quinta-feira, abril 08, 2010

De como mais depressa se apanha um mentiroso que um coxo e da argumentação ad hominem...

A versão impressa do Público de hoje noticia que "desvalorizei ontem o peso económico do pólo industrial eólico criado em Viana do Castelo" e que o considerei "um cluster que faz umas montagens", sublinhando, segundo o Público, "que a Enercon, o parceiro alemão que liderou o projecto com a EDP, tem um problema de exportações por um litígio de patentes com a General Electric, que a proíbe de exportar para os EUA".
Confrontado sobre isso, o responsável pelo projecto industrial da ENERCON em Portugal Aníbal Fernandes, afirmou o seguinte, segundo o Público: "não aceito comentários soezes de um ex-PIDE-DGS". E diz que "considerou ofensivas" as minhas declarações, e que apenas entende "a desvalorização da importância do núcleo de Viaba do Castelo, com 2100 postos de trabalho qualificados directos e cinco mil indirectos, vinda de uma pessoa que não merece credibilidade", citando "a sua ligação à polícia política, durante o movimento estudantil, e que considera assumida no livro Conquistadores de Almas, editado pela Guerra e Paz em 2006".

Vamos então aos factos e deixemos as conclusões (e os julgamentos) para o leitor.

Não me lembro de ter afirmado ontem que o "cluster" "fazia umas montagens" (na verdade acho que foi outro membro da mesa que disse essas palavras), mas admito que desvalorizei o "cluster" e que mencionei a história do litígio de patentes com a General Electric.
Ora este litígio existe, e já contei neste blog detalhadamente a sua história aqui, e que pode ser consultada aqui. Contei a história com links para as suas fontes, como faço sempre que falo de factos destes, e é algo que qualquer pessoa pode confirmar com uma busca na wikipedia.
Resumindo os factos, nos anos 80 a tecnologia de velocidade variável desenvolvida pela ENERCON e que permite aproveitar muito melhor o vento e que não exige a problemática caixa de velocidades das turbinas de velocidade fixa que havia até então, terá sido roubada usando o Echelon, e patenteada pela Keneteck Windpower que depois foi comprada por outra que faliu e foi comprado por outra até acabar nas mãos da General Electric. E isso deu origem a um litígio, em que os americanos acusaram a ENERCON de ser quem violou a sua patente, o que terminou em 1994 numa decisão judicial que proíbiu o acesso da ENERCON ao mercado americano até 2010. Está tudo documentado e comentado na Internet.
Ora eu nunca coloquei em causa a qualidade técnica da ENERCON! O que afirmo é que para uma estratégia industrial de exportação, sendo o mercado americano um dos de mais rápido crescimento, é obviamente um handicap ter um parceiro estrangeiro com estes contrangimentos comerciais. Ou não é verdade?

Por outro lado, e quanto ao valor do cluster eólico de Viana do Castelo, é de deitar foguetes por Aníbal Fernandes ter finalmente dito um número verdadeiro! 2400 empregos directos, diz agora, e deve ser um número certo, porque é congruente com os números do relatório da APREN/Delloitte. Ainda bem para esses trabalhadores! Porém, ainda não há muito tempo Aníbal Fernandes afirmou na TV que em breve teríamos 36 mil empregos nesse cluster, há ano e meio prometeu 20 mil empregos para agora, e trata-se de algo que tenho seguido atentamente, tanto mais que Aníbal Fernandes deve ser um dos principais mentores dos 30 e tal mil empregos que a APREN e o Governo têm apregoado sobre a criação de emprego nos tais "clusters"...
Porém, o que tenho questionado é principalmente a falta de incorporação tecnológica própria que, conjugada com a exigêngia de montagem local dos países que estão a instalar eólicas em quantidade, me leva a duvidar muito da sustentabilidade desta produção quando se esgotar o mercado nacional. Bem sigo as notícias a ver se encontro algo sobre eólicas fabricadas em Portugal e exportadas, mas ainda não tive a sorte de encontrar dessas boas novas...

Finalmente e quanto ao livro Conquistadores de Almas; agradeço a publicidade de Aníbal Fernandes e recomendo-o a todos os interessados na nossa História de há 40 anos, quando eu e ele tínhamos 20 anos: pode-se encomendá-lo pela Wook e custa só 17 €. Mas para quem tiver muita pressa em lê-lo, voltei a abrir ao público um blog que em 2006 fiz sobre o assunto e que contém largos resumos do livro. Podem lê-los aqui.

5 comentários:

Anónimo disse...

Começa a perder razão quem mistura argumentos políticos, com linguagem datada dos anos de brasa, quando muitos acreditavam que o assalto ao nosso Palácio de Inverno estava iminente e o horizonte era vermelho e ridente.

As opções técnicas discutem-se, acima de tudo, com argumentos técnicos, de base científica e, só depois, as de carácter político, que hão-de enquadrar as primeiras, esclarecidas pelo debate havido.

A linguagem utilizada por Aníbal Fernandes é completamente inaceitável, fora do tempo e, desde logo, inquina qualquer discussão técnica ou política.

Como velho amigo, colega ou camarada de ambos os intervenientes na discussão por interposto jornal, recomendo-lhes, especialmente ao Aníbal, maior serenidade e lisura nos procedimentos, sob pena de ficar impossibilitado qualquer tipo de diálogo e voltarmos à exaltação de 1974-75.

Mais uma vez, aproveito para felicitar o autor deste blogue, por expor os seus argumentos à discussão pública, sujeitando-os à crítica, ao exame de cada leitor interessado nas questões da Energia, intervindo com o seu próprio nome, vencendo alguns pruridos típicos de universitários.

Nos tempos que correm, já não é pequeno feito.

AB_09-04-2010

Hugo Miguel Canhoto Mendes disse...

Como se agitam em suas cadeiras quando confrontados os interesses instalados com factos lógicos, e "quiçá " cientificos.

A propósito de planeamento..há coisa de alguns anos, houvera alguém que entendeu ser uma oportunidade de negócio construir um refinaria em Sines. Foi negada. Hoje, temos déficit de produtos refinados, sobretudo no famigerado diesel e que puxa os preços dos mesmos.

Pinto de Sá disse...

Ao Anónimo:
Depois do seu comentário e de uma foto de 2007 que vi dele há dias, pareceu--me reconhecer traços de um rapazito louro das hostes da UEC(m-l) que se opunha ao meu grupo (CCRM-L), no movimento estudantil do IST. Será o mesmo? E por onde terá ele andando no PREC? Na "facção Mendes" que aderiu à UDP pró-albanesa, ou ao PCP(m-l) de Vilar e de Pacheco Pereira?
Mas passando à substância:
O tipo de resposta ad hominem do Sr. Aníbal Fernandes mostra como todo este assunto é uma mistura de ideologia messiânica, como a dos estalinistas do PREC, com grandes interesses e promiscuidades.
A resposta dele não me surpreende porque, desde o início do meu blog, que penso que estamos em plena guerra ideológica e que receio muito que a Europa se esteja a encaminhar para uma deriva decadente e totalitária de novo tipo mas velhas tradições. Enquanto o resto do mundo se ergue da miséria ancestral.

Anónimo disse...

Já se estava à espera desta resposta o "establishment" eólico. Infelizmente em Portugal sempre que o governo (e "lobbies" associados) se confrontam com uma adversidade tem sempre a mesma estratégia:

1 - Fazer com que os "media" não divulguem a notícia desfavorável. (Se for preciso liga-se ao director do jornal...)

2 - Se por acaso o ponto 1 falhar ataca-se as figuras associadas (neste caso aconteceu com o Eng.º Mira Amaral antes até do manifesto ser apresentado e com o Prof. Pinto de Sá no dia a seguir à apresentação). Nem que seja com factos (ainda por cima adulterados) de há 35 anos...

3 - Fazer tudo por tudo para que não se volte a falar.

Infelizmente esta estratégia (muito aplicada no contexto dos partidos políticos) em nada contribui para o cabal esclarecimento das questões...

Os meus votos que o manifesto tenha seguimento e contribua para esclarecer as pessoas.

Anónimo disse...

Caro Professor,
Tal como eu, imagino que outros leitores dos seus textos não andem aqui à procura de orientação ideológica para as suas escolhas políticas. Por isso espero que continue a fazer aquilo que tem feito bem, muito bem (!) mesmo: escrever sobre energia, elucidando com clareza e simplicidade, assuntos de razoável complexidade, para que cada um em consciência saiba fazer boas escolhas.
Porque no que toca à política e governação, desde 1143 nunca se viu um bando de ladrões e criminosos deste calibre à solta em Portugal…
;-)