domingo, julho 12, 2009

Ainda os carros eléctricos: notas inconvenientes

Sendo electrotécnico e dedicado às "novas tecnologias", porque não partilho eu o entusiasmo esfusiante do Governo com a ideia dos carros eléctricos já para amanhã (2011, prometeu o MIT-Portugal na TV)?
Convém notar que obviamente reconheço ao automóvel eléctrico o potencial de redução de emissões de CO2 se a electricidade de que fôr abastecido provier de "fontes limpas", e que a longo prazo o acho bastante plausível, como alternativa ao esgotamento do petróleo. A "longo prazo" quero dizer, porém, 20 anos ou mais, e a tal distância não é possível saber se não se inventarão entretanto novas tecnologias que redefinam o problema num quadro imprevisível hoje.


Começo por lembrar que,
como já mostrei, o custo do "combustível" eléctrico será muito semelhante ao dos automóveis a gasolina optimizados para a respectiva economia, ou seja, híbridos, depois de descontado o Imposto sobre combustíveis da gasolina e adicionados à electricidade os 40% de défice de que presentemente beneficia. Alguns panegíricos esquecem-se destes factos ao fazer as contas, e é até possível que na fase de lançamento um Governo "ofereça" a electricidade ao preço a que está e mantendo o Imposto sobre Combustíveis para os a gasolina, mas tratar-se-á de uma grosseira vigarice, porque evidentemente não será sustentável manter tal distorsão política dos preços se houver mesmo uma massificação do automóvel eléctrico! No entanto, para preços da gasolina a partir de 1,15€ (com impostos) poder-se-á dizer que, do ponto de vista estrito do custo da energia, o carro eléctrico se torna competitivo.
Porém, o custo dos automóveis em si será bastante superior aos modelos hoje em dia populares, a menos que a sua produção se massifique à escala mundial. Ora tal massificação não está nas mãos deste Governo nem sequer nas de Portugal, e não há nenhum movimento internacional nessa direcção.
Naturalmente, é fácil a fabricantes de automóveis produzirem protótipos e até pré-séries experimentais, se virem que isso lhes dá uma boa imagem publicitária e sobretudo se para tal forem subsidiados pelas políticas tecnológicas dos Governos. Mas nenhum passará à produção em massa se não tiver mercados garantidos, e sem isso os preços dos carros nunca baixarão.

No entanto, o grande e antigo óbice maior dos carros eléctricos são as baterias.
As baterias que hoje equipam os carros têm funções meramente auxiliares e não poderão servir para deslocar carros inteiramente eléctricos. As que no presente estado da tecnologia têm capacidade e pouco peso suficientes para esta função são as de iões de lítio, como as que equipam os submarinos e também os dispositivos electrónicos portáteis, e que levam 6 vezes mais energia por kg que as bateriais de automóvel tradicionais. O Tesla californiano usa grandes quantidades de baterias de computadores portáteis empilhadas, que podem ser substituídas com relativa facilidade.
Ora estas baterias acarretam várias contrariedades que não estão resolvidas:
1) A autonomia que proporcionam dificilmente ultrapassa os 150 km; nem dá para ir de férias ao Algarve ou fazer o Porto-Lisboa.2) Uma vez descarregadas, requerem cerca de 4 a 8 horas para a recarga.
3) Para que pudessem ser simplesmente substituídas, em estações de recarga próprias como nas bombas de gasolina, era preciso que: a) fossem normalizadas de modo a servirem em todos os modelos de automóvel; b) houvesse muito mais baterias em circulação, a fabricar; c) houvesse estações industriais de recarga de baterias e circuitos comerciais para a sua distribuição, como há para a gasolina; d) o custo deste serviço de recarga não fosse incomportável; e) se resolvesse o ponto seguinte.
4) Estas baterias, que pesam umas centenas de kg, perdem cerca de 20% da sua capacidade por ano. Ao fim de 3 a 4 anos têm de ser substituídas, e não são baratas: nunca menos de 700 €/kWh cada, e...
5) O lítio de que são feitas é um metal raro de que a Bolívia e o Chile detêm 50% das reservas mundiais de extracção mais fácil. Recentemente tem havido uma corrida internacional à compra dessas minas, o que augura futuras especulações sobre o preço do lítio semelhantes às de que sofre hoje em dia o petróleo!
6) As baterias de lítio são dadas a explodir e têm riscos de segurança consideráveis, embora isso possa ser melhorado mas com custos extra, claro.

Entretanto, e pensando no povo real que vive nos subúrbios das nossas grandes cidades, amontoando os automóveis por cima dos passeios dos seus bairros, ocorre perguntar: onde vão as pessoas carregar as baterias dos seus carros eléctricos durante a noite, se nem garagem têm?

Desejando veículos eléctricos, e dado que o carro eléctrico fará sobretudo sentido para as curtas distâncias casa-trabalho por causa da sua falta de autonomia, não será mais sensato pensar em modernizar e estender os comboios eléctricos, o metro, e até pensar em voltar aos eléctricos colectivos (em carris) e aos trólleys (vd. figura), como existem nas cidades da Europa com boa qualidade de vida?
Na América do Norte poderá fazer sentido discutir se o carro eléctrico não será preferível ao metropolitano e ao eléctrico citadino sobre carris, mas as cidades lá são completamente diferentes, muito mais extensas e pensadas de raíz para o automóvel e, por outro lado, os EUA deixaram-se atrasar tanto na qualidade dos seus carros que a repensá-los de raíz poderá justificar-se dar um salto em frente desses, até porque os americanos vivem na esmagadora maioria em vivendas com garagem própria onde fará sentido carregar as baterias durante a noite. Mas seria prudente esperar para ver...

2 comentários:

al w.f. disse...

Será sempre difícil mudar o rumo. Começámos nos automóveis, há mais de 100 anos, e começámos mal. Continuamos mal (cada vez pior) e vamos acabar mal se não mudarmos o rumo. Mas é evidente que essa mudança implicará sempre avultados custos.

Quanto não existiam estradas, a sua construção implicava um enorme investimento. Agora que as estradas existem, parece que temos uma espécie de obrigação de as continuar a utilizar, apelidando os sistemas de transportes alternativos, que impliquem a construção de outro tipo de vias, como irracionais.

O famigerado caso dos formatos vídeo VHS e Beta é mais um destes que envolve o mesmo tipo de ingredientes. Casos destes há muitos na economia.

E no entanto, uma verdade evidente é que se o nosso rumo aponta para um cenário mau, se não mudarmos de rumo acabaremos por ir lá dar. E mudar de rumo pode implicar algum esforço.

Sou acérrimo defensor de redes de transportes públicos, sobretudo em zonas de maior densidade populacional (embora também nas demais) e tenho muita pena que em Portugal os transportes públicos tenham tão má qualidade (quando existentes - não nos centremos apenas nos casos das maiores cidades), quase que tratados como uma enorme chatice, que tem de ser, para os coitadinhos que não podem andar no seu próprio automóvel.

No entanto, parece-me que não vale a pena bater no ceguinho. Tal como as coisas estão, raras são as pessoas que preferem andar de transporte público em vez de andar no seu próprio automóvel. E parece-me que se quisermos alterar o estado das coisas, só temos duas possibilidades: proibir os automóveis, oferecendo transportes públicos convencionais mas de qualidade superior; ou tentar compreender as razões que levam as pessoas a preferir o seu automóvel e tentar agir por aí.

O conceito do Personal Rapid Transit (http://en.wikipedia.org/wiki/Personal_rapid_transit) parece-me que dá uns bons passos nesse sentido. Infelizmente, e apesar de todos os benefícios que poderia trazer (imagine-se por exemplo as ruas das cidades transformadas em jardins!), implica um enorme investimento inicial, que ninguém parece disposto a suportar.

De uma forma ou de outra, há alternativas. Mas nós sempre lá vamos arranjando desculpas para justificar a manutenção do automóvel...

(Nota: a minha crítica aqui é mesmo sobre o conceito do automóvel em si, seja eléctrico ou não. Há imensos problemas com esse conceito e cito apenas um: todos aceitamos sem dificuldade que jogar futebol como o Cristiano Ronaldo não é para todos, mas parece que nos custa a aceitar que conduzir bem não é para todos. Aliás, conduzir bem é algo que nem mesmo os melhores condutores conseguem fazer em 100% das ocasiões. E num sistema tão elegantemente caótico, as distracções, mesmo as mais pequenas, podem pagar-se muito caro. Não devemos esquecer que o sistema rodoviário é uma das principais causas de morte e de invalidez nas nossas sociedades.)

Pinto de Sá disse...

Não podemos compara os transportes públicos que temos nas cidades caóticas que temos com o que seria possível se as coisas fossem planeadas e bem geridas.
Mas uma conjectura podemos fazer: se os europeus (e os japoneses...), mais ricos que nós e que não gostam menos de carros, usam em 50% o transporte público para as suas deslocões e nós só o usamos em 30%, alguma razão deve haver e não me parece que seja preciso grande investigação académica para saber porquê. O link que tenho no post "Aquecimento global e transportes" sobre "os centros urbanos desertificaram-se" creio que dá boa parte da resposta.