidade fantasma, até hoje. E é verdade que a população deslocada sofreu duramente com essa deslocação, agravada com o desabamento das estruturas sociais e económicas que se seguiu ao fim do comunismo na Ucrânia, poucos anos depois, e que todos verificámos quando os seus imigrantes cá chegaram em massa! Mas o que não é verdade é que tenha sofrido "milhares" de mortes devido à radioactividade recebida de Chernobyl!!!
Pripyat foi severamente irradiada nas horas subsequentes ao rebentamento do reactor e início do respectivo incêndio. A figura ao lado, retirada deste relatório da OMS (Organização Mundial de Saúde) feito um ano depois, mostra como evoluiu ali a radioactividade na atmosfera a 1 metro de altura do solo (radiação gama, capaz de atravessar a pele) nessas horas (10 ao cubo mR/h equivalem a 10 mSv/h). Na altura estimou-se que a máxima radiação absorvida poderia ter atingido 0,1 Gy (~0,1 Sv para ) mas, mais tarde, tendo em conta o facto das pessoas não terem passado o tempo todo na rua mas estarem maioritariamente dentro de edifícios, essa estimativa foi corrigida para de 1/2 a 1/5 das previsões iniciais.
Como já divulguei aqui, abaixo de 100 mS de exposição à radioactividade não há provas de efeitos nocivos da mesma, aparte o efeito do radioIodine absorvido por crianças e que, por o organismo destas assimilar o iodo todo e o concentrar na tiróide, sobretudo se tiverem deficiência dele, aumenta 10 a 20 vezes o risco do raro cancro infantil nesse orgão (efectivamente verificado na região, embora com uma taxa de mortalidade muito baixa, inferior a 1%).
Mas que aconteceu então depois à população de Pripyat e dos arredores de Chernobyl, de que 70% se vieram a alojar em Kiev, a capital da Ucrânia?
De entre os muitos estudos que vieram a ser feitos sobre o assunto, vale a pena mencionar este, realizado pelos cientistas da Academia de Medicina da Ucrânia, 15 anos depois. O estudo detectou, efectivamente, um aumento do já mencionado cancro infantil da tiróide, e um aparente pequeno aumento do cancro da mama em mulheres mas, globalmente, o que constata para as regiões que mais radioactividade apanharam foi... uma redução global da taxa de cancro! O gráfico e a tabela anexos mostram-no.


Vale a pena notar que tal paradoxal redução da taxa global de cancro (relativamente à demais população) também foi encontrada nos sobreviventes das bombas de Hiroshima e Nagasaki, e poderá parcialmente explicar-se pela relativamente maior atenção médica de que estas populações gozaram depois da exposição, ao longo da vida.
Porém, os estudos epidemiológicos deste tipo são muito difíceis, por razões que vou tentar explicar sumariamente em termos simples: a sua ideia base é a de comparar o número de cancros ocorridos nas pessoas sujeitas a determinado agente suspeito (neste caso, radioactividade) com o que seria de esperar "normalmente", e ver se há um acréscimo estatisticamente significativo (as conclusões estatísticas só são fortes para grandes números).
O problema, porém, é que há imensos outros factores que também mudam a susceptibilidade das pessoas e populações ao cancro, e por isso não é simples a tal comparação com o que seria "normal" esperar. Por exemplo, os japoneses têm, para o mesmo grau de tabagismo, quase 10 vezes menos cancros de pulmão que os americanos e europeus, mas em contrapartida têm quase 12 vezes mais cancros de esófago e estômago por razões mal-conhecidas! Os negros têm muito mais cancro da próstata que os brancos, e depois há os factores ambientais, os "confundidores". Um exemplo clássico foi o estudo que, décadas atrás, "descobriu" que o café provocava cancro do pulmão, até se verificar que havia uma grande correlação entre o consumo de café e o de tabaco!
E há os factores "confundidores" que se desconhecem e que, em certas regiões e épocas, aumentam muito a incidência de certos cancros (como por exemplo a leucemia infantil, que tende a ocorrer em "clusters" regionais e temporais por causas desconhecidas).
Por estas razões, um bom estudo epidemiológico sobre o efeito da radioactividade (ou qualquer outro agente) sobre a incidência de cancro não deverá comparar simplesmente a taxa de cancros das pessoas expostas ao agente suspeito com a "média geral", mas sim com a média dos que, estando exactamente nas mesmas condições relativamente a possíveis factores confundidores (tipo populacional genético, modo de vida, ambiente, etc), só difiram no facto de não terem sido expostos ao tal "agente suspeito". E é ainda importante que o número desses outros seja grande, para que os seus valores médios possam efectivamente ser considerados como termo de comparação estatisticamente significativo, um padrão de "normalidade"!
A somar a estas dificuldades, há a dificuldade de determinação da dose real de agente suspeito a que foram expostos os investigados. Pode-se ter estado em Pripyat e ter bebido acidentalmente um copo com água contaminada, ou não...
Outro aspecto relevante são os números absolutos, para além dos adicionais estimados. Por exemplo e relativamente ao cancro da mama recenseado no estudo da Academia Médica ucraniana acima citado, regista-se um aumento médio de 50%, mas o número real de casos adicionais estimados é de 87 num total de 90 mil mulheres seguidas ao longo de 7 anos, o que deve ser apreciado, como nota o próprio estudo, com o facto de ser verificado uma grande variedade de "clusters" de casos tanto regional como temporalmente.
Tudo isto torna estes estudos difíceis de pôr em prática e também os susceptibiliza a todo o tipo de erros de método, involuntários ou propositados! Sobretudo quando a diferença entre o "normal" e o "suspeito" é pequena em termos relativos, como acontece precisamente para doses de exposição à radioactividade inferiores a 100 mSv!
Isto tem levado a que seja quase consensual na OMS e outras instituições especializadas, no presente, a impossibilidade de demonstração epidemiológica de aumentos da incidência de cancro para exposições radioactivas inferiores a 100 mSv (e para esta "dose" o risco adicional de cancro admitido pela LNT- ver abaixo - é de 0,5%), como disse - apesar de haver cientistas que continuam a tentar tais demonstrações, a que poderá não ser alheio o facto de terem na subsidiação desses estudos o seu modo de vida (como Elisabeth Cardis, quiçá a epidemiologista que mais tem publicado sobre o assunto e graças ao qual conseguiu o lugar que detém na Comissão Europeia, onde dirigiu um estudo similar sobre o efeito dos telemóveis sobre o cancro cerebral, que custou 17 milhões de € e que chegou a conclusão... nenhuma). Cardis, por exemplo, é autora de um dos estudos mais recentes sobre o efeito de Chernobyl, que pode ser consultado aqui: como de costume, conclui que os dados existentes são insuficientes, que no entanto parecem confirmar o alarme existente, e que por isso... são precisos mais estudos!
Conheço outros meandros onde se passa a mesma coisa, como nos alegados efeitos das linhas de Alta Tensão sobre a leucemia infantil...
Mas pode-se questionar: e não haverá outra maneira, sem ser pela epidemiologia, de se saber se sim ou não, baixas doses de radioactividade provocam cancro? Por exemplo, pela biologia molecular, pelo estudo experimental?
Ora esta é uma das questões mais curiosas sobre o assunto, porque, ao contrário do que se possa pensar, há neste outro domínio científico duas posições contraditórias, ambas suportadas em resultados experimentais e em boas conjecturas.
A primeira posição argumenta que, sendo ionizante, a radioactividade tem sempre capacidade de alterar o ADN, e portanto de provocar mutações cancerígenas. Quanta mais, maior a probabilidade, e daí o estabelecimento de uma relação linear sem limiar mínimo (LNT - Linear with No Threshold) para o risco de cancro causado pela radioactividade. Nesta óptica, a própria radioctividade natural ambiente causará alguns cancros, de facto 1% de todos os cancros, e é uma óptica prudente que fundamenta as práticas e limiares de protecção internacionais. Sublinhe-se, porém, que se trata apenas de uma conjectura!
De facto, a segunda posição assume a existência de um limiar mínimo para a perigosidade e não parece menos sensata: argumenta ela que os organismos têm, pela própria natureza da vida, permanentemente em luta contra todo o tipo de agressões (a começar pelos vírus...), mecanismos de adaptação e reparação dessas agressões a que são sujeitos e que, por isso, uma agressão ligeira não só não tem efeitos que o organismo não repare, como até lhe estimula a imunidade.
É a teoria que é aplicada nas vacinas e em muitas práticas médicas, do aconselhamento do exercício físico (moderado) à reabilitação do vinho bebido em doses moderadas. E também esta teoria tem fundamento experimental a nível celular, e é considerada pela Academia das Ciências francesa como aplicável à exposição à radioactividade.
No estado actual da Ciência não há consenso sobre qual das teorias é verdadeira mas, pelo sim, pelo não, as instituições internacionais responsáveis adoptam a primeira (LNT), como medida de precaução. O que parece sensato.
O que não se pode é, daí, usar essa teoria como estando confirmada cientificamente e extrapolar números de mortos por radioactividade que é impossível confirmar!

E à margem desta discussão: sabem que aconteceu às regiões de Chernobyl que foram desocupadas de presença humana, ao longo destas décadas? Paisagem lunar, não?
Pois não: transformaram-se em selva primitiva, verdadeiro paraíso ecológico para flora e fauna, livres que ficaram da presença humana! Abundam os cavalos selvagens mongóis antes quase extintos (foto anexa da National Geographic) e até o considerado extinto lince europeu agora lá se encontra...

9 comentários:

Polik disse...

Meu caro Pinto de Sá

Para desmitificar a história, é preciso ler e pesquisar para podermos saber o que aconteceu. Senão o que sabemos é aquilo que vamos ouvindo por aí contado por alguns pseudo-historiadores, que se nomeiam de comunicadores sociais (jornalistas, cimatógrafos, etc...), em que a maioria das vezes apenas querem vender e não informar.
E quando histórias destas são contada tantas vezes, para a maioria das pessoas passa a ser uma verdade universal.

Por isso o seu blog, e outros na mesma ordem de ideias, são os meus preferidos...

Continue com este excelente trabalho

Um abraço,
António Gomes
Évora

Anónimo disse...

A segunda página do artigo da NG conta uma história bastante diferente quanto ao "paraíso ecológico".

Mutações, taxas de reprodução e sobrevivência inferiores às populações de controlo, árvores com dificuldade em determinar em que direcção devem crescer. O receio de que os genes anormais passem para a população global.

Tal como no caso dos efeitos nas pessoas, é bastante difícil determinar com exactidão as causas do problema, mas não me parece difícil reservar o adjectivo "paraíso" para algo melhor.

P.Santos

Pinto de Sá disse...

@P. Santos,
Essa 2ª página da National Geographic não conta nenhuma "história bastante diferente" da que eu contei. Conta é mais coisas!
Fala, é verdade, de taxas de reprodução diferentes das populações de controlo, de albinismo excepcional e de "árvores desorientadas". Tendo em conta que há aves a fazerem os ninhos no próprio sarcófago do reactor, não é de espantar. Aquela radioactividade deve ter algum efeito, sobre animais que não tomam nenhumas medidas de cuidado.
No entanto, tenho algumas dúvidas sobre as tais populações de controlo que são referidas: por exemplo, diz-se que em Itália 40% das andorinhas retornam anualmente, e que ali só 15% o fazem; mas a taxa de retorno das andorinhas na Ucrânia, ou mesmo ali antes do acidente, era igual à italiana? Não sei...
De qualquer modo, e dado que na realidade a única experiência de contaminação radioactiva em larga escala que existiu até hoje no mundo foi precisamente esta, será cientificamente muito interessante (e útil) acompanhar de perto a vida daquela fauna e flora, como Cobaias, no fundo...

Pinto de Sá disse...

Já agora, e na linha do meu anterior comentário, encontrei isto de 2009, mais recente que o trabalho da NG que é de 2006:
http://www.reuters.com/article/2009/03/06/us-witness-belarus-chernobyl-idUSTRE52470D20090306

Mais completa é esta discussão aqui: http://wildlifenews.co.uk/2011/25-years-on-from-chernobyl/

Como se vê, há uns cientistas estrangeiros que vão lá e encontram indícios de mutações, mas os naturalistas locais acham que os outros são ideologicamente motivados. É difícil saber onde está a verdade, num campo onde há tanta paixão, mas uma coisa é certa: aquilo não é uma paisagem lunar, como certos documentários mostram (geralmente filmando a cidade deserta que, naturalmente, tem mau aspecto - como qualquer cidade abandonada!)
O certo é que parece que o Governo ucraniano vai abrir a área de exclusão de Chernobyl este ano ao turismo, como parque natural...

RioD'oiro disse...

http://fiel-inimigo.blogspot.com/2011/05/o-destino-da-populacao-de-pripyat.html

Anónimo disse...

Lá que é bizarro, é!...
O dendrologista que fala de árvores que não sabem para onde crescer, tem emprego assegurado se vier para Portugal juntar-se ao exército de «jardineiros» e «técnicos superiores de botânica» que nos tocou em sorte. Pensava eu que estas criaturas eram soltas nas ruas para mutilar impiedosamente todas as árvores que encontravam, e me satanizarem a vida por ter de ver o «fruto» do seu trabalho. Afinal é para «as orientar»…
O laboratório fotográfico da NG costuma carregar no cinzento quando fala do CO2, mas em vez de fotografias campestres usa cenários industriais para alicerçar a manipulação...
Enfim, nada de novo na moldura amarela.

Pinto de Sá disse...

O ucraniano que dedicou a vida ao estudo da bicharada na zona de exclusão de Chernobyl, colaborando com várias universidades estrangeiras, tem aqui um site:
http://www.nsrl.ttu.edu/chornobyl/gashak.htm

Pinto de Sá disse...

... e depois de rebuscar nos papers publicados pelos cientistas texanos que andaram por Chernnobyl, acabei por conseguir encontrar disponível aqui um paper deles que acho uma delícia - pela (rara) honestidade intelectual que manifesta:
http://www.groenerekenkamer.com/grkfiles/images/Chesser%20Baker%2006%20Chernobyl.pdf

A quem interessar.

Anónimo disse...

Caro Pinto de Sá,

Fantástico e corajoso o seu blog. Deveria ser de leitura obrigatória para os nossos universitários. Parabens!