sábado, janeiro 23, 2010

O pensamento único abre brechas!

Como sabem, há umas duas semanas dei aqui conta de como a convergência normal entre intenso vento e chuva copiosa em todo o território nacional levou à situação de termos as eólicas a produzir a plena potência e as hídricas também - e não termos onde meter essa energia. E daí a sua "oferta" a Espanha, que por sua vez a passou a França e por aí fora.


Este absurdo, resultante da política energética existente, tem passado ao largo do Pensamento Único, que continua na generalidade extasiado com a estratégia de quem nos governa nestas matérias. Mas não há machado que corte a raíz ao pensamento e hoje, finalmente, um dos baluartes da liberdade de Imprensa em Portugal dá notícia impressa do facto. Preza-me que seja o Expresso que o faça, porque já em 1973 este jornal era um dos dois cuja leitura era proibida em Caxias (o outro desapareceu há muito).
Claro que a notícia está correcta quanto aos factos mas errada quanto às causas que lhes aponta. A culpa do que tem acontecido não é do mau tempo. Do ponto de vista das energias eólica e hídrica, de facto, o mau tempo é o melhor tempo! Como se pode ver nos gráficos europeus que mostrei aqui, nos 3 meses de Inverno (25% do ano) as eólicas geram em média 35% da sua produção anual, mas nas horas de produção máxima geram o dobro no Inverno do que geram nas melhores horas de Verão!
Dizer que a culpa disto é do mau tempo é equivalente à culpabilização da cegonha pelo apagão nacional que ocorreu em 2000!

Um outro escrito impresso que o Expresso publica hoje e que é também uma brecha no Pensamento Único é o artigo de Todo Bom sobre as PME.
Cito dele as seguintes afirmações que contêm verdades lapidares (carregados meus):

"As economias sólidas apoiam-se em grandes empresas (GE) e não em PME. As PME são organizações complementares no preenchimento da malha industrial, ou transitórias no seu processo de crescimento para GE, onde ganham capacidades e recursos para poderem ser competitivas no mercado global.

...Este deslumbramento e obsessão nacional pelas PME é pouco saudável, assim como as declarações superficiais de que é necessário apoiar genericamente as PME.
Infelizmente, os estudos que têm sido produzidos e divulgados, incluindo os oriundos das associações empresarias, são de uma pobreza intelectual confrangedora em termos do seu suporte teórico.
Uma das suas fragilidades reside na ausência de análise matricial destas organizações em termos de tecnologias/mercados, de que resultariam recomendações de acções estruturantes diferenciadas.

...Acreditar que, na fase actual dos mercados, as PME portuguesas têm recursos suficientes, mesmo com apoios públicos, para desenvolverem com sucesso processos de investimento internacionais é pura ficção. Quando muito, poderão incrementar, marginalmente, as suas exportações.
... não se conhece nenhum programa, com a intervenção obrigatória das sociedades de capital de risco com fundos públicos, desenhado para o apoio às acções de fusão, concentração e reorganização sectorial de PME no sentido do seu crescimento e incremento de competitividade".

As PME são uma bandeira tanto da Oposição como do Governo, e tudo o que Todo Bom escreve sobre elas se aplica à grande ideia que agora assola as nossas Universidades segundo a qual a "Transferência de Conhecimento" recentemente arvorada como um objectivo a perseguir se mede pelo número de "start-ups" engendradas.
Na verdade, as "start-ups" tecnológicas só terão algum impacto sócio-económico se a sua actividade se articular com a das grandes empresas, como o há muito esquecido "relatório Porter" preconizava nos anos 90 com a sua ideia dos "clusters" e das ligações em "diamante".
Quando, por exemplo, em 1993 acordei com a nossa maior empresa nacional fabricante de material eléctrico o projecto de desenvolvimento de uma nova linha de produtos (protecções digitais), na verdade não era nessa linha de produtos que essa empresa estava interessada. No que estava interessada era na manutenção da competitividade de uma outra linha de produtos muito mais importante para ela (SCADA), que por sua vez era a peça essencial de uma estratégia lançada dez anos antes para a manutenção da competitividade dos produtos tradicionais da empresa. A tal referida nova linha de produtos que desenvolvi poderá não ter criado mais que uma dezena de empregos, mas ajudou a manter outras largas centenas!
Isto são factos mais que sabidos de quem, por exemplo, leia a IEEE Transactions on Management!
É por isso que o ardente entusiasmo da política tecnológica que guia as nossas Universidades e que agora descobriu as "start-up" tecnológicas é o contrário do que parece. É, de facto, a desistência da procura de laços com a sociedade e a economia reais, a desistência da procura dos problemas reais das empresas existentes e da humilde adaptação da I&D às suas necessidades. É a resoluta adopção da velha átitude da torre de marfim, agora travestida de "transferência de conhecimentos" para empresas que na verdade não existem: são meros arranjos de oportunidade copiosamente subsidiados por fundos públicos que nunca irão a parte nenhuma!
Exactamente como os grupos de estudantes maoístas que, há 40 anos, achavam ter descoberto a verdade revolucionária e decidiam promover a revolução proletária sem nunca sair da Universidade!

12 comentários:

Eduardo F. disse...

Permita o autor deste blog que lhe dê os parabéns pelo seu contributo contra o Pensamento Único. Quando hoje abri o Expresso e vi o artigo citado na primeira página do jornal, fiquei-lhe grato. Com toda a sinceridade.

Já sobre as GE e as PME e os seus méritos relativos em Portugal, parece-me haver matéria para discordância. A EFACEC não é uma GE. Nem à nossa escala. E se admitirmos que a PT, a EDP, a GALP são (pequenas) GE, a coisa permanece inquinada enquanto a pata do Estado lá se mantiver. Não me consta que uma SONAE ou a Jerónimo Martins se tenham tornado (pequenas) GE por outros motivos que não os seus próprios méritos.

Quanto às PME, e especialmente às exportadoras, bastará que o Estado não lhe coloque dificuldades ou as discrimine negativamente.

Pinto de Sá disse...

Caro Eduardo F.:
O grupo EFACEC tem 4 mil empregados ao todo e presentemente um volume de negócios anual da ordem dos 600 milhões de €. É uma empresa INDUSTRIAL, portanto PRODUTIVA, com tecnologia e capital essencialmente nacionais, que exporta metade das vendas e que se move em mercados altamente competitivos, quer em Portugal quer no estrangeiro.
É, portanto, um paradigma daquilo que todos os economistas dizem ser preciso: produtora de bens TRANSACCIONÁVEIS.
Não estou a ver muitas que se lhe comparem, com estas características...
No sector eléctrico não tem, garantidamente, comparação!
Claro que à escala internacional é apenas uma empresa média sediada num país insignificante, mas que acontece ser o nosso...
Mas claro que está longe de ser um modelo de gestão nestas coisas de tecnologia. Entre outros problemas, sofre de um cancro: o ultra-regionalismo nortenho.

Jorge Oliveira disse...

Tenho dúvidas acerca desta tese de Luis Todo Bom.

É verdade que nunca percebi muito bem o que querem dizer os políticos quando enchem a boca com o “apoio às PME”. Possivelmente, não passa de mimetismo e marketing político. Parece bem dizer as palavras mágicas e nenhum deles quer ficar atrás dos outros.

Mas não me parece mal que as PME suscitem alguma forma de apoio do Governo. Ao fim e ao cabo, as PME sustentam a vida de muito mais pessoas do que as grandes empresas. Nestas, o que frequentemente se observa é a intenção de afastar trabalhadores e retirar regalias aos que lá se mantêm. Alguns exemplos da nossa praça chegam a ser vergonhosos, sobretudo nas grandes empresas que têm uma participação do Estado, onde pontificam gestores do tipo paraquedista com remunerações obscenas.

O que parece constituir obsessão é a famosa “competitividade”, outro termo que costuma encher a boca de políticos e comentadores. Uma ideia tanto mais suspeita quanto a maioria dos que falam em competitividade nunca passou por nenhuma etapa da vida que fosse verdadeiramente competitiva. Na generalidade dos casos, convidam-se uns aos outros para bons lugares, sem sequer prestarem provas. E do alto dos poleiros em que se encontram recomendam ao resto do pessoal que participe em campeonatos que eles nunca disputaram.

Neste domínio, é elucidativo observar alguns trastes que desfrutam de remunerações bastante acima da média da população, mas que não se coibem de vir a público fazer fretes ao governo, recomendando a contenção, senão mesmo a redução dos salários. Podiam, ao menos, estar calados.

A vida política nacional está inquinada com maus exemplos e como o exemplo vem de cima, não há maneira de o país se endireitar.

Pinto de Sá disse...

O problema de GE vs PME é complexo. Qualquer dia desenvolvo um post sobre isso, na perspectiva da inovação tecnológica (na temática do Blog).
O apoio prioritário defendido pela Oposição às PME tem, a meu ver, dois motivos: a) combate IMEDIATO ao desemprego; b) combate aos arranjos com as grandes construtoras que o Governo prefere, por deles pouco mais advir do que aquilo que toda a gente sabe: volumosos financiamentos por baixo da mesa e outros favores - como os ordenados chorudos de que o caro Jorge Oliveira fala.
Todo Bom coloca-se na óptica da competitividade da economia TRANSACCIONÁVEL, e nisso tem inteira razão mas a escala de tempo de que fala é, de facto, outra, não imediata.

Anónimo disse...

Pinto de Sá disse...

"É, portanto, um paradigma daquilo que todos os economistas dizem ser preciso: produtora de bens TRANSACCIONÁVEIS."

Também me parece que um dos problemas de Portugal é o de não conseguirmos produzir nada que se venda lá fora. Pelo menos algo de valor acrescentado como tecnologia (pode até nem ser de ponta).

Basta ver que as economias que aguentaram melhor esta crise foram a da França, Alemanha, Japão, China, Brasil, etc. Tudo países cujo modelo de desenvolvimento se baseia na indústria para exportação.

Os países que basearam a sua economia no sector financeiro (vulgo casino das bolsas) e imobiliário (fortemente ligado ao financeiro por via de empréstimos) como os EUA e Inglaterra (vulgo os que abandonaram a sua indústria) são os mais afectados pela actual crise.

No entanto parece-me que não existe modelo de desenvolvimento económico coerente (se é que existe algum) em Portugal mas antes umas políticas televisivas. Podemos até tomar o exemplo dos nossos vizinhos espanhóis que a determinada altura com Filipe González fizeram reformas importantes e bem fundamentadas o que resultou que o PIB/habitante espanhol (35000$/habitante - 2008) seja bastante superior ao português (23000$/habitante - 2008).

Sei que esta temática não é do âmbito deste "post" mas não consegui conter. Estou um pouco farto de ganhar menos que os nossos parceiros europeus devido à falta de políticas económicas coerentes.

Pinto de Sá disse...

Hei-de desenvolver reste assunto.
Entretanto, sugiro a leitura disto:
http://a-ciencia-nao-e-neutra.blogspot.com/2009/07/o-que-impede-as-empresas-de.html

Anónimo disse...

Com o devido respeito, o valor das análises sociais do Luís Todo Bom é igual ao das análises do Mariano Gago, e só numa bananada de país é que se produzem gestores deste calibre.
Se observar a lista das maiores 50 empresas dos EUA há 50 anos, e a comparar com a mesma lista actualmente, poderá tirar algumas conclusões interessantes. Desde logo não serem iguais. A preocupação com as PME’s é essencial para manter uma economia de mercado saudável a funcionar. As grandes empresas tendem a ser como o Estado, a portar-se mal como o Estado, e por último a assaltarem o Estado (nem me vou dar ao trabalho de dar exemplos portugueses). Não é preciso ser-se o Bill Gates para perceber que qualquer grande empresa começou por ser uma PME, e que qualquer PME se tiver essa oportunidade se transformará numa GE.
O que se passa é que a defesa das PME’s nas iniciativas desta gente é uma vigarice. Qual é o país civilizado que não se preocupa com as PME’s? Um doce se houver um exemplo (estou a partir do princípio que o conceito de «civilizado» é igual), e atente-se na – severidade - das leis de concorrência antes de se continuar a argumentar.
O que é preciso na economia portuguesa é o mesmo que é preciso para a opção nuclear: gente séria, e competente na política, que produzam legislação séria e competente, para que a justiça possa funcionar, e a economia também, a começar pelas PME’s – já agora: quantas patentes são detidas pelas PME’s e quantas são detidas pelas GE’s? Não sei o resultado quantitativo mas desconfio do qualitativo…
Mas olhemos então para esta nossa economia de GE’s. Parece-lhe ter ponta por onde se pegue o Continente ter adquirido o Carrefour, sem oposição da autoridade da concorrência? Os tarifários das comunicações móveis? Os tarifários dos bancos? O preço dos combustíveis? O preço da energia eléctrica? A privatização da rede de muito alta tensão? Os critérios de selecção dos grandes accionistas nas privatizações? O numerus clausus da medicina? Um país cujo território – terra mais mar – o torna um dos 10 maiores do mundo não ter uma estratégia de desenvolvimento assente no mar em detrimento da estratégia da auto-estrada, barragem, aeroporto e TGV? A entrega de 30% da península de Tróia à Sonae? Os múltiplos PIN’s aprovados para o litoral alentejano, dados de mão beijada à meia dúzia do costume? O Marquês de Pombal é que percebeu onde reside o problema: nas famílias, no sentido mafioso do termo. Da monarquia para a República passaram de Dom’s a Dr.s, e como os casamentos são consanguíneos o QI dos descendentes – que continuam a governar (e também me vou dispensar de dar exemplos) - é o que se vê…
Evidentemente que nada daquilo que acabei de escrever fará sentido, se entendermos que a economia deve ser centralizada. Somos todos livres de pensar que a Coreia do Norte com as suas GE’s é um exemplo… particularmente quando já fomos ou podemos vir a ser administradores duma dessas GE's...
Desculpe-me Professor, normalmente aprecio – e admiro - os seus textos sobre energia, mas neste tema não se saiu tão bem como me habituou. Mas é um mal que só os que escrevem textos de 20 valores podem sofrer.
Cumprimentos e obrigado pelo espaço,
Luís Melo Saraiva

Eduardo F. disse...

Caro Pinto de Sá,

Exactamente. Era o meu ponto. A EFACEC é uma PME embora o seu volume de vendas (não o seu produto!) corresponda a cerca de 0,38% do PIB.

A rede de que fala Todo Bom sucede em redor, por exemplo, de uma AutoEuropa. Não acontece tal com a EFACEC tanto quanto julgo saber. Ou até mesmo com a EDP (na versão "renovável" ou outra qualquer).

A tentação governamental voluntarista da formação de clusters tem dado no que tem dado: nada, excepto dinheiro gasto sem qualquer tipo de reprodutividade.

Mas fico a aguardar o seu post sobre esta matéria. Pela minha parte, prometo empenho no debate.

Jorge Oliveira disse...

Caro Prof. Pinto de Sá

Fazer a apologia das Grandes Empresas (GE) em Portugal afigura-se tarefa difícil. De um modo geral, os portugueses não se mostram muito satisfeitos com as suas GE, na medida em que, com algumas excepções, as GE nacionais não passam de delegações do Estado.

De facto, apesar de várias dessas empresas terem uma parte de capital privado, não dão um passo significativo, nem nomeiam um conselho de administração sem o beneplácito do governo em funções.

Em Portugal, também com poucas excepções, não se encontram verdadeiros grandes empresários, daqueles que arriscam o seu próprio dinheiro. O que mais se encontra à frente das nossas GE são uns quantos artistas que arriscam o dinheiro dos outros, em boa parte dinheiro público, sem nunca virem a sofrer consequências por eventuais actos de má gestão.

Mas, deixando de parte estes desabafos e procurando agora conciliar o tema central deste blog, que é a Energia, com a questão dos bens transaccionáveis e a competitividade da nossa economia no mercado global, deixo aqui uma pergunta provocadora : a energia eléctrica é um bem transaccionável?

Pinto de Sá disse...

Não, não considero a electricidade um bem transaccionável. Teoricamente será, onde existam mercados dela, mas na prática não. Aliás, só conheço dois países para quem a indústria de electricidade tem grande peso nas exportações e estrutura muitas actividades internas de I&D em redes eléctricas: a França e o Canadá.
Por isso é que penso que estas indústrias, não sendo de bens transaccionáveis, devem apoiar as que o são, ou seja, as de equipamentos. É o que fazem as alemãs relativamente à SIEMENS e às de renováveis, as japonesas relativamente à Toshiba e Hitachi, e evidentemente a EDF - e até a Iberdrola. Há 15 anos sei que havia em Espanha uma taxa na energia que tinha de ser gasta obrigatoriamente em I&D - e poderia citar vários importantes desenvolvimentos tecnológicos que foram desenvolvidos por promoção da Iberdrola, por exemplo. Uma das empresas daí resultante que nos anda a tentar invadir o mercado e já se colocou muito bem nas Américas é a ZIV, por exemplo...
E também cá, a EDP sempre protegeu e protege a EFACEC. Mas a EFACEC sofre de diversos vícios, e a EDP devia diversificar e alargar a outros essas "amamentações"!

Anónimo disse...

Primeiro quero deixar os parabéns pelo seu excelente blog de que sou regular visita.

Apesar de ser um pouco lateral ao tema, da referência à EFACEC como "a nossa maior empresa nacional fabricante de material eléctrico", lembrei-me do maior agrupamento industrial nacional do passado recente; o grupo CUF.

Gostaria de perguntar ao autor se seria o grupo CUF uma GE mesmo no panorama internacional e se teria capacidade (tecnologia e inovação) para impor-se num mercado aberto como o do pós-adesão, se não tivesse sido nacionalizado.

Cumprimentos,
Manuel Fonseca

Pinto de Sá disse...

Caro Manuel Fonseca,
É muito difícil responder a tantos "se" sobre especificamente a CUF, sendo que para mais não sou economista.
A CUF deve-se à visão empresarial de um homem, mas de tecnologia nacional nunca teve nada. Isso simplesmente nunca houve, em Portugal, nesse tempo. Os próprios operários iniciais da CUF foram trazidos da Alemanha.
Face a isto pode-se é discutir se foi avisada a entrada para a UE. Mas eu penso que a questão também se não punha: entrámos para a UE para ir receber os fundos que nos permitiam salvar da instabilidade política e pronto!
Não resultou? Noutros países resultou, essa ajuda: Coreia, Japão, Alemanha (no pós-guerra), em boa parte na Irlanda, na Finlândia, agora na República Checa e na Eslováquia...
Tenho opinião sobre os porquês da coisa, mas expô-la seria entrar numa longuíssima conversa que seria muito lateral aos temas para que tenho algum tempo com que me ocupar.